Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX
2 Adolfo Caminha, autor-político na República das Letras
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Talvez esteja nessa tensão a explicitação de uma existência ocorrida entre duas fortes estéticas literárias: o romantismo e o naturalismo, ambas cultivadas por ele, o que o coloca numa espécie de encruzilhada estética, atravessada pelo simbolismo, que certamente ele já tomara conhecimento em Fortaleza por intermédio da Padaria Espiritual ao ler o Só, do poeta português Antônio Nobre, que já andava nas mãos dos homens de letras na capital do Ceará, como afirmou Caminha. Para Sânzio de Azevedo (1996), o simbolismo cearense teve relações diretas com Portugal bem antes de tomar conhecimento do grupo encabeçado no Sul do Brasil por Cruz e Souza, a ponto de, mesmo não havendo contato entre Norte e Sul, o Brasil teria uma literatura simbolista.
É preciso retomar um fato já aqui apontado: o de que no final do século XIX várias cidades do país, entre elas Fortaleza, e sobretudo o Rio de Janeiro, passavam por grandes reformulações que atingiram não somente ruas e praças, mas corpos e mentes, reformulações estas que nem sempre foram benéficas para o conjunto da sociedade, provocando a exclusão dos setores mais pobres. Essas supostas tensões internas do pensamento de Adolfo Caminha são tensões não somente pessoais, particulares do autor, mas da sociedade da qual ele fazia parte.
Nesse verdadeiro campo minado, entre dúvidas, aflições pessoais, tensões sociais, entre a crença no progresso e a temeridade do que o mundo do bota-abaixo poderia construir de novo é que nossos intelectuais, considerados maiores ou menores, se movimentaram, ao ponto de, analisando o período conhecido como Belle Époque, quando essas tensões se intensificaram, Nicolau Sevcenko (2003) chamá-los de os "mosqueteiros intelectuais" e de "paladinos malogrados". Os primeiros eram encantados com o progresso, o cientificismo, a república; esses eram descontentes, desiludidos, enfim, malogrados em seus intentos e projetos, entre eles podemos citar: José Veríssimo, Lopes Trovão, Augusto do Anjos, Farias Brito, Euclides da Cunha e também Adolfo Caminha.
Para muitos, a República foi a vitória do arrivismo, da incompetência, da imbecilidade, da aventura política. O que resultou em um afastamento dos intelectuais na participação do poder. Nicolau Sevcenko foi categórico ao tratar do resultado inesperado que tomou o movimento pela implantação da República, sobretudo os seus resultados nos meios intelectuais:
A imensa transformação social, econômica e cultural que eles
ajudaram a realizar, atuando como catalisadores de processos
históricos, tomou um rumo inesperado e contrário às suas
expectativas. Em vez de entrarem para um universo fundado
nos valores da razão e do conhecimento, que premiasse a
inteligência e a competência com o prestígio e as posições de
comando, viram tudo reduzido ao mais volúvel dos valores: o
valor do mercado. (ibidem, p.115)
Adolfo Caminha, mesmo sendo um funcionário público, estava entre esses, ou seja, os malogrados, sobretudo se lembrarmos aqui o fato de que ele não concordava, por exemplo, com o governo de Floriano Peixoto. Fato este que Caminha (1999a, p.63-4) afirmou em uma das suas Cartas literárias:
Senhor Redator: – No atual momento da vida brasileira
parecerá um despropósito ventilar questões que não digam
direta ou indiretamente com a política militante, larga demais,
extraordinariamente bojuda para conter grande número de
sectários de todos os partidos; e o assunto desta carta funde-se
todo na obra que, sem estardalhaço nem exageradas
pretensões, acabo de publicar: a Normalista.
Muito embora. O verdadeiro artista ou homem de letras,
vivendo, por força de sua índole, uma vida puramente subjetiva
de reflexão e estudo, lamenta de si para si, no silêncio de seu
gabinete, as grandes comoções intestinas como esta que o
Brasil experimenta há dois meses, sem contudo irromper o fio
de suas idéias, nem alterar o seu modus vivendi, imiscuindo-se
noutro gênero de especulações contrárias à sua vocação.
Isso não é ser indiferente às dores da pátria – é ser coerente
com os seus princípios e subordinado à sua índole de artista.
Agora mesmo, quando vou traçando estas linhas, ouço
bombardeio, tiros surdos ao longe, mas nem por isso abandono
a idéia fixa em meu cérebro de continuar a escrever, porque o
contrário seria perder o momento psicológico, a ocasião precisa
e inadiável, em que o espírito, obedecendo a um impulso
natural e irresistível, forte como o que impele o criminoso para o
crime, reclama imperiosamente a transmissão do pensamento
para o papel.
Ninguém tem o poder de pensar, a um certo momento de sua
vida, uma coisa diferente daquela que efetivamente pensa. – É
o Sr. Ramalho Ortigão quem o afirma.
E, de fato, como hei de eu dar atenção ao bombardeio que lá
vai troando na baía, se o meu espírito está completamente
absorvido, absolutamente dominado pela idéia de fazer
literatura?
Vemos nessa longa citação que uma batalha interna acontecia no espírito de Caminha, mas o que nos parece ser também fruto do citado malogro experimentado com a instauração da República, afinal, Adolfo Caminha também era um dos que sonharam e trabalharam para o fim da Monarquia, tendo sido um dos membros do Clube Republicano do Ceará desde o seu início, como nos informa Sânzio de Azevedo, (1999, p.158) tendo mesmo pronunciado um discurso por ocasião da instalação do governo republicano provisório do Estado do Ceará "no dia seguinte ao dia da Proclamação da República".
Frota Pessoa (1902, p.219-20), que estiveram presente nos últimos momentos de Adolfo Caminha e, já em 1902, escreva sobre ele, foi feliz ao relembrar a participação de Caminha no movimento republicano em nosso país:
Nessa occasião deu-se a proclamação da Republica. O seu
romance sentimental não o impedira de contribuir para a grande
libertação. Desde os tempos de aspirante que se manifestára
republicano, com as mais avançadas idéas democráticas. Na
Escola de Marinha, quando se tratou de prestar homenagem a
Victor Hugo, elle, orador official por commisão dos collegas,
exaltou o genio revolucionario do grande morto, e isto em
presença do proprio imperador. E no Ceará fazia parte do Club
Republicano, fundado nos ultimos tempos do Imperio.
