A Noite das Bruxas

Agatha Christie · Capítulo 12 de 30

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A Noite das Bruxas

Capítulo 11

 

Hercule Poirot contemplava a fachada da Mansão da Pedreira. Um exemplo sólido, bem construído, da arquitetura vitoriana. Ainda pelo lado de fora teve uma ideia do que seria seu interior – um pesado armário de mogno, uma mesa grande, retangular, também de mogno, uma sala de bilhar, talvez, uma grande cozinha com uma copa adjacente, com piso de lajes trabalhadas, um maciço fogão a carvão, agora, sem dúvida, substituído por um fogão a gás ou elétrico. Observou que as janelas superiores estavam na sua maioria ainda encortinadas. Tocou a campainha da porta principal. Foi atendido por uma senhora magra, de cabelos grisalhos, que lhe informou que o coronel e a Sra. Weston tinham ido a Londres e só voltariam na semana seguinte. Perguntou sobre o Bosque da Pedreira e lhe foi dito que estava aberto gratuitamente ao público. A entrada ficava mais ou menos a cinco minutos a pé, ao longo da estrada. Ele veria uma placa de aviso num portão de ferro.

Poirot encontrou o caminho com muita facilidade e, passando pelo portão, começou a descer o caminho por entre árvores e arbustos. De repente, ele parou e ficou ali absorto, pensando. Sua mente não estava só no que via, no que o cercava. Em vez disso, estava refletindo em uma ou duas sentenças e em um ou dois fatos que, na ocasião, o levavam, furiosamente, como expressou a si mesmo, a divagar. Um testamento forjado e uma moça. Uma moça que tinha desaparecido, a moça em favor de quem o testamento fora forjado. Um jovem artista que viera transformar uma pedreira abandonada num jardim rebaixado. Ali, mais uma vez, Poirot olhou em torno e assentiu com a cabeça que Jardim da Pedreira era um nome feio. Sugeria o estrépito das explosões, caminhões pesados, carregando pedras para a construção de estradas, por trás da qual havia a demanda industrial.

Mas um jardim rebaixado era coisa diferente. Suscitava em sua mente vagas lembranças. A Sra. Llewellyn-Smythe tinha feito uma excursão pelos jardins da Irlanda. Também ele, lembrava-se, estivera na Irlanda há cinco ou seis anos. Fora investigar o roubo da prataria de uma família antiga. Tinha havido alguns pontos interessantes sobre o caso, os quais provocavam sua curiosidade, e, tendo resolvido (como de costume) – Poirot acrescentou mentalmente este parêntese – sua missão com sucesso, passou alguns dias visitando a Irlanda e apreciando as paisagens. Não podia lembrar-se agora do jardim que fora ver. "Em algum lugar", pensava ele, "não muito longe de Cork Killarney? Killarney, não. Em algum lugar perto da baía de Bantry". E se lembrava dele porque era um jardim muito diferente dos jardins que até então considerava como as maravilhas desta era, os jardins do Châteaux na França, a beleza formal de Versalhes.

Na Irlanda, recordava-se, partira com um pequeno grupo de pessoas num barco. Era um barco esquisito, Se não fossem dois barqueiros fortes e hábeis que praticamente o apanharam e o puseram dentro dele, dificilmente poderia ter entrado. Remaram na direção de uma pequena ilha, "uma ilhazinha não muito interessante", pensava Poirot, e começara a se arrepender de ter ido. Seus pés estavam úmidos e frios e o vento entrava pelas aberturas de sua capa impermeável. "Que espécie de beleza", pensava então, "que aparência, que disposição simétrica de grande beleza poderia haver ali naquela ilha rochosa com suas árvores esparsas?" Um equívoco, sem sombra de dúvida, um equívoco. Desembarcaram num pequeno caís. Os pescadores o retiraram do barco com a mesma habilidade com que o puseram a bordo. Os demais membros da comitiva tinham ido à frente, conversando e rindo. Poirot, ajeitando seu capote e amarrando de novo seus sapatos, seguira-os até um caminho esquisito com arbustos e moitas fechadas e algumas árvores esparsas de um lado e de outro. "O tipo do parque desinteressante", pensava ele.

Mas, então, inesperadamente, saíram do meio dos arbustos para um terraço com uma escadaria que conduzia para o que, lá embaixo, o arrebatou como algo inteiramente mágico. Algo como se seres elementais, tais como imaginava serem comuns na poesia irlandesa, tivessem saído de suas colinas ocas e criado ali aquele jardim, não com labuta e trabalho pesado, mas com o simples gesto de uma varinha de condão. Sua beleza, as flores e os arbustos, a água artificial da fonte, o caminho que a contornava, encantado, lindo e inteiramente inesperado. Ele se perguntava como seria tudo aquilo originalmente. Parecia simétrico demais para ter sido uma pedreira. Havia um vale na terra cultivada da ilha, mas, para além dele, podiam ser vistas as águas da baía e as montanhas que se levantavam do outro lado, com seus cumes nevoentos, enfim, um cenário encantador. Pensou que talvez poderia ter sido um jardim como aquele que fez nascer na Sra. Llewellyn-Smythe o desejo de ter um jardim igual, de ter o prazer de adquirir o cenário de uma pedreira rude naquela região afetada, meticulosa, elementar e essencialmente convencional da Inglaterra. E, assim, procurou a espécie adequada do empregado bem pago para executar suas ordens. E encontrou o jovem profissionalmente qualificado que se chamava Michael Garfield e o trouxera pra sua casa, pagou-lhe bem e lhe teria construído uma casa no devido tempo.

