A Papisa Joana

Donna Woolfolk Cross · Capítulo 5 de 9 · parte 3/3

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A Papisa Joana

Capítulo 10 · Ia haver uma feira em São Dinis!…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

tapeçarias tinham sido arrancadas das paredes, as imagens estavam quebradas no chão. Não havia sinais dos normandos.

Havia corpos por todo o lado, amontoados de forma caótica. A

alguns passos dela, no cimo das escadas que conduziam ao altar, jazia Fulgêncio, junto à grande cruz em madeira. Ela estava partida e cheia de sangue. Junto dele, jaziam os corpos de dois normandos com os crânios esmagados dentro dos seus elmos. Joana moveu-se, saindo de dentro do oratório.

No canto oposto, mexeu-se qualquer coisa. Joana voltou a fugir da

luz.

Um pedaço de roupa torceu-se, libertando-se da pilha de corpos. Tinha sobrevivido alguém!

Uma jovem levantou-se, de costas para Joana. Tremendo,

começou a cambalear em direcção à porta.

O seu vestido dourado estava rasgado e ensanguentado e o seu

cabelo solto caía-lha sobre os ombros em caracóis arruivados.

— Gisla!

Joana chamou-a e ela virou-se, cambaleando em direcção ao

oratório.

Ouviu-se um súbito explodir de gargalhadas fora da catedral. Gisla ouviu e virou-se para fugir, mas era tarde de mais. Um grupo

de normandos entrou pela porta. Caíram sobre Gisla com um grito triunfante, levantando-a no ar, acima das suas cabeças.

Levaram-na para ao pé do altar e prenderam-na pelos pulsos e os

tornozelos. Ela torcia-se violentamente, tentando libertar-se. O homem mais alto levantou-lhe a túnica, cobrindo-lhe a cara e caiu em cima dela. Gisla gritou. O homem agarrou os seus seios com as mãos. Os outros riam-se e gritavam, encorajando-o, enquanto ele a violava. Joana tapou a boca com a mão para não gritar.

O normando levantou-se e deu o lugar a outro. Gisla estava imóvel

no chão. Um dos homens pegou-lhe pelos cabelos e torceu-os, para a obrigar a reagir.

Um terceiro apossou-se dela e um quarto; depois, abandonaram-

na, enquanto colocavam vários sacos daquilo que tinham pilhado junto à porta.

Ouviu-se o tilintar do metal quando os moveram; os sacos deviam

estar cheios de tesouros pilhados em várias catedrais.

Tinha sido por causa disso que tinham voltado atrás. Antes de partirem, um dos homens voltou à procura de Gisla,

puxou-a, ainda imóvel e sem oferecer resistência, e colocou-a ao ombro, como um saco de cereais.

Saíram pela porta grande.

Escondida dentro do oratório, Joana ouvia apenas o silêncio que

ressoava na catedral.

A luz que entrava pela fisga do oratório projectava grandes

sombras. Há horas que não se ouvia nada. Joana mexeu-se e arrastou-se pela passagem estreita.

O altar-mor ainda estava de pé, apesar de ter sido despojado de

todos os seus adornos a ouro. Joana debruçou-se sobre ele, olhando à sua volta. A sua túnica nupcial estava manchada de sangue — seria dela? Não sabia dizer. A face latejava-lhe de dor. A custo, começou a vaguear entre os cadáveres amontoados, à procura.

Deparou com o ferreiro e o seu filho numa pilha de cadáveres

perto da porta. Estavam abraçados, como se se tivessem tentado proteger um ao outro. Morto, o rapaz parecia mais baixo e mais velho. Umas horas antes, estava ao seu lado na catedral, alto, robusto e cheio de vigor juvenil. Agora, já não há casamento, pensou Joana. Na véspera, aquele pensamento tê-la-ia enchido de um alívio e uma alegria profundas, agora, só sentia um enorme vazio. Deixou-o jazendo ao lado do seu pai e continuou à procura.

Encontrou João a um canto, com a mão ainda agarrando uma

espada normanda. A sua nuca tinha sido esmagada com o golpe de uma espada, mas, a violência da sua morte não tinha deixado qualquer marca no seu rosto. Os seus olhos azuis estavam límpidos e abertos, a sua boca um pouco entreaberta, naquilo que parecia ser um sorriso.

Tinha morrido como um soldado.

Ela correu, aos tropeções, na direcção da porta e puxou-a, para a

abrir. O painel caiu porque os normandos tinham partido os gonzos com os seus machados. Saiu e respirou o ar fundo e doce em grandes golfadas, libertando-se do fedor da morte. Estava tudo deserto. O fumo subia em rolos lentos por cima dos telhados que, ainda naquela manhã, constituíam um burgo em torno da catedral.

Dorstadt estava em ruínas.

Não havia vivalma. Ninguém tinha sobrevivido. Estavam todos

reunidos na catedral para a missa.

Ela olhou para ocidente. Por cima das árvores que lhe ofuscavam a

visão, subia uma grossa coluna de fumo, escurecendo o céu.

Villaris.

Tinham-na queimado.

Ela sentou-se no chão e tapou a cara com as mãos para aliviar a

sua ferida.

Geraldo.

Ela precisava que ele falasse com ela, que a consolasse, que

fizesse com que o mundo voltasse a ser reconhecível. Olhando para o horizonte com os olhos semicerrados, tinha uma vaga esperança de que ele aparecesse, que viesse ao seu encontro montado no Pistis, com o cabelo vermelho adejando ao vento como um estandarte.

Tenho de esperar por ele. Se ele volta e não me encontra, pensa

que eu fui levada pelos normandos, como a pobre Gisla.

Mas, eu não posso ficar aqui. Olhou ao seu redor, receosa,

observando a paisagem destruída. Não havia sinais dos normandos. Tinham partido? Ou será que iriam regressar, à procura de mais despojos?

E se eles me encontram? Ela tinha visto a compaixão que uma

mulher indefesa podia esperar deles.

Onde havia de se esconder? Dirigiu-se para as árvores que

assinalavam o início da floresta que circundava a cidade, primeiro, lentamente, depois, a correr. Começou a soluçar; a cada passo, esperava que aparecesse uma mão a agarrá-la pelas costas, virando-a, forçando-a a enfrentar as máscaras hediondas dos normandos. Quando alcançou a segurança das árvores, atirou-se para o chão.

Passado um grande bocado, obrigou-se a levantar-se. Era noite. A

floresta em torno dela era escura e ameaçadora. Ouviu um restolhar de folhas e encolheu-se, cheia de medo.

Os normandos podiam andar por perto, acampados naquelas

florestas.

Tinha de fugir de Dorstadt e arranjar maneira de avisar Geraldo do

local para onde tinha ido.

Mamã. Tinha saudades da mãe, mas não podia ir para casa. O pai

nunca lhe tinha perdoado. Se ela voltasse agora, com a notícia da morte do único filho varão que lhe restava, ele iria vingar-se nela, era certo.

