A nova razão do mundo

Pierre Dardot · Capítulo 16 de 20 · parte 1/3

Páginas do PDF

A nova razão do mundo

9 A fábrica do sujeito neoliberal

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

9

A FÁBRICA DO SUJEITO NEOLIBERAL

 

A concepção que vê a sociedade como uma empresa constituída de

empresas necessita de uma nova norma subjetiva, que não é mais

exatamente aquela do sujeito produtivo das sociedades industriais. O sujeito

neoliberal em formação, do qual gostaríamos de delinear aqui algumas das

características principais, é correlato de um dispositivo de desempenho e

gozo que foi objeto de inúmeros trabalhos. Não faltam hoje descrições do

homem “hipermoderno”, “impreciso”, “flexível”, “precário”, “fluido”, “sem

gravidade”. Esses trabalhos preciosos, e muitas vezes convergentes, no

cruzamento da psicanálise com a sociologia, revelam uma condição nova do

homem, a qual, para alguns, afetaria a própria economia psíquica.

De um lado, muitos psicanalistas dizem receber no consultório

pacientes que sofrem de sintomas que revelam uma nova era do sujeito.

Esse novo estado subjetivo é frequentemente referido na literatura clínica a

amplas categorias, como a “era da ciência” ou o “discurso capitalista”. O

fato de o histórico apropriar-se do estrutural não deveria surpreender os

leitores de Lacan, para quem o sujeito da psicanálise não é uma substância

eterna nem uma invariante trans-histórica, mas efeito de discursos que se

inserem na história e na sociedade[1]. De outro lado, no campo sociológico,

a transformação do “indivíduo” é um fato inegável. O que se designa no

mais das vezes com o termo equívoco de “individualismo” é remetido ora a mutações morfológicas, segundo a tradição durkheimiana, ora à expansão

das relações mercantis, segundo a tradição marxista, ora à extensão da

racionalização a todos os domínios da existência, segundo uma linha mais

weberiana.

Portanto, cada uma a sua maneira, psicanálise e sociologia registram

uma mutação do discurso sobre o homem que pode ser reportado, como em

Lacan, à ciência de um lado e ao capitalismo de outro: trata-se precisamente

de um discurso científico que, a partir do século XVII, começa a enunciar o

que o homem é e o que ele deve fazer; e é para fazer do homem esse animal

produtivo e consumidor, esse ser de labor e necessidade, que um novo

discurso científico se propôs redefinir a medida humana. Mas esse quadro

muito geral é ainda insuficiente para identificar como uma nova lógica

normativa se impôs nas sociedades ocidentais. Em particular, não permite

apontar as inflexões que a história do sujeito ocidental sofreu nos últimos

três séculos e, menos ainda, as transformações em curso que podem ser

reportadas à racionalidade neoliberal.

Se existe um novo sujeito, ele deve ser distinguido nas práticas

discursivas e institucionais que, no fim do século XX, engendraram a figura

do homem-empresa ou do “sujeito empresarial”, favorecendo a instauração

de uma rede de sanções, estímulos e comprometimentos que tem o efeito de

produzir funcionamentos psíquicos de um novo tipo. Alcançar o objetivo de

reorganizar completamente a sociedade, as empresas e as instituições pela

multiplicação e pela intensificação dos mecanismos, das relações e dos

comportamentos de mercado implica necessariamente um devir-outro dos

sujeitos. O homem benthamiano era o homem calculador do mercado e o

homem produtivo das organizações industriais. O homem neoliberal é o

homem competitivo, inteiramente imerso na competição mundial. Foi dessa

transformação que se falou nas páginas precedentes. Trataremos agora de

descrever mais sistematicamente suas múltiplas formas.

 

O sujeito plural e a separação das esferas

 

De onde devemos partir? Durante muito tempo, o sujeito ocidental dito

“moderno” pertenceu a regimes normativos e registros políticos que eram ao mesmo tempo heterogêneos e conflituosos: a esfera consuetudinária e

religiosa das sociedades antigas, a esfera da soberania política, a esfera da

troca mercantil. Esse sujeito ocidental vivia, portanto, em três espaços

diferentes: o dos serviços e das crenças de uma sociedade ainda ruralizada e

cristianizada; o dos Estados-nações e da comunidade política; e o do

mercado monetário do trabalho e da produção. Desde o início, essa divisão

foi movediça, e o desafio das relações de força e das estratégias políticas

era precisamente fixar e mudar suas fronteiras. As grandes lutas acerca da

própria natureza do regime político dão uma expressão singularmente

condensada disso. Mais importantes, porém mais difíceis de captar, são a

mudança progressiva das relações humanas, a transformação das práticas

cotidianas induzidas pela nova economia, os efeitos subjetivos das novas

relações sociais no espaço mercantil e das novas relações políticas no

espaço da soberania.

As democracias liberais eram universos de tensões múltiplas e impulsos

disjuntivos. Sem entrar em considerações que vão além de nosso propósito,

podemos descrevê-las como regimes que, dentro de certos limites,

permitiam e respeitavam um funcionamento heterogêneo do sujeito, no

sentido de que asseguravam tanto a separação quanto a articulação das

diferentes esferas da vida. Essa heterogeneidade se traduzia na

independência relativa das instituições, das regras, das normas morais,

religiosas, políticas, econômicas, estéticas e intelectuais. O que não quer

dizer que, por essa característica de equilíbrio e “tolerância”, esgotamos a

natureza do movimento que as animava. Ocorreram dois grandes impulsos

paralelos: a democracia política e o capitalismo. O homem moderno se

dividiu em dois: o cidadão dotado de direitos inalienáveis e o homem

econômico guiado por seus interesses, o homem como “fim” e o homem

como “instrumento”. A história dessa “modernidade” consagrou um

desequilíbrio a favor do segundo polo. Se quiséssemos privilegiar o

desenvolvimento da democracia, mesmo que irregular, como fazem certos

autores[2], perderíamos o eixo principal evidenciado, de maneiras

diferentes, por Marx, Weber ou Polanyi: o desenvolvimento de uma lógica

geral das relações humanas submetido à regra do lucro máximo.