"Michael Garfield", pensava Poirot, olhando ao redor dele, "não a decepcionara". Deu mais alguns passos e se sentou num banco, um banco que tinha sido colocado estrategicamente ali. Ele imaginava com que se pareceria a pedreira rebaixada na primavera. Havia faias e bétulas com suas cascas brancas lascadas; espinheiros, roseiras e pequeninos juníperos. Mas agora era outono, e o outono também tinha seus encantos. O dourado e o vermelho de bordos, uma ou duas parrótias, um caminho sinuoso que conduzia a deleites novos. Havia bosques floridos de tojos e giesteiras espanholas. Não era da especialidade de Poirot saber o nome de flores e de arbustos – seus conhecimentos no gênero não iam além das rosas e das tulipas. Mas tudo ali aparentava ter crescido espontaneamente. Não parecia ter sido arranjado e forçado. "Não obstante" pensava Poirot, "assim era. Tudo tinha sido arrumado, tudo tinha sido planejado, até aquela pequenina planta que brotava ali e até aquele arbusto grande e altaneiro que se levantava orgulhosamente com suas folhas douradas e avermelhadas.

Oh, sim. Tudo tinha sido planejado e estudado. Além disso, poderia dizer que tudo se submetera a uma vontade decidida". Hercule Poirot se perguntava a quem tudo aquilo se teria submetido. À vontade da Sra. Llewellyn-Smythe ou à do Sr. Michael Garfield? "Pouco importava" dizia Poirot para si mesmo, "sim, não faz muita diferença. A Sra. Llewellyn-Smythe era culta, sabia o que queria. Dedicara-se a jardins durante muitos anos. Era, sem dúvida, membro da Sociedade Real de Jardineiros, visitava exposições, consultava catálogos, visitava jardins. Fez viagens ao exterior interessada em botânica. Saberia o que queria, saberia dizer o que queria". Isso era o bastante? Poirot achou que isso não era bastante. Poderia ter dado ordens a jardineiros e estar certa de que suas ordens seriam cumpridas. Mas poderia ela realmente imaginar com que suas ordens se pareceriam depois de executadas?

Não no primeiro ano de cultivo, nem mesmo no segundo, mas o cenário que teria dois anos mais tarde, três anos mais tarde e talvez, quem sabe, seis ou sete anos depois. Michael Garfield sabia o que a Sra. Llewellyn-Smythe queria, pois ela lhe dissera, e ele sabia fazer aquelas rochas e pedras brutas florescerem como um deserto pode dar flores. Michael planejou e executou; é claro que deve ter tido o prazer intenso que experimentam os artistas a serviço de um cliente rico. Ali estava sua concepção de uma terra encantada engastada numa encosta convencional e triste, e ali se desenvolveriam caros arbustos para cuja aquisição grandes cheques foram assinados, plantas raras que talvez só tenham sido obtidas graças à boa vontade de um amigo, e eis ali também coisas pequeninas e humildes que eram necessárias e não custavam quase nada. Na primavera, na encosta ali mesmo à sua esquerda, nasceriam prímulas, anunciadas pelas modestas folhas verdes aglomeradas no alto da vertente.

– Os ingleses – disse Poirot – adoram mostrar seus parques, levar-nos para ver suas roseiras e falar longamente de seus jardins de íris, e, para demonstrar que apreciam uma das grandes belezas da Inglaterra, nos levarão, num dia de sol, quando as faias estão cobertas de folhas e debaixo delas há um tapete de campânulas. Sim, é lindo de se ver, mas tenho a impressão de que, de tanto ser convidado a apreciá-las, estou começando a me cansar. Eu prefiro... O pensamento lhe fugiu quando imaginou de novo o que tinha preferido. Um passeio por entre as veredas de Devon. Uma estrada sinuosa com grandes encostas de cada lado, sobre essas encostas um grande tapete de prímulas tão pálidas, de um amarelo tão claro e descorado e exalando aquele perfume suave, vago e indefinível que têm as prímulas em grandes quantidades, cuja fragrância mais do que qualquer outra anuncia a primavera. E assim não haveria ali só plantas raras. Haveria primavera e outono, haveria um pouco de ciclame silvestre e crocos de outono também, Era realmente um lugar lindo. Hercule Poirot se perguntava sobre as pessoas que moravam agora na Mansão da Pedreira. Sabia seus nomes, um coronel aposentado e sua esposa, mas, pensava ele, "bem que Spence lhe poderia ter contado mais alguma coisa a respeito deles". Tinha a impressão de que quem quer que fosse o atual proprietário, não teria ao lugar o amor que lhe tivera a falecida Sra. Llewellyn-Smythe.

Levantou-se e caminhou ao longo de uma vereda. "Era um caminho cômodo, cuidadosamente nivelado, projetado", pensava ele, "para passeio de pessoa idosa, onde estaria à vontade, sem degraus". Em cada ângulo conveniente, em intervalos convenientes, havia um assento que parecia rústico, mas era muito menos rústico do que parecia. Na realidade, o ângulo do encosto e o supedâneo eram admiravelmente confortáveis. "Gostaria de conhecer esse Sr. Michael Garfield", dizia Poirot para si mesmo. "Ele se saiu muito bem em tudo isso. Domina sua arte, é um bom planejador e arranjou gente experimentada para executar seus planos; de tal modo conseguiu compor os planos de sua patroa, que ela teria pensado que todo o planejamento tinha sido dela. Mas não creio que tenha sido só dela. Na sua maior parte deve ter sido dele. Sim, eu gostaria de vê-lo. Se ele estiver ainda no bangalô – ou no chalé – construído para ele, suponho..."

