A Papisa Joana
Capítulo 18 · A irmandade de Fulda não foi muito…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Anastácio sentia uma mistura complexa de emoções em relação a
Gregório, da qual fazia parte uma quantidade igual de admiração e de desprezo: admiração pela sinceridade da piedade e da fé do homem, mas desprezo pela sua simplicidade e lentidão de raciocínio, que o expunha constantemente ao engano e à manipulação. O próprio Anastácio tinha-se aproveitado frequentemente da ingenuidade do Papa, sobretudo no Campo das Mentiras, quando tinha combinado a traição das negociações de paz de Gregório com o Imperador Franco Luís, mesmo à sua frente. O seu estratagemazinho tinha sido pago de forma generosa; o beneficiado, Lothar, filho de Luís, tinha sabido exprimir a sua gratidão e, agora Anastácio era um homem rico.
Mais importante ainda: Anastácio tinha conseguido ganhar a
confiança e o apoio de Lothar. É certo que, durante um tempo, Anastácio tinha temido que a sua aliança com o herdeiro franco — cultivada de forma tão cuidadosa — tivesse caído por terra.
De facto, a derrota de Lothar em Fontenoy tinha sido um desastre,
era preciso admiti-lo. Mas, Lothar tinha conseguido chegar a um acordo com seus irmãos rebeldes, no Tratado de Verdun, uma peça notável de malabarismo político que lhe tinha permitido manter tanto a coroa como os seus territórios.
Lothar tinha voltado a ser o imperador incontestado — facto que
viria a revelar-se de muita importância para o futuro de Anastácio.
O som dos sinos despertou Anastácio dos seus devaneios. Os sinos
tocaram uma, duas, três vezes. Anastácio bateu nas ancas, rejubilante. Finalmente!
Já tinha vestido o fato de luto quando lhe bateram à porta, como
ele esperava. O notário do Papa entrou silenciosamente.
— O Apostólico juntou-se a Deus — anunciou ele, compungido.
— A Vossa presença, primicerius, é requisitada na câmara papal.
Lado a lado, em silêncio, percorreram o seu caminho através dos
corredores em labirinto do Palácio de Latrão, até aos aposentos papais.
— Era um homem de Deus — disse o notário, quebrando o
silêncio. — Um pacificador, um santo.
— Era, de facto, um santo — respondeu Anastácio e pensou para
si próprio: sendo assim, em que lugar melhor poderia ele estar senão no Céu?
— Quem poderá substituí-lo? — perguntou o notário, com voz
trémula.
Anastácio reparou que o homem estava a chorar. Ficou
impressionado com a manifestação de emoção autêntica. Ele, por seu lado, era demasiado artificial, estava demasiado consciente do efeito que tudo quanto ele fazia e dizia tinha sobre os outros para se comprometer em lacrimae rerum. Mesmo assim, a emoção do notário lembrou-o de que devia preparar a sua própria manifestação de desgosto. À medida que se aproximavam da câmara papal ele susteve a respiração, contraindo o rosto, até os olhos lhe começarem a arder. Era um truque que ele utilizava para fazer com que lhe brotassem lágrimas quando ele queria; utilizava-o raramente, mas sempre com bons resultados.
A câmara estava aberta para que nela se reunisse a multidão de
enlutados. Gregório estava deitado numa grande cama de penas, com os olhos fechados e os braços cruzados de forma ritual sobre uma cruz em ouro. Os outros optimates, funcionários principais da corte papal, ladeavam o leito de morte: Anastácio viu Arighis, o vice-dominus; Compulus, o nomenclator; e Estêvão, o vestiarus.
— Anastácio, o primicerius — anunciou o secretário, quando
Anastácio entrou. Os outros levantaram os olhos para o verem mergulhado na dor, com o rosto desfigurado e as faces banhadas em lágrimas.
Joana levantou a cabeça e ofereceu o rosto às carícias do sol
romano. Ainda não se tinha acostumado àquele tempo agradável, temperado, em Wintarmanoth — ou Janeiro, como lhe chamavam no Sul do Império, onde reinavam costumes romanos, não francos.
Roma não era o que ela imaginava. Ela tinha imaginado uma
cidade esplendorosa, pavimentada a ouro e mármore, com centenas de basílicas erguendo-se para o Céu num testemunho glorioso da existência de uma verdadeira Civitas Dei, uma Cidade de Deus na terra.
A realidade revelou-se muito diferente. Caóticas, sujas, apinhadas
de gente, as ruas estreitas e tortas de Roma pareciam ter sido engendradas no Inferno, não no Céu. Os seus velhos monumentos — aqueles que não tinham sido convertidos em igrejas cristãs — estavam em ruínas. Os templos, anfiteatros, palácios e termas tinham sido despojados do seu ouro e prata e deixados a céu aberto. As trepadeiras enrolavam-se em torno das suas colunas caídas; os jasmins e as ervas cresciam nos buracos das suas paredes; porcos e cabras e bois de grandes cornos vagueavam pelos seus pórticos destruídos. As estátuas dos imperadores estavam espalhadas pelo chão; os sarcófagos dos heróis, vazios, eram utilizados agora como lavadouros, cisternas e manjedouras para os animais.
Era uma cidade de contradições antigas e aparentemente
irreconciliáveis: a maravilha do mundo e um turbilhão sujo e decadente; um lugar de peregrinação dos cristãos, cuja arte grandiosa celebrava deuses pagãos; um centro de livros e de ensino, cujo povo chafurdava na ignorância e na superstição.
Apesar destas contradições, talvez por causa delas, Joana adorava
Roma. O tumulto esfervilhante das suas ruas estimulava-a.
Nestes corredores apinhados de gente convergiam os cantos mais
afastados do mundo: romanos, lombardos, germânicos, bizantinos e muçulmanos acotovelavam-se uns aos outros, numa mistura excitante de costumes e línguas. Passado e presente, pagão e cristão estavam intertecidos numa tapeçaria rica e colorida. O melhor e o pior do mundo inteiro encontrava-se dentro destes velhos muros. Em Roma, Joana encontrou o mundo de oportunidades e de aventura que tinha procurado ao longo de toda a sua vida.
