A Papisa Joana

Donna Woolfolk Cross · Capítulo 7 de 9 · parte 3/3

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A Papisa Joana

Capítulo 18 · A irmandade de Fulda não foi muito…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Não faz mal, disse ele de si para si. O que está feito pode ser

desfeito. Todos têm um ponto fraco. Tratava-se apenas de descobrir qual era o ponto fraco de João Anglicus.

Joana apressou-se pelo corredor, a caminho do triclinium. Como médico pessoal de Sérgio era-lhe permitido jantar à sua

mesa — um privilégio que lhe permitia vigiar de perto tudo quanto o Papa comia e bebia. O seu estado de saúde ainda estava longe de ser robusto; um desleixo podia voltar a provocar um ataque de gota.

— João Anglicus.

Ela virou-se e viu Arighis, o vicedominus, ou principal mordomo

do palácio, que se dirigia para ela.

— Está uma senhora em estado muito grave no Trastevere, deveis

ir assisti-la.

Joana suspirou. Já tinha sido chamada três vezes naquela semana

para incumbências daquele género. As notícias da cura do papa Sérgio tinham-se espalhado por toda a cidade. Para grande consternação dos membros da sociedade de medicina, os serviços da Joana como médica tinham passado a ser muito procurados.

— Porque não mandais um médico da schola? — sugeriu Joana. Arighis franziu o sobrolho. Não estava habituado a ser

contrariado: como vicedominus, assistia-lhe o direito e o dever de exercer controlo sobre todos os assuntos relacionados com a casa papal e o seu pessoal — facto que este estrangeirinho impertinente não percebia.

— Já prometi os vossos serviços.

Joana irritou-se com esta afirmação de autoridade; como médica

pessoal de Sérgio, em rigor, não estava sob a autoridade de Arighis. Mas, não valia a pena discutir por causa disso, além disso, um pedido de ajuda com urgência tem de ser atendido, por muito inoportuno que fosse o momento da sua chegada.

— Está bem — assentiu Joana. — Vou buscar a minha mala de

medicamentos.

Ao chegar à morada indicada, a Joana deparou-se com uma grande

casa, do estilo de uma velha domus romana. Um criado guiou-a através de uma série de pátios interligados e de um jardim, até a uma câmara interior decorada prodigamente com mosaicos brilhantemente coloridos, conchas encrostadas no estuque e pinturas trompe l'oeil desenhadas para dar a ilusão de paisagens e quartos distantes. Esta sala fantástica exalava um cheiro doce a maçãs maduras. Ao fundo da sala estava uma grande cama, alumiada com velas, como um altar. No meio da cama, estava deitada uma langorosa mulher numa pose langorosa.

Era a mulher mais bonita que Joana já tinha visto, mais bonita do

que Richild, ainda mais bonita do que a sua mãe, Gudrun, que Joana, até àquele momento, pensava ser a mulher mais bela da Criação.

— Eu sou Marioza.

A voz da mulher era de um mel líquido.

— S-senhora — titubeou Joana, com a língua presa diante de tanta

perfeição. — Eu sou João Anglicus e vim em resposta ao vosso apelo.

Marioza sorriu, satisfeita com a impressão que causava. — Aproximai-vos, João Anglicus — ordenou a voz melada. Ou

quereis examinar-me daí?

O cheiro a maçã doce era mais forte perto da cama. Joana pensou:

conheço este cheiro. Mas, de momento, não foi capaz de o identificar.

Marioza tinha uma taça com vinho na mão.

— Não quereis beber à minha saúde?

Joana bebeu, por delicadeza, esvaziando o copo, como era

costume. De perto, Marioza era ainda mais bela. A sua pele era de uma alvura marmórea, os seus olhos, enormes, com umas órbitas de um violeta profundo, que as grandes pupilas negras tornavam num negro de ébano.

Demasiado grandes, pensou a Joana subitamente. Uma dilatação

tão grande das pupilas era realmente anormal. A observação clínica quebrou o feitiço da beleza de Marioza.

— Dizei-me, senhora — Joana poisou o copo — o que vos

atormenta?

— Tão belo e tão atarefado? — suspirou ela.

— Desejo ajudar-vos, senhora. Que aflição me chamou a vós com

tanta urgência?

— Já que insistis, é o meu coração — disse Marioza, visivelmente

contrariada.

Uma queixa fora de comum numa mulher da sua idade, pensou

Joana; Marioza não tinha mais do que vinte e dois anos. Bem, sabia-se que havia casos daqueles, que havia crianças nascidas sob uma má estrela, com um mal no coração que transformava cada suspiro da sua breve existência num tormento e numa agonia. Mas aqueles que sofriam dessa aflição não tinham o aspecto de Marioza cujo ser, para além daquelas pupilas misteriosamente dilatadas irradiava boa saúde.

Joana pegou no pulso de Marioza e sentiu-lhe a palpitação forte

regular. Examinou as mãos de Marioza. Tinham boa cor e a ponta dos dedos era cor-de-rosa por baixo das unhas. A pele reagia ao tacto, sem qualquer marca ou descoloração. Joana examinou as pernas e os pés de Marioza com o mesmo cuidado, voltando a não encontrar qualquer sinal de necrose; a circulação de Marioza parecia saudável e forte, assim como todas as partes do corpo.

Marioza encostou-se às almofadas, com os olhos semicerrados. — Procurais o meu coração? — brincou ela. — Não o

encontrareis aí, João Anglicus!

Abriu o robe de seda, mostrando o peito de uma brancura

marmórea.

Benedicite, pensou Joana. Esta deve ser a célebre Marioza, a mais

célebre hetaera ou cortesã de toda a cidade de Roma!

Dizia-se que entre os seus clientes se encontravam alguns dos

homens mais importantes da cidade. Está a tentar seduzir-me, percebeu Joana. O absurdo da situação provocou-lhe um sorriso.