E interrompeu seu pensamento. Olhava. Olhava por uma depressão que se estendia a seus pés e era contornada pelo caminho. Olhava para um determinado arbusto cujos ramos vermelhos brilhantes emolduravam o que Poirot, por alguns instantes, não sabia se estava ali ou se era um simples efeito da sombra, da luz do sol e da folhagem. "O que estou vendo?", pensava Poirot. "Será o resultado de algum encantamento? Talvez. Naquele lugar, tudo era possível. É um ser humano que estou vendo, ou será... o que poderia ser?" Sua mente o levou de volta a algumas de suas aventuras há muitos, muitos anos, que ele denominara de "Os trabalhos de Hércules". "Isso, de certo modo, não é um jardim inglês. Havia uma atmosfera diferente ali. Tinha o quê de mágica, de encantamento, sem dúvida de uma beleza tímida mas selvagem. Ali, se estivéssemos representando uma cena teatral, teríamos nossas ninfas, nossos faunos; teríamos nossa beleza grega, mas sentiríamos também", pensava Poirot, excitando-se, "um pouco de medo". "Sim", pensava ele, "há neste jardim algo que inspira terror. O que foi que disse a irmã de Spence? Não foi o caso de um assassinato ocorrido na pedreira original há anos? O sangue deixara sua marca nas pedras, mas depois a morte fora esquecida, tudo fora coberto, Michel Garfield chegara, planejara e criara um jardim de rara beleza, e uma senhora idosa que não tinha mais muitos anos para viver tinha custeado as despesas".

Agora via que era um jovem que estava do outro lado da depressão, emoldurado com folhas vermelhas brilhantes, um jovem de rara beleza, reconhecia Poirot agora. Não se concebem jovens desse tipo hoje em dia. Dizia-se de um jovem que ele era excitante ou atraente, e essas demonstrações de louvor são feitas muitas vezes com justiça. Um homem com uma fisionomia pétrea, um homem com cabeleira rebelde e suja e cujos aspectos estavam longe de ser regulares. Não se dizia que um jovem era belo. Se disséssemos, teríamos de explicar como se estivéssemos elogiando alguma qualidade que havia muito tempo desaparecera. As moças sensuais não queriam um Orfeu com seu alaúde, queriam um cantor popular com uma voz rouca, olhar expressivo e cabeleira desgrenhada. Poirot levantou-se e contornou o caminho. Quando chegou ao outro lado do declive, o jovem saiu das árvores ao seu encontro. Sua juventude era, ao que parecia, o seu traço mais característico, embora, conforme constatou Poirot, não fosse realmente tão jovem. Era um homem de mais de trinta anos, talvez estivesse perto dos quarenta. O sorriso que estampava era muito, muito pálido. Não era um sorriso de boas-vindas, mas apenas de tranquilo reconhecimento. Era alto, delgado, com traços de grande perfeição, dignos do cinzel de um escultor clássico. Tinha olhos escuros e uma cabeleira preta que lhe assentava como um capacete de malha trançada. Por alguns instantes, Poirot se perguntou se ele e aquele jovem não poderiam estar se encontrando no curso de ensaio de uma representação teatral. "Se assim for", pensava Poirot, olhando para suas galochas, "ai de mim, terei de ir ao vestiário para me preparar melhor".

– Acho que estou talvez cometendo uma violação. Se assim for, peço-lhe desculpas. Não sou daqui. Cheguei ontem.

– Não acho que se possa chamar a isso de violação. A voz era muito tranquila, polida, mas, não obstante, estranhamente vaga, como se os pensamentos do homem estivessem muito longe dali. – Não está realmente franqueado ao público, mas as pessoas gostam de passear por aqui. O velho coronel Weston e sua esposa não se incomodam. Ele se importaria se fizessem algum dano, mas isso não é muito provável.

– Nenhum vandalismo – disse Poirot, olhando ao redor. – Não se observa o menor estrago. Nem mesmo um desordenado acúmulo de lixo. Isso não é muito comum, é? E parece deserto, estranho. Tem-se a impressão continuou Poirot – de que os namorados passeiam por aqui.

– Não, os namorados não vêm a esta parte – observou o jovem. Acreditam, por alguma razão, que o lugar não é próprio.

– Seria o senhor, por acaso, o arquiteto, ou talvez esteja errado?

– Meu nome é Michael Garfield – disse o jovem.

– Imaginei que pudesse ser – disse Poirot. E gesticulando com uma mão apontando ao redor, perguntou: – Foi o senhor que fez isto?

– Sim, fui eu – respondeu Michael Garfield.

– É maravilhoso – disse Poirot. – Parece realmente extraordinário poder fazer de uma parte, falemos francamente, tão feia da paisagem inglesa coisa assim tão bela. Congratulo-me com o senhor, que deve estar muito satisfeito com o que fez aqui.

– Eu perguntaria se existe alguém satisfeito.

– O senhor o criou, acho, para a Sra. Llewellyn-Smythe. Creio que já faleceu. Moram aqui o coronel e a Sra. Weston, estou certo? São eles os donos atuais.

– Sim, e compraram barato. É uma casa grande, desgraciosa, difícil de governar. Não é do tipo que a maioria prefere. Ela a deixou para mim no testamento.

– E o senhor a vendeu?

– Sim, vendi a casa.

– E o Jardim da Pedreira, não?

– Oh, sim, o jardim também entrou no negócio, praticamente como brinde, como se diz.

– Mas, por quê? – perguntou Poirot. – Isso é interessante. O senhor não se aborrece talvez com a minha curiosidade?

– Suas perguntas não são muito comuns disse Michael Garfield.

– Não me interessam tanto os fatos como as razões. Por que A fez assim e assim? Por que B fez mais isso? Por que o comportamento de C é diferente do comportamento de A e B?

– O senhor deveria ir conversar com um cientista – disse Michael. – É uma questão – ou pelo menos assim se diz hoje em dia – de genes e cromossomos. A disposição, o sistema, e assim por diante.

