A Papisa Joana
Capítulo 10 · Ia haver uma feira em São Dinis!…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
apesar de esta cabana ser muito mais pequena e de o seu tecto
estar podre.
Pararam diante dela.
— Espera aqui. — disse Geraldo.
Joana olhou com curiosidade, enquanto ele deu uma volta ao
edifício, regressando depois e ficando ao lado dela, de frente para a porta.
— Olha — disse Geraldo com uma solenidade fingida. Levantando as mãos acima da cabeça, bateu sonoramente as
palmas três vezes.
Não aconteceu nada. Joana olhou interrogativamente para
Geraldo, que fixava a cabana, na expectativa. Era evidente que seria suposto acontecer alguma coisa. Mas, o quê?
A porta em madeira começou a abrir-se lentamente, rangendo
primeiro, devagar, depois mais depressa, mostrando o interior escuro da cabana. A Joana espreitou para dentro da cabana. Não havia lá ninguém. A porta tinha-se mexido sozinha.
Espantada, a Joana olhou para a porta. Passaram dúzias de
perguntas pela sua mente, mas, só conseguiu formular uma:
— Como?
Geraldo ergueu os olhos para o céu numa piedade simulada. — Milagre.
Joana bufou.
Ele riu-se.
— Então, feitiçaria.
Olhou para ela desafiadoramente, gozando a brincadeira. Joana aceitou o desafio. Dirigiu-se para a porta e examinou-a. — És capaz de a fechar? — perguntou ela.
Geraldo voltou a erguer as mãos. Bateu as palmas três vezes. Depois de uma pausa, a porta rangeu e começou a fechar-se. Joana acompanhou-a enquanto ela se fechava, estudando-a. As
pesadas ombreiras em madeira eram macias e estavam bem feitas — não havia sinal de nada fora do comum. Também não havia nada de estranho no puxador em madeira. Examinou as dobradiças. Eram em ferro comum. Era desesperante. Não conseguia perceber o que fazia mover a porta.
A porta já se tinha fechado quase completamente. Era um
mistério.
— Então?
Os olhos anil de Geraldo brilhavam de divertimento. Joana hesitou, contrariada por perder o jogo.
Quando estava prestes a admitir a derrota, ouviu qualquer coisa, o
som de um fio a roçar vindo de algures por cima da cabeça dela.
Primeiro, não conseguiu localizá-lo; o barulho era familiar e
estranho, ao mesmo tempo.
Depois, reconheceu-o. Água. O som de água a correr. Disse, excitada:
— O mecanismo hidráulico! O do manuscrito da feira de São
Dinis! Construíste-o!
Geraldo riu-se.
— Adaptei-o. Porque foi desenhado para puxar água, não para
abrir e fechar portas!
— Como funciona?
Geraldo mostrou-lhe o mecanismo, escondido mesmo por cima do
telhado da cabana, a dez passos da porta, motivo pelo qual ela não o tinha visto. Mostrou-lhe como funcionava o complicado sistema de alavancas, roldanas e contrapesos, ligados a duas correntes em ferro presas ao interior da porta, quase invisíveis. Geraldo tinha activado o sistema puxando uma corda, quando tinha dado a volta à cabana.
— Espantoso! — disse ela, quando ele acabou de explicar. — Faz
outra vez.
Agora que ela tinha percebido como o engenho funcionava, queria
vê-lo a trabalhar.
— Não posso. Teria de ir buscar mais água.
— Então, vamos buscá-la — disse ela. — Onde estão os cântaros? Geraldo riu-se.
— És incorrigível!
Apertou-a num abraço afectuoso. O seu peito era rijo e firme, os
seus braços fortes apertavam-na. Joana sentiu-se a derreter por dentro.
Ele soltou-a abruptamente.
— Vamos, então — disse ele bruscamente. — Os cântaros estão
ali.
Levaram os cântaros vazios para o ribeiro, a um quarto de milha
dali, encheram-nos e trouxeram-nos de volta, encheram o recipiente, depois voltaram para ir buscar mais. Fizeram o mesmo percurso três vezes e, à terceira vez, começaram a sentir-se um pouco tontos. O sol estava quente, o ar cheio de promessas primaveris e as suas cabeças cheias de excitação por causa do seu empreendimento e da alegria que sentiam na companhia um do outro.
— Geraldo, olha! — disse Joana, metendo-se na água fresca até
aos joelhos.
Quando ele chegou ao pé dela, ela começou a atirar-lhe água do
cântaro, molhando a parte da frente da sua túnica.
— Meu diabinho! — disse ele.
Ele encheu o seu cântaro e começou a molhá-la também. Continuaram a molhar-se um ao outro, numa agitação de borrifos,
até que Joana foi atingida por um chapão de água do cântaro de Geraldo, precisamente no momento em que se tinha inclinado para encher o dela. Desequilibrou-se, escorregou e caiu desamparada dentro de água. A água fria fechou-se por cima da cabeça dela e, por uns momentos, ela entrou em pânico, sem conseguir pôr-se em pé sobre os seixos escorregadios do leito do rio.
Então, os braços de Geraldo puxaram-na e levantaram-na. — Já te agarrei, Joana, já te agarrei.
A sua voz, perto do ouvido dela, era quente e reconfortante. Joana sentiu que o seu corpo tremia todo àquela cadência. Agarrou-se a ele. As suas roupas molhadas colaram-se umas às
outras, moldando os seus corpos unidos numa inequívoca intimidade.
— Amo-te — disse ela, simplesmente. — Amo-te. — Oh, minha querida, minha menina perfeita — murmurou
Geraldo a custo, e os seus lábios colaram-se aos dela e ela beijou-o, numa paixão alimentada pela súbita expressão de emoções controladas durante tanto tempo.
O ar parecia murmurar ao ouvido de Joana. Geraldo, cantava ele.
Geraldo.
Nenhum deles sabia que, por trás da copa das árvores, no cimo da
colina, alguém estava a observá-los.
Odo ia a caminho de Héristal para retribuir uma visita ao seu tio,
um dos santos irmãos daquela abadia, quando a sua mula se tinha desviado do caminho, atrás de um monte de erva que lhe pareceu especialmente suculento. Ele amaldiçoou a mula, puxou pelas rédeas e deu-lhe vergastadas, mas ela era teimosa e ele não a conseguiu dissuadir. Não tinha outro remédio senão deixar a estrada e seguir aquela estúpida besta.
Foi então que, ao baixar os olhos, na direcção do rio, viu. Uma mulher instruída nunca é casta. Palavras de São Paulo ou
seriam de Jerónimo? Não interessava. Odo sempre tinha acreditado nelas e agora tinha a prova diante dos seus olhos!
Odo deu uma pancadinha no flanco da mula. Hoje à noite, vais ter
ração reforçada, pensou ele. Depois, reconsiderou. A comida era cara e, além disso, o animal só tinha sido um instrumento de Deus.
Odo apressou-se a regressar à estrada. A sua visita tinha de
esperar. Primeiro, tinha de ir a Villaris.
