A nova razão do mundo
Introdução à edição inglesa (2014)
INTRODUÇÃO À EDIÇÃO INGLESA
(2014)[a]
“Ainda não terminamos com o neoliberalismo” era a primeira frase da
Introdução à primeira edição francesa deste livro, publicada em janeiro de
2009. Na época, queríamos dissipar o quanto antes as ilusões que surgiram
com a falência do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008. Muitos
pensavam, na Europa e nos Estados Unidos, que a crise financeira soara as
badaladas finais do neoliberalismo e que seria a vez do “retorno do Estado”
e da regulação dos mercados. Joseph Stiglitz percorria o mundo anunciando
“o fim do neoliberalismo”, e autoridades políticas, como o presidente
francês Nicolas Sarkozy, proclamavam a reabilitação da intervenção
governamental na economia.
Perigosas, uma vez que poderiam suscitar uma desmobilização política,
essas ilusões não tinham razões para nos deixar admirados: baseavam-se
num erro de diagnóstico amplamente compartilhado, o qual nossa obra
tinha o objetivo de combater. Enganar-se sobre a verdadeira natureza do
neoliberalismo, ignorar sua história, não enxergar suas profundas
motivações sociais e subjetivas era condenar-se à cegueira e continuar
desarmado diante do que não ia demorar a acontecer: longe de provocar o
enfraquecimento das políticas neoliberais, a crise conduziu a seu brutal
fortalecimento, na forma de planos de austeridade adotados por Estados
cada vez mais ativos na promoção da lógica da concorrência dos mercados financeiros. Parecia-nos, e hoje nos parece mais do que nunca, que a análise
da gênese e do funcionamento do neoliberalismo é condição para uma
resistência eficaz em escala europeia e mundial. Ainda que pretenda
respeitar os critérios da pesquisa científica, este livro não é acadêmico no
sentido tradicional do termo, mas pretende-se primeiro, e acima de tudo,
uma obra de esclarecimento político sobre essa lógica normativa global que
é o neoliberalismo. Em uma palavra, a compreensão do neoliberalismo é, a
nosso ver, uma questão estratégica universal.
Um erro de diagnóstico
A partir do fim dos anos 1970 e do início dos anos 1980, o
neoliberalismo foi interpretado em geral como se fosse ao mesmo tempo
uma ideologia e uma política econômica diretamente inspirada nessa
ideologia. O núcleo duro dessa ideologia seria constituído por uma
identificação do mercado com uma realidade natural [1]. Segundo essa
ontologia naturalista, bastaria deixar essa realidade por sua própria conta
para ela alcançar equilíbrio, estabilidade e crescimento. Qualquer
intervenção do governo só poderia desregular e perturbar esse curso
espontâneo, logo convinha estimular uma atitude abstencionista. O
neoliberalismo compreendido dessa forma apresenta-se como reabilitação
pura e simples do laissez-faire. Considerado do ponto de vista de sua
implantação política, foi analisado de pronto de forma muito estreita,
segundo a perspicaz observação de Wendy Brown:
Como instrumento da política econômica do Estado, com o desmantelamento dos
auxílios sociais, da progressividade do imposto e outras ferramentas de redistribuição
de riquezas de um lado e com o estímulo da atividade sem entraves ao capital
mediante a desregulamentação do sistema de saúde, do trabalho e do meio ambiente de
outro.[2]
Se admitirmos que sempre há “intervenção”, esta é unicamente no
sentido de uma ação pela qual o Estado mina os alicerces de sua própria
existência, enfraquecendo a missão do serviço público previamente confiada a ele. “Intervencionismo” exclusivamente negativo, poderíamos
dizer, que nada mais é que a face política ativa da preparação da retirada do
Estado por ele próprio, portanto, de um anti-intervencionismo como
princípio.
Não é nossa intenção contestar a existência e a difusão dessa ideologia,
tampouco negar que ela tenha alimentado as políticas econômicas
impulsionadas maciçamente a partir dos anos Reagan e Thatcher e
encontrado em Alan Greenspan, o “maestro de Wall Street”, seu adepto
mais fervoroso – com as consequências que todos conhecemos [3]. O que
Joseph Stiglitz chamou com justiça de “fanatismo do mercado” é, aliás, o
que os periódicos Wall Street Journal, The Economist e todos os
equivalentes ao redor do mundo sabem fomentar melhor entre seus
leitores [4]. Mas o neoliberalismo está muito distante de se resumir a um ato
de fé fanático na naturalidade do mercado. O grande erro cometido por
aqueles que anunciam a “morte do liberalismo” é confundir a representação
ideológica que acompanha a implantação das políticas neoliberais com a
normatividade prática que caracteriza propriamente o neoliberalismo. Por
isso, o relativo descrédito que atinge hoje a ideologia do laissez-faire não
impede de forma alguma que o neoliberalismo predomine mais do que
nunca enquanto sistema normativo dotado de certa eficiência, isto é, capaz
de orientar internamente a prática efetiva dos governos, das empresas e,
para além deles, de milhões de pessoas que não têm necessariamente
consciência disso. Este é o ponto principal da questão: como é que, apesar
das consequências catastróficas a que nos conduziram as políticas
neoliberais, essas políticas são cada vez mais ativas, a ponto de afundar os
Estados e as sociedades em crises políticas e retrocessos sociais cada vez
mais graves? Como é que, há mais de trinta anos, essas mesmas políticas
vêm se desenvolvendo e se aprofundando, sem encontrar resistências
suficientemente substanciais para colocá-las em xeque?
A resposta não é e não pode ser limitada apenas aos aspectos
“negativos” das políticas neoliberais, isto é, à destruição programada das
regulamentações e das instituições. O neoliberalismo não destrói apenas
regras, instituições, direitos. Ele também produz certos tipos de relações
sociais, certas maneiras de viver, certas subjetividades. Em outras palavras, com o neoliberalismo, o que está em jogo é nada mais nada menos que a
forma de nossa existência, isto é, a forma como somos levados a nos
comportar, a nos relacionar com os outros e com nós mesmos. O
neoliberalismo define certa norma de vida nas sociedades ocidentais e, para
além dela, em todas as sociedades que as seguem no caminho da
“modernidade”. Essa norma impõe a cada um de nós que vivamos num
universo de competição generalizada, intima os assalariados e as
populações a entrar em luta econômica uns contra os outros, ordena as
relações sociais segundo o modelo do mercado, obriga a justificar
desigualdades cada vez mais profundas, muda até o indivíduo, que é instado
a conceber a si mesmo e a comportar-se como uma empresa. Há quase um
terço de século, essa norma de vida rege as políticas públicas, comanda as
relações econômicas mundiais, transforma a sociedade, remodela a
subjetividade. As circunstâncias desse sucesso normativo foram descritas
inúmeras vezes. Ora sob seu aspecto político (a conquista do poder pelas
forças neoliberais), ora sob seu aspecto econômico (o rápido crescimento do
capitalismo financeiro globalizado), ora sob seu aspecto social (a
individualização das relações sociais às expensas das solidariedades
coletivas, a polarização extrema entre ricos e pobres), ora sob seu aspecto
subjetivo (o surgimento de um novo sujeito, o desenvolvimento de novas
patologias psíquicas). Tudo isso são dimensões complementares da nova
razão do mundo. Devemos entender, por isso, que essa razão é global, nos
dois sentidos que pode ter o termo: é “mundial”, no sentido de que vale de
imediato para o mundo todo; e, ademais, longe de limitar-se à esfera
econômica, tende à totalização, isto é, a “fazer o mundo” por seu poder de
integração de todas as dimensões da existência humana. Razão do mundo,
mas ao mesmo tempo uma “razão-mundo” [5].
