A Noite das Bruxas

Agatha Christie · Capítulo 15 de 30

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A Noite das Bruxas

Capítulo 14

 

Ao ser recebido na Casa das Macieiras, Hercule Poirot foi introduzido na sala de estar e informado de que a Sra. Drake não demoraria. Passando pelo corredor, ouvira um sussurro de vozes femininas por detrás do que lhe pareceu ser a porta da sala de jantar. Poirot aproximou-se da janela da sala de estar e se pôs a apreciar o jardim bem cuidado e aprazível. Bem planejado e meticulosamente controlado. Exuberantes margaridas de outono ainda sobreviviam, agarradas a galhos secos; os crisântemos não tinham ainda perdido sua vitalidade. Havia uma ou duas rosas obstinadas, indiferentes ao inverno que se aproximava. Poirot não podia, até então, discernir qualquer sinal das atividades preliminares de um jardineiro paisagista. Tudo era cuidado e convenção. Ele se perguntava se a Sra. Drake não teria sido lograda por Michael Garfield. Ele empregara todos os seus atrativos em vão. O jardim dava mostra de permanecer um jardim suburbano, esplendidamente bem tratado. A porta se abriu. – Lamento tê-lo feito esperar, Sr. Poirot – disse a Sra. Drake. Lá fora no corredor diminuía o vozerio de pessoas que se despediam e iam-se embora.

– É nossa festa de Natal da igreja – explicou a Sra. Drake. – Uma reunião da Comissão para os preparativos e tudo o mais. Essas reuniões são sempre mais prolongadas do que o necessário. Há sempre alguém que discorda de alguma coisa ou tem uma boa ideia – uma boa ideia que em geral acaba sendo impossível. Havia um pouco de aspereza no seu tom. Poirot bem podia imaginar que Rowena Drake encerraria logo o assunto como absurdo, de modo firme e definitivo. Ele compreendia bem, partindo das observações que ouvira da irmã de Spence, das entrelinhas em conversas com outras pessoas e de várias outras fontes, que Rowena Drake era aquele tipo de personalidade dominante que todos reconhecem e que, por agir assim, não atrai simpatias. Podia imaginar também que suas atitudes não deviam ter sido objeto de apreciação por parte de uma parenta idosa e que era também da mesma índole. A Sra. Llewellyn-Smythe, conforme ficara sabendo, viera morar em Woodleigh Common com o objetivo de viver mais perto de seu sobrinho e de sua esposa. Esta, por sua vez, assumiu imediatamente a supervisão e os cuidados da tia de seu marido, tanto quanto estivesse a seu alcance, uma vez que não residia com ela. A Sra. Llewellyn-Smythe, provavelmente, era bastante agradecida a Rowena, mas, ao mesmo tempo, não devia suportar aquilo que considerava como seus modos de mandona.

– Bem, agora já se foram todas – disse Rowena Drake, ao ouvir a última batida da porta do corredor que se fechava. – Em que lhe posso ser útil? Algo mais a respeito da triste festa? Antes eu nunca a tivesse feito aqui. Mas nenhuma outra casa parecia própria. A Sra. Oliver ainda está com Judith Butler?

– Sim, está. Acho que regressará a Londres dentro de um ou dois dias. Não a conhecia muito?

– Não. Gosto de seus livros.

– Ela é considerada uma boa escritora, disse Poirot.

– Oh, sim, é uma boa escritora, não há dúvida. E também uma pessoa muito divertida. Teria ela alguma ideia... quero dizer, sobre quem poderia ter feito aquela coisa horrível?

– Acho que não. E a senhora, Madame?

– Já lhe disse. Não tenho nenhuma, absolutamente nenhuma ideia.

– Talvez a senhora pense assim mas, não obstante, poderia, não é, ter talvez o que, no fim, equivale a uma boa ideia, apenas uma boa ideia. Uma ideia meio formada. Uma ideia possível.

– Por que o senhor diz isso? – perguntou a Sra. Drake, encarando-o com curiosidade.

– A senhora poderia ter visto alguma coisa, alguma coisa insignificante e sem importância, mas que, após reflexões, poder-lhe-ia parecer mais significativa, talvez, do que inicialmente.

