A nova razão do mundo

Pierre Dardot · Capítulo 5 de 20

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A nova razão do mundo

Prefácio à edição brasileira

 

 

Um sistema pós-democrático

 

O neoliberalismo tem uma história e uma coerência. Combatê-lo exige

não se deixar iludir, fazer uma análise lúcida dele. O conhecimento e a

crítica do neoliberalismo são indispensáveis. A esquerda radical e

alternativa não pode contentar-se com denúncias e slogans, muitas vezes

confusos, parciais ou atemporais. Assim, é errado dizer que estamos lidando

com o “capitalismo”, sempre igual a ele mesmo, e com suas contradições,

que inevitavelmente levariam à ruína final. Eficácia política pressupõe uma

análise precisa, documentada, circunstanciada e atualizada da situação. O

capitalismo é indissociável da história de suas metamorfoses, de seus

descarrilhamentos, das lutas que o transformam, das estratégias que o

renovam. O neoliberalismo transformou profundamente o capitalismo,

transformando profundamente as sociedades.

Nesse sentido, o neoliberalismo não é apenas uma ideologia, um tipo de

política econômica. É um sistema normativo que ampliou sua influência ao

mundo inteiro, estendendo a lógica do capital a todas as relações sociais e a

todas as esferas da vida.

A obra que você lerá, e que finalmente está disponível em português

graças à editora Boitempo, foi escrita no período de gestação da crise

financeira mundial de 2008. Foi publicada no momento em que se podia

constatar a amplidão dos estragos causados pelo neoliberalismo. A convicção que tínhamos ao escrevê-la possuía fundamento: a crise não foi

suficiente para fazer o neoliberalismo desaparecer. Muito pelo contrário, a

crise apareceu para as classes dominantes como uma oportunidade

inesperada. Melhor, como um modo de governo. Ficou demonstrado que o‐

neoliberalismo, apesar dos desastres que engendra, possui uma notável

capacidade de autofortalecimento. Ele fez surgir um sistema de normas e

instituições que comprime as sociedades como um nó de forca. As crises

não são para ele uma ocasião para limitar-se, como aconteceu em meados

do século XX, mas um meio de prosseguir cada vez com mais vigor sua

trajetória de ilimitação. O capitalismo, com ele, não parece mais capaz de

encontrar compensações, contrapartidas, compromissos. A maneira como a

crise de 2008 foi provisoriamente superada, com uma inundação de moeda

especulativa emitida pelos bancos centrais, mostra que a lógica neoliberal

escapa de maneira extraordinariamente perigosa.

O acúmulo de tensões e problemas não resolvidos, o reforço de

tendências desigualitárias e desequilíbrios especulativos preparam dias cada

vez mais difíceis para as populações. No entanto, o caráter sistêmico do

dispositivo neoliberal torna qualquer inflexão das políticas conduzidas

muito difícil, ou mesmo impossível, no próprio âmbito do sistema.

Compreender politicamente o neoliberalismo pressupõe que se compreenda

a natureza do projeto social e político que ele representa e promove desde

os anos 1930. Ele traz em si uma ideia muito particular da democracia, que,

sob muitos aspectos, deriva de um antidemocratismo: o direito privado

deveria ser isentado de qualquer deliberação e qualquer controle, mesmo

sob a forma do sufrágio universal. Essa é a razão pela qual a lógica não

controlada de autofortalecimento e radicalização do neoliberalismo

obedece, hoje, a um cenário histórico que não é o dos anos 1930, quando

ocorreu uma revisão das doutrinas e das políticas do “laissez-faire”. Esse

sistema fechado impede qualquer autocorreção de trajetória, em particular

em razão da desativação do jogo democrático e até mesmo, sob certos

aspectos, da política como atividade. O sistema neoliberal está nos fazendo

entrar na era pós-democrática.

Na ausência de margens de manobra, o confronto político com o

sistema neoliberal enquanto tal é inevitável. Mas esse confronto também é problemático, porque é difícil reunir as condições em que ele se dá. O

sistema neoliberal é instaurado por forças e poderes que se apoiam uns nos

outros em nível nacional e internacional. Oligarquias burocráticas e

políticas, multinacionais, atores financeiros e grandes organismos

econômicos internacionais formam uma coalização de poderes concretos

que exercem certa função política em escala mundial. Hoje, a relação de

forças pende inegavelmente a favor desse bloco oligárquico.

Além dos fatores sociológicos e políticos, os próprios móbeis subjetivos

da mobilização são enfraquecidos pelo sistema neoliberal: a ação coletiva

se tornou mais difícil, porque os indivíduos são submetidos a um regime de

concorrência em todos os níveis. As formas de gestão na empresa, o

desemprego e a precariedade, a dívida e a avaliação, são poderosas

alavancas de concorrência interindividual e definem novos modos de

subjetivação. A polarização entre os que desistem e os que são bem-

sucedidos mina a solidariedade e a cidadania. Abstenção eleitoral,

dessindicalização, racismo, tudo parece conduzir à destruição das condições

do coletivo e, por consequência, ao enfraquecimento da capacidade de agir

contra o neoliberalismo.

O sofrimento causado por essa subjetivação neoliberal, a mutilação que

ela opera na vida comum, no trabalho e fora dele, são tais que não podemos

excluir a possibilidade de uma revolta antineoliberal de grande amplitude

em muitos países. Mas não devemos ignorar as mutações subjetivas

provocadas pelo neoliberalismo que operam no sentido do egoísmo social,

da negação da solidariedade e da redistribuição e que podem desembocar

em movimentos reacionários ou até mesmo neofascistas. As condições de

um confronto de grande amplitude entre lógicas contrárias e forças adversas

em escala mundial estão se avolumando.

A esquerda somente poderá tirar partido disso se souber remediar a

pane de imaginação que vem sofrendo. A falência histórica do comunismo

de Estado contribuiu em muito para sua ruína. Se quisermos ultrapassar o

neoliberalismo, abrindo uma alternativa positiva, temos de desenvolver uma

capacidade coletiva que ponha a imaginação política para trabalhar a partir

das experimentações e das lutas do presente. O princípio do comum que

emana hoje dos movimentos, das lutas e das experiências remete a um sistema de práticas diretamente contrárias à racionalidade neoliberal e

capazes de revolucionar o conjunto das relações sociais. Essa nova razão

que emerge das práticas faz prevalecer o uso comum sobre a propriedade

privada exclusiva, o autogoverno democrático sobre o comando hierárquico

e, acima de tudo, torna a coatividade indissociável da codecisão – não há

obrigação política sem participação em uma mesma atividade. Como

escrevemos nas últimas linhas deste livro, precisamos trabalhar por uma

outra razão do mundo.

 

Pierre Dardot e Christian Laval

Fevereiro de 2016