Assim, logo que foi substituído o governo do Ceará, os seus
companheiros de propaganda, collocando-se acima dos
preconceitos, que haviam banido moralmente da sociedade o
destemido marinheiro, mandaram buscal-o para participar das
festas que se realisavam, commemorando o grande
acontecimento, e, sendo-lhe dada a palavra, pronunciou um
discurso que enthusiasmou o auditório.
Diante de tanto envolvimento com as ideias republicanas, como então explicar a indiferença de Adolfo Caminha pelas coisas da pátria, pela república com que sonhara?Voltamos novamente a Frota Pessoa que nos dá como indício do malogro a rejeição dos seus companheiros de farda e de movimento político pela sua união a uma senhora já casada com um oficial do exército:
Mas nada prevaleceu contra a sanha surda dos seus
perseguidores. Em principios de dezembro o ministro da
Marinha chama-o com toda a urgencia á Capital Federal.
Debalde os seus superiores a bordo do patacho intervêm,
communicando ao governo que o official se achava de licença,
por molestia; a ordem é irrevogavel, e elle parte de novo.
Chegado ao Rio, é mandado embarcar immediatamente num
vaso de guerra que ia zarpar para a Europa.
Caminha apresentou-se a bordo e ao commandante declarou
peremptoriamente que não seguia. Conselhos, admoestações,
ameaças, tudo foi debalde. Tentou obter uma inspeção que
comprovasse a debilidade da sua saúde; foi-lhe declarado que
não lhe seria concedido nenhum attestado de moléstia, mesmo
que realmente se achassem enfermo. Nessa emergencia
adoptou um alvitre de philosopho: metteu-se em casa á espera
dos acontecimentos. O commandante mandou prevenil-o de
que o vapor só esperava por elle para levantar ferros e que não
zarparia sem leval-o a bordo. Elle respondeu pelo portador que
não iria. Parentes, amigos, camaradas á sua casa procuraram
dissuadil-o do louco proposito. O ministro estava irritadíssimo.
Foi então que o marinheiro tomou a resolução extrema: pediu a
sua demissão da armada nacional.
Demoraram-lhe o despacho do requerimento, protelaram a
solução do caso, até que, porfim, tiveram que ceder, e
Caminha, livre das cadeias disciplinares, o futuro amputado,
sem dinheiro e nomeado praticante da thesouraria da fazenda
do Caerá, chega á terra natal, jubiloso e feliz, levando o
cumprimento do seu compromisso até o sacrificio. (ibidem,
p.220-1)
Nesse excerto do texto de Frota Pessoa está uma possibilidade de explicação fundamentada na relação estreita entre vida e obra, o que resultaria numa leitura cristalizada da ficção de Adolfo Caminha tendo como palavra-chave a vingança, ou seja, os seus dois primeiros romances – A normalista e BomCrioulo – teriam sido escritos para que ele se vingasse da cidade de Fortaleza, que não aceitou a sua união com Isabel Jataí de Paula Barros, e, o segundo romance, para vingar-se da Marinha. Nesse motivo, ou seja, a vingança, unida ao ressentimento, estariam as causas para a desilusão de Caminha com as cousas e gentes da república recém-instalada.
Pápi Júnior (1897, p.5-6), escritor carioca radicado no Ceará, e contemporâneo de Adolfo Caminha é quem, no entanto, mais nos fala a respeito da participação do autor de A normalista nas lides do movimento republicano na então província do Ceará e quem nos dá uma outra possibilidade de compreender esse afastamento e desinteresse:
Foi num desses assomos de revolta que o vi, pela primeira vez,
em uma sessão do Centro Republicano, feita pelo calado da
noite, sob as ameaças da policia monarchica dominante. Era
uma sociedade utópica, gestada pelo espirito immalevolo de
doze rapazes, que visionavam para a Patria progredimentos e
liberdades.
Havia ali para os profitentes a formula de um juramento
solemne com promessas e sacrificios, – o empenho da honra e
o desperdício da vida. Esse juramento fel-o com todas as
altisonancias do seu caráter já formado pondo em phrases
possuídas a rebeldia de suas ideias, a intimidez com que havia
mais tarde de enveredar, com a sua existencia de sonhador, no
meandro das grandes mentiras sociaes, dos preconceitos da
burguezia intolerante, da inveja dos nullos e dos dentes
aguçadissimos da ignorancia pretenciosa.
A sua profissão de fé não foi a formula de uma adhesão banal e
ridícula, trazia um brado intensissimo de revolta.
Senhores! (disse ele) A Republica pode ser hoje uma aspiração
patriótica, mas, as minhas idéias, sinto que me aproximam
muito mais do campo egualitario do socialismo.
Se de início o sentimento produzido foi de alegria, o que veio a seguir foi a desilusão, de certo modo já aguardada por quem pretendia mais do governo republicano. Esses fatos aqui trazidos à tona têm como objetivo mostrar que a relação entre autores, obras e mercado está também permeada por circunstâncias sociais e pessoais, ou seja, que essas categorias, diferentemente de uma abordagem autocentrada, estão vinculadas às especificidades do espaço e do tempo que as produziu.
Esse sentimento de malogro de fim de século ou uma certa paralisação do país em todas as suas esferas foi também experimentada pelo mercado, sobretudo pelo mercado livreiro que está ligado aos autores e ao público. Como já afirmamos, parte considerável da década de 1890, portanto da primeira década da República, foi caracterizada pela estagnação, pelo sentimento de derrota que também marcou os nossos intelectuais, entre eles vários de nossos escritores. Apesar disso, era preciso publicar, ou seja, entrar em contato com os editores. No caso de Adolfo Caminha o seu primeiro editor foi Serafim Alves.
O primeiro editor o autor nunca esquece Voltemos, porém, aos editores. Foi a partir do diálogo de Caminha com o seu suposto amigo trocista, anteriormente citado, que o autor cearense traçou em seu texto algumas informações a respeito do seu primeiro editor: o senhor Serafim Alves, que publicara os seus dois primeiros livros – Voos incertos (primeiras páginas) e Judith e Lágrimas de um crente, o primeiro de poemas e o segundo duas novelas, hoje volumes raríssimos e ambos melifluamente românticos. Aos vinte anos de idade, em 1887, ano em que dera a publicidade esses dois livros, Adolfo Caminha era um jovem membro da Marinha Imperial Brasileira e aspirante a autor, tendo já publicado um dos seus primeiros textos críticos em 1885.