– O senhor deve ter algo em mente, Sr. Poirot, algum incidente.

– Bem, admito-o, tendo em vista o que ouvi de alguém.

– É mesmo? Quem é esse alguém?

– A Srta. Whittaker. Uma professora.

– Oh, sim, naturalmente. Elizabeth Whittaker, a professora de matemática no Elms, não é? Estava na festa, lembro-me. Ela viu alguma coisa?

– A questão não é tanto ela ter visto alguma coisa, mas de ter tido a impressão de que a senhora poderia ter visto alguma coisa.

A Sra. Drake mostrou-se surpresa e sacudiu a cabeça. – Não posso imaginar nada que pudesse ter visto – disse. – Mas a gente nunca sabe.

– Tem algo a ver com um vaso – disse Poirot. Um vaso de flores.

– Um vaso de flores? – Rowena Drake parecia intrigada. Em seguida sua fisionomia desanuviou-se. – Oh, já sei, já sei. Havia um grande vaso de crisântemos e folhas de outono em cima da mesa no canto da escada. Um vaso muito bonito. Um de meus presentes de casamento. As folhas pareciam estar murchando, bem como uma ou duas flores. Lembro-me de ter notado isso ao passar pelo corredor... mais ou menos pelo fim da festa, acho, mas não estou certa... e me perguntei por que estariam assim. Subi, meti os dedos no vaso e verifiquei que algum idiota, ao arrumá-lo, esquecera de botar água. Fiquei aborrecida. Apanhei-o e o levei para o banheiro para botar água. Mas o que é que eu poderia ter visto no banheiro? Não havia ninguém ali. Disso estou absolutamente certa. Tive, sim, a impressão de que um desses casaizinhos andara fazendo por lá, durante a festa, o que os americanos chamam de "chamego". Mas não havia ninguém quando entrei com o vaso de flores.

– Não, não me refiro a nada disso – insistiu Poirot. – Segundo me foi dito, houve um pequeno acidente. O vaso teria escorregado de suas mãos e caído lá embaixo no corredor, espatifando-se.

– Oh, sim – disse Rowena. – Partiu-se em pedaços. Fiquei um tanto chocada com isso porque, como já disse, fora um de meus presentes de casamento. Era, realmente, um lindo jarro de flores, bastante pesado para aguentar grandes buquês de outono. Foi falta de cuidado de minha parte. Coisas que acontecem. Meus dedos escorregaram. O vaso caiu de minhas mãos e se espatifou lá embaixo. Elizabeth Whittaker estava lá. Ela me ajudou a juntar os cacos e varrer fragmentos de vidro quebrado para evitar que pisassem neles. Apenas os juntamos num canto perto do relógio do vovô, para limpar mais tarde. Olhou inquiridoramente para Poirot. – É o acidente a que o senhor se refere?

– Sim – respondeu Poirot. – A professora Whittaker não pôde explicar por que a senhora deixou cair o vaso. Ela teve a impressão de que algo a teria assustado.

– Assustado? A mim? Rowena Drake olhou para ele e, em seguida, franziu as sobrancelhas como se tentando refletir de novo. – Não, não me lembro de modo algum de ter ficado assustada. Foi apenas o choque que a gente experimenta quando um objeto cai de nossas mãos. Realmente, acho que foi consequência do cansaço. Eu estava exausta naquele dia, com os preparativos da festa, com a direção da festa e tudo o mais. Tudo corria muito bem. Acho que sim. Só um pequeno acidente que não se pode evitar quando estamos cansados.

– A senhora está certa de que não houve nada, nada que a assustasse? Algo de inesperado que tivesse visto?

– Visto? Onde? Lá embaixo no corredor? Não vi nada ali. Naquele momento estava vazio, pois todo mundo se encontrava na boca do dragão, com exceção, é claro, da Srta. Whittaker. Não acho mesmo que a tivesse notado antes que viesse me ajudar, quando desci.

– A senhora não teria visto alguém, digamos, saindo pela porta da biblioteca?