Pouco depois, já se avistavam as torres de Villaris. Excitado como estava, tinha caminhado mais depressa do que era
costume. Passou pelo portão e foi saudado por um guarda.
Odo retribuiu o cumprimento:
— Levai-me à senhora Richild — ordenou ele. — Tenho de falar
com ela imediatamente.
Geraldo retirou os braços de Joana do seu pescoço e afastou-se. — Anda — disse ele, com a voz embargada pela emoção. —
Temos de regressar.
Estonteada pelo amor, Joana dirigiu-se a ele, para o abraçar
novamente.
— Não — disse Geraldo com firmeza. — Tenho de te levar para
casa, enquanto ainda sou capaz.
Joana olhou para ele, confusa.
— Não... me desejas?
Baixou a cabeça antes de ele responder.
Geraldo levantou-lhe o queixo suavemente, obrigando-a a olhar
para ele.
— Desejo-te mais do que alguma vez desejei uma mulher. — Então, porquê...?
— Pelo amor de Deus, Joana! Eu sou um homem e tenho desejos
de homem. Não me tentes para além dos meus limites!
Geraldo parecia quase zangado. Vendo que ela ia começar a
chorar, suavizou o tom da sua voz.
— O que queres que eu faça, meu amor? Que te faça minha
amante? Ah, Joana, eu tomava-te já aqui se pensasse que isso te ia fazer feliz. Mas, ditaria a tua ruína, não vês?
Os olhos anil de Geraldo retinham os dela numa ordem. Era tão
belo que lhe cortava a respiração. Tudo o que ela queria era que ele voltasse a tomá-la nos seus braços. Ele acariciou o seu cabelo dourado. Ela queria falar, mas a sua voz sumiu-se. Respirou fundo, tentando controlar as suas emoções, cheia de vergonha e de frustração.
— Anda.
Geraldo pegou na mão de Joana, escondendo-a na sua, ternamente.
Ela não protestou quando ele a levou de volta ao caminho. Sem dizerem palavra, de mãos dadas, regressaram a Villaris, percorrendo as milhas que os separavam de casa.
Capítulo 11
— Senhora Richild, condessa de Villaris — anunciou o arauto,
quando Richild entrou soberanamente na sala de audiências do bispo.
— Eminência. — fez uma vénia graciosa.
— Senhora, sede bem-vinda — disse Fulgêncio. — Que novas me
trazeis do vosso senhor? Queira Deus que não lhe tenha acontecido nenhum infortúnio durante a sua viagem?
— Não, não.
Agradou-lhe encontrá-lo tão transparente. Claro que ele devia
estar curioso acerca do motivo da sua visita! Devia ter pensado que, como o Geraldo já tinha partido havia cinco dias, já podia ter encontrado algum infortúnio em estradas perigosas.
— Não recebemos nenhuma má notícia, Eminência, nem
esperamos ouvir. Geraldo levou vinte homens com ele, bem armados e bem guarnecidos; ele não iria correr riscos pelo caminho, para mais, indo em missão imperial.
— Já ouvimos dizer. Foi como missus... à Westphalia, não foi? — Sim. Para resolver uma disputa por casa de wergeld. Também
havia algumas questões de propriedade para serem resolvidas. Estará ausente mais um dia ou dois.
O tempo de que preciso, pensou ela, precisamente o tempo de que
preciso.
Falaram um pouco de assuntos locais — a falta de cereais no
moinho, a reparação do telhado da catedral, da quantidade de bezerros nascidos. Richild tinha o cuidado de observar as cortesias necessárias e nada mais. Sou rebento de melhor cepa do que ele. Era bom recordar-lho, antes de entrar no assunto da sua visita. Era óbvio que ele não suspeitava de nada. Ainda bem; a surpresa seria a sua aliada nesta empreitada.
Por fim, ela achou que tinha chegado o momento. — Vim pedir-vos ajuda para uma questão doméstica. Ele pareceu lisonjeado.
— Querida senhora, terei muito gosto em ajudar. Qual a natureza
da vossa dificuldade?
— É a Joana. Já não é uma criança; ela... — Richild escolheu as
palavras cuidadosamente - atingiu agora a idade adulta. Já não é próprio continuar a viver em nossa casa.
— Compreendo — disse Fulgêncio, apesar de não parecer. Bem,
penso que poderemos arranjar outra resid...
— Arranjei um casamento vantajoso — interrompeu Richild. Com
o filho de Bodo, o ferrador. É um bom rapaz, abastado, e será ferreiro quando o pai morrer — ele não tem mais filhos.
— Isso apanha-me de surpresa. A rapariga expressou alguma
inclinação para o casamento?
— Certamente não é a ela que compete decidir. É um casamento
muito melhor do que ela teria direito de esperar. A sua família é pobre como os coloni e os seus modos estranhos deram-lhe alguma... reputação.
— Talvez — respondeu o bispo amavelmente. — Mas ela parece
dedicada aos estudos. E é evidente que não poderia continuar a ir à escola se casasse com o filho do ferreiro.
— Foi por isso que vim. Como fostes vós que decidistes chamá-la
para a escola, tereis de ser vós a dar autorização para que ela seja dispensada.
— Compreendo — voltou ele a dizer, apesar de continuar a
parecer que não estava a compreender. — E o que pensa o conde acerca do casamento?
— Ele ainda não sabe. Esta oportunidade surgiu agora. — Bem, então — Fulgêncio parecia aliviado. — Esperaremos que
ele regresse. Certamente, não há necessidade de nos precipitarmos.
Richild insistiu:
— Pode perder-se esta oportunidade. O rapaz está renitente —
parece que se apaixonou por uma das raparigas da cidade — mas, claro que eu tratarei de fazer com que o casamento constitua um benefício para ele. O seu pai e eu já chegámos a um acordo quanto ao dote. Agora, o rapaz diz que cumprirá a vontade do pai — mas, ele é jovem e de disposição instável. É melhor que o casamento seja já.
— Mesmo assim...
— Recordo-vos, Eminência, que sou a senhora de Villaris e que a
rapariga foi colocada sob a minha tutela. Sou perfeitamente capaz de tomar uma decisão na ausência do meu esposo. De facto, estou em melhor posição para o fazer.
Para dizer a verdade, a preferência que Geraldo tem pela rapariga
tolda o seu juízo quando se trata de assuntos relacionados com ela.
— Compreendo — disse Fulgêncio e, desta vez, compreendeu-o
bem de mais.
Richild apressou-se a dizer:
— A minha preocupação é estritamente monetária, como
compreendeis. Geraldo gastou uma pequena fortuna a comprar livros para a rapariga — uma despesa inútil, uma vez que ela não tem futuro como intelectual. Alguém tem de olhar pelo futuro dela; ora, foi isso que eu fiz. Tendes de concordar que o casamento é bom.
— Sim — admitiu Fulgêncio.
— Bem. Então, concordais em a dispensar?
