A Noite das Bruxas

Agatha Christie · Capítulo 16 de 30

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A Noite das Bruxas

Capítulo 15

 

Dois pares de olhos fitavam Poirot nervosamente. – Não posso imaginar o que mais poderíamos contar, Sr. Poirot, pois, inclusive, já fomos entrevistados pela polícia. O olhar de Poirot passava alternadamente de um jovem para outro. Eles não agiam como crianças. Suas maneiras eram decididamente adultas. Tanto assim que, se fechássemos os olhos, a conversação poderia ser considerada como se se passasse entre adultos. Nicholas tinha 18 anos, e Desmond, 16. – Para satisfazer a uma amiga, estou interrogando todas as pessoas que estiveram presentes numa certa ocasião. Não propriamente na festa de Halloween, mas durante seus preparativos. Vocês, os dois, colaboraram muito nessa ocasião. – Sim, colaboramos.

– Até agora – continuou Poirot –, entrevistei as faxineiras, tive o privilégio de ouvir a opinião da polícia, de tomar conhecimento do que disse o médico, que examinou o cadáver pela primeira vez, conversei com a professora que estava presente, com a diretora da escola, com parentes tresloucados, ouvi muitos boatos que correm pela cidade... A propósito, ao que me consta, há uma feiticeira aqui? Os dois rapazes, que o encaravam, sorriram. – O senhor se refere à mamãe Goodbody. Sim, ela foi à festa e desempenhou o papel de feiticeira.

– Estou agora diante da geração mais nova disse Poirot –, diante de pessoas de visão e ouvidos agudos e que estão atualizadas com as conquistas científicas e com a pura filosofia. Estou ansioso, muito ansioso, por ouvir a opinião de vocês sobre o assunto. "Dezoito e dezesseis", pensava Poirot, fitando os dois jovens à sua frente. Jovens para a polícia, meninos para ele, adolescentes para os jornais. Tenham lá o nome que tiverem. Produtos da época. "Nenhum deles", pensava, "era totalmente estúpido, mesmo que não tivesse uma cultura tão elevada quanto a que acabara de lhes sugerir, a título de lisonja, só para dar início à conversação". Tinham estado na festa. Tinham estado, também, durante o dia, prestando serviços à Sra. Drake. Tinham subido escadas, pendurado morangas em lugares estratégicos, realizado pequenos serviços de eletricidade com lâmpadas decorativas, um ou outro tinha conseguido produzir efeitos talentosos num bocado de fotografias falsificadas de possíveis maridos sonhados por garotas esperançosas. Tinham também, casualmente, a idade exata para estar na frente da lista de suspeitos do inspetor Raglan e, ao que parece, na opinião de um velho jardineiro. A porcentagem de crimes cometidos por esse grupo etário tinha aumentado assustadoramente nos últimos anos. Poirot não estava pessoalmente inclinado a uma determinada suspeita, mas tudo era possível. Era ainda possível que o assassinato ocorrido havia dois ou três anos pudesse ter sido cometido por um menino, um jovem ou um adolescente de 14 ou 12 anos de idade. Casos como esses tinham sido registrados em recentes reportagens de jornais. Com todas essas possibilidades em mente, Poirot as abafou, por assim dizer, para se concentrar por alguns instantes na apreciação dos dois jovens, de seus olhares, de suas roupas, de suas maneiras, de suas vozes, e assim por diante, à maneira de Hercule Poirot, protegido por um escudo estrangeiro de palavras lisonjeiras e maneirismos estrangeiros, de modo que eles sentissem o prazer de desprezá-lo, embora o fizessem com polidez e boas maneiras. Pois ambos eram muito educados. Nicholas, o de 18 anos e boa aparência, usava suíças. Seu cabelo lhe descia até o pescoço, e sua roupa preta lhe conferia um certo ar fúnebre. Não era de pesar pela recente tragédia, mas se tratava evidentemente de seu gosto pessoal pelas roupas modernas. O mais moço usava um paletó de veludo cor-de-rosa, calças lilás e uma espécie de camisa de tecido bordado. Ambos, evidentemente, gastavam muito dinheiro com roupas que certamente não eram adquiridas no comércio local e provavelmente por eles mesmos e não por seus pais ou procuradores. O cabelo de Desmond, coberto de penugem, era amarelo-avermelhado.

– Vocês estiveram ali pela manhã ou à tarde do dia da festa, ajudando nos preparativos, não foi?

– À tarde, no início da tarde.

– Em que espécie de preparativos vocês ajudaram? Ouvi várias pessoas falarem em preparativos, mas as informações não me satisfizeram. Não estão todas de acordo.