Interpretando mal o sorriso da Joana, Marioza sentiu-se

encorajada. Este padre não ia ser tão difícil de seduzir como Bento tinha dito quando requisitou os seus serviços. Padre ou não, João Anglicus era um homem e ainda não tinha nascido o homem que fosse capaz de lhe resistir.

Com um desinteresse ostensivo, Joana concentrou-se na sua

consulta. Examinou as costas de Marioza, à procura de costelas magoadas; a dor que um ferimento desses causava era interpretada muitas vezes como um problema de coração. Marioza não se queixou nem deu qualquer sinal de desconforto.

— Tendes umas mãos muito macias — disse ela, colocando-se

numa posição em que as curvas sedutoras do seu corpo se notassem melhor. — Que mãos macias e fortes.

Joana virou-se para o lado direito.

— A maçã de Satanás!

É mesmo de um padre, pensou a Marioza, falar de pecado num

momento destes. Bom, os padres não lhe eram estranhos; sabia como lidar com estas crises de consciência de última hora.

— Não reprimais os vossos sentimentos, João, porque eles são

naturais, são um dom de Deus. Não está escrito na Bíblia que os dois serão uma só carne! Na realidade, Marioza não tinha a certeza se aquelas palavras se encontravam na Bíblia, mas achava que sim.; tinham-lhe sido ditas por um arcebispo, numa situação muito semelhante àquela.

— Além disso, — acrescentou ela — ninguém saberá nunca

daquilo que se passou aqui entre nós, a não ser nós próprios.

Joana abanou a cabeça com veemência.

— Não era isso que eu queria dizer. O cheiro neste quarto — é

mandrágora — uma coisa a que se chama, às vezes, maçã de Satanás.

O fruto amarelo era um narcótico; isso explicava as pupilas

dilatadas de Marioza.

— Mas, de onde vem o cheiro? — Joana cheirou uma vela que se

encontrava perto da cama. — O que fizestes, misturastes o sumo com a cera da vela?

Marioza suspirou. Já tinha visto aquelas reacções em jovens

prelados virgens. Embaraçados e inseguros, tentavam desviar a conversa para um terreno mais seguro.

— Vinde — disse ela — deixai o assunto das poções. Há maneiras

melhores de passarmos o tempo.

Passou a mão pela parte da frente da túnica de João Anglicus, à

procura dos seus órgãos íntimos.

Antes que ela lá chegasse, Joana deu um salto para trás. Cheirou a vela e agarrou a mão de Marioza com força. — Ouve, Marioza. A mandrágora — que usas por causa das suas

qualidades afrodisíacas — eu sei, tens de a deitar fora porque o seu vapor é venenoso.

Marioza franziu o sobrolho. Isto não estava a correr como

planeado. Ela tinha de conseguir arranjar maneira de desviar o homem das suas doutorices.

Ouviram-se passos no andar de baixo. Não havia tempo para o

convencer. Agarrou a parte de cima do robe com ambas as mãos e rasgou-o de repente.

— Oh! — gemeu ela — estou a sentir uma dor! Ouvi-me! Agarrou a cabeça da Joana e encostou-a ao seu peito. Joana tentou afastar-se, mas Marioza agarrava-a com força. — Oh, João — a voz dela era líquido puro — não posso resistir ao

poder da vossa paixão!

A porta abriu-se de repente. Irromperam pela sala uma dúzia de

guardas papais e agarraram Joana, levantando-a rudemente da cama.

— Ora, Padre, que forma estranha de dar a comunhão! — disse o

chefe do grupo, troçando.

Joana protestou:

— Esta mulher está doente; eu fui chamado aqui para a tratar. O homem ironizava:

— Claro, muitas mulheres têm sido curadas da infertilidade com

esse remédio.

Uma explosão de riso fez tremer as paredes do quarto. Joana disse

a Marioza:

— Dizei-lhes a verdade.

Marioza encolheu os ombros, com o robe rasgado a escorregar-lhe

dos ombros.

— Eles viram-nos. Porque havemos de tentar negá-lo? — Bem-vindo às hostes, Padre! — troçou um dos guardas. — O

número dos amantes de Marioza deixariam o Coliseu a abarrotar!

Esta afirmação foi saudada com outra explosão de gargalhadas.

Marioza juntou-se aos outros:

— Vá, Padre.

O chefe dos guardas pegou no braço de Joana, puxando-a para a

porta.

— Para onde me levais? — perguntou Joana, apesar de saber a

resposta.

— Para o Laterano. Ides ter de responder ao Papa por isto. Joana libertou-se da mão dele. E disse a Marioza: — Não sei porque fizeste isto ou quem te mandou fazer, mas

aviso-te, Marioza: não faças depender a tua fortuna dos favores dos homens porque eles são tão efémeros como a tua beleza.

O riso de Marioza morreu-lhe nos lábios.

— Bárbaro! — ripostou ela, com desprezo.

Joana foi levada do quarto por entre uma onda de risos. Ladeada por guardas, Joana caminhou em silêncio ao longo das

ruas escuras. Não era capaz de sentir ódio por Marioza. Joana podia ter acabado como ela se o destino não a tivesse levado para um caminho diferente. As ruas de Roma estavam cheias de mulheres que se ofereciam por pouco mais do que o preço de uma refeição. Muitas tinham chegado à Cidade Santa como piedosas peregrinas, mesmo como freiras; quando se achavam sem abrigo ou meios para comprar a passagem de regresso, voltavam-se para uma alternativa já pronta. O clero vociferava contra estas servas do Demónio, do alto dos seus púlpitos. Diziam que era melhor morrer casto do que viver no pecado. Mas eles nunca tinham conhecido a fome, pensou Joana.

Não, Marioza não tinha culpa; ela era apenas um instrumento.

Mas, nas mãos de quem? Quem ganhava em desacreditá-la?

Enódio e os outros membros da sociedade de medicina eram bem capazes de recorrer a um expediente tão sórdido como aquele. Mas, eles teriam concentrado os seus esforços em desacreditá-la como médica.