Ao comentar a respeito de Serafim Alves, afirmou Adolfo Caminha (1999a, p.123): "Dias depois o bom velho [Baptiste Louis Garnier] entregava a alma a Deus e um belo dote à família. Não chorei, porque... porque não tive a mínima vontade, como não choraria pela morte do Sr. Serafim Alves ou de qualquer outro livreiro da rua de S. José, por mais honesto que ele fosse". Apesar de destacar a honestidade de Serafim Alves, Adolfo Caminha não parece considerar que isso fosse um mérito, mais um valor obrigatório de todas as pessoa, pois logo em seguida ao comentário transcrito antes ele afirmou: "A melhor qualidade, a grande virtude que exalçava o finado Garnier era ser trabalhador e fazer pela vida honestamente. Ora, isso não é bastante para que um homem seja aclamado e mereça estátua. Quem não trabalha não tem direito à vida" (ibidem, p.123). A respeito de Serafim José Alves, Laurence Hallewell fez o seguinte registro:
Muito mais importante foi o negócio fundado por Serafim Alves
em 1851, no número 16 da praça D. Pedro II (hoje praça 15 de
Novembro). Como já mencionamos, nos últimos anos do século
XIX essa casa publicou mais livros no Brasil do que qualquer
outra, com exceção da Garnier e da Laemmert. Perto do final
do século, mudou-se para a rua 7 de Setembro nº. 83.18
Infelizmente, os registros de Adolfo Caminha a respeito de Serafim Alves são escassos. Salvo o fato de ele ter sido o seu primeiro editor, nada mais registrou Adolfo Caminha nesse sentido. Mas diante de tantos exemplos que reforçam a visão pejorativa de Adolfo Caminha a respeito dos editores, vale perguntar: qual a relação de Adolfo Caminha com aquele que publicou a maior parte de seus títulos?
Domingos de Magalhães
Em seu texto "Editores", Adolfo Caminha não registrou nenhum fato a respeito do editor dos seus romances A normalista, Bom-Crioulo, de No país dos ianques, memórias de viagem aos Estados Unidos e Tentação, seu último romance, que, segundo Sânzio de Azevedo (1999, p.133), "traz data de 1896, mas circulou mesmo a partir do ano seguinte". Os três primeiros títulos foram publicados por Domingos de Magalhães e o último pela livraria Laemmert, o único publicado por uma casa de editores estrangeiros. Em seu texto "Novos e velhos", Adolfo Caminha faz o seguinte registro a respeito das publicações do ano de 1893:
Se quiséssemos fechar hoje o balanço do ano que expira,
contaríamos dificilmente meia dúzia de trabalhos dignos de
figurarem na bibliografia nacional. Entretanto, este ano a messe
foi abundante, registraram-se algumas estréias promissoras,
novos e inteligentes editores vieram com o seu nobre esforço
iniciar uma época de entusiasmo, infelizmente passageiro, de
que resultaram de um lado algumas obras notáveis, e d'outro
lado muitas obrinhas de merecimento duvidoso.
Nessa citação, no que diz respeito aos editores, Adolfo Caminha estava, possivelmente, referindo-se a Domingos de Magalhães, pois esse foi, como já vimos, na década de 1890, no Brasil, a grande estreia no campo editorial, uma vez que a editora e livraria Garnier estava em um momento de declínio, o que fez que a Domingos de Magalhães, uma empresa de capital nacional, se estabelecesse na publicação de autores também nacionais. No seu início, essa nova casa editora também se situavam na região menos prestigiada do que a rua do Ouvidor. Porém, à medida que os negócios prosperavam, a Domingos de Magalhães se estabeleceu entre as lojas chiques de produtos importados e de luxo da rua do Ouvidor, como é possível constatar na capa do romance Bom-Crioulo, evidenciando, desse modo, a sua ascensão.
Ainda a respeito de Domingos de Magalhães destacamos o seguinte fato: o editor procurava entre os novos escritores aqueles cuja obra e personalidade fossem capazes de produzir algum escândalo, o que, em tese, mobilizaria o interesse dos leitores. Na introdução da edição que preparou de Missal e Broquéis, de Cruz e Souza, afirmou Ivan Teixeira (1998):
No início dos anos 90 [1890], surgiu [Domingos de] Magalhães
e Companhia. Por imposição do mercado, essa editora teve de
investir em autores inéditos, sobretudo aqueles que, com algum
escândalo, garantissem evidência ao novo empreendimento.
Isso explica o lançamento, em 1893, de dois livros estranhos à
literatura de então: Missal e Broquéis, de Cruz e Souza. Lançar
um autor negro cinco anos após a Abolição era um irresistível
apelo comercial.19
Talvez, à época, o conteúdo considerado polêmico de A normalista tenha garantido também a entrada de Adolfo Caminha no catálogo de Domingos de Magalhães, o que nos leva a acreditar que houvesse um público leitor para o que poderíamos chamar de uma "literatura escandalosa" e que o editor tinha o conhecimento prévio dos anseios dos leitores, restando-lhe, portanto, criar meios para satisfazer as necessidades do público e as suas próprias, uma vez que o seu trabalho visava, sobretudo, o lucro financeiro.
Talvez se os romances de Adolfo Caminha não tivessem a capacidade de suscitar algum escândalo no público leitor do final do século XIX eles não teriam sido publicados, o que nos faz pensar também no fato de que, não somente a edição ou impressão, mas a sua própria produção, ou seja, o emprego de um tempo de produção do texto, fosse dependente da necessidade do público, por mais que o seu autor tivesse uma compreensão, senão totalmente contrária, mas ao menos crítica em relação as imposições do que chamou do "gosto pulha da burguesia". Roger Chartier (1999b, p.35-6), ao tratar da reaparição do autor afirmou:
Dependente: ele [o autor] não é o mestre do sentido e suas
intenções expressas na produção do texto não se impõem
necessariamente nem para aqueles que fazem desse texto um
livro (livreiros-editores ou operários da impressão), nem para
aqueles que dele se apropriam para a leitura. Reprimido: ele se
submete às múltiplas determinações que organizam o espaço
social da produção literária, ou que, mais comumente,
delimitam as categorias e as experiências que são as próprias
das matrizes da escrita.
Esse fato nos mostra que a independência do autor ante o mercado, destacadamente no Brasil do final do século XIX, era bastante frágil. Apesar de ter-se mostrado consciente do que para ele seriam as condições ideais de produção, Adolfo Caminha não passou incólume aos interesses do mercado, o que não quer dizer que tenha renunciado à sua capacidade de crítica. O que esse fato nos indica é mais uma tensão entre a literatura ideal e a literatura possível, e ainda entre a vida ideal e a vida real dos homens de letras naquele período. Portanto, se algum escândalo era necessário, por que não fazê-lo?