– Inicialmente, instalamos lâmpadas. – Subimos em escadas para pendurar coisas. – Ouvi dizer que houve também efeitos fotográficos muito bons. Desmond imediatamente enfiou a mão no bolso e tirou uma carteira, exibindo, orgulhoso, certos cartões.

– Improvisamos esses de antemão – disse ele. – Maridos para as moças – explicou. – As moças são todas a mesma coisa. Estão sempre querendo algo atualizado. Nada má, a coleção, não é? Passou alguns exemplares a Poirot, que apreciou com interesse uma reprodução de cor vaga de um jovem de barba amarelada, de outro jovem com uma coroa de cabelo, e de um terceiro, cuja cabeleira lhe chegava quase até os joelhos, e havia alguns bigodes variados e outros enfeites faciais. – Eu os fiz todos diferentes. Não está mal, não é?

– Você dispôs de modelos, suponho.

– Não, todos esses somos nós dois. Basta caracterizar, sabe. Nick e eu os fizemos. Alguns Nick tirou de mim, outros eu tirei de Nick. Variavam apenas o que se poderia chamar de motivo do cabelo.

– Muito talentosos – disse Poirot.

– Nós nos mantínhamos um pouco desfocados, sabe, para que nos assemelhássemos mais com imagens de espírito, como se poderia dizer.

– A Sra. Drake gostou muito deles – disse o outro rapaz. Congratulou-se conosco. Achou graça de alguns. A maior parte do serviço que fizemos na casa foi de natureza elétrica. Sabe, instalando uma lâmpada ou duas, de modo que, quando as meninas se sentassem com o espelho, um ou outro de nós pudesse ocupar uma posição, e, inclinando rapidamente uma tela, a menina veria no espelho um rosto, sabe, com o tipo exato de cabelo. Cabelo ou bigodes ou qualquer outra coisa.

– E elas sabiam que era você ou seu amigo?

– Oh, não creio. Pelo menos na festa não sabiam. Sabiam que estivemos ajudando, mas não creio que nos tivessem reconhecido nos espelhos. Não eram muito inteligentes, sabe. Além disso, havia um dispositivo instantâneo engraçado à beça.

– E na festa? Havia na festa umas trinta e tantas pessoas. As que foram à festa eram as mesmas pessoas que estavam ali à tarde, durante os preparativos? Não estou pedindo para se lembrarem de todos.

– Claro, a Sra. Drake e a Sra. Butler. Uma das professoras, chamada Whittaker, me parece. A Sra. Flatterbut ou coisa semelhante. É mulher ou irmã do organista. A Srta. Lee, assistente do Dr. Ferguson; era sua tarde de folga e foi colaborar também. Havia alguns garotos para ajudar, se fosse necessário. Não que eu achasse que fossem úteis. As meninas só nos grupinhos dando risadinhas.

– Ah, sim. Vocês se lembram das meninas que estavam lá.

– Bem, estavam as Reynolds. A pobre da Joyce, naturalmente. A vítima e sua irmã mais velha, Ann. Uma menina terrível. Metida como ela só. Ela se julga sabidíssima. Tem certeza de que vai passar com A em tudo. E o garoto, o Leopold, é horrível. É covarde. Gosta de espiar. Contador de histórias. Também estava lá Beatrice Ardley e Cathie Grant e mais umas duas mulheres de serviço, quer dizer, as faxineiras. E a escritora, aquela que o trouxe aqui.

– E nenhum homem?

– O pároco deu uma olhadela por lá. Um sujeito legal, mas um tanto acanhado. E o novo vice-pároco. Ele gagueja quando está nervoso. Demorou-se pouco. É tudo de que me lembro agora.

– E segundo ouvi dizer vocês escutaram a garota, Joyce Reynolds, dizer alguma coisa sobre ter assistido a um certo crime.

– Eu não ouvi nada – disse Desmond. – Ela disse?

– Oh, estão dizendo que sim – respondeu Nicholas. – Eu não ouvi. Acho que não estava na sala no momento. Onde estava ela, quero dizer, quando disse isso?

– Na sala de estar.

– Sim, a maioria das pessoas ficava ali, a menos que estivesse fazendo alguma coisa de especial. Naturalmente, eu e Nick – disse Desmond – ficamos a maior parte do tempo no quarto onde as moças veriam seus futuros maridos nos espelhos, estendendo fios e várias outras coisas semelhantes. Ou então estávamos lá fora instalando lâmpadas nas escadas. Estivemos apenas uma ou duas vezes na sala de estar colocando morangas e pendurando uma ou duas com lâmpadas instaladas no bojo oco. Mas não ouvi nada dessa espécie quando estávamos lá. E você, Nick?

– Nem eu – respondeu Nick. E acrescentou com certo interesse: – E Joyce disse mesmo que viu um assassinato? Muito interessante se de fato viu, não acha?