– O senhor acabou de dizer, há poucos instantes, que não estava inteiramente satisfeito porque ninguém o está. Sua empregadora, sua patroa, seja como for que o senhor gostasse de chamá-la, estava satisfeita? Com toda esta beleza?

– Até certo ponto – respondeu Michael. – Procurei fazer com que estivesse. Ela era fácil de satisfazer.

– Isso parece muito, muito improvável disse Hercule Poirot. – A Sra. Llewellyn-Smythe tinha, segundo me disseram, mais de sessenta anos. Sessenta e cinco no mínimo. As pessoas nessa idade são muitas vezes satisfeitas?

– Eu lhe assegurava que tudo que estava executando estava fielmente conforme suas instruções, sua imaginação e suas ideias.

– E estava?

– O senhor está perguntando isso seriamente?

– Não – respondeu Poirot. – Francamente, não.

– Quem quiser vencer na vida – disse Michael Garfield – deve seguir a carreira que deseja, precisa satisfazer certas inclinações artísticas adquiridas, mas é preciso também ser um homem de negócios. A gente precisa vender a mercadoria. Caso contrário, nós nos cansaremos de executar as ideias de outras pessoas que nem sempre estarão de acordo com as nossas. Eu executei principalmente minhas ideias e as vendi, ou melhor, as negociei com a freguesa que me empregou, como uma execução fiel de seus planos e esquemas. Não é uma arte muito difícil de se aprender. Não é muito diferente de vender a uma criança ovos marrons em vez de ovos brancos. O freguês terá de ser convencido de que são os melhores, os bons. A essência do campo. Diríamos, a própria preferência da galinha? Ovo marrom, ovo de granja, ovo caipira. Quem os anunciasse apenas dizendo: "São ovos. Só existe uma diferença entre ovos: ou são frescos ou não são", não os venderia.

– O senhor é um jovem fora do comum, Sr. Michael – disse Poirot. "Arrogante", pensava de si para si.

– Talvez.

– O senhor fez aqui algo maravilhoso. Acrescentou visão e perspectiva à matéria rude de pedras escavadas para a indústria, sem nenhuma preocupação de beleza. O senhor somou imaginação, coisa que salta à vista, de tal modo que conseguiu levantar o dinheiro para realizá-la. Congratulo-me com o senhor. Pago meu tributo. O tributo de um velho que se aproxima do tempo em que o fim de sua própria obra está à vista.

– Mas no momento o senhor continua exercendo suas atividades.

– Então o senhor sabe quem eu sou? Poirot ficou, indubitavelmente, satisfeito. Ele gostava de ser reconhecido pelo povo. Hoje em dia, tinha a impressão de que ninguém ligava mais para ninguém.

– O senhor segue o rastro de sangue... Já é conhecido aqui. É uma pequena comunidade, a notícia se espalha logo. Outro sucesso público o trouxe aqui.

– Ah, o senhor se refere à Sra. Oliver?

– Ariadne Oliver. Um best-seller. O povo gosta de conversar com ela, de saber o que pensa sobre temas como inquietação estudantil, socialismo, roupas femininas, liberdade sexual e sobre muitas outras coisas que não são de seu interesse.

– Sim, sim – disse Poirot –, é deplorável. Não aprendem muito com a Sra. Oliver, já observei. Sabem apenas que é louca por maçãs. Acho que há no mínimo vinte anos que se sabe disso, mas ela continua a repeti-lo com um sorriso complacente. Embora, atualmente, ao que parece, não goste mais de maçãs.

– Foram maçãs que o trouxeram aqui, não foi?

– Sim, maçãs numa festa de Halloween, disse Poirot. – O senhor estava naquela festa?

– Não.

– O senhor é feliz.

– Feliz? – Michael Garfield repetiu a palavra, que soou timidamente como uma surpresa em sua voz.

– Ter sido um dos convidados numa festa em que se cometeu um crime não deve ser uma experiência agradável. É possível que o senhor não tenha sentido isso, mas, acredite, o senhor é feliz porque... – Poirot tornou-se um pouco mais estrangeiro – il y a des ennuis, vous comprenez? A gente é assediado por toda sorte de perguntas impertinentes, sobre datas, horas etc. – e continuou: – O senhor conheceu a criança?

– Oh, sim. Os Reynolds são muito conhecidos aqui. Conheço a maioria das pessoas que residem por aqui. Nós todos nos conhecemos em Woodleigh Common, embora em graus diversos. Com uns se tem intimidade, com outros, amizade, alguns são menos conhecidos, e assim por diante.

– Que tal Joyce, como era ela?

– Era uma menina... como diria?... sem importância. Tinha uma voz muito feia. Estridente. Realmente, é tudo de que me lembro a seu respeito. Não gosto muito de crianças. Na sua maioria me aborrecem. Joyce me aborrecia. Quando conversava, só falava de si própria.

– Era atraente?

Michael Garfield olhou um tanto surpreso. – Não achava – respondeu. – Por quê? Tinha de ser?

– No meu ponto de vista as pessoas destituídas de atrativo não têm possibilidade de serem assassinadas. Mata-se por cobiça, por medo ou por amor. São as alternativas, mas precisamos de um ponto de partida... Interrompeu-se e olhou o relógio. – Vou andando. Tenho um compromisso a atender. Mais uma vez, minhas felicitações. Hercule Poirot continuou, seguindo o caminho e escolhendo cuidadosamente onde pisar. Estava contente porque desta vez não estava usando seus sapatos de couro apertado. Michael Garfield não foi a única pessoa que ele encontrou naquele dia no jardim encantado. Quando chegou à parte mais baixa, observou que três sendas conduziam a três direções diversas. À entrada do caminho do meio, sentada sobre o tronco de uma árvore caída, uma menina o esperava. Ela esclareceu isso imediatamente. – Creio que o senhor seja Hercule Poirot, não é? – disse ela. Sua voz era clara, límpida como o som de um sino. Era uma criaturinha frágil. Havia algo nela que se compunha com o jardim encantado. Uma dríade ou alguma entidade parecida com um duende.