Passava a maior parte do tempo no Borgo, onde as várias scholae
ou sociedades de estrangeiros estavam situadas.
Chegada perto de um ano antes, tinha-se dirigido primeiro à
Schola Francorum, naturalmente, mas não conseguiu entrar porque o local estava a abarrotar com peregrinos e emigrantes francos. Por isso, tinha ido para a Schola Anglorum, onde a sua ascendência inglesa, por parte do pai, assim como o seu apelido, Anglicus, lhe tinham proporcionado uma recepção calorosa.
A profundidade e vastidão da sua educação depressa lhe
angariaram reputação de grande intelectual. Vinham teólogos de todas as partes de Roma para debaterem com ela; e partiam abismados com a vastidão dos seus conhecimentos e a sua habilidade de argumentação nas disputes. Como teriam ficado consternados se soubessem que tinham sido superados por uma mulher, pensava Joana, sorrindo intimamente.
Os seus deveres regulares incluiam celebrar missa diariamente
numa pequena igreja mesmo ao pé da schola. Depois da refeição do meio-dia e de uma pequena sesta (porque era costume no Sul dormir durante as horas mais abrasadoras da tarde), ela dirigia-se à enfermaria, onde passava o resto do dia a tratar dos doentes. A sua ciência era-lhe útil porque a prática da medicina aqui não era de maneira nenhuma tão avançada como na terra dos francos. Os romanos conheciam mal as propriedades terapêuticas das ervas e das plantas e não sabiam nada acerca do exame da urina para diagnosticar e tratar doenças.
Os sucessos da Joana como médica tornaram os seus serviços
muito requisitados. Levava uma vida activa e ocupada, como gostava, oferecia-lhe todas as oportunidades da vida monástica e nenhuma das suas desvantagens, podia exercer completamente toda a sue inteligência, sem controlo ou censura. Tinha acesso à biblioteca da schola, uma colecção pequena, mas requintada de mais de cinquenta volumes e ninguém a vigiava para lhe perguntar se tinha escolhido ler Cícero ou Suetónio, em vez de Agostinho.
Era livre de sair e entrar quando quisesse, de pensar como gostava,
de exprimir os seus pensamentos sem ter medo de ser flagelada ou denunciada.
O tempo passava depressa, escoando-se no cumprimento do
trabalho quotidiano. Assim poderiam ter prosseguido as coisas indefinidamente, se o papa Sérgio, recém-eleito, não tivesse adoecido. Desde o Domingo da Septuagésima que o papa tinha sido acometido de um conjunto de sintomas vagos, mas preocupantes: como má digestão, insónia, torpor e inchaço dos membros; pouco antes da páscoa, foi atacado por uma dor tão intensa que quase se tornou insuportável, todo o palácio acordava noite após noite com os seus gritos.
A sociedade de medicina mandou uma dúzia dos seus melhores
homens para tratarem do papa achacado, experimentaram uma quantidade de procedimentos para obterem uma cura: trouxeram um fragmento do crânio de São Policarpo para Sérgio lhe tocar; massajaram os seus membros doridos com óleo retirado da lâmpada que tinha ardido toda a noite no túmulo de São Pedro, medida que se sabia curar mesmo as aflições mais desesperadas; sangraram-no repetidas vezes e purgaram-no com eméticos tão fortes que todo o seu corpo foi sacudido por violentos espasmos. Quando até mesmo estes curativos tão poderosos falharam, eles tentaram dissipar a dor através de uma contra-irritação, colocando tiras de cera a ferver sobre as veias das pernas.
Nada resultava. Quando o estado do Papa se agravou, a população
de Roma começou a alarmar-se: se Sérgio morresse tão pouco tempo depois do seu predecessor, deixando o Trono de S. Pedro novamente vacante, o imperador franco, Lothar, talvez tentasse descer à cidade para impor sobre eles a sua autoridade imperial.
O irmão de Sérgio, Bento também estava preocupado — não
devido a qualquer sentimento fraternal, mas porque a doença do seu irmão representava uma ameaça para os seus próprios interesses. Tendo persuadido Sérgio a nomea-lo para seu missus papal, Bento tinha utilizado habilmente a sua posição para concentrar a autoridade dos funcionários papais em si próprio. Em resultado disso, cinco meses depois de ter iniciado o seu papado, já Sérgio só governava de nome; o poder efectivo em Roma estava nas mãos de Bento — para considerável aumento da sua fortuna pessoal.
Bento teria preferido ter também o título e a honra do cargo papal,
mas sabia muito bem que isso estava fora do seu alcance. Não tinha nem educação nem polimento para um cargo tão elevado. Era o segundo filho e em Roma não era costume dividir a propriedade e os títulos entre os herdeiros, como na terra dos francos. Como primogénito, Sérgio tinha sido cumulado de todos os privilégios familiares possíveis — roupa cara, tutores privados. Era terrivelmente injusto, mas não havia nada a fazer e, ao fim de pouco tempo, Bento tinha abandonado a atitude amuada e tinha procurado prazeres mais mundanos, os quais, como ele veio a descobrir rapidamente, não faltavam em Roma. A sua mãe tinha resmungado com os seus hábitos dissolutos, mas não tinha feito nenhuma tentativa efectiva para os impedir; o seu interesse e a sua esperança tinham estado sempre concentradas em Sérgio.
Agora, finalmente, os longos anos de esquecimento da sua pessoa
tinham chegado ao fim. Não tinha sido difícil conseguir que Sérgio o nomeasse missus papal; Sérgio sempre se tinha sentido culpado da preferência que lhe tinha sido dada, em detrimento do seu irmão mais novo. Bento sabia que o seu irmão era fraco, mas ainda tinha sido mais fácil corrompê-lo do que ele estava à espera. Depois de tantos anos de estudo incessantes e privações monásticas, Sérgio estava mais do que pronto para gozar a vida. Bento não procurou tentar o seu irmão com mulheres porque Sérgio estava firmemente agarrado ao voto de castidade sacerdotal.