– Por que é tão interessante? – perguntou Desmond.

– Bem, é uma P.E.S., uma percepção extrassensorial, não é? Veja você. Viu um assassinato e uma hora ou duas depois ela própria era assassinada. Eu suponho que teve uma espécie de visão. Isso faz a gente pensar um bocado. Experimentos recentes levam a crer que podemos fazer algo para ajudar a alcançá-la, fixando um eletrodo ou coisa semelhante na nossa veia jugular. Li alguma coisa a respeito.

– Eles nunca foram muito longe com esse negócio de percepção extrassensorial – disse Nicholas, desdenhosamente. – O pessoal se instala em salas diferentes olhando cartões num maço ou palavras com quadrados ou desenhos geométricos. Mas nunca veem as coisas perfeitamente, ou raramente veem. Bem, a gente precisa ser bastante jovem para fazer isso. Os adolescentes se saem melhor do que as pessoas mais velhas.

Hercule Poirot, que não estava disposto a ouvir essa discussão científica de alto nível, interrompeu a conversa. – Tanto quanto vocês podem se lembrar, enquanto lá estiveram, não aconteceu nada que lhes parecesse de uma maneira ou de outra estranho ou significativo? Algo que ninguém mais tivesse notado, mas que tivesse chamado a atenção de vocês? Nicholas pensou. – Não, só muita tagarelice e arrumações.

– Você tem alguma ideia?

– De quê?

–De quem teria matado Joyce?

– Sim, quero dizer, de algo que uma vez observado poderia levá-lo a suspeitas, mesmo se em bases puramente psicológicas.

– Compreendo o que o senhor quer dizer.

Ficaram em busca pensativos, de algum incidente.

– Eu sou pela Srta. Whittaker – disse Desmond, interrompendo a concentração de Nicholas.

– A professora? – perguntou Poirot.

– Sim. Uma autêntica solteirona, sabe. Faminta de sexo. E esse negócio de dar aulas, recalcada no meio de tantas mulheres. O senhor se lembra, uma das professoras foi estrangulada há um ou dois anos. Ela era esquisita, dizem.

– Lésbica? – perguntou Nicholas, num tom de voz mundano.

– Não me admiraria. Você não se lembra de Nora Ambrose, a moça com quem ela morava? Não era nada feia. Dizem que tinha um ou dois namorados, e a moça com quem ela morava ficava danada da vida por causa disso. Dizem que era mãe solteira, que se afastou duas vezes do cargo por motivo de doença e depois voltou. Em meio a tantos boatos, corre todo tipo de versões.

– Bem, de qualquer maneira, Whittaker passou a maior parte da manhã na sala de estar. Ela provavelmente ouviu o que Joyce disse. Isso poderia ter ficado em sua mente, não poderia?

– Olha aqui – disse Nicholas. – Suponhamos que a professora Whittaker... que idade você lhe dá? Quarenta e tantos? Perto dos cinquenta?... As mulheres ficam um bocado esquisitas nessa idade. Olharam ambos para Poirot, com o ar de cães contentes que foram buscar alguma coisa útil para seu dono. – Aposto como a Srta. Emlyn sabe de tudo, se for verdade. É difícil ela não saber do que se passa em sua escola.

– E por que não diria?

– Talvez por uma questão de lealdade ou por desejo de protegê-la.

– Não penso que seria capaz de agir assim. Se ela achasse que Elizabeth Whittaker estava ficando louca, bem, então, muitas crianças da escola acabariam sendo suas vítimas.

– Que tal o pároco auxiliar? – disse Desmond, esperançoso. – Poderia ser um fanático. O pecado original, sabe, e tudo o mais, a água, as maçãs... Olha aqui, ocorreu-me uma ideia. Suponhamos que ele seja um bocado biruta. Não mora aqui há muito tempo. Pouco se sabe a seu respeito. Suponhamos o que a boca do dragão tenha despertado sua imaginação. O fogo do inferno! Todas aquelas chamas se levantando! Em seguida, teria tomado Joyce pela mão e lhe teria dito: "Vem comigo, quero te mostrar uma coisa." E a teria levado para a sala das maçãs e lhe teria dito: "Ajoelha-te." E acrescentaria: "Isto é o batismo." E empurraria sua cabeça para dentro do balde. Está vendo? Tudo se compõe. Adão e Eva e a maçã, o fogo do inferno e a boca do dragão e a renovação do batismo para curar o pecado.

– Quem sabe se ele não se exibiu primeiro diante dela – disse Nicholas, animado. – Acho que deve haver algo de sexual por trás de tudo isso. Ambos olharam Poirot com a expressão de inteira satisfação.

– Bem – disse Poirot –, vocês certamente me deram alguma coisa em que pensar.