A nova razão do mundo
II A nova racionalidade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
II
A NOVA RACIONALIDADE
6
A GRANDE VIRADA
Os anos 1980 foram marcados, no Ocidente, pelo triunfo de uma
política qualificada, ao mesmo tempo, de “conservadora” e “neoliberal”. Os
nomes de Ronald Reagan e Margaret Thatcher simbolizam esse
rompimento com o “welfarismo” da social-democracia e a implementação
de novas políticas que supostamente poderiam superar a inflação galopante,
a queda dos lucros e a desaceleração do crescimento. Os slogans
frequentemente simplistas dessa nova direita ocidental são conhecidos: as
sociedades são sobretaxadas, super-regulamentadas e submetidas às
múltiplas pressões de sindicatos, corporações egoístas e funcionários
públicos. A política conservadora e neoliberal pareceu, sobretudo, constituir
uma resposta política à crise econômica e social do regime “fordista” de
acumulação do capital. Esses governos conservadores questionaram
profundamente a regulação keynesiana macroeconômica, a propriedade
pública das empresas, o sistema fiscal progressivo, a proteção social, o
enquadramento do setor privado por regulamentações estritas,
especialmente em matéria de direito trabalhista e representação dos
assalariados. A política de demanda destinada a sustentar o crescimento e
realizar o pleno emprego foi o principal alvo desses governos, para os quais
a inflação se tornara o problema prioritário [1].
Mas será que basta situar as políticas neoliberais em certa conjuntura
histórica para compreender sua natureza e definir suas relações com o
esforço de refundação teórica do liberalismo? Como explicar a continuidade
dessas políticas durante décadas? Sobretudo, como justificar que algumas
dessas políticas tenham sido adotadas tanto pela “nova direita” [2] quanto
pela “esquerda moderna”?
Na realidade, essas novas formas políticas exigem uma mudança muito
maior do que uma simples restauração do “puro” capitalismo de
antigamente e do liberalismo tradicional. Elas têm como principal
característica o fato de alterar radicalmente o modo de exercício do poder
governamental, assim como as referências doutrinais no contexto de uma
mudança das regras de funcionamento do capitalismo. Revelam uma
subordinação a certo tipo de racionalidade política e social articulada à
globalização e à financeirização do capitalismo. Em uma palavra, só há
“grande virada” mediante a implantação geral de uma nova lógica
normativa, capaz de incorporar e reorientar duradouramente políticas e
comportamentos numa nova direção. Andrew Gamble resumiu esse novo
rumo na frase: “Economia livre, Estado forte”. A expressão tem o mérito de
destacar o fato de que não estamos lidando com uma simples retirada de
cena do Estado, mas com um reengajamento político do Estado sobre novas
bases, novos métodos e novos objetivos. O que exatamente quer dizer essa
frase? Naturalmente, podemos enxergar nela o que as correntes
conservadoras querem que ela contenha: um papel maior da defesa nacional
contra os inimigos externos, da polícia contra os inimigos internos e, de
modo mais geral, dos controles sobre a população, sem esquecer o desejo
de restauração da autoridade estabelecida, das instituições e dos valores
tradicionais, em particular os “familiares”. Contudo, há muito mais do que
essa linha de defesa da ordem instituída, classicamente conservadora.
É sobre esse ponto preciso que persistem os mal-entendidos. Alguns
autores preferiram ver apenas um “retorno do mercado” nas políticas
econômicas e sociais conduzidas pela nova direita e pela esquerda moderna.
Lembram com razão que esse tipo de política sempre se apoiou na ideia de
que, para os mercados funcionarem bem, é necessário reduzir os impostos,
diminuir o gasto público (inclusive enquadrando seu crescimento em regras constitucionais), transferir as empresas públicas para o setor privado,
restringir a proteção social, privilegiar “soluções individuais” diante dos
riscos, controlar o crescimento da massa monetária para reduzir a inflação,
possuir uma moeda forte e estável e desregulamentar os mercados, em
particular o do trabalho. No fundo, se o “compromisso social-democrata”
era sinônimo de intervencionismo do Estado, o “compromisso neoliberal”
era sinônimo de livre mercado. O que se destacou menos foi o caráter
disciplinar dessa nova política, que dá ao governo um papel de guardião das
regras jurídicas, monetárias, comportamentais, atribui-lhe a função oficial
de vigia das regras de concorrência no contexto de um conluio oficioso com
grandes oligopólios e, talvez mais ainda, confere-lhe o objetivo de criar
situações de mercado e formar indivíduos adaptados às lógicas de mercado.
Em outras palavras, a atenção exclusiva que se deu à ideologia do laissez-
faire nos desviou do exame das práticas e dos dispositivos encorajados
pelos governos ou diretamente implantados por eles. Por consequência, a
dimensão estratégica das políticas neoliberais foi paradoxalmente
negligenciada pela crítica “antiliberal” padrão, na medida em que essa
dimensão entra de imediato numa racionalidade global que permaneceu
despercebida.
O que devemos de fato entender por “estratégia”? No sentido mais
comum, o termo designa a “escolha dos meios empregados para chegar a
um fim”[3]. É inegável que a virada dos anos 1970-1980 mobilizou todo um
leque de meios para se alcançar no melhor prazo certos objetivos bem
determinados (desmantelamento do Estado social, privatização das
empresas públicas etc.). Portanto, estamos muito bem embasados para falar,
nesse sentido, de uma “estratégia neoliberal”: entenda-se o conjunto de
discursos, práticas, dispositivos de poder visando à instauração de novas
condições políticas, a modificação das regras de funcionamento econômico
e a alteração das relações sociais de modo a impor esses objetivos.