– Sim, sou Hercule Poirot.

– Vim encontrá-lo – disse a menina. – O senhor vai tomar chá conosco, não vai?

– Com a Sra. Butler e com a Sra. Oliver? Sim.

– É isso mesmo. É mamãe e tia Ariadne. E acrescentou, com um tom de censura: – O senhor está atrasado.

– Sinto muito. Parei para conversar com uma pessoa.

– Sim, eu vi. O senhor estava conversando com Michael Garfield, não estava?

– Você o conhece?

– É claro. Moramos aqui há muito tempo. Conheço todo mundo. Poirot se perguntava quantos anos ela teria. Perguntou-lhe e ela respondeu. – Tenho 12 anos. Vou para o internato no ano que vem.

– Vai gostar disso ou não?

– Não sei, só saberei depois que estiver lá. Não creio que goste tanto daqui, pelo menos tanto quanto gostava. – E acrescentou: – Acho que é bom o senhor me acompanhar agora. Faça o favor.

– Mas, certamente, atrasado.

– Oh, não tem importância.

– Como você se chama?

– Miranda.

– Este nome lhe assenta bem – disse Poirot.

– O senhor está pensando em Shakespeare?

– Sim. Você o estuda na escola?

– Sim. A Srta. Emlyn nos leu trechos de suas obras. Pedi a mamãe para me ler mais. Gostei dele. Soa maravilhosamente. Um admirável mundo novo. Não há nada disso realmente, há?

– Você não acredita nele?

– O senhor acredita?

– Há sempre um admirável mundo novo, disse Poirot –, mas, sabe, só para algumas categorias especiais de pessoas. As felizes. Aquelas que trazem dentro de si mesmas a criação desse mundo.

– Oh, compreendo – disse Miranda, com um ar de quem compreendeu com a máxima facilidade, embora Poirot se perguntasse o que ela teria compreendido. Miranda virou-se, começou a andar e disse: – Vamos por este caminho. Não é muito longe. Podemos passar pela cerca de nosso jardim. Depois olhou por cima de seu ombro e apontou dizendo: – Ali no meio havia uma fonte.

– Uma fonte?

– Sim, anos atrás. Acho que está ainda ali, debaixo de arbustos, azáleas e outras coisas. Como o senhor vê, está tudo em ruínas. Todo mundo leva pedaços dela e ninguém constrói uma nova.

– É pena.

– Não sei. Não estou certa. O senhor gosta muito de fontes?

– Ça dépend – disse Poirot.

– Eu sei um pouco de francês – disse Miranda. – Isso quer dizer: "Depende", não é?

– Está correto. Você é uma menina muito instruída.

– Todo o mundo diz que a Srta. Emlyn é uma excelente professora. É a nossa diretora. É rígida e severa, mas às vezes muito interessante nas coisas que nos conta.

– Então é certamente uma boa professora, disse Hercule Poirot. Você conhece este lugar muito bem. Parece conhecer todos os atalhos. Vem aqui frequentemente?

– Oh, sim, é um de meus passeios favoritos. Ninguém sabe onde estou, quando venho para cá. Sento-me nas árvores, em cima de galhos e observo as coisas. Eu gosto disso. Ver as coisas acontecerem.

– Que espécie de coisas?

– Principalmente pássaros e esquilos. Os pássaros são muito briguentos, não são? Não são como naquele trecho de poesia que diz "os pássaros em seus ninhozinhos se combinam". Não é verdade, é? E observo os esquilos.

– E as pessoas também?

– Às vezes. Mas muito pouca gente vem aqui.

– Mas, por quê?

– Acho que têm medo.

– E por que teriam medo?

– Porque alguém foi assassinado aqui há muito tempo. Quero dizer, antes de ser um jardim. Isso aqui outrora era uma pedreira, e havia um montão de cascalho e areia, e foi lá que a encontraram. O senhor acredita no velho ditado: "Nasceste para ser enforcado ou nasceste para ser afogado?"

– Ninguém nasce para ser enforcado hoje em dia. Não se enforca ninguém neste país.

– Mas enforcam em outros. Enforcam nas ruas. Li isso nos jornais.

– Ah. E você acha que isso é bom ou ruim? A reação de Miranda não foi estritamente em resposta à questão, mas Poirot achou que poderia ser.

– Joyce foi afogada – disse ela. – Mamãe não quis me dizer, mas isso é uma tolice, não é? Afinal de contas já tenho 12 anos.

– Era amiga de Joyce?

– Sim, de certo modo éramos muito amigas. Ela me contava às vezes coisas muito interessantes. Muitas histórias sobre elefantes e rajás. Esteve uma vez na Índia. Eu gostaria muito de ir à Índia. Joyce e eu gostávamos de contar nossos segredos uma à outra. Eu não tenho tanto para contar como mamãe. Mamãe esteve na Grécia, como o senhor sabe. Foi ali que ela conheceu tia Ariadne, mas não me levou.

– Quem lhe falou sobre Joyce?

– Foi a Sra. Perring, nossa cozinheira. Ela estava conversando com a Sra. Minden, que veio fazer a faxina. Alguém segurou a cabeça dela dentro de um balde de água.

– Você não tem nenhuma ideia de quem poderia ter sido esse alguém?

– Acho que não. Elas não pareciam saber, mas ambas na realidade são um tanto estúpidas.