O neoliberalismo como racionalidade
A tese defendida por esta obra é precisamente que o neoliberalismo,
antes de ser uma ideologia ou uma política econômica, é em primeiro lugar
e fundamentalmente uma racionalidade e, como tal, tende a estruturar e organizar não apenas a ação dos governantes, mas até a própria conduta dos
governados. A racionalidade neoliberal tem como característica principal a
generalização da concorrência como norma de conduta e da empresa como
modelo de subjetivação. O termo racionalidade não é empregado aqui
como um eufemismo que nos permite evitar a palavra “capitalismo”. O
neoliberalismo é a razão do capitalismo contemporâneo, de um capitalismo
desimpedido de suas referências arcaizantes e plenamente assumido como
construção histórica e norma geral de vida. O neoliberalismo pode ser
definido como o conjunto de discursos, práticas e dispositivos que
determinam um novo modo de governo dos homens segundo o princípio
universal da concorrência.
O conceito de “racionalidade política” foi elaborado por Michel
Foucault em relação direta com as pesquisas que dedicou à questão da
“governamentalidade”. Assim, encontramos na explanação do curso dado
no Collège de France em 1978-1979 – publicado com o título de
Nascimento da biopolítica[6] – uma apresentação do “plano de análise”
escolhido para o estudo do neoliberalismo: trata-se, diz Foucault, em
resumo, “de um plano de análise possível – o da ‘razão governamental’, isto
é, dos tipos de racionalidade que são empregados nos procedimentos pelos
quais se dirige, através de uma administração de Estado, a conduta dos
homens”[7]. Uma racionalidade política é, nesse sentido, uma racionalidade
“governamental”.
Devemos nos estender ainda sobre o sentido dessa noção de “governo”:
“Trata-se [...] não da instituição ‘governo’, mas da atividade que consiste
em reger a conduta dos homens no interior de um quadro e com
instrumentos de Estado” [8]. Foucault retoma várias vezes essa ideia do
governo como atividade, e não como instituição. Assim, no resumo do
curso do Collège de France intitulado Do governo dos vivos [b], essa noção é
“entendida no sentido amplo de técnicas e procedimentos destinados a
dirigir a conduta dos homens”[9]. Ou então, no prefácio à História da
sexualidade [c], há este esclarecimento retrospectivo de sua análise das
práticas punitivas: ele se diz interessado, acima de tudo, nos procedimentos
do poder, ou seja, “na elaboração e na implantação desde o século XVII de
técnicas para ‘governar’ os indivíduos, isto é, para ‘conduzir sua conduta’, e
isso em domínios tão diferentes quanto a escola, o Exército, a fábrica” [10].
O termo “governamentalidade” foi introduzido precisamente para significar
as múltiplas formas dessa atividade pela qual homens, que podem ou não
pertencer a um governo, buscam conduzir a conduta de outros homens, isto
é, governá-los.
É certo que o governo, longe de remeter à disciplina para alcançar o
mais íntimo do indivíduo, visa na verdade a obter um autogoverno do
indivíduo, isto é, produzir certo tipo de relação deste consigo mesmo. Em
1982, Foucault dirá que se interessa cada vez mais pelo “modo de ação que
um indivíduo exerce sobre si mesmo por meio das técnicas de si”, a ponto
de ampliar sua primeira concepção de governamentalidade, excessivamente
centrada nas técnicas de exercício do poder sobre os outros: “Chamo de
‘governamentalidade’ o encontro entre as técnicas de dominação exercidas
sobre os outros e as técnicas de si” [11]. Assim, governar é conduzir a
conduta dos homens, desde que se especifique que essa conduta é tanto
aquela que se tem para consigo mesmo quanto aquela que se tem para com
os outros. É nisso que o governo requer liberdade como condição de
possibilidade: governar não é governar contra a liberdade ou a despeito da
liberdade, mas governar pela liberdade, isto é, agir ativamente no espaço de
liberdade dado aos indivíduos para que estes venham a conformar-se por si
mesmos a certas normas.
Abordar a questão do neoliberalismo pela via de uma reflexão política
sobre o modo de governo modifica necessariamente a compreensão que se
tem dele. Em primeiro lugar, permite refutar análises simplistas em termos
de “retirada do Estado” diante do mercado, já que a oposição entre o
mercado e o Estado aparece como um dos principais obstáculos à
caracterização exata do neoliberalismo. Ao contrário de certa percepção
imediata, e de certa ideia demasiado simples, de que os mercados
conquistaram a partir de fora os Estados e ditam a política que estes devem
seguir, foram antes os Estados, e os mais poderosos em primeiro lugar, que
introduziram e universalizaram na economia, na sociedade e até neles
próprios a lógica da concorrência e o modelo de empresa. Não podemos
esquecer jamais que a expansão das finanças de mercado, assim como o
financiamento da dívida pública nos mercados de títulos, são fruto de políticas deliberadas. Como se vê até mesmo na atual crise na Europa, os
Estados adotam políticas altamente “intervencionistas”, que visam a alterar
profundamente as relações sociais, mudar o papel das instituições de
proteção social e educação, orientar as condutas criando uma concorrência
generalizada entre os sujeitos, e isso porque eles próprios estão inseridos
num campo de concorrência regional e mundial que os leva a agir dessa
forma. Mais uma vez, comprovamos as grandes análises de Marx, Weber ou
Polanyi segundo as quais o mercado moderno não atua sozinho: ele foi
sempre amparado pelo Estado. Em segundo lugar, a via da reflexão política
permite compreender que é uma mesma lógica normativa que rege as
relações de poder e as maneiras de governar em níveis e domínios muitos
diferentes da vida econômica, política e social. Ao contrário de uma leitura
do mundo social que o divide em campos autônomos, o fragmenta em
microcosmos e tribos separadas, a análise em termos de
governamentalidade destaca o caráter transversal dos modos de poder
exercidos no interior de uma sociedade numa mesma época.