Não serão ignoradas aqui todas as mudanças que a relação mercantil

engendrou no sujeito. Marx, como outros, mas talvez melhor do que outros,

apontou os efeitos de dissolução que o mercado exerce sobre os vínculos

humanos. A mercantilização das relações sociais, juntamente com a

urbanização, foi um dos fatores mais poderosos da “emancipação” do

indivíduo com relação a tradições, raízes, apegos familiares e fidelidades

pessoais. A grandeza de Marx foi ter mostrado que o preço dessa liberdade

subjetiva foi uma nova forma de sujeição às leis impessoais e incontroláveis

da valorização do capital. O indivíduo liberal, a exemplo do sujeito

lockiano proprietário de si mesmo, podia acreditar que gozava de todas as

suas faculdades naturais, do livre exercício de sua razão e vontade, podia

proclamar ao mundo sua autonomia irredutível, mas continuava a ser uma

engrenagem dos grandes mecanismos que a economia política clássica

começava a analisar.

Nas relações humanas, essa mercantilização expansiva tomou a forma

geral da contratualização. Os contratos voluntários entre pessoas livres –

obviamente sempre garantidos pela instância soberana – substituíram as

formas institucionais da aliança e da filiação e, mais em geral, as formas

antigas da reciprocidade simbólica. O contrato tornou-se mais do que nunca

a medida de todas as relações humanas, de modo que o indivíduo passou a

experimentar cada vez mais na relação com o outro sua plena e total

liberdade de compromisso voluntário e a perceber a “sociedade” como um

conjunto de relações de associação entre pessoas dotadas de direitos

sagrados. Esse é o cerne do que se convencionou chamar “individualismo”

moderno.

Como mostrou Émile Durkheim, havia nisso uma ilusão singular, na

medida em que, no contrato, há sempre mais do que o contrato: sem o

Estado garantidor, não existiria liberdade pessoal. Mas também podemos

dizer, como Michel Foucault, que, sob o contrato, há algo diferente do

contrato ou ainda que, sob a liberdade subjetiva, há algo diferente da

liberdade subjetiva. Há um arranjo de processos de normatização e técnicas

disciplinares que constituem o que podemos chamar de dispositivo de

eficácia. Os sujeitos nunca teriam se “convertido” de forma voluntária ou

espontânea à sociedade industrial e mercantil apenas por causa da propaganda do livre-câmbio ou dos atrativos do enriquecimento privado.

Era preciso pensar e implantar, “por uma estratégia sem estrategistas”, os

tipos de educação da mente, de controle do corpo, de organização do

trabalho, moradia, descanso e lazer que seriam a forma institucional do

novo ideal de homem, a um só tempo indivíduo calculador e trabalhador

produtivo. Foi esse dispositivo de eficácia que forneceu à atividade

econômica os “recursos humanos” necessários, foi ele que produziu

incessantemente as mentes e os corpos aptos a funcionar no grande circuito

da produção e do consumo. Em uma palavra, a nova normatividade das

sociedades capitalistas impôs-se por uma normatização subjetiva de um tipo

particular.

Foucault forneceu uma primeira cartografia desse processo – aliás, uma

cartografia problemática. O princípio geral do dispositivo de eficácia não é

tanto, como se disse muitas vezes, um “adestramento dos corpos”, mas uma

“gestão das mentes”. Ou antes deveríamos dizer que a ação disciplinar

sobre os corpos foi apenas um momento e um aspecto da elaboração de

certo modo de funcionamento da subjetividade. O panóptico de Bentham é

particularmente emblemático dessa moldagem subjetiva. O novo governo

dos homens penetra até em seu pensamento, acompanha, orienta, estimula,

educa esse pensamento. O poder já não é somente a vontade soberana, mas,

como Bentham diz tão bem, torna-se “método oblíquo” ou “legislação

indireta”, destinada a conduzir os interesses. Postular a liberdade de

escolha, suscitar e constituir na prática essa liberdade, pressupõe que os

sujeitos sejam conduzidos por uma “mão invisível” a fazer as escolhas que

serão proveitosas a todos e cada um. Por trás dessa representação encontra-

se não tanto um grande engenheiro, como no modelo do grande Relojoeiro,

mas uma máquina que funciona idealmente por si só e encontra em cada

sujeito uma engrenagem pronta a responder às necessidades de arranjo do

conjunto. Contudo, é preciso fabricar e manter essa engrenagem.

O sujeito produtivo foi a grande obra da sociedade industrial. Não se

tratava apenas de aumentar a produção material; era preciso também que o

poder se redefinisse como essencialmente produtivo, como um estimulante

da produção cujos limites seriam determinados apenas pelos efeitos de sua

ação sobre a produção. Esse poder essencialmente produtivo tinha como correlato o sujeito produtivo, não só o trabalhador, mas o sujeito que, em

todos os domínios de sua vida, produz bem-estar, prazer e felicidade. Desde

cedo, a economia política teve como fiadora uma psicologia científica que

descrevia uma economia psíquica homogênea a ela. Já no século XVIII,

iniciam-se as bodas da mecânica econômica com a psicofisiologia das

sensações. Esse é, sem dúvida, o cruzamento decisivo que vai definir a nova

economia do homem governado pelos prazeres e pelas dores. Governado e

governável pelas sensações: se o indivíduo deve ser considerado em sua

liberdade, ele também é um rematado patife, um “delinquente em

potencial”, um ser movido antes de tudo por seu próprio interesse. A nova

política inaugura-se com o monumento panóptico erguido em glória da

vigilância de todos por cada um e de cada um por todos.

