A Papisa Joana

Donna Woolfolk Cross · Capítulo 9 de 9 · parte 2/3

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A Papisa Joana

Capítulo 27 · O primeiro acto da Joana como papisa…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

podemos retirá-lo.

Aquilo era de mais.

— João é o Vigário de Cristo — disse Vítor, profundamente

chocado. — Admito que ele é... estranho. Mas, agir contra ele? Não... não... certamente, não temos de chegar a tanto.

— Bem, bem, pode ser que tenhais razão.

Arsénio deixou a questão cair, habilmente. Não havia necessidade

de continuar, ele tinha plantado a semente e sabia que ela acabaria por germinar.

Geraldo não tinha visto a Joana desde o dia em que se tinham

separado, depois da cheia. O trabalho que ainda havia para fazer no aqueduto não era dentro da cidade, mas sim no Tivoli, a cerca de vinte milhas. Geraldo estava muito envolvido em todos os aspectos da construção, desde a supervisão dos planos de reparação, até à supervisão das equipas de trabalho. Muitas vezes, envolvia-se directamente no trabalho, ajudando a levantar pedras pesadas e a cobri-las com argamassa nova. Os homens ficavam surpreendidos de ver o senhor superista a fazer um trabalho tão humilde, mas Geraldo não se importava, porque era só no trabalho físico duro que ele encontrava um momento de alívio do desgosto que o queimava interiormente.

Era melhor, pensava ele, muito melhor se nunca nos tivéssemos

deitado como marido e mulher. Talvez, então, ele pudesse continuar como antes. Mas, agora...

Era como se tivesse vivido cego todos aqueles anos. Todos os

caminhos por onde tinha andado, todos os riscos que tinha corrido, tudo quanto tinha feito conduziam a uma única pessoa: Joana.

Quando o aqueduto ficasse pronto, ela esperava que ele retomasse

o seu posto como comandante da guarda papal. Voltar a estar perto dela todos os dias, vê-la e saber que ela estava fora do seu alcance... seria insuportável.

Sairei de Roma, pensou ele, mal o trabalho do aqueduto termine.

Voltarei para Benevento e retomarei o comando do exército de Siconulf. Havia uma simplicidade atraente na vida de soldado, com os seus inimigos definidos e objectivos precisos.

Trabalhava com os seus homens dia e noite. Três meses depois, a

obra estava pronta.

O aqueduto restaurado foi dedicado solenemente na Festa da

Anunciação. Encabeçado por Joana, todo o clero — porteiros, acólitos, leitores, exorcistas, padres, diáconos e bispos —, rodearam os arcos em peperino maciço numa procissão solene, aspergindo as pedras com água benta, enquanto cantavam litanias, salmos e hinos. A procissão parou e Joana pronunciou algumas palavras de bênção. Olhou para o sítio onde estava Geraldo, à espera no cimo dos arcos, de pé, com as suas longas pernas, mais alto do que todos os outros à sua volta.

Ela acenou-lhe e ele puxou uma alavanca, abrindo os portões das

comportas. As aclamações do povo fizeram-se ouvir quando as águas frias, puras e saudáveis da nascente do Subiaco, que ficava a cerca de quarenta e cinco milhas dos muros da cidade, correram até ao Campo de Marte pela primeira vez em mais de trezentos anos.

Construído em estilo imperial, o trono papal era uma peça maciça

e espaldada em carvalho, adornada com rubis, pérolas, safiras e outras pedras preciosas, tão desconfortável como impressionante. Joana tinha estado sentada nele durante mais de cinco horas, concedendo audiência a uma corrente de peticionários. Agora, estava inquieta, tentando aliviar o desconforto crescente que sentia nas costas.

Juvianus, o decano dos intendentes, anunciou o peticionário

seguinte.

— Magister militum Daniel.

Joana franziu o sobrolho. Daniel era um homem difícil, colérico e

irascível — e era um amigo próximo do bispo Arsénio. A sua presença ali só podia significar problemas.

Daniel entrou apressadamente, fazendo vénias a vários notários e a

outros funcionários papais.

— Santidade.

Saudou Joana com uma pequena vénia, depois começou a dizer,

com uma rude brusquidão:

— É verdade que, nas ordenações de Março, pretendeis instalar

Nicéforo como bispo de Trevi?

— É.

— O homem é um grego! — protestou Daniel. — E isso que interessa?

— Uma posição tão importante tem de ser para um romano. Joana suspirou. Era verdade que os seus predecessores tinham

utilizado o episcopado como instrumento político, distribuindo bispados entre as famílias romanas, como tesouros escolhidos.

Joana discordava com esta prática porque tinha resultado numa

grande quantidade de episcopi agraphici — bispos iletrados, que tinham espalhado todo o tipo de ignorâncias e superstições. Afinal, como é que um bispo podia interpretar correctamente a palavra de Deus pai para o seu rebanho, se nem sequer era capaz de a ler?

— Uma posição tão importante — respondeu ela, calmamente —,

deve ser para a pessoa mais qualificada. Nicéforo é um homem conhecedor e piedoso. Será um óptimo bispo.

— É natural que assim penseis, uma vez que sois estrangeiro. Daniel utilizou deliberadamente o termo barbarus, e não o termo

peregrinus, mais neutro.

Os outros ficaram manifestamente incomodados. Joana fitou Daniel directamente nos olhos.

— Isto não tem nada que ver com Nicéforo — disse ela. — Estais

guiado por motivos egoístas, Daniel, pois quereis que o vosso próprio filho, Pedro, seja bispo.

— E porque não? — disse Daniel, num tom defensivo. — Pedro é

mais adequado para o lugar em virtude da família e do nascimento.

— Mas não por capacidade — disse Joana num tom seco. Daniel abriu a boca de espanto.

— Atreveis-vos... atreveis-vos... o meu filho... — O vosso filho — interrompeu-o Joana — lê tão bem o

leccionário de pernas para o ar como direito porque não sabe latim. Empenhou-se em decorar as poucas passagens da Escritura que consegue citar. O povo merece melhor. E terá Nicéforo!

Daniel levantou-se, profundamente ofendido.

— Tomai nota das minhas palavras, Santidade: ainda havereis de

ouvir falar deste assunto.

E saiu.

