A Noite das Bruxas

Agatha Christie · Capítulo 23 de 30

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A Noite das Bruxas

Capítulo 22

 

Não era muito próprio de Hercule Poirot pedir a opinião dos outros. Em geral se satisfazia com as suas próprias opiniões. Não obstante, de vez em quando abria exceções. Desta vez era uma delas. Ele e Spence conversaram brevemente e, em seguida, Poirot entrou em contato com um serviço de aluguel de carro e, depois de mais uma breve conversa com seu amigo e com o inspetor Raglan, partiu. Acertara com o carro para conduzi-lo de volta a Londres, mas fez uma parada no caminho. Dirigiu-se ao Elms. Disse ao motorista do carro que não se demoraria – uns 15 minutos, no máximo – e, em seguida, pediu para falar com a Srta. Emlyn. – Sinto muito incomodá-la a esta hora. Não há dúvida de que deve ser a hora de seu jantar. – Bem, estou certa, Monsieur Poirot, de que o senhor não me incomodaria nem na hora do jantar nem em qualquer hora se não tivesse uma razão válida para o fazer.

– É muita bondade de sua parte, Para ser franco, preciso de seu conselho.

– Conselho? A Srta. Emlyn mostrou-se um tanto surpresa. Mais do que surpresa, um tanto cética mesmo. – Isso não é muito próprio do senhor, Monsieur Poirot. Não está em geral sempre satisfeito com suas próprias opiniões?

– Sim, estou satisfeito com minhas opiniões, mas seria para mim conforto e apoio se a opinião de alguém que eu respeitasse concordasse com as minhas.

A Srta. Emlyn não disse nada. Olhou-o apenas com uma expressão inquiridora.

– Eu sei quem matou Joyce Reynolds – disse ele. – E estou certo de que a senhora também sabe.

– Eu não disse isso – observou a Srta. Emlyn. – Sim, a senhorita não disse. E isso me leva a crer que se trata apenas de uma opinião.

– Uma intuição? – perguntou a Srta. Emlyn, num tom mais frio do que nunca.

– Eu preferiria não usar essa palavra. Preferiria dizer que a senhorita teria uma opinião formada.

– Está bem. Admito que tenho uma opinião formada, o que não significa que deva expressá-la.

– O que gostaria de fazer, Mademoiselle, é escrever quatro palavras num pedaço de papel. Depois a senhorita me diria se concorda com elas. A Srta. Emlyn levantou-se, atravessou a sala na direção de sua mesa, apanhou um pedaço de papel e se dirigiu a Poirot. – O senhor me excita a curiosidade – disse ela. – Quatro palavras. Poirot tirou a caneta do bolso. Escreveu no papel, dobrou-o e o passou à Srta. Emlyn. Ela o recebeu, abriu-o e o segurou na mão, lendo-o.

– De acordo? – perguntou Poirot. – Quanto a duas das palavras, concordo, sim. Quanto às outras, acho mais difícil. Não tenho prova e, na realidade, a ideia não me entra na cabeça.

– Mas, no caso das duas primeiras palavras, a senhorita teria uma prova definida?

– Acho que sim.

– A água – disse Poirot, pensativo. – Logo que a senhorita soube disso, ficou sabendo. Logo que eu soube disso, fiquei sabendo. A senhorita está certa, e eu também. E agora – continuou Poirot –, um menino foi afogado num riacho. Já soube disso?

– Sim. Uma pessoa me telefonou dizendo. O irmão de Joyce. Como se envolveu nisso?

– Ele queria dinheiro – disse Poirot. – Ele sabia. De modo que, na primeira oportunidade, foi afogado num riacho.

Sua voz não se alterou. Seu tom, porém, era bastante áspero. – A pessoa que me contou – disse ele – estava cheia de compaixão. Emocionalmente agitada. Mas eu não sou assim. Ele era uma criança, o segundo filho perdido, mas sua morte não foi um acidente. Foi, como muitas coisas da vida, o resultado de suas ações. Queria dinheiro e correu os riscos. Era bastante inteligente, bastante sagaz para compreender que estava correndo risco, mas queria dinheiro. Tinha dez anos de idade, mas causa e efeito são a mesma coisa nessa idade como seriam aos trinta, cinquenta ou noventa anos. A senhorita sabe bem o que penso primeiramente em casos como esses?

– Acho que sei – respondeu a Srta. Emlyn. – O senhor se preocupa mais com a justiça do que com a compaixão.

– A compaixão da minha parte em nada ajudaria Leopold. Ele já não pode ser mais ajudado. A justiça, se conseguirmos a justiça, a senhorita e eu, pois acho que pensa da mesma maneira que eu, a justiça, pode-se dizer, não ajudará a Leopold tampouco. Mas poderia ajudar algum outro Leopold, poderia ajudar a salvar alguma outra criança, se a conseguirmos o mais cedo possível. O negócio não é simples. Um assassino que matou mais de uma vez, para quem o crime se tornou um meio de segurança. Estou indo a Londres onde me encontrarei com certas pessoas para discutirmos a maneira de atacar. Espero convertê-las ao meu ponto de vista neste caso.

– O senhor vai ter dificuldade – disse Emlyn.

– Não. Acho que não. Os caminhos e meios para chegar lá podem ser difíceis, mas acho que posso convertê-las à minha versão sobre o que aconteceu. Elas têm inteligência para compreender a mente criminosa. Só há ainda uma coisa que gostaria de lhe perguntar. Preciso de sua opinião. Só sua opinião dessa vez, não provas. Sua opinião sobre o caráter de Nicholas Ranson e Desmond Holland. Acha que posso confiar neles?

– Eu diria que ambos são inteiramente dignos de confiança. É minha opinião. São, sob vários aspectos, uns loucos, mas isso apenas com relação às frivolidades da vida. Fundamentalmente, são sadios. Sadios como uma maçã sem larvas.

– Voltamos sempre às maçãs – disse Hercule Poirot com uma expressão de tristeza. – Preciso ir. O carro está esperando. Tenho ainda uma visita a fazer.