Mas, podemos nos perguntar, por que vigiar os sujeitos e maximizar o

poder? A resposta impõe-se por si só: para produzir a maior felicidade. A

lei da eficácia é intensificar os esforços e os resultados e minimizar os

gastos inúteis. Fabricar homens úteis, dóceis ao trabalho, dispostos ao

consumo, fabricar o homem eficaz é o que já começa a se delinear, e de que

maneira, na obra benthamiana. Mas o utilitarismo clássico, apesar de seu

enorme trabalho de pulverização das categorias antigas, não conseguiu

explicar a pluralidade interna do sujeito [3] nem a separação das esferas a

que correspondia essa pluralidade. O princípio de utilidade, cuja vocação

homogeneizante era clara, não conseguiu abranger todos os discursos e as

instituições, do mesmo modo que o equivalente geral da moeda não

conseguiu subordinar todas as atividades sociais. Precisamente esse caráter

plural do sujeito e essa separação das esferas práticas é que estão em

questão hoje.

 

A modelagem da sociedade pela empresa

 

O passo inaugural, como dissemos, consistiu em inventar o homem do

cálculo, que exerce sobre si mesmo o esforço de maximização dos prazeres

e das dores requeridos pela existência de relações de interesse entre os

indivíduos. As instituições eram feitas para formar e enquadrar os sujeitos rebeldes a essa existência e fazer convergir interesses diversos. Mas os

discursos das instituições, a começar pelo político, estavam longe de ser

unívocos. O utilitarismo não se impôs como a única doutrina legítima,

muito pelo contrário. Os princípios continuaram misturados e, no fim do

século XIX, surgiram considerações “sociais”, direitos “sociais” e políticas

“sociais” nas relações econômicas que limitaram seriamente a lógica

acumuladora do capital e contrariaram a concepção estritamente

contratualista das trocas sociais. A constru ção dos Estados-nações

continuou a ser escrita com as antigas palavras da tradição dos juristas e a

ser inserida em formas políticas estranhas à ordem da produção. Em

resumo, a norma de eficácia econômica continuou a ser contida por

discursos heterogêneos a ela, a nova racionalidade do homem econômico

continuou mascarada e embaralhada pela confusão de teorias.

Por oposição, o momento neoliberal caracteriza-se por uma

homogeneização do discurso do homem em torno da figura da empresa.

Essa nova figura do sujeito opera uma unificação sem precedentes das

formas plurais da subjetividade que a democracia liberal permitiu que se

conservassem e das quais sabia aproveitar-se para perpetuar sua existência.

A partir de então, diversas técnicas contribuem para a fabricação desse

novo sujeito unitário, que chamaremos indiferentemente de “sujeito

empresarial”, “sujeito neoliberal” ou, simplesmente, neossujeito [4]. Não

estamos mais falando das antigas disciplinas que se destinavam, pela

coerção, a adestrar os corpos e a dobrar os espíritos para torná-los mais

dóceis – metodologia institucional que se encontrava em crise havia muito

tempo. Trata-se agora de governar um ser cuja subjetividade deve estar

inteiramente envolvida na atividade que se exige que ele cumpra. Para isso,

deve-se reconhecer nele a parte irredutível do desejo que o constitui. As

grandes proclamações a respeito da importância do “fator humano” que

pululam na literatura da neogestão devem ser lidas à luz de um novo tipo de

poder; não se trata mais de reconhecer que o homem no trabalho continua a

ser um homem, que ele nunca se reduz ao status de objeto passivo; trata-se

de ver nele o sujeito ativo que deve participar inteiramente, engajar-se

plenamente, entregar-se por completo a sua atividade profissional. O sujeito

unitário é o sujeito do envolvimento total de si mesmo. A vontade de realização pessoal, o projeto que se quer levar a cabo, a motivação que

anima o “colaborador” da empresa, enfim, o desejo com todos os nomes

que se queira dar a ele é o alvo do novo poder. O ser desejante não é apenas

o ponto de aplicação desse poder; ele é o substituto dos dispositivos de

direção das condutas. Porque o efeito procurado pelas novas práticas de

fabricação e gestão do novo sujeito é fazer com que o indivíduo trabalhe

para a empresa como se trabalhasse para si mesmo e, assim, eliminar

qualquer sentimento de alienação e até mesmo qualquer distância entre o

indivíduo e a empresa que o emprega. Ele deve trabalhar para sua própria

eficácia, para a intensificação de seu esforço, como se essa conduta viesse

dele próprio, como se esta lhe fosse comandada de dentro por uma ordem

imperiosa de seu próprio desejo, à qual ele não pode resistir.

As novas técnicas da “empresa pessoal” chegam ao cúmulo da

alienação ao pretender suprimir qualquer sentimento de alienação: obedecer

ao próprio desejo ou ao Outro que fala em voz baixa dentro de nós dá no

mesmo. Nesse sentido, a gestão moderna é um governo “lacaniano”: o

desejo do sujeito é o desejo do Outro. Desde que o poder moderno se torne

o Outro do sujeito. A construção das figuras tutelares do mercado, da

empresa e do dinheiro tende exatamente a isso. Mas é isso sobretudo que se

consegue obter com as técnicas refinadas de motivação, estímulo e

incentivo.

