A nova razão do mundo
Prefácio à edição brasileira
Um sistema pós-democrático
O neoliberalismo tem uma história e uma coerência. Combatê-lo exige
não se deixar iludir, fazer uma análise lúcida dele. O conhecimento e a
crítica do neoliberalismo são indispensáveis. A esquerda radical e
alternativa não pode contentar-se com denúncias e slogans, muitas vezes
confusos, parciais ou atemporais. Assim, é errado dizer que estamos lidando
com o “capitalismo”, sempre igual a ele mesmo, e com suas contradições,
que inevitavelmente levariam à ruína final. Eficácia política pressupõe uma
análise precisa, documentada, circunstanciada e atualizada da situação. O
capitalismo é indissociável da história de suas metamorfoses, de seus
descarrilhamentos, das lutas que o transformam, das estratégias que o
renovam. O neoliberalismo transformou profundamente o capitalismo,
transformando profundamente as sociedades.
Nesse sentido, o neoliberalismo não é apenas uma ideologia, um tipo de
política econômica. É um sistema normativo que ampliou sua influência ao
mundo inteiro, estendendo a lógica do capital a todas as relações sociais e a
todas as esferas da vida.
A obra que você lerá, e que finalmente está disponível em português
graças à editora Boitempo, foi escrita no período de gestação da crise
financeira mundial de 2008. Foi publicada no momento em que se podia
constatar a amplidão dos estragos causados pelo neoliberalismo. A convicção que tínhamos ao escrevê-la possuía fundamento: a crise não foi
suficiente para fazer o neoliberalismo desaparecer. Muito pelo contrário, a
crise apareceu para as classes dominantes como uma oportunidade
inesperada. Melhor, como um modo de governo. Ficou demonstrado que o‐
neoliberalismo, apesar dos desastres que engendra, possui uma notável
capacidade de autofortalecimento. Ele fez surgir um sistema de normas e
instituições que comprime as sociedades como um nó de forca. As crises
não são para ele uma ocasião para limitar-se, como aconteceu em meados
do século XX, mas um meio de prosseguir cada vez com mais vigor sua
trajetória de ilimitação. O capitalismo, com ele, não parece mais capaz de
encontrar compensações, contrapartidas, compromissos. A maneira como a
crise de 2008 foi provisoriamente superada, com uma inundação de moeda
especulativa emitida pelos bancos centrais, mostra que a lógica neoliberal
escapa de maneira extraordinariamente perigosa.
O acúmulo de tensões e problemas não resolvidos, o reforço de
tendências desigualitárias e desequilíbrios especulativos preparam dias cada
vez mais difíceis para as populações. No entanto, o caráter sistêmico do
dispositivo neoliberal torna qualquer inflexão das políticas conduzidas
muito difícil, ou mesmo impossível, no próprio âmbito do sistema.
Compreender politicamente o neoliberalismo pressupõe que se compreenda
a natureza do projeto social e político que ele representa e promove desde
os anos 1930. Ele traz em si uma ideia muito particular da democracia, que,
sob muitos aspectos, deriva de um antidemocratismo: o direito privado
deveria ser isentado de qualquer deliberação e qualquer controle, mesmo
sob a forma do sufrágio universal. Essa é a razão pela qual a lógica não
controlada de autofortalecimento e radicalização do neoliberalismo
obedece, hoje, a um cenário histórico que não é o dos anos 1930, quando
ocorreu uma revisão das doutrinas e das políticas do “laissez-faire”. Esse
sistema fechado impede qualquer autocorreção de trajetória, em particular
em razão da desativação do jogo democrático e até mesmo, sob certos
aspectos, da política como atividade. O sistema neoliberal está nos fazendo
entrar na era pós-democrática.
Na ausência de margens de manobra, o confronto político com o
sistema neoliberal enquanto tal é inevitável. Mas esse confronto também é problemático, porque é difícil reunir as condições em que ele se dá. O
sistema neoliberal é instaurado por forças e poderes que se apoiam uns nos
outros em nível nacional e internacional. Oligarquias burocráticas e
políticas, multinacionais, atores financeiros e grandes organismos
econômicos internacionais formam uma coalização de poderes concretos
que exercem certa função política em escala mundial. Hoje, a relação de
forças pende inegavelmente a favor desse bloco oligárquico.
Além dos fatores sociológicos e políticos, os próprios móbeis subjetivos
da mobilização são enfraquecidos pelo sistema neoliberal: a ação coletiva
se tornou mais difícil, porque os indivíduos são submetidos a um regime de
concorrência em todos os níveis. As formas de gestão na empresa, o
desemprego e a precariedade, a dívida e a avaliação, são poderosas
alavancas de concorrência interindividual e definem novos modos de
subjetivação. A polarização entre os que desistem e os que são bem-
sucedidos mina a solidariedade e a cidadania. Abstenção eleitoral,
dessindicalização, racismo, tudo parece conduzir à destruição das condições
do coletivo e, por consequência, ao enfraquecimento da capacidade de agir
contra o neoliberalismo.
O sofrimento causado por essa subjetivação neoliberal, a mutilação que
ela opera na vida comum, no trabalho e fora dele, são tais que não podemos
excluir a possibilidade de uma revolta antineoliberal de grande amplitude
em muitos países. Mas não devemos ignorar as mutações subjetivas
provocadas pelo neoliberalismo que operam no sentido do egoísmo social,
da negação da solidariedade e da redistribuição e que podem desembocar
em movimentos reacionários ou até mesmo neofascistas. As condições de
um confronto de grande amplitude entre lógicas contrárias e forças adversas
em escala mundial estão se avolumando.
A esquerda somente poderá tirar partido disso se souber remediar a
pane de imaginação que vem sofrendo. A falência histórica do comunismo
de Estado contribuiu em muito para sua ruína. Se quisermos ultrapassar o
neoliberalismo, abrindo uma alternativa positiva, temos de desenvolver uma
capacidade coletiva que ponha a imaginação política para trabalhar a partir
das experimentações e das lutas do presente. O princípio do comum que
emana hoje dos movimentos, das lutas e das experiências remete a um sistema de práticas diretamente contrárias à racionalidade neoliberal e
capazes de revolucionar o conjunto das relações sociais. Essa nova razão
que emerge das práticas faz prevalecer o uso comum sobre a propriedade
privada exclusiva, o autogoverno democrático sobre o comando hierárquico
e, acima de tudo, torna a coatividade indissociável da codecisão – não há
obrigação política sem participação em uma mesma atividade. Como
escrevemos nas últimas linhas deste livro, precisamos trabalhar por uma
outra razão do mundo.
Pierre Dardot e Christian Laval
Fevereiro de 2016