— As minhas desculpas, querida senhora, mas a minha decisão
tem de esperar pelo regresso do conde. Asseguro-vos que discutirei a questão com ele. E com a rapariga. Pois, apesar de o casamento ser... vantajoso, como dizeis, não quero comprometê-la com ele contra a sua vontade. Se o casamento se revelar agradável a todos, procederemos imediatamente.
Ela começou a falar, mas ele interrompeu-a:
— Sei que pensais que o casamento poderá ficar comprometido se
não for consumado imediatamente. Mas, perdoai-me, senhora, eu não posso concordar. Um dia, ou mesmo um mês, fazem pouca diferença.
Ela voltou a tentar protestar, mas ele voltou a interrompê-la. — Estou decidido. Não vale a pena prosseguir esta conversa. As suas faces arderam com o insulto. Louco presunçoso! Quem
pensa ele que é para me dar ordens? A minha família frequentava os palácios reais enquanto a sua ainda trabalhava no campo!
Ela olhou-o sem pestanejar.
— Muito bem, Eminência, se é essa a vossa decisão, eu tenho de a
aceitar.
Começou a calçar as suas luvas de montar, como se estivesse a
preparar-se para sair.
— A propósito — o seu tom era deliberadamente casual — acabei
de receber uma carta do meu primo, Sigismundo, bispo de Troyes.
O rosto do bispo mostrou um respeito lisonjeador.
— Um grande homem, um grande homem.
— Sabeis que ele presidirá ao sínodo que irá reunir-se em Aachen
neste Verão?
— Já ouvi dizer.
Agora que ela tinha deixado de o pressionar, ele voltou à sua
atitude jovialmente descontraída.
— É possível que também tenhais ouvido dizer qual será o tema
principal da discussão nessa reunião?
— Gostaria de saber — respondeu ele delicadamente, sem se
aperceber aonde ela queria chegar.
— Certas... irregularidades — ela lançou a armadilha com cuidado
— na conduta do episcopado.
— Irregularidades?
Ele não percebeu o que ela queria dizer. Ela tinha de ser mais
directa.
— O meu primo pensa levantar a questão dos votos episcopais,
especialmente — e olhou-o directamente nos olhos — do voto de castidade.
Ele empalideceu.
— Ah sim?
— Parece que ele tenciona fazer disso um dos grandes temas do
sínodo. Reuniu provas acerca dos episcopados francos, que ele considera muito perturbantes. Mas, ele não conhece tão bem os episcopados nesta parte do império, portanto, tem de confiar em testemunhas locais. Nesta carta, ele pede-me expressamente que partilhe com ele alguma informação que eu possa ter sobre o vosso episcopado, Eminência.
Ela utilizou o título com desprezo evidente e ficou contente ao vê-
lo tremer.
— Tencionava responder-lhe agora — continuou ela, suavemente
— mas, os pormenores do enxoval da rapariga têm-me mantido muito ocupada. Aliás, os planos para a festa de casamento tornar-me-iam impossível responder-lhe. Claro que, agora, que o casamento vai ser adiado...
Deixou o raciocínio em suspenso.
Ele ficou como uma pedra, calado, prudente. Ela ficou um pouco
surpreendida. Ele era mais esperto do que ela pensava.
Houve apenas uma coisa que o traiu. No fundo dos seus olhos
sonolentos e papudos, havia uma centelhazinha inegável de medo.
Richild sorriu.
Joana estava sentada numa pedra, preocupada e triste. Luke,
deitado à sua frente, colocou a cabeça no seu colo, olhando-a fixamente com os seus olhos opalescentes.
— Também tens saudades dele, não é? — disse ela, coçando
gentilmente o pêlo do lobo branco.
Se não fosse o Luke, ela estava completamente sozinha. Geraldo já tinha partido havia uma semana. Joana sentia a sua
falta com uma dor quase física que a surpreendia. Podia colocar a mão sobre o local exacto do peito onde a dor era mais aguda; era como se o seu coração lhe tivesse sido retirado do peito, desfeito, e tivesse sido substituído.
Ela sabia por que motivo ele tinha partido. Depois do que se tinha
passado entre eles junto ao rio, ele teve de partir.
Precisavam de estar um tempo afastados para arrumarem as ideias
e deixarem arrefecer a paixão. Ela compreendia, mas o seu coração revoltava-se.
Porquê?, perguntava-se ela a si mesma milhares de vezes. Porque
tem de ser assim? Richild não amava Geraldo, nem ele a amava.
Discutia consigo mesma, ensaiando os argumentos a favor desta
situação, tentando convencer-se de que era melhor assim, mas acabava sempre por voltar àquele que era um facto inalterável: ela amava Geraldo.
Abanou a cabeça, furiosa consigo própria. Se Geraldo era
suficientemente forte para fazer isto por ela, como poderia ela não o ser? O que não podia ser alterado tinha de ser suportado. Concentrou-se numa nova resolução: quando Geraldo voltasse, tudo seria diferente. Bastar-lhe-ia estar perto dele, falar e rir com ele, como tinham feito sempre... antes.
Seriam como mestre e pupilo, padre e freira, irmão e irmã. Ela
apagaria da memória os seus braços em redor dela, os seus lábios nos dela...
Wido, o intendente, aproximou-se subitamente. — A senhora quer falar contigo.
Joana seguiu-o, passando pelo portão, a caminho do pátio, com o
Luke a correr ao seu lado. Quando chegaram ao corredor interior, Wido apontou para Luke:
— O lobo, não.
Richild não gostava de cães e proibiu que eles entrassem em casa,
como nas outras mansões.
Joana ordenou a Luke que ele se deitasse e esperasse no pátio. O guarda levou-a através do pórtico coberto, para o salão grande,
cheio de servos que preparavam a refeição da tarde.
Prosseguiram a caminho do terraço, onde Richild esperava. — Mandastes-me chamar, senhora?
— Senta-te.
Joana ia a sentar-se numa cadeira que estava ali, mas Richild
mandou-a sentar num banco em madeira, junto a uma pequena escrivaninha. Joana sentou-se.
— Vais escrever uma carta.
Tal como todas as outras senhoras nobres nesta região do Império,
Richild também não sabia ler nem escrever. Wala, o capelão de Villaris, normalmente, era o seu escriba. Wido também sabia escrever um pouco e, por vezes, servia Richild nesta tarefa.
Então, porque me terá ela mandado chamar a mim?, pensou Joana. Richild bateu com o pé impacientemente. Com um ar entendido,
Joana observou as penas que se encontravam sobre a mesa e escolheu a mais afiada. Pegou numa folha de pergaminho fresco, mergulhou a pena no tinteiro e acenou a Richild.
— De Richild, condessa, senhora de Villaris — ditou Richild. Joana escreveu rapidamente. O som da pena a esgravatar ecoou no
silêncio de morte da sala.
— Ao cónego de Ingelheim, saudações.
Joana levantou os olhos.
— Para o meu pai?
— Continua — ordenou Richild num tom que indicava que não
toleraria perguntas. — A vossa filha, Joana, tendo atingido quase quinze anos de idade, estando, portanto, em idade casadoira, não será autorizada a prosseguir os seus estudos na escola.