 

A “cultura de empresa” e a nova subjetividade

 

A governamentalidade empresarial está ligada a uma racionalidade de

conjunto que tira força de seu próprio caráter abrangente, já que permite

descrever as novas aspirações e as novas condutas dos sujeitos, prescrever

os modos de controle e influência que devem ser exercidos sobre eles em

seus comportamentos e redefinir as missões e as formas da ação pública. Do

sujeito ao Estado, passando pela empresa, um mesmo discurso permite

articular uma definição do homem pela maneira como ele quer ser “bem-

sucedido”, assim como pelo modo como deve ser “guiado”, “estimulado”,

“formado”, “empoderado” (empowered) para cumprir seus “objetivos”. Em

outras palavras, a racionalidade neoliberal produz o sujeito de que necessita ordenando os meios de governá-lo para que ele se conduza realmente como

uma entidade em competição e que, por isso, deve maximizar seus

resultados, expondo-se a riscos e assumindo inteira responsabilidade por

eventuais fracassos. “Empresa” é também o nome que se deve dar ao

governo de si na era neoliberal. O que quer dizer que esse “governo de si

empresarial” é diferente e muito mais do que a “cultura de empresa” da qual

falamos acima. É claro que a valorização ideológica do modelo da empresa

faz parte dele; é claro que a empresa é considerada em toda parte um lugar

de realização pessoal, a instância onde finalmente se podem conjugar o

desejo de realização pessoal dos indivíduos, seu bem-estar material, o

sucesso comercial e financeiro da “comunidade” de trabalho e sua

contribuição para a prosperidade geral da população. A nova gestão

ambiciona superar no plano imaginário a contradição que Daniel Bell

encontrou entre os valores hedonistas do consumo e os valores ascéticos do

trabalho[5].

Todavia, cometeríamos um grave erro se nos deixássemos seduzir por

esse novo management. Da mesma forma que a filantropia do século XVIII

acompanhava a implantação das novas tecnologias de poder com uma

música suave, os propósitos humanistas e hedonistas da gestão moderna dos

homens acompanham a implantação de técnicas que visam a produzir

formas mais eficazes de sujeição. Estas, por mais novas que sejam, têm a

marca da mais inflexível e mais clássica das violências sociais típicas do

capitalismo: a tendência a transformar o trabalhador em uma simples

mercadoria. A corrosão progressiva dos direitos ligados ao status de

trabalhador, a insegurança instilada pouco a pouco em todos os assalariados

pelas “novas formas de emprego” precárias, provisórias e temporárias, as

facilidades cada vez maiores para demitir e a diminuição do poder de

compra até o empobrecimento de frações inteiras das classes populares são

elementos que produziram um aumento considerável do grau de

dependência dos trabalhadores com relação aos empregadores. Foi esse

contexto de medo social que facilitou a implantação da neogestão nas

empresas. Nesse sentido, a “naturalização” do risco no discurso neoliberal e

a exposição cada vez mais direta dos assalariados às flutuações do mercado,

pela diminuição das proteções e das solidariedades coletivas, são apenas duas faces de uma mesma moeda. Transferindo os riscos para os

assalariados, produzindo o aumento da sensação de risco, as empresas

puderam exigir deles disponibilidade e comprometimento muito maiores.

Isso não significa que a neogestão não seja novidade e o capitalismo no

fundo seja sempre o mesmo. Ao contrário, a grande novidade reside na

modelagem que torna os indivíduos aptos a suportar as novas condições que

lhe são impostas, enquanto por seu próprio comportamento contribuem para

tornar essas condições cada vez mais duras e mais perenes. Em uma

palavra, a novidade consiste em promover uma “reação em cadeia”,

produzindo “sujeitos empreendedores” que, por sua vez, reproduzirão,

ampliarão e reforçarão as relações de competição entre eles, o que exigirá,

segundo a lógica do processo autorrealizador, que eles se adaptem

subjetivamente às condições cada vez mais duras que eles mesmos

produziram.

É isso que escapa a Luc Boltanski e Ève Chiapello em O novo espírito

do capitalismo[6]. Tomando como objeto a ideologia que, segundo a

definição que dão do espírito do capitalismo, “justifica o engajamento no

capitalismo”[7], eles tendem a acreditar piamente no que o novo capitalismo

diz de si mesmo na literatura gerencial dos anos 1990. Sem dúvida é

importante destacar que essa literatura recuperou certo tipo de crítica da

burocracia, da organização e da hierarquia para melhor desacreditar o

modelo antigo de poder baseado na gestão dos diplomas, dos status e das

carreiras. Também é importante mostrar a que ponto a apologia da

incerteza, da reatividade, da flexibilidade, da criatividade e da rede de

contatos constitui uma representação coerente, cheia de promessas, que

favorece a adesão dos assalariados ao modelo “conexionista” do

capitalismo.

Isso, porém, é ressaltar apenas a face sedutora e estritamente retórica

dos novos modos de poder. É esquecer que estes últimos tiveram como

efeito a constituição de uma subjetividade particular por meio de técnicas

específicas. Em suma, é subestimar o aspecto propriamente disciplinar do

discurso gerencial, tomando sua argumentação muito ao pé da letra. Essa

subestimação é a contrapartida da superestimação da ideologia da

“realização” pessoal numa tese absolutamente unilateral que deriva o “novo espírito do capitalismo” da “crítica artista” de Maio de 1968. Ora, o que as

evoluções do “mundo do trabalho” mostram de modo cada vez mais claro é

justamente a importância decisiva das técnicas de controle no governo das

condutas. A neogestão não é “antiburocrática”. Ela corresponde a uma nova

fase, mais sofisticada, mais “individualizada”, mais “competitiva” da

racionalização burocrática, e é apenas em consequência de uma ilusão que

ele se apoiou na “crítica artista” de 1968 para assegurar a mutação de uma

forma de poder organizacional em outra. Nós não saímos da “jaula de aço”

da economia capitalista a que se referia Weber. Em certos aspectos, seria

melhor dizer que cada indivíduo é obrigado a construir, por conta própria,

sua “jaula de aço” individual.