Se eu não fosse uma rapariga. Se eu...

Lembrar-se-ia daquele momento para o resto da sua vida,

perguntando-se sempre qual teria sido a força, boa ou má, que tinha guiado os seus pensamentos.

Mas, agora, não tinha tempo para pensar. Era a sua única

oportunidade. Talvez não voltasse a haver outra.

O Sol vermelho brilhava no horizonte. Ela tinha de agir

rapidamente.

Encontrou o João deitado, tal como o tinha deixado, estirado no

interior escuro da catedral. O seu corpo estava mole e não ofereceu resistência, quando ela o virou de lado. Ainda não tinha chegado à rigidez da morte.

— Perdoa-me — murmurou ela, ao despir João do seu manto. Quando terminou, tapou-o com o manto que tinha despido. Fechou-lhe os olhos docemente e colocou-o numa posição o mais

decente que lhe foi possível. Levantou-se, esticando os braços, adaptando-se ao peso e à sensação causada pelas suas novas vestes. Não eram assim tão diferentes das suas, excepto nas mangas, que eram apertadas nos pulsos. Apalpou a faca de cabo de osso que tinha tirado do cinto do João.

A faca do pai. Era velha, com o cabo em osso escurecido e gasto,

mas a lâmina era afiada.

Dirigiu-se ao altar. Tirando a touca, colocou o cabelo sobre o altar.

Ele espalhou-se por cima da pedra macia, quase branco à luz pálida.

Levantou a faca.

Lenta e deliberadamente, começou a cortar.

Na penumbra, um jovem saiu pela porta da catedral em ruínas,

perscrutando a paisagem com os seus olhos cinzento-esverdeados. A Lua levantava-se num céu estrelado.

Por trás dos edifícios destruídos, brilhava ao luar uma estrada para

ocidente, emergindo da escuridão.

A figura esgueirou-se furtivamente da sombra da catedral. Ninguém tinha sobrevivido para ver quando Joana se apressou

pela estrada, em direcção ao grande mosteiro de Fulda.

 

Capítulo 12

A sala estava apinhada e barulhenta, cheia de gente que tinha

vindo dos arredores da pequena cidade da Westphalia para assistir ao processo de mallus. Acotovelavam-se, arrastando com os pés a palha seca que tinha sido colocada sobre o chão em terra batida para absorver os restos de cerveja, escarros e excrementos de animais que se encontravam por baixo. O cheiro a gente invadia o ar quente e abafado. Mas, ninguém reparava porque estes cheiros eram habituais na casa dos francos. Além disso, as atenções da multidão estavam concentradas noutra coisa: no conde frígio ruivo que tinha sido enviado para julgar e conceder justiça em nome do imperador.

Geraldo virou-se para Frambert, um dos sete scabini encarregados

de o assistirem no seu trabalho.

— Quantos faltam ainda?

O mallus tinha-se reunido ao romper da aurora; a tarde já ia a

meio e eles tinham procedido ao seu trabalho durante mais de oito horas. Os seus homens apoiavam-se sobre as suas espadas, cansados, por trás da mesa à qual Geraldo estava sentado. Ele tinha trazido vinte dos seus melhores homens para prevenir.

Depois da morte do imperador Carlos, o Império tinha caído no

caos; a posição dos missi imperiais era cada vez mais precária. Por vezes, eram confrontados com o desafio descarado dos senhores ricos e poderosos das localidades, homens que não estavam habituados a ver a sua autoridade posta em causa. A lei não valia nada se não pudesse ser cumprida; por isso é que Geraldo tinha levado tantos homens, apesar de isto ter significado deixar Villaris apenas com um punhado de defensores.

Mas, as fortes paliçadas em madeira eram garantia suficiente

contra as depredações de assaltantes solitários e de larápios, a única ameaça à paz e segurança daquelas paragens, havia muitos anos.

Frambert verificou a lista de queixosos, escrita num rolo de

pergaminho com oito polegadas de largura e quinze pés de comprimento.

— Mais três, por hoje, senhor — disse Frambert. Geraldo suspirou enfadado. Estava cansado e esfomeado; a sua

paciência para lidar com a torrente interminável de acusações, contestações e queixas insignificantes era muito pouca. Quem lhe dera estar em Villaris, com a Joana. Joana. Como sentia a sua falta — a sua voz rouca, o seu riso aberto, os seus olhos verde-acinzentados fascinantes, que o olhavam com uma inteligência e um amor enormes. Mas, não podia pensar nela. Afinal, tinha sido por isso que tinha aceitado servir como missus — para se afastar dela, dando-lhe tempo de recuperar o controlo sobre a intensidade ingovernável de emoções que se tinham avolumado dentro dele.

— Chamai o caso seguinte, Frambert — ordenou Geraldo, pondo

termo aos seus pensamentos errantes.

Frambert desenrolou o pergaminho e leu alto, esforçando-se por se

fazer ouvir sobre o murmúrio da multidão.

— Abo queixa-se do seu vizinho Hunaldo, acusando-o de lhe ter

sido infiel e de lhe ter ficado com o seu gado, sem lhe dar a devida recompensa.

Geraldo abanou a cabeça, em sinal de que sabia do que se tratava.

A situação era muito comum. Naqueles tempos iletrados, raro era o proprietário que possuía registos escritos dos seus haveres; a ausência destes registos deixava campo aberto para todos os tipos de ladroagem e de fraudes.

Hunaldo, um homem grande e corado, ricamente vestido de linho

escarlate, avançou, para negar a acusação.

— Os animais são meus. Trazei-me o relicário. Apontou para a caixa de relíquias sobre a mesa. — Perante Deus — fez uma pausa dramática, levantando as mãos

ao Céu — juro a minha inocência sobre estes ossos sagrados.

— As vacas são minhas, senhor, não de Hunaldo, como ele bem

sabe — respondeu Abo, um homenzinho cujo comportamento discreto e o traje simples contrastava com o de Hunaldo. — Hunaldo pode jurar o que quiser; a verdade não muda.

— O quê, Abo, tu pões em causa o juramento diante de Deus? —

ripostou Hunaldo.

A sua voz assinalava o tom exacto da indignação piedosa, mas

Geraldo apercebeu-se da arrogância que ela escondia.

— Vede, senhor conde, isto é blasfémia!

— Tendes alguma prova de que os animais são vossos? —

perguntou Geraldo a Abo.

A pergunta era bastante invulgar; a noção de testemunho ou de

apresentação de provas não existia no país dos Francos.

Hunaldo olhou intrigado para Geraldo. O que estava este estranho

conde frígio a tentar fazer?

— Prova? — essa era nova; Abo teve de pensar um pouco. Bem,

Berta — é a minha mulher — pode dizer os nomes de cada um deles e os meus quatro filhos também porque os conhecem desde que eles nasceram. Podem dizer-vos quais as que são difíceis de ordenhar e quais os que preferem forragem a erva. — Veio-lhe à ideia mais uma coisa. — Levai-me junto deles e deixai que eu os chame; eles virão imediatamente ao meu encontro porque conhecem o som da minha voz e o toque da minha mão.