Os limites do marxismo
Enfatizando o regime disciplinar imposto a todos pela lógica normativa
que se encarnou em instituições e dispositivos de poder cujo alcance hoje é
mundial, nosso pensamento difere um pouco de muitas das interpretações
do neoliberalismo dadas até o momento. Não contestamos que as políticas
neoliberais foram impostas primeiro pela mais criminosa das violências no
Chile, na Argentina, na Indonésia e em outros lugares, com o apoio decisivo
dos países capitalistas, a começar pelos Estados Unidos. O trabalho de
Naomi Klein, muito bem documentado a respeito desse ponto, continua
obrigatório[12]. Nesse aspecto, há uma frase de Marx que não envelheceu:
“Na história real, como se sabe, o papel principal é desempenhado pela
conquista, a subjugação, o assassínio para roubar, em suma, a violência”[13].
Esse parto na violência revela, em primeiro lugar, o fato de que se trata de
uma guerra que se trava por todos os meios disponíveis, inclusive o terror,
e que se aproveita de todas as ocasiões possíveis para implantar o novo regime de poder e a nova forma de existência. Por isso, se reduzíssemos o
neoliberalismo à aplicação do programa econômico da Escola de Chicago
pelos métodos da ditadura militar, enveredaríamos pelo caminho errado.
Convém não confundir estratégia geral com métodos particulares. Estes
dependem das circunstâncias locais, das relações de forças e das fases
históricas: podem tanto empregar a brutalidade do putsch militar como a
sedução eleitoreira das classes médias; podem usar e abusar da chantagem
do emprego e do crescimento e aproveitar os déficits e as dívidas como
pretexto para as “reformas estruturais”, como fazem há muito tempo o
Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia. O
questionamento da democracia toma caminhos diversos, que nem sempre
têm a ver com a “terapia de choque”, mas, sim, e sobretudo, com o que
Wendy Brown chamou, com justiça, de processo de “desdemocratização”,
que consiste em esvaziar a democracia de sua substância sem a extinguir
formalmente.
Não há dúvida de que há uma guerra sendo travada pelos grupos
oligárquicos, na qual se misturam de forma específica, a cada ocasião, os
interesses da alta administração, dos oligopólios privados, dos economistas
e das mídias (sem mencionar o Exército e a Igreja). Mas essa guerra visa
não apenas a mudar a economia para “purificá-la” das más ingerências
públicas, como também a transformar profundamente a própria sociedade,
impondo-lhe a fórceps a lei tão pouco natural da concorrência e o modelo
da empresa. Para isso, é preciso enfraquecer as instituições e os direitos que
o movimento operário conseguiu implantar a partir do fim do século XIX, o
que pressupõe uma guerra longa, contínua e muitas vezes silenciosa,
qualquer que seja a amplidão do “choque” que sirva de pretexto para
determinada ofensiva.
Portanto, é fundamental compreender como se exerce hoje a violência
comum, rotineira, que pesa sobre os indivíduos, à maneira de Marx talvez,
quando observava que a dominação do capital sobre o trabalho recorria
apenas excepcionalmente à violência extraeconômica – e exercia-se mais
comumente na forma de uma “coerção muda” inserida nas palavras e nas
coisas[14]. Todavia, não se trata mais de se perguntar como, de maneira
geral, as relações capitalistas impõem-se à consciência operária como “leis naturais evidentes”; trata-se de compreender, mais especificamente, como a
governamentalidade neoliberal escora-se num quadro normativo global
que, em nome da liberdade e apoiando-se nas margens de manobra
concedidas aos indivíduos, orienta de maneira nova as condutas, as escolhas
e as práticas desses indivíduos.
Assim, não podemos nos contentar com as lições de Karl Marx nem de
Rosa Luxemburgo para desvelar o segredo dessa estranha faculdade do
neoliberalismo de se estender por toda a parte, apesar de suas crises e das
revoltas que suscita em todo o mundo. Por razões teóricas básicas, a
interpretação marxista, por mais atual que seja, revela-se de uma
insuficiência gritante nesse caso. O neoliberalismo emprega técnicas de
poder inéditas sobre as condutas e as subjetividades. Ele não pode ser
reduzido à expansão espontânea da esfera mercantil e do campo de
acumulação do capital. Não que se deva defender, contra o determinismo
monocausal de certo marxismo, a relativa autonomia da política,
simplesmente porque o neoliberalismo, por muitos de seus aspectos
doutrinais e nas políticas que desenvolve, não separa “a economia” do
quadro jurídico-institucional que determina as práticas próprias da “ordem
concorrencial” mundial e nacional.
Embora tenham previsto a crise financeira de 2008, as interpretações
marxistas nem sempre conseguem captar a novidade do capitalismo
neoliberal: fechando-se numa concepção que faz da “lógica do capital” um
motor autônomo da história, elas reduzem a história a uma repetição dos
mesmos roteiros, com as mesmas personagens vestidas com novos figurinos
e as mesmas intrigas situadas em novos cenários. Em outras palavras, a
história do capitalismo nunca é mais do que o desenvolvimento de uma
mesma essência sempre idêntica a si mesma, aquém de suas formas
fenomenais e fases, e, no fundo, leva de crise em crise até a ruína final. O
neoliberalismo, entendido desse modo, é a um só tempo a máscara e o
instrumento das finanças, as quais são o sujeito histórico real. Para Gérard
Duménil e Dominique Lévy, o neoliberalismo “restaurou as regras mais
estritas do capitalismo” (“Neoliberalism has restored the strictest rules of
capitalism”) [15], permitindo ao poder do capital continuar sua marcha
multissecular sob formas que se renovam por meio das crises. O próprio David Harvey, embora muito mais cuidadoso com a novidade do
neoliberalismo, continua a aderir a um esquema explicativo muito pouco
original[16]. Para ele, a crise da acumulação nos anos 1960, marcada pela
estagflação e pela diminuição dos lucros, teria incitado a burguesia a ir à
“desforra”, empregando por ocasião dessa crise, e para sair dela, o projeto
social formulado pelos teóricos da Sociedade Mont-Pèlerin. O Estado
neoliberal, para além de seus traços específicos e a despeito de seu
intervencionismo, continua a ser visto como um simples instrumento nas
mãos de uma classe capitalista desejosa de restaurar uma relação de força
favorável vis-à-vis aos trabalhadores e, desse modo, aumentar sua parte na
distribuição de renda. O aumento das desigualdades e o crescimento da
concentração de renda e patrimônio que podemos constatar hoje confirmam
a existência dessa vontade inicial [17]. No fundo, tudo reside na resposta de
Duménil e Lévy à pergunta “Quem lucra com o crime?” (“Who benefits
from the crime?”) [18]: como são as finanças que lucram, são elas que desde
o princípio estão no comando da manobra. Temos aqui um paralogismo
recorrente que consiste em confundir o beneficiário do crime com seu autor,
como se o surgimento de uma nova forma social devesse ser reconduzido à
consciência de um ou mais estrategistas como sua fonte ou seu foco
genuíno e como se o recurso à intencionalidade de um sujeito fosse o
princípio último de toda inteligibilidade histórica.