Joana pensou: vai ter com Arsénio, que, sem dúvida nenhuma,

arranjará maneira de provocar mais sarilhos. Daniel tinha razão numa coisa: ela ainda ia ouvir falar daquele assunto.

De repente, sentiu-se extremamente cansada. O ar na sala sem

janelas pareceu abater-se sobre ela, sentiu-se tonta e a desfalecer. Agarrou o pallium, afastando-o do pescoço.

— O senhor superista — anunciou Juvianus.

Geraldo! Joana animou-se. Eles não falavam um com o outro

desde o dia em que tinham sido salvos. Ela tinha esperado que ele aparecesse naquele dia, apesar de, ao mesmo tempo, temer o encontro dos dois. Consciente de que os outros a observavam, Joana manteve um rosto impassível.

Então, Geraldo entrou e o seu coração traiçoeiro deu um salto ao

vê-lo. A luz tremeluzente iluminou-lhe o rosto, lançando luz sobre os ângulos elegantemente desenhados do seu queixo e das maçãs do rosto. Ele correspondeu ao seu olhar, os seus olhos estabeleceram uma comunicação silenciosa e, por momentos, ficaram completamente a sós no meio de tanta gente.

Ele avançou e ajoelhou-se diante do trono.

— Levanta-te, superista — disse ela.

Será que era imaginação dela, ou a sua voz tremia? — Neste dia, ficaste coroado de glória. Toda a cidade de Roma te

é devedora.

— Agradeço-vos, Santidade.

— Hoje à noite, celebraremos a tua grande obra com um banquete.

Sentar-te-ás na minha mesa, num lugar de honra.

— Infelizmente, não poderei estar presente. Parto hoje de Roma. — Partes de Roma? — Ela foi apanhada de surpresa. — O que

queres dizer com isso?

— Agora, que a grande obra de que me havíeis encarregado está

pronta, renuncio ao meu cargo de superista. O príncipe Siconulf pediu que eu voltasse para Benevento, para retomar o comando dos seus exércitos e eu aceitei o cargo.

Joana manteve a sua postura rígida no trono, mas as suas mãos

crisparam-se sobre os seus braços.

— Não podes fazer isso — respondeu ela, bruscamente. — Eu não

o autorizarei.

Os prelados na assembleia levantaram o sobrolho. Era verdade que

era raro que alguém renunciasse a um posto de tanto prestígio, mas Geraldo era um franco livre que podia assumir os compromissos que entendesse.

— Ajudando Siconulf — respondeu Geraldo, com sensatez —,

continuarei a servir também os interesses de Roma porque os territórios de Siconulf constituem um forte baluarte cristão contra os lombardos e os sarracenos.

Joana cerrou os maxilares. Virando-se para os outros, ordenou: — Deixai-nos.

Juvianus e os outros trocaram olhares surpreendidos, depois

saíram da sala fazendo vénias.

— Foi sensato? — perguntou Geraldo, depois de eles terem saído.

— Agora, podem ficar com suspeitas.

— Eu tinha de falar contigo a sós — respondeu ela, aflita. —

Deixar Roma? O que tens em mente? Não interessa, eu não o autorizarei. Siconulf que encontre outro para comandar as suas tropas, eu preciso de ti aqui comigo.

— Oh, minha pérola. — A sua voz era uma carícia. — Abre os

olhos: não podemos, sequer, olhar um para o outro sem trair o que sentimos. Úm único olhar imprudente, uma palavra descuidada, e a tua vida pode ficar em perigo! Tenho de partir, não vês?

Joana compreendia o que ele estava a dizer, sabia, inclusivamente,

que ele tinha razão, de certa maneira. Mas, não queria saber. A ideia da sua partida, enchia-a de desgosto. Geraldo era a única pessoa que a conhecia verdadeiramente, a única em que podia confiar absolutamente.

Ela disse:

— Sem ti, eu fico completamente sozinha. Acho que não sou

capaz de o suportar.

— És mais forte do que pensas.

— Não — disse ela.

Levantou-se do trono para se aproximar dele, e cambaleou,

sentindo uma onda de tonturas.

Geraldo estava instantaneamente ao seu lado. Pegou-lhe no braço,

apoiando-a.

— Estás doente!

— Não, não. Só... muito cansada.

— Tens trabalhado demasiado. Precisas de descansar. Anda, eu

ajudo-te a chegar aos teus aposentos.

Ela agarrou-se a ele com força.

— Promete-me que não partes antes de termos oportunidade de

voltar a conversar.

— Claro que não parto. — Os seus olhos estavam cheios de

preocupação. — Não partirei antes que te sintas bem outra vez.

Joana estava deitada na sua cama, no sossego do seu quarto. Será que estou mesmo doente?, pensou ela. Se estou, tenho de

descobrir o que tenho e tratar-me depressa, antes que Enódio e os outros médicos da schola fiquem a saber.

Começou a pensar no problema, colocando questões a si própria,

como se fosse paciente de si própria.

Quando começaram os primeiros sintomas?

Agora que pensava nisso, já não se sentia bem havia algumas

semanas.

Quais são os sintomas?

Fadiga. Falta de apetite. Uma sensação de inchaço. Náuseas ao

levantar-se de manhã...

De repente, ficou aterrada.

Começou a fazer contas, tentando lembrar-se de quando tinha tido

a última menstruação. Havia dois meses, talvez três.

Tinha estado tão ocupada, que nem tinha prestado atenção. Os sintomas condiziam todos, mas, havia uma forma de ter a

certeza. Inclinou-se e pegou no vazo de noite que se encontrava no chão junto à cama.

Pouco depois, voltou a poisá-lo com as mãos a tremer. Não havia dúvidas. Estava grávida.

* * *

Anastácio tirou os seus coturnos de veludo e recostou-se

confortavelmente no divã. Belo dia, pensou ele, satisfeito consigo próprio. Sim, o dia tinha corrido muito bem. De manhã, tinha aparecido na corte imperial, impressionando Lothar e todo o seu séquito com a sua sabedoria e cultura.

O Imperador tinha-lhe perguntado a opinião acerca do De corpore

et sanguine Domini, o tratado que estava a causar tanta polémica entre os teólogos do país. Escrito por Paschasius Radbertus, abade de Corbie, o tratado avançava a teoria arrojada segundo a qual a Eucaristia continha o verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue de Cristo Salvador - não a Sua carne simbolicamente, mas a sua verdadeira carne, a sua carne histórica: aquela com que ele nasceu de Maria, sofreu na cruz e ressuscitou do túmulo.