– Pela porta da biblioteca... Compreendo o que o senhor quer dizer. Sim, eu poderia ter visto isso – fez uma longa pausa, em seguida encarou Poirot com um olhar firme. – Não vi ninguém sair da biblioteca – disse ela. – Ninguém...

Poirot refletia. A maneira como a Sra. Drake afirmara dava a impressão de que não estava falando a verdade; ela teria visto alguém ou alguma coisa, talvez a porta se abrindo lentamente; poderia ter vislumbrado a silhueta de alguém lá dentro. Mas ela foi muito categórica ao negá-lo. "Mas, por que fora tão categórica?" perguntava-se Poirot. "Porque quem ela viu seria uma pessoa que, nem por um instante, quis acreditar ter algo a ver com o crime cometido do outro lado da porta? Alguém por quem se interessasse ou, o mais provável, alguém que quisesse proteger? Alguém que talvez não estivesse muito longe da idade infantil, alguém que, segundo ela, não estaria plenamente consciente da gravidade do crime cometido." Poirot tinha a Sra. Drake na conta de uma mulher dura, mas íntegra. Ele a imaginava, como muitas mulheres do mesmo tipo, mulheres que muitas vezes eram juízas ou que dirigiam conselhos ou associações de caridade ou que se envolviam no que se costumava chamar de "boas obras". Mulheres que se apegam desordenadamente a circunstâncias atenuantes, que estão dispostas, por mais estranho que pareça, a desculpar, especialmente, o criminoso adolescente. Um rapaz ou uma menina com problemas mentais. Alguém que talvez já tenha estado, dir-se-ia, sob cuidados. "Se esse era o tipo de pessoa que a Sra. Drake vira saindo da biblioteca, então", pensava ele, "é possível que seu instinto de proteção tenha entrado logo em ação"

Não era coisa rara nos dias atuais ver meninos cometerem crimes, crianças mesmo. Crianças de sete, de nove anos e assim por diante. Era difícil saber como tratar esses pequenos delinquentes nos tribunais de menores. Toda sorte de desculpas se encontra para eles. Lares desfeitos. Pais negligentes ou desajustados. Mas as pessoas que falam por eles com maior veemência e que procuram de toda maneira inocentá-los são do tipo de Rowena Drake: uma mulher austera e reprovadora, exceto nesses casos. Já Poirot não concordava com isso. Era um homem que punha a justiça em primeiro lugar. Desconfiava, sempre tinha desconfiado da compaixão; isto é, da compaixão em excesso. Tinha aprendido com sua experiência, tanto na Bélgica quanto nesse país, que compaixão demais resulta, muitas vezes, em novos crimes; fatais para vítimas inocentes, que não teriam sido vítimas se a justiça tivesse vindo em primeiro lugar e a compaixão, em segundo.

– Compreendo, compreendo – disse Poirot.

– O senhor não acha possível que a Srta. Whittaker pudesse ter visto algum estranho entrando na biblioteca? – sugeriu a Sra. Drake. Poirot mostrou-se interessado.

– A senhora acha que isso poderia ter acontecido?

– Estou apenas levantando uma hipótese. Ela poderia ter visto alguém entrando na biblioteca, digamos, talvez mais ou menos cinco minutos antes e, então, quando deixei cair o vaso, é possível que lhe tivesse ocorrido a ideia de que eu teria vislumbrado a mesma pessoa. Que eu poderia ter visto quem era. Talvez não queira dizer coisa alguma, quem sabe, injustamente, que pudesse sugerir alguma pessoa cuja silhueta apenas divisara, sem ter a certeza de sua identidade. Teria visto alguma criança ou algum rapaz, mas de costas.

– A senhora acha, Madame, que foi, digamos, uma criança, não foi? Um menino ou uma menina, uma simples criança, ou um adolescente. Acha que não seria nenhum tipo definido desses, mas, digamos, a senhora acha que teria sido o tipo mais provável de cometer o crime que estamos discutindo? Ela ficou pensativa, ponderando a resposta.