De facto, os seus sentimentos neste ponto aproximavam-se da
obsessão, a tal ponto que Bento teve de se esforçar por manter em segredo as suas próprias aventuras sexuais.
Mas, Sérgio tinha outra fraqueza — um apetite insaciável pelos
prazeres da mesa. Enquanto consolidava o seu próprio poder, Bento tratava de manter o seu irmão distraído com um desfile interminável de prazeres gastronómicos. A capacidade de Sérgio para comer e beber era prodigiosa. Sabia-se que era capaz de comer cinco trutas, duas galinhas assadas, uma dúzia de empadões de carne e uma perna de veado numa só refeição.
Uma vez, depois de uma orgia assim, tinha aparecido na missa
matinal tão empanturrado e inchado, que vomitou por cima da Hóstia Sagrada sobre o altar para horror da comunidade reunida.
A seguir a este episódio vergonhoso, Sérgio resolveu regenerar-se,
regressando à dieta simples, constituída por pão e verduras, na qual tinha sido criado. Este regime espartano restabeleceu-o; começou a interessar-se novamente pelos assuntos de Estado. Isto tinha interferido nos planos de Bento. Mas, Bento esperou pela sua hora. Quando achou que Sérgio já tinha feito experiência suficiente de uma mortificação piedosa, começou a tentá-lo com ofertas extravagantes: exóticos bombons recheados, pastéis de carne e sopas, leitões assados, barris de vinho da Toscana. Sérgio depressa regressou às suas comezainas.
Mas, desta vez, a comezaina tinha ido longe de mais. Sérgio ficou
doente, perigosamente doente. Bento não tinha pena do seu irmão mais velho, mas não queria que ele morresse. A morte de Sérgio significaria o fim do poder do próprio Bento.
Era preciso fazer qualquer coisa. Os médicos que estavam a tratar
de Sérgio eram uns incompetentes que atribuíam a doença do Papa a demónios poderosos, contra cuja maldade só a oração podia prevalecer. Cercaram Sérgio de uma quantidade de padres e monges, que choravam e rezavam junto à sua cama de dia e de noite, erguendo as suas vozes pungentes ao Céu. Mas não resultava: Sérgio continuava a piorar.
Bento não estava disposto a deixar que o seu futuro estivesse
dependente de um fio de oração. Tenho de fazer qualquer coisa. Mas, o quê?
— Senhor.
Bento foi despertado dos seus sonhos pela vozinha hesitante de
Celestino, um dos cubicularu ou camareiros do Papa. Como a maior parte dos seus colegas, Celestino era proveniente de uma família romana rica e aristocrata que tinha pago generosamente pela honra de ter o seu jovem filho ao serviço como camareiro do Papa.
Bento olhou para o rapaz com antipatia. O que sabia esta criança
desmamada e privilegiada acerca da sua vida, da dura luta para sair da obscuridade?
— O que é?
— Monsenhor Anastácio pede uma audiência convosco. — Anastácio? — Bento não se lembrava do nome. — Bispo de Castellum — esclareceu Celestino, aprontadamente. — Ousas ensinar-me?
Furioso, Bento deu uma bofetada a Celestino.
— Isto é para aprenderes a respeitar os teus superiores.
Desaparece e traz-me cá o bispo.
Celestino saiu apressadamente, esfregando a bochecha com os
olhos rasos de água. A mão de Bento ficou-lhe a doer; fechou-a, sentindo-se melhor.
Anastácio entrou pouco depois pela porta. Alto e elegante, o
epítome da elegância aristocrática estava perfeitamente ciente da impressão que causava a Bento.
— Pax vobiscus — saudou-o Bento, num latim atrapalhado. Anastácio reparou no barbarismo, mas preocupou-se em não lhe
mostrar o desprezo que sentia por ele.
— Et cum spiritu tuo — respondeu ele, suavemente. — Sua
Santidade o Papa? Como está?
— Mal. Muito mal.
— Desgosta-me ouvi-lo.
Isto era mais do que delicadeza. Anastácio estava realmente
preocupado. Ainda não tinha chegado a hora certa para Sérgio morrer. Anastácio só teria trinta e cinco anos — a idade mínima requerida para um Pontífice — dali a mais de um ano. Se Sérgio morresse — agora, podia ser eleito um homem mais novo do que ele e isso poderia significar que a Cátedra de São Pedro só voltaria a vagar dali a vinte anos. Anastácio não tencionava esperar tanto para realizar a ambição da sua vida.
— Espero que o vosso irmão esteja a ser bem tratado? — Está rodeado noite e dia por santos homens, que oferecem
orações pelas suas melhoras.
— Ah!
Fez-se silêncio. Ambos eram cépticos relativamente à eficácia
daquelas medidas, mas nenhum deles podia manifestar as suas dúvidas abertamente.
— Há uma pessoa na Schola Anglorum — aventurou-se
Anastácio. — Um padre com uma grande reputação como médico.
— Ah, sim?
— João Anglicus, penso que é assim que se chama. Um
estrangeiro, Parece que é um homem muito instruído. Dizem que é capaz de fazer curas verdadeiramente milagrosas.
— Talvez eu possa mandar chamá-lo — disse Bento. — Talvez — concordou Anastácio.
Depois, deixou o assunto morrer, Bento não era homem para ser
pressionado, segundo lhe parecia. Tacticamente, Anastácio desviou a conversa para outro tema. Quando lhe pareceu que já tinha passado um lapso de tempo suficiente, levantou-se para sair.
— Dominus tecum, benedictus.
— Deus vobiscus — titubeou Bento novamente. Imbecil ignorante, pensou Anastácio. Era uma vergonha que um
homem daqueles pudesse ter tanto poder, era uma nódoa na reputação da Igreja. Com uma vénia e um movimento elegante das suas vestes, Anastácio virou-se e saiu. Bento ficou a vê-lo partir, Nada mal, para um aristocrata. Vou mandar chamar esse pequeno curandeiro, chamado João Anglicus. Provavelmente, ia haver problemas por causa de ele mandar chamar alguém que não era membro da sociedade de medicina, mas não importava. Bento havia de arranjar uma forma. Havia sempre uma maneira, quando se sabia o que se queria.