— O que pensais, cardeal Anastácio? — tinha-lhe perguntado

Lothar. — A Hóstia sagrada é o Corpo de Cristo em mistério ou em verdade?

Anastácio foi rápido na resposta:

— Em mistério, senhor. Porque pode ser demonstrado que Cristo

tem dois corpos distintos: o primeiro, nascido de Maria, o segundo, representado simbolicamente na Eucaristia. Hoc est corpus meum, disse Jesus acerca do pão e do vinho, na Última Ceia. Isto é o meu corpo. Mas ainda estava presente aos seus discípulos em corpo, quando o disse. Portanto, é evidente que as Suas palavras tinham um sentido figurado.

O argumento era tão inteligente que, quando ele acabou de falar,

todos o aplaudiram. O imperador tinha-lhe feito um elogio, chamando-lhe outro Alcuino. Arrancando vários cabelos à sua barba, apresentou-os a Anastácio — um gesto da maior honra entre aquele povo bárbaro e estranho.

Anastácio sorriu, revivendo o prazer daquele momento. Deitou

vinho numa taça em prata, vertendo-o do jarro que se encontrava em cima da mesa, depois pegou no rolo de pergaminho com a última carta do seu pai.

Quebrou o selo em cera e desenrolou o fino vellum branco. Os

seus olhos percorreram avidamente as linhas. Deteve-se no relato do roubo dos corpos de São Marcelino e de São Pedro do cemitério onde se encontravam.

Não que o roubo de corpos de santos fosse raro, os santuários

cristãos pelo mundo inteiro reclamavam constantemente aquele tipo de relíquias sagradas para atraírem multidões de fiéis com a promessa de milagres. Os romanos, com um espírito pragmático, tinham feito fortuna com esta obsessão estrangeira com relíquias, fazendo comércio regular com elas.

Os peregrinos incontáveis que inundavam a Cidade Santa estavam

dispostos a desembolsar somas avultadas por um dedo de São Damiano, uma clavícula de Santo António ou uma pestana de Santa Sabina.

Mas, os corpos de São Marcelino e de São Pedro não tinham sido

vendidos, tinham sido roubados, retirados ignominiosamente dos seus túmulos, de noite, e contrabandeados para fora da cidade. Furta sacra — o roubo de coisas sagradas — era o nome que se dava a tais crimes.

Tinham que ser impedidos porque despojavam a cidade dos seus

maiores tesouros.

Depois deste roubo miserável — escrevia o seu pai — pedimos ao

papa João que duplicasse o número de guardas colocados nos pátios das igrejas e nos cemitérios. Mas, ele recusou. Diz que os homens são mais úteis no serviço dos vivos do que dos mortos.

Anastácio sabia que João tinha posto grande parte das milícias

papais a trabalharem na construção de escolas, hospícios e casas de acolhimento. Tinha dedicado o seu tempo e a sua atenção — e grande parte das finanças papais — a projectos seculares daqueles, enquanto as igrejas da cidade tinham sido deixadas ao abandono. A igreja do seu próprio pai não tinha recebido nem mais uma lâmpada em ouro ou um candelabro de prata, desde que João tinha tomado posse. Mas, as inúmeras catedrais, oratórios, baptistérios e capelas eram a glória de Roma. Se não fossem embelezadas e melhoradas constantemente, Roma não podia ter esperança de competir com o esplendor da sua rival oriental — Constantinopla — que, agora, tinha o descaramento de se chamar a si própria a Nova Roma.

Se — não, Anastácio corrigiu-se a si próprio — quando ele fosse

papa, as coisas seriam diferentes. Ele faria Roma regressar aos seus dias de glória. Sob o seu patronato solícito, as suas igrejas voltariam a resplandecer com riquezas fabulosas, ainda mais esplendorosas do que os melhores palácios de Bizâncio. Ele sabia que essa era a grande obra para a qual Deus o tinha posto na terra.

Retomou a leitura da carta do seu pai, mas com menos interesse,

porque a última parte se ocupava de assuntos de menor importância: a lista dos nomes daqueles que seriam ordenados nas cerimónias da Páscoa seguinte tinha acabado de ser publicada, o seu primo Cosme tinha voltado a casar, desta vez, com uma diaconisa viúva, um certo Daniel, magister militum, tinha ficado muito ofendido porque o seu filho tinha sido preterido para o episcopado, a favor de um grego.

Anastácio endireitou-se. Um grego para bispo! O seu pai parecia

considerar aquele gesto apenas como mais um exemplo da lamentável falta de romanità do papa João. Seria possível que lhe tivessem passado completamente despercebidas as possibilidades que a situação apresentava?

Esta, pensou Anastácio, cada vez mais excitado, é a oportunidade

por que eu esperava. Finalmente, a sorte tinha-lhe posto uma possibilidade nas mãos.

Levantou-se rapidamente e dirigiu-se para a sua secretária. Pegando numa pena, começou a escrever: Querido Pai: não

percais tempo ao receberdes esta carta. Mandai o magister militum Daniel vir ter comigo imediatamente.

Joana andava de um lado para o outro no quarto papal. Como é

que eu pude ser tão cega?, perguntava-se ela a si própria. Não lhe tinha ocorrido, pura e simplesmente, que podia estar grávida. Afinal, tinha mais de quarenta e um anos de idade, já tinha passado, havia muito, o tempo de dar à luz.

Mas, a mamã era ainda mais velha quando deu à luz pela última

vez.

E morreu no parto.

Nunca te entregues a um homem.

Medo, frio e irracionalidade apertaram o coração de Joana. Procurou acalmar-se. Afinal, o que tinha acontecido à mamã, não

tinha necessariamente de lhe acontecer a ela. Ela era forte e saudável, tinha grandes hipóteses de sobreviver ao parto. Mas, mesmo que sobrevivesse, o que aconteceria depois?

Na colmeia vigiada que o Patriarchium era, não havia forma de

manter o seu parto em segredo, nem de esconder a criança depois de ela ter vindo ao mundo. A sua feminilidade seria descoberta, de certeza.

