A Papisa Joana
Capítulo 27 · O primeiro acto da Joana como papisa…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Esperaremos que ele esteja longe e tomaremos o Patriarchium de
assalto. Acabará tudo antes de João suspeitar, sequer, o que aconteceu.
— Lothar não ordenará que as suas tropas ataquem o
Patriarchium. Ele sabe que uma atitude dessas une toda a cidade de Roma contra ele, mesmo os que são do seu partido.
— Não precisamos dos soldados de Lothar para tomar o
Patriarchium, a nossa guarda pode fazê-lo. Uma vez que esteja claramente na posse do trono, Lothar apoiar-me-á — tenho a certeza.
— Talvez — disse Arsénio. — Mas, não será fácil tomar o palácio
papal. O superista é um combatente formidável e a guarda papal é-lhe completamente fiel.
— A principal preocupação do superista é com a segurança
pessoal do Papa. Com Lothar e o seu exército na cidade, Geraldo estará a prestar guarda na procissão, assim como os seus melhores homens.
— E depois? Certamente, sabes que Geraldo irá atrás de ti com
todo o poder de que dispõe?
Anastácio sorriu:
— Não vos preocupeis com Geraldo, Pai. Eu tenho um plano que
se encarregará dele.
Arsénio abanou a cabeça.
— É demasiado arriscado. Se falhares, significará a ruína da nossa
família, o fim de tudo aquilo por que trabalhámos ao longo de tantos anos.
Ele tem medo, pensou Anastácio. A ideia deu-lhe satisfação. Toda a vida tinha dependido da ajuda do pai e do seu conselho,
tendo-se ressentido, ao mesmo tempo, por causa de isso ser assim. Agora, provava que era o mais forte. Talvez, pensou Anastácio, olhando para o velho com um misto de amor e piedade, talvez tenha sido este medo, esta falta de vontade no momento exacto da prova que o impediu de ser grande.
O pai olhava para ele com um ar estranho. No fundo daqueles
olhos familiares e bem-amados, agora esmorecidos pela idade, Anastácio via preocupação, mas algo mais, algo que Anastácio nunca tinha visto antes — respeito.
Pousou a mão em cima do ombro do pai:
— Confiai em mim, Pai. Prometo-vos que vos orgulhareis de
mim.
O Dia Santo da Rogação era uma festa fixa, celebrada
invariavelmente no dia 25 de Abril. Tal como muitas outras festas fixas — a Festa da Oblação, a Festa da Cadeira de São Pedro, as semanas das Quatro Têmporas, a Missa de Cristo — as raízes desta celebração remontavam até ao tempo dos pagãos. Na Roma antiga, o 25 de Abril era a data da Robigalia, a festividade pagã em honra de Robigo, deus do Gelo, que, precisamente nesta época, podia trazer grandes prejuízos aos frutos da terra, em crescimento, se não fosse aplacado com ofertas e dons. Robigalia era uma festividade alegre, com um cortejo vivo pela cidade, a caminho dos campos de cultivo, onde eram sacrificados animais, em sinal de reverência, seguindo-se corridas e jogos e outras formas de divertimento ao ar livre, no campo. Em vez de tentar suprimir estas tradições imemoriais, o que só afastaria aqueles que se pretendia ganhar para a Fé verdadeira, os primeiros papas decidiram, sensatamente, manter a festividade, mas dar-lhe um carácter mais cristão. A procissão no Santo Dia da Rogação continuava a dirigir-se para as terras de cultivo, mas, primeiro, parava na Basílica de São Pedro, onde era celebrada uma missa solene de louvor a Deus e de intercessão, através dos santos, para que Ele abençoasse a colheita.
Naquele ano, o tempo tinha ajudado. O céu estava azul como um
tecido recém-tingido e limpo de qualquer nuvem, o Sol brilhava sobre as árvores e as casas, sendo o calor que ele lançava um pouco aliviado por uma brisa do norte.
Joana cavalgava no meio da procissão, atrás dos acólitos e
defensores, que iam a pé, e os sete diáconos regionais, que iam a cavalo. Atrás dela, seguiam os optimates e outros dignitários do Palácio Apostólico. Quando a linha comprida, com as suas insígnias e os seus estandartes coloridos, ia a passar pelo pátio de Latrão, passando pela estátua de bronze da mater romanorum, ela mexeu-se no seu palafrém branco, sentindo-se desconfortável, a sela devia estar mal colocada porque já lhe doíam as costas, sentindo umas guinadas que iam e vinham a intervalos regulares.
Geraldo percorria a procissão para trás e para a frente com os
outros guardas. Agora, estava ao lado dela, alto e bonito de cortar a respiração no seu uniforme da guarda.
— Sentes-te bem? — perguntou ele ansiosamente. — Estás pálida. Ela sorriu-lhe, recuperando forças com a sua presença. — Estou óptima.
A longa procissão dirigiu-se para a Via Sacra e Joana foi saudada
imediatamente por uma aclamação tonitruante.
Consciente da ameaça que a presença de Lothar e do seu exército
representavam, o povo tinha aparecido em massa para demonstrar o seu amor e apoio ao seu Senhor Papa. Ocupavam a borda do caminho, em filas de vinte pés de largura de cada lado, aclamando e pedindo a sua bênção, pelo que os guardas se viram forçados a empurrá-los para trás para que a procissão pudesse passar. Se Lothar procurava qualquer prova da popularidade de Joana junto do povo, ali estava ela.
Cantando e espalhando incenso, os acólitos avançaram pela velha
rua, percorrida pelos papas desde tempos imemoráveis. O passo era ainda mais lento do que o costume porque havia muitos peticionários pelo caminho e, como era costume, a procissão parava frequentemente para que a Joana os pudesse ouvir. Numa das paragens, uma mulher idosa, de cabelo grisalho e um rosto com cicatrizes atirou-se ao chão diante de Joana.
— Perdoai-me, Santo Padre — pediu a mulher — perdoai-me o
mal que vos fiz!