Mas, se a explicação é sedutora, é justamente porque, contrariando as
lições de Marx, ela toma os resultados históricos de um processo por
objetivos decididos logo de início com plena consciência. A incontestável
polarização de riqueza e pobreza a que levou a implantação das políticas
neoliberais basta por si só para explicar sua natureza. Esta, no fundo, seria
apenas a eterna tendência do capital de se autovalorizar mediante a
expansão da mercadoria. Não teria acontecido nada de muito diferente
desde 1867, quando Marx expôs o jogo das leis da acumulação capitalista,
fazendo a mercadoria, forma elementar da riqueza burguesa, remontar à
acumulação original que produz as condições históricas da transformação
da mercadoria e do dinheiro em capital. Na medida em que a análise de
Marx faz da relação salarial como relação mercantil sui generis o coração
do capitalismo, essa crítica tende logicamente a privilegiar a relação mercantil como modelo de toda relação social – o neoliberalismo
equivaleria, assim, à mercantilização implacável de toda a sociedade. É o
que Duménil e Lévy sustentam quando escrevem: “Finally neoliberalism is
indeed the bearer of a process of general commodification of social
relationships” [“em última análise, o neoliberalismo é o portador de um
processo de mercantilização generalizada das relações sociais”] [19].
David Harvey concorda largamente com essa tese. O que ele designa
como “acumulação por despossessão”, expressão que sob sua caneta remete
ao significado mais profundo de “neoliberalização” da sociedade, tem como
efeito a expansão a priori ilimitada da mercantilização [20]. Contudo, ele
acrescenta uma pincelada ao quadro – mérito que lhe deve ser reconhecido
– quando sublinha que os métodos da “suposta acumulação original”
perduraram muito além do surgimento do capitalismo industrial e quando
considera Karl Polanyi o historiador do capitalismo mais pertinente para se
compreender como, ainda hoje, a intervenção pública é necessária para
construir mercados e criar “mercadorias fictícias”. Mas o verdadeiro motor
da história continua a ser o poder do capital, que subordina o Estado e a
sociedade, colocando-os a serviço de sua acumulação cega.
Esse esquema, amplamente compartilhado pelo movimento
altermundialista, tem algumas fraquezas. Além de fazer da economia a
única dimensão do neoliberalismo, pressupõe que a burguesia é um sujeito
histórico que perdura no tempo, que preexiste às relações de luta que engaja
com as outras classes e que somente precisou alertar, influenciar e
corromper os políticos para que estes abandonassem as políticas
keynesianas e as fórmulas de compromisso entre o trabalho e o capital. Em
Harvey, esse cenário entra em contradição com o reconhecimento de que as
classes mudaram profundamente ao longo do processo de neoliberalização
– a ponto de novas burguesias terem surgido diretamente dos aparelhos
comunistas em certos países (oligarcas na Rússia, príncipes vermelhos na
China) – e é incoerente com a análise bastante precisa das formas
específicas de intervenção do Estado neoliberal.
Na realidade, não houve um grande complô nem uma doutrina pré-
fabricada que os políticos teriam aplicado com cinismo e determinação para
satisfazer as expectativas de seus poderosos amigos do mundo dos negócios. A lógica normativa que acabou se impondo constituiu-se ao longo
de batalhas inicialmente incertas e de políticas frequentemente tateantes. A
sociedade neoliberal em que vivemos é fruto de um processo histórico que
não foi integralmente programado por seus pioneiros; os elementos que a
compõem reuniram-se pouco a pouco, interagindo uns com os outros,
fortalecendo uns aos outros. Da mesma forma como não é resultado direto
de uma doutrina homogênea, a sociedade neoliberal não é reflexo de uma
lógica do capital que suscita as formas sociais, culturais e políticas que lhe
convém à medida que se expande. A explicação marxista clássica esquece
que a crise de acumulação a que o neoliberalismo supostamente responde,
longe de ser uma crise de um capitalismo sempre igual a si mesmo, tem a
particularidade de estar ligada às regras institucionais que até então
enquadravam certo tipo de capitalismo. Consequentemente, a originalidade
do neoliberalismo está no fato de criar um novo conjunto de regras que
definem não apenas outro “regime de acumulação”, mas também, mais
amplamente, outra sociedade. Tocamos aqui num ponto fundamental. Na
concepção marxista, o capitalismo é, antes de tudo, um “modo de
produção” econômico que, como tal, é independente do direito e gera a
ordem jurídico-política de que necessita a cada estágio de seu
autodesenvolvimento. Ora, longe de pertencer a uma “superestrutura”
condenada a exprimir ou obstruir o econômico, o jurídico pertence de
imediato às relações de produção, na medida em que molda o econômico a
partir de dentro. “O inconsciente dos economistas”, como diz Foucault, que
é na verdade o inconsciente de todo economicismo, seja liberal, seja
marxista, é precisamente a instituição, e é justamente a instituição que o
neoliberalismo, em particular em sua versão ordoliberal, quer reconduzir a
uma posição determinante [21].
Tocamos aqui num ponto fundamental, cuja implicação política tem a
ver com a questão da possibilidade de sobrevivência do capitalismo além de
suas crises, uma possibilidade que, como bem sabemos, foi discutida
novamente no auge da crise de novembro de 2008. Se nos colocarmos sob
uma perspectiva marxista, a lógica única e necessária da acumulação do
capital determina a unicidade do capitalismo: “Há na verdade apenas um
capitalismo, porque há apenas uma lógica do capital”, como observa
Foucault[22]. As contradições que a sociedade capitalista manifesta em todas
as épocas são as contradições do capitalismo tout court. Por exemplo, se
seguirmos a análise do Livro I de O capital, a consequência da lei geral da
acumulação capitalista é uma tendência à centralização dos capitais, da qual
a concorrência, juntamente com o crédito, é a principal alavanca. A
tendência à centralização está, portanto, na própria lógica da concorrência
como uma “lei natural”, a da “atração do capital pelo capital”[23]. Mas se
pensarmos como os ordoliberais – e, depois deles, como os economistas
“regulacionistas”[24] – que a figura atual do capitalismo, longe de poder se
deduzir diretamente da lógica do capital, não passa de “uma figura
econômico-institucional” historicamente singular, devemos convir, então,
que a forma do capitalismo e os mecanismos da crise são efeito contingente
de certas regras jurídicas, não consequência necessária das leis da
acumulação capitalista. Por conseguinte, são suscetíveis de ser superadas à
custa de transformações jurídico-institucionais. Em última análise, o que
justifica o intervencionismo jurídico reivindicado pelo neoliberalismo é
que, quando se lida com um capitalismo singular, é possível intervir nesse
conjunto de maneira a inventar outro capitalismo, diferente do primeiro, o
qual constituirá uma configuração singular determinada por um conjunto de
regras jurídico-políticas. Em vez de um modo econômico de produção cujo
desenvolvimento é comandado por uma lógica que age à maneira de uma
“lei natural” implacável, o capitalismo é um “complexo econômico-
jurídico” que admite uma multiplicidade de figuras singulares. É por isso
também que devemos falar de sociedade neoliberal, e não apenas de
política neoliberal ou economia neoliberal – embora seja inegavelmente
uma sociedade capitalista, essa sociedade diz respeito a uma figura singular
do capitalismo que exige ser analisada como tal em sua irredutível
especificidade. Vemos, pois, que a análise da governamentalidade
neoliberal atinge indiretamente, como que por tabela, a concepção marxista
do capitalismo em seu essencialismo.