Joana parou imediatamente de escrever.
— Como tutora da rapariga e zelando pelo seu bem-estar —
continuou Richild, tencionando prosseguir o ditado — arranjei um casamento vantajoso com Iso, filho do ferreiro da cidade, um homem próspero. O casamento ocorrerá dentro de dois dias. Os termos do acordo são os seguintes...
Joana levantou-se de um salto, fazendo cair o banco. — Porque fazeis isto?
— Porque assim o decidi — havia um sorrizinho malévolo nos
lábios de Richild. — E porque posso fazê-lo.
Ela sabe, pensou Joana. Ela sabe de Geraldo e de mim. O sangue
subiu-lhe ao rosto tão rapidamente que ela pensou que a sua pele ia arder.
— Sim, Geraldo contou-me tudo acerca do interludiozinho
ridículo à beira-rio — Richild riu-se divertidamente. — Acreditaste mesmo que os teus beijos desajeitados lhe tinham agradado? Rimo-nos deles nessa mesma noite.
Joana estava demasiado chocada para responder. — Estás surpreendida? Não devias estar. Pensaste que eras a
primeira? Minha querida, és apenas a última conta no longo colar de conquistas de Geraldo. Não o devias ter levado tão a sério.
Como sabe ela o que se passou entre nós? O Geraldo contou-lhe?
Joana sentiu de repente um frio como se tivesse sido exposta a uma corrente de ar.
— Não o conheceis — disse ela com firmeza.
— Sou a sua esposa, criança insolente.
— Não o amais.
— Não — admitiu ela. — Mas, também não tenciono ser...
incomodada por uma insignificante filha de coloni!
Joana tentou organizar os seus pensamentos.
— Não podeis fazer isto sem a aprovação do bispo Fulgêncio. Foi
ele que me trouxe para a escola; não me podeis tirar dela sem a sua autorização.
Richild deu-lhe para a mão uma folha de pergaminho com o selo
de Fulgêncio.
Joana leu-a rapidamente, depois, voltou a lê-la mais devagar, para
ter a certeza de não ter cometido um erro. Não havia dúvida: Fulgêncio tinha suspendido os seus estudos na escola. O documento tinha também a assinatura de Odo. Joana imaginava o prazer que lhe devia ter dado fazer aquela assinatura.
O coração de Richild rejubilava ao ver Joana a ler. A arrogante
insignificanciazinha estava a descobrir como era insignificante. E disse:
— Não vale a pena continuar a discutir. Senta-te e acaba a carta
para o teu pai.
Joana respondeu em tom de desafio:
— Geraldo não vos deixará fazer isto.
— Criança tola, foi ideia dele.
Joana pensou rapidamente.
— Se o casamento é ideia de Geraldo, porque haveis esperado a
sua partida para o arranjar?
— Geraldo é demasiado... mole. Faltou-lhe a coragem para te
dizer. Já o vi fazer o mesmo com outras. Pediu-me que eu resolvesse o problema. E foi o que eu fiz.
— Não acredito em vós — Joana recuou, lutando para reter as
lágrimas. — Não acredito em vós.
Richild suspirou.
— O assunto está arrumado. Terminas a carta ou tenho de chamar
Wala?
Joana rodopiou e saiu da sala. Antes de ter chegado ao salão,
ouviu a campainha de Richild a tocar, chamando o seu capelão.
Luke estava à espera onde ela o tinha deixado. Joana caiu de
joelhos ao lado dele. O seu corpo aconchegou-se ao dela afectuosamente, colocando a cabeça sobre os seus ombros. A sua presença reconfortante ajudou a acalmar a efervescência de emoções que Joana sentia.
Não posso entrar em pânico. É isso que ela quer. Tinha de pensar, planear o que havia de fazer. Mas, o seu
pensamento rodopiava e voltava sempre ao mesmo.
Geraldo.
Onde está ele?
Se ele estivesse aqui, Richild nunca teria podido fazer isto. A não
ser que ela esteja a dizer a verdade e o casamento tenha sido mesmo ideia do Geraldo.
Joana afastou o pensamento de traição. Geraldo amava-a; nunca
permitiria que ela casasse contra a sua vontade com um homem que nem sequer conhecia.
Talvez voltasse a tempo de o impedir. Talvez... Não. Ela não podia deixar que o seu futuro estivesse dependente
de um golpe da sorte. O pensamento de Joana, embotado pelo choque e o medo, continuava suficientemente lúcido para compreender isto.
Geraldo não deve voltar nas próximas duas semanas, o casamento
ocorrerá daqui a dois dias.
Ela tinha de se livrar daquela situação. Não podia levar aquele
casamento por diante.
O bispo Fulgêncio. Tenho de ir ter com ele, falar com ele,
convencê-lo de que este casamento não pode acontecer.
Joana tinha a certeza que Fulgêncio não tinha assinado aquele
documento de bom grado. Ele já tinha demonstrado que gostava de Joana, através de pequenas delicadezas, e que ficava satisfeito com o seu aproveitamento na escola — especialmente porque era um espinho no coração de Odo.
Richild deve ter algum poder sobre ele para ter conseguido que ele
concordasse com isto.
Se a Joana falasse com ele, talvez o convencesse a desmarcar o
casamento — ou, pelo menos, a adiá-lo, até que Geraldo regressasse.
Talvez ele não me receba. Por muito que tivesse sido forçado a
aceitar o casamento, teria relutância — talvez até vergonha — em a receber agora. Se ela pedisse uma audiência, ser-lhe-ia negada, provavelmente.
Sufocou o medo, forçando-se a si mesma a pensar logicamente. No domingo, Fulgêncio vai celebrar o pontifical. Entrará em
procissão na catedral. Aproximar-me-ei dele e, se for preciso, arrojar-me-ei aos seus pés. Não me interessa. Ele há-de parar e ouvir-me-á; eu obrigá-lo-ei a fazê-lo.
Olhou para o Luke:
— Será que vai resultar, Luke? Será que bastará para me salvar?
Ele inclinou a cabeça, num tom interrogativo, como se estivesse a
tentar compreender. Era um gesto que divertia sempre o Geraldo. Joana abraçou o lobo branco, enterrando a cara no pêlo alto do seu pescoço.
Os notários e os outros clérigos vinham à frente, numa procissão
solene a caminho da catedral. Atrás deles, a cavalo, vinham os membros do clero, diáconos e subdiáconos, todos esplendorosos. Odo cavalgava entre eles, vestido com paramentos castanhos, com uma expressão altiva e desagradável.
Quando viu a Joana, junto ao grupo de pedintes e peticionários à
espera do bispo, os seus lábios esboçaram um sorriso malévolo.
