A Noite das Bruxas

Agatha Christie · Capítulo 14 de 30

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A Noite das Bruxas

Capítulo 13

 

Quando Hercule Poirot se despediu e saiu, Jeremy Fullerton ficou sentado diante de sua mesa, a tamborilar levemente com a ponta de seus dedos. Seu olhar, entretanto, estava longe dali. Mr. Fullerton estava absorto em seus pensamentos. Apanhou um documento que estava à sua frente e baixou a vista, mas não o leu. A campainha discreta do telefone interno soou, e ele pegou o fone do aparelho. – Sim, Srta. Miles? – O Sr. Holden está aqui. – Sim. Sua hora marcada, creio, já foi há cerca de 45 minutos. Ele explicou por que chegou tão tarde?... Sim, sim. Compreendo. Quase a mesma desculpa que deu da outra vez. Diga-lhe que recebi outro cliente e agora estou muito sem tempo. Marque um novo horário para ele na próxima semana, está bem? Não podemos deixar isso continuar. – Está bem, Mr. Fullerton. Ele recolocou o fone no lugar e pôs-se a olhar pensativo para o documento.

Ainda não o estava lendo. Sua imaginação divagava pelo passado. Há dois anos – há quase dois anos – e aquele homenzinho esquisito, com aqueles sapatos envernizados e bigodes compridos, vinha trazer de novo o assunto à baila naquela manhã, fazendo-lhe aquelas perguntas. Agora estava repassando em sua mente uma conversa que tivera há dois anos. Via de novo, sentada numa cadeira diante dele, uma jovem, de estatura baixa, atarracada – morena, lábios vermelho-escuros, ossos malares consistentes – e o ardor de dois olhos azuis que o fitavam sob sobrancelhas hirsutas e pesadas. Uma fisionomia irascível, um rosto cheio de vitalidade, uma face que conhecera o sofrimento – talvez conhecera sempre o sofrimento – mas nunca aprendera a suportá-lo. A espécie de mulher que lutaria e protestaria até o fim. "Onde estaria ela agora?" perguntava-se. "De uma maneira ou de outra ela tinha conseguido o seu intento – o que teria conseguido exatamente? Quem a teria ajudado? Alguém a teria ajudado? Sim, alguém deve tê-la ajudado."

"Ela voltou", pensava ele, "para alguma região tumultuada da Europa Central, de onde viera, à qual pertencia, para onde tivera de voltar, uma vez que não lhe restava outro caminho a tomar, a menos que quisesse perder a liberdade". Jeremy Fullerton era um defensor da lei. Acreditava na lei, sentia desprezo por muitos dos juízes de hoje, com suas sentenças fracas, com sua aceitação de necessidades acadêmicas. Os estudantes que roubam livros, as jovens esposas que despojam os supermercados, as moças que surrupiam dinheiro de seus empregadores, os rapazes que danificam cabines telefônicas, nenhum deles age por real necessidade, nenhum deles estava desesperado, a maioria deles não conhecera outra coisa que não fosse a superindulgência na educação e uma crença profunda de que tudo que não lhes fosse dado comprar era deles, podiam apanhar. Não obstante, apesar de sua fé intrínseca na administração da lei justa, Mr. Fullerton era um homem compassivo. Era capaz de ter pena das pessoas. Podia ter pena e de fato teve pena de Olga Seminoff, embora se mostrasse insensível aos seus exaltados argumentos a favor de si própria. – Eu vim pedir sua ajuda. Pensei que o senhor pudesse me ajudar. O senhor foi muito bom no ano passado. Arranjou tudo para que eu pudesse permanecer mais um ano na Inglaterra. Então eles me disseram: "A senhora não é obrigada a responder a nenhuma pergunta, se não quiser. Pode-se fazer representar por um advogado." Por isso, vim procurá-lo.

– As circunstâncias que a senhora acaba de citar, e Mr. Fullerton se lembrava de como dissera isso seca e friamente, tanto mais seca e friamente por causa da compaixão que estava por trás daquela declaração – não se aplicam. No caso atual não tenho liberdade para agir em seu nome legalmente. Já estou representando a família Drake. Como a senhora sabe, eu já era o procurador da Sra. Llewellyn-Smythe.

