Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

Carlos Eduardo de Oliveira Bezerra · Capítulo 4 de 10 · parte 3/4

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Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

1 Adolfo Caminha: condições materiais e intelectuais de produção da literatura brasileira no final do século XIX

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

O período que vivera em Fortaleza (1888-1892) pode parecer pouco, no entanto é importante lembrar que Adolfo Caminha faleceu muito jovem, com trinta anos incompletos. Além disso, aquele período foi marcado no Brasil pela Abolição dos escravos e Proclamação da república; no Ceará, tratando especificamente da literatura e do pensamento locais, destacamos a instalação do Clube Literário, em 1888, que, segundo Sânzio de Azevedo, congregava "escritores românticos ao lado de outros que já seguem a nova tendência", leia-se esta nova tendência" como o realismo; e a instalação da Padaria Espiritual, da qual fez parte Adolfo Caminha com o pseudônimo de Felix Guanabarino.

Já aqui destacamos um fato importante na vida literária do Ceará daquele período: o forte caráter associativos dos homens de letras cearenses, o hábito da criação de grupos, agremiações e sociedades. Até meados do século XX essa foi uma condição material e intelectual de tudo quanto se produziu em termos de letras no estado. Por esse motivo destacaremos a seguir três agremiações importantes: a Academia Francesa do Ceará, o Clube Literário e a Padaria Espiritual.

Achamos por bem tratar do que poderíamos chamar de berço das novas ideias no Ceará – a Academia Francesa do Ceará – já aqui referida nas citações anteriores, pois, mesmo que Adolfo Caminha não tenha feito parte dela, uma vez que suas atividades se iniciaram em 1873 e foram concluídas em 1875, quando o futuro escritor era ainda criança e vivia sob os cuidados familiares em sua Aracati natal. Mesmo assim, quando retornou a Fortaleza no ano já citado, Caminha encontrou a cidade já de algum modo atravessada pelas ideias que foram difundidas pelos membros dessa agremiação, ideias essas responsáveis por um novo pensamento que se distinguia do modo de ver o mundo, a sociedade e o homem distintamente do romantismo.

Une Académie Française au Ceará

Quanta ilusão! quanta força, quanta mocidade!

(Capistrano de Abreu in Crítica e literatura).

Foi com essas palavras, que nos servem de epígrafe, que o inicialmente crítico literário e depois historiador João Capistrano de Abreu escreveu a respeito da Academia Francesa do Ceará, no prefácio à Crítica e literatura, volume no qual foram reunidos artigos de Raimundo Antônio da Rocha Lima, seu companheiro de agremiação. Capistrano de Abreu (1968, p.82) as escreveu em setembro de 1878 e Rocha Lima falecera em 28 de julho daquele mesmo ano. Sobre a perda do amigo, declarou: "apagou-se a mais fulgurante estrêla do Ceará". O prefácio é, portanto, um balanço daquela época, um escrito de saudade, a memória de um movimento que se iniciara em 1873 e findou-se em 1875, como já o dissemos: a Academia Francesa do Ceará, uma espécie de associação sem sede, uma vez que as suas reuniões realizavam-se "ora em casa de Tomás Pompeu, ora de Rocha Lima" (Azevedo,

1976, p.71). 10 Esse mesmo o responsável pelo seu nome:

A designação de "Academia Francesa", dizem, nasceu de um

gracejo de Rocha Lima, já talvez nos últimos tempos da nova

agremiação, inspirado ele no fato de todos beberem as novas

doutrinas principalmente na França, ao passo que a chamada

Escola do Recife, de Tobias Barreto e Sílvio Romero, era

francamente germanófila. (ibidem, p.71)

Aquelas palavras de Capistrano de Abreu marcam bem o que significou a agremiação: eram eles os "modernos", como os designou Celeste Cordeiro (1997). Eram esses "modernos" uma geração de jovens formados pela contestação, postura que marcou fortemente a década de 1870, aquela mesma década que renovara mental e espiritualmente parte significativa dos homens de letras do final do século XIX no Brasil. "Geração de 1870", "Geração materialista", "Geração contestadora", quanto ao uso do termo "geração", esse parece bem empregado, pois, como veremos adiante, os membros da agremiação, quando do funcionamento de suas atividades, não passavam dos trinta anos. Uma geração cujo conhecimento teve seus fundamentos em ideias francesas então correntes. A respeito dessas ideias e suas influências afirmou Afrânio Coutinho (1975, p.191):

Deve-se à influência francesa a penetração das idéias

"modernas" do século XIX no Brasil. Foi larga e profunda a

influência francesa. Os ideais do século, os princípios libertinos

e sediciosos, a "mania francesa", sacudidos pela Revolução,

pelo Iluminismo, pelo movimento crítico da Enciclopédia,

traduzidos em doutrinas de libertação filosófica, de

racionalismo, de materialismo, de emancipação política e social,

no sentido nacionalista, abolicionista e republicano, desde cedo

no século varriam o país de norte a sul. Os canais de circulação

das idéias naquela época funcionavam eficazmente por tôda a

parte, entre êles a maçonaria, instrumento poderoso e tenaz de

propagação e agitação de doutrinas. Era ela que concorria para

favorecer a circulação clandestina de livros proibidos,

"sediciosos", que, a despeito da vigilância dos órgãos de

censura, tinham curso pelo Brasil inteiro, constituindo ricas e

famosas bibliotecas, como a do Pe. Agostinho Gomes, na

Bahia, a do Cônego Luiz Vieira da Silva, em Mariana, como

mostrou Eduardo Frieiro, em O Diabo na Livraria do Cônego, a

respeito do segundo.

Nessa citação de caráter geral, exceto no caso da Bahia e da cidade mineira de Mariana, vemos relações diretas com a Academia Francesa do Ceará: a ligação com as ideias "modernas", a ligação com a maçonaria, que, no caso cearense, era a responsável pelo jornal Fraternidade. Chamou-nos também atenção o fato de Afrânio Coutinho informar a origem dos livros que eram lidos pela nova geração. À época da Academia Francesa, como informou Celeste Cordeiro (1997, p.88) a partir de dados do ano de 1870, já funcionava, em Fortaleza, a Biblioteca Pública, fundada em 1869. Nela, constavam 5.543 volumes, sendo eles assim distribuídos: 1.152 de literatura, 945 de história, 520 de ciências e artes, 255 de teologia e 250 de direito.

Ainda segundo Celeste Cordeiro, "somente em 1849 foi que Fortaleza conheceu uma espécie de livraria, do comerciante português Manuel Antonio da Rocha Júnior" (ibidem). Segundo Alcantara Nogueira (1978, p.26), nesse estabelecimento os livros ficavam em uma sessão "destinados à venda e ao aluguel". Diante desses fatos, podemos considerar que as ideias francesas, presentes em livros, chegavam ao Ceará provincial via maçonaria, além, é claro, dos homens de letras do período terem as suas bibliotecas particulares.