Então, se não eram eles, quem era? A resposta surgiu-lhe

imediatamente: Bento. Desde o negócio do Orphanotrophium que ele tinha ficado ressentido com ela, ciumento da sua influência sobre o irmão. A ideia animou-a; pelo menos, sabia quem era o inimigo. Além disso, não tencionava deixar Bento escapar daquela. Era verdade que ele era o irmão de Sérgio, mas ela era amiga dele; faria com que ele visse a verdade.

Ao chegar ao Laterano, Joana ficou desanimada ao ver que os

guardas não passaram pelo triclinium, onde Sérgio estava a jantar com os amigos e com outros altos funcionários da corte papal, levando-a directamente para os aposentos de Bento.

— Bem, bem. O que temos nós aqui? — disse Bento, em tom

trocista, quando Joana e os guardas entraram. — João Anglicus rodeado de guardas como um vulgar ladrão?

E disse ao chefe dos guardas:

— Falai, Tarasius, e dizei-me qual a natureza do crime deste

padre.

— Meu senhor, prendemo-lo nos aposentos de Marioza, a

prostituta.

— Marioza! — Bento fingiu um ar de grave desaprovação. — Encontrámo-lo na cama da prostituta, enrolado no seu abraço

— acrescentou Tarasius.

— Foi uma armadilha — disse Joana. — Fui lá chamado sob o

pretexto falso de que Marioza precisava de ser consultada por um médico. Ela sabia que os guardas iam aparecer e abraçou-me no momento em que eles iam a entrar.

— Esperais que eu acredite que tenhais sido dominado por uma

mulher? Tende vergonha, falso padre!

— A vergonha é para vós, Bento, não para mim — respondeu

Joana, agastada. — Fostes vós que engendrastes isto tudo para me desacreditar. Tratastes de fazer com que Marioza me chamasse, fingindo estar doente, depois, mandastes os guardas, sabendo que eles nos iriam encontrar juntos.

— Reconheço-o.

A confissão apanhou Joana desprevenida.

— Confessais a vossa artimanha?

Bento pegou numa taça com vinho e bebeu, saboreando-a. — Sabendo que não sois casto e não me agradando ver traída a

confiança que o meu irmão deposita em vós, procurei prova da vossa perfídia, é tudo.

— Eu não sou incasto, nem tendes qualquer motivo para o pensar

de mim.

— Não sois incasto? — troçou Bento. — Dizei-me como o haveis

encontrado, Tarasius.

— Meu senhor, ele estava deitado com a libertina na cama dela e

ela estava nua nos seus braços.

— Imaginai como o meu irmão vai ficar desgostoso quando ouvir

um testemunho tão danoso — ainda para mais, depois da grande confiança que ele depositou em vós!

Joana apercebeu-se pela primeira vez da gravidade da situação. — Não façais isto — disse ela. — O vosso irmão precisa de mim

porque ainda não está livre de perigo. Sem cuidados médicos adequados, ele sofrerá outro ataque — e o próximo pode matá-lo.

— Enódio tratará do meu irmão daqui para a frente — retorquiu

Bento, num tom seco. — As vossas mãos pecaminosas já lhe fizeram mal que baste.

— Eu fiz-lhe mal? — O ultraje que Joana sentiu obliterou a sua

réstia de controlo. — Atreveis-vos a dizer que eu... vós, que haveis sacrificado o vosso irmão à vossa própria inveja e ganância?

Sentiu o rosto molhado; Bento tinha-lhe atirado com o conteúdo

da taça à cara. O vinho forte ardia-lhe nos olhos, fazendo correr as lágrimas; correu-lhe também pela garganta, engasgando-a e fazendo-a cuspir.

— Levai-o para o calabouço — ordenou Bento. — Não!

Joana libertou-se dos guardas com um grito agudo. Tinha de

chegar ao pé de Sérgio antes que Bento o envenenasse contra ela. Correu apressadamente pela sala, a caminho do triclinium.

— Agarrai-o! — gritou Bento.

O barulho dos passos dos guardas soava atrás dela. Joana dobrou

uma esquina e correu desesperadamente na direcção das luzes que brilhavam no triclinium.

Estava a poucos passos da entrada quando a agarraram e atiraram

ao chão. Ela tentou levantar-se, mas os guardas ataram-lhe os braços e as pernas. Indefesa, levaram-na.

Transportaram-na por corredores desconhecidos e por escadas que

desciam tão fundo e tão longe que Joana começou a pensar se teriam fim. Finalmente, os guardas pararam diante de uma porta em madeira maciça, trancada com uma barra em ferro; levantaram o ferrolho e a porta abriu-se, rangendo. Puseram Joana de pé e atiraram-na lá para dentro. Ela caiu numa escuridão húmida e ficou com os pés dentro de água. A porta fechou-se com um estrondo aterrador e a escuridão tornou-se absoluta.

Os passos dos guardas afastaram-se pelo corredor abaixo. Joana levantou-se de braços estendidos, tacteando na escuridão.

Tocou no seu saco — não se tinham lembrado de lho tirar, o que era uma pequena bênção. Meteu a mão dentro do saco, sentindo os vários pacotes e frasquinhos, reconhecendo cada um deles pela forma e o tamanho. Finalmente, encontrou o que procurava — a caixa com o seu sílex e o pequeno coto de vela que ela usava para aquecer as suas poções.

Pegou no sílex e raspou-o no lado da caixa em metal, lançando

faíscas ao pavio seco. Ele acendeu rapidamente. Ela chegou a vela à chamazinha, que se tornou mais firme, espalhando a sua luz amarela em volta dela, num suave elo.

A luz brilhou, trémula, na escuridão, revelando sombras e

contornos incertos. A cela era grande. Tinha cerca de trinta pés de comprimento e vinte de largo. As paredes eram em pedra, suja e escurecida pelos anos. Pelo aspecto escorregadio do chão, Joana adivinhou que ele também fosse em pedra, apesar de ser impossível ter a certeza porque estava coberto com várias camadas de água lamacenta e estagnada.