– Mas ela morreu. Ela não precisa de procurador depois de morta.

– A Sra. Smythe gostava muito de você – disse Mr. Fullerton.

– Sim, ela gostava de mim. É o que estou dizendo. Foi por isso que quis me legar sua fortuna.

– Toda a fortuna?

– E por que não? Ela não gostava dos parentes.

– A senhora está enganada. Sua patroa gostava muito da sobrinha e do sobrinho.

– Bem, ela poderia gostar do Sr. Drake, mas não da Sra. Drake. Achava-a muito antipática. A Sra. Drake se metia muito na sua vida. Não queria deixar a Sra. Llewellyn-Smythe fazer o que quisesse. Não a deixava comer o que lhe apetecesse.

– É uma senhora muito conscienciosa e tentava fazer com que sua tia obedecesse às recomendações do médico com referência à dieta e não se exercitasse muito, e muitas outras coisas.

– As pessoas nem sempre gostam de obedecer a prescrições médicas. Não querem ser molestadas pelos parentes. Querem viver sua vida como lhes parece melhor e fazer o que querem e ter o que desejam. Ela tinha muito dinheiro. Podia ter o que quisesse! Podia ter tanto quanto quisesse de tudo. Era rica, rica, rica e podia fazer o que quisesse com o seu dinheiro. O Sr. Drake e sua mulher já têm bastante dinheiro. Têm uma linda casa, roupas e dois carros. Estão muito bem. Por que querem mais dinheiro?

– Eram os seus únicos parentes vivos.

– Ela queria que eu ficasse com o dinheiro dela. Tinha pena de mim. Sabia tudo por que eu tinha passado. Ela sabia a história de meu pai, preso pela polícia. Levaram-no. Nunca mais o tornamos a ver, minha mãe e eu. E depois sobre minha mãe, como ela morreu. Toda a minha família desapareceu. É terrível o que tenho suportado. O senhor não sabe o que é viver num estado policial, como eu vivi. Não, não. O senhor é do lado da polícia. O senhor não está do meu lado.

– Não – disse Mr. Fullerton –, eu não estou de seu lado. Lamento muito o que lhe tem acontecido, mas essa dificuldade você mesma criou.

– Não é verdade. Não é verdade que eu tenha feito o que não devia fazer. O que é que eu fiz? Eu era boa para ela, eu era gentil para ela. Eu lhe trazia um bocado de coisas que ela, pelas recomendações médicas, não poderia comer. Chocolate e manteiga. Nada, senão gorduras vegetais. Ela não gostava de gorduras vegetais. Queria manteiga, muita manteiga.

– Não é exatamente uma questão de manteiga – disse Mr. Fullerton.

– Eu cuidava dela, era boa para ela! E por isso me era grata. E, então, quando morreu e fiquei sabendo que por sua bondade e afeição deixara um documento assinado, legando-me toda sua fortuna, os Drake vêm e dizem que eu não a receberei. Dizem toda sorte de coisas. Que eu exercia má influência. E dizem ainda coisas piores. Muito piores. Dizem que eu mesma escrevi o testamento. Isso é um contrassenso. Ela o escreveu. E depois mandou que eu saísse do quarto. Chamou a faxineira e Jim, o jardineiro. Disse que eles deviam assinar e não eu, porque era eu que ia ficar com o dinheiro. Por que não devo ter dinheiro? Por que não posso ter alguma sorte na vida, um pouco de felicidade? Parecia maravilhoso. Tudo que planejei, quando fiquei sabendo.

– Certamente, não tenho a menor dúvida.

– Por que não posso ter planos? Por que não posso me regozijar? Vou ser feliz e rica e ter tudo o que quiser. Que fiz de mal? Nada. Nada, afirmo-lhe. Nada.

– Tenho tentado explicar à senhora – disse Mr. Fullerton.

– Que tudo é mentira. O senhor diz que estou mentindo. Diz que eu mesma redigi o documento. Que eu mesma o escrevi. Ela o escreveu. Ninguém pode afirmar o contrário.