Contudo, por mais legítimo que seja, esse uso do termo “estratégia” poderia
levar a entender que o objetivo da concorrência generalizada entre
empresas, economias e Estados foi elaborado a partir de um projeto
longamente amadurecido, como se tivesse sido objeto de uma escolha tão
racional e controlada quanto os meios postos a serviço dos objetivos iniciais. Daí para pensar a virada em termos de um “complô” é um passo –
que alguns se apressaram em dar, em particular na esquerda. O que nos
parece, ao contrário, é que o objetivo de uma nova regulação pela
concorrência não existia antes da luta contra o Estado de bem-estar na qual
se engajaram, alternada ou simultaneamente, círculos intelectuais, grupos
profissionais, forças sociais e políticas, muitas vezes por motivos bastante
heterogêneos. A virada começou por pressão de certas condições, sem que
ninguém sonhasse ainda com um novo modo de regulação em escala
mundial. Nossa tese é que esse objetivo tenha se constituido ao longo do
próprio confronto, se imposto a forças muito diferentes em razão da própria
lógica do confronto e, a partir desse momento, feito o papel de catalisador,
oferecendo um ponto de encontro a forças até então relativamente dispersas.
Para tentar explicar esse surgimento do objetivo a partir das condições
de um confronto já iniciado, devemos recorrer a outro sentido do termo
“estratégia”, um sentido que não a faz proceder da vontade de um
estrategista nem da intenção de um sujeito. Essa ideia de uma “estratégia
sem sujeito” ou “sem estrategista” foi elaborada por Foucault. Tomando o
exemplo do objetivo estratégico de moralização da classe operária nos anos
1830, ele defende que esse objetivo produziu a burguesia como o agente de
sua instauração, e não que a classe burguesa, como sujeito pré-constituído, é
que tenha concebido esse objetivo a partir de uma ideologia já elaborada[4].
O que se trata de pensar aqui é certa “lógica das práticas”: primeiro, há as
práticas, frequentemente díspares, que instauram técnicas de poder (entre as
quais, em primeiro lugar, as técnicas disciplinares) e são a multiplicação e a
generalização de todas essas técnicas que impõem pouco a pouco uma
direção global, sem que ninguém seja o instigador desse “impulso na
direção de um objetivo estratégico”[5]. Não conseguiríamos expressar
melhor a maneira como a concorrência se constituiu como nova norma
mundial a partir de certas relações entre as forças sociais e certas condições
econômicas, sem que tenha sido “escolhida” de forma premeditada por um
“Estado-maior” qualquer. Fazer aparecer a dimensão estratégica das
políticas neoliberais é, portanto, não apenas revelar em que elas dizem
respeito à escolha de certos meios (de acordo com o primeiro sentido do
termo “estratégia”), mas é também mostrar o caráter estratégico (no segundo sentido do mesmo termo) do objetivo da concorrência generalizada
que permitiu dar a todos esses meios uma coerência global.
Neste capítulo, nos propomos examinar na ordem os quatro pontos
seguintes. O primeiro diz respeito à relação de apoio recíproco graças à
qual as políticas neoliberais e as transformações do capitalismo ampararam-
se mutuamente para produzir o que denominamos “a grande virada”.
Contudo, essa virada não se deve apenas à crise do capitalismo nem surgiu
de repente. Ela foi precedida e acompanhada por uma luta ideológica, que
foi sobretudo uma crítica sistemática e duradoura de ensaístas e políticos
contra o Estado de bem-estar. Essa ofensiva alimentou diretamente a ação
de certos governos e contribuiu enormemente para a legitimação da nova
norma quando esta por fim surgiu. Esse é o segundo ponto. No entanto,
apenas a conversão dos espíritos não teria sido suficiente – foi necessária
uma mudança de comportamento. Isso foi obra, em grande parte, de
técnicas e dispositivos de disciplina, isto é, de sistemas de coação, tanto
econômicos como sociais, cuja função era obrigar os indivíduos a governar
a si mesmos sob a pressão da competição, segundo os princípios do cálculo
maximizador e uma lógica de valorização de capital. Esse é o terceiro
ponto. Finalmente, a progressiva ampliação desses sistemas disciplinares,
assim como sua codificação institucional, levaram à instauração de uma
racionalidade geral, uma espécie de novo regime de evidências que se
impôs aos governantes de todas as linhas como único quadro de
inteligibilidade da conduta humana.
Uma nova regulação pela concorrência [6]
Há duas maneiras de se enganar a respeito do sentido da “grande
virada”. A primeira consiste em fazê-la proceder exclusivamente de
transformações econômicas internas ao sistema capitalista. Desse modo, a
dimensão de reação-adaptação a uma situação de crise é artificialmente
isolada. A segunda consiste em ver a “revolução neoliberal” como a
aplicação deliberada e concertada de uma teoria econômica, privilegiando-
se na maioria das vezes a de Milton Friedman [7]. Nesse caso, é a dimensão da revanche ideológica que é supervalorizada. Na realidade, a instauração
da norma mundial da concorrência ocorreu pela conexão de um projeto
político a uma dinâmica endógena, a um só tempo tecnológica, comercial e
produtiva. Pretendemos, nesta seção e na seguinte, evidenciar os principais
traços dessa dinâmica, reservando a análise específica da segunda dimensão
às seções posteriores, dedicadas à ideologia e à disciplina.
O programa político de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, imitado
por um grande número de governos e continuado pelas grandes
organizações internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, apresenta-se
primeiro como um conjunto de respostas a uma situação que se considera
“ingerível”. Essa dimensão propriamente reativa é patente no relatório da
Comissão Trilateral [8], intitulado The Crisis of Democracy, um documento-
chave que mostra a consciência da “ingovernabilidade” das democracias
compartilhada por muitos dos dirigentes dos países capitalistas[9]. Os
especialistas convidados a formular seu diagnóstico em 1975 constataram
que os governantes eram incapazes de governar em razão do excessivo
envolvimento dos governados na vida política e social. Ao contrário de
Tocqueville ou Mill, que lamentavam a apatia dos modernos, os três
relatores da Comissão Trilateral, Michel Crozier, Samuel Huntington e Joji
Watanuki, queixavam-se do “excesso de democracia” que surgiu nos anos
1960, isto é, em sua opinião, do aumento das reivindicações igualitárias e
do desejo de participação política ativa das classes mais pobres e mais
marginalizadas. Para eles, a democracia política somente pode funcionar
normalmente com certo grau “de apatia e não participação da parte de
certos indivíduos e grupos” [10]. Alinhando-se aos temas clássicos dos
primeiros teóricos neoliberais, pediam que se reconhecesse que “há um
limite desejável para a ampliação indefinida da democracia política”[11].