Escândalo sim, mas com contrato
O caráter de uma suposta natureza escandalosa da obra em causa é reforçado pelo fato de que o próprio Adolfo Caminha escreveu
uma defesa20 do seu romance A normalista que, segundo ele, era acusado de "imoral", fato que se repetiu com a publicação de Bom-Crioulo, para o qual o autor escreveu um outro texto também de
defesa intitulado de 21 Um livro condemnado , apontando para a recepção controversa de sua obra, que tratava de um assunto tabu para o público leitor do período: o homoerotismo ou, utilizando o conceito vigente da época, o homossexualismo, que pelo sufixo empregado aponta para a compreensão de uma sexualidade considerada pelos saberes médico e jurídico como doentia. Vemos, pelos motivos apontados, que a Domingos de Magalhães encontrou em Adolfo Caminha o modelo ideal para a sua política de publicação. Se a editora procurava "escândalos", aquele autor os tinha para oferecer. Mas se a Domingos de Magalhães necessitava de escândalos, que os seus autores tivessem ao menos a garantia de seus direitos em contratos.
Tratando dos contratos da editora Francisco Alves, Anibal Bragança (1999) retomou a prática de alguns dos editores brasileiros ainda no século XIX e, entre eles, a atuação de Domingos de Magalhães, chegando até mesmo a citar dados referentes aos contratos de Adolfo Caminha com o editor citado:
Desconhecemos as tentativas do autor [Adolfo Caminha] que
resultaram infrutíferas, entretanto, temos os dados referentes
aos contratos dos três livros publicados por Domingos de
Magalhães. Em 17 de março de 1893 o autor assinou o contrato
para a primeira edição de A normalista, de mil exemplares, que
lhe assegurava cem exemplares da obra e mais 10% sobre a
venda do livro "caso a edição se esgote no praso de trez meses
a contar da data de seu apparecimento"; na cláusula 3a. ficava
estabelecido que "O autor Adolpho Caminha compromete-se a
não exigir mais exemplares da referida primeira edição em caso
algum". (ibidem)
Vê-se por essa citação que Aníbal Bragança lida com fontes específicas: os contratos entre as partes envolvidas na publicação de obras literárias ficcionais, ou seja, o autor e o editor, que, nesse aspecto, são mediados por um instrumento legal e jurídico, assegurando os direitos e deveres das partes citadas. Esse instrumento é também parte de um discurso jurídico que conforma a relação entre os sujeitos envolvidos na transação comercial, fato esse que está ligado pelo novo estatuto da economia de mercado que se inseriu no Brasil à medida que o país passou a interessar e a fazer parte efetiva do processo ocidental de industrialização de bens. A respeito do papel do autor nesse contexto na Europa em via de mecanização da produção do impresso afirmou Chartier (1999b, p.44): "A nova economia da escrita sugere a visibilidade plena do autor, criador original de uma obra da qual ele pode legitimamente esperar lucro".
Aníbal Bragança (1999, p.460) também apresentou dados específicos a respeito da publicação de No país dos ianques e de Bom-Crioulo. A respeito do primeiro afirmou:
O contrato para a edição de No paiz dosYankees, assinado em
15 de abril de 1894, estabeleceu que a edição seria de 2 mil
exemplares e que o autor receberia a quantia de Rs 400$000
(quatrocentos mil réis), pagos em duas prestações iguais, uma
no ato da assinatura e aoutra trinta dias após o "volume estar à
venda"; isso além de 25 exemplares, que, pela cláusula 3a.,
"não poderão ser vendidos pelo autor".
Um outro contrato regeu a publicação do romance Bom-Crioulo:
O contrato para a edição de Bom Creoulo previa a tiragem de 5
mil exemplares e foi assinado em 15 de outubro de 1894. O
autor recebeu Rs 2:000$000 (dois contos de réis), pagos em
três prestações: duas de Rs 500$000 cada e a última de Rs 1:
000&000, prevista para pagamento trinta dias depois de estar à
venda o livro. Foi paga em 30 de dezembro de 1896, véspera
da morte do autor, falecido antes de completar 30 anos.
(ibidem)
Comparando os valores pagos a Adolfo Caminha pela edição das obras citadas com os valores pagos a outros autores que publicaram suas obras também no final do século XIX, pela Editora Francisco Alves, por exemplo, pode-se considerar que o procedimento de Domingos de Magalhães como editor foi satisfatório, sobretudo no caso de Bom-Crioulo, obra que prometia causar polêmica, pelo motivo que se indicou anteriormente, e que, apesar desse fato, teve uma tiragem, como informou Bragança, de cinco mil exemplares, que pode ser considerada grande para os padrões da época, o que reforça a hipótese de um "gênero" literário escandaloso, talvez próximo dos faits-divers, do folhetim etc. Se comparado ao romance O Atheneu, de Raul Pompéia, publicado em 1896 pela Francisco Alves, Adolfo Caminha com o seu Bom-Crioulo recebeu Rs 500$000 (quinhentos réis) a mais, uma vez que pelos direitos autorais Pompéia recebeu, de forma parcelada, Rs 1:500$000. Olavo Bilac e Coelho Neto, por exemplo, receberam da editora Francisco Alves, em 1896, o valor de Rs 2:000$0000 (dois mil réis) pela edição de A pátria brasileira, o mesmo valor pago pela edição de Bom-Crioulo. Se esses valores parecem favoráveis na República das Letras, o mesmo não se pode dizer se comparados aos valores do custo de vida no Rio de Janeiro do período, como gastos com aluguel, vestuário, alimentação e bens de consumo básicos.
Viver custa caro
Lajolo & Zilberman, em Formação da leitura no Brasil, oferecem dados a respeito do custo de vida do Rio de Janeiro. Pelos dados oferecidos pode-se concluir que o valor do trabalho intelectual é sempre inferior aos gastos com bens, serviços e produtos de consumo já citados. De onde se conclui também que a luta pelos direitos do autor, travada, na visão de Adolfo Caminha, sobretudo na relação desse com os editores, é a expressão de uma luta pela sobrevivência, que se pode compreender como uma luta pela entrada no sistema literário, no campo literário e, em alguns casos, no campo de poder, uma vez que muitos dos escritores brasileiros também ocuparam cargos diversos na estrutura burocrática estatal, assumindo postos de relevo junto às instituições políticas e às autoridades, mas também tomando assento em cargos menores do segundo, terceiro e quarto escalões da vida política e pública nacionais. A respeito do campo de poder afirmou Pierre Bourdieu (1996, p.244):
Muitas das práticas e das representações dos artistas e dos
escritores (por exemplo, sua ambivalência tanto em relação ao
"povo" quanto em relação aos "burgueses") não se deixam
explicar senão por referência ao campo de poder, no interior do
qual o próprio campo literário (etc.) ocupa uma posição
dominada. O campo de poder é o espaço das relações de força
entre agentes ou instituições que têm em comum possuir o
capital necessário para ocupar posições dominantes nos
diferentes campos (econômico ou cultural, especialmente). Ele
é o lugar de lutas entre detentores de poderes (ou de espécies
de capital) diferentes que, como as lutas simbólicas entre os
artistas e os "burgueses" do século XIX, têm por aposta a
transformação ou a conservação do valor relativo das diferentes
espécies de capital que determina, ele próprio, a cada
momento, as forças suscetíveis de ser lançadas nessas lutas.