Ela levantou mais a vela, espalhando o seu círculo de luz. Num canto mais afastado, descortinou uma sombra — uma forma

humana, pálida e etérea como um fantasma.

Não estou sozinha. Sentiu-se aliviada, mas, depois, imediatamente

assustada. Afinal, aquele era um lugar de castigo. Seria um louco ou um assassino — ou talvez ambas as coisas?

— Dominus tecum — disse ela, a medo.

O homem não respondeu. Ela repetiu a saudação em vernáculo

acrescentando:

— Eu sou João Anglicus, padre e médico. Posso fazer alguma

coisa por vós, Irmão?

O homem estava sentado, encostado à parede, com os braços e as

pernas afastadas. Joana aproximou-se. A luz da vela bateu na cara do homem - mas, não era uma cara, era uma caveira, uma cabeça de um morto horrenda, com pedaços de carne podre e de cabelos.

Com um grito, Joana afastou-se e correu, chapinhando, para a

porta. Bateu na porta pesada.

— Tirem-me daqui!

Bateu até ficar com os pulsos em carne viva.

Ninguém respondeu. Não apareceu ninguém. Iam deixá-la ali

morrer na escuridão.

Cruzou os braços, tentando parar de tremer. Lentamente, a onda de

terror e de desespero começou a abrandar. Sentiu crescer dentro de si outro sentimento — uma determinação teimosa em sobreviver, em lutar contra a injustiça que a tinha posto ali. A mente, temporariamente embotada pelo medo, voltou a começar a raciocinar. Não posso perder a esperança, pensou ela, resolutamente. Sérgio não deixará que eu fique neste calabouço para sempre. Primeiro ficará furioso, quando ouvir a versão de Bento acerca daquilo que teceu com Marioza, mas, ao fim de alguns dias, vai acalmar e vai mandar chamar-me. Tenho de esperar até lá. Começou a andar cuidadosamente à volta da cela. Encontrou os restos de mais três presos, mas, desta vez, já estava preparada e eles não eram tão assustadores como o primeiro porque os seus ossos há muito que tinham perdido qualquer vestígio de carne. A sua exploração também a levou a fazer uma descoberta importante: um dos lados da cela era mais alto do que o outro, do lado mais alto, a água lamacenta parava antes de chegar ao pé da parede, deixando uma longa faixa de chão seco. Encostado à parede, estava um cobertor em lã rasgado, cheio de buracos, mas, mesmo assim, uma protecção útil contra o frio penetrante da câmara subterrânea. No outro canto da sala, encontrou outra coisa, um colchão em palha ensopado de água. Era grosso e estava bem feito. Estava tão cheio que a sua parte de cima ainda estava seca. Joana arrastou-o para o lado mais alto da sala e sentou-se, poisando a vela ao lado. Abriu o saco e tirou um pouco de heléboro, espalhando o pó preto venenoso à sua volta, num círculo amplo, uma linha traçada contra os ratos e outros vermes. Depois, pegou num pacote de pó de raiz de carvalho e noutro com salva seca, esmagou-a e deitou-a num frasquinho com vinho misturado com mel. Virando cuidadosamente o frasquinho com o líquido precioso, bebeu um trago para resistir aos humores negativos daquele lugar. Depois, deitou-se no colchão, apagou a vela e cobriu-se com o cobertor rasgado. Ficou imóvel na escuridão. Tinha feito tudo o que era possível de momento. Agora, tinha de descansar e poupar as suas forças, até chegar a hora de Sérgio a mandar chamar.

 

Capítulo 21

Era a Festa da Ascensão e a celebração do dia ia ser na Igreja

titular de São Prassede. Apesar de o Sol mal ter acabado de nascer, os fiéis já estavam reunidos, enchendo de movimento, cor e conversas a rua do Patriarchum.

As enormes portas em bronze do Patriarchum abriram-se,

finalmente. Os primeiros a aparecerem foram os acólitos e outros clérigos com ordens menores, que saíram a pé, humildemente. Seguia-se-lhes um grupo de guardas a cavalo, que olhavam atentamente para a multidão, à procura de potenciais agitadores. Atrás deles, apareceram os diáconos e notários das sete regiões eclesiásticas, cada um deles precedido por um clérigo ostentando o estandarte com os siina da sua região.

Depois, vinha o arcebispo e o primicerius dos defensores, seguido

pela sua irmandade.

Finalmente, apareceu o papa Sérgio, revestido com um manto

magnífico, adornado a ouro e prata, montado num cavalo enorme, arreado com seda branca. Imediatamente a seguir, vinham os optimates, os principais dignitários da administração papal, por ordem de importância: Arighis, o vicedominus e depois o vestiarius, o sacellarius e o nomenclator.

O longo cortejo atravessou o pátio do Laterano, evoluindo com

uma dignidade solene. Passou pela estátua em bronze da loba, mater romanorum, ou mãe dos romanos, que os antigos acreditavam ter amamentado Rómulo e Rémulo. A estátua tinha ocasionado bastante controvérsia porque havia quem dissesse que era uma blasfémia que estivesse uma peça de idolatria pagã diante dos muros do palácio papal, enquanto outros a defendiam com igual paixão, louvando a sua beleza e a excelência da sua arte.

Ao passar por trás da loba, a procissão virou para norte, passando

por baixo do grande arco do aqueduto de Cláudio, com o seu belo trabalho em pedra, na direcção da velha Via Sacra, a estrada sagrada que os papas tinham atravessado desde tempos imemoriais.

Sérgio pestanejou por causa dos raios de sol. Doía-lhe a cabeça e o

balanço ritmado do seu cavalo estava a pô-lo tonto, agarrou-se às rédeas para se endireitar. É o preço que pago pela gula, pensou ele, penitenciando-se. Tinha voltado a pecar, empanturrando-se com comida e vinho abundantes. Com remorsos da sua fraqueza, Sérgio resolveu — pela vigésima vez naquela semana — regenerar-se.