Por fim, apareceu o bispo, vestido de seda branca, montando um
corcel magnífico ajaezado de carmesim. Imediatamente atrás, seguiam os altos dignitários do palácio episcopal: o tesoureiro, o camareiro-mor e o encarregado das esmolas. A procissão parou e os pedintes andrajosos formaram imediatamente um círculo à sua volta, pedindo esmolas em nome de Santo Estêvão, patrono dos indigentes. O responsável pelas esmolas distribuía esmolas entre eles.
Joana aproveitou para se aproximar do local onde o bispo
esperava, com o cavalo a bater com os cascos no chão, impaciente.
Caiu de joelhos.
— Eminência, ouvi a minha súplica...
— Já sei do que se trata — disse o bispo sem olhar para ela — já
tratei do assunto. Não vou ouvir esta peticionária.
Esporeou o cavalo, mas Joana levantou-se e agarrou-se às rédeas,
fazendo-o parar.
— Este casamento será a minha ruína — ela falava depressa e
baixinho para que ninguém ouvisse. — Se não podeis fazer nada para o impedir, pelo menos, podeis, pelo menos, adiá-lo por um mês?
Ele fez menção de prosseguir, mas Joana continuava a segurar as
rédeas. Dois dos guardas precipitaram-se sobre ela e tê-la-iam tirado dali se o bispo não lhes tivesse feito um sinal com a mão.
— Um dia? — pediu Joana. — Peço-vos, Eminência, dai-me um
dia!
Mortificada, porque tinha decidido mostrar-se forte, começou a
soluçar.
Fulgêncio era um homem fraco, com muitos pecados, mas o seu
coração não era duro. Os seus olhos encheram-se de simpatia, enquanto se baixava para acariciar o cabelo dourado de Joana.
— Minha filha, não te posso ajudar. Tens de te resignar ao teu
destino que, afinal, é natural para uma mulher — debruçou-se e sussurrou. — Mandei tirar informações acerca do rapaz que será teu marido. É um homem simples; não terás dificuldade em suportar a tua sorte.
Fez sinal aos guardas, que retiraram as rédeas das mãos de Joana e
a empurraram para o meio da multidão. Abriu-se uma ala para ela passar. Ao fazê-lo, tentando esconder as suas lágrimas, Joana ouviu os aldeões a rirem-se baixinho.
No meio da multidão, viu João. Foi ter com ele, mas ele virou-lhe
as costas.
— Vai-te embora! — gritou ele. — Odeio-te!
— Porquê? O que fiz eu?
— Sabes muito bem o que fizeste!
— João, o que se passa? O que aconteceu?
— Tenho de deixar Dorstadt! — gritou ele. — Por tua causa! — Não percebo.
— O Odo disse-me: tu não pertences aqui. — João imitou a
entoação nasalada do mestre de escola. — Só te deixámos ficar por causa da tua irmã.
Joana estava chocada. Tinha estado tão envolvida no seu próprio
dilema que não tinha pensado nas suas consequências para o João. Ele era um estudante fraco; eles só tinham ficado com ele por causa da sua forte ligação a ela.
— Este casamento não é uma escolha minha, João. — Tu sempre estragaste a minha vida e, agora, estás a fazê-lo
outra vez!
— Não ouviste o que eu acabei de dizer ao bispo? — Não me interessa! É tudo culpa tua. É sempre tudo por tua
culpa!
Joana estava atónita.
— Tu detestas estudar. Porque estás preocupado se te mandarem
embora da escola?
— Tu não compreendes — ele olhou por cima do ombro dela.
Nunca compreendes. Joana virou-se e viu os rapazes da escola a conversarem uns com os outros. Um deles, apontou para eles e segredou qualquer coisa aos outros, ao que todos começaram a rir-se.
Então, eles já sabem, pensou Joana. Claro. Odo não teve qualquer
respeito pelos sentimentos de João. Olhou para o irmão, com pena. Devia ter sido difícil, quase insuportável, separar-se dos seus amigos por causa dela. Tinha-se juntado a eles contra ela, muitas vezes. Mas, Joana compreendia porquê. João nunca tinha querido senão ser aceite, ser acolhido.
— Vais ficar bem, João — disse ela, docemente. — Agora, és livre
de voltar para casa.
— Livre? — João soltou uma gargalhada amarga. — Livre como
um monge!
— O que queres dizer com isso?
— Tenho de ir para o mosteiro de Fulda! O pai mandou instruções
ao bispo pouco depois de nós termos chegado. Se eu não conseguisse progredir na escola, tinha de ir para a irmandade de Fulda!
Então era esta a origem da fúria do João. Uma vez aceite na
irmandade, não poderia sair. Nunca poderia ser um soldado, nem cavaleiro do exército imperial, como ele sonhava.
— Talvez ainda haja uma solução — disse Joana. — Podemos
voltar a pedir ao bispo. Talvez se formos os dois a pedir-lhe, ele...
O seu irmão fulminou-a com o olhar, procurando palavras para
exprimirem o que sentia.
— Quem... quem me dera que nunca tivesses nascido! Virou-lhe as costas e fugiu.
Profundamente abatida, Joana regressou a Villaris. Joana sentou-se perto da ribeira onde ela e Geraldo se tinham
beijado algumas semanas antes. Parecia que tinha passado uma eternidade desde então. Olhou para o Sol; faltava apenas uma ou duas horas para a hora sexta. Por essa altura, no dia seguinte, ela estaria casada com o filho do ferreiro.
A não ser que...
Observou a linha de árvores que marcava o limite da mata. A
floresta que rodeava Dorstad era tão densa e extensa que uma pessoa podia esconder-se nela dias ou semanas a fio, sem ser descoberta. Geraldo regressava dali a um ou dois dias. Será que ela conseguiria sobreviver até lá?
A floresta era perigosa; havia animais selvagens e auroques e...
lobos. Ela lembrou-se da violência selvagem da mãe de Luke, quando se atirou contra as grades da jaula, com os dentes afiados brilhando ao luar.
Levo o Luke comigo, pensou ela. Ele proteger-me-á e ajudar-me-á
a arranjar comida. O jovem lobo era já um lesto caçador de coelhos e de outras presas abundantes naquela época do ano.
O João, pensou ela. E o João? Ela não podia fugir sem lhe dizer. Ele pode vir comigo! Claro! Era uma solução para os problemas
dos dois. Ficavam juntos na floresta, à espera que Geraldo voltasse. Geraldo havia de tratar de tudo, não só no que lhe dizia respeito a ela, mas também ao seu irmão.
Tinha de falar com o João. Dizer-lhe para ele se encontrar com ela
na floresta, naquela noite, para trazer o seu arco e a sua flecha e a sua besta.
Era um plano desesperado. Mas, ela estava desesperada. Encontrou Dhuoda no quarto. Apesar de só ter dez anos, ela era
uma rapariga alta, bem desenvolvida para a idade. A sua semelhança com a sua irmã Gisla era iniludível. Saudou Joana, excitada.
— Acabei de ouvir! Amanhã, é o dia do teu casamento! — Não se eu o conseguir evitar — respondeu Joana rudemente. Dhuoda ficou surpreendida. Gisla estava tão ansiosa, quando foi
do seu casamento.