– Sim – disse, finalmente –, acho que sim. Não cheguei a uma conclusão. Tenho a impressão de que, hoje em dia, os crimes estão muitas vezes relacionados com os jovens. Na realidade não sabem exatamente o que estão fazendo. Procuram vinganças absurdas. Têm um instinto de destruição. Até aqueles que quebram cabines telefônicas, que esvaziam pneus de carro, que fazem toda sorte de coisas só para prejudicar os outros, só porque têm raiva não de alguém em particular, mas de todo o mundo. É uma espécie de sintonia de uma época. Por isso é que acho, diante de um caso como este, de uma criança afogada durante uma festa, que se trata de alguém que não é ainda plenamente responsável por seus atos. O senhor não concorda comigo nesse ponto, isto é, que no caso é o que há de mais provável?

– A polícia, a meu ver, compartilha do seu ponto de vista, ou compartilhava.

– Bem, eles devem saber. Temos muito bons policiais nesta cidade. Eles têm se saído bem na apuração de muitos crimes. São muito esforçados e nunca desistem. Acho que acabarão apurando esse crime, embora não acredite que seja logo. Essas coisas costumam levar tempo. Muito tempo de paciente coleta de provas.

– As provas neste caso, Madame, não serão muito fáceis de ser encontradas.

– Realmente, acho que não. Quando meu marido foi morto... Ele era aleijado, o senhor sabe. Estava atravessando a rua e foi atropelado por um carro. Nunca se descobriu o responsável. Como o senhor sabe, ou talvez não saiba, meu marido foi vítima da pólio. Ficou, em consequência disso, parcialmente paralítico, há seis anos. Seu estado geral tinha melhorado, mas estava ainda paralítico e lhe seria difícil sair do caminho se um carro viesse em grande velocidade. Chego a pensar que sou digna de censura, embora ele sempre insistisse em sair sozinho, sem qualquer acompanhante, pois se sentiria como que humilhado se tivesse de viver sob os cuidados de uma enfermeira, ou de uma esposa que fizesse as vezes dela e tinha muito cuidado ao atravessar as ruas. Mas, ainda assim, a gente sempre se censura depois que ocorrem os acidentes.

– Isso aconteceu depois da morte de sua tia?

– Não. Ela morreu pouco tempo depois. Tudo parece vir de uma vez, não é?

– É verdade. A polícia não conseguiu identificar o carro que atropelou seu marido?

– Era um Grasshoper Mark 7, creio. Em cada três carros que rodam por aí um é ou era Grasshoper Mark 7. Dizem que é o carro mais popular. Acham que eles o roubaram na praça do Mercado de Medchester. Há um estacionamento ali. Pertencia a um Sr. Watherhouse, que era um motorista calmo e cuidadoso. Certamente não foi ele o causador do acidente. Foi com certeza um desses casos em que jovens irresponsáveis dirigem carros. Há momentos em que a gente pensa que esses jovens descuidados e, diria mesmo, desumanos deveriam ser tratados com mais severidade.

– Uma longa pena de prisão, talvez. Simplesmente ser multado e ter a multa paga por parentes indulgentes não faz muito efeito.

– É preciso lembrar – disse Rowena Drake, que esses jovens estão numa idade em que é vital a continuidade de seus estudos, se é que querem ser alguma coisa na vida.

– A vaca sagrada da educação – disse Hercule Poirot. – Eis a frase que ouço sempre, proferida por pessoas... bem, diria, por pessoas que devem saber. Pessoas que detêm postos acadêmicos de certa importância.

– Eles talvez não sejam bastante tolerantes com a juventude, com uma má educação. Lares desfeitos.

– Então a senhora acha que precisam de alguma coisa mais, além de sentenças de prisão?

– Um tratamento corretivo apropriado, disse Rowena Drake, categórica.

– E isso fará – (outro provérbio antigo) – "de uma orelha de porca uma bolsa de seda"? A senhora não acredita na máxima: "o destino de cada homem vem pendurado em seu pescoço"? A Sra. Drake ficou em dúvida e ligeiramente irritada.

– Um ditado islamita – disse Poirot. A Sra. Drake não pareceu impressionada.

– Espero – disse ela – que não tenhamos de buscar nossas ideias, diria mesmo, nossos ideais no Oriente.