Não é só isso. A interpretação marxista do neoliberalismo nem sempre
compreendeu que a crise dos anos 1960-1970 não era redutível a uma “crise
econômica” no sentido clássico. Nesses termos, ela é estreita demais para
captar a extensão das transformações sociais, culturais e subjetivas introduzidas pela difusão das normas neoliberais em toda a sociedade.
Porque o neoliberalismo não é apenas uma resposta a uma crise de
acumulação, ele é uma resposta a uma crise de governamentalidade. É, na
verdade, nesse contexto muito específico de contestação generalizada que
Foucault situa o advento de uma nova maneira de conduzir os indivíduos
que pretende satisfazer a aspiração de liberdade em todos os domínios,
tanto sexual e cultural como econômico. Para resumirmos, ele teve a
intuição de que o que se decidia naqueles anos era uma crise aguda das
formas até então dominantes de poder. Compreendeu, contra o
economicismo, que não se podem isolar as lutas dos trabalhadores das lutas
das mulheres, dos estudantes, dos artistas e dos doentes, e pressentiu que a
reformulação dos modos de governo dos indivíduos nos diversos setores da
sociedade e as respostas dadas às lutas sociais e culturais estavam
encontrando, com o neoliberalismo, uma possível coerência teórica e
prática. Interessando-se de perto pela história do governo liberal, ele mostra
que aquilo que chamamos desde o século XVIII de “economia” está no
fundamento de um conjunto de dispositivos de controle da população e de
orientação das condutas (a “biopolítica”) que vão encontrar no
neoliberalismo uma sistematização inédita. Com este último, a concorrência
e o modelo empresarial constituem um modo geral de governo, muito além
da “esfera econômica” no sentido habitual do termo. E é precisamente o que
se pode observar por toda a parte. A exigência de “competitividade” tornou-
se um princípio político geral que comanda as reformas em todos os
domínios, mesmo os mais distantes dos enfrentamentos comerciais no
mercado mundial. Ela é a expressão mais clara de que estamos lidando não
com uma “mercantilização sorrateira”, mas com uma expansão da
racionalidade de mercado a toda a existência por meio da generalização da
forma-empresa. É essa “racionalização da existência” que, afinal, como
dizia Margaret Thatcher, pode “mudar a alma e o coração”. Nesse sentido,
basta pensarmos nos profundos estragos subjetivos que vinte anos de
“berlusconismo” produziram na Itália para termos uma ideia bastante
precisa dessas transformações. Embora se distinga de um marxismo
estreito, essa análise vai ao encontro de uma das intuições mais profundas de Marx, que compreendeu muito bem que um sistema econômico de
produção era também um sistema antropológico de produção.
A crise generalizada de um modo de governar
os homens
Enfatizando a dimensão produtora do neoliberalismo, essa análise nos
permite pensar a crise atual não mais como consequência de um “excesso
de finanças”, um efeito da “ditadura dos mercados” ou, então, uma
“colonização” dos Estados pelo capital. A crise que atravessamos aparece
como aquilo que é: uma crise global do neoliberalismo como modo de
governar as sociedades.
A crise atual do euro não é uma simples crise “monetária”, as crises dos
países do sul da Europa não são simples crises “orçamentárias”, assim
como a crise mundial que começou no outono de 2008 não é uma simples
crise “econômica”. Considerada isoladamente, a primeira pode aparecer
como uma espécie de réplica atrasada da crise dos subprimes, uma transição
entre uma crise da dívida privada e uma crise da dívida pública, sob o efeito
de mercados especulativos não controlados. Mas essa visão é estreita, ou
mesmo enganosa. A crise mundial é uma crise geral da
“governamentalidade neoliberal”, isto é, de um modo de governo das
economias e das sociedades baseado na generalização do mercado e da
concorrência. A crise financeira está profundamente ligada às medidas que,
desde o fim dos anos 1970, introduziram na esfera das finanças norte-
americanas e mundiais novas regras baseadas na generalização da
concorrência entre as instituições bancárias e os fundos de investimentos, o
que os levou a aumentar os níveis de risco e espalhá-los pelo resto da
economia para embolsar lucros especulativos colossais.
Tornou-se comum relacionar a crise ao “novo regime de acumulação
financeira”, caracterizado por uma instabilidade crônica que assiste à
formação sucessiva de “bolhas especulativas” e a seu estouro, mas é raro
que se diga que a financeirização do capitalismo em escala mundial é
apenas um dos aspectos de um conjunto de normas que envolveram progressivamente todos os aspectos da atividade econômica, da vida social
e da política dos Estados desde o fim dos anos 1970. A autonomia e o
inchaço da esfera financeira não são as causas primeiras e espontâneas de
um novo modo de acumulação capitalista. A hipertrofia financeira é antes o
efeito historicamente identificável de políticas que estimularam a
concorrência entre os atores nacionais e mundiais das finanças. Acreditar
que os mercados financeiros escaparam um belo dia da influência política é
puro e simples conto da carochinha. Foram os Estados e as organizações
econômicas mundiais, em estreita conivência com os atores privados, que
criaram as regras favoráveis a esse rápido crescimento das finanças de
mercado.
Se a crise financeira norte-americana mostrou sobre que bases instáveis
e desigualitárias funcionava o novo capitalismo mundial (especulação
cínica das finanças de mercado, sucessão de bolhas cada vez maiores,
polarização crescente entre as classes, submissão à dívida bancária das
populações das classes pobres e dos países periféricos etc.), a atual crise
europeia mostra que os fundamentos da construção europeia (“a ordem da
concorrência livre e não distorcida”) conduzem a assimetrias cada vez
maiores entre países mais ou menos “competitivos”. Porque é exatamente o
imperativo da “competitividade”, enaltecida por toda a parte como o único
“remédio”, que explica a especificidade da atual crise europeia. A corrida à
competitividade, na qual a Alemanha se lançou no início dos anos 2000
com sucesso crescente, nada mais é do que o efeito da implementação de
um princípio inserido na “Constituição europeia”: a competição entre as
economias europeias, combinada com a existência de uma moeda única
gerida por um banco central que garante a estabilidade dos preços, constitui
na verdade a própria base do edifício comunitário e o eixo dominante das
políticas nacionais. Isso significa que todo país-membro é livre para usar o
dumping fiscal mais agressivo a fim de atrair as multinacionais e os
contribuintes mais ricos, é livre para diminuir os salários e a proteção social
a fim de criar empregos à custa de seus vizinhos, é livre para tentar baixar
os custos de produção deslocando toda ou parte de sua produção e é livre
para reduzir as despesas públicas, inclusive com saúde e educação, a fim de
reduzir o nível dos descontos compulsórios. Enquanto princípio geral de governo, a “competitividade” representa precisamente a extensão da norma
neoliberal a todos os países, a todos os setores da ação pública, a todos os
domínios da vida social, e é a implementação dessa norma que leva à
diminuição da demanda por toda parte simultaneamente, sob o pretexto de
tornar a oferta mais “competitiva”, e à concorrência entre os assalariados
dos países europeus e dos outros países do mundo, o que acarreta deflação
salarial e desigualdades crescentes. A atitude da Renault na Espanha é
muito esclarecedora nesse sentido: apesar de elogiar a competitividade dos
funcionários espanhóis diante dos funcionários franceses, na Espanha a
direção do grupo não hesita em exaltar o exemplo da Romênia para pedir
aos funcionários que trabalhem de graça aos sábados [25].