— Levantai-vos, boa mãe, e acalmai-vos — respondeu Joana. Não
me fizestes mal nenhum, que eu saiba.
— Estou tão diferente, que não me reconheceis? Algo na face devastada que se levantava para ela, implorando,
acordou nela uma lembrança.
— Marioza? — exclamou Joana.
A famosa cortesã tinha envelhecido trinta anos, desde a última vez
que Joana a tinha visto.
— Meu Deus, o que vos aconteceu?
Desolada, Marioza levou a mão ao rosto com cicatrizes: — As marcas de uma faca. Uma oferta de despedida de um
amante ciumento.
— Deus misereatur.
Marioza disse, amargamente:
— Não façais depender a vossa sorte dos favores dos homens,
haveis-me dito vós uma vez. Tínheis razão. O amor dos homens foi a minha ruína. É o meu castigo — o castigo de Deus pelo mal que vos fiz. Perdoai-me, Santo Padre, senão, estou condenada para sempre!
A Joana fez o sinal da cruz sobre ela:
— Perdoo-vos de todo o coração.
Marioza agarrou a mão da Joana e beijou-a. As pessoas que por ali
estavam manifestaram a sua aprovação.
A procissão prosseguiu. Quando iam a passar junto da Igreja de
São Clemente, Joana reparou numa zaragata do lado esquerdo.
Um grupo de rufiões junto à multidão estavam a injuriar e a atirar
pedras ao cortejo. Um deles, atingiu o seu cavalo no pescoço e ele empinou-se, fazendo com que Joana batesse na sela. Ela sentiu uma dor atravessá-la. Em choque e sem conseguir respirar, agarrou-se às rédeas douradas, enquanto os diáconos se apressavam a socorrê-la.
Geraldo já tinha visto o grupo de agitadores antes de todos os
outros. Virou o cavalo e avançou para eles, ainda antes de ter voado a primeira pedra.
Ao verem que ele se aproximava, os rufiões fugiram. Geraldo
perseguiu-os. Diante das escadas da Igreja de São Clemente, os homens viraram-se subitamente, puxaram de armas, que tinham escondidas na roupa, e vieram na direcção de Geraldo.
Geraldo puxou da espada, fazendo sinal aos guardas para que o
acompanhassem. Mas, ninguém respondeu, nem se ouviu o som de cavalos atrás dele. Ele estava sozinho quando os homens o cercaram como um enxame, brandindo punhais e empurrando-o.
Geraldo empunhou a espada com perícia, medindo cada estocada,
feriu quatro dos seus assaltantes, sendo atingido na coxa apenas por uma faca, até que eles o atiraram do cavalo abaixo.
Ele deixou-se cair, fingindo insensibilidade, mas manteve a mão
firme na espada.
Mal chegou ao chão, saltou, pondo-se de pé, de espada na mão.
Com um grito de surpresa, o atacante mais próximo arremeteu contra ele de espada em riste, Geraldo desviou-se, fintando-o e, quando o homem tropeçou, Geraldo desfechou-lhe a espada no braço. O homem caiu, com o braço cortado a espirrar sangue. Aproximaram-se outros, mas, agora, Geraldo ouvia os gritos da sua guarda que se aproximava por trás. Mais um pouco, e chegaria a sua ajuda. De espada em riste, Geraldo recuou, mantendo-se atento aos que o emboscavam.
O punhal apanhou-o pelas costas, entrando-lhe pelas costelas
silenciosamente, como um ladrão num santuário. Antes que ele se apercebesse do que tinha acontecido, os joelhos começaram-se-lhe a dobrar e ele caiu no chão, admirando-se de não sentir qualquer dor, mas apenas o sangue que lhe escorria pelas costas.
Ouviu gritos e o tilintar de espadas por cima da sua cabeça.
Os guardas tinham chegado e estavam a lutar com os agressores. Tenho de me juntar a eles, pensou Geraldo e procurou a sua
espada, caída no chão junto dele, mas não se conseguiu mexer.
Ao recuperar o fôlego, Joana viu Geraldo voltar para trás, em
perseguição daqueles que atiravam pedras.
Viu os outros guardas seguirem-no, gesto que foi observado por
um grupo de homens que se encontravam no meio da multidão daquele lado do caminho, o grupo cerrou fileiras, não deixando passar ninguém, como se agissem a um sinal invisível.
É uma armadilha!, pensou Joana. Gritou freneticamente, para os
avisar, mas as suas palavras foram abafadas pelo barulho e a confusão da multidão. Esporeou o cavalo para ir ter com Geraldo, mas os diáconos agarraram-lhe as rédeas.
— Largai-me! Largai-me! — gritou ela.
Mas, eles continuavam a agarrá-la, sem confiarem no cavalo. Impotente, Joana viu os rufiões cercarem Geraldo, viu como
estenderam as mãos para o puxar, agarrando-o pelo cinto, pela túnica, pelos braços, arrastando-o para fora da sela. Viu um último pedaço de cabelo ruivo, quando ele desapareceu sob o grupo que o cercava.
Ela apeou-se do cavalo e correu, abrindo caminho pelo meio do
grupo de acólitos atónitos e assustados. Quando chegou à berma do caminho, a multidão já se tinha apartado, abrindo caminho à guarda, que se dirigia a ela transportando o corpo inerte de Geraldo.
Depositaram-no no chão e ela ajoelhou-se junto dele. O sangue
escorria-lhe em fio pelo canto da boca. Ela retirou rapidamente o longo quadrado do pallium que tinha ao pescoço, rasgou-o e encostou-o à ferida que ele tinha nas costas, tentando estancar o sangue. Não havia nada a fazer, alguns minutos depois, o tecido grosso estava completamente ensopado.
Os seus olhos encontraram-se num olhar profundamente íntimo,
um olhar de amor e entendimento doloroso. Joana ficou aterrada, com um medo que nunca tinha sentido antes.
— Não! — gritou ela e tomou-o nos braços, como se a
proximidade física fizesse com que ela pudesse impedir o inevitável. — Não morras, Geraldo. Não me deixes aqui sozinha.
