A nova razão do mundo
Sobre A nova razão do mundo, por Nilton Ota
Sobre A nova razão do mundo
Nilton Ota
Compreender o capitalismo é tomar a sério, com todas as consequências
políticas, a heterogeneidade de sua morfologia social e suas modalidades
práticas de dominação. É também reconhecer a necessidade de nomeá-lo a
partir de sua atualidade histórica. Eis a tarefa crítica assumida por Pierre
Dardot e Christian Laval em A nova razão do mundo, uma das mais
inventivas interpretações do capitalismo contemporâneo feita nos últimos
anos e que desembarca no Brasil em boa e dramática hora.
A aplicação de recursos analíticos pouco ortodoxos, que concilia
filologia dos conceitos e investigação histórico-social, conforma o propósito
dos autores de realizar a genealogia do governo neoliberal. Nesse programa
de investigação, o neoliberalismo resulta de um processo histórico de
construção estratégica. Seus princípios de controle pressupõem, como nas
doutrinas liberais clássicas, a liberdade, mas uma outra que não a fundada
sobre a relação diacrítica com a autoridade estatal. A liberdade neoliberal
seria extraída da concorrência mercantil, cuja lógica terminaria por se
generalizar para todas as esferas sociais, entre as quais o Estado, de agora
em diante transformado em ente horizontal, em situação de competição com
todos os outros agentes econômicos privados. Longe de ser simplesmente
uma ideologia, o neoliberalismo configuraria uma racionalidade política
global, que prescindiria de qualquer teleologia ou continuidade substantiva
com as antigas formas do liberalismo.
Certamente, o “espírito” do capitalismo ainda convoca condutas, mas
seu corpo não se deixa mais animar pela subjetivação das normas que um
dia fizeram a lei e os valores da sociedade liberal. A intensidade do
engajamento e da mobilização subjetiva, inscrita nas disposições
individuais da “empresa de si” e na busca da eficácia pela eficácia,
maximização dos objetivos divorciada do cálculo pela melhor relação entre
meios e fins, revelaria o núcleo normativo dessa nova razão do mundo. Daí
por que a democracia seja, a um só tempo, seu alvo e o que a coloca em
risco.