Como explicar essa corrida suicida para ver quem será o campeão da
austeridade? Devemos culpar a falta de lucidez ou, mais profundamente,
vê-la como consequência de uma engrenagem concorrencial? No interior de
um sistema europeu baseado na concorrência e numa moeda única, a
pressão especulativa dos investidores privados sobre o mercado da dívida
pública e a pressão das agências de classificação de risco, sem falar da
impossibilidade de desvalorização da moeda, são todos aspectos de uma
mesma lógica disciplinadora com uma temível eficácia para rebaixar os
salários e diminuir a proteção social.
É incompreensível a obstinação, ou mesmo o fanatismo, com que os
especialistas dos governos, da União Europeia e do FMI perseguem essa tal
política de “austeridade”, se não levarmos em conta que eles estão presos a
um quadro normativo, tanto europeu como mundial, composto de regras de
direito públicas e privadas e “consensos” com valor de compromisso para o
futuro que eles próprios construíram ativamente durante décadas. Não
podendo e não querendo romper com esse quadro, são empurrados para
adaptar-se cada vez mais aos efeitos de sua própria política anterior. Nesse
sentido, os planos de austeridade que diminuem a renda da grande massa da
população são inseparáveis da vontade de gerir as economias e as
sociedades como empresas “lançadas na competição mundial”.
Aqui e ali, nos espaços onde a crítica ainda é possível, condenam-se os
“erros” das políticas europeias de austeridade, que, repetindo os equívocos
dos anos 1930, agravam a depressão onde quer que sejam adotadas e levam sociedades inteiras a uma regressão social que até pouco tempo atrás era
inimaginável. Paul Krugman aconselha há anos um aumento da despesa
pública para pôr a máquina novamente em movimento [26]. Mas devemos ir
mais longe na análise para compreender por quais encadeamentos fatais os
governos “técnicos” da Grécia, da Espanha, de Portugal ou da Itália, mas
também o governo “socialista” da França, foram levados a implantar
políticas tão contrárias ao “bom senso”, já que reduzem a demanda e
aniquilam os empregos quando deveriam ser expansionistas e gerar
atividade. Boas almas keynesianas ou pós-keynesianas podem até alegar
que essas políticas violentamente aplicadas no sul da Europa são não apenas
contrárias ao bem-estar da maioria, como fatais para o crescimento e até
para a sobrevivência da construção europeia, mas não conseguirão
convencer com simples argumentos os dirigentes europeus, os meios
financeiros e todos os especialistas e os jornalistas que se encarregaram de
justificar o suicídio coletivo. Continuar a acreditar que o neoliberalismo não
passa de uma “ideologia”, uma “crença”, um “estado de espírito” que os
fatos objetivos, devidamente observados, bastariam para dissolver, como o
sol dissipa a névoa matinal, é travar o combate errado e condenar-se à
impotência. O neoliberalismo é um sistema de normas que hoje estão
profundamente inscritas nas práticas governamentais, nas políticas
institucionais, nos estilos gerenciais. Além disso, devemos deixar claro que
esse sistema é tanto mais “resiliente” quanto excede em muito a esfera
mercantil e financeira em que reina o capital. Ele estende a lógica do
mercado muito além das fronteiras estritas do mercado, em especial
produzindo uma subjetividade “contábil” pela criação de concorrência
sistemática entre os indivíduos. Pense-se em particular na generalização dos
métodos de avaliação no ensino público oriundos da empresa: a longa greve
dos professores de Chicago em setembro de 2012 obstruiu, ao menos
momentaneamente, um projeto de avaliação dos professores de acordo com
o desempenho de seus alunos em testes elaborados sob medida para
permitir a avaliação dos professores por meio da avaliação dos alunos, com
a possibilidade de demissão do professor cujos alunos não apresentassem
resultados satisfatórios. Pense-se igualmente como o endividamento crônico
é produtor de subjetividade e acaba se tornando um verdadeiro “modo de vida” para centenas de milhares de indivíduos: o movimento dos estudantes
do Québec pôs em evidência a lógica infernal do endividamento para toda a
vida que seria imposto pela alta brutal das taxas de matrícula. O que está em
jogo nesses exemplos é a construção de uma nova subjetividade, o que
chamamos de “subjetivação contábil e financeira”, que nada mais é do que
a forma mais bem-acabada da subjetivação capitalista. Trata-se, na verdade,
de produzir uma relação do sujeito individual com ele mesmo que seja
homóloga à relação do capital com ele mesmo ou, mais precisamente, uma
relação do sujeito com ele mesmo como um “capital humano” que deve
crescer indefinidamente, isto é, um valor que deve valorizar-se cada vez
mais. Como podemos ver, não são tanto as teorias falsas que devem ser
combatidas, ou as condutas imorais que devem ser denunciadas, mas é todo
um quadro normativo que deve ser desmantelado e substituído por outra
“razão do mundo”. Esse é o desafio das lutas sociais atuais, que decidirão a
continuação – ou até mesmo a radicalização – dessa lógica neoliberal ou, ao
contrário, seu fim.
Quanto ao Estado, com o qual alguns ainda contam ingenuamente para
“controlar” os mercados, a crise mostrou até que ponto ele se fez o
coprodutor voluntário das normas de competitividade, à custa de todas as
considerações de salvaguarda das condições mínimas de bem-estar, saúde e
educação da população. Mas a crise mostrou também que o Estado, pela
defesa incondicional que fazia do sistema financeiro, era parte interessada
nas novas formas de sujeição do assalariado ao endividamento de massa
que caracteriza o funcionamento do capitalismo contemporâneo. O Estado
neoliberal não é, portanto, um “instrumento” que se possa utilizar
indiferentemente para finalidades contrárias. Enquanto “Estado-
estrategista”, codecididor dos investimentos e das normas, ele é uma peça
da máquina que se deve combater.