Ele levantou a mão. Ela tomou-a nas suas e os seus lábios
moveram-se num sorriso.
— Minha pérola — disse ele.
A sua voz era muito fraca, como se estivesse a falar de muito
longe.
— Luta, Geraldo, luta — disse ela. — Vamos levar-te para o
Patriarchium, vamos...
Ela apercebeu-se de que ele tinha expirado, mesmo antes de ter
ouvido o seu último suspiro e sentiu que o seu corpo se tinha tornado pesado nos seus braços. Inclinou-se para ele, fazendo-lhe festas no cabelo, no rosto. Ele estava quieto e sereno, de boca entreaberta, os olhos cegos, fixos no céu.
Era impossível que ele tivesse morrido. Ainda era capaz de ver o
seu espírito numa sucessão de imagens, como num espelho.
Era capaz de o ver novamente, se quisesse. Levantou-lhe a cabeça
e olhou à sua volta. Se ele estivesse por ali, far-lhe-ia um sinal. Se estivesse em qualquer lado, dar-lhe-ia a saber.
Não viu nada, não sentiu nada. Nos seus braços jazia um cadáver
com o seu rosto.
— Ele partiu para Deus — disse Desidério, o arquidiácono. Ela não se mexeu. Enquanto o tivesse nos braços, ele não tinha
partido completamente, uma parte dele ainda estava com ela.
Desidério tocou-lhe no braço.
— Vamos levá-lo para a igreja.
Ela ouviu e compreendeu, meia anestesiada. Ele não podia ficar ali
na rua, a ser visto por todos os estranhos curiosos.
Ela tinha de o honrar com todos os ritos e dignidades adequadas,
era tudo quanto lhe restava fazer por ele, agora.
Pousou-o no chão cuidadosamente para não o magoar, depois
fechou-lhe os olhos e cruzou-lhe os braços sobre o peito para que os guardas o pudessem transportar condignamente.
Quando ia a levantar-se, foi atingida por uma dor tão violenta que
se dobrou e voltou a cair no chão. O seu corpo começou a estrebuchar, sem que ela conseguisse controlar os espasmos. Sentiu uma pressão enorme, como se tivesse caído um peso sobre ela, a pressão desceu, até ela sentir que a ia despedaçar.
A criança. Está a nascer.
— Geraldo!
A palavra transformou-se num terrível gemido de dor. Agora, Geraldo não a podia ajudar. Ela estava sozinha. — Deus misereatur! — exclamou Desidério. — O Senhor Papa
está possesso do Demónio!
O povo gritava e chorava, mergulhado num extremo terror. Auriano, o exorcista-mor, aproximou-se. Aspergindo Joana com
água benta, entoou solenemente:
— Exorcizo te, immundissime spiritus, omnis incursio adversarii,
omne phantasma...
Todos os olhos estavam postos em Joana, à espera que o espírito
maligno lhe saísse pela boca ou pelos ouvidos.
Ela gritou com uma última dor, enquanto a pressão interna aliviou,
jorrando sangue para fora dela.
A voz de Auriano interrompeu-se, bruscamente, seguindo-se um
longo silêncio.
Por baixo das volumosas vestes brancas de Joana, agora tingidas
pelo seu sangue, apareceu o corpinho minúsculo de um nado-morto.
Desidério foi o primeiro a reagir.
— Um milagre! — gritou ele, caindo de joelhos. — Bruxaria — gritou outro.
Todos se benzeram.
O povo empurrava-se para ver o que tinha acontecido,
acotovelando-se e passando uns por cima dos outros, para observarem melhor.
— Afastai-vos! — gritaram os diáconos, empunhando os seus
crucifixos como escudos para impedirem que a multidão desgovernada avançasse. Começou a haver lutas ao longo do caminho da procissão. A guarda acorreu, gritando ordens.
Joana ouvia tudo ao longe. Deitada na rua numa poça do seu
próprio sangue, sentiu subitamente uma paz transcendente. A rua, as pessoas, os estandartes coloridos da procissão brilhavam aos seus olhos com um brilho estranho, como fios de uma enorme tapeçaria cujo padrão só ela era capaz de ver.
O seu espírito expandiu-se dentro dela, enchendo o seu vazio
interior. Ela estava banhada numa grande luz. Fé e dúvida, vontade e desejo, coração e mente — finalmente, ela viu e compreendeu que era tudo um só e que esse Um era Deus.
A luz tornou-se mais intensa. Sorrindo, ela dirigiu-se para a luz, à
medida que as cores do mundo se esbatiam, até se tornarem invisíveis, como a Lua ao nascer do Sol.
EPÍLOGO
Quarenta e dois anos depois
Anastácio estava sentado à sua secretária no scritorium Laterano, a
escrever uma carta. As suas mãos, perras e com artrite por causa da idade, doíam-lhe a cada movimento da pena. Apesar da dor, ele continuava a escrever. A carta era extremamente urgente e tinha de ser enviada imediatamente.
Para Sua Majestade Imperial, o venerável imperador Arnulf —
escreveu ele.
Lothar tinha morrido havia muito. Tinha falecido poucos meses
depois de deixar Roma. O seu trono tinha ido primeiro para o seu filho Luís II e, depois da sua morte, para o sobrinho de Lothar, Carlos, o Gordo, ambos governantes fracos e medíocres. Com a morte de Carlos, o Gordo, em 888, a dinastia carolíngia iniciada com o grande Carlos — ou Carlos Magno, como era agora conhecido — tinha chegado ao fim.
Arnulf, duque de Caríntia, tinha conseguido usurpar a coroa
imperial a uma hoste de pretendentes. Anastácio, apesar de tudo, achava que a mudança na sucessão era positiva. Arnulf era mais esperto e mais forte do que Lothar. Anastácio contava com isso. Porque tinha de se fazer qualquer coisa com o papa Estêvão.