Nos olhos de Abo flamejou uma pequenina esperança. — Que disparate! — explodiu Hunaldo. — Deverá este tribunal

preferir as acções irreflectidas de animais estúpidos às leis sagradas dos Céus? Exijo um julgamento justo por compurgação. Trazei o relicário e deixai-me jurar!

Geraldo coçou a barba, pensativo. Hunaldo era o acusado; estava

no direito de requerer o juramento. Deus não permitiria que ele jurasse falso com uma mão sobre o relicário sagrado, pelo menos, assim o dizia a lei.

O imperador dava muita importância a tais provas, mas Geraldo

tinha as suas dúvidas. Havia homens que, mais preocupados com as vantagens sólidas deste mundo do que com os terrores vagos e abstractos do próximo, não hesitavam em mentir. Se fosse preciso, eu próprio o faria, pensou Geraldo, se o que estivesse em causa fosse suficientemente importante.

Ele juraria falso sobre uma carrada de relíquias para proteger a

segurança de alguém que ele amasse.

Joana. A imagem dela voltou a emergir irresistivelmente na sua

mente e ele fez um esforço por a afastar. Teria muito tempo para tais pensamentos quando o trabalho do dia estivesse terminado.

— Senhor — Frambert sussurrou ao seu ouvido — eu posso

testemunhar a favor de Hunaldo. Ele é um bom homem, generoso, e esta queixa contra ele é falsa.

Por baixo da mesa, sem que a multidão visse, Frambert brincava

com um anel magnífico, uma ametista encrostada em prata, gravada com a figura de uma águia.

Fê-lo rodar no dedo para que Geraldo pudesse ver como reluzia. — Ah, sim, um homem muito generoso. — Frambert tirou o anel

do dedo. — Hunaldo quis que eu vos dissesse que isto é vosso. Um gesto de apreço pelo vosso apoio.

Sorria levemente.

Geraldo pegou no anel. Era uma peça magnífica, a melhor peça

que ele já tinha visto. Manipulou-a, admirando o seu peso e o trabalho perfeito do seu artesão.

— Obrigado, Frambert — disse ele, com firmeza. — Isto facilita a

minha decisão.

Frambert abriu-se num sorriso conspirativo.

Geraldo virou-se para Hunaldo.

— Desejais submeter-vos ao julgamento de Deus? — Sim, senhor.

Hunaldo estava cheio de segurança, depois de ter testemunhado a

troca entre Geraldo e Frambert. O servo com o relicário avançou, mas Geraldo mandou-o parar.

— Procuraremos o julgamento de Deus através do judicium aquae

ferventis.

Hunaldo e Abo não perceberam; tal como os outros na sala, eles

também não sabiam latim.

— Kesselfang — traduziu Geraldo.

— Kesselfang!

Hunaldo empalideceu; não tinha pensado nisso. O processo da

água a ferver era uma forma bastante conhecida de julgamento, mas há muitos anos que não era utilizada naquela parte do Império.

— Trazei um caldeirão — ordenou Geraldo.

Fez-se um silêncio profundo durante alguns momentos. Depois, a

sala irrompeu num caos de murmúrios e movimentações. Houve vários scabini que se apressaram a sair para procurarem um caldeirão com água já a ferver nas casas mais próximas.

Voltaram alguns minutos depois, trazendo um caldeirão em ferro

negro, com a profundidade de um braço de um homem, cheio de água quente. Puseram-no no chão no meio da sala, com a água a fumegar e a borbulhar.

Geraldo manifestou-se satisfeito. Dado o talento de Hunaldo para

o suborno, o caldeirão podia ser mais pequeno.

Hunaldo franziu o sobrolho.

— Senhor conde, eu protesto! — o medo tinha-o tornado

indiferente às aparências. — E o anel?

— Foi exactamente o que eu pensei, Hunaldo. Geraldo segurou o anel, de forma a que todos o vissem, depois

atirou-o para o caldeirão.

— Por sugestão do acusado, este anel será o instrumento do

julgamento de Deus.

Hunaldo engoliu em seco. O anel era pequeno e escorregadio; era

extremamente difícil de encontrar. Mas, ele não podia recusar o julgamento sem admitir a sua culpa e devolver as vacas a Abo — e elas valiam bem mais de setenta soldos.

Amaldiçoou o conde estrangeiro, tão inexplicavelmente imune aos

benefícios de uma troca de favores que tinham caracterizado a sua relação com outros enviados. Respirou fundo e mergulhou o braço no caldeirão.

A sua face contorceu-se de dor, quando a água a ferver lhe

queimou a pele. Procurou freneticamente o anel dentro do caldeirão. Escapou-lhe dos lábios um urro de desespero quando ele lhe escorregou da mão. Os seus dedos torturados apressavam-se na busca e — graças a Deus! — apanhou-o.

Levantou a mão trazendo o anel.

— Aaaaaaah.

A multidão soltou um murmúrio de espanto, quando viram o braço

de Hunaldo. Já se estavam a começar a formar bolhas sobre a superfície vermelha da sua pele.

— Dez dias — anunciou Geraldo — será o tempo que durará o

julgamento de Deus.

Houve um rebuliço entre a multidão, mas não se ouviu qualquer

protesto. Toda a gente conhecia a lei: se as feridas das mãos e dos braços de Hunaldo se curassem dentro de dez dias, estava provada a sua inocência e o gado era seu. Se não, ele seria declarado culpado de roubo e o gado seria devolvido ao seu legítimo dono, Abo.

Pessoalmente, Geraldo duvidava que as feridas sarassem em tão

pouco tempo. Era essa a sua ideia porque ele não tinha dúvida de que Hunaldo era culpado daquele crime. E se as feridas de Hunaldo sarassem no período de tempo estipulado — bem, o processo fá-lo-ia pensar duas vezes antes de voltar a roubar o gado do seu vizinho. Era uma justiça dura, mas era aquela que a lei permitia e era melhor do que nada. Lex dura, sed lex. Os estatutos imperiais eram os únicos pilares sobre os quais se apoiava a lei nestes tempos conturbados; se se passasse por cima deles, quem sabe que ventos intempestivos soprariam pelo país, derrubando tanto fracos como poderosos.

— Chama o próximo caso, Frambert.

— Aelfric acusa Fulrad de recusar pagar o preço de sangue

estipulado por lei.

O caso parecia bastante simples. O filho de Fulrad, Tenbert, um

rapaz de dezasseis anos, tinha morto uma jovem, uma das coloni de Aelfric. O crime em si não estava em discussão, mas sim o preço de sangue. As leis imperiais acerca do wergeld eram precisas e diferentes para cada um, segundo o seu nível, a sua fortuna, idade e sexo.

— A culpa foi dela — disse Tenbert, um rapaz alto e ossudo, com

a pele sardenta e uma expressão insolente. — Ela não passava de uma colona; não devia ter resistido.

