A Noite das Bruxas

Agatha Christie · Capítulo 8 de 30

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A Noite das Bruxas

Capítulo 7

 

A Sra. Reynolds era um verdadeiro contraste com a Sra. Drake. Nenhum ar de competência e sisudez; nem probabilidade de jamais haver. Vestia-se de preto, trazia um lenço úmido na mão e estava evidentemente pronta a se dissolver em lágrimas a qualquer momento. – É muita bondade de sua parte – disse à Sra. Oliver –, a de trazer seu amigo para nos ajudar. Estendeu a mão úmida para Poirot e o olhou com uma expressão de dúvida. – E se ele puder ajudar de qualquer maneira, serei muito grata, embora não veja o que se possa fazer. Nada a trará de volta, pobre criança. É horrível pensar nisso. Como é que se pode matar friamente uma criança daquela idade? Se ao menos pudesse ter gritado, embora eu suponha que ele tenha empurrado sua cabeça para dentro da água de uma vez e a tenha sustentado naquela posição. Oh, não aguento pensar nisso. Realmente, não aguento.

– Realmente, Madame, não quero afligi-la. Não pense nisso, por favor. Só gostaria de lhe fazer algumas perguntas que poderiam ajudar... ajudar, isto é, a descobrir o assassino de sua filha. Quero crer que a senhora mesma não faça nenhuma ideia de quem poderia ter sido, faz?

– Como poderia? Jamais poderia conceber que se tratasse de alguém, de alguém que morasse aqui. O lugar é muito bom, e o povo também. Acho que deve ter sido algum sujeito, um homem mau que teria entrado por uma das janelas. Talvez estivesse sob a ação de drogas, quem sabe? Vendo as luzes acesas, verificou que era uma festa e entrou sem ser convidado.

– A senhora tem certeza de que o assassino era do sexo masculino?

– Oh, deve ter sido. A Sra. Reynolds pareceu surpresa. – Estou certa de que foi – continuou.

– Não poderia ter sido uma mulher, poderia? – Poderia ter sido uma mulher muito forte.

– Bem, acho que compreendo o que o senhor quer dizer. O senhor quer dizer que as mulheres hoje em dia são mais atléticas e tudo o mais. Mas não fariam uma coisa dessas, estou certa. Joyce era apenas uma criança... com apenas 13 anos de idade.

– Não quero afligi-la permanecendo muito tempo aqui, Madame, ou lhe fazendo perguntas difíceis. Isso, estou certo, já está sendo feito pela polícia em algum lugar, e não quero contristá-la relembrando fatos penosos. Gostaria apenas de lhe fazer uma pergunta com relação a uma afirmação que sua filha fez na festa. Acho que a senhora não estava presente, estava?

– Não, não estava. Ultimamente não tenho me sentido muito bem, e as festas infantis são muito cansativas. Eu os levei de carro à casa da Sra. Drake e mais tarde fui apanhá-los. Levei os três juntos, Ann, a mais velha, que tem 16 anos, e Leopold, que já tem quase 11. O que foi que Joyce disse que o senhor gostaria de saber a respeito?

– A Sra. Oliver, que estava presente, lhe dirá exatamente quais foram as palavras de sua filha. Creio que ela disse que teria assistido a um assassinato.

– Joyce? Oh, ela não pode ter dito uma coisa dessa. Que crime poderia ela ter presenciado?

– Bem, todo mundo parece achar o fato bastante improvável disse Poirot. – Gostaria apenas de ouvir a sua opinião. Acha-o provável? Ela já lhe teria falado alguma vez sobre isso?

– De ter assistido a um assassinato? Joyce?

– Convém lembrar-se, Madame – disse Poirot –, que o termo assassinato poderia ter sido usado por alguém na idade de Joyce num sentido muito amplo. Poderia ter sido apenas o fato de alguém ser atropelado por um carro, ou talvez de crianças brigando e uma empurrar a outra para dentro de um rio ou de cima de uma ponte. Algo que não tivesse sido gravemente intencional mas que teria tido um resultado infeliz.

– Bem, não consigo lembrar de nada semelhante que tivesse acontecido aqui e a que Joyce pudesse ter assistido. Além disso, ela nunca me disse nada a respeito. Devia estar brincando.

– Ela foi muito categórica – disse a Sra. Oliver. – Continuou dizendo que era verdade e que realmente tinha visto.

– Alguém acreditou nela? – perguntou a Sra. Reynolds.

– Não sei – respondeu Poirot.

– Acho que não – disse a Sra. Oliver –, ou talvez não quisessem fazê-lo, bem, não quisessem encorajá-la dizendo que acreditavam.

– Pareciam dispostos a zombar dela e lhe dizer que estava com invencionice – disse Poirot, menos compassivo que a Sra. Oliver.

– Bem, isso não foi muito bonito da parte deles – observou a Sra. Reynolds. – Como se Joyce vivesse inventando essas coisas. A Sra. Reynolds ruborizou-se indignada.

– Compreendo. Parece improvável – disse Poirot. – Seria mais provável, não é, que ela pudesse ter se enganado, que pudesse ter visto algo que achava poder ser descrito como um crime. Algum acidente, talvez.

– Ela teria me dito alguma coisa a respeito, não teria? – disse a Sra. Reynolds, ainda indignada.

– É possível – assentiu Poirot. – Não lhe teria dito em tempo algum no passado? A senhora pode ter esquecido, sobretudo se não era realmente importante.