No mês anterior, para horror e escândalo de Roma inteira, Estêvão
tinha ordenado que o corpo do seu antecessor — o papa Formoso — fosse retirado do seu túmulo e trazido para o Patriarchium. Depois de ter mandado instalar o cadáver numa cadeira, Estêvão tinha presidido a um arremedo de julgamento, tinha lançado calúnias contra ele e tinha acabado por cortar três dedos da sua mão direita, os dedos usados para dar a bênção papal, como castigo pelos crimes confessos de Formoso.
"Apelo a Vossa Majestade — escreveu Anastácio — para que
venhais a Roma e ponhais fim aos excessos do Papa, que são um escândalo para toda a Cristandade."
Uma cãibra súbita na mão de Anastácio fez tremer a pena,
deixando cair pingos de tinta no pergaminho em branco.
Praguejando, Anastácio limpou a tinta espalhada, depois poisou a
pena e esticou os dedos, esfregando-os para aliviar a dor.
Estranho, reflectiu ele com uma ironia amarga, que um homem
como Estêvão tenha chegado a papa, enquanto eu, perfeitamente adequado para o cargo, em virtude de todas as qualificações de origem e erudição, não o tenha recebido.
Esteve perto, tão perto de ganhar o prémio cobiçado! Depois da
revelação chocante e da morte da Papisa, Anastácio tinha ocupado o Patriarchium, reclamando o trono para si com a bênção do imperador Lothar.
O que ele teria feito se tivesse ficado no trono! Mas, não tinha de
acontecer. Um grupo de clérigos, pequeno mas influente, tinha-se-lhe oposto frontalmente. Durante meses, a questão da sucessão papal tinha sido debatida vivamente, com um lado, primeiro, e depois, o outro, a ganhar terreno. Por fim, convencido de que um grupo substancial de romanos nunca aceitaria Anastácio como papa, Lothar tomou uma decisão política e retirou o seu apoio.
Anastácio foi deposto e mandado na ignomínia para o Mosteiro do
Trastevere. Pensavam todos que tinham acabado comigo, pensou Anastácio. Mas, enganaram-se. Com paciência, habilidade e diplomacia, ele lutou para regressar, acabando por ganhar a confiança do papa Nicolau.
Nicolau tinha-o promovido a encarregado da biblioteca papal, uma
posição de poder e um privilégio que ele mantinha havia mais de trinta anos. Tendo chegado à extraordinária idade de oitenta e sete anos, Anastácio, agora, era venerado e respeitado, louvado universalmente pela sua grande erudição. Mestres e homens da Igreja vindos do mundo inteiro acorriam a Roma para se encontrarem com ele e admirar a sua obra-prima — o Liber pontificalis, a crónica oficial dos papas. No mês anterior, um arcebispo franco de nome Arnaldo, tinha-lhe pedido permissão para fazer uma cópia do manuscrito para a sua catedral e Anastácio tinha-lha concedido de graça.
O Liber pontificalis era o lanço de Anastácio para a imortalidade,
o seu legado ao mundo. Era também a sua vingança final sobre o seu detestado rival, a pessoa cuja eleição no dia fatal de 853 lhe tinha negado a glória que lhe estava destinada.
Anastácio omitiu a papisa Joana no registo oficial dos papas, o
Liber pontificalis nem sequer mencionava o seu nome. Não era o seu desejo mais profundo, mas, já era alguma coisa. A fama de Anastácio, o Bibliotecário, e da sua grande obra ecoaria ao longo dos tempos, mas a papisa Joana seria esquecida, apagada para sempre. A cãibra na mão tinha desaparecido. Pegando na pena, Anastácio recomeçou a escrever.
No scriptorium do Palácio Episcopal de Paris, o arcebispo Arnaldo
trabalhava na última página da sua cópia do Liber pontificalis. A luz do Sol entrava pela janela estreita, filtrando um raio de luz cheio de pó a flutuar. Arnaldo copiou a última linha, voltou a lê-la, depois, pousou cuidadosamente a pena.
Tinha sido um trabalho longo e difícil, copiar todo o manuscrito
do Livro dos Papas. Os escribas do palácio tinham ficado muito surpreendidos quando o arcebispo se encarregou de o fazer pessoalmente, em vez de entregar a tarefa a um deles, mas Arnaldo tinha as suas razões para o fazer. Ele não se tinha limitado a duplicar o famoso documento, tinha-o corrigido. Entre as crónicas das vidas do papa Leão e do papa Bento, havia agora uma entrada para a papisa Joana, devolvendo o seu pontificado ao lugar a que tinha direito na história.
Ele tinha-o feito tanto por causa de um sentimento pessoal de
lealdade, como por causa de um desejo de ver a verdade relatada. Tal como Joana, também o arcebispo não era o que parecia. Porque Arnaldo, nascida Arnalda, na realidade, era a filha do servo franco de nome Arn e da sua esposa, Bona, com quem Joana tinha morado depois de ter fugido de Fulda. Na altura, Arnalda não passava de uma menina, mas nunca tinha esquecido Joana — os olhos bondosos e inteligentes que a observavam com tanta insistência, a excitação das suas lições diárias, a alegria partilhada do sucesso quando Arnalda tinha começado a ler e a escrever.
Devia muito a Joana porque tinha sido ela que tinha salvo a
família da Arnalda da pobreza e do desespero, apontando o caminho de saída do negro abismo da ignorância para a luz do conhecimento, tornando possível a alta posição que Arnalda ocupava agora. Inspirada pelo exemplo de Joana, Arnalda também tinha escolhido, ao aproximar-se a idade adulta, disfarçar-se de homem para poder concretizar os seus sonhos.
Quantas haverá como nós?, pensava mais uma vez Arnalda. Quantas mais mulheres tinham dado o salto arriscado,
abandonando as suas identidades femininas, renunciando a vidas que podiam ter sido ocupadas com filhos e família para alcançarem aquilo que, de contrário, teriam sido impedidas de atingir? Quem sabia? Podia ser que Arnalda tivesse passado por outra como ela na catedral ou no mosteiro, sem saber, partilhando em segredo e às escondidas a mesma irmandade.