Para Sânzio de Azevedo (1976, p.70), a Academia Francesa "representou a primeira reação ao Romantismo no Ceará". Talvez, Azevedo esteja falando da reação às ideias românticas e não do romantismo como estética literária, pois logo em seguida ele afirmou: "É verdade que não chegou nem de leve a modificar a literatura que aqui [Ceará] se fazia então, no campo da poesia ou da incipiente prosa de ficção, mas isso não lhe tira a imensa importância de haver sido a difusora das idéias filosóficas francesas pela primeira vez em nosso Estado" (ibidem, grifos e acréscimos nossos). As ditas "idéias filosóficas francesas", a que se referiu Azevedo, são aquelas mesmas citas por Afrânio Coutinho.

Vemos que a agremiação não durou muito. Apesar de sua curta duração, ela foi importante para assentar no Ceará as bases de um pensamento novo, que, assim como já afirmamos, marcaria o conjunto da obra de Adolfo Caminha, todo ele escrito entre 1885 e 1896. Se a Academia Francesa não se notabilizou por modificar a literatura produzida então, ela foi a responsável por levar à cena cearense a discussão das ideias de Spencer, Littré, Haeckel, Darwin, Buckle, Ratzel, Comte, Taine, Vacherot, Renan, Quinet, Burnouf, Lamarck, Buffon, Cuvier, Ritter, Kohl, Peschel, Reclus e tantos outros. A partir da sua atuação, as citações desses nomes foram mais frequentes nos trabalhos dos homens de letras cearenses. A Academia Francesa foi tão importante para o Ceará que Cruz Filho, citado por Sânzio de Azevedo (1976, p.15), chegou a dar o ano de 1872, supostamente o ano em que se iniciou a agremiação, segundo Guilherme Studart [Barão de Studart], como

"o do alvorecer de nossa [cearense] vida cultural".11

Foram da Academia os seguintes nomes, alguns deles já citados aqui, mas que repetimos para termos uma ideia total do grupo: Tomás Pompeu de Souza Brasil (1852-1929); Raimundo Antônio da Rocha Lima (1855-1878); João Capistrano de Abreu (1853-1927);Tristão de Alencar Araripe Júnior (1848-1911); João Lopes Ferreira Filho (1854-1928); Xilderico Araripe de Faria (1851-1876).Vemos por essas datas aqui apresentadas que o termo "Geração de 1870", referindo-se ao ano do aparecimento das ideias novas, é também designativo de uma homogeneização das idades dos membros da Academia. Portanto, como afirmamos anteriormente, o uso do critério de "geração" é coerente, pois, no ano de 1873, todos não passavam dos trinta anos, chegando o mais novo, Rocha Lima, aos dezoito, e Araripe Júnior, o mais velho deles, aos 25 anos.

Como afirmamos, a Academia Francesa do Ceará não teve um órgão próprio. Seus membros valeram-se do jornal Fraternidade, da loja maçônica homônima.Vale destacar que alguns dos principais redatores desse jornal eram membros da Academia, com exceção do último a ser citado – Tomás Pompeu Filho, Araripe Júnior, João Lopes Ferreira Filho e João Brígido dos Santos –, segundo o Barão de Studart (1908). A relação com o jornal Fraternidade rendeulhes "uma violenta polêmica com o jornal Tribuna Católica" (Azevedo, 1976, p.75). Eram esses os tempos da chamada "questão religiosa", o que marcava o anticlericalismo e o laicismo da Academia. Essas características fizeram Djacir Menezes (1968, p.24) chamar a Academia como "a brigada pioneira das pelejas que combateram a superstição, a intolerância, o sectarismo".

Esse caráter laico e anticlerical marcou fortemente a atuação da Academia Francesa do Ceará e a fez porta-voz das ideias modernas, que combatiam não somente o romantismo, mas que pregavam a crença na ciência como método de explicação do mundo, do homem e dos fenômenos sociais, voltando-se não mais para o passado como o fizeram os românticos, mas para o presente, tornando-o objeto de sua observação e análise mais acuradas. Se o presente não era aquele que desejavam, então, ele devia ser também modificado ainda que fosse com refregas ou ações destinadas à melhoria da educação, que acreditavam ser a norteadora de novos pensamentos. A esse respeito, afirmou o já citado Afrânio Coutinho (1975, p.182):

Acreditou [a geração de 1870] no impulso humanitário,

conciliando a educação da massa e o socialismo com o culto do

poder político e da glória militar nacional. As massas emergiram

ao plano histórico, de posse dos progressos materiais e

políticos. A ciência, o espírito de observação e de rigor,

forneciam os padrões do pensamento e do estilo de vida, desde

que se julgava que todos os fenômenos eram explicáveis em

têrmos de matéria e energia, e eram governados por leis

matemáticas e mecânicas.

Foi a crença nesse tipo de pensamento que deve ter dado origem à Escola Popular, destinada à educação de operários e alunos pobres. Clóvis Bevilacqua (1927) afirmou a esse respeito:

Pelos anos de 1874 e 1875 houve, no Ceará, um movimento

espiritual digno de apreço, que não foi meramente literário,

como depois o da Padaria Espiritual, porém igualmente

filosófico e religioso [...] As conferências realizadas na Escola

Popular tiveram essa feição, como se vê da série ultimamente

reeditada na Revista da Academia Brasileira de Letras, em que

o insigne Capistrano de Abreu assinala características da

literatura brasileira contemporânea. Foram realizadas essas

conferências em 1875 e nelas vemos Augusto Comte, Buckle,

Taine, Spencer.

Capistrano de Abreu (1968, p.77) não deixou de recordar aqueles idos anos da Escola Popular e a seu respeito afirmou:

Grande foi a influência da Escola Popular não só sôbre as

classes a que se destinava, como sôbre a sociedade cearense

em geral, por intermédio de conferências ali feitas, em que o

ideal moderno era apregoado por essas pessoas altamente

convencidas de sua excelência. Maior ainda foi a influência da

Escola sôbre os espíritos audazes e juvenis, que congregou,

reuniu e fecundou uns pelos outros.

Celeste Cordeiro (1997, p.88), a respeito da Escola Popular, afirmou:

A Escola Popular é efetivamente um símbolo do vigor da vida

intelectual do Ceará na segunda metade do século passado

[XIX]. Trata-se de uma iniciativa fiel à preocupação de Comte

com a formação intelectual do proletariado: destinada aos

pobres e operários, funcionava das seis e meia às dez da noite,

com memoráveis palestras de Tomás Pompeu (a respeito de

"Soberania Popular"), de Araripe Júnior (sobre o "Papado") e de

Amaro Cavalcante ("Religião").