Que espécie de morte seria considerada suficiente para castigar

um crime daqueles? Certamente, seria uma morte terrível. Podia ser que lhe arrancassem os olhos com ferros em brasa e que a descarnassem. Ou podia ser que a desmembrassem lentamente e depois a queimassem viva. Alguma dessas mortes hediondas seria inevitável quando a criança viesse.

Se ela viesse...

Pôs ambas as mãos na barriga, não havia qualquer sinal de

movimento do bebé que crescia dentro dela. O fio de vida ainda era muito fraco, não era preciso muito para o quebrar.

Dirigiu-se ao armário fechado onde guardava os seus

medicamentos. Tinha-os mandado vir do seu herbarium pouco depois da sua consagração, estavam mais à mão aqui e mais seguros contra roubos. As suas mãos pegaram em vários frascos e garrafas, até encontrar o que procurava. Habilidosamente, deitou uma medida de cravagem-de-centeio num copo de vinho forte. Em pequenas doses, era um medicamento que fazia bem, em doses maiores, podia provocar abortos — apesar de nem sempre actuar e ser um grande risco para a mulher ingeri-lo.

Que escolha tinha ela? Se não pusesse fim àquela gravidez, podia

enfrentar uma morte muito pior.

Levou a taça aos lábios.

As palavras de Hipócrates vieram-lhe à mente, inconscientemente:

a arte medicinal é sagrada. Um médico deve usar o seu saber para ajudar os doentes, de acordo com a sua habilidade e julgamento, mas nunca para fazer mal.

Joana afastou o pensamento resolutamente. Toda a sua vida o seu

corpo de mulher tinha sido fonte de desgosto e de dor, um impedimento para tudo quanto ela queria fazer e ser. Agora, não deixaria que ele lhe roubasse a vida.

Inclinou a taça e bebeu-a.

Nunca para fazer mal. Nunca para fazer mal.

As palavras queimavam-na, despedaçando-lhe o coração. Com um

soluço, atirou com a taça vazia para o chão. Ela rolou, fazendo uma nódoa escarlate no chão, ao verter as suas últimas gotas.

Ela deitou-se na cama e esperou que a cravagem-de-centeio

fizesse efeito. O tempo passou, mas ela não sentiu nada. Não está a resultar, pensou ela. Estava assustada e, simultaneamente, muito aliviada. Quando se sentou, deu-lhe um ataque de tremor. O seu corpo tremia com espasmos descontrolados. O coração batia-lhe, quando tomou o pulso, viu que ele batia irregularmente.

Sentiu dores. Ficou espantada com a sua intensidade, como se

fosse um ferro em brasa espetado nas suas entranhas. Abanava a cabeça de um lado para o outro, mordendo o lábio para não gritar. Não se atrevia a correr o risco de chamar a atenção da casa papal.

As horas seguintes passaram-se numa espécie de névoa, com

Joana a oscilar entre a consciência e a inconsciência. A certa altura, começou a ter alucinações, parecia-lhe que a sua mãe estava sentada ao pé dela, que lhe chamava passarinho, e que cantava para ela na Velha Língua, tal como costumava fazer, colocando as suas mãos frias sobre a sua testa a arder.

Acordou antes de amanhecer, fraca e a tremer. Ficou deitada,

quieta, durante muito tempo. Depois, começou a examinar-se a si própria, lentamente. O seu pulso era regular, a batida do seu coração mais forte, a sua pele tinha boa cor. Não havia hemorragias, nem sinais de qualquer dano irreversível.

Tinha sobrevivido à tribulação.

Mas, a criança dentro dela, também.

Só podia contar com uma pessoa. Quando disse a Geraldo o estado

em que estava, ele começou por reagir com uma descrença chocada.

— Meu Deus!... é possível?

— Claro — disse Joana, secamente.

Ele parou por um momento, com o olhar fixo e pensativo. — Por isso é que tens estado doente?

— Sim.

Ela não mencionou a tentativa de aborto, era provável que nem

mesmo Geraldo compreendesse.

Ele tomou-a nos braços e abraçou-a com força, encostando-lhe a

cabeça ao seu ombro. Ficaram muito tempo em silêncio, partilhando silenciosamente o que lhes ia nos corações.

Ele disse calmamente:

— Lembras-te do que eu te disse no dia das cheias? — Dissemos muitas coisas um ao outro — respondeu ela, mas

sentiu que o pulso se tornava mais rápido porque sabia ao que ele se referia.

— Eu disse que tu eras a minha verdadeira esposa neste mundo e

eu o teu verdadeiro esposo.

Pegou-lhe no queixo com a mão, levantando os olhos dela para os

seus.

— Compreendo-te melhor do que tu pensas, Joana. Sei como o teu

coração está dividido. Mas, agora, o destino decidiu por nós. Vamos embora daqui e ficaremos juntos como estamos destinados a ficar.

Ela sabia que ele tinha razão. Não havia mais nada a fazer. Todos os caminhos à sua frente se reduziam, agora, a um único. Sentia-se triste e ansiosa e, ao mesmo tempo, estranhamente

excitada.

— Podemos partir amanhã — disse Geraldo. — Despede os teus

camareiros de noite. Quando todos estiverem a dormir, não será difícil fugires pela porta lateral. Eu estarei à tua espera com roupas de mulher, para mudares mal sairmos dos muros da cidade.

— Amanhã!

Ela tinha aceitado a ideia de partir, mas não tinha pensado que

fosse tão depressa.

— Mas... eles virão à minha procura.

— Quando vierem, já nós estamos longe. E irão à procura de dois

homens, não de um simples peregrino e da sua mulher.

Era um plano audacioso, mas podia resultar. Mesmo assim, ela

resistia-lhe:

— Não posso partir agora. Ainda tenho tanta coisa para acabar,

tanta coisa para fazer.

— Eu sei, coração — disse ele, ternamente. — Mas, não há outra

hipótese, certamente que o compreendes.

— Espera pela Páscoa — propôs ela. — Depois, eu vou contigo. — Pela Páscoa! Mas, é quase daqui a um mês! E se alguém se

aperceber do teu estado antes disso?

— Só estou de quatro meses. Por baixo de vestes tão longas, posso

esconder a gravidez durante mais um mês.