Aos pés da grande cama sobre a qual repousava Sérgio havia três
dúzias de velas. Por trás delas, ajoelhava-se uma multidão de monges vestidos de preto, desfiando litanias em uníssono, em voz baixa.
Enódio, arquiatro de Roma, levantou o seu lancete de ferro e
enterrou-o profundamente no antebraço esquerdo de Sérgio, atingindo a veia principal. O sangue escorreu da ferida para dentro de uma taça em prata segurada por um aprendiz de Enódio. Enódio abanou a cabeça, ao examinar o sangue na taça.
Era grosso e escuro; o humor mórbido que estava a causar a
doença ao Papa estava concentrado no corpo e não saía. Enódio deixou a ferida aberta, deixando o sangue correr mais do que o costume; não iria poder sangrar Sérgio durante alguns dias porque a Lua estava a passar para Gémeos, um sítio impropício às sangrias.
— Como está ele? — perguntou Florus, um colega médico. — Mal. Muito mal.
— Saiamos — sussurrou Florus. — Preciso de falar convosco. Enódio estancou a ferida, juntando a pele e fazendo pressão com a
mão. Deixou para o seu aprendiz a tarefa de ligar a ferida com as folhas de arruda, cobertas em gordura, embrulhadas em pano. Depois de ter lavado as mãos, seguiu Florus, saindo para o corredor.
— Mandaram chamar mais alguém — disse Florus
apressadamente logo que ficaram sozinhos. — Um médico da Schola Anglorum.
— Não!
Enódio estava consternado. Era suposto a prática da medicina
dentro da cidade estar estritamente confinada aos médicos da sociedade de medicina — apesar de, na verdade, haver um pequeno exército desconhecido de presumíveis médicos que exerciam os seus talentos duvidosos entre a populaça. Eram tolerados, desde que atuassem anonimamente entre os pobres.
Mas, o reconhecimento oficial de um deles, trazendo-o ao palácio
do próprio papa, representava uma ameaça inegável.
— João Anglicus, chama-se o homem — disse Florus. — Existem
rumores de que ele possui poderes extraordinários. Dizem que é capaz de diagnosticar uma doença apenas através do exame da urina do paciente.
Enódio suspirou:
— Um charlatão.
— É óbvio. Mas, alguns destes impostores são bastante dotados.
Se este João Anglicus conseguir fazer parecer que tem alguma habilidade, pode ser danoso.
Florus tinha razão. Numa profissão como a deles, onde os
resultados eram, frequentemente, desapontadores e sempre imprevisíveis, a reputação era tudo. Se este estranho obtivesse sucesso onde era visível que eles tinham falhado...
Enódio pensou por um momento.
— Ele examina a urina, dizeis vós. Bem, então, nós damos-lhe
uma amostra.
— Ora, a última coisa que nós vamos fazer é ajudar um estranho! Enódio sorriu.
— Eu disse que lhe íamos dar uma amostra, Florus. Não disse de
quem.
Guiada por uma escolta de guardas papais, Joana dirigiu-se
rapidamente para o Patriarchum, o palácio enorme que albergava a residência papal, assim como a multiplicidade de serviços administrativos que constituiam a sed do governo em Roma.
Passando pela grande basílica de Constantino, com as suas linhas
magníficas de janelas em arco, entraram no patriarchum.
Dentro, subiram um pequeno lance de escadas, que levavam ao
triclinium major, ou grande sala do palácio cuja construção tinha sido ordenada pelo papa Leão, de boa memória. A parede era revestida a mármore e decorada com miríades de mosaicos, trabalhados com um grau de qualidade artística que deixava a Joana maravilhada. Nunca tinha visto cores tão brilhantes, nem figuras tão vivas. Ninguém na terra dos francos — bispo, abade, conde, nem sequer o próprio imperador — podiam aspirar a tamanha magnificência.
No meio do triclinium, estava reunido um grupo de homens. Um
deles dirigiu-se a ela, cumprimentando-a. Era moreno, com uns olhos pequenos e inchados e uma expressão enérgica.
— Sois o padre João Anglicus? — perguntou ele. — Sou, sim.
— Eu sou Bento, o missus papal e irmão do papa Sérgio. Mandei
chamar-vos para curardes Sua Santidade.
— Farei o que puder — disse Joana.
Bento baixou a voz, num murmúrio de conspiração: — Há quem não deseje que vós tenhais sucesso. Joana compreendeu imediatamente. A maior parte dos membros
daquele grupo pertenciam à sociedade elitista e exclusiva dos médicos. Não receberiam bem uma pessoa de fora.
Veio juntar-se a eles um outro homem — alto, magro, com um
olhar penetrante e nariz curvo. Bento apresentou-o como Enódio, arquiatro da sociedade de medicina.
Enódio cumprimentou Joana com um pequeno aceno. — Descobrireis por vós mesmos, se fordes capaz, que Sua
Santidade é afligido por demónios, cuja influência perniciosa não será desalojada por medicinas ou purgas.
Joana não disse nada. Dava pouco crédito a teorias daquelas. Por que haveria de se procurar uma explicação sobrenatural,
quando há tantas causas de doença de índole física e detectável?
Enódio estendeu-lhe um frasquinho com um líquido amarelo. — Esta amostra de urina foi tirada a Sua Santidade há menos de
uma hora. Estamos curiosos para ver o que ides descobrir nela.
Então, vão pôr-me à prova, pensou Joana. Bom, suponho que seja
uma maneira de começar tão boa como qualquer outra.
Pegou no frasquinho e pô-lo diante da luz. O grupo fez um
semicírculo. O nariz adunco de Enódio tremeu enquanto a observava com uma expectativa manhosa.
Ela virou e revirou o frasquinho para ver bem o seu conteúdo.
Estranho. Cheirou-o e voltou a cheirá-lo. Mergulhou um dedo no líquido, chegou-o à língua e provou-o cuidadosamente.
A tensão na sala, agora, era quase palpável.