Pensou em João Anglicus com um baque de arrependimento. Sentia-se muito melhor quando o padre estrangeiro era médico

dele. Mas, claro que era impensável mandá-lo regressar, depois daquilo que ele tinha feito. João Anglicus era um pecador detestável, um padre que tinha quebrado o mais sagrado de todos os votos.

— Deus abençoe o Senhor Papa!

A multidão rejubilante voltou a chamar Sérgio à realidade. Fez o sinal da cruz, abençoando-os e lutando contra o enjoo, à

medida que a procissão evoluía com uma dignidade solene, percorrendo a linha estreita da Via Sacra.

Tinham acabado de passar pelo Mosteiro de Honório quando se

espalhou a confusão entre a multidão. Um homem a cavalo vinha na sua direcção. O cavalo e o cavaleiro tinham sido sujeitos a um grande esforço, o cavalo espumava da boca, os seus quadris estavam agitados. As roupas do cavaleiro estavam rasgadas e o seu rosto negro, como o dos sarracenos, coberto de pó da estrada. Ele puxou as rédeas do cavalo e apeou-se à frente do cortejo.

— Como vos atreveis a interromper este cortejo sagrado? —

perguntou o arcebispo Eustácio, indignado. — Guardas, levai este homem e flagelai-o. Cinquenta chicotadas ensiná-lo-ão a ter mais respeito!

— Ele... vem...

O homem estava tão ofegante que as suas palavras mal se

percebiam.

— Esperai — disse Sérgio, detendo os guardas. — Quem vem lá? — Lothar — disse o homem.

— O Imperador? — perguntou Sérgio, espantado. O homem confirmou com um aceno de cabeça: — À frente de um exército enorme de francos. Santidade, ele

jurou vingança de sangue contra vós e esta cidade por causa do agravo cometido contra ele.

Ouviu-se um murmúrio de consternação entre a multidão. — Agravo?

Por um momento, Sérgio não foi capaz de compreender o que isto

poderia significar. Depois, lembrou-se.

— A consagração!

Após a eleição de Sérgio, a cidade tinha avançado com a

cerimónia consecratória sem esperar pela aprovação do imperador. Isto constituía uma grave violação da carta de 824, que concedia a Lothar o direito de jussio imperial, ou ratificação, de um papa eleito antes da consagração. Apesar disso, o passo dado tinha sido muito aplaudido porque as pessoas encaravam-no como uma reafirmação orgulhosa da independência romana face à longínqua coroa franca. Foi um desrespeito claro e deliberado por Lothar, mas, como a jussio era mais simbólica do que efectiva — porque o imperador nunca tinha deixado de confirmar um papa eleito — ninguém acreditou que Lothar fizesse fosse o que fosse.

— Onde está o imperador? — a voz de Sérgio não passava de um

sussurro.

— Em Viterbo, Santidade.

Esta notícia foi recebida com gritos de alarme. Viterbo fazia parte

da região rural romana, ficando apenas a dez dias de caminho de Roma.

— Meu senhor, ele é uma praga sobre a terra — a língua do

homem soltou-se, agora que tinha recuperado o fôlego — os seus soldados saqueiam tudo quanto encontram, pilham as quintas, levam todos os víveres, arrancam as vinhas pela raiz. Levam o que querem e o que não querem, queimam-no. Matam sem piedade aqueles que se lhes atravessam no caminho — mulheres, velhos, crianças de colo — não poupam ninguém. É um horror — a sua voz quebrou-se — um horror que não se pode imaginar.

Aterrado e inseguro, o povo olhou para o Papa. Mas, não puderam

encontrar nele qualquer conforto. Diante dos olhos horrorizados dos romanos, o rosto de Sérgio empalideceu, os olhos reviraram-se e caiu para a frente, desmaiado.

— Oh, morreu!

O grito de lamento ecoou numa dúzia de outras línguas. Os

guardas papais apressaram-se a ladear Sérgio, apeando-o do cavalo e levando-o para o Patriarchium. O resto do cortejo seguiu atrás dele.

A multidão assustada apinhou-se no pátio, ameaçando entrar num

pânico perigoso. Os guardas avançaram com chicotes e espadas, dispersando-os pelas vielas estreitas e escuras, a caminho do terror solitário das suas casas.

* * *

O pânico e a agitação aumentaram quando os refugiados

começaram a entrar pelas portas da cidade, provenientes do campo em redor, de Farfa e Narni, Laurentum e Civitavecchia.

Vinham em grupos, com as suas magras posses às costas, com os

mortos empilhados em carruagens. Todos contavam histórias parecidas sobre a depredação e a selvajaria franca. Estes relatos aterradores estimularam o esforço da cidade em fortalecer as suas defesas: os romanos trabalhavam dia e noite, com toda a energia, para retirar as camadas de terra que se tinham acumulado junto às muralhas da cidade, ao longo dos séculos, e que facilitavam a entrada ao inimigo.

Os sacerdotes da cidade estavam ocupados desde a hora prima até

às vésperas, rezando missa e ouvindo confissões. As igrejas estavam cheias a rebentar pelas costuras, com as fileiras de fiéis engrossadas por uma multidão de caras desconhecidas — porque o medo tinha transformado muitos cristãos pouco convictos em crentes fervorosos. Acendiam velas, piedosamente, e erguiam a voz em orações pela segurança dos seus lares e das suas famílias — e pelas melhoras de Sérgio, que estava doente e do qual dependia toda a sua esperança. Que Deus dê forças ao nosso Senhor Papa, rezavam eles, porque era certo que ele iria precisar de muita força para salvar Roma do demónio Lothar.