– Quando, na sua opinião?

– Não sabemos – respondeu Poirot. – Essa é uma das dificuldades. Poderia ter sido há três semanas, ou há três anos. Ela disse que na ocasião era muito "pequena". O que é que uma criança de 13 anos entende por muito pequena? Não aconteceu algo de sensacional por aqui de que a senhora possa lembrar?

– Oh, não creio. O senhor sabe, ouve-se falar de muitas coisas. Os jornais as publicam. Refiro-me a mulheres sendo atacadas, ou uma jovem ou um jovem, ou coisas semelhantes. Mas nada de importante de que me possa lembrar, nada que despertasse o interesse de Joyce ou coisa parecida.

– Mas se Joyce afirmou taxativamente que viu um crime, a senhora acha que realmente ela acreditava ter visto?

– Ela não diria, se não acreditasse no que estivesse dizendo, respondeu a Sra. Reynolds. – Acho realmente que deve ter misturado um pouco alguma coisa.

– É, é possível. Será que eu poderia falar com seus dois filhos, que estiveram na festa também? – perguntou Poirot.

– Nada tenho a opor, embora não saiba o que o senhor espera colher deles. Ann está fazendo seu dever de casa lá em cima, e Leopold está no jardim montando um avião de modelagem. Leopold era um garoto forte, de cara fechada, que parecia inteiramente absorto na montagem de seu avião. Só depois de alguns instantes, foi que se deu conta das perguntas que lhe estavam sendo feitas. – Você estava lá, não estava, Leopold? Você ouviu o que sua irmã disse. O que foi que ela disse?

– Ah, o senhor se refere ao assassinato? respondeu, aparentemente aborrecido.

– Sim, é a isso que me refiro – disse Poirot. Será que na realidade ela viu tal coisa?

– Não, é claro que não viu – disse Leopold. – Que crime ela teria visto? Joyce era assim.

– O que você quer dizer com isso: Joyce era assim?

– Exibida – explicou Leopold, enrolando um pedaço de fio e soprando pelo nariz enquanto se concentrava. – Ela era o tipo da garota boba, acrescentou. – Tinha o prazer de contar coisas, sabe, para atrair atenção e ser notada.

– Então você acha realmente que ela inventou tudo? Leopold desviou seu olhar para a Sra. Oliver. – Tenho a impressão de que ela queria impressionar a senhora – disse ele. – A senhora escreve livros policiais, não escreve? Acho que ela arranjou aquilo tudo para que a senhora reparasse nela mais do que das outras.

– E além disso ela se comprazia em dizer essas coisas, não é? perguntou Poirot.

– Oh, ela diria qualquer coisa – respondeu Leopold. – Aposto, porém, que ninguém acreditou nela.

– Você ouviu? Você acha que ninguém acreditou?

– Bem, eu a ouvi dizendo, mas na verdade não prestei muita atenção. Beatrice riu dela, e Cathie também. Disseram que era invencionice, ou coisa assim.

Não parecia haver muito mais a colher de Leopold. Subiram à procura de Ann que, aparentando ter mais de 16 anos, estava debruçada sobre uma mesa, com vários livros de estudo espalhados a seu redor. – Sim, estive na festa – disse ela.

– Você ouviu sua irmã dizer que tinha visto um assassinato?

– Sim, ouvi, mas não lhe dei atenção.

– Você achou que fosse verdade?

– É claro que não era. Há muito tempo que não se cometem crimes de morte por aqui. Creio que há anos que não acontece aqui um assassinato propriamente dito.

– Então, na sua opinião, por que ela o teria dito?

– Oh, ela gostava de exibição, quero dizer, tinha prazer de se mostrar. Uma vez, contou uma história maravilhosa de uma viagem que fizera à Índia. Meu tio fez uma viagem ao país, e ela fingia ter ido com ele. Muitas garotas na escola acreditaram piamente na história.

– Então você não se lembra de ter acontecido aqui nesses últimos três ou quatro anos qualquer coisa que se pudesse chamar assassinato?

– Não, só delitos comuns – respondeu Ann. – Isto é, aqueles de que falam os jornais diariamente. E, na realidade, não ocorreram aqui em Woodleigh Common. Na sua maioria, acontecem em Medchester.

– Quem você acha que matou sua irmã, Ann? Você deve ter conhecido os amigos dela, você devia saber quem não gostava dela.

– Não posso imaginar quem pudesse querer matá-la. O criminoso, a meu ver, só pode ser um louco.

– Não haveria alguém que tivesse discutido com ela ou que não se desse com sua irmã?

– O senhor quer dizer se ela tinha um inimigo? Acho isso uma tolice. Na realidade ninguém tem inimigos. Há apenas pessoas de quem não gostamos.

Quando Hercule Poirot e a Sra. Oliver saíam do quarto, Ann disse: – Não quero ser odiosa com relação a Joyce, porque está morta, e nem seria caridoso de minha parte, mas era uma mentirosa de marca maior. Os senhores compreendem, sinto dizer isso de minha irmã, mas é a pura verdade.

– Estamos fazendo algum progresso? – perguntou a Sra. Oliver a Poirot, quando deixavam a casa da mãe de Joyce.

– Nenhum, absolutamente nenhum – respondeu Poirot. – Isso é interessante – disse pensativo.

A Sra. Oliver parecia não estar de acordo com ele.