— Ele violou-a — explicou Aelfric. — Apareceu quando ela

andava a vindimar na minha vinha e embeiçou-se por ela. Ela era uma coisinha bonita com apenas doze invernos — ainda uma criança, na realidade — e não compreendeu. Pensou que ele lhe queria fazer mal. Como não se lhe submeteu de livre vontade, ele bateu-lhe brutalmente.

Ouviu-se um longo murmúrio entre a multidão; Aelfric fez uma

pausa, para que ficasse registado.

— Ela morreu no dia seguinte, espancada e inchada, a chamar pela

mãe.

— Não tendes de que vos queixar — interrompeu Fulrad, o pai de

Tenbert, exaltado. — Eu não paguei o wergeld na semana seguinte? Cinquenta soldos em ouro, uma soma generosa. E a rapariga não passava de uma colona!

— A rapariga morreu; não volta a vindimar. E a mãe dela, uma

das minhas melhores tecedeiras, está tão desgostosa que já não serve para nada. Exijo o wergeld justo: cem soldos em ouro.

— Um ultraje!

Fulrad abriu os braços, apelando:

— Senhor, com o que lhe dei, Aelfric pode comprar vinte vacas

leiteiras — que toda a gente sabe que valem mais do que uma pobre rapariga, a sua mãe e um tear juntos!

Geraldo franziu as sobrancelhas. Este regateio sobre preço de

sangue era repelente. A rapariga tinha mais ou menos a mesma idade de Dhuoda, filha de Geraldo. A ideia deste jovem rude e desagradável a forçá-la era grotesca. Claro que estas coisas estavam sempre a acontecer — qualquer colona que conseguisse chegar aos catorze anos com a sua virgindade intacta ou tinha tido uma sorte extraordinária, ou era feia, ou ambas as coisas. Geraldo não era ingénuo, sabia como era o mundo, mas isso não significava que lhe agradasse.

Sobre a mesa à sua frente estava um grande códex encadernado

em pele, com o selo imperial. Nele estavam escritas as velhas leis do Império, a Lex Salica, assim como a Lex Carolina, que incluía revisões e adições ao código legal do imperador Carlos. Geraldo conhecia a lei e não precisava do livro.

Mesmo assim, consultou-o solenemente; a sua presença

impressionava sempre os litigantes e a sentença que ele ia dar requeria toda a sua autoridade.

— O código sálico é muito claro neste ponto — acabou ele por

dizer. — Cem soldos é o wergeld legal pela colona.

Fulrad praguejou alto. Aelfric sorriu.

— A rapariga tinha doze anos de idade — continuou Geraldo.

Portanto, tinha chegado à idade fértil. Por lei, o seu preço de sangue tem de ser triplicado para trezentos soldos em ouro.

— O quê? O tribunal enlouqueceu? — gritou Fulrad. — A soma — prosseguiu Geraldo, impassível — deve ser paga da

seguinte forma: duzentos soldos para Aelfric, o senhor legal da rapariga, e cem para a família da vítima.

Agora, foi a vez de Aelfric se sentir ultrajado.

— Cem soldos para a família dela? — disse ele, incrédulo. — Para

coloni? Eu sou o senhor da propriedade; o wergeld da rapariga é meu por direito!

— Estais a tentar arruinar-me? — interrompeu Fulrad, demasiado

absorvido nos seus próprios problemas para se comprazer com o desagrado do seu inimigo. — Trezentos soldos é quase o preço de sangue de um guerreiro! De um padre! — dirigiu-se agressivamente para a mesa a que Geraldo estava sentado. — Talvez, mesmo de um conde?

A ameaça na sua voz era iniludível.

A multidão murmurou, alarmada, quando uma dúzia de homens de

Fulrad se aproximaram. Estavam armados de espadas e pareciam ser homens habituados a usá-las.

Os homens de Geraldo avançaram também, levando as mãos às

espadas, prontos a puxarem por elas. Geraldo conteve-os com um gesto.

— Em nome do imperador — disse Geraldo, com uma voz afiada

como a lâmina de uma faca — a sentença neste caso está dada e recebida.

Os seus frios olhos azuis olharam para Fulrad. — Chamai o próximo caso, Frambert.

Frambert não respondeu. Tinha-se escapado do seu lugar e estava

escondido debaixo da mesa.

Passou um tempo num silêncio tenso, durante o qual o murmúrio

inquieto da multidão acalmou completamente.

Geraldo recostou-se na sua cadeira, aparentando uma total

segurança e à-vontade, mas com a mão direita pousada negligentemente sobre a sua espada, com os dedos apalpando o aço frio.

De repente, praguejando, Fulrad virou-se. Agarrando rudemente

em Tenbert pelo braço, arrastou-o para a porta. Os homens de Fulrad seguiram-os, com a multidão a abrir alas para os deixar passar. Ao saírem a porta, Fulrad deu uma sapatada na cabeça de Tenbert. O grito de dor do rapaz ecoou na sala e a multidão explodiu num riso rouco, aliviado.

Geraldo sorriu. Se sabia alguma coisa acerca da natureza humana,

Tenbert preparava-se para apanhar uma tareia. Talvez lhe servisse de lição ou talvez não. Fosse como fosse, já não adiantava nada para a rapariga assassinada. Mas, a sua família receberia uma parte do seu wergeld. Com ele, podiam comprar a sua liberdade e construir uma vida melhor com os filhos que tinham ficado e com os filhos dos seus filhos.

Geraldo fez sinal aos seus homens; eles voltaram a embainhar as

suas espadas e regressaram às suas posições por trás da mesa do tribunal.

Frambert saiu de debaixo da mesa e voltou a ocupar o seu lugar

com um ar de dignidade atingida. Estava pálido e a sua voz tremeu ao ler o último caso.

— Ermoin, o moleiro, e a sua mulher queixam-se da sua filha,

dizendo que ela, contrariando a sua ordem expressa, casou voluntariamente com um escravo.

A multidão voltou a abrir alas para deixar passar um casal idoso,

de cabelo grisalho, patrícios vestidos com belas vestes — testemunho do sucesso de Ermoin no seu negócio. Atrás deles, vinha um jovem, vestido com uma túnica usada e velha de escravo e, por fim, uma jovem, que entrou com a cabeça baixa, modestamente.

— Senhor, — Ermoin falou sem esperar que lhe dessem a palavra

— olhai para a nossa filha, Hildegarda, a alegria dos nossos velhos corações, a única filha que sobreviveu dos oito que tivemos. Foi educada com demasiada brandura, senhor — como ficámos a saber, para desgosto nosso. Pois pagou o nosso amor com uma desobediência e ingratidão obstinadas.

— Que reparação buscais neste tribunal? — perguntou Geraldo. — Ora, uma decisão, senhor — disse Ermoin, surpreendido. — A

roca ou a espada. Ela tem de escolher, como manda a lei.

Geraldo fícou sério. Na sua carreira como missus nunca tinha

presidido a um caso daqueles; não desejava testemunhar outro.