Voltou a cheirá-lo e a prová-lo. Não havia dúvida. Um ardil astucioso, substituir a urina do Papa pela de uma mulher
grávida. Eles tinham-na confrontado com um verdadeiro dilema. Como um simples padre e um estranho, ela não podia acusar uma companhia tão augusta de a querer enganar deliberadamente. Por outro lado, se não detectasse a substituição, seria denunciada como uma fraude.
A armadilha tinha sido lançada com habilidade. Como haveria de
lhe escapar?
Pôs-se a pensar.
Depois, virou-se e anunciou com prontidão:
— Deus acabou de realizar um milagre. Dentro de trinta dias, Sua
Santidade dará à luz.
Bento ria às bandeiras despregadas ao sair do triclinium. — A cara daqueles velhos! Tive de me esforçar para não começar
a rir alto!
Ele estava divertidíssimo com aquilo que tinha acontecido. — Haveis demonstrado a vossa arte e exposto o seu embuste sem
pronunciar uma única palavra de acusação. Brilhante!
Ao aproximarem-se da câmara papal, ouviram uma gritaria vinda
do outro lado da porta.
— Vilões! Vampiros! Ainda não morri!
Ouviu-se um estrondo, como se se tivesse partido qualquer coisa. Bento abriu a porta. Sérgio estava sentado na cama, com o rosto
contorcido de fúria. No meio do quarto, estava um vaso partido, que tinha sido atirado a um grupo de padres assustados. Sérgio tinha agarrado uma taça em ouro, que estava em cima da mesa de cabeceira, e estava prestes a atirá-la aos infelizes prelados, quando Bento se apressou a tirar-lha das mãos.
— Então, Irmão. Sabes o que os médicos disseram. Estás doente;
não deves exaltar-te.
Sérgio disse, num tom acusador:
— Acordei e apercebi-me de que me estavam a ungir. Estavam a
tentar administrar-me a extrema-unção.
Os prelados alisaram as vestes com uma dignidade ofendida. Pareciam ser homens importantes; um deles, que usava o pallium
de arcebispo, disse:
— Pensámos que era melhor, como Vossa Santidade estava a
piorar...
— Saí imediatamente! — interrompeu Bento.
Joana estava espantada; Bento devia ser poderoso, realmente, para
se dirigir a um arcebispo de uma forma tão incivilizada.
— Pensai bem, Bento — avisou-o o arcebispo. — Quereis pôr em
perigo a alma imortal do vosso irmão?
— Rua! — Bento agitou os braços, como se estivesse a enxotar
um bando de corvos. — Saí todos!
Os prelados recuaram rapidamente, sentindo-se todos igualmente
indignados.
Sérgio caiu pesadamente sobre as suas almofadas. — As dores, Bento — lamentou-se ele. — Não consigo suportar
as dores.
Bento pegou num jarro que se encontrava sobre a mesa, encheu
uma taça de ouro com vinho e chegou-a aos lábios de Sérgio.
— Bebe — disse ele. — Vai aliviar-te.
Sérgio bebeu com sofreguidão.
— Mais — pediu ele, mal tinha acabado de esvaziar a taça. Bento encheu a taça novamente, depois, voltou a enchê-la. O
vinho escorria pelos cantos da boca de Sérgio. Ele era pequeno de ossos, mas muito gordo. A sua figura era constituída por uma série de esferas ligadas umas às outras: o rosto redondo ligava-se ao queixo redondo, os olhos redondos ocupavam o centro de duas órbitas circulares.
— Agora, — disse Bento, quando a sede de Sérgio já tinha sido
saciada — olha o que eu fiz por ti, Irmão! Trouxe-te uma pessoa que te pode ajudar. É João Anglicus, um médico de grande reputação.
— Outro médico? — disse Sérgio, desconfiado. Mas, não fez qualquer objecção quando Joana puxou os cobertores
para trás para o examinar. Ela ficou chocada com o estado em que ele estava. As suas pernas estavam tremendamente inchadas, com a carne esticada a abrir fissuras e a estalar.
Sofria de uma inflamação grave nas articulações; Joana suspeitou
da sua origem mas tinha de se certificar. Examinou as orelhas de Sérgio. Como seria de esperar, encontrou sinais de tofo, pequenas excrescências esbranquiçadas, semelhantes a olhos de caranguejo, cuja presença só podia significar uma coisa, que Sérgio estava a sofrer um ataque agudo de gota.
Como era possível que os médicos não tivessem descoberto? Joana passou cuidadosamente os dedos pela carne avermelhada e
lustrosa, sentindo a origem da inflamação.
— Pelo menos, este não tem mãos de lavrador — reconheceu o
Sérgio.
Era espantoso que ele ainda estivesse lúcido porque estava a arder
em febre. Joana tomou-lhe o pulso, reparando nas diversas feridas que ele tinha no braço, em resultado das sangrias. A pulsação era fraca e o seu parecer, agora que já lhe tinha passado o acesso de cólera, era de um branco-azulado doentio.
Benedicite, pensou ela. Não admira que ele tenha febre. Sangraram-no até à morte.
Virou-se para o camareiro e disse.
— Trazei-me água. Depressa.
Ela tinha que diminuir o inchaço, antes que este o matasse. Graças a Deus que tinha trazido pó de cólquico. Joana pegou no
seu saco e tirou um pedaço de pergaminho encerado, desdobrando-o cuidadosamente para não desperdiçar o pó precioso. O camareiro voltou com um jarro de água. Joana deitou um pouco numa taça, depois deitou-lhe dois dracmas de raiz em pó, a dose recomendada. Acrescentou-lhe mel diluído, para disfarçar o sabor amargo e uma pequena dose de meimendro, para adormecer Sérgio — porque o sono era o melhor remédio contra a dor e o descanso a melhor esperança de cura.
Deu o copo a Sérgio, que o bebeu de um só trago.
— Pah! — disse ele, cuspindo-o. — Isto é água! — Bebei-o — disse Joana com firmeza.
Para sua surpresa, Sérgio obedeceu-lhe.
— E agora? — perguntou ele, depois de ter esvaziado a taça. —
Ireis purgar-me?
— Pensava que estáveis farto dessas torturas.