Esse apelo a que se pusessem “limites às reivindicações” traduzia à
própria maneira o início da crise da antiga norma fordista. Esta conciliava
os princípios do taylorismo com as regras de divisão do valor adicionado
favoráveis à alta regular dos salários reais (por indexação pelos preços e
pelos ganhos de produtividade). Além disso, essa articulação da produção e
do consumo de massa apoiava-se no caráter relativamente autocentrado [12]
desse modelo de crescimento que garantia certa “solidariedade” macroeconômica entre salário e lucro. As características da demanda (fraca
diferenciação dos produtos, alta elasticidade da demanda em relação ao
preço[13], progressão da renda) correspondiam à satisfação progressiva das
necessidades das famílias em termos de bens de consumo e equipamento.
Assim, esse crescimento sustentado da renda, assegurado pelo aumento dos
ganhos de produtividade, permitia escoar a produção de massa em
mercados essencialmente domésticos. Setores industriais pouco expostos à
concorrência internacional tiveram um papel de motor do crescimento. A
organização da atividade produtiva repousava sobre uma divisão do
trabalho bastante aprofundada, uma automatização incrementada, porém
rígida, um ciclo de produção/consumo longo, que possibilitava a obtenção
de economias de escala sobre bases nacionais ou mesmo internacionais, já
ligadas à deslocalização maciça de segmentos de montagem em países
asiáticos. Entendia-se que, no plano político e social, tais condições
possibilitavam arranjos que até certo ponto articulavam a valorização do
capital e um aumento dos salários reais (o que foi chamado de
“compromisso social-democrata”).
No entanto, no fim dos anos 1960, o modelo “virtuoso” do crescimento
fordista depara com limites endógenos. As empresas sofreram uma baixa
sensível em suas taxas de lucro[14]. Essa queda da “lucratividade” explica-
se pela desaceleração dos ganhos de produtividade, pela relação das forças
sociais e da combatividade dos assalariados (o que deu aos “anos 1968” sua
característica histórica), pela alta inflação amplificada pelas duas crises do
petróleo, em 1973 e 1979. A estagflação parece assinar o atestado de óbito
da arte keynesiana de “pilotar a conjuntura”, que pressupunha a arbitragem
entre inflação e recessão. A coexistência desses dois fenômenos – alta taxa
de inflação e taxa elevada de desemprego – parecia desabonar as
ferramentas da política econômica, em particular a ação benéfica do gasto
público sobre o nível da demanda e o nível de atividade, logo, sobre o nível
do emprego.
A desregulação do sistema internacional instaurada após a Segunda
Guerra Mundial constituirá um fator suplementar de crise. A flutuação geral
das moedas a partir de 1973 abre caminho para uma maior influência dos
mercados sobre as políticas econômicas e, num contexto novo, a abertura crescente das economias mina as bases do circuito autocentrado de
“produção-renda-demanda”.
A nova política monetarista esforça-se precisamente para responder aos
dois problemas principais, que são a estagflação e o poder de pressão das
organizações de assalariados. O que se fez foi interromper a indexação dos
salários pelos preços e, assim, transferir a sangria causada pelas duas crises
do petróleo para o poder de compra dos assalariados em benefício das
empresas. Os dois eixos principais da mudança de direção da política
econômica foram a luta contra a inflação galopante e a recuperação dos
lucros no fim dos anos 1970. O aumento brutal das taxas de juros à custa de
uma grave recessão e de um aumento do desemprego permitiu lançar
rapidamente uma série de ofensivas contra o poder sindical, baixar os
gastos sociais e os impostos e facilitar a desregulamentação. No início dos
anos 1980, os próprios governos de esquerda se converteram a essa política
monetarista, como mostra exemplarmente o caso da França[15].
Através de outro “círculo virtuoso”, a elevação das taxas de juros
levaram à crise do endividamento dos países latino-americanos, em
particular do México, em 1982, dando ocasião para que o FMI impusesse,
em troca da negociação das condições de pagamento, planos de ajuste
estrutural que pressupunham reformas profundas. O aumento das taxas de
juros para o dobro nos Estados Unidos, em 1979, e suas consequências
internas e externas vão devolver aos credores certo poder sobre os
devedores, exigindo deles uma remuneração real mais elevada e impondo-
lhes condições políticas e sociais muito desfavoráveis[16]. Essa disciplina
monetária e orçamentária torna-se a nova norma das políticas anti-
inflacionárias no conjunto dos países da OCDE e nos países do Sul, que
dependem do crédito do Banco Mundial e do apoio do FMI.
Desse modo, progressivamente uma nova orientação tomou corpo em
dispositivos e mecanismos econômicos que mudaram profundamente as
“regras do jogo” entre os diferentes capitalismos nacionais, assim como
entre as classes sociais em cada um dos espaços nacionais. As mais famosas
das medidas adotadas foram a grande onda de privatizações de empresas
públicas (na maioria das vezes vendidas a preço de banana) e o movimento
geral de desregulamentação da economia. A ideia diretriz dessa orientação é que a liberdade que se dá aos atores privados – que conhecem melhor a
situação dos negócios e seus próprios interesses – é sempre mais eficaz do
que a intervenção direta ou a regulação pública. Se a ordem econômica
keynesiana e fordista repousava sobre a ideia de que a concorrência entre
empresas e entre economias capitalistas deveria ser enquadrada por regras
fixas comuns no que diz respeito a taxas de câmbio, políticas comerciais e
divisão de renda, a nova norma neoliberal instaurada no fim dos anos 1980
erige a concorrência em regra suprema e universal de governo.