Com efeito, o novo governo dos sujeitos pressupõe que a empresa não

seja uma “comunidade” ou um lugar de realização pessoal, mas um

instrumento e um espaço de competição. Ela é apresentada idealmente,

acima de tudo, como o lugar de todas as inovações, da mudança

permanente, da adaptação contínua às variações da demanda do mercado,

da busca de excelência, da “falha zero”. Desse modo, injunge-se o sujeito a

conformar-se intimamente, por um trabalho interior constante, à seguinte

imagem: ele deve cuidar constantemente para ser o mais eficaz possível,

mostrar-se inteiramente envolvido no trabalho, aperfeiçoar-se por uma

aprendizagem contínua, aceitar a grande flexibilidade exigida pelas

mudanças incessantes impostas pelo mercado. Especialista em si mesmo,

empregador de si mesmo, inventor de si mesmo, empreendedor de si

mesmo: a racionalidade neoliberal impele o eu a agir sobre si mesmo para

fortalecer-se e, assim, sobreviver na competição. Todas as suas atividades

devem assemelhar-se a uma produção, a um investimento, a um cálculo de

custos. A economia torna-se uma disciplina pessoal. Foi Margaret Thatcher

quem deu a formulação mais clara dessa racionalidade: “Economics are the

method. The object is to change the soul” [A economia é o método. O

objetivo é mudar a alma][8].

As técnicas de gestão (avaliação, projeto, normatização dos

procedimentos, descentralização) supostamente permitem objetivar a

adesão do indivíduo à norma de conduta que se espera dele, avaliar por

tabelas e outras ferramentas de registro do “painel de gestão” seu comprometimento subjetivo, sob pena de sofrer sanções no emprego, no

salário e no desenvolvimento de sua carreira [9]. O que não ocorre, como

bem podemos imaginar, sem uma grande arbitrariedade da parte de uma

hierarquia impelida a manipular categorias psicológicas que deveriam

garantir a “objetividade” da medição de competências e desempenhos. No

entanto, o essencial não é a verdade dessa medição, mas o tipo de poder que

é exercido “profundamente” sobre o sujeito impelido a “entregar-se

completamente”, a “transcender-se” pela empresa, a “motivar-se” cada vez

mais para satisfazer o cliente, isto é, intimado pelo tipo de contrato que o

vincula à empresa e pelo modo de avaliação que lhe é aplicado a provar seu

comprometimento pessoal com o trabalho.

A racionalidade empresarial apresenta a vantagem incomparável de unir

todas as relações de poder na trama de um mesmo discurso. Nesse sentido,

o léxico da empresa contém um potencial de unificação dos diferentes

“regimes de existência”, o que explica os governos terem recorrido

largamente a ele. Em particular, permite articular os objetivos da política

adotada a todos os componentes da vida social e individual[10]. Dessa

forma, a empresa torna-se não apenas um modelo geral que deve ser

imitado, como também uma atitude que deve ser valorizada na criança e no

aluno, uma energia potencial que deve ser solicitada no assalariado, uma

maneira de ser que é produzida pelas mudanças institucionais e ao mesmo

tempo produz melhorias em todos os domínios. Estabelecendo uma

correspondência íntima entre o governo de si e o governo das sociedades, a

empresa define uma nova ética, isto é, certa disposição interior, certo ethos

que deve ser encarnado com um trabalho de vigilância sobre si mesmo e

que os procedimentos de avaliação se encarregam de reforçar e verificar.

Nessas condições, pode-se dizer que o primeiro mandamento da ética

do empreendedor é “ajuda-te a ti mesmo” e que, nesse sentido, ela é a ética

do self-help [autoajuda]. Pode-se alegar, com toda a razão, que essa ética

não é nova, que faz parte do espírito do capitalismo original. Sua

formulação já se encontrava em Benjamin Franklin e, melhor ainda, um

século depois, em Samuel Smiles, autor de um best-seller mundial

publicado em 1859 e intitulado Self-Help. Smiles apostava inteiramente na

energia dos indivíduos, que devia ser deixada o mais à vontade possível; contudo, ele se limitava à ética individual, a qual considerava a

determinante única. Em nenhum momento lhe passou pela cabeça que o

self-help pudesse ser mais do que uma força moral pessoal, que cada

indivíduo deveria desenvolver por si mesmo e, sobretudo, que pudesse ser

um modo de governo político[11]. Pensava o contrário até, baseado numa

delimitação estrita da esfera privada e da esfera pública: “A maneira como

um homem é governado pode não ter grande importância, ao passo que tudo

depende da maneira como ele próprio se governa” [12]. Precisamente, a

grande inovação da tecnologia neoliberal é vincular diretamente a maneira

como um homem “é governado” à maneira como ele próprio “se governa”.

 

A empresa de si mesmo como ethos da

autovalorização

 

Isso pressupõe todo um trabalho de racionalização até o mais íntimo do

sujeito: uma racionalização do desejo. Esta está no centro da norma da

empresa de si mesmo. Como ressalta um de seus tecnólogos, Bob Aubrey,

consultor internacional californiano, “falar em empresa de si mesmo é

traduzir a ideia de que cada indivíduo pode ter domínio sobre sua vida:

conduzi-la, geri-la e controlá-la em função de seus desejos e necessidades,

elaborando estratégias adequadas” [13]. Enquanto maneira de ser do eu

humano, a empresa de si mesmo constitui um modo de governar-se de

acordo com valores e princípios. Nikolas Rose destaca alguns: “Energia,

iniciativa, ambição, cálculo e responsabilidade pessoal” [14]. Trata-se do

indivíduo competente e competitivo, que procura maximizar seu capital

humano em todos os campos, que não procura apenas projetar-se no futuro

e calcular ganhos e custos como o velho homem econômico, mas que

procura sobretudo trabalhar a si mesmo com o intuito de transformar-se

continuamente, aprimorar-se, tornar-se sempre mais eficaz. O que distingue

esse sujeito é o próprio processo de aprimoramento que ele realiza sobre si

mesmo, levando-o a melhorar incessantemente seus resultados e seus

desempenhos. Os novos paradigmas que englobam tanto o mercado de

trabalho como o da educação e da formação, “formação por toda a vida” (long life training) e “empregabilidade”, são modalidades estratégicas

significativas.