Nos anexos da terceira edição de Crítica e literatura, de Rocha Lima (1968, p.354-6), vemos um "Relatório sôbre a Escola Popular", cuja fonte foi o jornal Fraternidade, número 51, de 11 de dezembro de 1874. São estes os termos:

Inaugurada no dia 31 de maio dêste ano [1874], a Escola

Popular deu comêço aos seus trabalhos em 2 de junho, com a

abertura das aulas de língua nacional, aritmética, geografia,

história, francês e primeiras letras, que foram distribuídas pelas

diversas cadeiras do modo seguinte:

Cadeiras ...............................................Professsores

língua nacional .....................................Rocha Lima

francês..................................................João Lopes

aritmética .............................................Benjamin

geografia e história ................................João Lopes

A aula de primeiras letras foi dividida nas seguintes classes:

1a classe de leitura e gramática .............. Benjamin

2a classe de leitura e gramática .............. João L. Ferreira

3a classe de leitura e gramática .............. Israel B. Moura

4a classe de leitura e gramática .............. J. Lino

5a classe de leitura e gramática .............. J. Hermano

O método adotado foi o simultâneo-livre, de que os professores

mais têm colhido resultados tão satisfatórios.

Além dêste curso, que constitui o trabalho ordinário da Escola,

foi instalado o curso de conferências públicas. Durante o ano

letivo a escola realizou 8 conferências de que se encarregaram

os cidadãos:

Oradores .............................................Teses

Dr. Quintiliano....................................A Escola

Dr. Xilderico .......................................Liberdade Religiosa

Dr. Amaro Cavalcanti..........................Religião

Dr. Araripe Júnior ...............................O Papado

Dr. Théberge .......................................Geognose da Terra [sic]

José Castelões Filho .............................Educação na Família

Dr. Borges da Silva ..............................A Eletricidade

Dr. Pompeu Filho................................Soberana Popular

A êsses cidadãos beneméritos da ciência envio neste momento

uma saudação fraternal e um protesto de gratidão em nome de

meus colegas e dos alunos da Escola Popular.

A explicação e constituição do Império, revistas de jornais e

ensino moral constituirão uma série de preleções às quintas-

feiras.

A matrícula subiu de 156 alunos e a freqüência que em maio

chegou apenas a 67, montava em novembro 118 alunos. Eis,

meus senhores, etc...12

Vemos por esse relatório de atividades que a Escola Popular naquele ano de 1874 preocupou-se em propagar as ideias que eram defendidas por seus membros, tanto as ideias que diziam respeito à ciência como aquelas a propósito da educação, como é o caso, por exemplo, da conferência Educação na família. Não faltaram também conferências em que os acadêmicos se dedicaram a tratar da religião, como é o caso de Liberdade Religiosa, Religião e O Papado, essa, como já vimos, pronunciada por Araripe Júnior e da qual destacamos o seguinte trecho:

Faça-se consistir a Religião na simples evangelização, e por

uma vez desaparecerá a necessidade de um supremo arbítrio

ou tribunal que fabrique dogmas. Desde que o coração

constituir-se o único intérprete do Evangelho, para quem foi

escrito, longe da viciada inteligência do teólogo, as contradições

desaparecerão e as heresias se exilarão da terra.

Ainda uma vez o digo: Não creio que Jesus fundasse sua Igreja

sôbre outra pedra que não fôsse o nosso coração.

E se, por uma dessas anomalias que não têm nome, voltarem

as fogueiras, como veio o 13 Syllabus e a infalibilidade, as

guerrearei de morte.

Quero a âncora da Religião como repouso, mas nunca como

hedionda estagnação. E se me privarem dêste consôlo, ou o

reduzirem de novo ao instrumento de infernal astúcia, declaro

mil vêzes preferirei perder-me, como Colombo, nos mares

tormentosos e desconhecidos que os teólogos anatematizavam.

Ao menos descobrirei outros mundos! (Araripe, 1958, p.90)

Vemos, por esse trecho da conferência pronunciada em 12 de julho de 1874 em Fortaleza e publicada no jornal Fraternidade nos dias 21 e 31 de julho e 11 de agosto do mesmo ano, o caráter anticlerical e antidogmático da fala de Araripe Júnior, que era também compartilhado pelos outros membros da Academia Francesa do Ceará como podemos atestar tendo como fonte os embates entre os acadêmicos e os antigos, para usar aqui a nomenclatura de Celeste Cordeiro (1997, p.94), que a esse respeito afirmou:

Sua fundação [refere-se ao jornal Fraternidade], em 1873,

coincide com o auge da Questão Religiosa no Brasil e com a

luta intransigente entre a maçonaria e o clero que incitava a

imprensa. Não era órgão da Academia Francesa, mas

constituía a arena das lutas intelectuais dos "acadêmicos",

vários dos quais chegaram a se tornar maçons apenas pela

condição de combater melhor, a qual o Fraternidade oferecia.

Essa luta contra o pensamento católico não se restringiu ao

plano doutrinário geral, mas traduziu-se localmente no ataque

religioso que abrigava o clero e o laicato religioso no Ceará: a

Tribuna Católica.

Quando da fundação da Escola Popular, houve um embate com

grande repercussão no meio provinciano. De um lado a Tribuna

Católica afirmava tratar-se de uma "Escola d'Impiedade":

"Alguns moços incrédulos instalaram uma Escola Popular nesta

cidade, com o fim de inocular no povo rude a impiedade, no que

são auxiliados pelos maçons da Loja Fraternidade Cearense".

As tensões entre os dois polos deram-se em torno de questões como: a laicização ou secularização das ações do Estado, a instrução, que para os antigos devia ser doméstica e religiosa e para os modernos devia ser pública, laica, gratuita e obrigatória, como em parte foi a Escola Popular. Esse debate sobre a instrução pública, vamos encontrá-lo ainda nas páginas do romance A normalista, como veremos no capítulo seguinte a respeito do autor-leitor, sendo por isso importante tratar aqui das condições intelectuais de produção da literatura brasileira no final do século XIX. Ainda como uma das tensões entre os dois grupos destacamos a questão da soberania popular e da divisão dos poderes.