Geraldo abanou a cabeça veementemente:

— Não posso permitir que corras esse risco. Tens de sair daqui

agora, enquanto ainda é tempo.

— Não — disse ela com igual convicção. — Não deixarei o meu

povo sem o seu papa no dia mais santo do ano.

Ela está assustada e perturbada, pensou Geraldo, por isso não está

a pensar com clareza. De momento, concordaria com ela, uma vez que não tinha muita escolha, mas, calmamente, iria preparar as coisas para uma partida rápida. Se houvesse qualquer perigo, ele levá-la-ia para um lugar seguro - mesmo que fosse à força.

Na nox magna, a Grande Noite da celebração da Páscoa, milhares

de pessoas estavam reunidas dentro e à volta da Catedral de Latrão para acompanharem a celebração da vigília pascal, do baptismo e da missa. A longa liturgia começava na noite de sábado e continuava até ao romper da manhã de Páscoa.

Fora da santa catedral, Joana acendeu o círio pascal, depois,

entregou-o a Desidério, o arquidiácono, que o transportou cerimoniosamente para a igreja às escuras. Joana e o resto do clero seguiram-no, cantando o lumen Christi, hino à luz de Cristo. A procissão parou três vezes a caminho da nave central, enquanto Desidério acendia as velas dos fiéis no círio pascal. Quando Joana chegou ao altar, a grande nave brilhava à luz de milhares de pequenas velas, cuja luz tremeluzente se reflectia, brilhando, no mármore polido das paredes e das colunas, representando a Luz trazida ao mundo por Cristo.

— Exultet jam angelica turba caelorum. Exultent divina mysteria! Desidério deu início ao Exultet, jubilosamente. O canto

venerando, com a sua velha melodia, lindíssima e impressionante, soou aos ouvidos de Joana de forma especial.

Nunca mais voltarei a estar diante deste altar e nunca mais ouvirei

esta doce melodia, pensou ela. A ideia provocou nela um grande sentimento de perda. Aqui, durante a celebração da redenção e da esperança, ela fez a experiência de uma fé verdadeira em Deus.

O vere beata nox, quae expoliavit Aegyptios. ditavit Hebraeos!

Nox, in qua terrenis caelestia junguntur...

Ao sair da catedral, no fim da missa, a Joana viu um homem com

as roupas rasgadas e enlameadas à espera, na escadaria.

Tomando-o por um pedinte, fez sinal a Vítor, o sacellarius, para

lhe dar uma esmola.

O homem recusou as moedas oferecidas.

— Não sou um pedinte, Santidade, sou um mensageiro, trago

notícias urgentes.

— Então, contai-as.

— O imperador Lothar e o seu exército estão em Paterno. À

velocidade a que viajam, estarão em Roma daqui a dois dias.

Ouviu-se um murmúrio de alarme proveniente dos prelados que se

encontravam perto.

— O cardeal-presbítero Anastácio vem com eles — acrescentou o

mensageiro.

Anastácio! A sua presença entre o séquito imperial era muito mau

sinal.

— Porque lhe chamais cardeal-presbítero? — perguntou Joana,

em tom de censura. — Anastácio já não tem direito a esse título, uma vez que está excomungado.

— Peço perdão, Santidade, mas foi assim que ouvi o Imperador

dirigir-se-lhe.

Esta era a pior notícia. O desrespeito do imperador pela sentença

de excomunhão de Leão era um desafio directo e inequívoco à autoridade papal. Em tal estado de espírito, Lothar era capaz de tudo.

Nessa noite, ao discutirem aqueles acontecimentos, Geraldo

voltou a pressioná-la para manter a sua promessa.

— Eu esperei até à Páscoa, como tu querias. Agora, tens de partir,

antes que Lothar chegue.

Joana abanou a cabeça.

— Se o trono papal ficar vago quando Lothar chegar, ele utilizará

o seu poder para conseguir que Anastácio seja eleito papa.

A Geraldo não agradava mais a ideia de Anastácio se tornar papa

do que a ela, mas a sua segurança preocupava-o ainda mais. Disse:

— Haverá sempre um motivo para nos impedir de partir, Joana.

Não podemos adiar para sempre.

— Não vou trair a confiança do povo, deixando-o nas suas mãos

— disse ela, teimosamente.

Geraldo teve de se controlar para não pegar nela, pura e

simplesmente, levando-a dali, da teia de perigos que se estava a tecer à volta dela. Como se adivinhasse os seus pensamentos, a Joana apressou-se a falar.

— É uma questão de dias — disse ela, num tom conciliador. Seja

qual for a intenção da vinda de Lothar, é pouco provável que fique mais tempo do que o necessário para atingir os seus fins. Mal ele se for embora, eu partirei contigo.

Ele pensou nisso por momentos.

— E não levantarás mais objecções à partida?

— Não — prometeu Joana.

No dia seguinte, Joana esperava na escadaria de São Pedro,

enquanto Geraldo foi esperar Lothar para o cumprimentar. Havia sentinelas postadas ao longo de todo o Muro Leonino, vigiando.

Pouco depois, ouviu-se o grito de anúncio, vindo do lado do muro: — O Imperador chegou!

Joana mandou abrir a porta de San Peregrinus. Lothar vinha à frente. Anastácio cavalgava ao seu lado, ostentando

o pallium de cardeal. O seu rosto de patrício distinto registava um ar orgulhoso.

Joana agiu como se ignorasse a sua presença. Esperou nos degraus

que o Imperador desmontasse e se aproximasse dela.

— Majestade, sêde bem-vindo à Cidade Santa de Roma. Estendeu-lhe a mão direita, na qual tinha o anel papal. Lothar não se ajoelhou, mas inclinou-se para beijar o símbolo da

sua autoridade espiritual.

Até aqui, está tudo bem, pensou ela.

A primeira fila dos homens de Lothar abriu-se em duas e ela viu

Geraldo. O seu rosto estava irado e tinha os pulsos atados com uma corda.

— O que significa isto? — perguntou Joana. — Porque está o

superista manietado?

Lothar respondeu:

— Foi preso sob acusação de traição.

— Traição? O superista é meu fiel servidor. Não há ninguém em

quem eu confie mais.

Anastácio falou pela primeira vez.

— A traição não é contra o vosso trono, Santidade, mas sim contra

o do imperador. Geraldo é acusado de conspirar para entregar Roma nas mãos dos gregos.