Seria um erro denegrir essa dimensão da ética empresarial como se

fosse apenas engodo e usurpação. Essa é a ética do nosso tempo. Mas não

devemos confundi-la com um existencialismo fraco nem com um

hedonismo fácil. A ética empresarial encerra, é claro, essas formas éticas,

exaltando o “homem que faz a si mesmo” e a “realização plena”, mas é por

outros aspectos que ela se singulariza. A ética da empresa tem um teor mais

guerreiro: exalta o combate, a força, o vigor e o sucesso. Ela transforma o

trabalho no veículo privilegiado da realização pessoal: sendo bem-

sucedidos profissionalmente, fazemos da nossa vida um “sucesso”. O

trabalho garante autonomia e liberdade, na medida em que é a maneira mais

benéfica de exercermos nossas faculdades, empregarmos nossa energia

criativa e provarmos nosso valor. Essa ética do trabalho não é uma ética da

abnegação, não transforma em virtude a obediência às ordens de um

superior.

Nesse sentido, ela é o oposto da ética da “conversão” (metanoia) do as‐

cetismo cristão dos séculos III e IV, que era precisamente uma ética do

rompimento com o eu [15]. É profundamente distinta até da ética do trabalho

que marcou o protestantismo dos primórdios – embora aparentemente incite

o sujeito a uma autoinquisição permanente e a um “controle sistemático de

si mesmo”, ela não vê mais o sucesso no trabalho como o “sinal da eleição

divina” que supostamente dá ao sujeito a certeza de sua salvação[16]. Se

aqui o trabalho se torna espaço de liberdade, isso só acontece se o indivíduo

souber ultrapassar o estatuto passivo do assalariado de antigamente, isto é,

se ele se tornar uma empresa de si mesmo. O grande princípio dessa nova

ética do trabalho é a ideia de que a conjunção entre as aspirações

individuais e os objetivos de excelência da empresa, entre o projeto pessoal

e o projeto da empresa, somente é possível se cada indivíduo se tornar uma

pequena empresa. Em outras palavras, isso pressupõe conceber a empresa

como uma entidade composta de pequenas empresas de si mesmo.

 

A empresa no sentido econômico do termo é um conjunto de empresas das pessoas

que a compõem. Hoje, os indivíduos que trabalham não devem ser considerados

exclusivamente empregados, mas pessoas que têm dentro delas estratégias, objetivos

de vida.[17]

 

É no mesmo sentido que devemos entender a afirmação:

 

A empresa no sentido clássico e econômico do termo repousa, acima de tudo, sobre a

justaposição das “empresas de si mesmo” de todos os seus membros e até mesmo de

todas as suas partes interessadas (englobando, por exemplo, os empregados dos

clientes e dos fornecedores e o entorno).[18]

 

Preocupado em dar uma caução teórica a essa nova ética, Aubrey afirma

ter tomado a expressão “empresa de si mesmo” de Foucault para

transformá-la num método de formação profissional [19]. Apesar de ser

bastante curioso ver a analítica crítica do poder se transformar num

conjunto de propostas prescritivas e performativas aos assalariados, o

discurso é revelador. No novo mundo da “sociedade em desenvolvimento”,

o indivíduo não deve mais se ver como um trabalhador, mas como uma

empresa que vende um serviço em um mercado.

 

Todo trabalhador deve procurar um cliente, posicionar-se no mercado, fixar um preço,

gerir seus custos, fazer pesquisa-desenvolvimento e formar-se. Enfim, considero que,

do ponto de vista do indivíduo, seu trabalho é sua empresa, e seu desenvolvimento

define-se como uma empresa de si mesmo.[20]

 

O que devemos entender por essa afirmação? A empresa de si mesmo é

uma “entidade psicológica e social, e mesmo espiritual”, ativa em todos os

domínios e presente em todas as relações[21]. É sobretudo a resposta a uma

nova regra do jogo que muda radicalmente o contrato de trabalho, a ponto

de aboli-lo como relação salarial. A responsabilidade do indivíduo pela

valorização de seu trabalho no mercado tornou-se um princípio absoluto.

Essa relação de cada um com o valor de seu trabalho é “objeto de gestão,

investimento e desenvolvimento num mercado de trabalho aberto e cada

vez mais mundial” [22]. Em outras palavras, como o trabalho se tornou um

“produto” cujo valor mercantil pode ser medido de forma cada vez mais precisa, chegou a hora de substituir o contrato salarial por uma relação

contratual entre “empresas de si mesmo”. Desse ponto de vista, o uso da

palavra “empresa” não é uma simples metáfora, porque toda a atividade do

indivíduo é concebida como um processo de valorização do eu. O termo

significa que a

 

atividade do indivíduo, sob suas diferentes facetas (trabalho remunerado, trabalho

beneficente para uma associação, gestão do lar familiar, aquisição de competências,

desenvolvimento de uma rede de contatos, preparação para uma mudança de atividade

etc.), é pensada em sua essência como empresarial.[23]

 

É essa equivalência entre a valorização mercantil do trabalho e a

valorização de si próprio que leva Aubrey a comparar a empresa de si

mesmo a uma forma moderna de “cuidado de si”, a uma versão

contemporânea da epimeleia [24]. Hoje, a epimeleia consistiria em “gerir um

portfólio de atividades”, desenvolver estratégias de aprendizagem,

casamento, amizade, educação dos filhos, a administrar o “capital da

empresa de si mesmo”[25]. Inspirando-se em Gary Becker, Aubrey tenta

abranger tudo que venha a engordar um capital que é tanto familiar como

individual: experiências, formação, sabedoria e contatos, mas também

energia e saúde, “carteira de clientes”, “rendimentos e bens”. A noção de

“empresa de si mesmo” supõe uma “integração da vida pessoal e

profissional”, uma gestão familiar do portfólio de atividades, uma mudança

da relação com o tempo, que não é mais determinada pelo contrato salarial,

mas por projetos que são levados a cabo com diversos empregadores. E isso

vai muito além do mundo profissional; trata-se de uma ética pessoal em

tempos de incerteza. “A empresa de si mesmo é encontrar um sentido, um

compromisso na globalidade da vida”, o que começa cedo – com quinze

anos, somos empreendedores de nós mesmos assim que nos perguntamos o

que queremos fazer da vida. Toda atividade é empresarial, porque nada

mais é garantido para toda a vida. Tudo deve ser conquistado e defendido a

todo momento. A criança mesmo deve ser “empreendedora de seu saber”.