Esse sistema de regras definiu o que poderíamos chamar de sistema
disciplinar mundial. Como mostraremos adiante, a elaboração desse
sistema representa o desfecho de um processo de experimentação de
dispositivos disciplinares polidos desde os anos 1970 pelos governos
atraídos para o dogma do monetarismo. Encontrou sua formulação mais
condensada naquilo que John Williamson chamou de “Consenso de
Washington”. Esse consenso se estabeleceu na comunidade financeira
internacional como um conjunto de recomendações que todos os países
deveriam seguir para conseguir empréstimos e auxílios[17].
As organizações internacionais tiveram um papel bastante ativo na
difusão dessa norma. O FMI e o Banco Mundial viram o sentido de sua
missão mudar radicalmente nos anos 1980, em consequência da adesão dos
governos dos países mais poderosos à nova racionalidade governamental.
As economias mais frágeis tiveram, em sua maioria, de obedecer às
recomendações desses organismos para conseguir ajuda ou, ao menos,
“aprovação”, a fim de melhorar sua imagem diante dos credores e dos
investidores internacionais. Dani Rodrik, economista de Harvard que
trabalhou muito com o Banco Mundial, não teve dúvidas em dizer que se
tratou de uma “hábil estratégia de marketing”: “O ajuste estrutural foi
apresentado como uma iniciativa que os países deveriam tomar para salvar
suas economias da crise”[18]. Na realidade, como bem mostrou Joseph
Stiglitz, os resultados dos planos de ajuste foram bastante destrutivos na
maioria das vezes. As “terapias de choque” sufocaram o crescimento com
taxas de juro muito elevadas, arruinaram a produção local expondo-a sem
cautela à concorrência dos países mais desenvolvidos, muitas vezes
agravaram a desigualdade e aumentaram a pobreza, reforçaram a instabilidade econômica e social e submeteram essas economias “abertas” à
volatilidade dos movimentos de capitais. A intervenção do FMI e do Banco
Mundial visava a impor o quadro político do Estado concorrencial, ou seja,
do Estado cujas ações tendem a fazer da concorrência a lei da economia
nacional, seja essa concorrência a dos produtores estrangeiros, seja a dos
produtores nacionais.
De maneira mais geral, as políticas seguidas pelos governos tanto do
Norte como do Sul consistiram em buscar no aumento de suas parcelas de
mercado em nível mundial a solução para seus problemas internos. Essa
corrida à exportação, à conquista de mercados estrangeiros e à captação de
poupança criou um contexto de concorrência exacerbada que levou a uma
“reforma” permanente dos sistemas institucionais e sociais, apresentada à
população como uma necessidade vital. As políticas econômicas e sociais
integraram essa “adaptação” à globalização como dimensão principal,‐
tentando aumentar a capacidade de reação das empresas, diminuir a pressão
fiscal sobre os rendimentos do capital e os grupos mais favorecidos,
disciplinar a mão de obra, baixar o custo do trabalho e aumentar a
produtividade.
Os Estados tornaram-se elementos-chave dessa concorrência
exacerbada, procurando atrair uma parte maior dos investimentos
estrangeiros pela criação de condições fiscais e sociais mais favoráveis à
valorização do capital. Assim, contribuíram amplamente para a criação de
uma ordem que os submete a novas restrições que, por sua vez, levam a
comprimir salários e gastos públicos, reduzir “direitos adquiridos”
considerados muito onerosos e enfraquecer os mecanismos de solidariedade
que escapam à lógica assistencial privada. Ao mesmo tempo atores e
objetos da concorrência mundial, construtores e colaboradores do
capitalismo financeiro, os Estados são cada vez mais submetidos à lei férrea
de uma dinâmica da globalização que lhes escapa largamente. Os dirigentes
dos governos e dos organismos internacionais (financeiros e comerciais)
podem sustentar, assim, que a globalização é um fatum que ao mesmo
tempo trabalha continuamente para a criação dessa pretensa “fatalidade”.
O crescimento do capitalismo financeiro
Em nível mundial, a difusão da norma neoliberal encontra um veículo
privilegiado na liberalização financeira e na globalização da tecnologia. Um
mercado único de capitais instala-se por intermédio de uma série de
reformas legislativas, das quais as mais significativas foram a liberação
total do câmbio, a privatização do setor bancário, a abertura dos mercados
financeiros e, em nível regional, a criação da moeda única europeia. Essa
liberação política das finanças é fundamentada numa necessidade de
financiamento da dívida pública, que seria paga recorrendo-se aos
investidores internacionais. No plano teórico, é justificada pela
superioridade da concorrência entre os atores financeiros na administração
do crédito, naquilo que diz respeito ao financiamento de empresas, lares e
Estados endividados [19]. Foi facilitada por uma revisão progressiva da
política monetária norte-americana, que abandonou os cânones estritos do
monetarismo doutrinal.
As finanças mundiais sofreram uma expansão considerável durante
quase duas décadas. O volume das transações a partir dos anos 1980 mostra
que o mercado financeiro se autonomizou em relação à esfera da produção
e das trocas comerciais, aumentando a instabilidade já crônica da economia
mundial[20]. Desde que a “globalização” começou a ser puxada pelas
finanças, a maioria dos países viu-se na impossibilidade de tomar medidas
que iriam de encontro aos interesses dos detentores do capital. Por isso, eles
não impediram nem a formação das bolhas especulativas nem o estouro
delas. Mais ainda, por uma política monetária que se afastou do
monetarismo clássico, contribuíram para sua formação – como os Estados
Unidos a partir de 2000. A unificação do mercado mundial do dinheiro veio
acompanhada de uma homogeneização dos critérios contábeis, de uma
uniformização das exigências de rentabilidade, de um mimetismo das
estratégias dos oligopólios, de ondas de recompras, fusões e restruturações
de atividades.