– Você sabe, Miranda?

– Eu não fui à festa. Estava com dor de garganta e um pouco febril, e mamãe não me levou. Mas acho que poderia saber. Porque ela foi afogada. Foi por isso que perguntei se o senhor acha que alguém nascia para ser afogado. Vamos agora pela cerca. Cuidado com a roupa.

Poirot acompanhava seu guia. A passagem do Jardim da Pedreira para a cerca se ajustava melhor à delicada compleição de elfo de sua pequena condutora – era praticamente uma autoestrada para ela. Miranda, entretanto, tinha todo cuidado com Poirot, chamando a atenção para arbustos espinhosos e afastando os ramos da cerca que poderiam arranhá-los. Saíram num lugar do jardim perto de um monte de esterco e passaram por uma horta abandonada em frente à qual estavam duas latas de lixo. Dali para diante, um jardim pequeno mas limpo, quase todo plantado de roseiras, dava fácil acesso ao modesto bangalô. Miranda, tomando a dianteira, passou por uma porta envidraçada e anunciou com o modesto orgulho de um colecionador que acabasse de apanhar uma espécie rara de besouro: – Ei-lo.

– Miranda, você não devia tê-lo trazido pela cerca. Devia ter vindo pelo caminho do portão lateral.

– Este caminho é o melhor – disse Miranda. Mais rápido e mais curto.

– E muito mais penoso, creio.

– Ah, já não tenho certeza – disse a Sra. Oliver –, eu o apresentei à minha amiga, a Sra. Butler?

– Naturalmente. No correio. A mencionada apresentação tinha sido questão de segundos, numa fila diante do guichê. Poirot tinha agora a oportunidade de estudar bem de perto a amiga da Sra. Oliver. Antes tinha visto uma mulher esbelta, com um turbante e uma capa impermeável que escondiam o corpo e a compleição. Judith Butler era uma mulher de cerca de 35 anos; enquanto a filha se parecia com uma dríade ou uma ninfa dos bosques, Judith tinha mais os atributos de uma náiade. Poderia ter sido uma virgem no Reno. Seus cabelos eram louros e compridos e caíam-lhe macios sobre os ombros. Tinha feições delicadas, rosto comprido e face ligeiramente côncava, sobre as quais pairavam dois olhos grandes, verdes, cor do mar, guarnecidos de longos cílios. – Estou muito contente, Sr. Poirot, por ter aceito nosso convite disse a Sra. Butler. – Foi bondade de sua parte vir aqui a pedido de Ariadne.

– Os pedidos de minha amiga, a Sra. Oliver, para mim são ordens, disse Poirot.

– Que disparate – disse a Sra. Oliver.

– Ela está certa, certa mesmo, de que o senhor será capaz de deslindar tudo a respeito daquele brutal acontecimento. Miranda, querida, quer ir à cozinha? Os bolinhos de trigo estão na bandeja em cima do forno. Miranda saiu, dirigindo à mãe um sorriso inteligente que traduzia tanto quanto pode traduzir um sorriso: "Ela quer que eu me retire por alguns instantes."

– Preferiria que ela não ficasse sabendo dessa coisa horrível que aconteceu – disse a mãe de Miranda. Mas desde o começo vi logo que não era possível.

– Realmente – concordou Poirot. – Não há nada que se espalhe num bairro residencial com tanta rapidez como a notícia de um acidente, e sobretudo de um acidente fatal. E, de qualquer maneira – continuou –, não se pode viver sem saber o que acontece em torno de nós. E as crianças, particularmente, parecem mais predispostas a essas coisas.

– Não me lembro se foi Burns ou Sir Walter Scott que disse: "Há uma criança no meio de vós que observa", disse a Sra. Oliver –, certamente sabia do que estava falando.

– Joyce Reynolds parece certamente ter observado alguma coisa como um assassinato – observou a Sra. Butler. – Mas é difícil acreditar nisso.

– Acreditar que Joyce o viu?

– Quero dizer, acreditar que tendo ela visto tal coisa não tivesse falado disso há mais tempo. Não era muito provável da parte de Joyce.

– A primeira coisa que todo mundo parece me dizer, observou Poirot numa voz suave – é que Joyce era uma grande mentirosa.

– Acho possível – disse Judith Butler – que uma criança possa inventar uma coisa e depois essa coisa possa se tornar verdadeira.

– Esse é certamente o ponto de onde começamos – disse Poirot. Joyce Reynolds foi assassinada. Disso não há a menor sombra de dúvida.

– E você efetivamente já deve saber tudo a respeito – disse a Sra. Oliver.

– Madame, não me peça coisas impossíveis. A senhora está sempre apressada.

Por que não? – perguntou a Sra. Oliver. – Ninguém hoje em dia consegue nada se não tiver pressa.

Miranda entrou naquele momento com um prato cheio de bolinhos de trigo. – Posso pôr aqui? – perguntou. – Espero que tenham terminado de conversar, não? Ou gostariam ainda de que eu fosse para a cozinha?

Havia uma leve malícia em sua voz. A Sra. Butler colocou o bule de chá, de prata georgiana, no réchaud, ligou uma chaleira elétrica desligada imediatamente antes de entrar em ebulição, encheu o bule e o serviu. Miranda oferecia bolinhos quentes e sanduíches de pepino com elegância e seriedade. – Ariadne e eu nos conhecemos na Grécia, disse Judy.

– Eu caí no mar – disse a Sra. Oliver – quando voltávamos de uma das ilhas. O mar estava encapelado, e os marinheiros sempre dizem "salte" e, é claro, dizem salte exatamente quando a coisa está no seu ponto mais favorável, mas a gente não pensa no que pode acontecer, fica-se indecisa, perde-se o controle e se salta quando parece perto e, é claro, é exatamente o momento em que se afasta mais – fez uma pausa para respirar. – Judith ajudou a me pescar, e isso estabeleceu uma espécie de vínculo entre nós, não foi?