Sorriu ao pensar nisso. Metendo a mão por dentro das suas vestes
de arcebispo, agarrou no medalhão em madeira com a efígie de Santa Catarina que tinha ao pescoço. Tinha-o usado sempre desde o dia em que Joana lho tinha dado, havia mais de cinquenta anos.
No dia seguinte, mandaria encadernar o manuscrito em pele fina,
debruada a ouro, e mandá-lo-ia colocar nos arquivos da biblioteca da catedral. Assim, haveria pelo menos um local onde permaneceria um registo de Joana, a papisa, que, apesar de ser mulher, foi uma boa e fiel Vigária de Cristo. Um dia, a sua história seria encontrada e relatada novamente.
A dívida está paga, pensou Arnalda. Requiesce in pace, Johanna
Papissa.
NOTA DA AUTORA
Existiu uma papisa Joana?
Partout où vous voyez une légende, vous pouvez être sir, en allant
au fond des choses, que vous trouverez une histoire.
Onde quer que encontreis uma lenda, podeis estar certo de que, se
fordes ao fundo do assunto, encontrareis uma história.
VALLET DE VIRIVILLE
A papisa Joana é uma das personagens mais fascinantes e
extraordinárias da história do Ocidente — e uma das menos conhecidas. A maior parte das pessoas nunca ouviram falar da papisa Joana e aqueles que ouviram consideram a sua história como uma lenda.
No entanto, há centenas de anos — em meados do século XVII —
o papado de Joana era conhecido e aceite universalmente como verídico. No século XVII, a Igreja Católica, sob o recrudescimento das críticas do Protestantismo nascente, começou a empreender esforços concertados para destruir os registos históricos embaraçosos relacionados com Joana.
Centenas de manuscritos e de livros foram destruídos pelo
Vaticano. O desaparecimento efectivo de Joana da consciência moderna atesta a eficácia destas medidas.
Hoje, a Igreja Católica apresenta dois argumentos contra o papado
de Joana: a ausência de qualquer referência a ela nos documentos que lhe eram contemporâneos e a ausência de um período de tempo suficiente para que seu papado pudesse ter ocorrido entre o fim do reinado do seu predecessor — Leão IV — e o início do reinado do Papa que lhe sucedeu — Bento III.
Mas, estes argumentos não são conclusivos. Não surpreende muito
que a Joana não apareça nos registos que lhe eram contemporâneos, dado o tempo e a energia que a Igreja tem dedicado, ela própria, a expurgá-la deles. O facto de ela ter vivido no século IX, a mais escura de todas as épocas, teria facilitado a tarefa da erradicação do seu papado. O século IX foi uma época de ampla iliteracia, marcada por uma extraordinária escassez de registos. Hoje, a investigação científica acerca desta época depende de documentos dispersos, incompletos, contraditórios e sem credibilidade. Não existem crónicas reais, plantas das regiões, registos agrícolas ou diários da vida quotidiana. À excepção de uma história questionável — o Liber pontificalis (que os investigadores apelidaram de documento propagandístico), não existe nenhum registo contínuo dos papas do século IX — de quem eles foram, quando reinaram, que fizeram. Para além do Liber Pontificalis, não existe praticamente nenhuma referência ao sucessor de Joana, o papa Bento III — e ele não foi alvo de uma campanha de exterminação.
Ainda existe uma velha cópia do Liber pontificalis com um registo
do papado de Joana. A entrada deste registo é, obviamente, uma interpolação posterior, enxertada de forma desastrada no corpo principal do texto. Contudo, isto não faz com que o registo seja, necessariamente, uma mentira, um analista subsequente, convencido pelo testemunho de cronistas politicamente menos suspeitos, pode ter-se sentido na obrigação moral de corrigir o registo oficial. Blondel, o historiador protestante que examinou o texto em 1647, concluiu que a entrada sobre Joana tinha sido escrita no século XIV.
Baseou a sua opinião nas variações de estilo e de escrita — uma
opinião subjectiva, quanto muito. Continuam a levantar-se questões importantes acerca deste documento. Quando foi escrita a passagem em questão? E por quem? Um novo exame deste texto, utilizando os métodos modernos de datação — que nunca foram tentados — poderia fornecer respostas mais interessantes.
A ausência de Joana nos registos eclesiásticos contemporâneos é
algo que seria de esperar. Os clérigos romanos daquela época, consternados com a grande decepção que tinham sofrido, devem ter feito tudo o que lhes era possível para apagar qualquer relato escrito daquele episódio embaraçoso. Aliás, devem até ter-se sentido na obrigação de o fazer. Hincmar, contemporâneo a Joana, suprimiu frequentemente nas suas cartas e crónicas informações que prejudicavam a Igreja. Nem sequer o grande teólogo Alcuino se escusou a falsificar a verdade, numa das suas cartas, admite ter destruído um relato sobre o adultério e simonia do papa Leão III.
Portanto, os contemporâneos de Joana são demasiado suspeitos
para poderem ser considerados provas da sua inexistência. Isto aplica-se especialmente aos prelados romanos que tinham fortes motivos pessoais para suprimir a verdade. Nas raras ocasiões em que um papado era declarado inválido — como o de Joana teria sido, quando a sua identidade feminina foi descoberta — as nomeações feitas pelo Papa tornavam-se imediatamente nulas e eram revogadas. Os cardeais, bispos, diáconos e presbíteros ordenados por esse papa eram despojados dos seus títulos e posições. Portanto, não é nenhuma surpresa que os registos conservados ou copiados pelos homens em questão não façam qualquer menção a Joana.
Basta olharmos para os exemplos recentes da Nicarágua e de El
Salvador para vermos como os esforços determinados e bem coordenados de um Estado podem fazer desaparecer provas embaraçosas. É só depois de se fazer sentir o efeito do distanciamento no tempo relativamente aos acontecimentos em causa que a verdade, mantida intacta por um relato popular, começa a emergir. E, na realidade, não faltam documentos acerca do papado de Joana nos últimos séculos. Frederick Spanheim, o grande historiador alemão que fez um estudo aprofundado do assunto, cita nada menos do que quinhentos documentos antigos com referências ao papado de Joana, incluindo alguns de autores de renome como Petrarca e Bocácio.