— A lei, como dizeis, legisla nestas circunstâncias. Mas, parece

muito dura, especialmente para alguém educado de uma forma tão... branda. Não existe outra forma?

Ermoin percebeu onde ele queria chegar. Podia ser pago o preço

de um homem, o rapaz podia ser libertado da escravidão, tornado um homem livre.

— Não, senhor — abanou a cabeça negativamente, com

veemência.

— Muito bem — disse Geraldo, resignado.

Não havia forma de o evitar. Os pais da rapariga conheciam a lei e

iriam insistir no terrível procedimento, até ao fim.

— Trazei uma roca — ordenou Geraldo. — E Hunric — apontou

para um dos homens — empresta-me a tua espada.

Ele não queria usar a sua; nunca tinha atingido carne indefesa,

nem nunca o faria, enquanto fosse sua.

Houve alguns momentos de confusão e perturbação, enquanto

foram procurar uma roca nas imediações.

A rapariga levantou os olhos quando a trouxeram. O seu pai falou-

lhe num tom severo e ela baixou imediatamente os olhos.

Mas, naquele breve momento, Geraldo viu o seu rosto, de relance.

Ela era bela - tinha grandes olhos de cornalina, mergulhados num mar de pele branca e fina, sobrancelhas delicadas, lábios docemente redondos. Geraldo compreendia a irritação do pai: com um rosto daqueles, a rapariga podia ter conquistado o coração de um grande senhor, até de um nobre, aumentando a fortuna da família.

Geraldo pousou uma mão sobre a roca; com a outra, levantou a

espada.

— Se Hildegarda escolher a espada — disse Geraldo alto para que

todos ouvissem — o seu marido, o escravo Romualdo, morrerá imediatamente. Se escolher a roca, então, tornar-se-á ela própria escrava.

Era uma escolha terrível. Uma vez, Geraldo tinha visto uma outra

rapariga, não tão bela, mas igualmente jovem, enfrentar o mesmo dilema. Tinha escolhido a espada e ficou a ver, enquanto o homem que ela amava era chacinado diante dos seus olhos. Mas, o que poderia ela ter feito? Quem escolheria livremente a humilhação, não só para si, mas também para os seus filhos e todas as gerações futuras da sua sucessão?

A rapariga ficou em silêncio, imóvel. Quando Geraldo explicou o

julgamento, ficou à mesma impassível.

— Compreendeis o significado da escolha que tendes de fazer?

perguntou-lhe Geraldo com gentileza.

— Compreende, senhor — disse Ermoin, apertando o braço da

filha. — Ela sabe exactamente o que tem de fazer.

Geraldo já o sabia. A cooperação da filha tinha sido assegurada

através de ameaças e maldições, talvez até, de forma violenta.

Os guardas que ladeavam o jovem agarraram-lhe os braços, para

evitar que ele tentasse fugir. Ele deitou-lhes um olhar furioso. Tinha um rosto interessante — com sobrancelhas cerradas, coberto com um cabelo desalinhado, mas tinha olhos inteligentes, um maxilar bem feito e um nariz belo e forte; parecia ter sangue dos antigos romanos.

Podia ser um escravo, mas era corajoso. Geraldo fez sinal aos

guardas para que o largassem.

— Vamos, menina! — disse Geraldo à rapariga. — Está na hora. O pai segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Ela abanou a cabeça

e ele largou-lhe o braço e empurrou-a para a frente.

Ela levantou a cabeça e olhou para o jovem. O amor indisfarçável

que os seus olhos demonstravam surpreendeu Geraldo.

— Não!

O pai da rapariga tentou impedi-la, mas, era tarde de mais. Com os olhos fixos no marido, ela aproximou-se, sem hesitar, da

roca, sentou-se e começou a fiar.

Ao regressar a Villaris no dia seguinte, Geraldo pensou no que

tinha acontecido. A rapariga tinha sacrificado tudo: a família, a fortuna e mesmo a liberdade. O amor que tinha visto no seu rosto lançou fogo à sua imaginação e levou-o para caminhos que ele não compreendia completamente. Tudo o que sabia, com uma convicção que punha tudo o resto de lado, era aquilo que ele queria — aquela pureza e intensidade emocional que fazia com que tudo o resto parecesse uma sombra, insignificante. Não era demasiado tarde para ele; certamente, não era demasiado tarde. Ele tinha só vinte e nove anos — talvez já não fosse um jovem, mas, ainda estava no apogeu das suas forças. Nunca tinha amado a sua esposa, Richild, e ela nunca tinha fingido que o amava. Ele sabia muito bem que ela não sacrificaria sequer um pente por causa dele. O casamento deles tinha sido um casamento de fortunas e famílias preparado cuidadosamente. Era assim que devia ser e, até há pouco, Geraldo nunca tinha querido mais. Quando, depois do nascimento de Dhuoda, Richild tinha anunciado que não queria mais filhos, ele tinha aceite o seu desejo sem qualquer sensação de perda.

Não tinha tido dificuldades em encontrar parceiras com vontade

de partilhar prazeres fora do leito matrimonial. Mas agora, por causa da Joana, tudo tinha mudado. Imaginou-a, o seu belo cabelo dourado em torno da face, os seus olhos verde-acinzentados, tão sérios que pareciam fazê-la mais velha do que era na realidade. A forma como a queria, que ultrapassava o simples desejo, torturava-lhe o coração. Nunca tinha conhecido ninguém como ela. A sua inteligência rara, a sua determinação em desafiar e pôr em questão as ideias que os outros aceitavam como verdades imutáveis, enchiam-no de admiração. Não podia falar com ninguém como falava com ela.

Podia confiar-lhe tudo, incluindo a sua própria vida. Seria fácil fazer dela sua amante — o seu último encontro na

margem do rio não tinha deixado dúvida disso. Mas, ao contrário do que seria de esperar, ele tinha-se retraído, à espera de mais qualquer coisa, apesar de, naquela altura, não saber o quê.

Agora, sabia.

Quero que ela seja minha esposa.

Seria difícil e dispendioso, sem dúvida, libertar-se de Richild, mas

isso não importava. Joana será minha esposa, se quiser. Quando tomou esta resolução, sentiu-se em paz.

Respirou fundo, aspirando os aromas ricos e excitantes da floresta

primaveril, sentindo-se feliz e vivo como não se sentia havia anos.

Estavam muito perto de casa. Havia uma nuvem baixa e negra

pairando no ar que impedia Geraldo de ver Villaris. Joana estava lá, à espera dele. Impaciente, pôs Pistis a galope.

Havia um cheiro desagradável no ar, que lhe entrou pelo nariz. Fumo.

A nuvem sobre Villaris era fumo.

Então, começaram a galopar pela floresta, sem se importarem com

os ramos que se agarravam aos seus cabelos e às suas vestes. Chegaram à clareira e pararam abruptamente, estarrecidos.

Villaris tinha desaparecido.