— Então, ele é feio! — a sua face brilhou com um horror infantil
— É desdentado? Tem escrófula?
— Não. — Joana não conseguiu deixar de sorrir. — É jovem e
normal, segundo me dizem.
— Então, porque...
— Não tenho tempo para te explicar, Dhuoda — disse Joana,
apressadamente. — Vim pedir-te um favor. És capaz de guardar um segredo?
— Sim, claro! — Dhuoda aproximou-se dela, curiosa. Joana tirou do bolso um pedaço de pergaminho enrolado. — Esta carta é para o meu irmão, João. Leva-Lho à escola. Eu
podia lá ir, mas estão à minha espera no terraço para provar uma túnica nova para o casamento. És capaz de fazer isso por mim?
Dhuoda ficou a olhar para o pedaço de pergaminho. Tal como a
sua mãe e a sua irmã, também ela não sabia ler nem escrever.
— O que diz aqui?
— Não te posso dizer, Dhuoda. Mas é importante, muito
importante.
— Uma mensagem secreta! — o seu rosto corou de excitação. — A escola fica só a duas milhas daqui. Podes ir e vir numa hora,
se te despachares.
Dhuoda pegou no pergaminho.
— Volto em menos tempo do que isso!
Dhuoda passou a correr pelo pátio principal, procurando evitar os
criados e valetes que enchiam o local àquela hora do dia. A ideia da aventura espevitou-a. Sentia o frio macio do pergaminho na mão e teve pena de não poder ler o que ali estava escrito. A sabedoria de Joana enchia-a de admiração.
Esta aventura misteriosa era uma mudança bem-vinda na
monotonia do seu quotidiano em Villaris. Além disso, estava contente de poder ajudar a Joana. Joana era sempre simpática com ela; explicava-lhe todo o tipo de coisas interessantes — ao contrário da mamã, que perdia a paciência e se zangava com tanta facilidade.
Estava quase no portão de saída, quando ouviu um grito. — Dhuoda!
A voz da mamã. Dhuoda continuou, como se não tivesse ouvido,
mas, quando ia a passar pelo portão, o porteiro agarrou-a e obrigou-a a esperar.
Ela virou-se para a mãe.
— Dhuoda! Onde vais?
— A parte nenhuma.
Dhuoda escondeu o pergaminho atrás das costas. Richild
apercebeu-se do movimento rápido e desconfiou.
— O que é isso?
— N-nada — titubeou Dhuoda.
— Dá-me isso.
Richild estendeu a mão imperativamente.
Dhuoda hesitou. Se desse à mãe o pergaminho, trairia o segredo
que Joana lhe tinha confiado. Se desobedecesse...
A mãe olhou para ela, com os olhos exprimindo ira. Ao olhar para
aqueles olhos, Dhuoda compreendeu que não tinha alternativa.
Na última noite antes do casamento de Joana, Richild insistiu que
ela dormisse num quartinho perto da sua própria câmara — um privilégio reservado, normalmente, apenas a crianças doentes ou à sua aia favorita. Era uma honra especial concedida à noiva, segundo tinha dito Richild, mas Joana tinha a certeza que ela apenas queria vigiá-la. Não importava.
Quando Richild adormecesse, Joana podia esgueirar-se do quarto
tão facilmente como se estivesse no dormitório.
Ermentrude, uma das criadas, entrou no quartinho, trazendo uma
malga de vinho tinto com especiarias.
— Da parte da senhora Richild — disse ela — para vos presentear
nesta noite.
— Não quero — Joana afastou a malga. Não aceitava favores de
uma inimiga.
— Mas, a senhora Richild disse para eu ficar aqui enquanto o
bebeis e para levar a malga comigo.
Ermentrude desejava fazer tudo quanto lhe mandavam, uma vez
que só tinha doze anos e era nova no serviço da casa.
— Então, bebe-o tu — disse Joana, irritada. — Ou derrama-o para
o chão. Richild nunca virá a saber.
O rosto de Ermentrude iluminou-se. Não lhe tinha ocorrido fazer
aquilo.
— Sim, menina. Obrigado, menina.
Virou-se para se ir embora.
— Um momento.
Joana voltou a chamá-la, reconsiderando. A malga estava cheia de
um vinho aromático, espesso, brilhando na luz nocturna. Se queria sobreviver de noite na floresta, ia precisar de todo o sustento que conseguisse. Não podia permitir-se gestos de um orgulho tolo. Pegou na malga e bebeu o líquido de um trago. Ficou com a marca do líquido da malga em torno dos lábios e com um sabor estranho na boca. Limpou-a com a manga, depois devolveu a malga a Ermentrude que saiu apressadamente.
Joana apagou a vela e deitou-se no escuro, à espera. O colchão de
penas envolveu-a com uma maciez que lhe era estranha; estava acostumada à palha simples da sua cama, no dormitório. Antes queria que Richild a tivesse deixado dormir na sua própria cama, ao lado de Dhuoda. Não a tinha visto desde que lhe tinha entregado a mensagem. Ela tinha ficado toda a tarde enclausurada nos aposentos de Richild, rodeada de criadas ocupadas a arranjar o seu vestido de noiva e a juntar as roupas e pertences que iriam com ela, como dote.
Será que Dhuoda tinha entregado a mensagem ao João? Não podia
ter a certeza. Esperaria pelo João na clareira da floresta; se ele não viesse, ela e Luke partiriam sozinhos.
Ouviu a respiração profunda e lenta de Richild, no quarto ao lado.
Esperou mais um quarto de hora para ter a certeza de que ela estava a dormir. Depois, levantou-se, esgueirou-se silenciosamente de entre os cobertores.
Entrou no quarto de Richild. Ela estava deitada imóvel, respirando
regular e profundamente. Joana passou junto à parede, saindo pela porta.
Mal saiu, os olhos de Richild abriram-se.
Joana deslocou-se em silêncio através das salas, até chegar ao
pátio exterior. Respirou fundo, sentindo-se um pouco tonta.
Estava tudo silencioso. Havia um único guarda, encostado à
parede, perto do portão, com a cabeça caída sobre o peito, ressonando. A sombra de Joana avolumou-se grotescamente sobre a terra, ao luar. Mexeu a mão e um gesto gigantesco imitou-a.
Joana assobiou baixinho para chamar o Luke. O guarda mexeu-se.
Luke não apareceu. Mantendo-se na sombra, dirigiu-se para o canto onde Luke costumava dormir; não queria correr o risco de acordar o guarda, com o barulho.
De repente, sentiu que o chão lhe fugia debaixo dos pés. Sentiu uma náusea e agarrou-se, estonteada, a um poste. Benedicite. Não posso ficar doente agora.