Desse ponto de vista, tudo se torna empresa: o trabalho, mas também o consumo e o lazer, já que “se procura tirar deste o máximo de riquezas,

utilizá-lo para a realização de si mesmo como maneira de criar” [26].

Daí certa forma de redefinição do “domínio de si mesmo”:

 

Hoje, uma nova ideia está surgindo: somos confrontados com escolhas, possibilidades,

oportunidades cada vez mais numerosas, cada vez mais rápidas. Portanto, o domínio

de si mesmo não consiste mais em levar a vida de forma linear, rígida e dentro de

certos limites, mas, sim, em se mostrar capaz de flexibilidade, de empreendedorismo.

 

Quanto mais escolhas há, mais há obrigação de se valorizar no mercado.

Ora, acrescenta Aubrey, o valor do indivíduo não vem mais dos direitos que

ele adquire milagrosamente ao nascer, mas é conquistado pela

 

empresa que se tem, pela vontade de não se contentar com esse mundo do direito em

que tudo é dado, determinado, registrado, mas de entrar num mundo que muda, um

mundo social em que é preciso se valorizar pela troca. O mercado de trabalho faz parte

desse mundo.[27]

 

O interesse do discurso de Aubrey é o fato de referir essa nova figura do

homem a um conjunto de técnicas práticas que os indivíduos têm à

disposição para chegar a essa nova forma de sabedoria que é o

“desenvolvimento autogerado da empresa de si mesmo”[28]. Se “a empresa

de si mesmo não é imediatamente evidente”, novos exercícios devem

substituir “a abordagem terapêutica de suporte individual e familiar,

fornecendo ferramentas e estratégias pragmáticas” [29]. Porque se trata

realmente de uma ascese: “O verdadeiro trabalho da empresa de si mesmo é

um trabalho que se faz sobre si mesmo e a serviço dos outros”[30]. Aubrey

esclarece:

 

A empresa de si mesmo não é uma filosofia ou uma ideologia: é um movimento que

fornece experiências e ferramentas que levam as pessoas a evoluir em seus contextos

de vida (empresas, bairros, associações, família, rede de contatos etc.). É uma técnica

de desenvolvimento para toda a vida.[31]

Isso significa que cada indivíduo deve aprender a ser um sujeito “ativo”

e “autônomo” na e pela ação que ele deve operar sobre si mesmo. Dessa

forma, ele aprenderá por si mesmo a desenvolver “estratégias de vida” para

aumentar seu capital humano e valorizá-lo da melhor maneira. “A criação e

o desenvolvimento de si mesmo” são uma “atitude social” que deve ser

adquirida, um “modo de agir” que deve ser desenvolvido, “para enfrentar a

tripla necessidade do posicionamento da identidade, do desenvolvimento de

seu próprio capital humano e da gestão de um portfólio de atividades”[32].

Essa atitude empresarial deve valer para todos, não apenas para empresários

ou autônomos. Todos, com a ajuda de “consultores em estratégias de vida”,

dependem dessa formação especializada em empresa de si mesmo, uma

formação que permitirá um “autodiagnóstico” em congressos modulares

sobre diferentes aspectos do procedimento: “Eu e minhas competências”,

“Eu e minha maneira de agir”, “Eu e meu cenário de sucesso” etc.[33]

 

As “asceses do desempenho” e suas técnicas

 

Se essa ética neoliberal do eu não se restringe aos limites da empresa, é

não só porque o ser bem-sucedido na carreira confunde-se com o ser bem-

sucedido na vida, mas, ainda mais fundamentalmente, porque a gestão

moderna tenta “aliciar as subjetividades” com a ajuda de controles e

avaliações de personalidade, inclinações de caráter, maneiras de ser, falar e

mover-se, quando não de motivações inconscientes[34].

O discurso gerencial envolve múltiplas técnicas que propõem um

trabalho do eu para facilitar a “eclosão do homem-ator de sua vida”. A vida

na empresa é considerada em si mesma uma “formação”, o lugar onde se

adquire certa sabedoria prática, o que explica o fato de as autoridades

políticas e econômicas enfatizarem tanto a participação de todos na vida da

empresa, desde a mais tenra idade. Nesse sentido, Aubrey sustentou que a

empresa constitui um percurso educativo que dá legitimidade aos que são

bem-sucedidos, de modo que os managers podem ser considerados “o

equivalente aos sábios ou aos mestres” [35].

Essa temática é conscientemente retomada dos trabalhos de Foucault e

Pierre Hadot sobre os exercícios ou as asceses da sabedoria antiga. Como

bem recordamos, essas práticas consistem em produzir um eu que se

aproxima de um ideal proposto no discurso, o que pressupõe consultar seus

deveres em cada circunstância. Foucault ampliou a análise estabelecendo

que certo governo de si, certa subjetivação, era a própria condição para o

exercício de um governo político e religioso. Isso vale em particular para a

relação entre o governo de si e o governo dos outros na pólis, tal como

pensada na ética grega clássica: aquele que é incapaz de se governar é

incapaz de governar os outros[36]. A assimilação das práticas de gestão às

práticas antigas é, evidentemente, um procedimento falacioso, que visa a

dar-lhes um forte valor simbólico no mercado da formação dos assalariados.

O que é suficiente estabelecer aqui é que a ascese da empresa de si mesmo

termina com a identificação do sujeito com a empresa, deve produzir o que

chamamos antes de sujeito do envolvimento total, ao contrário dos

exercícios da “cultura de si mesmo” dos quais trata Foucault, cujo objetivo

é estabelecer uma distância ética em relação a si mesmo, uma distância em

relação a todo papel social. No entanto, lidamos aqui com o que Éric Pezet

denominou judiciosamente “asceses do desempenho”, as quais constituem

um mercado em plena expansão[37].