Por baixo da nuvem de fumo que subia lentamente em espiral,

apenas restava um monte de escombros e cinzas daquilo que era a casa que tinham deixado duas semanas antes.

— Joana! — gritou Geraldo. — Dhuoda! Richild! Teriam fugido ou estavam mortas, soterradas por baixo do monte

de escombros fumegantes?

Os seus homens ajoelharam-se no meio das cinzas, procurando

identificar qualquer coisa — um pedaço de tecido, um anel, uma tiara. Alguns deles, começaram a chorar ao remexerem as cinzas, tal era o medo que tinham de encontrar de repente aquilo que procuravam.

Por baixo de um monte de vigas chamuscadas, num canto,

Geraldo viu uma coisa que lhe provocou um aperto no coração.

Era um pé. Um pé humano.

Correu e começou a afastar as vigas, agarrando-as com as mãos,

até elas começarem a sangrar, sem que ele se apercebesse. Lentamente, o corpo que estava por baixo delas começou a aparecer. Era o corpo de um homem, de tal forma carbonizado que as suas feições estavam praticamente irreconhecíveis, mas, pelo amuleto que tinha ao pescoço, Geraldo apercebeu-se de que se tratava de Andulfo, um dos guardas. Na sua mão direita, tinha uma espada. Geraldo baixou-se para lha tirar, mas, os dedos do homem recusaram-se a largá-la. O calor do fogo tinha derretido o punho, fundindo a carne e o ferro um no outro.

Andulfo tinha morrido a lutar. Mas, com quem? Ou com o quê? Geraldo olhou em redor com o olhar experiente de um soldado. Não havia sinais de acampamento, não tinham ficado para trás

nenhumas armas ou objectos que lhes permitissem perceber o que se tinha passado. A floresta ao redor estava silenciosa, na brisa da tarde primaveril.

— Senhor!

Os seus homens encontraram os corpos de mais dois guardas. Tal como Andulfo, também eles tinham morrido em combate,

tendo ainda as armas nas mãos. A descoberta levou-os a prosseguirem a busca, mas em vão. Não havia sinais de vida.

Onde estão todos? Tinham deixado duas vintenas de pessoas em

Villaris. Elas não podiam ter desaparecido todas, sem quaisquer vestígios de ossos ou sangue.

O coração de Geraldo batia com uma esperança louca. Joana

estava viva, tinha de estar viva. Talvez estivesse perto, escondida na floresta com os outros que tinham desaparecido.

Ou talvez tivessem fugido para a cidade!

Montou Pistis de um salto, chamando os seus homens. Dirigiram-se para a cidade a galope, abrandando apenas quando

chegaram às ruas vazias, desertas.

Geraldo e os seus homens espalharam-se em reconhecimento pela

longa fila de casas silenciosas. Geraldo levou Worad e Amalwin e dirigiu-se para a catedral. As pesadas portas em madeira de carvalho pendiam dos gonzos partidos. Inquietos, os homens desmontaram e aproximaram-se, de espadas em riste. Ao subir as escadas, Geraldo escorregou numa coisa viscosa. Na soleira da porta, havia uma poça de sangue escuro, formada pelo sangue que escorria lentamente do lado de dentro da porta.

Geraldo entrou.

Por momentos, a escuridão do interior obscureceu-lhe a visão.

Depois, começou a ver melhor.

Atrás dele, Amalwin começou com vómitos. Geraldo sentiu um

vómito a subir-lhe na garganta, mas engoliu-o, controlando-se.

Tapou a boca e o nariz com as mangas e avançou pela nave central

da igreja. Era difícil evitar tropeçar no monte de corpos espalhados. Ouviu Worad e Amalwin a praguejarem, ouviu o som da sua própria respiração rápida e fraca. Continuou, como se estivesse a sonhar, avançando entre os despojos humanos, à procura.

Perto do altar-mor, encontrou os membros da sua casa. Estava ali

Wala, o capelão, e Wido, o intendente. Irminon, a criada de quarto, estava perto, com os seus braços sem vida ainda a segurarem o seu bebé morto. Worad, o seu marido, deu um grito quando a encontrou. Caiu de joelhos e abraçou-os, apesar das suas feridas e do sangue.

Geraldo afastou-se. Os seus olhos caíram numa jóia em

esmeraldas e prata que lhe era familiar. A tiara de Richild.

Ela jazia junto dela, com o seu cabelo negro espalhado sobre o

corpo como se fosse uma mortalha. Ele pegou na tiara e ia a colocar-lha no cabelo. Quando tocou na cabeça de Richild, ela virou-se grotescamente, depois rolou lentamente para longe do corpo.

Horrorizado, Geraldo recuou. O seu pé pisou outro corpo e ele

quase caiu. Olhou para o chão. Aos seus pés, estava Dhuoda, com o corpo retorcido como se tivesse tentado fugir aos golpes dos seus agressores. Com um gemido de dor, Geraldo caiu de joelhos ao lado do corpo da filha. Tocou-a docemente, acariciando o seu belo e macio cabelo de criança, dispondo os seus membros de forma a que ela ficasse numa posição menos grotesca. Beijou-lhe a face e passou a sua mão sobre os seus olhos vazios, fechando-os. Estava tudo errado. Deveria ter sido ela a prestar-lhe aquela última homenagem a ele.

Com um pressentimento sinistro, levantou-se e continuou a sua

busca cruel através dos corpos espalhados. Joana devia estar ali algures, entre os outros, tinha de a encontrar.

Atravessou a nave, fixando todos os rostos frios e mortos,

reconhecendo em cada um deles as feições de um companheiro, de um vizinho ou de um trabalhador. Mas, não encontrou Joana.

Será que ela tinha conseguido escapar, miraculosamente? Seria possível? Geraldo mal se atrevia a ter esperança. Recomeçou a procurar.

— Senhor! Senhor!

Fora da catedral, ouviam-se vozes aflitas. Geraldo chegou à porta

quando o resto dos homens se aproximaram, a cavalo.

— Normandos, senhor! Ao pé do rio! A carregarem as suas

embarcações...

Mas, Geraldo já tinha saído, correndo na direcção de Pistis. Galoparam a toda a brida em direcção ao rio. Os cascos dos seus

cavalos ribombavam na terra seca do caminho. Não pensaram na surpresa que poderiam ter, entorpecidos pela dor, só pensavam em vingar-se.

Depois de uma curva, viram um navio comprido e bem equipado,

com uma grande proa em madeira com a forma de uma cabeça de dragão, com uma grande boca e longos dentes. A maior parte dos normandos já tinha embarcado, mas ainda havia um grupo na margem, a guardarem o navio, enquanto era carregado o resto dos despojos.

Com um grande grito de guerra, Geraldo avançou, erguendo a sua

espada. Os seus homens seguiram-no de perto. Os normandos apeados deitaram-se à água ou puseram-se a correr em todas as direcções, vários foram pisados pelos cascos dos cavalos.

