A nova razão do mundo

Pierre Dardot · Capítulo 2 de 20

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A nova razão do mundo

Sobre A nova razão do mundo, por Nilton Ota

Sobre A nova razão do mundo

Nilton Ota

 

Compreender o capitalismo é tomar a sério, com todas as consequências

políticas, a heterogeneidade de sua morfologia social e suas modalidades

práticas de dominação. É também reconhecer a necessidade de nomeá-lo a

partir de sua atualidade histórica. Eis a tarefa crítica assumida por Pierre

Dardot e Christian Laval em A nova razão do mundo, uma das mais

inventivas interpretações do capitalismo contemporâneo feita nos últimos

anos e que desembarca no Brasil em boa e dramática hora.

A aplicação de recursos analíticos pouco ortodoxos, que concilia

filologia dos conceitos e investigação histórico-social, conforma o propósito

dos autores de realizar a genealogia do governo neoliberal. Nesse programa

de investigação, o neoliberalismo resulta de um processo histórico de

construção estratégica. Seus princípios de controle pressupõem, como nas

doutrinas liberais clássicas, a liberdade, mas uma outra que não a fundada

sobre a relação diacrítica com a autoridade estatal. A liberdade neoliberal

seria extraída da concorrência mercantil, cuja lógica terminaria por se

generalizar para todas as esferas sociais, entre as quais o Estado, de agora

em diante transformado em ente horizontal, em situação de competição com

todos os outros agentes econômicos privados. Longe de ser simplesmente

uma ideologia, o neoliberalismo configuraria uma racionalidade política

global, que prescindiria de qualquer teleologia ou continuidade substantiva

com as antigas formas do liberalismo.

Certamente, o “espírito” do capitalismo ainda convoca condutas, mas

seu corpo não se deixa mais animar pela subjetivação das normas que um

dia fizeram a lei e os valores da sociedade liberal. A intensidade do

engajamento e da mobilização subjetiva, inscrita nas disposições

individuais da “empresa de si” e na busca da eficácia pela eficácia,

maximização dos objetivos divorciada do cálculo pela melhor relação entre

meios e fins, revelaria o núcleo normativo dessa nova razão do mundo. Daí

por que a democracia seja, a um só tempo, seu alvo e o que a coloca em

risco.