– É preciso aceitar os fatos – ponderou Poirot –, e um fato, apontado por biólogos modernos, biólogos ocidentais – apressou-se a acrescentar –, parece sugerir que a raiz das ações de uma pessoa está na sua estrutura genética. Que um assassino de 24 anos era um assassino potencial aos dois, três ou quatro anos de idade. Ou, naturalmente, um gênio da matemática ou da música.

– Não estamos discutindo crimes – disse a Sra. Drake. – Meu marido morreu em consequência de um acidente. Um acidente provocado por alguma personalidade descuidada ou mal ajustada. Seja rapaz ou homem, há sempre a esperança de um reajustamento final, com uma crença e aceitação de que é um dever ter consideração para com os outros, aprender a sentir repugnância por tirar inadvertidamente a vida de alguém, simplesmente por causa daquilo que se pode chamar de descuido criminoso, embora não seja criminoso na intenção.

– A senhora está certa de que não houve intento criminoso?

– Duvidaria muito. A Sra. Drake parecia um pouco surpresa. – Não creio que a polícia tenha considerado seriamente essa possibilidade. Eu, pelo menos, não. Foi um acidente. Um acidente muito trágico que alterou o sistema de vida de muita gente, inclusive da minha.

– A senhora disse que não estamos discutindo crimes – disse Poirot. – Mas no caso de Joyce é exatamente disso que estamos falando. No caso dela não houve acidente. Mãos deliberadas empurraram sua cabeça para dentro da água, segurando-a até que morresse. Crime intencional.

– Eu sei. Eu sei. É terrível. Não gosto de pensar nisso, de me lembrar disso. A Sra. Drake levantou-se, e caminhou irrequieta. Poirot continuou implacável.

– Ainda temos uma alternativa. Precisamos descobrir o motivo do crime.

– Parece-me que esse é o tipo do crime sem motivo. – A senhora quer dizer que teria sido um assassinato cometido por alguém mentalmente perturbado a ponto de gostar de matar por matar? Presumivelmente, de matar jovens e pessoas imaturas? – Ouvem-se casos dessa espécie. A causa original é difícil descobrir. Até os psiquiatras não estão de acordo.

– A senhora se recusa a aceitar uma explicação mais simples? Ela o olhou intrigada. – Mais simples?

– Alguém não mentalmente perturbado, um caso que não se prestasse a discussões de psiquiatras. Alguém, talvez, que quisesse apenas se salvar.

– Salvar-se? Oh, o senhor quer dizer...

– Joyce se vangloriou naquele dia, algumas horas antes, de ter visto alguém cometendo um crime.

– Joyce – disse a Sra. Drake, com serenidade e segurança – era realmente uma menina muito tola. Infelizmente, nunca falava a verdade.

– Todo mundo diz isso – afirmou Hercule Poirot. – A senhora sabe, estou começando a acreditar no que todos vêm me dizendo – acrescentou com um suspiro. – É sempre assim. Hercule Poirot pôs-se de pé, adotando uma maneira diferente. – Queira desculpar-me, Madame. Tenho-lhe falado de coisas dolorosas, coisas que não me interessam propriamente. Mas a julgar pelo que a Srta. Whittaker me disse...

– Por que o senhor não procura mais informações com ela?

– A senhora quer dizer...?

– Ela é professora. Sabe, muito melhor do que eu, que potencialidades (como o senhor as chamou) existem entre seus alunos. Fez uma pausa e acrescentou: – A Srta. Emlyn também.

– A diretora? – perguntou Poirot um tanto surpreso.

– Sim. Ela sabe muita coisa. Quero dizer, é uma psicóloga nata. O senhor diz que eu poderia ter ideias, ideias meio formadas, quanto a quem teria matado Joyce. E não tenho, mas acho que a Srta. Emlyn poderia ter.

– Isso é interessante... – Não quero dizer com isso que ela tenha provas, mas apenas que sabe. Ela poderia contar, mas não creio que o queira.

– Começo a compreender – disse Poirot – que tenho ainda um longo caminho a percorrer. As pessoas sabem das coisas mas não querem me contar. Olhou pensativo para Rowena Drake. – Sua tia, a Sra. Llewellyn-Smythe, tinha uma acompanhante estrangeira que cuidava dela.