Geraldo ergueu a sua azagaia, apontando ao normando que estava

mais perto, um gigante de barba amarela, com um elmo dourado.

O gigante virou-se, levantou o seu escudo e a azagaia caiu sobre

ele, fazendo um barulho surdo.

De repente, o ar encheu-se de setas, os normandos ripostavam.

Pistis empinou-se furiosamente, depois, tombou, atingida num olho por uma seta. Geraldo saltou para o chão, mas caiu mal, ferindo-se na perna esquerda. Desembainhou a espada e correu, coxeando, na direcção do gigante, que procurava arrancar a azagaia do seu escudo. Geraldo pôs o pé na ponta da azagaia, atirando-a ao chão, e puxou o escudo do normando para baixo, atirando-o para longe. O gigante olhou para Geraldo, surpreendido, e levantou o seu machado, mas, era tarde de mais, de um só golpe, Geraldo trespassou-lhe o coração. Sem esperar sequer que ele caísse, Geraldo rodopiou e atingiu outro normando, rachando-lhe a cabeça. Os salpicos de sangue mancharam o rosto de Geraldo e ele pestanejou para conseguir ver. Estava no centro da luta. Levantou a sua espada, golpeando tudo à sua volta, desesperadamente, deixando explodir as emoções que tinha controlado nas últimas horas, num delírio de morte e de sangue.

— Estão a fugir! Estão a fugir!

Os gritos dos seus homens soaram aos ouvidos de Geraldo, ele

olhou para a margem e viu o navio com cabeça de dragão a levantar ferro, com a sua vela vermelha desfraldada ao vento.

Os normandos fugiam.

Um cavalo baio, sem cavaleiro, dançava nervosamente a alguns

passos dele. Geraldo montou-o. O cavalo entrou em pânico, mas Geraldo dominou-o. O cavalo virou-se rapidamente e cavalgou para a margem. Com um grito para que os homens o seguissem, Geraldo cavalgou pela água dentro. Da sela, pendia uma lança por usar. Geraldo pegou nela e atirou-a com uma força tal que quase foi projectado por cima do pescoço do cavalo. A lança cortou o ar com a sua ponta em metal brilhando ao sol e caiu na água, perto da mandíbula do dragão.

No navio, ouviu-se uma explosão de risos. Os normandos

insultavam-nos na sua língua áspera. Dois deles levantaram no ar uma trouxa dourada para se divertirem. Só que não era uma trouxa: era uma mulher que pendia no meio deles, inanimada, uma mulher de cabelo castanho.

— Gisla! — gritou Geraldo, desesperado, ao reconhecê-la. O que fazia ela ali? Devia estar em casa, a salvo, com o marido. Levantando um pouco a cabeça, Gisla gritou:

— Pai! Paaaaaai!

O grito dela ressoou nas fímbrias do seu ser.

Geraldo esporeou o cavalo, mas ele relinchou e recuou,

recusando-se a avançar nas águas profundas. Ele golpeou-o com a espada nos flancos traseiros, para o obrigar a obedecer, mas, isso só serviu para o assustar ainda mais, saltou furiosamente, de patas levantadas. Um cavaleiro menos treinado teria sido projectado, mas Geraldo aguentou-se com determinação, lutando para dobrar o cavalo à sua vontade.

— Senhor! Senhor!

Os homens de Geraldo rodearam-no, agarrando as rédeas e

puxando-o para trás.

— Não vale a pena, senhor! — Grifo, o lugar-tenente de Geraldo

falou-lhe alto ao ouvido. — Não podemos fazer mais nada.

As velas vermelhas do navio normando tinham começado a

flutuar, enfunando-se, à medida que o navio deslizava rapidamente, afastando-se da margem. Não havia forma de o perseguir, não havia barcos, mesmo que Geraldo e os seus homens soubessem navegá-los, a arte da navegação há muito que tinha sido esquecida na terra dos francos.

Entorpecido, Geraldo deixou que Grifo levasse o cavalo para a

margem. O grito de Gisla continuava a ressoar nos seus ouvidos. Paaaaaai! Estava perdida, irremediavelmente perdida.

Havia relatos de jovens que tinham sido levadas durante as

incursões cada vez mais frequentes dos normandos ao longo da costa do Império, mas Geraldo nunca tinha pensado, nunca tinha imaginado...

Joana! O pensamento atingiu-o com a força de uma seta,

roubando-lhe a respiração. Também a tinham levado! Os pensamentos desordenados de Geraldo rodopiavam, procurando outra possibilidade, mas não lhe surgiu nenhuma. Os bárbaros tinham raptado Joana e Gisla, tinham-nas roubado para as fazerem passar por horrores inenarráveis, e não havia nada, nada a fazer para as salvar.

Os seus olhos caíram num normando morto. Saltou do cavalo,

pegou no machado de cabo comprido que o morto ainda tinha na mão e começou a golpear o cadáver. O corpo mutilado saltava a cada golpe. O elmo dourado partiu-se, mostrando o rosto imberbe de um rapazinho, mas Geraldo continuava a golpear, levantando o machado uma e outra vez. O sangue espirrava por todos os lados, manchando as suas vestes.

Dois dos seus homens aproximaram-se para o deter, mas Grifo fê-

los recuar.

— Não — disse ele baixinho. — Deixem-no estar. Geraldo acabou por largar o machado e caiu de joelhos cobrindo o

rosto com as mãos. O sangue quente cobria-lhe as mãos, colando-as uma à outra. Começaram a subir-lhe soluços pela garganta, e ele nem sequer procurou resistir. Chorou copiosamente e sem vergonha.

 

Capítulo 13

Colmar

24 de Junho de 833

O Campo das Mentiras

Anastácio desviou as pesadas cortinas que tapavam a entrada da

tenda do Papa e entrou sorrateiramente.

Gregório, o quarto com o mesmo nome a ocupar o Trono de São

Pedro, ainda estava a rezar, ajoelhado numa almofada de seda diante da bela figura de Cristo em marfim que ocupava o lugar de honra na sua tenda. A figura tinha sobrevivido incólume à perigosa viagem por estradas e pontes arruinadas, através das altas e traiçoeiras passagens dos Alpes.

Impressionava tanto, nesta tenda montada em terra de Francos,

como na segurança e conforto da capela privada de Gregório, no Palácio de Latrão.

— Deus illuminatio mea, Deus optimus et maximus — rezava

Gregório, com o rosto iluminado pela devoção.

Observando silenciosamente da porta, Anastácio perguntava-se se

alguma vez teria sido tão sincero na sua fé. Talvez dantes, quando era pequeno. Mas, a sua inocência tinha morrido no dia em que o seu tio Teodoro tinha sido assassinado diante dos seus olhos, no Palácio de Latrão.