– Sem dúvida – respondeu a Sra. Butler. Além disso, gostei muito de seu nome de batismo – acrescentou. – Pareceu muito apropriado.

– Sim, um nome grego – disse a Sra. Oliver. – Mas é meu nome mesmo, não pseudônimo para efeitos literários. Mas nada do que aconteceu a Ariadne me aconteceu. Nunca fui abandonada numa ilha grega por meu próprio e verdadeiro amor ou coisa semelhante.

Poirot escondeu com a mão no bigode o ligeiro sorriso que não pôde conter ao imaginar a Sra. Oliver no papel de uma donzela grega desterrada.

– Não podemos todos viver de acordo com nossos nomes – ponderou a Sra. Butler.

– É claro que não. Não posso concebê-la cortando a cabeça de seu amado. Não foi assim que aconteceu? Quer dizer, refiro-me a Judith e Holofernes.

– Ela cumpriu seu dever patriótico – disse a Sra. Butler –, pelo qual, se não me engano, foi altamente louvada e recompensada.

– Não estou bem a par da história de Judith e Holofernes. O livro é apócrifo, não é? Apesar disso, por falar em nomes, as pessoas dão aos outros, quero dizer, aos filhos, alguns nomes esquisitos, não dão? Quem pregou pregos na cabeça de alguém? Jael ou Sisera. Nunca me lembro quem era o homem e quem era a mulher nessa história. Jael, acho. Não me recordo de já ter visto alguma criança batizada com o nome de Jael. – disse Miranda inesperadamente, fazendo uma pausa quando já ia retirar a bandeja do chá.

– Não fique me olhando – disse Judith Butler à amiga – não fui eu que iniciei Miranda nos apócrifos. Isso faz parte de seu programa escolar.

– Coisa fora do comum para as escolas de hoje, não é? – observou a Sra. Oliver. – Em vez disso, lhes incutem ideias éticas.

– Menos a Srta. Emlyn – disse Miranda. – Ela afirma que se formos à igreja hoje em dia só ouviremos a versão moderna da Bíblia nas lições e tudo o mais, que não tem qualquer mérito literário. Que precisamos no mínimo ler, de vez em quando, a prosa excelente e os versos brancos da Versão Autorizada. Eu gostei muito da história de Jael e Sisera, acrescentou. – Não é o tipo de coisa – disse pensativa – que eu pensaria em fazer. Enfiar pregos na cabeça de alguém adormecido.

– Espero que não – disse a mãe.

– E como você se desfaria de seus inimigos, Miranda?, perguntou Poirot.

– Eu seria muito bondosa – respondeu Miranda num tom pouco contemplativo. – Seria mais difícil, mas preferiria fazer assim porque não gosto de coisas que cortam. Usaria uma espécie de droga que cause eutanásia. Eles dormiriam, teriam belos sonhos, só que não acordariam mais.

Retirou algumas xícaras vazias, o pão e a manteigueira. – Vou lavar a louça, mamãe, não quer levar o Sr. Poirot para ver o jardim? Há ainda algumas rosas Rainha Elizabeth lá no fundo.

Miranda saiu da sala, carregando cuidadosamente a bandeja de chá. – É uma garota extraordinária essa Miranda, disse a Sra. Oliver.

– A senhora tem uma linda menina, Madame – observou Poirot.

– Sim, agora eu a acho bonita. Não se sabe com que vão se parecer quando estão crescendo. Ficam gorduchas e às vezes até se parecem com porquinhos cevados. Mas, agora, ela se parece com uma ninfa dos bosques.

– Não é de admirar que goste tanto do Jardim da Pedreira, aqui ao lado de sua casa.

– Preferiria às vezes que não gostasse tanto. A gente fica preocupada com pessoas que vivem vagando por lugares isolados, mesmo que estejam perto de outras pessoas. Oh, hoje em dia tem-se medo de tudo. Esta é a razão pela qual o senhor veio investigar a desgraça que aconteceu a Joyce. Pois até que saibamos quem foi, não teremos um só minuto de sossego, quer dizer, por nossos filhos. Quer levar o Sr. Poirot ao jardim, Ariadne? Em um ou dois minutos estarei lá também. A Sra. Butler apanhou duas xícaras e um prato que estavam ainda sobre a mesa e os levou para a cozinha. Poirot e a Sra. Oliver saíram pela porta envidraçada. O pequeno jardim se parecia muito com a maioria dos jardins de outono. Havia ainda algumas velas de varetas douradas e margaridas de São Miguel numa extremidade, e algumas roseiras Rainha Elizabeth mantinham ainda levantadas suas cabeças cor-de-rosa já sem vida. A Sra. Oliver caminhou rapidamente para onde havia um banco de pedra, sentou-se e convidou Poirot para sentar-se a seu lado.

– Você disse que Miranda se parecia com uma ninfa dos bosques. E o que acha de Judith?

– Acho que o nome de Judith deveria ser Ondina – disse Poirot.

– Sim, uma ninfa das águas. É como se tivesse acabado de sair das águas do Reno ou do mar ou de um lago da floresta, ou coisa que o valha. Tem-se a impressão de que seus cabelos estão molhados. Não que pareça descuidado ou desordenado, não é?

– É também uma senhora muito amável disse Poirot.

– O que você acha dela?

– Ainda não tive tempo para pensar. Apenas acho que é bonita e atraente e que algo a preocupa muito.

– É claro, como não se preocupar?