– Certas pessoas dizem muitas coisas interessantes – disse Mr. Fullerton. – Agora me ouça. Pare de protestar e me ouça. Não é verdade que a Sra. Llewellyn-Smythe lhe pedia muitas vezes para imitar tanto quanto possível sua letra nas cartas que a senhora redigia para ela? Porque tinha uma ideia ultrapassada de que era falta de delicadeza escrever cartas datilografadas a amigos ou a pessoas conhecidas. É uma reminiscência dos tempos vitorianos. Hoje em dia, ninguém se incomoda por receber cartas datilografadas ou escritas à mão. Mas para a Sra. Llewellyn-Smythe isso era uma descortesia. A senhora compreende o que estou dizendo?

– Sim, compreendo. E era por isso que me pedia. Ela dizia: "Olga, escreva estas quatro cartas como lhe disse e que você já rascunhou. Escreva-as, porém, à mão, imitando o melhor possível minha própria letra." E me recomendou que praticasse, procurando imitá-la, observando como escrevia os aa, os bb, seus ll e as demais letras. "Basta que se pareça razoavelmente com minha letra" – dizia ela – "e então você pode assinar meu nome. Mas não quero que ninguém pense que não sou mais capaz de escrever minhas cartas. Embora, como você sabe, o reumatismo de meu pulso esteja ficando cada vez pior. Mas não quero minhas cartas pessoais datilografadas".

– A senhora poderia escrevê-las com a sua própria caligrafia – disse Mr. Fullerton – e, no fim, colocar uma nota, "pela secretária", ou suas iniciais, se preferisse.

– Ela não queria que eu fizesse isso. Queria que se pensasse que ela mesma escrevia suas cartas. "E isso", pensou Mr. Fullerton, "podia ser verdade. Era próprio de Louise Llewellyn-Smythe. Vivia aborrecida com o fato de não poder mais fazer as coisas que gostava de fazer, de não poder mais ir longe em seus passeios ou subir colinas rapidamente ou executar certos trabalhos manuais, sobretudo com a sua mão direita. Ela queria poder dizer: 'Estou perfeitamente bem, não há nada que eu não possa fazer, se me empenhar a fazê-lo.' Sim, o que Olga lhe estava dizendo naquele momento era verdade, e, por ser verdade, era uma das razões por que o codicilo anexo ao último testamento devidamente redigido e assinado por Louise Llewellyn-Smythe fora aceito inicialmente sem suspeita. Foi no seu escritório", refletia Mr. Fullerton, "que as suspeitas tinham sido levantadas, porque tanto ele como seu sócio mais novo conheciam muito bem a letra da Sra. Llewellyn-Smythe. Fora o jovem Cole quem primeiro observou: 'O senhor sabe, não posso acreditar que Louise Llewellyn-Smythe tenha escrito aquele codicilo. Eu sei que ela, ultimamente, estava sofrendo de artrite, mas olhe estes exemplos de sua caligrafia que retirei dentre seus documentos para lhe mostrar. Há algo de errado neste codicilo'". Mr. Fullerton concordara em que havia algo de anormal. Dissera que iria pedir a opinião de peritos sobre o assunto. A resposta tinha sido muito clara. As opiniões isoladas não variaram. A letra do codicilo não era, em definitivo, a letra de Louise Llewellyn-Smythe. "Se Olga tivesse sido menos ambiciosa", pensava Mr. Fullerton, "se se tivesse contentado em escrever um codicilo começando como começou – Por causa de seu grande zelo e atenção e pela afeição e bondade que teve comigo, deixo...