A voz de Sérgio ergueu-se e entoou as melodias fluidas do canto

romano, mais sincera e suave do que a de qualquer outro rapaz da schola cantorum. O mestre do canto sorriu com um tom aprovador. Encorajado, Sérgio cantou ainda mais alto, com a sua voz de soprano subindo cada vez mais, num êxtase gozoso, chegando a acreditar por instantes que ela o elevaria a ele próprio até ao Céu.

O sonho terminou e Sérgio acordou. O medo, vago e indefinido,

enchia a sua mente, fazendo o seu coração bater mais depressa, sem ele perceber porquê.

Lembrou-se, com uma náusea.

Lothar.

Sentou-se. A cabeça latejava-lhe e a boca sabia-lhe mal. — Celestino! — a sua voz rangeu como a de uma dobradiça

enferrujada.

— Santidade!

Celestino levantou-se do chão, ensonado. Parecia um querubim

celestial, com as suas bochechas de um rosado suave, os seus olhos redondos infantis e o seu cabelo louro comprido.

Tinha dez anos e era o mais jovem dos cubicularii, o pai de

Celestino era um homem muito influente na cidade, por isso ele tinha vindo para o Laterano mais cedo do que a maioria. Bem, pensou Sérgio, não é mais jovem do que eu era quando me tiraram de casa dos meus pais.

— Trazei-me o Bento — ordenou ele. — Quero falar com ele. Celestino acenou com a cabeça e apressou-se, abafando um

bocejo.

Um dos servos da cozinha entrou com uma bandeja com pão e

presunto. Sérgio não devia quebrar o jejum senão depois de ter celebrado a missa — porque as mãos que tocavam nos dons eucarísticos tinham de estar libertas de qualquer mancha mundana. Mas, em privado, estas delicadezas de forma eram frequentemente desrespeitadas — especialmente, com um papa com um apetite tão prodigioso.

Mas, esta manhã, o cheiro do presunto enjoou Sérgio. Afastou o

tabuleiro.

— Levai isto daqui.

Entrou um notário e anunciou:

— Sua Graça, o Arcipreste, espera por vós no triclinium. — Ele que espere — respondeu Sérgio, num tom seco. —

Primeiro, falarei com o meu irmão.

O bom senso de Bento, neste caso, tinha-se revelado útil. Tinha sido sua a ideia de tirar dinheiro do tesouro papal para

comprar Lothar. Cinquenta mil soldos em ouro deviam ser suficientes para suavizar o orgulho ferido, mesmo que fosse o de um imperador.

Celestino voltou, não com Bento, mas com Arighis, o

vicedominus.

— Onde está o meu irmão? — perguntou Sérgio. — Foi-se embora, Santidade — respondeu Arighis. — Foi-se embora?

— Ivo, o porteiro, viu-o partir antes do nascer do Sol com perto de

uma dúzia de subordinados. Pensámos que sabíeis.

Sérgio sentiu a bílis subir-lhe à boca.

— O dinheiro?

— Bento recolheu-o na noite passada. Havia onze cofres. Ele

tinha-os consigo quando partiu.

— Não!

Mas, no próprio momento em que estava a pronunciar a palavra,

Sérgio sabia que era verdade. Bento tinha-o traído.

Estava indefeso. Lothar viria e não havia nada, nada que Sérgio

pudesse fazer para o deter.

Sentiu uma onda de náuseas. Encostou-se à cama, esvaziando para

o chão o conteúdo azedo do seu estômago.

Tentou levantar-se, mas não foi capaz, sentia uma dor nas pernas

que o imobilizava. Celestino e Arighis correram a ajudá-lo, levantando-o. Encostando a cara à almofada, Sérgio começou a chorar perdidamente, como uma criança.

Arighis virou-se para Celestino e disse:

— Ficai com ele. Eu vou aos calabouços.

Joana ficou a olhar para a malga de comida à sua frente. Havia uma crostazinha de pão duro e alguns pedaços de carne

cinzenta, com vermes, o cheiro a podre entrou-lhe pelas narinas. Já não comia há alguns dias porque os guardas, quer fosse por desleixo, quer fosse propositadamente, não lhe traziam comida todos os dias. Ficou a olhar para a carne, com a fome a lutar com o juízo. Acabou por afastar a malga.

Pegando na crosta de pão, deu-lhe uma pequena dentada,

mastigando-a lentamente, para durar mais.

Há quanto tempo estava ali? Havia duas semanas? Três? Estava a

começar a perder a noção do tempo. A escuridão permanente desorientava-a. Tinha poupado a vela, acendendo-a apenas para comer ou para preparar medicamentos, que tirava do saco. Mesmo assim, a vela estava reduzida a um pequenino coto de cera, que só chegava para mais uma ou duas horas de luz preciosa.

Mais terrível ainda do que a escuridão era a solidão. O silêncio

total e constante enervava-a. Para se manter lúcida, Joana impôs-se a si própria uma série de tarefas mentais: recitar de cor toda a Regra de São Bento, os cento e cinquenta salmos e o Livro dos Actos dos Apóstolos. Mas, estas tarefas de memória rapidamente se tornaram demasiado rotineiras para manter a sua atenção vigilante.

Lembrava-se como o grande teólogo Boécio, que também tinha

estado preso, tinha encontrado forças e consolo na oração.

Ajoelhava-se durante horas na pedra fria do chão da cela, tentando

rezar. Mas, não sentia nada no fundo do seu ser, senão vazio. A semente da dúvida, plantada na sua infância pela sua mãe, tinha criado raízes na sua alma. Ela tentou arrancá-las, erguer-se para a luz da graça, mas não era capaz.

Deus estaria a ouvir? Será que Ele existia, sequer? Começou a

perder a esperança, à medida que os dias passavam sem notícias de Sérgio.

Deu um salto ao ouvir um ruído metálico, quando alguém abriu a

tranca da porta. Pouco depois, a porta abriu-se para trás, lançando luz na escuridão. Protegendo os olhos da luz, Joana aproximou-se da entrada. Viu a silhueta de um homem contra a luz.