– Eu gostaria, Madame, que a senhora me contasse tudo que sabe ou pensa a seu respeito.

– Bem, eu a fiquei conhecendo muito durante a excursão. Como você sabe, temos muito poucos amigos íntimos. Uma ou duas pessoas, e basta. Quanto ao resto gostamos uns dos outros e tudo mais, mas, na realidade, não sentimos necessidade de estar com elas. Mas com uma ou duas pessoas, sim, experimentamos essa necessidade. Bem, Judith é uma dessas pessoas com quem gosto sempre de me encontrar.

– A senhora a conhecia antes da viagem?

– Não.

– E sabe alguma coisa a respeito dela?

– Sei apenas coisas comuns. É viúva – disse a Sra. Oliver. – O marido morreu há muitos anos. Era piloto de avião. Morreu num acidente de carro. Acho que foi uma daquelas coisas amontoadas que se desprendem daquela máquina, que, numa noite, estava rodando perto daqui na estrada de cascalho, como é que se chama? Ah, macadame, ou algo dessa espécie. Acho que ele não a deixou em boa situação. Deve ter ficado muito abalada com o acontecimento. Ela não gosta de tocar no assunto.

– Miranda é filha única?

– Sim. Judith é secretária de meio expediente aqui na vizinhança, mas nunca teve emprego fixo.

– Ela conhecia as pessoas que moravam na Mansão da Pedreira?

– O senhor se refere ao velho coronel e à Sra. Weston?

– Não, refiro-me à antiga proprietária, a Sra. Llewellyn-Smythe.

– Acho que sim. Tenho a impressão de já ter ouvido esse nome. Mas ela morreu há dois ou três anos, de modo que não se ouve mais falar dela com muita frequência. Não lhe bastam as pessoas que estão vivas?, perguntou a Sra. Oliver com certa irritação.

– É claro que não – respondeu Poirot. Preciso também investigar sobre as pessoas que morreram ou que desapareceram de cena.

– Quem desapareceu? – Uma au pair girl, uma acompanhante.

– Ah, bom – disse a Sra. Oliver. – Elas estão sempre desaparecendo, não é? Isto é, aparecem por aqui, ganham seu dinheiro, depois vão para um hospital porque engravidaram, têm um neném, chamam-no Augusto, ou Hans ou Boris, ou outro nome assim. Ou vêm para se casar com alguém, ou para seguir algum jovem por quem se apaixonaram. O senhor não acreditaria nas coisas que minhas amigas me contam! Parece que essa história de au pair girl é sempre assim: ou elas são um presente do céu para mães sobrecarregadas que, por isso, não querem se separar delas, ou roubam nossas meias ou são assassinadas... A Sra. Oliver interrompeu-se. – Oh!

– Acalme-se, Madame – disse Poirot. – Não parece haver motivo para crer que uma acompanhante foi assassinada. Muito pelo contrário...

– O que quer dizer com muito pelo contrário? Isso não tem sentido.

– Talvez não tenha. Todavia... Poirot tirou sua caderneta e fez uma anotação. – O que você está escrevendo aí?

– Certas coisas que me ocorreram no passado.

– O senhor parece muito perturbado com o passado.

– O passado é o pai do presente, afirmou Poirot sentenciosamente. E ofereceu à Sra. Oliver sua caderneta de anotações.

– Quer ler o que escrevi?

– Quero, é claro. Ouso afirmar que não significará nada para mim. As coisas que o senhor acha importantes eu nunca acho. Poirot lhe estendeu sua caderneta preta. "Mortes: e.g. Sra. Llewellyn-Smythe (rica). Janet White (professora). Empregado de escritório de advocacia – apunhalado, anteriormente processado por crime de falsificação." E, mais embaixo, estava escrito: "Desaparece ópera girl".

– O que é ópera girl?

– É a palavra que minha amiga irmã de Spence usa para chamar o que você e eu conhecemos por au pair girl.

– Por que teria desaparecido?

– Porque possivelmente enfrentaria dificuldades com a lei.

O dedo de Poirot apontou para a anotação seguinte. Uma simples palavra: "Falsificação" com dois sinais de interrogação.

– Falsificação? – perguntou a Sra. Oliver. – Por que falsificação?

– É o que me pergunto. Por que falsificação?

– Que espécie de falsificação?

– De um testamento, ou melhor, de um codicilo a testamento. Um codicilo a favor da au pair girl.

– Influência indevida – sugeriu a Sra. Oliver.

– Uma falsificação é algo muito mais grave do que influência indevida – observou Poirot.

– Não vejo o que é que isso poderia ter a ver com o assassinato da pobre Joyce.

– Nem eu – disse Poirot. – Mas, por esse motivo, é interessante.

– E a palavra seguinte? Não consigo lê-la.

– Elefantes.

– Não vejo que relação isso possa ter com alguma coisa.

– Poderia ter – disse Poirot –, creia-me, poderia ter. Levantou-se.

– Preciso ir andando – disse ele. – Queira desculpar-me com minha anfitriã por não lhe apresentar minhas desculpas. Gostei muito de tê-la conhecido e à encantadora e extraordinária filha dela. Diga-lhe que tenha cuidado com ela.

– Minha mãe dizia que eu nunca devia brincar com as crianças no bosque – citou a Sra. Oliver. – Bem, até logo. Se gosta de ser misterioso, acho que continuará sendo misterioso. Nunca diz o que vai fazer em seguida...

– Tenho encontro marcado amanhã de manhã com os Srs. Fullerton, Harrison e Leadbetter em Medchester.

– Por quê?

– Para falar sobre falsificação e outros assuntos.

– E depois?

– Preciso falar também com uma certa pessoa que também estava presente.

– À festa?

– Não, aos preparativos para a festa.