A passagem do capitalismo fordista ao capitalismo financeiro foi
marcada também por uma sensível modificação das regras de controle das
empresas. Com a privatização do setor público, o peso cada vez maior dos investidores institucionais e o aumento dos capitais estrangeiros na estrutura
da pro priedade das empresas, uma das principais mudanças do capitalismo
foram os objetivos perseguidos pelas empresas sob pressão dos acionistas.
De fato, o poder financeiro dos proprietários da empresa conseguiu dos
gestores que estes exercessem pressão constante sobre os assalariados com
o intuito de aumentar os dividendos e as cotações na bolsa. Segundo essa
lógica, a “criação de valor acionário”, isto é, a produção de valor em
proveito dos acionistas como determinam os mercados de ações, torna-se o
principal critério de gestão dos dirigentes. O comportamento das empresas é
profundamente afetado. Elas desenvolverão todos os tipos de meios para
aumentar essa “criação de valor” financeiro: fusões-aquisições,
recentralização no foco do negócio, terceirização de certos segmentos da
produção, redução do tamanho da empresa[21]. A governança da empresa
(corporate governance) está diretamente ligada à vontade dos acionistas de
assumir o controle da gestão das empresas. O controle “indicial”,
determinado unicamente pela variação do índice da bolsa, visa a reduzir a
autonomia dos objetivos dos gestores, que supostamente têm interesses
diferentes, ou até mesmo oposto aos, dos acionistas. O principal efeito que
tiveram essas práticas de controle foi tornar o aumento da cotação em bolsa
o objetivo comum de acionistas e dirigentes. O mercado financeiro foi
constituído em agente disciplinante para todos os atores da empresa, desde
o dirigente até o assalariado de base: todos devem submeter-se ao princípio
de accountability, isto é, à necessidade de “prestar contas” e ser avaliado
em função dos resultados obtidos.
O fortalecimento do capitalismo financeiro teve outras consequências
importantes, sobretudo sociais. A concentração de renda e patrimônio
acelerou-se com a financeirização da economia. A deflação salarial traduziu
um poder maior dos detentores dos capitais, o que lhes permitiu atrair um
acréscimo importante de valor, impondo seus critérios de rendimento
financeiro à toda a esfera produtiva e fazendo as forças de trabalho
competirem em escada mundial. Ela levou muitos assalariados a recorrer ao
endividamento, que o ativismo monetário do Federal Reserve Bank tornou
mais fácil depois do crash de 2000. O empobrecimento relativo e muitas vezes absoluto desses assalariados submeteu-os desse modo ao poder das
finanças.
Em segundo lugar, a relação do sujeito com ele mesmo foi
profundamente afetada. Em razão dos impostos mais atrativos e do estímulo
dos poderes públicos, o patrimônio financeiro e imobiliário de muitas
famílias de classe média e alta aumentou consideravelmente a partir dos
anos 1990. Apesar de longe do sonho thatcheriano de populações ocidentais
compostas de milhões de pequenos capitalistas, a lógica do capital
financeiro teve efeitos subjetivos significativos. Cada sujeito foi levado a
conceber-se e comportar-se, em todas as dimensões de sua vida, como um
capital que devia valorizar-se: estudos universitários pagos, constituição de
uma poupança individual para a aposentadoria, compra da casa própria e
investimentos de longo prazo em títulos da bolsa são aspectos dessa
“capitalização da vida individual” que, à medida que ganhava terreno na
classe assalariada, erodia um pouco mais as lógicas de solidariedade[22].
O advento do capitalismo financeiro, ao contrário do que anunciaram na
época alguns analistas, não nos fez passar do capitalismo organizado do
século XIX para um “capitalismo desorganizado”[23]. É mais adequado
dizer que o capitalismo se reorganizou sobre novas bases, cuja mola é a
instauração da concorrência generalizada, inclusive na esfera da
subjetividade. O que aprouve chamar de “desregulamentação”, termo
ambíguo que poderia dar a entender que o capitalismo não conhece nenhum
outro modo de regulação, é na realidade uma nova ordenação das
atividades econômicas, das relações sociais, dos comportamentos e das
subjetividades.
Nada é mais indicativo disso do que o papel dos Estados e das
organizações econômicas internacionais no estabelecimento do novo regime
de acumulação predominantemente financeiro. Há, de fato, uma falsa
ingenuidade no fato de se lamentar a força do capital financeiro em
oposição à força declinante dos Estados. O novo capitalismo está
profundamente ligado à construção política de uma finança global regida
pelo princípio da concorrência generalizada. Nisso, a “mercadorização”[a]
(marketization) das finanças é filha da razão neoliberal. Portanto, convém não tomar o efeito pela causa, identificando sumariamente neoliberalismo
com capitalismo financeiro.
É claro que nem tudo vem pela mão do Estado. Se, a princípio, um dos
objetivos da liberalização dos mercados financeiros consistia em facilitar as
necessidades crescentes de financiamento dos déficits públicos, a expansão
das finanças globais é resultado também de múltiplas inovações em
produtos financeiros, práticas e tecnologias que não haviam sido previstas
inicialmente.
Em todo caso, foi o Estado que nos anos 1980, por suas reformas de
liberalização e privatização, constituiu uma finança de mercado, em vez de
uma gestão mais administrada dos financiamentos bancários das empresas e
das famílias. Lembremos que, dos anos 1930 aos 1970, o sistema financeiro
era enquadrado por regras que visavam a protegê-lo dos efeitos da
concorrência. A partir dos anos 1980, ele continua a ser submetido a regras,
mas estas mudam radicalmente, já que visam a regulamentar a
concorrência geral entre todos os atores financeiros em escala
internacional [24]. A França oferece um bom exemplo dessa transformação.