Ainda comparando os valores recebidos por Adolfo Caminha com a edição de seu romance Bom-Crioulo e outras obras publicadas à época e também observando a inserção de alguns dos escritores brasileiros do período, como os aqui já citados, devemos destacar o fato de que a geração de escritores a qual pertencia Coelho Neto, por exemplo, ainda estava se afirmando no campo intelectual como é possível constatar com a edição do já citado romance A conquista, de 1899. João Paulo Coelho de Souza Rodrigues (2006, p.68-9) afirmou a esse respeito:
A "conquista" ia tomando forma conforme vinham, aos poucos,
as vitórias, muito embora o sonho de um lugar privilegiado na
sociedade ainda não tivesse se concretizado em 1897 ou 1899
para os antigos boêmios. Daí que Coelho Neto escrevesse na
apresentação: "e, se ainda não tomamos de assalto a praça em
que vive acastelada a indiferença pública, já cantamos em
torno, e, ao som dos nossos hinos, ruem os muros abalados, e
avistamos, não longe, pelas brechas, a cidade Ideal dos nossos
sonhos".
Vemos então que a conquista do sistema literário era também tão importante quanto a conquista do sistema de poder. Adolfo Caminha não viveu muito para que triunfassem os seus esforços, ao contrário. Assim como muitos de sua geração ele não teve a oportunidade que tanto aguardava, fosse o reconhecimento advindo do campo literário, fosse o reconhecimento advindo do campo de poder. A morte prematura e as suas precárias condições de vida são um exemplo do malogro dos seus intentos. Só a permanência de sua obra, ainda que submetida à condições adversas, garantiu uma espécie de vitória.
A conquista aos poucos
Apesar de sua situação nada favorável, o percurso feito por Adolfo Caminha nos leva a crer que, aos poucos, a sua obra seria publicada pelas grandes editoras em funcionamento no Brasil do século XIX e prova disso é a publicação de Tentação, seu último romance, que se deu pela editora Laemmert. Na opinião de Hallewell, a Laemmert "Foi durante muito tempo a principal concorrente de B. L. Garnier e, no intervalo de 1893, data da morte de B. L. Garnier, e a passagem do século, quando Hippolyte Garnier decidiu revitalizar sua filial do Rio, tornou-se a principal casa editora brasileira".
Se observarmos bem, é justamente neste período que a Laemmert publica o romance de Adolfo Caminha, mais precisamente em 1896, tendo o mesmo circulado apenas em 1897, como já indicamos, ou seja, em um período em que a casa firmou-se no ramo do comércio de livros no Brasil. Assim, não somente os editores passam por um processo de ascensão, apontado, aqui, por exemplo, com a mudança de endereços, como podemos constatar na reprodução das capas dos romances de Caminha. Na capa de Tentação é possível constatar que essa casa editora mantinha, de algum modo, contatos em outras praças, que não somente o Rio de Janeiro, o que significa também o crescimento da empresa e, consequentemente, a ampliação do seu raio de ação e de divulgação das obras constantes em seu catálogo, sendo também um exemplo claro da busca por um maior número de leitores e o crescimento do mercado editorial no Brasil do final do século XIX.
A chegada na Laemmert foi o indício de que, se continuasse a produzir, Adolfo Caminha poderia ter conquistado aquilo que almejava: as condições ideais de produção. Aos poucos, o reconhecimento dos seus pares era conquistado como podemos constata na seguinte afirmação de Sânzio de Azevedo (1999, p.15):
Quinze dias antes de sua morte, em uma das reuniões que
antecederam a instalação da Academia Brasileira de Letras,
Lúcio de Mendonça, um dos seus idealizadores, havia sugerido,
entre outros, o nome de Adolfo Caminha para ocupar uma de
suas cadeiras. Era tarde, porém, e o escritor cearense talvez
haja falecido sem saber que seu nome fora lembrado para fazer
parte da mais alta instituição literária do país.
Outro fato importante que aponta para essa conquista aos poucos, ao menos da notoriedade, é que os contos que fariam parte de um livro que o escritor preparava antes de falecer, intitulado de Pequenos contos, que veio a se perder, seria editado em oficinas parisienses de uma casa editora estrangeira, como informa Sânzio de Azevedo fundamentado em um artigo publicado no periódico português A Mala da Europa: "Tem no prelo as seguintes obras; – A Normalista, segunda edição, ilustrada, e Pequenos Contos, a compor nas oficinas parisienses, editados pela Casa Fauchon, do Rio..." (ibidem, p.127).
Infelizmente, a morte prematura, aos trinta anos incompletos, não permitiram que Adolfo Caminha visse esses livros que estavam no prelo chegarem às livrarias e às mãos dos leitores. Os contos, como já dissemos, haveriam de se perder, para ser somente no ano de 2000 reunidos por Sânzio de Azevedo em um volume intitulado Contos; a segunda edição de A normalista só foi publicada muitos anos após a morte do inditoso escritor.
Figura 6 -Capado romance Tentat;:ao (Azevedo, 1999, p.187).
Diante desses fato, parece-nos válido lembrar as palavras da personagem Zuza, do romance A normalista, ao queixar-se das intrigas que sofria em Fortaleza: "Concluo o meu curso e sigo para a Europa, é o verdadeiro, ora deus!" (Caminha, 1998, p.136). Enfim, o destino era a Europa, onde a obra de Adolfo Caminha só chegou com as traduções do romance Bom-Crioulo, como apontamos anteriormente.