Actualmente, a posição da Igreja acerca de Joana é considerá-la
uma invenção dos reformadores protestantes, ansiosos por denunciar a corrupção do papado. Mas, a história de Joana apareceu pela primeira vez centenas de anos antes de Martinho Lutero ter nascido. A maior parte dos seus cronistas são católicos, muitas vezes, em posições de relevo na hierarquia da Igreja. A história de Joana foi aceite inclusivamente em histórias oficiais dos papas. A sua estátua esteve na Catedral de Siena, ao lado da de outros papas, sem ser posta em causa, até 1601, altura em que, por ordem do papa Clemente VIII, ela se metamorfoseou subitamente, transformando-se num busto do papa Zacarias. Em 1276, depois de ter ordenado uma investigação aturada dos registos papais, o papa João XX mudou o seu título para João XXI, reconhecendo oficialmente o reinado de Joana como papa João VIII. A história de Joana foi incluída no guia oficial da igreja para Roma, utilizado pelos peregrinos durante mais de trezentos anos.
Outra comprovação histórica impressionante encontra-se no
julgamento de Jan Hus por heresia, em 1413, julgamento esse bem documentado. Hus foi condenado por pregar a doutrina herética segundo a qual o Papa é falível. Na sua defesa, Hus citou, durante o julgamento, muitos exemplos de papas que tinham pecado e cometido crimes contra a Igreja. Os seus juízes, todos clérigos, responderam detalhadamente a todas as acusações de Hus, negando-as e considerando-as blasfémia.
Houve apenas uma das declarações de Hus que não foi posta em
causa: Os papas caíram muitas vezes no pecado e no erro, por exemplo, quando Joana foi eleita papisa, sendo mulher. Nenhum dos vinte e oito cardeais, quatro patriarcas, trinta metropolitas, duzentos e seis bispos e quatrocentos e quarenta teólogos presentes acusaram Hus de mentira ou blasfémia nesta afirmação.
Quanto ao segundo argumento da Igreja contra Joana, segundo o
qual não houve tempo suficiente entre os papados de Leão IV e de Bento III para que ela tivesse reinado — isto também é questionável. O Liber pontificalis é notoriamente impreciso no que diz respeito ao tempo dos reinados dos papas e às datas das suas mortes, é sabido que muitas das datas citadas são puras invenções. Dada a forte motivação de um cronista desse tempo para esconder o papado de Joana, não seria grande surpresa se a data da morte de Leão tivesse sido transferida de 853 para 855 — sobrepondo-se ao tempo do alegado reinado de dois anos da papisa Joana — para fazer parecer que ao papa Leão sucedeu imediatamente o papa Bento III.(1)
---
(1) Duas das provas materiais mais importantes contra o papado
de Joana pressupõem que Leão IV morreu em 855.
1 - Uma moeda com o nome do papa Bento de um lado e o
imperador Lothar do outro. Como Lothar morreu no dia 28 de Setembro de 855 e a moeda apresenta Bento e Lothar vivendo contemporaneamente, Bento não podia, obviamente, ter subido ao trono depois de 855.
2 - Um decreto de 7 de Outubro de 855, no qual o papa Bento
confirma os privilégios do Mosteiro de Corbie, indicando novamente que, na altura, ele estava no trono. Mas, estas provas perdem a validade se Leão tiver morrido em 853 (ou mesmo em 854), porque, nessa altura, teria havido tempo para o reinado de Joana antes da chegada ao trono de Bento, em 855.
---
A história fornece muitos outros exemplos desta falsificação
deliberada dos registos. Os partidários da casa de Bourbon datam o reinado de Luís XVIII a partir da morte do seu irmão, omitindo, pura e simplesmente, o reinado de Napoleão. Mas, não puderam erradicar Napoleão dos registos históricos, porque o seu reinado estava muito bem documentado em inúmeras crónicas, diários, cartas e outros documentos. Em comparação, no século IX, a tarefa de obliterar Joana do registo histórico teria sido muito mais fácil.
Existem também provas circunstanciais difíceis de explicar, se
nunca tiver existido uma papisa. Um exemplo é o chamado exame da cadeira, que fez parte do cerimonial da consagração papal medieval durante, pelo menos, seiscentos anos. Qualquer papa recém-eleito depois de Joana, sentava-se na sella stercoraria (literalmente, cadeira do esterco), recortada no meio, como se fosse uma sanita, onde os seus órgãos genitais eram examinados, para se provar a sua masculinidade. Depois, o examinador (normalmente, um diácono) informava solenemente o povo reunido de que Mas novis hominus est — O nosso nomeado é um homem. Só então eram entregues ao papa as chaves de São Pedro. Esta cerimónia existiu até ao século XVI. Até mesmo Alexandre Bórgia foi obrigado a submeter-se a esta provação, apesar de, na altura da sua eleição, a sua esposa já lhe ter dado quatro filhos, que ele reconheceu com orgulho!
A Igreja Católica não nega a existência desta cadeira recortada
porque ela ainda se encontra em Roma, actualmente.
Nem ninguém nega o facto de ela ter sido utilizada durante
séculos no cerimonial papal de consagração. Mas, muitos argumentam que a cadeira era utilizada por causa da sua beleza e imponência, segundo dizem, o facto de ter um buraco é irrelevante. O nome sella stercoraria derivaria, alegadamente, das palavras dirigidas ao papa, no momento em que ele se sentava na cadeira: Suscitans de pulvere egenem, et de stercore erigens auerem ut sedeat cum principibus..., [Deus — levanta do pó os necessitados e do esterco os pobres para os sentar com os príncipes...].