Lutando contra as tonturas, atravessou o pátio. Viu Luke no canto
oposto. O jovem lobo estava deitado de lado, com os seus olhos opalescentes a olharem, cegos, para a Lua e com a língua pendente fora da boca. Ela baixou-se para lhe tocar e sentiu o seu corpo frio por baixo do macio pêlo branco. Os seus olhos caíram num pedaço de carne abocanhada, caído no chão. Ficou a olhar para ele, espantada. Pousou uma mosca no sangue húmido que rodeava a carne. Ficou ali, a beber, depois, levantou voo, deu umas voltas no ar e caiu subitamente no chão. Não voltou a mexer-se.
Joana começou a sentir um silvo agudo nos ouvidos. Parecia que o
ar ondulava à sua volta. Recuou, voltando-se para começar a correr, mas o chão voltou a fugir-lhe debaixo dos pés, acabando por se levantar, ao seu encontro.
Não sentiu os braços que a levantaram do local onde ela caiu e a
levaram outra vez para dentro.
O ranger das rodas mantinha um ritmo melancólico, acompanhado
pelo bater dos cascos dos cavalos, enquanto a carruagem avançava na direcção da catedral, levando Joana para a missa do seu casamento.
Tinha sido acordada à força naquela manhã, demasiado tonta para
se aperceber do que se estava a passar. Com os sentidos embotados, deixou que as criadas, que giravam à sua volta, lhe vestissem o vestido de noiva e a penteassem.
Mas, os efeitos da droga estavam a passar e Joana começou a
recuperar a memória. Foi o vinho, pensou ela. Richild pôs qualquer coisa no vinho. Joana pensou em Luke, jazendo frio e sozinho na noite. A garganta apertou-se-lhe. Tinha morrido sem consolo e companhia; Joana esperava que ele não tivesse sofrido muito. Devia ter dado prazer a Richild envenenar a sua carne; ela sempre o tinha detestado porque sentia que ele representava a ligação existente entre Geraldo e Joana.
Richild seguia no carro, à frente. Estava magnificamente vestida
com uma túnica de seda azul, com o cabelo preto enrolado elegantemente em torno da cabeça e preso com uma tiara em prata com esmeraldas encrostadas. Ela era bonita.
Porque não me matou a mim também?, pensou a Joana
lentamente.
Sentada num carro que se aproximava cada vez mais da catedral,
doente no corpo e no coração, com Geraldo longe e sem maneira de fugir, Joana antes queria que ela o tivesse feito.
As rodas batiam barulhentamente no piso irregular do pátio da
catedral e o cocheiro fez sinal para mandar parar os cavalos. Apareceram imediatamente dois criados de Richild. Com uma solenidade de circunstância, ajudaram Joana a sair do carro.
Junto da catedral, tinha-se juntado uma multidão enorme. Era a
Festa dos Primeiros Mártires, um feriado religioso, assim como a missa do casamento de Joana e toda a cidade se tinha reunido para a ocasião.
À frente da multidão, Joana reparou num rapaz alto, rude, ossudo,
junto aos seus pais. O filho do ferreiro. Reparou na sua expressão taciturna e no seu abatimento. Quer-me tanto para esposa como eu o quero para esposo. Porque haveria de querer?
O seu pai empurrou-o; ele aproximou-se de Joana e ofereceu-lhe o
braço. Ela aceitou-o e ficaram lado a lado, enquanto Wido, o intendente de Richild, leu a lista do dote de Joana.
Joana olhou na direcção da floresta. Agora, já não podia correr e
esconder-se lá. A multidão rodeava-a e os homens de Richild estavam junto dela, vigiando-a.
Entre os curiosos, Joana viu Odo. Junto dele, estavam os rapazes
da escola, a cochichar, como costume. João não estava com eles. Ela procurou na multidão e encontrou-o do outro lado, ignorado pelos seus companheiros. Agora, estavam ambos sozinhos, só se tinham um ao outro. Os olhos dela procuraram-no, oferecendo-lhe conforto. Surpreendentemente, ele não desviou os olhos e retribuiu-lhe o olhar, com um rosto que manifestava sofrimento.
Tinham sido estranhos um ao outro durante muito tempo, mas,
naquele momento, voltavam a estar os dois juntos, irmão e irmã, unidos numa compreensão mútua. Joana manteve os olhos fixos nele, sem querer quebrar o frágil elo que os unia.
O intendente acabou a leitura. A multidão aguardava, na
expectativa. O filho do ferreiro levou Joana para a catedral.
Richild e a sua comitiva seguiram atrás deles, seguidos pelos
aldeões.
Fulgêncio estava à espera diante do altar. Quando Joana e o rapaz
se aproximaram, ele mandou-os sentar. Primeiro, seria celebrada a missa solene, depois, a do casamento.
— Omnipotens sempiterne Deus qui me peccatoris. Como costume, Fulgêncio titubeava o latim, mas Joana mal
reparou. Ele fez sinal a um acólito para que ele preparasse o ofertório e começou a oração de oblação.
— Suscipe sanctum Trinitas...
Ao seu lado, o filho do ferreiro baixou a cabeça reverentemente.
Joana tentou rezar também, baixando a cabeça e balbuciando as palavras, mas não havia substância para a forma; dentro dela, só havia um enorme vazio.
Começou o momento da mistura da água com o vinho. — Deus qui humanae substantiae...
As portas da catedral abriram-se com um estrondo. Fulgêncio
abandonou a sua luta com a missa em latim e olhou para a entrada, incrédulo. Joana virou a cabeça, tentando descobrir a origem desta intromissão sem precedentes. Mas, as pessoas atrás dela tapavam-lhe a visão.
Depois, viu-o. Uma criatura enorme, com a aparência de um
homem, mas um palmo mais alto do que qualquer outro homem, a contraluz, à entrada da porta. A sua sombra projectava-se na escuridão interior. O seu rosto não tinha expressão, parecia feito em metal. Os seus olhos estavam tão escondidos nas suas órbitas que Joana mal os conseguia ver. No cimo da cabeça, tinha cornos dourados.
Do meio da multidão, ouviu-se uma mulher gritar. Woden, pensou Joana. Há muito que tinha deixado de acreditar
nos deuses de sua mãe, mas aquele era Woden, tal como a mãe o tinha descrito, subindo a nave central.
Veio salvar-me?, pensou ela.
Quando ele se aproximou, ela viu que o rosto metálico e os cornos
eram uma máscara, parte de um complicado elmo de combate. A criatura era um homem, não era um deus. Saía-lhe uma longa cabeleira loura encaracolada do seu elmo, caindo-lhe sobre os ombros.
— Normandos! — gritou alguém.
O intruso continuou sem parar. Ao chegar ao altar, levantou uma
pesada espada, de dois gumes, e desfechou-a brutalmente na tonsura de um dos clérigos assistentes. O homem caiu, com o sangue espirrando do buraco onde tinha estado a sua cabeça.
Caiu tudo no caos. À volta de Joana, toda a gente gritava e
procurava fugir. Joana foi arrastada pela multidão, entalada de tal forma entre corpos que se debatiam, que os seus pés deixaram de tocar o chão. A onda de aldeões aterrorizados dirigiu-se para a porta, depois, parou abruptamente.
A saída estava bloqueada por outro intruso, vestido para o
combate, como o primeiro, mas trazendo um machado, em vez de uma espada.