Arte e artista na visão de Adolfo Caminha
Se Adolfo Caminha estava preocupado com a situação do autor brasileiro, ele não deixou de pensá-la em uma escala mais ampla, apontando assim para a sua preocupação com o conceito de arte, que geralmente em seus textos críticos ele grafava com a inicial maiúscula: Arte. No trecho que transcrevemos a seguir percebemos, claramente, a universalização da sua compreensão de arte e da condição do autor:
Aqui no Brasil, como na França, como na Alemanha, como na
Escandinávia, como em toda parte, a história do artista é
sempre a mesma história inenarrável, sempre a mesma
legenda feita de desesperos, cortada de angústias cruéis, e
onde cada página marca um episódio lutuoso, uma nota
emocional, uma fatalidade sombria, um grito de dor, uma
blasfêmia recalcada... É isso que fez o grande Balzac escrever:
– "Fala-se nas vítimas causadas pela guerra, pelas epidemias;
mas quem pensa no campo de batalha das artes, das ciências
e das letras, e quantos esforços violentos para aí triunfar
amontoam mortos e moribundos?". (Caminha, 1999a, p.26)
De fato, Adolfo Caminha encarava a situação do autor e sua relação com os editores como se estivesse em um campo de guerra. Certamente por isso não lhe faltou pensar a respeito do que chamou de "meio intelectual brasileiro", apontando para os sujeitos nele existentes e para o modo como esses sujeitos procuravam se colocar. Adolfo Caminha não deixou de apontar para o modo como os autores utilizavam as mais diversas táticas e estratégias para conseguir um lugar no campo literário. Dotado de teorias evolucionistas, ele agrupou os escritores em três classes distintas, a saber:
Quem se colocar diante do "meio" intelectual brasileiro, em
frente ao pequeno círculo de escritores e artistas que, numa
sede voraz de popularidade e glória, andam a mendigar os
favores da imprensa jornalística, ordinariamente leal a um
rigoroso programa econômico e a um modus vivendi pouco
literário e muito burguês, há de reconhecer três classes
notáveis de indivíduos empenhados na luta pelo renome: a dos
nulos, ou dos felizes, que marcham triunfalmente na vanguarda,
coberta de benção protetora de seus ídolos; a grande classe
dos medíocres, numerosa como um exército, abençoada
também, e pouco menos feliz do que aquela, dominando, às
vezes, pelo charlatanismo e pela audácia irreverente; e, em
terceiro a classe oprimida, a triste classe obscura dos homens
de talento, que preferem a glória definitiva e soberana a glória
póstuma, conquistada pelo trabalho de muitos anos, e que outra
cousa não é senão a admiração quase religiosa do futuro, ao
incenso vaporoso da atualidade, às aclamações momentâneas
do presente. (ibidem, p.25, grifos nossos)
A partir dessa citação, podemos perceber um possível maniqueísmo que marca a opinião de Adolfo Caminha a respeito dos sujeitos que formam o sistema literário e estão implicados na produção da obra de arte literária. Não se trata, portanto, de uma luta de todos os autores contra todos os editores em nome dos direitos do autor, mas de uma luta pelos direitos daqueles autores que fazem do trabalho literário uma atuação profissional e colaboram de forma empenhada, para usar novamente um conceito de Antonio Candido, com a sociedade, implementando conceitos e opiniões que em determinado momento lhes parecem caros, e, assim, contribuindo para uma defesa dos valores estéticos da Arte.
O suposto maniqueísmo da opinião de Adolfo Caminha pode ser assim desfeito, uma vez que, no âmago da discussão, estão os conceitos de autor, obra e literatura, sem desconsiderar que esses estão desvinculados dos valores financeiros. Mais do que maniqueísmo, achamos por bem tratar o fato como um conjunto de tensões existentes no sistema literário e mais alargadamente no campo literário, desfazendo, por exemplo, o entendimento da existência de um corpo único: o autor, como a denotação de uma coletividade capaz de representar todos os sujeitos ligados à prática da escrita literária ficcional, afinal é evidente pela citação feita anteriormente que Adolfo Caminha não defende todos os autores, mas somente aqueles que considera fazer parte dos seus conceitos a respeito de Arte e, mais especificamente, de Literatura.
Mais do que maniqueísmo, portanto, procuramos mesmo falar em tensões que se expandem no sistema e se ampliam para os campos literário, social e econômico. A defesa feita por Adolfo Caminha dos valores financeiros como retorno prático do trabalho intelectual apresenta-se de modo coerente, levandose em consideração, sobretudo, as distinções e classificações que ele elaborou e que neste capítulo temos procurado evidenciar.
Ao final de seu texto a respeito dos editores, Adolfo Caminha (1999a, p.125) mais uma vez ocupou-se dos autores, ou melhor, da tensão entre esses e as "sanguessugas", retomando assim uma das personagens dos seus textos críticos: "Um conselho, porém, aos moços de talento: não se deixem dominar pela sanguessuga, reajam contra a mistificadora influência dos editores, porque, ou eles procedem com eqüidade remunerando a inteligência dos que trabalham, ou morrem de anemia profunda...".
Nesse conselho, vemos que a compreensão de Adolfo Caminha a respeito do papel dos autores e dos editores é a de que ambos fazem parte de um mercado, o mercado dos livros, o que, de fato, não parece ser um problema para o escritor cearense, pois o que lhe parece aflitivo é o fato de somente uma das partes envolvidas no mercado dos livros ser a única beneficiada e a outra explorada. Para essa realidade mais complexa era necessária a atuação de um político e, nesse caso, de um político envolvido em um mundo específico: o autor, o autor-político. É esse o cargo que Caminha ocupou ou pretendeu ocupar com suas ações e palavras juntos aos diversos sujeitos do mundo dos livros. A sua atuação, nesse caso específico, fez-se sentir na sua ficção, na sua crítica. Porém, a realidade, que é sempre mais complexa, nos oferece a oportunidade de ver o fato ao menos por dois lados, pois, se até então Adolfo Caminha foi problematizado e analisado apenas como autor, agora, faremos o mesmo, leitor, com a sua atuação como editor.
1 Cf. O Diário, ano I, n.59, Fortaleza, 4 de agosto de 1892, p.2.
2 "Também cada nova cópia se aparenta a uma nova edição da obra, revista e corrigida, encurtada e aumentada, segundo as oportunidades. E o texto redigido pelo autor, a 'edição princeps', em tal sorte, permanece mais ou menos no esquecimento, nenhum copista se lembrava de mencionála. Neste momento, ela não tinha nenhuma importância particular aos olhos do público e dos letrados, este manuscrito original não foi beneficiado por nenhuma proteção ao longo do tempo. Ele podia desaparecer em um momento indeterminado, ser mutilado, jogado, queimado, sem que seu destino chamasse a atenção de quem quer que fosse. Ele se tornou somente um exemplar entre tantos outros. E mesmo se ele sobreviveu até os nossos dias, nos é permitido constatar que ele é somente uma das antigas cópias da obra" (Tradução nossa).