Atingindo a Europa, a crise mundial agiu como um indicador brutal e
impiedoso. Pôs a nu as ilusões sobre as quais a Europa se construiu até
hoje: a crença de que se podia construir a Europa política sobre o êxito
econômico e a prosperidade material, “constitucionalizando” as normas do
equilíbrio orçamentário, da estabilidade monetária e da concorrência. A
crise da Europa é uma crise de seus fundamentos. Não basta “reorientar” a Europa em direção ao crescimento, ou “resolver o déficit democrático” da
Europa, coroando o grande mercado com a superestrutura institucional de
um Estado federal sem mexer em suas fundações. Não é o telhado da “casa
Europa” que é frágil, mas suas fundações, que estão rachando de todos os
lados. É preciso compreender quão intimamente os três aspectos da Europa
atual estão ligados entre si: constitucionalização da concorrência e da regra
de ouro orçamentária, “federalismo executivo” consagrando a supremacia
do intergovernamental e a importância secundária dos direitos sociais[27].
Em particular, o fato de que o Parlamento não tenha nenhum poder de
iniciativa no campo legislativo, que a Comissão Europeia, instância não
eleita, seja a única habilitada a propor leis e disponha de poder de veto em
matéria de legislação e que essa mesma Comissão Europeia e o Conselho
dos Ministros (que não têm nenhuma responsabilidade em relação ao
Parlamento) sejam considerados órgãos independentes, encarregados de
promover o “interesse geral”, não é em absoluto um concurso fortuito de
circunstâncias; ao contrário, existe nisso uma coerência institucional forte,
que repousa no princípio antidemocrático segundo o qual a independência
em relação aos cidadãos é a melhor garantia para perseguir o interesse
geral. Assim, é preciso refundar a Europa, isto é, no sentido exato do termo,
dar a ela novas fundações. À diferença dos tratados precedentes, esse ato
não pode ser negociado e implantado por uma instância intergovernamental,
nem mesmo depender do monopólio de um Parlamento. Ele só pode ser um
ato dos cidadãos europeus.
Liberalismo clássico e neoliberalismo
Para além da questão política, abordar o estudo do neoliberalismo pela
governamentalidade não deixa de levar a certos desvios em relação às
abordagens dominantes ou às linhas de clivagem estabelecidas. Esta obra
propõe-se examinar os caracteres diferenciais que especificam a
governamentalidade neoliberal. Portanto, não se trata aqui de procurar
restabelecer uma simples continuidade entre liberalismo e neoliberalismo,
como se costuma fazer, mas sublinhar o que constitui propriamente a novidade do neoliberalismo, o que implicar ir contra a tendência que
consiste em apresentar o neoliberalismo como um “retorno” ao liberalismo
original ou uma “restauração” deste último após o longo eclipse que se
seguiu à crise dos anos 1890-1900. As consequências políticas dessa
confusão para a esquerda são facilmente discerníveis. Como toda
regulamentação da vida econômica é considerada por definição a- ou
antiliberal, é um dever apoiá-la, sem levar em conta seu conteúdo ou, pior
ainda, prejulgando favoravelmente esse conteúdo [28].
O “primeiro liberalismo”, aquele que toma corpo no século XVIII,
caracteriza-se pela elaboração da questão dos limites do governo. O
governo liberal é enquadrado por “leis”, mais ou menos conjugadas: leis
naturais que fazem do homem o que ele é “naturalmente” e devem servir de
marco para a ação pública; leis econômicas, igualmente “naturais”, que
devem circunscrever e regular a decisão política. Contudo, por mais finas e
flexíveis que sejam as doutrinas do direito natural e da dogmática do
laissez-faire, as técnicas utilitaristas do governo liberal tentam orientar,
estimular e combinar os interesses individuais para fazê-los servir ao bem
geral. Embora nesse primeiro liberalismo haja certa concepção comum do
homem, da sociedade e da história, e a questão da limitação da ação
governamental seja central, a unidade do liberalismo “clássico” será cada
vez mais problemática, como mostram os caminhos divergentes que os
liberais seguirão no século XIX, entre o dogmatismo do laissez-faire e certo
reformismo social, uma divergência que resultará numa crise cada vez mais
marcada das antigas certezas [29].
A primeira parte desta obra mostra que, desde seu registro de
nascimento, na grande crise dos anos 1930, o neoliberalismo introduziu
uma distância, ou até um claro rompimento, em relação à versão dogmática
do liberalismo que se impôs no século XIX. A gravidade da crise desse
dogmatismo forçava uma revisão explícita e assumida do velho laissez-
faire. Combater o socialismo e todas as versões do “totalitarismo” exigia
um trabalho de refundação das bases intelectuais do liberalismo. É nessa
conjuntura de crise econômica, política e doutrinal que se opera uma
refundação “neoliberal” da doutrina que também não conduz a uma
doutrina completamente unificada. Duas grandes correntes vão se esboçar a partir do Colóquio Walter Lippmann, em 1938: a corrente do
ordoliberalismo alemão, representada sobretudo por Walter Eucken e
Wilhelm Röpke, e a corrente austro-americana, representada por Ludwig
von Mises e Friedrich A. Hayek.
A segunda parte do livro nos permitirá estabelecer que a racionalidade
neoliberal que realmente se desenvolve nos anos 1980-1990 não é a simples
implementação da doutrina elaborada nos anos 1930. Não passamos com
ela da teoria para a prática. Uma espécie de filtro, que não se deve a uma
seleção consciente e deliberada, retém alguns elementos em detrimento do
resto, em função de seu valor operatório ou estratégico em dada situação
histórica. Trata-se aqui não da ação de uma monocausalidade (da ideologia
para a economia ou vice-versa), mas de uma multiplicidade de processos
heterogêneos que resultaram, em razão de “fenômenos de coagulação,
apoio, reforço recíproco, coesão, integração”, nesse “efeito global” que é a
implantação de uma nova racionalidade governamental, no sentido definido
anteriormente[30].
O neoliberalismo, portanto, não é o herdeiro natural do primeiro
liberalismo, assim como não é seu extravio nem sua traição. Não retoma a
questão dos limites do governo do ponto em que ficou. O neoliberalismo
não se pergunta mais sobre que tipo de limite dar ao governo político, ao
mercado (Adam Smith), aos direitos (John Locke) ou ao cálculo da
utilidade (Jeremy Bentham), mas, sim, sobre como fazer do mercado tanto
o princípio do governo dos homens como o do governo de si (Parte I).
Considerado uma racionalidade governamental, e não uma doutrina mais
ou menos heteróclita, o neoliberalismo é precisamente o desenvolvimento
da lógica do mercado como lógica normativa generalizada, desde o Estado
até o mais íntimo da subjetividade (Parte II). É essa coerência prática e
normativa, mais do que a das fontes históricas e das teorias de referência,
que fundamenta nosso argumento. Este último, esclarecendo a forma como
se impõe e funciona em todos os níveis um certo sistema de normas, não
tem outro objetivo além de contribuir para a renovação do pensamento
crítico e a reinvenção das formas de luta.