– Parece que o senhor está a par de todos os fatos daqui – disse a Sra. Drake secamente. – Sim, é verdade. Ela sumiu daqui de repente logo depois da morte de minha tia.

– Por bons motivos, ao que parece.

– Não sei se é difamação ou calúnia dizê-lo, mas tudo indica que teria forjado um codicilo no testamento de minha tia, ou alguém a teria ajudado a fazê-lo.

– Alguém?

– Ela se dava muito com um moço que trabalhava num escritório de advocacia em Medchester e que estivera envolvido anteriormente num caso de falsificação. O caso nunca foi levado a juízo porque a moça desapareceu. Chegou-se à conclusão de que o testamento era falso.

– Segundo consta, também ela veio de um lar desfeito – disse Poirot. Rowena Drake olhou para ele num gesto brusco. Poirot sorria amavelmente. – Obrigado, Madame, por tudo o que me contou. Saindo da casa de Rowena Drake, Poirot fez uma pequena caminhada ao longo da importante avenida que trazia o nome de Cemetery Helpsly. O cemitério em questão não estava muito longe dali. No máximo dez minutos de caminhada. Evidentemente, era um cemitério construído nos últimos dez anos, presumivelmente para acompanhar a crescente importância de Woodleigh como cidade. A igreja, de dimensões razoáveis, que datava de dois ou três séculos, tivera um pequeno cemitério ao redor dela, mas já estava lotado. Assim, o novo surgira com uma trilha que o ligava a dois campos. "Era", pensava Poirot, "um cemitério moderno, comercial, com pensamentos apropriados gravados em mármore ou lajes de granito." Havia jarras e pequenos canteiros de arbustos ou de flores. Nada de epitáfios ou inscrições singulares. Nada de antiguidades. Limpo, asseado, ordenado e com pensamentos adequados.

Hercule Poirot parou para ler uma lápide levantada sobre um túmulo recente, como muitos ao redor, que datavam de um ou dois anos. Trazia uma inscrição simples. "Dedicado à memória de Hugo Edmund Drake, amado esposo de Rowena Arabella Drake, que partiu desta vida no dia 20 de março de 19..." Descanse em paz. Ocorreu a Poirot, ainda sob o impacto da dinâmica Rowena Drake, que talvez o Sr. Drake tivesse recebido aquele "descanso" como um alívio. Uma urna de alabastro tinha sido fixada ali e continha ainda um resto de flores.

Um jardineiro idoso, certamente empregado para zelar as sepulturas de bons cidadãos que partiram desta vida, aproximou-se de Poirot na agradável esperança de alguns minutos de prosa, enquanto descansava sua enxada e sua vassoura. – O senhor é de fora, não é, Sir? – perguntou.

– Sim – respondeu Poirot. – Sou de fora, como de fora eram meus pais antes de mim.

– Ah, sim, o senhor leu esse texto em alguma parte ou algo muito semelhante a isso, lá no outro lado e continuou: – O Sr. Drake era muito gentil. Paralítico, sabe. Sofria de paralisia infantil, como chamam essa doença, embora nem sempre só as crianças a tenham. Os adultos, também. Homens e mulheres. Minha esposa teve uma tia que apanhou essa doença na Espanha. Foram fazer um passeio por lá e andaram se banhando em algum rio. E depois disseram que tinha sido infecção da água, mas não acho que tivesse sido isso. Os médicos não sabem. Apesar disso, há muita diferença, hoje em dia, com as vacinas que aplicam nas crianças. Não há mais tantos casos como havia antigamente. Sim, ele era um sujeito decente e não se queixava, embora devesse achar horrível. Tinha sido um grande desportista no seu tempo. Acostumado a jogar conosco no time da cidade. Sim, era um homem muito distinto.

– Morreu num acidente, não foi?

– Exato. Atravessando uma rua, já escurecendo. Um desses carros, dirigido por um desses jovens delinquentes, com o cabelo até as orelhas. É o que dizem. Nem pararam. Continuaram na disparada, sem olhar para trás. Abandonaram o carro num estacionamento a trinta quilômetros de distância, Ah, é terrível. Quase todos os dias dão-se acidentes dessa natureza. E a polícia muitas vezes não pode fazer nada. Sua esposa lhe era muito dedicada. Coitada, como sentiu sua morte. Ela vem aqui quase todas as semanas, traz flores e as deposita aí. Era um casal muito unido. A meu ver, não vai ficar por aqui muito tempo.