3 "Efetivamente, é somente a partir do século XIV que nós constatamos reais preocupações de certos autores quanto ao futuro de sua produção literária. O que não exclui, seguramente, que outros, antes deles, tenham efetuado estas mesmas atitudes, tanto materiais quanto intelectuais, mas nós não encontramos nenhum traço delas" (Tradução nossa).
4 "Das obras terminadas ou 'retocadas' pelos herdeiros, nos esquecemos rápido que elas são montagens (Le Réquiem de Mozart, Les Paysans de Balzac ou Bouvard et Pécuchet) para emprestar a seus criadores principais as intenções últimas e solenes que deveriam retornar, em boa justiça distributiva, à Sussmayr, Caroline Commanville, Madame Balzac. Tais ajustamentos dão talvez a ocasião de refletir sobre a parte da intervenção externa que ataca a religião do autor, pelo herdeiros, mas também, o tempo de vida do autor, do editor, do diretor de coleção, que frequentemente, dão ao livro o batismo de um título de seu gosto como o mostrou Jean-Yves Mollier no caso de Tocqueville ou Renan" (Tradução nossa).
5 Acréscimo nosso. Vale destacar nesta nota que Azevedo reuniu nesse volume onze contos, a saber: "Velho Testamento", "A mão de mármore", "Minotauro", "O exilado", "A última lição", "Estados d'alma", "Pesadelo", "No convento", "Elas...", "Joaninha" e "Amor de fidalgo". Em um apêndice desse mesmo volume, Azevedo reuniu ainda duas versões daquele conto intitulado "Minotauro", versões essas encontradas pelo pesquisar Walter Toop na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, a primeira versão publicada em O Album e datada de julho de 1893, a segunda datada de 27 de janeiro de 1894 e publicada no jornal Gazeta de Notícias. Em pesquisa que empreendemos também na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro encontramos um conto de Adolfo Caminha publicado também na Gazeta de Notícias, daquele Estado, datado de 25 de janeiro de 1894, cujo título é Pagina esquecida, dedicado a Ferreira de Araújo, que no volume intitulado Contos e organizado por Azevedo consta com o título de No convento.
6 Vale destacar que Adolfo Caminha, em seus textos críticos, faz uso de alguns recursos próprios dos textos ficcionais, entre ele destaca-se a criação e utilização constante de personagens ou de metáforas que resumem alguns comportamentos, situações ou personalidades da sua época. Nesse sentido, podem-se citar, além dos abnegados, dos obreiros, do minotauro e dos borradores, "a mísera viúva, perpetuamente em crepe", metáfora com a qual Adolfo Caminha representa a situação miserável em que se encontrava a literatura nacional. Para os borradores ele usaria ainda uma outra personagem: "a malandrice audaciosa e irreverente". Na nossa compreensão, esse recurso se apresenta como uma das características que marcam a crítica de Adolfo Caminha como um exemplo da chamada crítica dos escritores ou crítica dos autores, fato que também evidencia o funcionamento de um sistema literário interno, uma vez que as experiências do escritor contribuem com o crítico na análise dos textos como também na análise da conjuntura social na qual Adolfo Caminha vivia, não sendo diferente com as questões que envolviam a literatura e o trabalho dos escritores. Em sua obra, crítica literária, ficção e jornalismo se unem, tanto no modo de operar a linguagem específica a cada uma dessas modalidades de escrita como na elaboração de uma reflexão geral da qual os elementos intrínsecos e extrínsecos, no caso, sobretudo, dos textos literários ficcionais, não estão desassociados.
7 "Quanto ao ser de carne (e não o de papel) que escreve, ele não cessará jamais de entreter uma curiosidade fetichista que toca no mais secreto da literatura e da escritura em sua vertigem enigmática" (Tradução nossa).
8 "Paradoxalmente, a imagem pública do homem de letras que se exprime em um caráter muitoprivado, a opinião é habitada por um fantasma fetichista e só aceita dar seus sufrágios através das formas celebrativas que satisfazem uma demanda social geral da presença e que são também ritos de autentificação. Os contemporâneos cedem a uma inclinação emotiva e reclamam de início testemunhas e uma revelação doméstica. Assim, o gênero do elogio abandonando os antigos canhões da exemplaridade por aqueles da pitoresca amostra do homem no homem celebre, segundo um cenário mais e mais biográfico que pretende fazer chegar nos segredos para surpreender as identidades. [...] O grande homem é rodeado de um rumor que produz anedotas sobre seus mínimos feitos e gestos, repercutidos pelos correspondentes privados ou públicos e a imprensa. Uma fabricação de imagens planas o dão progressivamente a ver e a partir do estereótipo do elogio e de peças teatrais medíocres, de retratos e de bustos vulgarizados por estampas, e, após sua morte, de objetos piedosos e de relíquias: eis aqui o bom La Fontaine, o bom Fénelon, o bom Montesquieu" (Tradução nossa).
9 "O autor moderno nasceu no século XVIII, quando o campo literário, que se institucionalizou desde a metade do século XVII, se autonomiza irreversivelmente. A demanda do público é mais importante, o mercado se libera, as redes de sociabilidade, círculos de sábios e salões mundanos, onde se misturam as elites burguesas e aristocráticas, são mais abertos e mais ativos. As Luzes disputam com a Igreja o monopólio do simbólico; os santos das hagiografias tradicionais são trocados pelos heróis laicos; o homem de gênio é promovido a 'gênio' em pessoa e o individuo se torna o lugar venerado da singularidade. 'Em 1780, dois anos após a morte deVoltaire e de Rousseau, uma vez que Diderot e d'Alembert ainda estão vivos,a expressão 'homem de letras' tomou um sentido moderno, o de um estado na sociedade, o de um ofício. Mas é no século XIX que o autor atinge a sua maioridade. O 'mito do poeta' (Abastado) e a 'personalização do escritor' (Lejeune) atiçam a curiosidade biográfica preparada pela publicação dos escritos ficticiamente ou realmente íntimos. A crítica faz do autor uma noção não mais somente jurídica ou moral, mas literária: ele se torna o princípio da explicação estética das obras. Simultaneamente proliferam dois tipos de textos biográficos, os testemunhos ou lembranças e as biografias heterodiegéticas, as quais é preciso acrescentar os retratos, somente narrativizados. As retranscrições autônomas das conversações são raras, mas as reportagens vão se desenvolver no fim do século na imprensa popular. Em pouco tempo, a imagem e a vida do autor se tornaram os meios de promover seu livro. Mesmo se alguém pretende preservar a autonomia da obra e querem ajudar o autor a dever sua glória somente a sua literatura, nos nossos dias a maior parte dos editores preferem servi-lo ao público, e este é aquele que jamais se viu o rosto nem escutou a voz nas mídias que fazem a exceção" (Tradução nossa).