[a] Originalmente publicado na França, em 2009, este livro teve uma edição inglesa, reduzida e adaptada em 2013 e revista em 2014. Embora a presente tradução tenha sido feita a partir do original francês, a edição que ora se apresenta ao leitor brasileiro incorporou, por meio de cotejo e com a supervisão dos autores, a redução, as adaptações e as correções da edição inglesa de 2014, entre elas, esta introdução revista e ampliada. (N. E.)
[1] Esse credo naturalista, que era o de Jean-Baptiste Say e Frédéric Bastiat, foi perfeitamente formulado nos seguintes termos pelo ensaísta francês Alain Minc: “O capitalismo não pode ruir, ele é o estado natural da sociedade. A democracia não é o estado natural da sociedade. O mercado, sim” (Cambio 16, Madri, 5 dez. 1994).
[2] Wendy Brown, Les habits neufs de la politique mondiale, néolibéralisme et néoconservatisme (trad. Christine Vivier, Philippe Mangeot e Isabelle Saint-Saëns, Paris, Les Prairies Ordinaires, 2007), p. 37. Esse ensaio incisivo nos ajudou muito a formular nossa própria compreensão do neoliberalismo.
[3] A lei, de Frédéric Bastiat [trad. Ronaldo da Silva Legey, 2. ed., Rio de Janeiro, Instituto Liberal, 1991], era o livro de cabeceira de Ronald Reagan no início dos anos 1960. Ver Alain Laurent, Le libéralisme américain (Paris, Les Belles Lettres, 2006), p. 177.
[4] Joseph Stiglitz, Un autre monde: contre le fanatisme du marché (trad. Paul Chemla, Paris, Fayard, 2006).
[5] A ideia de uma razão configuradora do mundo encontra-se em Max Weber, embora se refira essencialmente à ordem econômica capitalista, esse “imenso cosmo” que “impõe ao indivíduo pego nas armadilhas do mercado as normas de sua atividade econômica” (L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme, trad. Isabelle Kalinowski, Paris, Champs Flammarion, 2000, p. 93-4 [ed. bras.: A ética protestante e o espírito do capitalismo, trad. José Marcos Mariani de Macedo, ed. Antônio Flávio Pierucci, São Paulo, Companhia das Letras, 2012]). Contudo, numa passagem dessa mesma obra dedicada ao caráter “relativo” e “impessoal” do amor ao próximo no calvinismo, encontramos a expressão “configuração racional do cosmo social” (ibidem, p. 175). Nesse sentido, e desde que o social não seja reduzido a apenas mais uma das dimensões da existência humana, poderíamos dizer que a razão neoliberal é muito precisamente a razão de nosso “cosmo social”.
[6] Michel Foucault, Naissance de la biopolitique (Paris, Seuil/Gallimard, 2004) [ed. bras.: Nascimento da biopolítica, trad. Eduardo Brandão, São Paulo, Martins Fontes, 2008]. Esse curso constitui a referência central pela qual se ordena toda a análise do neoliberalismo ensaiada nesta obra.
[7] Ibidem, p. 327; reproduzido em Dits et écrits II (1976-1988) (Paris, Gallimard, 2001), p. 823. Sobre a noção de racionalidade política, ver ainda esta última obra, p. 818 e 1.645-6.
[8] Michel Foucault, Naissance de la biopolitique, cit., p. 324; reproduzido em Dits et écrits II, cit., p. 819.
[b] Trad. Eduardo Brandão, São Paulo, Martins Fontes, 2014. (N. E.)
[9] Michel Foucault, Dits et écrits II, cit., p. 944.
[c] Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2014-2015, 3 v. (N. E.)
[10] Michel Foucault, Dits et écrits II, cit., p. 1.401.
[11] Idem, “Les techniques de soi”, em Dits et écrits II, cit., p. 1.604. É nesse sentido amplo que será tomado aqui o termo “governamentalidade”.
[12] Naomi Klein, The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism (Londres, Penguin, 2008).
[13] Karl Marx, O capital: crítica da economia política, Livro I: O processo de produção do capital (trad. Rubens Enderle, São Paulo, Boitempo, 2013), cap. 24, p. 786.
[14] Ibidem, p. 808.
[15] Ver Gérard Duménil e Dominique Lévy, Capital Resurgent: Roots of the Neoliberal Revolution (trad. Derek Jeffers, Cambridge, Harvard University Press, 2004), p. 1.
[16] Ver David Harvey, A Brief History of Neoliberalism (Oxford, Oxford University Press, 2005) [ed. bras.: O neoliberalismo: história e implicações, São Paulo, Loyola, 2008].
[17] Harvey toma amplamente esse quadro explicativo de Duménil e Lévy, utilizando os gráficos construídos pelos autores para mostrar a evolução da distribuição de renda no capitalismo neoliberal.
[18] Título do capítulo 15 de Gérard Duménil e Dominique Lévy, Capital Resurgent, cit.
[19] Ibidem, p. 2.
[20] Ver a seção intitulada “The Commodification of Everything”, em David Harvey, A Brief History of Neoliberalism, cit., p. 165 e seg.
[21] Faremos aqui uma observação que tem sua importância. Muitos críticos do neoliberalismo tratam com enorme desprezo o objeto de seus ataques, como se não tivessem nada para aprender com seus adversários teóricos. Evidentemente, essa é uma atitude muito contrária à que Marx adotou em relação aos defensores do capitalismo liberal, assim como a de Foucault com relação aos neoliberais.
[22] Michel Foucault, Naissance de la biopolitique, cit., p. 170.
[23] Karl Marx, O capital, Livro I, cit., cap. 23, p. 702.
[24] Ver Robert Boyer e Yves Saillard, Regulation Theory: The State of the Art (Londres, Routledge, 2002).
[25] Ver “En France, Renault veut une compétitivité espagnole”, Le Monde, Paris, 8 nov. 2012.
[26] Paul Krugman, End this Depression Now (Nova York, W. W. Norton & Co., 2012).
[27] Lembramos que o Artigo 210-2 da Parte III do Tratado de Lisboa proíbe que os Estados tomem medidas que vão no sentido de uma harmonização social.
[28] Esse foi um dos argumentos mais invocados pelos líderes socialistas que tomaram a defesa da ratificação do Tratado Europeu durante a campanha do referendo na França.
[29] A edição francesa desta obra tem quatro capítulos iniciais, que foram excluídos das edições inglesa e brasileira, dedicados ao primeiro liberalismo.
[30] Michel Foucault, Sécurité, territoire, population (Paris, Seuil/Gallimard, 2004, Coleção Hautes Études), p. 244. Nessa passagem, o autor substitui a questão da atribuição de uma causa ou uma fonte única pela da constituição ou da composição dos efeitos globais como meio privilegiado de estabelecimento da inteligibilidade na história.