Este argumento parece duvidoso. A cadeira serviu, certamente, em
tempos, como sanita ou, possivelmente, como cadeira de obstetrícia (Ver figura p. 451). Seria provável que um objecto com esta associação tão crua fosse utilizado como trono papal sem qualquer bom motivo? E se o exame da cadeira, é uma ficção, como se explicam os inúmeros dichotes e cantigas que se lhe referem e que foram bem conhecidos da populaça romana durante séculos? É certo que era uma época de ignorância e superstição, mas a Roma medieval era uma comunidade pequena: o povo vivia a poucos metros do palácio papal, muitos dos seus pais, irmãos, filhos e primos eram prelados que participavam nas consagrações papais e que teriam sabido a verdade acerca da sella stercoraria. Existe mesmo um relato do exame da cadeira da autoria de uma testemunha ocular.
Em 1404, o escocês Adam de Usk fez uma viagem a Roma, onde
ficou dois anos, registando pormenorizadamente as suas impressões na sua crónica. A sua descrição pormenorizada da coroação do papa Inocêncio VII inclui o exame da cadeira.
Outra prova circunstancial interessante é a rua esquiva. O
Patriarchium, a residência papal e a catedral episcopal (agora, de São João de Latrão) está localizado do lado oposto à Basílica de São Pedro, as procissões papais passavam frequentemente entre ambas, portanto. Uma consulta rápida de qualquer mapa de Roma demonstrará que a Via Sacra (agora, Via São Giovanni) é o caminho mais curto e mais directo entre os dois locais — e, de facto, foi utilizada durante séculos (com o nome de Via Sacra ou via sagrada). Esta é a rua em que Joana teria dado à luz o seu nado-morto. Pouco depois, as procissões papais passaram a evitar a Via Sacra propositadamente, por causa da abominação acontecida.
A Igreja argumenta que o desvio passou a ser feito apenas porque
a rua era demasiado estreita para os cortejos passarem, até ao século XVI, quando o papa Sisto V mandou alargá-la.
Mas, é evidente que isto não é verdade. Em 1486, John Burcardt,
bispo de Horta e mestre de cerimónias do papa, que serviu cinco papas — posição que lhe permitiu ter um conhecimento íntimo da corte papal — descreveu no seu diário aquilo que sucedeu quando um cortejo papal, quebrando o costume, passou pela Via Sacra:
Tanto à ida, como à vinda, o Papa passou pelo Coliseu e pela rua
onde... João Anglicus... deu à luz... Por isso... os papas, nas suas cavalgadas, nunca passam por aquela rua, por isso, o Papa foi censurado pelo Arcebispo de Florença, o Bispo de Massano e Hugo de Bencu, o subdiácono apostólico.
Cem anos antes de a rua ser alargada, este cortejo papal desceu a
Via Sacra sem qualquer dificuldade. O relato de Burcardt também pressupõe que, naquele tempo, o papado de Joana era aceite pelos mais altos funcionários da corte papal.
Dada a obscuridade e confusão da época, é impossível determinar
com toda a certeza se Joana existiu ou não. A verdade daquilo que aconteceu no A.D. 855 pode nunca vir a ser totalmente conhecido. Foi por isso que eu decidi escrever um romance e não um estudo histórico. Apesar de me basear em factos da vida de Joana, tal como eles foram relatados, o livro é uma ficção. Sabe-se pouco acerca dos anos da vida da Joana, excepto que nasceu em Ingelheim, de um pai inglês, e que se tornou monge do Mosteiro de Fulda. Eu tive, necessariamente, de preencher algumas lacunas da sua história.
No entanto, os principais acontecimentos da vida adulta de Joana
descritos na Papisa Joana são todos exactos. A Batalha de Fontenoy ocorreu, como descrito, em 25 de Junho de 841. Os sarracenos saquearam, de facto, São Pedro no ano de 847 e foram derrotados, mais tarde, no mar, em 849, houve um incêndio no Borgo, em 848 e uma cheia no Tibre, em 854. A Intinctio tornou-se popular como método de comunhão no país dos francos, durante o século IX. Anastácio foi realmente excomungado pelo papa Leão IV, mais tarde, depois da sua reabilitação, como bibliotecário papal do papa Nicolau, tornou-se muito popular como autor das vidas contemporâneas no Liber Pontificalis. Os assassinatos de Teodoro e de Leão no palácio papal aconteceram realmente, assim como o julgamento que opôs o magister militum Daniel ao superista papal. A glutonice do papa Sérgio e a sua gota são matéria de registo histórico, assim como a sua reconstrução do Orphanotrophium.
Anastácio, Arsénio, Gottschalk, Rábano Mauro, Lothar, Bento e
os papas Gregório, Sérgio e Leão são todos personagens históricas reais. Os pormenores do ambiente do século IX foram resultado de uma pesquisa pormenorizada: as informações sobre o vestuário, a comida e a medicina são exactas.
Fiz alguns ajustamentos para tornar a história mais interessante.
Precisava de um ataque viquingue a Dorstadt, no ano de 828, apesar de ele ter ocorrido, de facto, apenas em 834. Do mesmo modo, coloquei o imperador Lothar a fazer duas viagens a Roma para punir o Papa, apesar de, na realidade, ele ter mandado o seu filho Luís, rei da Itália, cumprir a missão por ele, da primeira vez. Os cadáveres de São Marcelino e de São Pedro foram roubados dos seus túmulos em 827, não em 855, João, o antipapa, predecessor de Sérgio, não foi assassinado depois de ter sido deposto, mas apenas preso e, depois, banido. Anastácio morreu em 878 e não em 897. Estes erros deliberados, são, penso eu, excepções, na generalidade, tentei ser rigorosa do ponto de vista histórico.
Algumas coisas descritas na Papisa Joana podem parecer
chocantes do nosso ponto de vista, mas não o pareciam para as pessoas daquele tempo. A queda do Império Romano e a derrocada da lei e da ordem que se lhe seguiram conduziram a uma era de barbarismo e violência quase sem precedentes. Como um cronista da época lamentava, era uma época de espada, de vento, de lobo. A população europeia tinha sido dizimada para metade por causa de uma série desastrosa de fomes, pestes, guerras civis e invasões dos bárbaros.