Os governos franceses começaram a pôr fim à gestão administrada do
crédito: supressão do limite de crédito, retirada do controle de câmbio e
privatização das instituições bancárias e financeiras. Essas medidas
permitiram a criação de um grande mercado único de capitais e encorajaram
o desenvolvimento de conglomerados que misturavam atividades de banco,
seguro e consultoria. Paralelamente, a gestão da dívida pública, em pleno
crescimento no início dos anos 1990, foi profundamente modificada para
que se pudesse recorrer aos investidores internacionais, de modo que, por
esse meio, os Estados contribuíram ampla e diretamente para o crescimento
das finanças globalizadas. Por uma espécie de “efeito reflexo” de sua
própria ação, o Estado foi obrigado a “adaptar-se” às pressas à nova
situação financeira internacional. Quanto maior foi a transferência de renda
para os usurários, por meio de imposto, mais se teve de diminuir o número
de funcionários e baixar os salários e mais foi preciso transferir para o setor
privado segmentos inteiros do setor público. As privatizações, da mesma
forma que o estímulo à poupança individual, acabaram por conferir um
poder considerável a bancos e seguradoras.
O aumento do tamanho dos mercados, a abertura dos mercados e a
criação do mercado de produtos derivados foram sistematicamente
encorajados pelos poderes públicos para enfrentar a concorrência de outras
praças financeiras (em particular as mais poderosas: Londres e Nova York).
Nos Estados Unidos, nos anos 1990, assistiu-se ao fim da
compartimentalização do setor bancário com a supressão do Glass-Steagall
Act de 1933 e o surgimento paralelo de grandes conglomerados
multifuncionais (one-stop shopping). A securitização de créditos, iniciada
nos Estados Unidos nos anos 1970, favoreceu um quadro legal na maioria
dos países (na França em 1988) [25]. Enfim, em outro campo, coube ainda ao
Estado criar o elo entre o poder do capital financeiro e a gestão empresarial:
ele deu um quadro legal[26] às normas da governança empresarial que
consagrava os direitos dos acionistas e instaurava um sistema de
remuneração dos dirigentes baseado no aumento do valor das ações (stock-
options)[27].
Obviamente, o FMI e o Banco Mundial prosseguiram essa construção
política das finanças de mercado pelos governos. As políticas públicas
ajudaram ativa e fortemente os “investidores institucionais” a instaurar a
norma do máximo valor acionário, captar fluxos de renda cada vez maiores,
alimentar uma especulação desenfreada graças à extração de renda
financeira. A concentração das instituições financeiras, agora situadas no
centro dos novos dispositivos econômicos, permitiu atrair de modo sólido a
poupança das famílias e das empresas, o que lhes deu ao mesmo tempo
mais poder sobre todas as esferas econômicas e sociais. Portanto, aquilo que
se denomina “liberalização” das finanças – que é mais propriamente a
construção de mercados financeiros internacionais – engendrou uma
“criatura” com uma força ao mesmo tempo difusa, global e incontrolável.
Paradoxalmente, esse papel ativo dos Estados favoreceu a derrapagem
das instituições de crédito em meados dos anos 2000. Foi precisamente a
concorrência exacerbada entre instituições de crédito “multifuncionais” que
as levou a assumir riscos cada vez maiores a fim de manter a própria
rentabilidade [28]. Mas elas somente poderiam assumir esses riscos se o
Estado continuasse a ser o fiador supremo do sistema. O salvamento das
caixas econômicas nos anos 1990 nos Estados Unidos mostrou que o Estado não poderia permanecer indiferente ao desmoronamento dos grandes
bancos, segundo o princípio do “too big to fail” [“grande demais para
quebrar”]. Na realidade, há muito tempo o governo neoliberal faz o papel
de credor de última instância, como mostra a prática de compra de créditos
de bancos e securitização nos Estados Unidos[29]. De modo que não é de
admirar que os governos tenham aumentado as intervenções de
“salvamento” de instituições bancárias e seguradoras desde o
desencadeamento da crise em 2007: essas intervenções apenas ilustram em
grande escala o princípio da “nacionalização dos riscos e da privatização
dos lucros”. O governo britânico de Gordon Brown nacionalizou quase 50%
de seu sistema bancário e o governo norte-americano recapitalizou os
bancos de Wall Street a um custo de centenas de bilhões de dólares. Ao
contrário do que afirmaram certos analistas, evidentemente não é de
“socialismo” que se trata, tampouco de uma nova “Revolução de Outubro”,
mas de uma extensão forçada e forçosa do papel ativo do Estado
neoliberal. Construtor, vetor e parceiro do capitalismo financeiro, o Estado
neoliberal deu um passo à frente, tornando-se efetivamente, graças à crise, a
instituição financeira de última instância. Isso é tão verdadeiro que esse
“salvamento” conseguiu transformá-lo provisoriamente numa espécie de
Estado corretor, que compra títulos na baixa para tentar revendê-los na alta.
A ideia de que após a “retirada do Estado” assistiríamos a um “retorno do
Estado” deve ser seriamente rediscutida.
Ideologia (1): o “capitalismo livre”
O fato de essa ilusão ser tão corriqueira deve-se em grande parte a uma
estratégia eficaz de conversão de mentalidades que, a partir dos anos 1960 e
1970, tomou a dupla forma de uma luta ideológica contra o Estado e as
políticas públicas, de um lado, e de uma apologia despudorada do
capitalismo mais desbridado, de outro. Criou-se toda uma vulgata sobre o
tema da necessária “desobrigação do Estado” e a incomparável “eficiência
dos mercados”. Foi assim que, na virada dos anos 1980, o mito do mercado autorregulador pareceu estar de volta, a despeito das políticas neoliberais
que visavam a uma construção mais ativa dos mercados.