Diferentes técnicas, como coaching, programação neurolinguística

(PNL), análise transacional (AT) e múltiplos procedimentos ligados a uma

“escola” ou um “guru” visam a um melhor “domínio de si mesmo”, das

emoções, do estresse, das relações com clientes ou colaboradores, chefes ou

subordinados. Todos têm como objetivo fortalecer o eu, adaptá-lo melhor à

realidade, torná-lo mais operacional em situações difíceis. Todos têm sua

história, suas teorias, suas instituições correspondentes. O que nos interessa

são os pontos que os unem. O primeiro aspecto é que todos se apresentam

como saberes psicológicos, com um léxico especial, autores de referência,

metodologias particulares, modos de argumentação de feição empírica e

racional. O segundo aspecto é que se apresentam como técnicas de

transformação dos indivíduos que podem ser utilizadas tanto dentro como

fora da empresa, a partir de um conjunto de princípios básicos.

Cada método possui seus instrumentos, suas modalidades, sua

hierarquia de técnicos[38]. É importante notar, sobretudo, que são técnicas

que visam à “conduta de si e dos outros” ou, em outras palavras, técnicas de

governamentalidade que visam essencialmente a aumentar a eficácia da

relação com o outro. Assim, podemos ler numa apresentação pedagógica da

PNL: “Não se trata de dizer o que é verdadeiro e o que não é. Trata-se de

perguntar qual é a forma mais eficaz e mais construtiva de se comunicar

com alguém”[39]. A ênfase é dada ao domínio da “comunicação” através de

um melhor conhecimento prático das regras da comunicação, quer se trate

de PNL, quer se tarte da AT. Esses métodos vinculam-se intimamente às

exigências do bom desempenho individual, o qual depende da força de

persuasão na venda, na direção dos subordinados, no êxito de uma busca de

emprego ou pedido de promoção.

Conhecer melhor a nós mesmos, por meditação, autorreflexão ou

autodiagnóstico, com a ajuda ou não de um coach, sozinhos ou em grupo,

dentro ou fora da empresa, somente tem sentido para compreendermos

melhor o que nós fazemos e o que faz o outro num “processo de

comunicação”. A AT apresenta-se como uma teoria e uma prática cujo

intuito é ensinar a construir uma comunicação de igual para igual, isto é,

entre indivíduos que estão num mesmo “estado do eu”, para evitar

“comunicações arrevesadas, em que os interlocutores não têm consciência

das motivações profundas que guiam suas palavras”[40]. Estar em um estado

de espírito apropriado, decodificar e transmitir sinais de reconhecimento,

mas sobretudo controlar as “transações”, as unidades elementares da

comunicação, para se certificar dos “estados do eu” que entram na

comunicação. Conhecer melhor os “estados” do nosso eu, nosso “cenário de

vida”, as regras dos diferentes “jogos sociais”, é compreender como nos

comunicamos e, portanto, controlar a própria comunicação. Da mesma

forma, a PNL propõe exercícios de “sincronização” com o outro, uma

técnica cujo intuito é estabelecer uma relação mediante a consonância de

diferentes parâmetros verbais e não verbais a fim de “conduzir” o outro de

acordo com o princípio do “pacing and leading” [acompanhar e conduzir].

As iniciativas propostas são “pragmáticas”; segundo os termos da

vulgata predominante, são “orientadas para a solução”. Não visam tanto ao porquê, mas ao “como isso funciona”. Para seguirmos o estilo das fórmulas

encontradas nesse tipo de discurso, “o fato de encontrar o prego responsável

pelo furo não diz nada sobre a maneira como se deve trocar o pneu”.

Segundo outra fórmula em voga, o ponto forte dessas iniciativas é “fazer o

que for preciso para conseguir o que realmente se quer. Desde que se saiba

o que se quer” [41]. Uma das definições mais elaboradas da PNL resume bem

o que está em jogo:

 

A PNL é uma abordagem de ciências humanas que visa à eficácia de nosso

desempenho nos diferentes domínios em que decidimos aplicá-la. Essencialmente

pragmática, ela nos fornece meios concretos tanto para nos comunicarmos de maneira

eficaz como para elaborarmos objetivos claros e alcançá-los.[42]

 

A teoria psicológica empregada é sempre determinada pelo uso prático,

de modo que podemos falar aqui de uma pragmática da eficácia

comunicacional, pela qual o domínio dos efeitos pelo eu nunca é um

simples meio (o que, diga-se de passagem, devolve ao devido lugar a

referência ao ideal do “domínio de si mesmo” que abunda nesses discursos)

[43] . Todos os princípios da PNL visam a tornar o indivíduo mais eficaz, a

começar pelo trabalho de autopersua são pelo qual ele deve acreditar que os

“recursos” são ele próprio: “Postular que cada um de nós possui os recursos

necessários para evoluir, atingir seus objetivos ou resolver problemas

estimula a responsabilidade e a autonomia e constitui um vetor fundamental

do desenvolvimento da autoestima”[44].

Essas técnicas de governamentalidade encontram seu campo de

aplicação mais vasto e, sem dúvida, mais lucrativo no mundo profissional.

A relação “aberta” e “positiva” com os outros é condição necessária à

produtividade. As relações na empresa, das quais tudo depende, são

consideradas em sua dimensão exclusivamente psicológica. O postulado

fundamental é que o “desenvolvimento pessoal”, uma melhor comunicação

no trabalho e o desempenho global da empresa estão intimamente ligados.

O “desenvolvimento do potencial pessoal” é visto como o melhor meio de

melhorar a qualidade e satisfazer o cliente. A PNL apresenta-se como um

Continuar: parte 2 de 3