— Olha — tinha-lhe dito o pai, então — e aprende. Anastácio tinha visto e tinha aprendido — tinha aprendido a

esconder os seus verdadeiros sentimentos por trás de uma máscara de boas maneiras, tinha aprendido a manipular e enganar, mesmo a trair, se fosse necessário. E essa ciência tinha-se revelado proveitosa. Com dezanove anos, Anastácio já era vestiarius — o homem mais jovem que alguma vez já tinha chegado a um cargo tão elevado. Arsénio, o seu pai, tinha muito orgulho nele. Anastácio tencionava torná-lo ainda mais orgulhoso.

— Cristo Jesus, dai-me a sabedoria de que necessito neste dia —

continuava Gregório. — Mostrai-me o caminho para impedir esta guerra ímpia e para reconciliar os filhos rebeldes com o imperador, seu pai.

Será possível que ele ainda não se tenha apercebido daquilo que

vai acontecer hoje? Anastácio não podia crer. O Papa era tão inocente! Anastácio só tinha dezanove anos, menos de metade da idade de Gregório, mas sabia muito mais do mundo do que ele.

Ele não serve para Papa, pensou Anastácio, como já tinha pensado

outras vezes. Gregório era uma alma piedosa, não havia dúvida, mas a piedade era uma virtude fora de moda. O homem tinha uma natureza mais adequada para a clausura do que para a corte papal, cujas políticas subtis estariam sempre fora do seu alcance. O que estaria o imperador Luís a pensar quando pediu a Gregório para fazer a longa viagem entre Roma e o Império dos Francos, para servir de mediador nesta crise?

Anastácio tossiu discretamente para atrair a atenção de Gregório,

mas ele estava perdido em oração, fixando a imagem de Cristo com um olhar extasiado.

— Está na hora, Santidade.

Anastácio não hesitou em interromper as devoções do Papa.

Gregório estava a rezar havia mais de uma hora e o imperador estava à espera.

Surpreendido, Gregório olhou à sua volta e, ao ver Anastácio

abanou a cabeça em sinal de assentimento, benzeu-se e levantou-se, alisando a paenula púrpura em forma de sino que trazia por cima da dalmática papal.

— Vejo que procurastes apoio na imagem de Cristo, Santidade —

disse Anastácio, ajudando Gregório a ajustar o pallium. — Eu também já senti o seu poder.

— Sim. É magnífico, não é?

— De facto. Especialmente, a beleza da sua cabeça, grande em

proporção ao corpo. Lembra-me sempre a Primeira Epístola aos Coríntios: E a cabeça de Cristo é Deus. Uma expressão gloriosa da ideia de que Cristo combina na Sua pessoa ambas as naturezas, divina e humana.

Gregório sorriu aprovadoramente.

— Penso que nunca tinha ouvido esse pensamento expresso de

uma forma tão correcta. Sois um belo vestiarius, Anastácio, a eloquência da vossa fé é uma inspiração.

Anastácio estava satisfeito. Um elogio destes da parte do Papa

poderia significar outra promoção — a nomenclator, talvez, ou até mesmo primicerius. Ele era jovem, era verdade, mas estas altas honrarias não estavam fora da sua ambição.

Aliás, não eram senão estádios passageiros no caminho para a

única ambição que Anastácio tinha na vida: vir ele próprio a ser Papa, um dia.

— Vós lisonjeais-me, Senhor — disse Anastácio, esperando que

as suas palavras soassem com modéstia. — É a perfeição da escultura e não as minhas palavras inadequadas, que merece o vosso louvor.

Gregório sorriu.

— Ditas com verdadeira humilitas.

Pôs a mão em cima do ombro de Anastácio, afectuosamente, e

disse com gravidade:

— É obra de Deus o que vamos fazer hoje, Anastácio. Anastácio observou o rosto do Papa. Ele não desconfia de nada.

Ainda bem. Era óbvio que Gregório continuava a acreditar que podia ser mediador de paz entre o imperador e os seus filhos, sem saber que havia um acordo secreto, preparado cuidadosa e silenciosamente por Anastácio, seguindo as instruções exactas do seu pai.

— A madrugada do dia de amanhã verá uma nova paz nesta terra

conturbada — disse Gregório.

Isso é verdade, pensou Anastácio, apesar de a paz não ser aquela

que desejais.

Se tudo corresse como planeado, na manhã do dia seguinte o

Imperador acordaria para descobrir que as suas tropas tinham desertado de noite, deixando-o indefeso perante os exércitos dos seus filhos. Tinha sido tudo combinado e pago, nada daquilo que Gregório dissesse ou fizesse nesse dia interessaria minimamente.

Mas, era importante que a mediação papal ocorresse como

planeado. A negociação com Gregório iria impedir o imperador de desconfiar e iria distrair a sua atenção nesta conjuntura crucial.

Era sensato encorajar Gregório.

— O que ides fazer hoje é da maior importância, Santidade —

disse Anastácio — Deus aprová-lo-á e aprovar-vos-á.

Gregório assentiu:

— Eu sei, Anastácio. Agora, mais do que nunca. — Gregório, o Pacificador, assim vos chamarão, Gregório, o

Grande!

— Não, Anastácio — disse Gregório, desaprovadoramente — se

eu for bem sucedido, será obra de Deus, não minha. O futuro do Império, do qual depende a segurança de Roma, está em jogo, hoje. Se formos bem sucedidos, será apenas graças à Sua ajuda.

A fé abnegada de Gregório fascinava Anastácio, que a considerava

uma aberração da natureza, semelhante a possuir seis dedos numa mão. Gregório era um homem genuinamente humilde, pensou Anastácio —, mas também, tendo em conta os seus parcos talentos, tinha todos os motivos para ser humilde.

— Acompanhai-me à tenda do imperador — disse Gregório.

Gostaria que estivésseis presente quando eu falar com ele.

Está tudo a correr às mil maravilhas, pensou Anastácio. Quando tudo estivesse acabado, bastava-lhe regressar a Roma e

esperar. Quando Lothar fosse coroado imperador no lugar do seu pai, ele saberia como recompensar Anastácio pelo que ele tinha feito aqui.

Gregório dirigiu-se para a entrada da tenda.

— Vinde, então. Vamos fazer o que deve ser feito. Dirigiram-se para o campo aberto cheio de tendas e estandartes do

exército imperial. Custava a crer que, na manhã seguinte, todo o tumulto colorido de actividade tivesse desaparecido. Anastácio tentou imaginar a cara de Luís, quando saísse da sua tenda e descobrisse que os campos diante dos seus olhos estavam vazios.

Passaram pela guarda real e chegaram à tenda imperial. À porta,

Gregório parou para murmurar a última oração.

— Verba mea auribus percipe, Domine...

Anastácio olhava impacientemente, enquanto os lábios carnudos,

quase femininos, de Gregório murmuravam silenciosamente o salmo número cinco:

— ... intende voci clamoris mei, rex meus et Deus meus... Louco piedoso. Naquele momento, o desprezo de Anastácio pelo

Papa era tão profundo que ele teve de fazer um esforço por manter um tom de voz respeitador.

— Vamos, então, Senhor?

Gregório levantou a cabeça.

— Sim, Anastácio, estou pronto.