— Quer dizer que não ides fazer mais nada senão isto? —
desafiou-a Bento. Um simples reforço, mais nada?
Joana suspirou. Já se tinha deparado com reacções daquele tipo
em outras ocasiões. O senso comum e a moderação não eram apreciadas na arte da cura. As pessoas exigiam medidas mais dramáticas. Quanto mais séria era a doença, mais violenta se esperava que fosse a cura.
— Vossa Santidade sofre de gota. Dei-lhe meimendro, um
medicamento especialmente indicado para esta doença. Daqui a pouco, ele vai adormecer e, Deo volente, as dores e o inchaço que o têm afligido abrandarão daqui a alguns dias.
Como que a comprovar a verdade daquilo que ela tinha acabado
de dizer, a respiração ofegante de Sérgio começou a abrandar; encostou-se ás almofadas, relaxado, e fechou os olhos sossegadamente.
A porta abriu-se com um estrondo. Entrou um homem pequeno e
tenso, com um rosto semelhante ao de um galo de Bantam preparado para atacar. Brandiu um rolo de pergaminho diante do nariz de Bento.
— Eis o documento. Só preciso da assinatura.
Pela forma como estava vestido e como falava, parecia ser um
mercador.
— Agora não, Aio — respondeu Bento.
Aio abanou a cabeça furiosamente:
— Não, Bento, não voltareis a mandar-me embora. Toda a cidade
de Roma sabe que o Papa está gravemente doente. E se ele morrer esta noite?
Joana olhou preocupada para Sérgio, mas ele não tinha ouvido.
Estava a dormir profundamente.
O homem agitou um saco com moedas diante dos olhos de Bento. — Mil soldos, como combinado. Assinai o papel agora e isto, —
levantou outro saquinho — também será vosso.
Bento levou o pergaminho para a cama e desenrolou-o sobre o
lençol.
— Sérgio?
— Ele está a dormir — protestou Joana. — Não o acordeis. Bento ignorou-a.
— Sérgio! — agarrou o irmão pelos ombros e abanou-o. Sérgio abriu os olhos. Bento pegou numa pena que se encontrava
sobre uma mesa ao lado da cama, mergulhou-a na tinta e meteu-a na mão de Sérgio.
— Assina isto — ordenou-lhe ele.
Atordoado, Sérgio colocou a pena sobre o pergaminho. A sua mão
tremeu, espalhando a tinta sobre o pergaminho num rabisco torto. Bento pegou na mão do irmão e ajudou-o a fazer a assinatura papal.
De onde estava, Joana via bem o papel. Era uma formata
nomeando Aio bispo de Alatri. O contrato que tinha sido feito mesmo à frente de Joana era um suborno para comprar uma nomeação para bispo!
— Agora, descansa, Irmão — disse Bento, satisfeito por ter
conseguido o que queria.
Voltando-se para Joana, disse:
— Ficai com ele.
Joana assentiu. Bento e Aio saíram do quarto.
Joana tapou Sérgio com os cobertores, aconchegando-os
suavemente. Tinha o queixo espetado, posição característica dela, que demonstrava determinação.
Era evidente que as coisas no palácio papal corriam mal. E não era
provável que se endireitassem enquanto Sérgio estivesse doente e o seu irmão venal governasse em seu lugar. A sua tarefa era simples: restabelecer a saúde do Papa o mais depressa possível.
Nos dias que se seguiram, Sérgio manteve-se em estado grave. O canto constante dos padres impedia-o de dormir, por isso, a
pedido insistente de Joana, a sua vigília junto ao leito papal terminou. Tirando uma pequena ida à Schola Anglorum para ir buscar alguns medicamentos, Joana não saiu de ao pé de Sérgio.
Durante o dia, vigiava o seu estado; durante a noite, dormia numa
pilha de almofadas ao lado da cama.
Ao terceiro dia, o inchaço começou a diminuir e a pele que o
cobria começou a descamar. De noite, Joana acordou de um sono agitado para descobrir que Sérgio tinha deixado de transpirar.
Benedicite, pensou ela. A febre passou.
Ele acordou na manhã seguinte.
— Como vos sentis? — perguntou Joana.
— Não sei — disse ele, vacilante. — Acho que me sinto melhor. — Estais com muito melhor aspecto.
O seu ar macilento tinha desaparecido, assim como o tom
cinzento-azulado doentio da sua pele.
— As minhas pernas... sinto um formigueiro!
Ele começou a coçar as pernas desesperadamente. — A comichão é um bom sinal; quer dizer que as pernas estão a
voltar à vida — disse Joana. — Mas, não deveis irritar a pele porque ainda há perigo de infecção.
Ele retirou a mão. Mas, a comichão era intensa; pouco depois,
estava outra vez a coçar as pernas. Joana administrou-lhe uma dose de meimendro para o acalmar e ele voltou a adormecer.
Quando abriu os olhos no dia seguinte, estava lúcido,
perfeitamente consciente do que se passava à sua volta.
— Já não tenho dores! — Olhou para as pernas. — E o inchaço! O que viu animou-o; sentou-se. Ao ver um camareiro através da
porta, disse:
— Tenho fome. Trazei-me um pedaço de presunto e um pouco de
vinho.
— Um prato de legumes e um copo de água — contra-ordenou
Joana.
O camareiro desapareceu apressadamente, antes que Sérgio
pudesse protestar.
Sérgio ergueu as sobrancelhas, surpreendido.
— Quem sois vós?
— O meu nome é João Anglicus.
— Não sois romano.
— Nasci no país dos francos.
— No Norte! — Os olhos de Sérgio tornaram-se mais penetrantes.
— É uma região assim tão bárbara como dizem?
Joana sorriu:
— Há menos igrejas, se é isso que quereis dizer. — Porque vos chamais Anglicus — perguntou Sérgio — se haveis
nascido no país dos francos?
Ele estava espantosamente lúcido, dado tudo aquilo por que tinha
passado.
— O meu pai era inglês — explicou Joana. — Veio pregar a fé aos
saxónios.
— Aos saxónios? — Sérgio franziu o sobrolho. — Uma tribo
ímpia.