O embate entre os dois grupos – "antigos" e "modernos" –, na compreensão de Celeste Cordeiro, se intensificou. Essas polêmicas entre conservadores e liberais, acadêmicos e religiosos, maçonaria e igreja acabaram por chegar a seu ápice com a conferência organizada pelo grupo conservador e ministrada em público no dia 2

de agosto de 1874 pelo Dr. Manoel Soares da Silva Bezerra, 14 conferência essa que ficou conhecida como a Conferência da Feira Nova, sendo o conferencista ardoroso defensor da Igreja católica. Todo o ano de 1874 seria marcado por embates entre os dois grupos como podemos constatar nesta fala de Araripe Júnior citado por Djacir Menezes (1968, p.48): "questão religiosa ia no auge. Organizaram-se conferências contra o clero e esse movimento chegou a operar tão grande abalo na opinião católica, que um desembargador não receou dar à Fortaleza o nome de Tubigen brasileira".

O espírito contestador e a marca anticlerical do grupo, o que nos faz lembrar aqui das designações "geração contestadora" (João Alexandre Barbosa), "geração materialista" (Afrânio Coutinho),

"geração afirmativa" (Djacir Menezes) (ibidem, p.64-5), 15 bem como todas as tensões apontadas acima serão as bases para os movimentos, grupos, sociedades, agremiações literárias que virão após a Academia Francesa do Ceará, como o Clube Literário e a Padaria Espiritual. Essas mesmas ideias e posturas as encontraremos no conjunto da obra de Adolfo Caminha, como veremos no capítulo a respeito do autor-leitor, no qual examinaremos as relações entre as leituras apresentadas no conjunto da obra e o seu desenvolvimento temático e de outras ordens.

Um clube literário

Como declarou Sânzio de Azevedo, a Academia Francesa do Ceará foi uma reação ao sentimentalismo romântico. Daí a explicação para o fato de que somente alguns de seus membros tivessem se dedicado à literatura ficcional, preferindo a filosofia e as reflexões sobre a vida contemporânea. Nos textos que os acadêmicos produziram não faltaram reflexões sobre as questões de seu tempo, sendo esse fato uma das características do realismo como estética e movimento literário, como o afirmou Afrânio Coutinho (1975, p.187):

O Realismo retrata a vida contemporânea. Sua preocupação é

com homens e mulheres, emoções e temperamentos, sucessos

e fracassos da vida do momento. Êsse senso do

contemporâneo é essencial ao temperamento realista, do

mesmo modo que o romântico se volta para o passado ou para

o futuro. Êle encara o presente nas minas, nos cortiços, nas

cidades, nas fábricas, na política, nos negócios, nas relações

conjugais, etc. Qualquer motivo de conflito do homem com seu

ambiente ou circunstantes é assunto para o realista.

Nessa migração de ideias que viria a fundar as bases para o surgimento do realismo, a Academia Francesa do Ceará cumpriu o seu papel. Mas se a Academia foi uma reação ao Romantismo, no que diz respeito propriamente à literatura de ficção, as ideias assentadas e difundidas por seus membros só vingariam na década de 1880. Sânzio de Azevedo (1976, p.77), a esse propósito, afirmou: "Nem poderia ser de outra maneira, visto o cientificismo que professavam haver dado a origem à corrente realista, e sua conseqüente exacerbação, o movimento naturalista". É nesse ponto que o conteúdo aqui apresentado se junta às citações feitas sobre a "Geração de 1870", especialmente quanto à afirmação de Lúcia Miguel Pereira de que as ideias defendidas por aquela geração só viriam florescer de fato na década seguinte.

A luta pela Abolição dos escravos foi o movimento que entremeou o fim das atividades da Academia Francesa do Ceará e a criação do Clube Literário, aglutinando vários dos homens de letras cearenses, o que não significa, no entanto, que não existissem outras

agremiações ou grupos literários no período.16 Junto com o Clube Literário, na longa tradição associativa dos homens de letras do Ceará, a estética realista na literatura ficcional dava os seus primeiros passos. No entanto, isso não significava que o romantismo houvesse desaparecido de todo. Mais à frente, com a Padaria Espiritual começava a apontar no panorama literário cearense os primeiros trabalhos simbolistas, como veremos a seguir.

É preciso entender que, no Brasil, esse período – as três últimas décadas do século XIX – foi marcado por uma confluência de estéticas e movimentos literários. A esse respeito afirmou o já citado Afrânio Coutinho (1975, p.180):

O século XIX é um campo, onde se cruzam e entrecruzam,

avançam e recuam, atuam e reagem umas sôbre as outras, ora

se prolongando ora apondo-se, diversas correntes estéticas e

literárias. E, embora constitua um bloco homogêneo o grupo

aqui estudado [Realismo, Naturalismo, Parnasianismo], o

período é também atravessado pelo filête romântico-simbolista.

Se há, portanto, época que se recusa a uma periodização

precisa e a mostrar nitidez de fronteiras entre os movimentos, é

o século XIX.

Ainda segundo Coutinho:

Êsse fenômeno que é geral, no Brasil, torna-se mais

corriqueiro, dadas as circunstâncias naturais de sua vida na

época, e em virtude do atraso com que sempre repercutem

entre nós os movimentos espirituais, e ainda porque as

transformações aqui não se realizam orgânicamente, de dentro

para fora, como resultado da própria evolução da consciência

nacional, mas como reflexo de idéias-fôrcas de origem

estrangeira. (ibidem)

Foram esses os fatos que parecem ter levado Afrânio Coutinho a chamar o século XIX de "uma grande encruxilhada" (ibidem). O mesmo podemos dizer no caso da literatura cearense, pois se o realismo desponta com o Clube Literário, os poetas que se dedicaram à causa da Abolição eram todos românticos, a saber: Antônio Bezerra, Justiniano de Serpa e Antônio Martins, todos eles classificados tradicionalmente como "poetas condoreiros" (Azevedo, 1976, p.27). Como românticos também o foram àquele tempo Xilderico de Faria e Araripe Júnior, ambos da Academia Francesa. A respeito da manutenção da estética romântica no Ceará não poderíamos deixar de citar o poeta Juvenal Galeno, que surgira com o próprio romantismo cearense ao publicar Prelúdios poéticos, em 1856, apesar de os poemas desse seu primeiro livro ainda conterem traços neoclássicos.

Da Academia Francesa do Ceará saíra João Lopes, o mesmo que vimos como professor de Francês e da segunda classe de leitura e gramática na Escola Popular. João Lopes fundou o Clube Literário, cujas atividades iniciaram 1886 e, segundo Dolor Barreira (1986, v.1. p.126), ainda em 1894 estavam ativas, pois nas páginas do jornal "a República de 4 de outubro de 1894 anunciava a reunião, na noite desse dia, da benemérita sociedade, no salão nobre do Clube Cearense". João Lopes já não mais se encontrava no Ceará, mas no Amazonas, o que também fez arrefecer as atividades da agremiação.