Essa conquista política e ideológica foi objeto de numerosos trabalhos.
Alguns autores desenvolveram uma estratégia muito consciente de luta
ideológica. Hayek, Von Mises, Stigler e Friedman de fato refletiram sobre a
importância da propaganda e da educação, um tema que ocupa parte notável
de suas obras e intervenções. Tentaram até mesmo dar uma forma popular a
suas teses para que tocassem, se não a opinião pública diretamente, ao
menos os formadores de opinião, e isso desde muito cedo, como mostra o
sucesso mundial de O caminho da servidão, de Hayek. O que explica
também a constituição dos think tanks (o mais famoso, a Sociedade Mont-
Pèlerin, fundada em 1947 em Vevey, na Suíça, por Hayek e Röpke, não foi
mais do que a “ponta de rede” de um vasto conjunto de associações e
círculos militantes em todos os países). A historiografia descreve como os
think tanks dos “evangelistas do mercado” permitiram lançar o assalto aos
grandes partidos de direita, apoiando-se numa imprensa dependente dos
meios empresariais, e como, pouco a pouco, as “ideias modernas” do
mercado e da globalização fizeram refluir e definhar os sistemas
ideológicos contrários, a começar pela social-democracia.
Evidentemente, do ponto de vista histórico, esse aspecto das coisas é
fundamental. Foi precisamente pela fixação e pela repetição dos mesmos
argumentos que certa vulgata acabou impondo-se por toda a parte, em
particular nas mídias, na universidade e no mundo político. Nos Estados
Unidos, Milton Friedman, em conjunto com seus trabalhos acadêmicos,
teve um papel importante na reabilitação do capitalismo com uma produção
excepcional de artigos, livros e programas de televisão. Ele foi o único
economista de sua época a aparecer na capa da Time Magazine (1969).
Perfeitamente consciente da importância dessa propagação das ideias pró-
capitalistas, dizia que, na maioria das vezes, a legislação apenas acompanha
um movimento da opinião pública que aconteceu vinte ou trinta anos
atrás [30]: a virada da opinião pública contra o laissez-faire dos anos 1880 só
se traduziu em políticas no início do século XX. Para Friedman, uma nova
mudança a favor do capitalismo concorrencial ocorrera por volta dos anos
1960 e 1970, após o fracasso das políticas de regulação keynesiana, de luta contra a pobreza e de redistribuição de renda, e em consequência da
rejeição cada vez maior ao modelo soviético. Para ele, a revolta dos
contribuintes californianos em 1978, que se estendeu progressivamente a
todos os Estados Unidos e a um grande número de países ocidentais,
testemunhou essa nova aspiração da população à redução dos gastos
públicos e dos impostos. Friedman, consciente desses ciclos e dos efeitos
retardados da opinião pública sobre a política e a legislação, acerta quando
anuncia em 1981 que aquela era uma grande virada que se traduziria em
medidas governamentais.
No momento certo, todos os países tiveram seus best-sellers elogiando a
revolução conservadora norte-americana e o retorno do mercado, e
denunciando com veemência os custosos abusos da função pública e do
“Estado de bem-estar”. Essa imensa onda de novas evidências fabricou um
consentimento, se não da população, ao menos das “elites” que tinham o
monopólio da palavra pública, e permitiu que aqueles que ainda ousavam
opor-se fossem estigmatizados como “arcaicos”[31].
Não podemos esquecer, todavia, que não foi apenas a força das ideias
neoliberais que garantiu sua hegemonia. Elas se impuseram a partir do
enfraquecimento das doutrinas de esquerda e do desabamento de qualquer
alternativa ao capitalismo. Elas se afirmaram sobretudo num contexto de
crise dos antigos modos de regulação da economia capitalista, no momento
em que a economia mundial era afetada pelas crises do petróleo. Isso
explica por que, diferentemente dos anos 1930, a crise do capitalismo
fordista resultou numa saída favorável não a menos capitalismo, mas, sim, a
mais capitalismo. O principal tema dessa guerra ideológica foi a crítica do
Estado como fonte de todos os desperdícios e freio à prosperidade.
O sucesso ideológico do neoliberalismo foi possível, em primeiro lugar,
graças ao novo crédito que se deu a críticas antiquíssimas contra o Estado.
Desde o século XIX, o Estado inspirou as mais virulentas diatribes. Frédéric
Bastiat, precedendo Spencer nesse quesito, sobressaiu-se em suas
Harmonies économiques. Os serviços públicos, dizia ele, alimentam a
irresponsabilidade, a incompetência, a injustiça, a espoliação e o
imobilismo: “Tudo que caiu no domínio do funcionalismo é quase
estacionário”, por falta do incentivo indispensável da concorrência[32]. Não nos surpreende, portanto, que sejam requentados temas parcamente
renovados por um novo vocabulário: o Estado é muito caro, desregula a
frágil máquina da economia, “desestimula” a produção. Nos últimos trinta
anos, o “custo do Estado” e o peso excessivo dos impostos foram
constantemente alegados para legitimar uma primeira virada no plano
fiscal. Outras críticas se juntaram a essa, ampliando a ideia do desperdício
burocrático: o caráter inflacionário dos gastos do Estado, o tamanho
insuportável da dívida acumulada, o efeito dissuasivo de impostos muito
pesados e a fuga de empresas e capitalistas do espaço nacional, que se
tornou “não competitivo” por causa do peso dos encargos sobre os
rendimentos do capital. Friedman sonhava com uma sociedade pouco
taxada:
Minha definição seria a seguinte: é “liberal” uma sociedade em que os gastos públicos,
todas as coletividades juntas, não ultrapassam 10% a 15% do produto nacional.