Mamã. Joana sentiu aquela onda de vergonha e amor que lhe era
familiar e disse:
— A maior parte deles, agora, são cristãos — tanto quanto é
possível a quem foi trazido para a fé pelo fogo e a espada.
Sérgio olhou para ela com severidade.
— Não concordais com a missão da Igreja de converter os
pagãos?
— Que valor pode ter qualquer compromisso obtido pela força?
Sob tortura, uma pessoa pode confessar seja que mentira for, apenas para pôr termo ao sofrimento.
— Mas, nosso Senhor mandou-nos anunciar a Palavra de Deus:
Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
— É verdade — concordou Joana. — Mas... — Interrompeu-se.
Lá estava ela outra vez a deixar-se arrastar para um debate imprudente e, possivelmente, até perigoso, desta vez, com o próprio Papa!
— Continuai — incitou Sérgio.
— Perdoai-me, Santidade. Não estais bem.
— Também não estou assim tão mal que não possa raciocinar —
retorquiu Sérgio, impacientemente. — Prossegui.
— Bem... — ela escolheu as palavras com cuidado. — Pensai na
ordem dos mandamentos dados por Cristo: primeiro, ensinai as nações, depois, baptizai-as.
Não nos é ordenado que administremos o sacramento do baptismo
antes que o pensamento abrace a fé pela prática, primeiro, ensinai, disse Cristo, depois baptizai.
Sérgio observou-o com interesse.
— Pensais bem. Onde fostes educado?
— Um grego de nome Asclépios, um homem de grande saber, foi
meu tutor em criança. Depois, mandaram-me para a escola da catedral de Dorstadt e, mais tarde, para Fulda.
— Ah, Fulda! Ainda à pouco tempo recebi um manuscrito de
Rábano Mauro com iluminuras lindíssimas, contendo um poema da sua autoria sobre a Santa Cruz de Cristo. Quando lhe escrever para lhe agradecer, hei-de contar-lhe os serviços que haveis prestado à nossa pessoa.
Joana pensava que se tinha livrado do abade Rábano para sempre;
será que o seu ódio tirânico a ia perseguir até aqui, pondo em perigo a vida nova que ela tinha construído para si própria?
— Temo que não vos mandem boas informações de lá acerca da
minha pessoa.
— Porquê?
— O abade considera a obediência o maior de todos os votos
religiosos. Mas, para mim, sempre foi o mais difícil.
— E os vossos outros votos? — perguntou Sérgio, solenemente.
— O que haveis feito deles?
— Nasci na pobreza e acostumada a ela. Quanto à castidade —
acrescentou ela esforçando-se por não deixar transparecer qualquer ironia na sua voz —, sempre resisti á tentação das mulheres.
A expressão de Sérgio suavizou-se.
— Folgo em ouvi-lo. Porque, neste aspecto, eu não concordo com
o abade Rábano; de todos os votos religiosos, a castidade é certamente o maior e aquele que mais agrada a Deus.
Joana ficou surpreendida com os seus pensamentos. O ideal da
castidade sacerdotal estava longe de ser praticado universalmente em Roma. Não era nada fora do comum um sacerdote romano ter uma esposa, assim como não existia qualquer proibição de acesso de homens casados ao sacerdócio, desde que concordassem em renunciar a todas as relações conjugais ulteriores — acordo que, como seria de esperar, era mais quebrado do que cumprido. Uma mulher raramente se opunha a que o seu marido quisesse ser padre porque partilhava com ele o prestígio da sua posição; a mulher de um padre recebia o tÍtulo honorífico de "sacerdotisa" ou de "diaconisa", se fosse esposa de um diácono, O papa Leão III era casado quando ascendeu ao trono papal e ninguém tinha pensado mal dele em Roma por causa disso.
O camareiro voltou com uma salva de prata com pão e legumes,
que colocou diante de Sérgio. Este pegou num pedaço de pão e deu-lhe uma dentada, esfomeado.
— Agora, contai-me tudo o que se passou entre vós e o abade
Rábano — disse ele.
Capítulo 20
Joana veio a aperceber-se que era como se o Sérgio fosse duas
pessoas: uma, dissoluta, ordinária e má; a outra, culta, inteligente e ponderada. Tinha lido num livro de Celso que havia casos destes: animae divisae, chamava-lhes ele — almas divididas.
Era o que se passava com Sérgio. Mas, no seu caso, era a bebida
que desencadeava a metamorfose. Gentil e bondoso, quando sóbrio, tornava-se um terror sob o efeito da bebida. Os criados do palácio, sempre prontos para a maledicência, contaram a Joana que, uma vez, Sérgio tinha condenado um deles à morte apenas porque não lhe tinha levado o jantar a horas.
Tinha voltado ao estado de sobriedade a tempo de impedir a
execução, mas não a tempo de impedir que o servo tivesse sido vergastado e exposto no pelourinho.
Os seus médicos, afinal, não estavam assim tão enganados, como
veio a descobrir Joana: Sérgio estava possesso, apesar de os demónios que o afligiam não terem nada a ver com o Diabo, mas sim com ele próprio.
Assim que se apercebeu das suas melhores qualidades, Joana fez
sua a missão de o recuperar. Colocou-o sob uma dieta rigorosa constituída por vegetais e água de cevada. Sérgio resmungou, mas obedeceu, temendo que as dores voltassem.
Quando ela considerou que ele já estava pronto, instituiu um
regime de passeios diários a pé nos jardins lateranenses. Ao início, ele tinha de ser levado até lá na sua cadeira, carregado por três criados, que gemiam sob o seu peso. No primeiro dia, mal conseguiu andar alguns passos, caiu imediatamente na sua cadeira, esgotado. Com a persistência de Joana, cada dia foi um pouco mais longe; ao fim de um mês, já era capaz de dar uma volta completa ao jardim.
O inchaço residual em torno das suas articulações diminuiu e a
pele recuperou um tom rosado saudável. Os seus olhos desincharam e as suas feições ganharam um contorno mais definido, pelo que Joana se apercebeu de que ele era um homem muito mais novo do que ela tinha pensado inicialmente — talvez não tivesse mais do que quarenta e cinco ou cinquenta anos.