A esperança média de vida era muito curta: menos de um quarto
da população nunca atingiu os cinquenta anos. Já não havia cidades, as povoações maiores não tinham mais do que dois ou três mil habitantes. As estradas romanas tinham ficado todas arruinadas, as pontes tinham desaparecido.
A ordem social e económica a que chamamos actualmente
feudalismo ainda não tinha começado. A Europa continuava a ser um único país: a Alemanha não existia como nação autónoma, nem a França ou a Espanha ou a Itália. As línguas românicas ainda não se tinham desenvolvido, separando-se da língua paterna — o latim, não existiam as línguas francesa ou espanhola ou italiana, mas sim uma variedade de formas de latim degenerado e uma horda de dialectos locais. Em suma, o século IX assinalava uma sociedade em transição de uma forma de civilização, morta havia muito, para outra que ainda não tinha nascido — com toda a fermentação e agitação que isso implica.
A vida naqueles tempos conturbados era especialmente difícil para
as mulheres. Era uma época misógina, informada pelas diatribes contra as mulheres de padres da Igreja como São Paulo e Tertuliano: E tu não sabes que és Eva?... Tu és a porta do diabo, a traidora da árvore, a primeira desertora à Lei Divina, tu és aquela que seduziu aquele de quem o diabo não se atrevia a aproximar-se... por causa da morte que tu mereceste, o próprio Filho de Deus teve de morrer.
Acreditava-se que o sangue menstrual azedava o vinho, arruinava
as colheitas, tornava as lâminas rombas, enferrujava o metal e infectava as mordeduras dos cães com um veneno mortal. Salvo raras excepções, as mulheres eram tratadas como se fossem sempre menores, sem quaisquer direitos legais ou de propriedade. A lei previa que pudessem ser espancadas pelos maridos. A violação era considerada uma forma menor de roubo.
A educação das mulheres era desencorajada porque uma mulher
instruída era considerada não só contra a natureza como também perigosa.
Sendo assim, não admira que uma mulher optasse por se disfarçar
de homem para escapar a tal existência. Para além de Joana, houve outras mulheres que conseguiram viver sob essa impostura. No século III, Eugénia, filha do Prefeito de Alexandria, entrou num convento disfarçada de homem e acabou por ascender ao cargo de abade. O seu disfarce resultou até ela ser forçada a revelar o seu sexo, numa última tentativa de refutar a acusação de ter desflorado uma virgem.
No século XII, Santa Hildegunda, utilizando o nome de José,
tornou-se irmão da Abadia de Schúnau e viveu disfarçada entre os irmãos, até morrer muitos anos mais tarde. A luz da esperança lançada por estas mulheres brilhou suavemente numa grande escuridão, mas nunca se extinguiu completamente. Se as mulheres quisessem, podiam sonhar. A Papisa Joana é a história de uma dessas sonhadoras.
Existem outros exemplos, mais actuais, de mulheres que
conseguiram fazer-se passar por homens, incluindo Mary Reade, que viveu como pirata no início do século XVIII, Hannah Snell, soldado e marinheiro da marinha britânica, uma mulher do século XIX, cujo verdadeiro nome é desconhecido, mas que, sob o nome de James Barry, ascendeu ao posto de inspector-geral dos hospitais britânicos, Loreta Janeta Vasquez, que combateu do lado dos Confederados na Batalha de Bull Run, sob o nome de Harry Buford. Mais recentemente, Teresinha Gomes de Lisboa passou dezoito anos da sua vida fazendo-se passar por homem, soldado altamente condecorado, ascendeu ao posto de general no exército português e só foi descoberta em 1994, quando foi presa por fraude fiscal e foi forçada pela polícia a submeter-se a um exame físico.
CRONOLOGIA DOS ACONTECIMENTOS IMPORTANTES PARA
O ROMANCE
814 — Carlos Magno morre no dia 28 de Janeiro. Joana nasce
nesse mesmo ano. Luís, o Piedoso, é coroado Imperador.
823 — Em Roma, Teodoro, o primicerius, e Leão, o nomenclator,
são assassinados no palácio papal. O papa Pascal toma a defesa dos assassinos e anatematiza as vítimas, declarando as suas mortes como actos de justiça.
824 — A Constitutio Romana atribui ao imperador franco o
direito de aprovar os papas recém-eleitos.
828 — Os viquingues saqueiam Dorstadt.
829 — Gottschalk é libertado dos seus votos monásticos no
Sínodo de Mainz.
833 — Lothar, filho de Luís, o Piedoso, chefia os seus irmãos
numa rebelião contra o pai. Traído e derrotado no Campo das Mentiras, Luís é deposto.
834 — Uma contra-rebelião restabelece Luís no trono. Luís
perdoa aos seus filhos, devolvendo-lhes as suas terras e privilégios.
840 — Luís, o Piedoso, morre. Lothar sucede-lhe no trono. 841 — Carlos e Luís, irmãos de Lothar, revoltam-se contra ele. Os
exércitos reais enfrentam-se em Fontenoy, no dia 25 de Junho, num massacre que deixa o Império indefeso perante os viquingues.
844 — O papa Gregório morre. Sérgio é eleito papa. Os exércitos
francos descem a Roma para fazerem cumprir a Constitutio Romana. Os viquingues saqueiam Paris.
846 — Os sarracenos atacam Roma e pilham a Catedral de São
Pedro.
847 — O papa Sérgio morre. Leão é eleito papa. Inicia-se a
construção do Muro Leonino.
848 — Incêndio no Borgo. Gottschalk avança a teoria herética da
dupla predestinação.
849 — Os sarracenos são derrotados no mar, na Batalha de Ostia. 852 — O Muro Leonino fica pronto e é dedicado no dia 27 de
Junho.
853 — Morre Leão. Joana é eleita Papisa.
854 — Sínodo de Roma. Cheias no Tibre.
855 — Joana morre. Anastácio apodera-se do trono papal, mas é
expulso dois meses depois. Bento torna-se papa.
***
http://groups-beta.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups-beta.google.com/group/digitalsource
OceanofPDF.com
Você terminou A Papisa Joana
Donna Woolfolk Cross