Estamos muito longe disso. Existem, evidentemente, outros critérios, como o grau de
proteção da propriedade privada, a presença de mercados livres, o respeito aos
contratos etc. Mas tudo isso é medido pelo peso global do Estado. Dez por cento era a
porcentagem na Inglaterra no apogeu do reinado da rainha Vitória, no fim do século
XIX. Na era dourada das colônias, Hong Kong chegou a menos de 15%. Todos os
dados empíricos e históricos mostram que 10% a 15% é o tamanho ótimo. Hoje, os
governos europeus chegam em média a quatro vezes mais. Nos Estados Unidos,
chegamos apenas a três vezes.[33]
Essa argumentação recupera de certo modo o velho tema do “governo
frugal”, que deve evitar retirar riquezas excessivas para não prejudicar a
atividade dos agentes econômicos, privando-os de recursos e arrasando suas
motivações. Von Mises e Hayek a reforçaram nos anos 1930 com suas
análises a respeito da ineficácia burocrática, que, para eles, devia-se
essencialmente à impossibilidade de cálculo nas economias dirigidas e à
ausência de qualquer arbitragem possível entre soluções alternativas. Os
argumentos elaborados por esses autores contra a “burocracia” e o “Estado
onipotente”, que no momento em que foram formulados iam contra a
corrente, fizeram um enorme sucesso na imprensa cinquenta anos depois, e,
muito além da direita, o desmoronamento da União Soviética parecia ser a
demonstração em ato do fracasso das economias centralizadas. Finalmente, o amálgama entre a burocracia de tipo stalinista e as diferentes formas de
intervenção na economia – que Hayek e Von Mises não hesitaram em fazer
– tornou-se comum na nova vulgata. Os fracassos da regulação keynesiana,
as dificuldades encontradas pela escolarização em massa, o peso dos
impostos, os diferentes déficits das caixas públicas de auxílio social, a
incapacidade relativa do Estado social de eliminar a pobreza ou reduzir as
desigualdades, tudo foi pretexto para reconsiderar as formas institucionais
que, após a Segunda Guerra Mundial, asseguraram um compromisso entre
as grandes forças sociais. Mais ainda, todas as reformas sociais desde o fim
do século XIX foram postas em dúvida, em nome da liberdade absoluta dos
contratos e da defesa incondicional da propriedade privada. Reprovando a
tese polanyiana da “grande transformação”, os anos 1980 caracterizam-se
no campo ideológico como uma época “spenceriana”.
Tudo isso foi misturado, com um conteúdo um pouco diferente, é claro,
mas ainda de acordo com o método empregado por Hayek em O caminho
da servidão. No fundo, o gulag e os impostos eram apenas dois elementos
de um mesmo continuum totalitário. Na França, por exemplo, “novos
filósofos” e “novos economistas” participaram simultaneamente da mesma
denúncia do grande Leviatã. Mais ainda, houve uma reviravolta na crítica
social: até os anos 1970, desemprego, desigualdades sociais, inflação e
alienação eram “patologias sociais” atribuídas ao capitalismo; a partir dos
anos 1980, os mesmos males foram sistematicamente atribuídos ao Estado.
O capitalismo deixou de ser o problema e se tornou a solução universal.
Essa era a mensagem das obras de Friedman a partir dos anos 1960[34].
Foi em nome dos “fracassos do mercado” (market failures) que a
intervenção pública foi justificada nos anos 1920 e estendida após a guerra.
Essa inversão da crítica foi perfeitamente resumida por Friedman em Livre
para escolher:
O governo é um dos meios pelos quais podemos tentar compensar os “defeitos do
mercado” e utilizar nossos recursos de forma mais eficaz para produzir a quantidade
de ar, água e terra própria que aceitamos pagar. Infelizmente, os próprios fatores que
produzem o “defeito de mercado” impedem o governo de chegar a uma solução
satisfatória. Via de regra, é tão difícil para o governo como é para os participantes do
mercado identificar quem foi prejudicado e quem foi beneficiado e avaliar o volume
exato dos prejuízos e dos benefícios. Tentar usar o governo para corrigir um “defeito
de mercado” é, muitas vezes, trocar um “defeito de mercado” por um “defeito de
governo”.[35]
Ronald Reagan transformou isso em slogan: “O governo não é a
solução, é o problema” [36].
Ideologia (2): o “Estado de bem-estar” e a
desmoralização dos indivíduos
Um grande número de teses, relatórios, ensaios e artigos tentará avaliar
a balança de custos e benefícios do Estado para terminar com um veredito
inapelável: o seguro-desemprego e a renda mínima são os responsáveis pelo
desemprego; os gastos com saúde agravam o déficit e provocam a inflação
dos custos; a gratuidade dos estudos incentiva a vadiagem e o nomadismo
dos estudantes; as políticas de redistribuição de renda não reduzem as
desigualdades, mas desestimulam o esforço; as políticas urbanas não
eliminaram a segregação, mas tornaram mais pesada a taxação local. Em
resumo, tratava-se de fazer a respeito de tudo a pergunta decisiva acerca da
utilidade da interferência do Estado na ordem do mercado e mostrar que, na
maior parte dos casos, as “soluções” dadas pelo Estado causavam mais
problema do que resolviam[37].
Mas a questão do custo do Estado social está longe de se circunscrever
à dimensão contábil. Na realidade, é no campo moral que a ação pública
pode ter os efeitos mais negativos, dependendo do número de polemistas.
Mais precisamente, é pela desmoralização que se é capaz de provocar na
população a opinião de que a política do “Estado de bem-estar” se tornou
particularmente onerosa. O grande tema neoliberal afirma que o Estado
burocrático destrói as virtudes da sociedade civil: a honestidade, o sentido
do trabalho bem feito, o esforço pessoal, a civilidade, o patriotismo. Não é o
mercado que destrói a sociedade civil com sua “sede de lucro”, porque ele