— Sinto-me um homem novo — disse Sérgio um dia a Joana,
durante o seu passeio quotidiano.
Era Primavera e os lilases já estavam em flor, perfumando o ar
com o seu aroma activo.
— Não tendes tonturas, nem sentis fraqueza ou dores? —
perguntou Joana.
— Não, nada. Realmente, Deus operou um milagre. — Bem podeis dizê-lo, Santidade — disse Joana com um sorriso
de lado, — Mas, pensai no estado em que estáveis, quando apenas Deus vos servia de médico!
Sérgio puxou afectuosamente a orelha de Joana. — Deus mandou-vos para realizardes o Seu milagre! Riram-se os dois. Estimavam-se mutuamente. É este o momento,
pensou Joana.
— Se vos sentis realmente bem... — e deixou as palavras a pairar
no ar.
— Sim?
— Estava só a pensar que... o tribunal papal se reúne hoje. O vosso irmão Bento preside no vosso lugar, como é costume. Mas, se vos sentis bem...
Sérgio disse, resolutamente:
— Bento está habituado a presidir. Certamente, não é preciso...
— As pessoas não escolheram Bento para seu senhor. Precisam de
vós, Santidade.
Sérgio suspirou, Fez-se um longo silêncio.
A Joana pensou: falei cedo de mais e de forma demasiado clara. Sérgio disse:
— O que dizeis é verdade, João Anglicus, Negligenciei estas
coisas durante demasiado tempo.
A tristeza que os seus olhos exprimiam davam ao seu rosto uma
expressão de sabedoria.
Joana respondeu suavemente:
— O remédio, meu senhor, está em agir.
Sérgio olhou para ela. Depois, virou-se de repente, encaminhando-
se para a entrada do jardim.
— João, então! — chamou-a ele. — ... Que esperais? Joana apressou-se a segui-lo.
Havia dois guardas encostados à parede exterior da sala do
tribunal, conversando um com o outro. Ao verem Sérgio, deram um salto, pondo-se direitos e abriram as portas.
— Sua Santidade o Papa, Sérgio, bispo metropolita de Roma! —
anunciou um deles, com voz forte.
Sérgio e Joana entraram na sala. Por uns momentos, fez-se um
silêncio atónito, ao qual se seguiu um ranger de cadeiras, quando as pessoas se puseram de pé para saudar a entrada do Papa. Quer dizer, menos Bento, que ficou sentado na cadeira papal, de boca aberta.
— Fecha a boca, irmão, a não ser que queiras engolir uma mosca
— disse Sérgio.
— Santidade! Será prudent? — Exclamou Bento. — Não deveis
colocar em risco a vossa saúde, assistindo a esta audiência!
— Obrigado, Irmão, mas sinto-me bastante bem — respondeu
Sérgio. — E não vim para assistir, mas para presidir.
Bento levantou-se.
— Folgo em ouvi-lo, como toda a cidade de Roma. — a sua voz
soava a tudo menos a alegria.
Sérgio sentou-se confortavelmente na cadeira acolchoada. — Qual é o assunto que tendes em mãos?
O notário apressou-se a pô-lo ao corrente dos pormenores. Mamertus, um mercador abastado, pedia permissão para renovar o
Orphanotrophium, um albergue e uma escola para órfãos instalada num edifício em ruinas, perto do Laterano. Mamertus propôs reconstrui-lo completamente e transformá-lo num abrigo para peregrinos abastados.
— O Orphanotrophium — murmurou Sérgio. — Conheço bem o
local; vivi lá durante algum tempo, depois da morte da minha mãe.
— Santidade, o edifício está a cair — disse Mamertus. — É uma
vergonha, uma nódoa para a nossa grande cidade. A minha proposta vai transformá-lo num palácio!
— E os órfãos? — perguntou Sérgio.
Mamertus encolheu os ombros.
— Podem procurar caridade noutro sítio. Há albergues que os
podem receber.
Sérgio parecia ter dúvidas.
— É muito duro expulsarem-nos da nossa casa! — Santidade, esta hospedaria será o orgulho de Roma! Os duques
não hesitarão em lá dormir, nem os reis!
— Os órfãos não são menos amados por Deus do que os reis. Não
foi Cristo quem disse: bem-aventurados os pobres, porque deles é o Reino de Deus?
— Santidade, peço-vos que considereis o meu pedido. Pensai
naquilo que a existência deste estabelecimento pode fazer por Roma!
Sérgio abanou a cabeça:
— Não sancionarei a destruição deste orfanato. A petição é
negada.
— Protesto! — disse Mamertus, exaltado. — O vosso irmão e eu
já tínhamos chegado a um acordo; o edifício foi confiscado e o pagamento feito.
— Pagamento? — Sérgio ergueu o sobrolho.
Bento fez um sinal aflito a Mamertus.
— Eu... eu... — Mamertus levantou os olhos, procurando as
palavras. — Eu fiz uma oferta, uma oferta muito generosa ao altar de São Servatius para apressar o sucesso deste empreendimento.
— Então, estais de parabéns — disse Sérgio. — Tanta caridade
traz consigo a sua própria recompensa porque sofrereis menos na vida eterna.
— Mas...
— Tendes a nossa gratidão, Mamertus, por haverdes chamado a
nossa atenção para o estado em que se encontra o Orphanotrophium. Será nossa preocupação imediata repará-lo.
A boca de Mamertus abriu-se e fechou-se várias vezes, como a de
um peixe fora da água. Lançando um último olhar turvo a Bento, saiu da sala.
Sérgio sorriu para Joana, que sorriu também em troca. Bento apercebeu-se da troca de olhares. Então é João, pensou ele.
Recriminou-se a si próprio por não ter reparado antes.
Tinha sido uma época muito ocupada para o tribunal pontifício, a
época do ano mais lucrativa para Bento; tinha estado tão ocupado com estas coisas que não tinha prestado atenção suficiente ao grau de influência que o padrezinho estrangeiro tinha adquirido junto do seu irmão.