10 "O retrato que então é esboçado do financista constitui a prolongação da duração de uma nota ou de um silêncio deixada a apreciação do executor da sinfonia, mais ou menos como a cacofonia dos teatrólogos, romancistas, memorialistas e sátiros durante toda a primeira metade do século XVII. O financista está constantemente representado pelos escritores, mas de modo diferente. Em torno do tema geral do horrível e do malfeitor 'laquais-financier', variações múltiplas demonstram o perfeito conhecimento deste ofício e a irresistível ascensão social que este realiza" (Tradução nossa).
11 O vocábulo "popular", no sentido empregado por Adolfo Caminha, não parece corresponder ao significado de pertencente ao povo, nem mesmo como simples, singelo ou democrático. Parece muito mais ligado ao sentido de senso comum, não só pelo que o texto e o contexto nos leva a concluir, mas também pelo fato de Adolfo Caminha, nas páginas do jornal O Pão, órgão da Padaria Espiritual, agremiação artística da qual fez parte em Fortaleza no final do século XIX, defendeu a cultura popular dos folguedos natalinos, pois como aponta Gleudson Passos Cardoso (2002, p.24-5) em seu Padaria Espiritual: biscoito fino e travoso: "É bem provável que os sócios da Padaria Espiritual estivessem preocupados com a preservação da diversidade da cultura popular local. Pois, naquele tempo de violenta imposição da racionalidade técnico-científica, as manifestações populares eram reprimidas tanto pelos aparelhos coercitivos como pela estética das 'novidades de consumo' vindas com a economia monopolista das potências industriais".
12 "Ao contrário, os autores mais lidos podiam do acolhimento que os reservava as suas editoras. O exemplo de Anatole France é possivelmente o mais edificante, tanto que o autor de L'Envers de l'histoire contemporaine deu prova de uma confiança ilimitada na família Clement-Lévy. Célebre e rico, ele deixava em permanência os fundos tirados dos seus direitos de autor com seu editor que, em troca, regulava as suas faturas e lhe evitava todo contato com a realidade material. Outros escritores mostravam a mesma confiança, Alphonse Daudet em relação a seu amigo Ernest Flammarion, Émile Zola em relação a Georges Charpentier, Erckmann-Chatrain e Jules Verne em relação a Pierre-Jules Hetzel, Ernest Renan a Calman-Lévy, o que proíbe toda uma visão unilateral das relações entre uns e outros. Além do que, no pólo mais literário do campo, os escritores escolhiam um de seus pares como editor, Alfred Vallette no Mercure de France, os irmãos Natanson à La Revue blanche ou André Gide na Nouvelle Revue Française, o que suprimia uma parte dos choques previsíveis com aqueles que eram denominados 'os mercantis', com os quais o contato era recusado" (Tradução nossa; negrito nosso).
13 "A relação se torna logo muito mais pessoal. Charpentier quer ter com seus autores laços quase familiares; ele pede a Flaubert e a Zola para serem os padrinhos de seus filhos; Edmond, lhe dera para padrinho de sua filha Jeanne, batizada em 1880; em uma carta a Goncourt de 2 de dezembro de 1879, Flaubert se irrita contra esses apadrinhamentos obrigados: 'A conduta dos Charpentiers forçando o apadrinhamento aos seus pobres autores me parece de uma monstruosa inquietude'. Goncourt participa, a partir de 1876, dos jantares que reúnem os autores Charpentier; estes encontros, lança, exacerba as rivalidades e se torna no Journal, a ocasião de uma direção de cena obsessiva de Zola, apresentado como um redutível plagiário. Os Charpentiers tentam se fazer de mediadores e de manter custe o que custar a coesão do grupo naturalista mais e mais despedaçado" (Tradução nossa).
14 "Contaram-me que havia, em Paris, certas casas cuja especialidade era comprar no peso saldos de exemplares pouco vendidos e de os enviar para a América, para o extremo Oriente, para as colônias, até para os selvagens, onde eles os vendem a um belo preço, para os leitores dos países distantes que devoram tudo o que vem da França" (Tradução nossa).
15 "Ah! pobre Baptiste, se eu fosse rico como meu irmão..." (Tradução nossa, grifo nosso).
16 "Estes festins se acompanham de orgias 'uma vez que neles praticam impudicícias capazes de envergonhar as trevas que lhes serviam de véu'. Insolência, avareza, violência, falta de moral, corrupção e deboche geral fazem, então, dos financistas 'uma maldita categoria de pessoas detestáveis', 'uma raça perversa', 'o lixo da França', 'os ladrões públicos', 'os monstros perversos' e a 'raça bastarda', condenados ao Inferno" (Tradução nossa).
17 "O ofício dos financistas é então perfeitamente conhecido dos letrados do século XVII, que, como bons observadores, testemunham também a integração e a ascensão social destes homens e de sua família" (Tradução nossa).
18 Laurence Hallewell no § 73 registrou que na seção portuguesa do Catálogo da Livraria Acadêmica da Casa Garroux, com aproximadamente 7.500 itens, as publicações da Garnier correspondem quase que à metade, as da editora Laemmert a pouco mais de um terço, vindo, logo em seguida a casa de Serafim José Alves, com o correspondente a 6% do número total.
19 Vale destacar que Cruz e Souza e Adolfo Caminha foram publicados pela Domingos de Magalhães, que naquele mesmo ano de 1893 colocou na praça os livros Missal e Broquéis e A normalista (Cenas do Ceará).
20 O texto referido circulou primeiramente no jornal Gazeta de Notícias com o título de Cartas literárias I e traz como assinatura de seu autor não o nome de Adolfo Caminha, mas as suas iniciais invertidas, portanto, C. A., o que fez que a autoria das citadas cartas parecessem como de Capistrano de Abreu ou de Constâncio Alves, que à época também colaboravam com o jornal carioca, fato o corrido, possivelmente, por tratar-se o texto de uma autodefesa. Essa confusão só foi desfeita quando Adolfo Caminha reuniu os textos críticos e os publicou, em livro, em 1895.
21 Texto publicado em A Nova Revista, Rio de Janeiro, n.2, fev. 1896.