A Noite das Bruxas

Agatha Christie · Capítulo 28 de 30

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A Noite das Bruxas

Capítulo 25

 

– Que lindo – disse Miranda olhando em torno dela. Kilterbury Ring era um ponto de beleza local, embora suas ruínas não fossem particularmente famosas. Tinham sido destruídas havia centenas de anos. Não obstante, havia ainda aqui e ali uma pedra megalítica, ereta, como um testemunho de um culto ritual num passado distante, Miranda fazia perguntas.

– Por que eles botaram todas essas pedras aqui?

– Para o ritual. O culto ritual. Sacrifício ritual. Você sabe o que é sacrifício, Miranda?

– Acho que sim.

– Tem que haver, compreende. É importante.

– Você quer dizer que não é uma espécie de punição? É algo mais?

– Sim, é algo mais. Morre-se para que outros possam viver. Morre-se para que o belo sobreviva. Para que venha a ser. Isso é uma coisa importante.

– Eu pensei...

– O que é que você pensou, Miranda?

– Eu pensei que você talvez devesse morrer pois o que você fez causou a morte de mais alguém.

– O que deu na sua cabeça?

– Estava pensando em Joyce. Se eu não tivesse contado a ela uma certa coisa, ela não teria morrido, teria?

– Talvez não.

– Tenho estado preocupada desde a morte da Joyce. Não tinha necessidade de lhe contar aquilo, não é? Eu contei porque eu queria ter alguma coisa de valor para contar. Ela esteve na Índia e contava sempre todo tipo de histórias com tigres e elefantes, suas decorações e seus arreios. E penso também... de repente queria que alguém mais soubesse, porque, sabe, realmente eu não tinha pensado nisso antes – e acrescentou. – Aquilo... aquilo também foi um sacrifício?

– De certo modo.

Miranda permaneceu pensativa durante um certo tempo. Em seguida, perguntou: – Não é hora ainda?

– O sol não está ainda no ponto. Mais uns cinco minutos, talvez, e seus raios incidirão diretamente sobre a pedra. Mais uma vez ficaram calados, ao lado do carro. – Agora, acho – disse o companheiro de Miranda, olhando o céu onde o sol desaparecia no horizonte. – Agora é um momento maravilhoso. Ninguém aqui. Ninguém vem a esta hora do dia passear até o pico de Kilterbury Down para ver Kilterbury Ring. Faz frio demais em novembro e não há mais cerejas. Eu lhe mostra rei primeiro o machado duplo sobre a pedra, esculpido ali quando eles vieram de Micenas ou de Creta, há centenas de anos. Não é maravilhoso, Miranda, não é?

– Sim, é maravilhoso – disse Miranda. – Mostre o machado.

Caminharam até a pedra mais alta. Além dela, havia uma pedra caída e um pouco mais adiante, na rampa, uma um pouco mais inclinada, como que vergada com o peso dos anos.

– Você se sente feliz, Miranda?

– Sim, muito feliz.

– Há um sinal aqui.

– É este realmente o machado duplo?

– Sim, está gasto com o tempo, mas é ele. Eis ali o símbolo. Ponha a mão em cima dele. E agora... agora brindaremos ao passado, ao futuro e ao belo.

– Oh, que beleza – disse Miranda. Um cálice de ouro foi posto em suas mãos, e seu companheiro despejou dentro dele um líquido dourado de um frasco.

– Tem gosto de fruta, de pêssego. Beba, Miranda, e você será ainda mais feliz.

Miranda pegou o cálice dourado e o cheirou. – Sim, tem cheiro de pêssego. Oh, olha, olha o sol. Realmente dourado avermelhado... como se caísse da beira do mundo.

Ele a voltou na direção do sol. – Segure o copo e beba. Miranda virou-se obedientemente. Tinha ainda a mão sobre a pedra megalítica, o sinal semiapagado. Seu companheiro agora estava em pé atrás dela. De lá de baixo, na pedra inclinada, duas figuras esgueiravam-se, meio encurvadas. Miranda e seu companheiro lá em cima, de costas, não as perceberam. Rápida mas furtivamente subiram a encosta.

– Um brinde à beleza, Miranda.

– Não beba! – gritou uma voz atrás deles. Um paletó de veludo cor-de-rosa caiu sobre uma cabeça, uma faca foi arrancada com uma pancada na mão que se levantava lentamente. Nicholas Ranson segurou Miranda, apertando-a e arrastando-a para longe dos outros dois que se batiam.

– Garota idiota – disse Nicholas Ranson. – Vir aqui com um assassino maluco. Você devia saber o que estava fazendo.

– E de certo modo sabia – disse Miranda. – Eu ia ser sacrificada porque, sabe, a culpa foi toda minha. Foi por minha causa que Joyce morreu. Portanto, era justo que eu fosse sacrificada, não era? Seria uma espécie de morte ritual.

– Pare de falar tolices de morte ritual. Aquela moça foi encontrada. A au pair girl, sabe, que há muito tempo estava desaparecida. Há cerca de dois anos mais ou menos. Todos pensavam que ela tinha fugido por ter forjado um testamento. Não fugiu coisa nenhuma. O corpo dela foi encontrado no poço.

– Oh! – Miranda deu um grito súbito de angústia. – Não foi no poço do desejo, foi? Não foi no poço do desejo que eu tanto queria encontrar, não? Não, não quero que ela esteja no poço do desejo. Quem... quem a pôs ali?

– A mesma pessoa que a trouxe aqui.