– O senhor acha? Mas ela tem uma casa muito bonita aqui.

– Oh, sim. E faz muito pelo lugar, sabe. Toda espécie de coisas: associações femininas, chás e várias sociedades. Dirige muitas coisas. É mandona, sabe, mandona e intrometida, como dizem alguns. O pároco confia nela. Tem iniciativa. As atividades femininas e tudo o mais. Organiza excursões e passeios. Ah, sim. Às vezes penso comigo mesmo, embora não queria dizer isso à minha esposa, que todas essas boas obras que essas donas de sociedade fazem não nos tornam mais amigos delas. Elas sempre sabem tudo. Estão sempre nos dizendo o que devemos fazer e o que não devemos fazer. Nenhuma liberdade. Não há muita liberdade em nossos dias.

– Então o senhor acha que a Sra. Drake vai embora daqui?

– Eu me admiraria se não fosse embora, se não fosse morar no estrangeiro. Eles gostavam muito de viajar pelo exterior, costumavam passar as férias viajando por lá.

– Por que o senhor acha que ela quer ir embora? Um sorriso maroto se estampou de repente no rosto do velho.

– Bem, eu diria, sabe, que ela faz o que quer aqui. No que diz respeito às Escrituras, ela precisa de outra vinha para trabalhar. Precisa de mais boas obras. Não há mais coisa para fazer aqui. Ela já fez tudo e muito mais do que era necessário, como pensam alguns.

– Ela precisa de um novo campo de trabalho? – sugeriu Poirot.

– O senhor acertou em cheio. É melhor estabelecer-se em algum outro lugar onde possa consertar muita coisa e intimidar outras pessoas. Ela faz o que quer de nós, e não há muito mais para fazer aqui.

– Pode ser – disse Poirot.

– Não tem mais um marido para cuidar. Cuidou dele durante muito tempo. Isso lhe dava uma espécie de objetivo na vida, como o senhor diria. Com isso e com muitas outras atividades fora, podia ocupar-se o tempo todo. É o tipo de pessoa que não gosta de ficar parada. Não teve filhos, é pena. Portanto, na minha opinião, vai começar tudo de novo em algum lugar por aí.

– O senhor tem uma certa razão. Para onde iria?

– Quanto a isso, não sei. Para um desses lugares da Riviera, quem sabe? Ou para a Espanha ou Portugal. Ou para a Grécia. Eu a ouvi falar da Grécia. Ilhas. A Sra. Butler esteve na Grécia, numa dessas excursões. "Excursões helênicas", como elas chamam, o que para mim soa mais como fogo e enxofre. Poirot sorriu. – As ilhas da Grécia – murmurou. – O senhor gosta dela?

– De quem? Da Sra. Drake? Eu não diria exatamente que gosto dela. É uma boa senhora. Cumpre com o seu dever para com o próximo e é tudo. Mas ela precisará sempre dominar as comunidades para cumprir com o seu dever. E, na realidade, se o senhor quer minha opinião, ninguém gosta das pessoas que estão sempre cumprindo com o seu dever. Vem me dizer como devo podar minhas roseiras, coisa que estou cansado de saber. Está sempre em cima de mim para plantar uma nova espécie de verdura. Repolho me faz muito bem e sou louco por repolho.

Poirot sorriu. – Preciso ir andando – disse. – O senhor pode me informar onde moram Nicholas Ranson e Desmond Holland?

– Depois da igreja, a terceira casa à esquerda. São hóspedes da Sra. Brand e passam o dia todo na Escola Técnica de Medchester. A esta hora devem estar em casa. E lançou um olhar significativo para Poirot. – Quer dizer que sua mente está trabalhando, não é? Há gente que pensa a mesma coisa.

– Não, eu não estou pensando nada ainda. Eles apenas estavam entre os presentes, é tudo.

Já a caminho, Poirot refletia: "Entre os presentes... já estou quase chegando ao fim de minha lista."