— Que disparate! Quem fez uma acusação tão infundada? Daniel saiu detrás de Anastácio e fixou Joana com um olhar de

triunfo maligno.

— Eu — disse ele.

Mais tarde, na privacidade dos seus aposentos, Joana concentrou-

se no problema, tentando pensar numa forma de reagir. Reconhecia que era um complô diabolicamente bem pensado. Como Pontífice, ela não podia ser posta em tribunal.

Mas, Geraldo podia — e se fosse considerado culpado, ela

também estaria implicada. O plano tinha a marca evidente de Anastácio.

Bem, mas ele não vai conseguir o que pretende. Espetou o queixo,

em tom de desafio. Anastácio podia fazer o que quisesse. Não conseguiria ganhar. Ela ainda era Papa, tinha poder e recursos próprios.

 

Capítulo 29

O Grande Triclinium era uma parte relativamente recente do

Patriarchium, mas já tinha um grande significado histórico.

A pintura das suas paredes tinha acabado de secar quando o avô de

Lothar — Carlos Magno — e o papa Leão III se encontraram ali com os seus sequazes para estabelecerem o acordo épico que faria de Carlos, rei da França, imperador do Sacro Romano Império, mudando a face do mundo para sempre.

Os cinquenta e cinco anos que tinham decorrido desde então não

tinham diminuído em nada o esplendor do salão. As suas três naves estavam revestidas de mármore branco e adornadas com colunas requintadas em porfíria, decoradas com uma complexidade maravilhosa. Por cima do revestimento em mármore, as paredes estavam cobertas com murais coloridos, representando a vida do apóstolo Pedro, cada um deles desenhado com uma arte extraordinária. Mas, estas maravilhas eram ofuscadas pelo grande mosaico colocado sobre o arco da nave central. Nele, estava representada a coroação magnificente de São Pedro, rodeado por uma auréola de santo. À sua direita, ajoelhava-se o papa Leão e à sua esquerda, o imperador Carlos, cada um deles com a cabeça rodeada por uma auréola quadrada, o sinal dos vivos — ambos tinham vivido no tempo em que o triclinium tinha sido construído.

Ao cimo do salão, encontravam-se Joana e Lothar, sentados em

dois grandes tronos cobertos de jóias e colocados sedentes pariter, o que queria dizer que ocupavam lugares de igual cerimónia, os dois tronos estavam colocados cuidadosamente lado a lado, nivelados um pelo outro, para não dar mais importância a um do que a outro. Os arcebispos, os cardeais-presbíteros e os abades de Roma estavam sentados de frente para eles em cadeiras de espaldar de estilo bizantino, estofadas confortavelmente com veludo verde. Os outros sacerdotes, os optimates, e o resto dos chefes dos francos e dos romanos estavam atrás, enchendo completamente o salão.

Quando todos já tinham tomado os seus lugares, os homens de

Lothar trouxeram Geraldo, com as mãos ainda atadas atrás das costas. Joana cerrou os lábios, quando viu as nódoas negras que ele tinha no rosto e no pescoço, era óbvio que lhe tinham batido.

Lothar dirigiu-se a Daniel:

— Aproximai-vos, Magister Militum, e pronunciai a vossa

acusação de forma a que todos a oiçam.

Daniel disse:

— Eu ouvi o superista dizer ao papa João que Roma devia fazer

uma aliança com os gregos para libertar a cidade do domínio franco.

— Mentiroso! — rugiu Geraldo e foi recompensado,

imediatamente, com uma grande bofetada de um dos guardas.

— Afastai-vos! — disse Joana ao guarda, num tom ríspido. E disse a Geraldo:

— Negais estas acusações, superista?

— Nego. São falsas e mentiras maldosas.

Joana respirou fundo. Tinha de agir agora ou nunca. Falando alto,

para que todos ouvissem, disse:

— Confirmo o testemunho do superista.

Ouviu-se um murmúrio chocado entre a assembleia dos prelados.

Respondendo assim, o papa João tinha passado de juiz para acusado, colocando-se a si próprio em tribunal, a par de Geraldo.

Pascal, o primicerius, interferiu com sobriedade: — Santidade, a acusação não deve ser apoiada ou negada por vós.

Lembrai-vos das palavras de Carlos Magno: Judicare non audemos. Não estais em julgamento, nem podeis ser julgado por qualquer tribunal terreno.

— Eu sei, Pascal. Mas, estou preparado para responder a estas

acusações de livre vontade para libertar as mentes dos homens de qualquer suspeita injusta.

Acenou a Florentinus, o vestiarius. Tal como combinado, ele

avançou imediatamente com um grande livro dos evangelhos, com uma encadernação magnífica, contendo a palavra sagrada dos apóstolos João, Lucas, Marcos e Mateus. Joana pegou no livro com reverência.

Declarou com uma voz sonora.

— Juro diante de Deus e de São Pedro, sobre estes evangelhos

sagrados, onde se revela a Palavra de Deus, que esta conversa nunca ocorreu. Se não estiver a dizer a verdade, que Deus me atinja aqui mesmo.

O gesto dramático parecia ter resultado. Durante o silêncio

absoluto que se seguiu, ninguém se mexeu, nem ninguém disse palavra.

Depois, Anastácio avançou, tomando posição ao lado de Daniel. — Ofereço-me como sacramentale por este homem — disse ele. O coração de Joana apertou-se. Anastácio tinha respondido com

um contra-argumento perfeito. Tinha invocado a lei da conjuratio, de acordo com a qual a culpa ou a inocência se atestava de acordo com o lado da disputa que conseguia reunir maior número de sacramentales ou garantes do juramento.

Apressando-se, para dominar a situação, Arsénio levantou-se do

seu lugar e juntou-se ao seu filho. Um a um, outros encaminharam-se lentamente para o seu lado. Jordanes, o secundicerius, que se tinha oposto à Joana na questão da escola para as mulheres, encontrava-se entre eles, assim como Vítor, o sacellarius.

Joana lembrou-se pesarosamente das repetidas vezes em que

Geraldo a tinha avisado para ter calma e para ser mais diplomática com os seus opositores. Na sua ânsia de avançar, não tinha prestado suficiente atenção ao seu conselho.