— João Anglicus? — perguntou ele, inseguro, na escuridão. Reconheceu imediatamente a voz.

— Arighis! — disse Joana, aliviada, quando se levantou e se

encaminhou por cima da água estagnada na direcção do vicedominus papal. — Vindes da parte de Sérgio?

Arighis abanou a cabeça.

— Sua Santidade não deseja ver-vos.

— Então, porquê...?

— Ele está muito doente. Em tempos, destes-lhes remédios que o

ajudaram, tendes algum convosco, agora?

— Tenho.

Joana pegou num pacote com pó de cólquico, que tinha no saco.

Arighis estendeu a mão para lhe pegar, mas Joana recuou.

— O que foi? — perguntou Arighis. — Odiais o Papa assim

tanto? Cuidado, João Anglicus! Desejar mal ao Vigário escolhido por Cristo é colocar a vossa alma imortal em perigo grave.

— Eu não o odeio — disse Joana, com sinceridade. Sérgio não era

mau homem, ela sabia-o bem, era apenas fraco e demasiado confiante no seu irmão venenoso. — Mas, não entrego este remédio em mãos sem conhecimentos. Ele tem muito poder e o seu mau uso pode ser fatal.

Isto não era inteiramente verdade porque o pó de raiz não era tão

forte como ela tinha dito, seria necessária uma dose muito grande para causar algum mal. Mas, era a sua única oportunidade de alcançar a liberdade, não deixaria que a porta voltasse a fechar-se.

— Além disso, — acrescentou ela — como hei-de saber se Sérgio

sofre da mesma doença que tinha antes? Para curar Sua Santidade, tenho que o ver primeiro.

Arighis hesitou. Libertar o preso seria um acto de insubordinação,

uma desobediência directa a uma ordem do Senhor Papa. Mas, se Sérgio morresse com o imperador franco às portas, o papado, a própria cidade de Roma, podiam perecer.

— Vinde — disse ele, decidindo de repente. — Vou levar-vos a

Sua Santidade.

Sérgio estava encostado às fofas almofadas de seda da cama papal.

O auge da dor já tinha passado, mas tinha-o deixado exausto e fraco como um gatinho recém-nascido.

A porta do quarto abriu-se e Arighis entrou, seguido de João

Anglicus.

Sérgio começou a dizer, num tom violento:

— O que está este pecador a fazer aqui?

Arighis disse:

— Veio com um remédio poderoso, que restabelecerá a vossa

saúde.

Sérgio abanou a cabeça:

— A verdadeira medicina vem de Deus. A graça da Sua cura não

será transmitida através de um meio tão impuro.

— Eu não sou impuro — protestou Joana. — Bento mentiu-vos,

Santidade.

— Estáveis na cama da prostituta — replicou Sérgio num tom

acusador. — Os guardas viram-vos.

— Eles viram o que era suposto verem, o que lhes tinham dito

para observarem — replicou Joana. Explicou rapidamente como Bento tinha conspirado para a apanhar numa armadilha.

— Eu não queria ir lá — disse ela —, mas Arighis insistiu. — É verdade, Santidade. — confirmou Arighis. — João Anglicus

pediu se eu não podia mandar um dos outros médicos. Mas, Bento tinha insistido que devia ser João Anglicus e não outro a ir.

Sérgio ficou muito tempo em silêncio. Finalmente, disse numa voz

sumida:

— Se isso é verdade, fostes gravemente prejudicado. Caindo em desespero, disse:

— A vinda de Lothar é o castigo de Deus por todos os meus

pecados!

— Se Deus quisesse castigar-vos, encontraria uma maneira mais

fácil de o fazer — disse Joana. — Porque haveria de sacrificar a vida de milhares de inocentes, quando vos poderia abater com um só golpe?

Sérgio foi apanhado de surpresa. Isto não lhe tinha ocorrido, em

virtude do alto conceito de si mesmo, típico dos poderosos.

— A vinda de Lothar não é um castigo — prosseguiu Joana. — É

uma prova, uma prova à fé. Tendes de guiar o povo com a força do vosso exemplo.

— Estou doente no corpo e no espírito. Deixai-me morrer. — Se morrerdes, a vontade do povo morrerá convosco. Tendes de

ser forte, por causa deles.

— Que diferença faz? — disse Sérgio, desesperado. — Não

podemos vencer as forças de Lothar, seria preciso um milagre.

— Então — disse a Joana com firmeza — temos de fazer um.

No dia seguinte ao Domingo de Pentecostes, a data em que se

previa que Lothar chegasse, a piazza diante da Basílica de São Pedro começou a encher-se com membros das várias scholae da cidade, vestidos com os seus melhores fatos.

Lothar não tinha feito uma declaração formal de hostilidade,

portanto tinha sido planeada uma recepção em consonância com uma personagem de tão alto gabarito. A demonstração inesperada de boas-vindas talvez o desarmasse durante o tempo suficiente para pôr em execução a segunda parte do plano de Joana.

A meio da manhã, estava tudo pronto. Sérgio deu sinal e o

primeiro grupo, os judices, avançou com os estandartes amarelos ostentando as suas insígnias flutuando por cima das suas cabeças. Atrás deles, avançaram os defensores e os diáconos, depois, a pé, as várias sociedades de estrangeiros — frígios, francos, saxónios, lombardos e gregos. Encorajavam-se uns aos outros, à medida que desciam a Via Triumphalis, passando pelos esqueletos decadentes dos templos pagãos que ladeavam a via antiga.

Deus lhes permita que não estejam a caminhar para a morte,

pensou Joana. Depois, virou-se para Sérgio. Ele tinha melhorado muito nos últimos dias, mas estava longe de estar bem. Será que ele iria aguentar aquele dia? Joana falou com um camareiro, que foi buscar uma cadeira, na qual Sérgio se sentou agradecido. Joana deu-lhe um pouco de sumo de limão misturado com mel para o fortalecer.