Era assim que começava, era assim que poderia ter começado, e, se tivesse especificado urna boa soma de dinheiro ligado à devotada au pair girl, os parentes poderiam ter considerado o fato como um exagero, mas o teriam aceitado sem discutir. Mas eliminar todos os parentes, o sobrinho que tinha sido o legatário residual de sua tia nos últimos quatro testamentos que ela fizera no período de quase vinte anos, deixar tudo para a estrangeira Olga Seminoff, não, isso não era do caráter de Louise Llewellyn-Smythe". Na realidade, uma alegação de influência indébita poderia tornar sem efeito um documento. Não. Ela tinha sido ambiciosa, essa menina impetuosa e vivaz. Era possível que a Sra. Llewellyn-Smythe lhe tivesse dito que iria deixar alguma herança para ela, por causa de seus bons serviços prestados, por causa de sua dedicação, por causa da amizade que a velha senhora estava começando a sentir por essa jovem que satisfazia todos os seus caprichos, que fazia tudo que lhe pedisse. E isso teria aberto uma perspectiva para Olga. Ela queria tudo. A velha senhora deixaria tudo para ela e ela ficaria com todo o dinheiro. Todo o dinheiro, a casa, as roupas e as joias. Tudo. Uma jovem ambiciosa. E agora estava recebendo a punição. E Mr. Fullerton, contra sua vontade, apesar de seus instintos jurídicos e de muita coisa mais, sentia pena dela. Muita pena mesmo. Olga conhecera o sofrimento desde criança, conhecera os rigores de um estado totalitário, perdera seus pais, perdera um irmão e uma irmã, e conhecera a injustiça e o medo, e isso desenvolvera nela um caráter com o qual tinha nascido, mas que até então não pudera exercitar. Isso desenvolvera nela uma ambição infantil mais violenta.

– Todos são contra mim – disse Olga. – Todo mundo. O senhor está contra mim. O senhor não é justo por que eu sou uma estrangeira, porque não sou deste país, porque não sei o que dizer, não sei o que fazer. O que é que posso fazer? Por que o senhor não me diz o que eu posso fazer?

– Porque não acho que haja realmente alguma coisa que a senhora possa fazer – respondeu Mr. Fullerton. – Sua melhor saída é confessar tudo.

– Se eu disser o que o senhor quer que eu diga, será mentira. Ela fez aquele testamento. Ela o escreveu. Mandou-me sair do quarto enquanto os outros o assinavam.

– Há provas contra a senhora, a senhora sabe. Há gente que dirá que a Sra. Llewellyn-Smythe muitas vezes não sabia o que estava assinando. Tinha vários documentos de várias espécies e nem sempre tornava a ler o que se lhe colocava na frente.

– Bem, então ela não sabia o que estava dizendo.

– Minha filha – disse Mr. Fullerton –, sua melhor chance está no fato de ser primária diante da lei, de ser estrangeira, de entender o inglês só de forma rudimentar. Nesse caso, poderá pegar uma sentença mais branda, ou pode, é verdade, obter sursis.

– Oh, palavras, só palavras. Serei presa e nunca mais me soltarão.

– Agora a senhora está dizendo tolices – disse Mr. Fullerton.

– O melhor que eu faria era desaparecer, esconder-me de modo que ninguém me pudesse encontrar.

– Se for emitido um mandado de prisão, a senhora poderá ser encontrada.

– A não ser que eu o faça imediatamente. Se eu for embora logo. Se alguém me ajudar. Poderia ir embora da Inglaterra. De navio ou de avião. Poderia descobrir alguém que saiba forjar passaportes, vistos e tudo o mais de que precisar. Alguém que faça alguma coisa por mim. Tenho amigos. Há pessoas que gostam de mim. Alguém poderia me ajudar a desaparecer. É disso que preciso. Poderia botar uma peruca. Poderia caminhar de muletas.

– Escute – dissera Mr. Fullerton, e dessa vez com autoridade. – Tenho pena da senhora. Recomendá-la-ei a um advogado que fará o que puder pela senhora. Perca a esperança de desaparecer. A senhora está falando como uma criança.

– Ganhei bastante dinheiro. E tenho algumas economias – continuara Olga. – O senhor tentou ser bondoso. Bem, eu creio nisso. Mas o senhor não fará nada porque tudo é a lei, a lei. Mas alguém me ajudará. Sim, alguém me ajudará. E irei para um lugar onde ninguém poderá me encontrar. "Ninguém" pensava Mr. Fullerton, "a tinha encontrado". E se perguntava: "Sim, para onde teria ido ou onde poderia estar agora?"