Não foram poucos os seus sócios e colaboradores: Juvenal Galeno; Antônio Bezerra, Antônio Martins e Justiniano de Serpa, os já citados poetas da Abolição; Virgílio Brígido; Oliveira Paiva; Antônio Sales; Rodolfo Teófilo; José Carlos Júnior; Farias Brito e Xavier de Castro. Diferentemente da Academia Francesa, o Clube Literário teve um órgão próprio: A Quinzena, revista cujos trinta números circularam entre janeiro de 1887 e junho de 1888. Além de alguns dos já citados, nela colaboraram: Abel Garcia; José de Barcelos, José Olímpio; Paulino Nogueira; Martinho Rodrigues; Pápi Júnior, Ana Nogueira; Francisca Clotilde, esta com o pseudônimo de Jane Davy.

Segundo Sânzio de Azevedo (1976, p.92), "ao lado das atividades jornalísticas d'A Quinzena, realizava o Clube Literário sessões noturnas, durante as quais eram postas em discussão as mais recentes tendências da literatura estrangeira ou nacional". Ainda a respeito das atividades do Clube, afirmou Azevedo:

Dessa forma, o grêmio contribuiu admiravelmente para a

renovação das letras do Ceará: com o conhecimento do que se

passava nos grandes centros é que nossos escritores foram

pouco a pouco aderindo à nova corrente, o Realismo. Dir-se-ia

haver João Lopes trazido da Academia Francesa o costume

das leituras críticas... (ibidem)

Como se verá adiante a propósito da atuação de Adolfo Caminha como editor de periódicos de circulação e literário, o surgimento d'A Quinzena foi marcado de toda apreensão. A revista, que hospedaria em suas páginas as contribuições de vários dos escritores e escritoras do final do século no Ceará, também se queixava das condições com que os periódicos unicamente literários eram recebidos pelo público local. É o que lemos em PRELIMINARES, uma espécie de programa da revista assinado por João Lopes, publicado nas páginas um e dois do número 1 do periódico, datado de 15 de janeiro de 1887:

Não faltará quem considere arriscado, temerario mesmo, este

empreendimento a que nos abalançamos.

Si na capital do imperio, metropole da civilisação sul americana,

o meio não é propicio ás lettras e as publicações

exclusivamente litterarias mal podem, a custa tenaz e

mortificante sacrificio, romper a espessa crosta da indiferença

publica para arrastar uma vida penosa e ephemera; na

provincia, aqui por estes recantos do norte, parece desatino

quebrar a homogeneidade beatificante rotineira da vida

provinciana, para escrever sobre as lettras e artes e sciencias.

Se a Academia Francesa do Ceará foi mais filosófica do que literária, o mesmo não vemos com o Clube Literário, ao menos é o que podemos concluir da análise d'A Quinzena. Quanto à poesia, nos seus trinta números, 22 publicados no primeiro ano e oito no segundo ano, temos 64 poemas publicados ao todo. No que diz respeito aos contos, foram publicados 42, assim distribuídos: 26 no primeiro ano e dezesseis no segundo. Alguns deles, como ocorreram nos números vinte e 22 do primeiro ano e nos números quatro e sete do segundo ano, foram traduções de Catulle Mendès, Paul Arène e François Coppeé. O número 3 do segundo ano de A Quinzena trouxe também um "fragmento de um livro", intitulado Lazareto, de Rodolfo Teófilo a respeito do chamado Lazareto da Lagoa Fundo onde eram internados os acometidos de varíola. Vale lembrar que, em 1890, Teófilo teve publicado o seu romance A Fome, nitidamente naturalista.

Não somente de ficção viveu A Quinzena. Tão importantes quanto a ficção foram os textos críticos publicados em suas páginas. Por serem inúmeros, trataremos aqui somente da análise daqueles que falam diretamente aos nossos interesses, como os artigos intitulados "Um romance naturalista HOSPEDE POR PARDAL MALLET", assinado por Abel Garcia e publicado nas páginas um e dois do número dezessete, de 17 de setembro de 1887; "O Naturalismo" e "O que vem a ser uma obra naturalista?", ambos assinados por Gil Bert, pseudônimo de Oliveira Paiva e publicados, respectivamente, nos números um e dois, ambos do ano dois, nos dias 15 de janeiro e 31 de janeiro de 1888. Infelizmente, a qualidade da impressão do artigo de Abel Garcia nos impede de reproduzi-lo integralmente, o que, no entanto, não nos impede de fazermos algumas considerações a respeito do seu conteúdo. Os dois outros artigos, os citaremos na íntegra uma vez que são peças pouco conhecidas do público.

Abel Garcia iniciou o seu artigo louvando uma possível derrocada do que chamou de "formulas romanticas" e mais adiante acrescentou:

Mais de um trabalhador, cheio de audácia e iniciativa, tem-se

insurgido contra a decrepita dictadura sobre o gosto publico,

tentando firmar o respeito pela independencia intellectual,

proclamando a interpretação nova e positiva da natureza, a

sinceridade na arte pela manifestação espontanea da emoção

pessoal do artista e banindo a imitação favorecida pela

ignorancia do grosso do publico.

E já se vão tornando apreciaveis no Brazil contemporaneo os

resultados d'essa [r]eação ao mesmo tempo destruidora e

reconstructora. Semelhante renascimento das energias do

espirito e do coração accusa-se nitidamente nas novas

intelligencias que, cedo desilludidas de ficções e

experimentando [i]rresistivel necessidade de verdade movem-

se para o estado da realidade na sciencia e na arte.

Vemos que Abel Garcia falou de uma ação contra o romantismo, o que poderíamos chamar também de uma ação naturalista. As palavras "audácia", "iniciativa", "independencia", bem como a expressão "interpretação nova e positiva da natureza" apontam para os pressupostos que guiavam as narrativas naturalistas. Ações e pressupostos que Garcia não deixa sem exemplificar, e o faz dando como exemplo o romance O Hóspede, de Pardal Mallet. A respeito dessa obra, afirmou:

Acabamos de recolher mais um documento comprobativo da

eclosão dessa phase de productividade entre nós, entrando na

apreciação da intrepida excursão que o Sr. Pardal Mallet fez no

terreno mais escabroso da arte nova, – o romance

experimental, que não visa armar ao effeito com escenações

deslumbrantes e espetaculosas, mas disseca o coração e o

espirito fiel e reflectida de minudencias d'anatomia d'alma,

estuda pela analyse e pela synthese os variados aspectos de

uma sociedade e de uma civilisação, a psychologia intima e a

psychologia social.

Foi pois com o maior interesse literário que lemos o Hospede

do Sr. Pardal Mallet [...] solicitado como eramos pela viva

curiosidade de conhecer este arrojado emprehendimento no

campo da arte e tendo já tido ocasião de aquilatar o poder de

expressão e talento do autor em artigos dispersos nas folhas da

imprensa diaria e periodica daquella cidade.