Agora, arrependia-se.

— Servirei como sacramentale para o superista. — Ouviu-se uma

voz distinta vinda da assembleia.

Joana e os outros viraram-se e viram Radoin, segundo-

comandante da guarda papal, abrindo caminho por entre a multidão. Colocou-se ostensivamente ao lado de Geraldo. A sua atitude influenciou outros, em breve, Juvianus, o decano dos intendentes, avançou, seguido pelos cardeais-presbíteros José e Teodoro e por seis bispos ruburbicarii, assim como por várias dúzias de membros do clero menor que, estando mais perto do povo, podiam apreciar melhor o que Joana tinha feito por eles. O resto da assembleia manteve-se distante, sem querer comprometer-se.

Quando todos aqueles que desejavam tinham avançado, começou

a contagem: cinquenta e três homens do lado de Geraldo e setenta e quatro do lado de Daniel.

Lothar pigarreou:

— O juízo de Deus manifestou-se. Avançai, superista, para

receberdes a vossa sentença.

Os guardas avançaram na direcção de Geraldo, mas ele esquivou-

se-lhes.

— A acusação é falsa, não importa quantos tenhais escolhido para

cometer perjúrio, apoiando-a. Reclamo o direito a uma prova física.

Joana conteve a respiração. Aqui, no Sul do Império, a prova

física era pelo fogo, não pela água. E o homem acusado tinha de caminhar descalço sobre uma fila de ferros em brasa com vinte pés de comprimento. Se conseguisse passar, era considerado inocente. Mas, eram poucos os que conseguiam sobreviver a esta prova.

Do outro lado da sala, os olhos de Geraldo lançaram uma

mensagem urgente a Joana: não tentes impedir-me.

Ele pretendia sacrificar-se por ela. Se conseguisse passar por cima

das brasas, a sua inocência — e a dela — ficariam comprovadas. Mas, era provável que ele morresse na prova.

Tal como Hrotrud, pensou Joana. A memória da parteira da aldeia

morta de forma tão cruel deu-lhe uma ideia súbita.

Disse:

— Antes de avançardes, há algumas perguntas que eu gostaria de

colocar ao magister militum.

— Perguntas? — Lothar franziu o sobrolho.

Anastácio protestou:

— Isto é altamente irregular. Se o superista quer passar pela prova,

está no seu direito. Ou será que Sua Santidade duvida da eficácia da justiça divina?

Joana respondeu calmamente:

— Não, de maneira nenhuma. Nem escarneço das obras da razão

dada por Deus. Que mal pode existir em fazer algumas perguntas?

Incapaz de pensar numa resposta razoável, Anastácio encolheu os

ombros e ficou calado. Mas, no seu rosto podia ver-se que estava vexado.

As sobrancelhas de Joana franziram-se ao tentar lembrar-se das

seis perguntas probatórias de Cícero.

Quis.

— Quem — perguntou ela a Daniel — para além de vós,

testemunhou esta alegada conversa?

— Ninguém — respondeu ele. — Mas o testemunho destes

sacramentales atesta as minhas palavras.

Joana avançou para a pergunta seguinte.

Quomodo.

— Como conseguistes ouvir uma conversa tão confidencial? Daniel hesitou um pouco antes de responder:

— Ia a passar pelo triclinium, a caminho do dormitório. Ao ver a

porta aberta, aproximei-me para a fechar. Foi então que ouvi o superista a falar.

Ubi.

— Onde estava o superista nesse momento?

— Diante do trono.

— Onde está agora?

— Sim.

Quando.

— Quando foi isso?

Daniel puxou a túnica no pescoço, nervosamente. As perguntas

estavam a ser feitas com tanta rapidez, que ele não tinha tempo para pensar.

— Aah... na Festa de Santa Ágata.

Quid.

— O que haveis ouvido, ao certo?

— Já o disse ao tribunal.

— Foram as palavras exactas do superista ou um relato

aproximado da conversa?

Daniel sorriu. O papa João pensava que ele era estúpido ao ponto

de cair numa armadilha tão evidente? Disse com firmeza:

— Relatei as palavras do superista, tal como ele as pronunciou. Joana inclinou-se para a frente.

— Vamos a ver se compreendi bem, Daniel. Segundo o vosso

testemunho, na Festa de Santa Ágata, estáveis atrás da porta do triclinium e ouvistes cada palavra de uma conversa em que o superista me disse que Roma devia fazer uma aliança com os gregos.

— Correcto — disse Daniel.

Joana virou-se para Geraldo.

— Onde estáveis na Festa de Santa Ágata, superista? —

perguntou-lhe ela.

Geraldo respondeu:

— Estava no Tivoli, a acabar a obra do aqueduto de Marcião. — Alguém pode testemunhá-lo?

— Trabalharam lado a lado comigo dezenas de homens durante

todo o dia. Eles podem testemunhar todos onde eu estava nesse dia.

— Como explicais isto, Magister Militum? — perguntou Joana a

Daniel. — Certamente, um homem não pode estar em dois lados ao mesmo tempo?

Daniel, agora, tinha empalidecido a olhos vistos. — Ah... ah... — gaguejava ele, procurando desesperadamente uma

resposta.

— Será que vos haveis enganado acerca da data, Magister

Militum? — interrompeu Anastácio. — Depois destes meses todos, um detalhe tão insignificante pode ser difícil de recordar.

Daniel aproveitou a oportunidade.

— Sim, sim. Agora que me lembro, foi antes disso — na Festa de

Santo Ambrósio, não de Santa Ágata. Um erro involuntário.

— Onde existe um erro, podem existir mais — respondeu Joana.

— Regressemos ao vosso testemunho. Dizeis que haveis ouvido todas as palavras que foram pronunciadas enquanto estáveis atrás da porta?

— Sim — disse Daniel, respondendo lentamente, já desconfiado. — Tendes ouvidos apurados, Magister Militum. Por favor,

demonstrai essa acuidade extraordinária repetindo esse feito.

— Como? — Daniel estava completamente perdido. — Ide para trás da porta, como haveis feito. O superista dirá

algumas palavras. Quando voltardes, contar-nos-eis o que ele disse.

— Que ridicularia é esta? — objectou Anastácio num tom

acalorado.