Agora, cinquenta dos homens mais poderosos de Roma estavam

reunidos à entrada da basílica: eram todos funcionários superiores da administração do Laterano, um grupo escolhido de cardeais-presbíteros, duques e príncipes da cidade, juntamente com o seu séquito.

O arcipreste Eustácio guiou-os numa breve oração e, depois,

ficaram todos em silêncio. Não havia mais nada a fazer senão esperar.

Com rostos crispados, não tiravam os olhos do ponto da estrada

onde ela se perdia de vista por trás das sebes e prados da planície de Nero.

O tempo passava com uma lentidão insuportável. O Sol subia num

céu sem nuvens. A brisa da manhã abrandou, depois, morreu, fazendo com que os estandartes pendessem das suas hastes.

Enxames de moscas começaram a voar em torno das cabeças,

zumbindo no ar silencioso.

Tinham passado mais de duas horas desde que o cortejo tinha

saído. Já deviam ter voltado!

Começou a ouvir-se um leve ruído à distância. Eles apuraram o

ouvido. O barulho voltou a ouvir-se, contínuo e inequívoco - o som de vozes distantes, que cantavam.

— Deo gratias — suspirou Eustácio, quando se viram os

estandartes dos judices a flutuar, emergindo do horizonte verde como velas amarelas sobre o mar.

Momentos depois, apareceram os primeiros cavaleiros, seguidos

por membros das várias scholae, a pé. Atrás deles marchava uma multidão escura, que se espraiava até onde a vista alcançava - o exército de Lothar. Joana susteve a respiração, nunca tinha visto um exército tão grande.

Sérgio levantou-se, apoiando-se no seu báculo. A vanguarda do

cortejo dirigiu-se para a basílica e abriu alas, deixando uma passagem para o imperador.

Lothar passou pelo meio. Ao olhar para ele, Joana era bem capaz

de acreditar nas histórias de uma crueldade bárbara que o tinham precedido. Era atarracado, possuía um pescoço grosso e uma cabeça maciça, o seu rosto era rude e achatado e os seus olhos pequenos deixavam transparecer uma inteligência malévola.

Os dois grupos rivais enfrentaram-se, um escuro e enlameado por

causa dos rigores da estrada, o outro impoluto e brilhando nas suas vestes alvas de clérigos. Por trás de Sérgio, o telhado de São Pedro erguia-se brilhando, com as suas placas em prata reluzindo à luz da manhã — o coração espiritual da Igreja, o farol do mundo, o santuário mais sagrado de toda a Cristandade. Diante de tal grandeza, até os imperadores se curvavam.

Lothar desmontou, mas não se ajoelhou para beijar o degrau da

basílica, costume que demonstrava reverência. Limitou-se a subir as escadas, seguido por um grupo de homens armados. Os prelados que estavam reunidos diante das portas abertas da basílica recuaram assustados, a guarda papal rodeou Sérgio para o proteger, com as mãos sobre as espadas.

De repente, as portas da basílica de São Pedro rangeram e

começaram a fechar-se. Lothar deu um salto para trás. Os seus homens pegaram nas suas espadas, depois, ficaram espantados, olhando de um lado para o outro. Mas, não havia ali ninguém. As portas moveram-se lentamente nos seus gonzos, como que empurradas sobrenaturalmente. Depois, fecharam-se com um estrondo final e definitivo.

Agora, Joana desejou que Sérgio agisse. Como se tivesse ouvido a

sua ordem silenciosa, ele levantou-se, estendendo os braços num tom dramático. O homem fraco e doente de alguns dias antes tinha desaparecido, no seu camelaucum branco e nas suas vestes douradas, parecia imponente, majestático.

Falou em franco, para ter a certeza que os soldados de Lothar

compreenderiam:

— Eis a mão de Deus — entoou ele, solenemente —, que protegeu

o mais sagrado dos Seus altares contra vós.

Os homens de Lothar gritaram assustados. O imperador não saiu

de onde estava, desconfiado.

Agora, Sérgio começou a falar em latim:

— Si pura mente et prosalute Reipublicae huc advenisti... Se

viestes à república com uma mente pura e com boas intenções, entrai, sede bem-vindo, se não, então nenhum poder terreno vos abrirá estas portas.

Lothar hesitou, ainda desconfiado. Sérgio tinha operado um

milagre? Ele duvidava, mas, não podia ter a certeza: os caminhos de Deus eram misteriosos. Além disso, a sua posição, agora, estava consideravelmente enfraquecida porque os seus homens, aterrados, tinham caído de joelhos, com as espadas a caírem-lhe das mãos.

Com um sorriso artificial, Lothar abriu os braços a Sérgio. Os dois homens oscularam-se, com os lábios encontrando-se no

beijo formal da paz.

— Benedictus qui venit in nomine Domini — cantou o coro,

rejubilante. — Bendito o que vem em nome do Senhor.

As portas começaram a mover-se novamente. Os painéis cobertos

a prata começaram a abrir-se, perante os olhos abismados de todos. De braço dado, com os rejubilantes sons do Hosana a soarem-lhes aos ouvidos, Sérgio e Lothar entraram na basílica para rezar diante do sepulcro do Abençoado Apóstolo.

As dificuldades com Lothar ainda não tinham terminado — ainda

era preciso apresentar explicações, pedir desculpas, negociar vantagens, fazer concessões. Mas, o perigo imediato tinha sido afastado. Joana pensou em Geraldo e em como ele teria ficado divertido se tivesse visto a forma como ela tinha utilizado o seu truque hidráulico com a porta. Lembrou-se dele, dos seus olhos azuis cheios de humor, da sua cabeça deitada para trás numa gargalhada generosa de que ela se lembrava tão bem.

Estranho, como são as coisas do coração! Era possível passar anos

e anos habituada à perda, reconciliada com ela e, depois, num momento de fraqueza, a dor reaparecia, aguda e crua, como de uma ferida aberta.