Além disso anunciava o autor filiado na seita triumphante de

Zola...

Notemos que Abel Garcia já faz uso do termo "romance experimental", talvez uma referência à obra Le roman expérimental, de Émile Zola, publicado em 1880, o que pode indicar o conhecimento das teorias e críticas zolianas que serviam de fundamento para os escritores que cultivavam no Brasil o naturalismo. As referências a Zola e ao método de produção do escritor naturalista são recorrentes neste artigo de Abel Garcia, o que faz dele um exemplo de recepção das ideias difundidas a respeito do naturalismo no Brasil e, especialmente, no Ceará, cuja vida literária era intensa, apesar das dificuldades oriundas da chamada grande seca de 1877/1878, as inúmeras ocorrências de epidemias, entre elas a varíola, que foi a mais devastadora.

Talvez, também por esses fatos, os homens de letras do Ceará, no período, foram se aproximando da ciência, somatório esse que era a fórmula prática do naturalismo. O que não dispensava, no entanto, o caráter artístico no trato com as palavras. O último parágrafo do artigo de Abel Garcia é um exemplo do que se pensava do romance naturalista, ou melhor, na opinião do crítico, do romance em via de se tornar naturalista:

Em synthese: si a observação muita vez foi falsa, si o contorno

das figuras, dos typos, é vago e fluctuante, e si a vida não

anima sempre esquadros, o Hospede conseguiu infiltrar-nos a

esperança de que o Sr. Pardal Mallet, melhor orientado pela

convivencia com as obras primas do romance contemporaneo e

continuando a inspirar-se no methodo fecundo da obeservação

e experiencia, que opulentem o patromonio litterario brazileiro e

ganhem o favor extraordinario do interesse publico.

Esse artigo ainda teve uma espécie de continuidade, porém não mais escrita por Abel Garcia, mas por José Carlos Júnior, como o veremos adiante. Entre os artigos de Garcia e Júnior foram publicados mais dois. Esses também são exemplos do que foi a recepção do naturalismo no Brasil. Talvez marcados pelo calor da hora ou em razão do atraso na importação de objetos e ideias, havia em todos eles uma certa indefinição do que era de fato o naturalismo. Aqui reproduzimos e comentamos os artigos assinados por GIL BERT, os dois citados artigos que entremeiam os de Garcia e Júnior. Diferentemente do primeiro, esses os reproduzimos na íntegra, uma vez que não há problemas nos fac-símiles dos originais que nos impeçam de fazê-lo. No primeiro lemos:

NATURALISMO

O anno de 1888 recebeu de seu antecessor um acontecimento

auspicioso para a litteratura brazileira, qual o de poucos dias

esgotaram-se três edicções do romance O Homem, de Aluizio

Azevedo. Isto mostra que o nosso publico se convenceu, por

fim, de que o nosso paiz não tem somente café e algodão e

borracha; que não dá somente bachareis e conegos; que não

trabalha só para sustentar o funccionalismo e pagar juros ao

estrengeiro; mas que também possue quem faça livro, na

eminente expressão da palavra

Com effeito, não se podia comphreender que uma região tão

vasta, original, pujantemente variegada, onde trava-se a luta de

tantas raças differentes, não continuasse por um progresso de

seleção natural, a produzir d'esses individuos que eternisam

pela palavra a vida das nações.

Tivemos escriptores no tempo colonial. Assistimos ao

convulsionar da revolução romantica. E agora, quando a

Europa inteira reatava o fio tradicional da verdadeira Arte;

quando enthronava a legitima dynastia intellectual apesar da

viva guerra dos usurpadores; quando, pelo naturalismo, entrava

francamente nas avançadas da evolução litteraria; que fazia o

Brazil, cujos povoadores tão cedo não poderão exhimir-se de

acompanhar o movimento europeu?

Lia o que vinha de lá.

Entretanto, si é que aspiramos ao grao de nação e de povo, a

Europa estaria em todo o seu direito nos julgando assim a

modo de uma senzala, um paiz essencialmente agricola; pois

que era tal o nosso descuido e «falta de caracter» que,

possuindo os mais profundos e operosos talentos,

desdenhavamos tributar a estes a nossa attenção e o nosso

obulo.

Ora, o publico brazileiro acabou de protestar contra a inercia e

indifferença de que o acoimavam. E é preciso também que

sejamos gratos ao publico.

Mas também, que havia delle fazer, si escriptores brazileiros

tinham abusado? Si escriptores, longe de apresentarem-se

lidadores fecundos pelo trabalho, como Jose de Alencar,

mostravam-se fátuos e infusos de talento selvagem e

infantilmente bobo; si escriptores, em vez de rebentarem do

seio da nação, do torbilhão da vida, como Cervantes,

Sheakspeare, Stern, Goethe, Hugo, Balzac, Zola, Ramalho

Ortigão, sahiam era das academias com uma litteratura de caso

pensado e uma idéa falsa das pessoas e das coisas da sua

terra, enchergando pelos olhos dos estrangeiros e hombreando-

se audaciosamente, do primeiro impulso, com os grande de lá?

A tudo aquillo deu lugar a desordem implantada pela fase

romantica. Hoje, porém, há indicios de orientação. O

naturalismo, no seu rigor de observação, de experiência,

ligando intimamente a idéa com a forma, acatando a Sciencia,

subordinando-se de todo á Arte, elevou o trabalho, o bom

senso, o genio e despresou a ociosidade dos parasitas que

produzem em escripto como uma planta esteril dá uma linda flor

infecunda.

E' por tudo isto que nos mostramos summamente satisfeitos

com as repetidas edições d'O Homem, tomando novo folego

para prosseguir na espinhosa mas consoladora vida litteraria,

vida de que a nação precisa necessariamente, e sem a qual

bem poderia desengonçar-se este vastissímo territorio.

Mas a litteratura brazileira terá com efeito entrado pelo caminho

do naturalismo: E o que vem a ser o naturalismo?

Esta pergunta é difficilima de responder, e tanto, que no

proximo numero dedicaremos um artigo especial para tentar, si

não de todo ao menos em parte, dar uma idéa ao leitor.

GIL BERT.