Lothar olhou para Joana em tom de reprovação: — Vamos, Santidade, o recurso a truques subestima a gravidade

deste processo.

— Majestade — respondeu Joana — o que eu tenho em mente não

é um truque, mas sim um teste. Se Daniel está a dizer a verdade, será capaz de ouvir o superista agora como o ouviu então.

— Senhor, eu protesto! — disse Anastácio. — Uma coisa destas é

contrária ao direito habitual.

Lothar considerou o assunto. Anastácio tinha razão, o recurso a

provas para fundamentar ou refutar uma acusação era uma ideia nova e estranha. Por outro lado, Lothar não tinha motivo para pensar que Daniel estava a mentir. Ele passaria, certamente, no estranho teste do papa João — e isso daria ainda maior crédito ao seu testemunho. Dependiam demasiadas coisas do resultado daquele julgamento para que a sua honestidade viesse a ser posta em causa posteriormente.

Lothar levantou a mão imperiosamente:

— Que se proceda ao teste.

Daniel atravessou o salão, contrariado, e pôs-se atrás da porta. Joana colocou um dedo sobre os lábios, ordenando a Geraldo que

ele se mantivesse em silêncio.

— Ratio in lege summa justitia est — disse ela em voz alta.

— A razão é a suprema justiça na lei.

Acenou ao guarda à porta:

— Trazei Daniel de volta.

— Então — perguntou-lhe ela, quando ele voltou a colocar-se

diante dela. — O que ouvistes?

Daniel arriscou uma resposta verosímil:

— O superista repetiu o seu protesto de inocência. Aqueles que tinham avançado para testemunhar a seu favor

gritaram, chocados. Anastácio virou a cara, desapontado. O semblante sempre carregado de Lothar, ficou ainda mais carregado.

Joana disse:

— Não foi isso que foi dito. E não foi o superista que falou, fui eu. Encurralado, Daniel explodiu em ira:

— Que diferença faz eu ter ouvido a conversa ou não? As vossas

atitudes demonstraram as vossas verdadeiras simpatias! Não haveis ordenado bispo o grego Nicéforo?

— Ah! — disse Joana. — Isso leva-nos à última pergunta: Cur. Porquê? Porque relatastes ao imperador uma conversa que era

mentira? Não estáveis motivado pela verdade, Daniel, mas sim pela inveja — porque o vosso próprio filho foi preterido na posição atribuída a Nicéforo!

— Que vergonha! — gritou uma voz vinda da multidão, à qual se

associaram rapidamente outras. — Traidor! Mentiroso! Tratante!

Os sacramentales de Daniel também se envolveram na torrente de

insultos, ansiosos por se dissociarem dele, agora.

Joana levantou a mão, fazendo silenciar a multidão. Eles

esperavam que ela pronunciasse a sua sentença contra Daniel.

Para um crime tão grave, o castigo devia ser muito severo:

primeiro, a língua que tinha pronunciado uma mentira tão grande devia ser cortada, depois, Daniel seria, certamente, arrastado e esquartejado.

Joana não estava inclinada a mandar executar uma sentença tão

terrível. Tinha conseguido o que queria, ilibar Geraldo.

Não havia necessidade de tirar a vida a Daniel, ele era um

homenzinho desagradável, desprezível e ambicioso, mas não era pior nem melhor do que outros que ela tinha conhecido. E Joana tinha a certeza que, nesta circunstância, ele tinha sido pouco mais do que um instrumento nas mãos de Anastácio.

— Magister militum Daniel — disse ela, solenemente. — A partir

deste momento, ficareis privado do vosso título e de todos os vossos bens e privilégios. Deixareis Roma hoje mesmo e ficareis para sempre banido da Cidade Santa e dos seus santuários sagrados.

A multidão ficou calada perante esta manifestação espantosa de

caritas. Eustácio, o arcipreste, aproveitou o momento:

— Louvado seja Deus e São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, graças

ao qual a verdade se manifestou! E viva o nosso Senhor e Supremo Pontífice, o papa João!

— Viva! — gritaram os outros. O som ecoou nas paredes da sala,

fazendo tremer as lâmpadas nos seus vasos em prata.

— O que esperavas?

Arsénio andava pelo quarto, agitadamente, diante do seu filho, que

estava sentado num dos divãs.

— O papa João pode ser ingénuo, mas não é parvo. Tu

subestimaste-o.

— É verdade — reconheceu Anastácio. — Mas, não importa. Eu

estou outra vez em Roma — com o apoio total do imperador e das suas tropas.

Arsénio parou.

— O que queres dizer com isso? — perguntou ele, num tom

severo.

— Quero dizer, Pai, que, agora, estou em posição de tomar aquilo

que não ganhei por eleição.

Arsénio ficou a olhar para ele.

— Tomar o trono pela força das armas? Agora? — Porque não?

— Estiveste longe tempo de mais, filho. Não sabes como as coisas

estão por aqui. É verdade que o papa João fez inimigos, mas há muitos que o apoiam.

— Então, o que sugeris?

— Tem paciência. Volta para a terra dos francos, conforma-te e

espera.

— Espero o quê?

— Que o vento mude.

— Quando irá isso acontecer? Já esperei tempo de mais para

reclamar aquilo que me pertence por direito!

— É perigoso avançar de forma demasiado precipitada. Lembra-te

do que aconteceu a João, o diácono.

João, o diácono, tinha sido o candidato rival na eleição que tinha

colocado Sérgio no trono papal. Depois da eleição, João, desapontado, tinha entrado no Patriarchium com um grupo de apoiantes, tomando o trono pela força. Mas, os príncipes da cidade uniram-se contra ele, o Patriarchium tinha sido tomado em poucas horas e João foi deposto. No dia seguinte, Sérgio foi ordenado Papa solenemente — e a cabeça cortada de João ficou no alto de um pilar no pátio do Laterano.

— Isso não me vai acontecer, Pai — disse Anastácio, cheio de

confiança. — Pensei em tudo. Deus sabe que tive tempo para pensar, enterrado durante tantos anos naquele pântano estrangeiro.

Arsénio sentiu o ressentimento do seu filho.

— O que tens em mente, concretamente?

— Quarta-feira é a Festa da Rogação. A missa votiva é em São

Pedro. O papa João encabeçará a procissão até à basílica.

Continuar: parte 3 de 3