A multidão hesitou. Joana ouviu gritar lá fora e, depois,
apareceram à porta mais normandos — pelo menos, uma dúzia.
Vieram a correr direitos à multidão, soltando gritos medonhos e
brandindo machados em ferro enormes.
Os aldeões lutavam e passavam uns por cima dos outros para
fugirem aos golpes assassinos. Joana foi empurrada por trás e caiu ao chão. Sentiu que lhe passavam por cima das costas e levantou os braços para proteger a cabeça. Alguém lhe pisou a mão direita com toda a força e ela gritou:
— Mamã! Ajuda-me! Mamã!
Lutando para se libertar de ser esmagada, rastejou até chegar a um
canto livre. Olhou para o altar e viu Fulgêncio cercado de normandos. Lutava com eles, brandindo a grande cruz de madeira que estava por trás do altar, que ele tinha arrancado da parede. Balançava-a com força, ao mesmo tempo que os seus atacantes avançavam e recuavam, tentando atingi-lo com as espadas, mas sem conseguirem entrar no círculo da sua defesa. Fulgêncio desferiu um golpe num normando que fez com que ele voasse para o outro lado do coro.
Ela rastejou no meio do barulho e do fumo — havia fogo? — à
procura do João. À sua volta, ouviam-se gritos lancinantes, gritos de guerra e gemidos de dor e terror. O chão estava coberto de cadeiras viradas e de corpos a escorrer sangue.
— João — chamou ela.
Ali, o fumo era mais espesso; ardiam-lhe os olhos e não conseguia
ver bem.
— João!
Mal ouvia a sua voz, no meio da confusão.
Sentiu uma corrente de ar passar-lhe pelas costas. Atirou-se para o
lado, instintivamente. A lâmina do normando, que tinha sido apontada ao seu pescoço, fez-lhe apenas um golpe na face.
O golpe atirou-a ao chão, onde ela se contorceu de dores, com a
mão na cara.
O normando ficou diante dela, com um brilho assassino nos seus
olhos azuis. Ela recuou, tentando fugir, mas foi em vão.
O normando levantou a espada para desferir o golpe final. Joana protegeu a cabeça com os braços, virando a cara para o lado. O golpe não veio. Ela abriu os olhos para ver a espada a cair das
mãos do seu agressor. O sangue corria-lhe dos cantos da sua boca, enquanto ele caía lentamente no chão. Por trás dele, estava João, segurando a lâmina ensanguentada da faca de cabo de osso do seu pai.
Os seus olhos brilhavam com um entusiasmo estranho. — Trespassei-lhe o coração! Viste? Ele ia matar-te! Ela ficou horrorizada.
— Vão matar-nos a todos! — agarrou-se a João. — Temos de
fugir, temos de nos esconder!
Ele libertou-se dela.
— Apanhei outro. Ele veio direito a mim com um machado, mas
eu cortei-lhe a garganta.
Joana procurava desesperadamente um sítio para se esconder. A alguns passos dela, havia um oratório. A sua fachada em
madeira esculpida estava coberta de painéis representando a vida de São Germano. E era oco. Talvez tivesse espaço suficiente...
— Depressa — gritou ela para o João — anda!
Puxou pela manga da sua túnica para ele se baixar ao seu lado.
Fazendo-lhe sinal para que a seguisse, rastejou na direcção do oratório. Sim! Havia espaço suficiente para se esconderem.
Estava escuro. Passava apenas um fio de luz por uma pequena
fenda na junção dos painéis.
Ela escondeu-se num canto, encolhendo as pernas para que João
também coubesse. Mas, ele não apareceu. Ela rastejou novamente para a saída e espreitou.
A alguns passos dela, viu-o debruçado sobre o corpo do normando
que ele matara. Estava a puxar as roupas ao homem, como se estivesse à procura de qualquer coisa.
— João! — gritou ela. — Aqui! Depressa!
Ele olhou para ela, com um olhar enlouquecido, com as mãos
ainda a mexerem no normando. Ela não se atreveu a voltar a gritar, com medo de revelar o precioso esconderijo. Depois, ele soltou um grito triunfante e levantou-se, com a espada do normando na mão.
Ela fez-lhe sinal para que ele viesse ter com ela. Ele levantou a
espada, saudando-a, e fugiu.
Hei-de ir ter com ele? Aproximou-se da abertura. Alguém — uma criança? — gritou perto dela. Um urro tremendo,
que ecoou no ar, e, depois, cessou repentinamente. O medo apoderou-se dela e ela recuou. A tremer, espreitou pela nesga entre os painéis, à procura de João.
Travava-se um combate mesmo à sua frente. Ela ouvia o som de
metal a bater em metal, viu de relance um pedaço de tecido amarelo, o reluzir de uma espada erguida. Um corpo caiu pesadamente. A luta prosseguiu, deslocando-se um pouco para o lado e ela olhou pela nave abaixo, na direcção da entrada da catedral. As amplas portas continuavam entreabertas, forçadas pelo amontoar grotesco de corpos.
Os normandos estavam a remover as suas vítimas da entrada,
deslocando-as para o lado direito da catedral.
A entrada ficou desimpedida.
Agora, disse ela para si mesma. Corre para a porta. Mas, não era
capaz de se mexer; os seus membros estavam bloqueados.
Apareceu um homem perto do seu estreito campo de visão.
Parecia tão louco e desgrenhado, que, por momentos, ela não
reconheceu que se tratava de Odo. Ele cambaleava na direcção da porta, arrastando a perna esquerda. Tinha a grande Bíblia do altar-mor apertada nos braços.
Já estava quase a chegar à porta quando dois escandinavos o
interceptaram. Ele enfrentou os seus atacantes, brandindo a Bíblia, como se ela o protegesse de espíritos malignos. Uma espada pesada cortou o livro e acertou-lhe directamente no peito. Ele ficou por momentos atónito, segurando as duas metades do livro nas mãos. Depois, caiu para trás e não se mexeu mais.
Joana escondeu-se no escuro. Ouvia gritos de moribundos por
todos os lados. Enrolada sobre si mesma, enterrou a cabeça nos braços. Sentia as batidas apressadas do seu coração nos ouvidos.
Os gritos cessaram.
Ela ouviu os normandos chamarem-se uns aos outros na sua língua
gutural. Ouviu-se um grande ruído de madeira a partir.
Inicialmente ela não compreendeu o que estava a acontecer;
depois, apercebeu-se de que eles estavam a despojar a catedral dos seus tesouros. Os homens riam e gritavam. Estavam eufóricos.
Não demoraram muito a terminar o saque. A Joana ouviu-os
gemer ao peso dos seus despojos. As suas vozes ressoavam à distância.
Hirta como uma estátua, ela sentou-se no escuro e pôs o ouvido à
escuta. Estava tudo sossegado. Dirigiu-se para a entrada do oratório e meteu a cabeça de fora.
A catedral estava destruída. Os bancos tinham sido derrubados, as