Apesar de já usar o termo "naturalismo", vemos que esse não é bem definido pelo articulista, ou sente ele a dificuldade de defini-lo em termos claros e categóricos, pois já apontou para as suas características, entre elas o rigor de observação, o acatamento da ciência como forma de saber e de reconhecer o mundo. O artigo inicia louvando a publicação da terceira edição d'O Homem, de Aluizio Azevedo, cuja primeira edição, como o sabemos, é de 1887, portanto uma ano antes do artigo assinado por Gil Bert ser publicado nas páginas d'A Quinzena. O que aponta para o fato de os membros do Clube Literário terem conhecimento daquilo que então se publicava no Brasil. Aluísio Azevedo já tivera publicado inúmeros romances, entre eles O mulato, que data de 1881. No entanto foi O homem apontado no periódico do Clube Literário como exemplo de prosa naturalista.Vejamos, então, o próximo artigo em que Gil Bert promete aos leitores dar um ideia, "si não de todo, ao menos em parte" do era o naturalismo.

O que vem a ser uma obra naturalista?

Os leitores não estranhem a pergunta. O Sr. Aluizio Azevedo

escreveu no portico d'O Homem que as pessoas que não

tivessem uma idéa claro sobre o naturalismo não lessem o seu

livro. Ora, o dito livro teve e continua a ter sucesso. E' preciso,

pois, que a gente se entenda, que cada qual compareça e se

pronuncie sem rodeios, sem flamancia, sem dialectica.

Antes, pois, de proferir siquer uma palavra acerca d'O Homem,

vejam si temos ideia clara e segura do que é uma obra

naturalista. Avisa-se aos leitores que ignoramos si estamos ou

não na via certa. A nossa função é simplesmente dar

depoimento do que havemos sentido, observado e

experimentado.

Primeiro que tudo folheiemos o volumezinho dos Pensamentos

sobre a interpretação da natureza, do immortal Diderot; e

sigamos a galgar um ponto de vista d'onde se abranja com

segurança e sem illusões de optica o campo da arte.

Diz o symphatico Diderot:

«As produções da arte serão communs, imperfeitas e fracas

emquanto não nos propozermos a uma imitação mais rigorosa

da natureza.»

Mas em que consiste esta imitação rigorosa da natureza?

dizemos nós. Será em copiar factos, pessoas e coisas?

Citemos ainda um trecho do auctor da Encyclopedia:

«A natureza é tenaz e lenta nas suas operações. Si é preciso

affastar approximar, unir, dividir, amolgar, condensar, enrijar,

liquefazer, dissolver, assimilar, ella prossegue no seu intento

pelas mais invisiveis gradações.

«A natureza emprega seculos em formar pedras preciosas; a

arte pretende contrafazel-os em um momento.»

A imitação rigorosa da natureza é, portanto, não somente

copiar, mas produzir, proceder, crear no rigor das leis naturaes.

Uma obra naturalista é como um fructo completamente

sasonado, que presuppõe uma serie de phenomenos

perfeitamente realisados, sem teratologia, sem influição

extranha.

O naturalismo é uma arte vasta, indefinida. Ninguém poderá

jactar se de ser naturalista, do mesmo modo que ninguém dirá:

– eu sou sabio; – porque não se trata de escolas, nem de

systemas. Seria uma immodestia.

Os artistas que se apegam de preferencia á imaginação esses

podem dizer e obrar o que quizerem porque não têm

responsabilidade. Mas os que preferem abysmar se durante a

vida inteira no seio da Creação e d'ahi prescrutando as infinitas

e immutaveis leis, fazer sentir aos seus similhantes a belleza

suprema da vedade [sic], na tendencia continua do real, para o

inattingivel, esse têm o que perder. Quando elles deitam uma

obra ao mundo são encarados como si um mundo lhes cahisse

das mãos, creado, na incomparavel expressão biblica, á sua

imagem e semelhança.

A tendencia universal da Arte é o naturalismo. Mas o artista

para penetrar na natureza tem de atravessar a sociedade que o

produziu.

Quando devo, pois, dizer que uma obra é naturalista?

Cada qual faça como quizer, mas procedo é pelo modo

seguinte:

Sem me importar com o molde do livro, entro na leitura como se

me aventurasse a uma excursão minuciosa, a percorrer, por

exemplo, uma floresta que me interesse até pelos seres

infinitesimos, ou a visitar, no caracter de policial, uma casa onde

se deu um crime que se o culta [sic]. Si canso, volto. Depois,

torno.

Faço por ler o livro, guardadas as proporções do tempo, mais

ou menos com elle foi escripto. Começo a viver

multiplicadamente com os personagens, e sobretudo, a me

apaixonar, com o autor a quem encontro de vez emquanto, pela

natureza que ele pinta. E assim vou indo. E, si depois de lêr a

ultima palavra, meditando sobre aquelles dias de convivencia

impalpavel, eu não soffrer um vacuo nas minhas idéas; si me

sentir cheio de natureza e verdade, e fôr direitinho á concepção

do auctor, como pela fresta coada pelo telhado lobrigo o disco

do sol, então me curvo perante o auctor do livro, que é mais um

Deus que creou um novo cosmos para a minha intelligencia e

para o meu sentimento, e digo que li uma obra naturalista.

GIL BERT.

Nesse segundo artigo, vemos que, mesmo apelando para a sua recepção pessoal, o seu modo de compreender a obra, já havia no articulista uma certa compreensão do que seria o naturalismo como estética literária. Há algum exagero em suas considerações? Sim. Há. No entanto, elas são considerações feitas ainda no calor da hora, quando a estética aos poucos chegava ao Ceará e ao Brasil com o habitual atraso com que chegava os produtos importados no país, fossem esses produtos materiais ou intelectuais. Ainda assim, esses dois artigos são um exemplo de recepção do naturalismo no Ceará; eles são um exemplo da chegada da estética naturalista em um momento marcado pela convivência de estéticas as mais diversas como já comprovamos com a leitura realizada de trechos de Afrânio Coutinho.

Devemos notar que as palavras usadas por GIL BERT denotam a incerteza do que ele afirma ser o naturalismo. Ao mesmo tempo que diz que "Ninguem poderá jactar se de ser naturalista", reconhece em um livro – e expôs seu método de reconhecimento – aqueles elementos que o caracterizam como obra naturalista. São contradições da crítica feita ao calor da hora, como já o dissemos.

E esses não são os únicos registros que encontramos a respeito do naturalismo, ainda encontramos mais um artigo, que aqui reproduzimos. Além de inúmeras citações a autores naturalistas, em A Quinzena, no seu número seis do ano dois, de 16 de abril de 1888, encontramos o artigo "Apontamentos esparsos", na verdade uma seção do periódico, assinado por José Carlos Júnior, em que mais uma vez o naturalismo e as ideias naturalistas foram trazidos à cena. Apesar de ser longo, pois ocupa as páginas um e dois do periódico, aqui o reproduzimos integralmente seguido de comentários.

Apontamentos esparsos

No ultimo artigo publicado sob esta epigraphe procurou-se

indicar uma falta, que parece notavel, nos ensaios de romance

naturalista feitos no Brazil até hoje. Os nossos literatos que

cultivam o naturalismo, em geral, assimilam as formulas de Zola

e dos Goncourt, penetram-se no seu estylo e apressam-se em

applical-o a qualquer facto, qualquer thema, o primeiro que

appareça, preoccupados somente em que a litteratura brasileira

possúa obras naturalistas, ou antes livros escriptos á imitação

de Zola ou dos Goncourt. O que absorve, o que preocupa o

espirito do autor é a personalidade literaria do mestre. Parece

que ao pintar um scenario, ao descrever um movimento, ao

desenvolver a acção, o pensamento de escriptor de que se

occupa do que a formula, que o mestre empregaria naquelle

caso.

Não é rasoavel entretanto querer-se que o naturalismo inglez,

ou allemão, ou turco seja completamente vasado nos mesmos

molde [sic] que o francezes [sic]; os mais radicais, os mais

intransigentes serão forçados a convir n'isto.

Por maior que seja o grao de perfeição a que chegue o

romance naturalista inglez, há de ter muita coisa de Georg Eliot,

o alemão muita cousa de Freytag, o russo muita coisa de

Gogol, isto é, de particularmente inglez, alemão, russso [sic],

máo grado as influencias reciprocas dessas litteraturas, mais ou

menos intensas conforme a idiosyncrasia de cada autor.

No Brazil, porem, o naturalismo foi importado da França, todo

feito e armado com todas as peças; é uma planta exótica, e é

isto que constitue o principal defeito dos nossos romances

modernos.

Quando foi publicádo o artigo, a que se refere este em seu

começo, acabava de apparecer, no meio de uma nuvem de

encomios, O Homem, de Aluizio Azevêdo. Não quizemos ainda

então occupar-nos desse livro, aguardando mais calma e seria

manifestação da opinião publica á respeito. [sic] Em toda parte

elle foi acolhido como verdadeira e perfeita manifestação da

escola naturalista. Sejam-nos permittidas agora algumas

observações sobre elle.

O Homem é um romance cosmopolita, universal. Pelo seu

thema faz lembrar L'accident de M. Hébert de L. Hennique, ou a

Morte de Ivan Iliitcht de Tolstoi, approximando-se porem muito

mais do primeiro, isto é, do romance puramente physiologico ou

antes pathologico.

No livro de Tolstói a doença, a lesão physica de um orgam é

apenas indicada, entrevista, tão obscuramente quanto a pode

entrever o proprio doente, e o thema do romance é a morte;

essa lesão influe no espirito do enfermo, porem indirectamente;

é a noção da molestia, a idéa da morte e as que d'ahi nascem

que produz a perturbação nos pensamentos, uma concepção

nova do mundo e das cousas, as extravagancias no proceder.

O leitor vê pelos olhos do doente e não pelos do medico.

Em Germinie Lacertaux, dos Goncourt, o mal physico só se

revela pelos seus effeitos, dete[r]minando as acções da

paciente, subjugando a cada instante a rasão; nada de

anatomia, de dissertação physiologica.

E' exactamente o contrario que se da com o discipulo de Zola.

Aqui é o medico expondo ex-cathedra a origem e o

desenvolvimento da molestia de Mme. Hébert e essa molestia,

embora occupe larga parte do livro, pouca alteração traz ás

funcções psychicas do personagem encarregado de soffrel-a.

No romance brasileiro as perturbações mentaes são resultado

immediato e directo da molestia, são a propria molestia em si, e

o estado psychologico da doente, fóra dos acessos, por muito

tempo não soffre alteração alguma, porem as observações

pathologicas occupam no livro um lugar bastante amplo.

Mas onde elle se distancia mais dos outros, que citamos, é

neste ponto que no de Tolstoi a psychologia morbida é o centro,

em torno do qual circulam episodios da vida intima e da vida

publica dos funcionarios russos, observações, estudos

palpitantes de realidade, pormenores triviaes, tornados epicos

sob a sua admiravel penna; o de Goncourt está, mutatis

mutandis, no mesmo caso; no de Hennique, a doença é por sua

vez um episodio em um quadro de cóstumes burguezes na

França; no do Sr. Aluizio porem a doença é tudo, condição e

objecto do romance. O Brazil apenas entra alli com os nomes

das localidades. Muda-se a scena para Madrid, Baltimore,

Buckaresti, Moscou e ella será igualmente verdadeira. A

hysteria é de todos os paizes, e as regiões ideaes, onde se

desenvolve a parte sonhada da acção, e em que o auctor

emprega o seu grande talento descriptivo, colorindo-as com as

bellezas e riquezas indigenas, por isso mesmoque são

sonhadas, não podem representar a natureza tal qual a nosso

ver deve ser comprehendida por um escriptor naturalista.

Primeiro expliquemos nos, pois que o auctor só permite a leitura

de seu livro a "quem tiver idéas bem claras e seguras a respeito

do Naturalismo".

Por serem exactamente as mesmas do eminente escriptor, não

deixam as nossas idéas de ser firmes e accentuadas.

Entendemos que a Nature[z]a para o escriptor naturalista só

pode ser considerada sob um aspecto, é o da influencia que

exerce sobre o homem, como uma das determinantes, já do

seu caracter, já de tal ou tal acto ou volição, já deste ou aquelle

estado particular do seu espirito.

O homem está sempre a reflectir em suas determinações, em

suas velleidades, em suas emoções a influencia de um objecto

de uma cousa, muito insignificante as vezes, do que o cerca, do

que cae debaixo dos seus sentidos.

Em uma obra naturalista, uma ligeira particularidade relativa ao

estado do céo, o vento, um som longinquo ou proximo, um

fundo de paizagem, indicada rapidamente, em uma phrase, no

meio do dialogo ou da acção, representa um modo de ser

particular nas idéas ou nas emoções do personagem.

A natureza é sempre um factor...

Aluizio o sabe muito bem; o casarão sombrio da Tijuca e a

atmosphera das igrejas representam bem o seu papel no

romance, mas a natureza tropical e a vegetação da ilha

imaginaria nada absolutamente importam ao desenvolvimento

da acção. Creação é uma phantasia morbida, producto em vez

de factor, ellas só adquirem importancia nas ultimas paginas do

romance, na recordação dolorosa das venturas gozadas em

sonho.

Seja-me relevada a ousadia de discordar do eminente litterato e

de seus amigos; a descripção daquellas paragens é muito

naturalista para um producto daquella imaginação de moça

doente, e muito refinada para representar as influencias

herdadas ou recebidas na infancia da protagonista.

Em summa esse importante romance apresenta bem

caracterisado o defeito que dissemos existir em todos os

ensaios naturalistas brasileiros, isto é ser extranho á sociedade

Continuar: parte 4 de 4