Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

Carlos Eduardo de Oliveira Bezerra · Capítulo 4 de 10 · parte 4/4

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Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

1 Adolfo Caminha: condições materiais e intelectuais de produção da literatura brasileira no final do século XIX

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

propriamente nacional, não ser um estudo do caracter

brasileiro.

E tão longe do auctor do Homem andou a idéa de fazer um

quadro de costumes brasileiros que, alem de ser absorvida pela

pathologia uma grande parte do livro, quasi todos os seus

personagens pertencem a uma sociedade exotica. A Justina, o

Luiz, os outros operarios, fallam, obram, pensam como

portuguezes, bem isolados da gente do paiz.

Não deixará por isso de ser um livro excellente, util a fazer

época na litteratura brasileira; admiramos o talento de Aluizio e

entendemos que O Homem deve occupar logar honroso na

galeria dos nossos melhores romances, mas fazemos votos

para que os novos cultores do naturalismo esforcem-se por dar

um cunho mais acentuado de nacionalidade ás suas obras, e

explorem a mina, quasi virgem, dos nossos costumes populares

e do interior.

JOSÉ CARLOS JÚNIOR 17

Diferentemente de seus antecessores, José Carlos Júnior foi mais claro e incisivo em sua crítica, tomando como mote o nacionalismo literário, tema esse que já estava presente na literatura brasileira pelo menos desde o romantismo, ou mais acentuadamente nele. Era o velho tema da literatura missionária que o crítico reclamava, pois na sua compreensão faltou ao romance em questão a cor local, que lhe seria dada pela natureza. Esse empenho, como o chamou Antonio Candido, foi sempre reclamado de nossos escritores: era preciso dizer o Brasil, mostrarlhe como algo genuíno e não somente um cópia dos produtos que importava. Essa queixa, quase psicanalítica, também a encontraremos nos textos críticos de Adolfo Caminha quando ele reclamava das inúmeras traduções feitas para o teatro ou ainda do fato de importarmos da França todo o nosso repertório de leitura. Nesse sentido, os críticos encontraram no realismo e no naturalismo, como estéticas e técnicas literárias, um campo fértil. A inutilização de ambos pareceu então incomodar verdadeiramente a crítica literária como o expressou José Carlos Júnior. Foi talvez essa percepção de que o realismo e o naturalismo poderiam com suas técnicas dizer mais do Brasil que críticos como Afrânio Coutinho e Flora Süssekind os conceituassem como escolas e estéticas recorrentes na literatura brasileira. É o que veremos, por exemplo, em Tal Brasil, Qual romance?, de Süssekind, mas também no já citado Coutinho (1975, p.195) que a propósito afirmou:

No nosso século, fora e também dentro do Brasil, o Realismo

constitui a principal tendência da literatura, e o uso das técnicas

realistas é uma convenção generalizada, seja, nas feições mais

puras e moderadas, seja em formas combinadas com os

elementos técnicos e temáticos do Simbolismo, do

Impressionismo, do Expressionismo, seja sob as manifestações

do Neo-naturalismo ou Neo-realismo populista, socialista e

existencialista.

O que o crítico também discutiu é um dos pressupostos então em voga no fazer literário: o meio. A influência do meio sob a escrita literária ficcional foi crucial na literatura e na crítica literária que se produziu à época. O que pode o meio e como pode o escritor representá-lo eram questões que ocupavam as mentes dos escritores e críticos literários brasileiros. Essa parece uma questão recorrente para os nossos críticos literários. José Carlos Júnior foi um deles. Também o que está no interior de sua queixa é a verossimilhança, ou seja, tomando por base os parâmetros da estética naturalista, o que é possível representar, como representar, eram perguntas que norteavam o seu pensamento.

A fórmula ciência+literatura parece ter de alguma maneira conformado a escrita ficcional, sobretudo quando os escritores naturalistas procuraram seguila à risca. A crença na verdade se apresentou pela representação minuciosa dos fatos. Dizer tudo, mostrar tudo, até mesmo o mais escondido e o proibido foi a ética do naturalismo, considerada pelos críticos mais puritanos como falta de ética. Some-se aos componentes da fórmula literária do naturalismo a representação da sociedade e a contribuição do aparecimento da sociologia então teremos um amálgama em que nossos escritores fincaram as bases de seus escritos. Nesse sentido, afirmou Afrânio Coutinho: "Assim, o acontecimento mais importante da história da cultura no século XIX foi a convergência da biologia e da sociologia, que derramou por tôda a parte, na observação e interpretação da vida, a atitude evolucionista" (ibidem, p.183).

Por fim, é claro que José Caros Júnior percebia que aquele era ainda um momento de afirmação das ideias naturalistas destacadamente na dinâmica literária brasileira, sempre marcada pelo atraso em entregar no Brasil os produtos culturais e intelectuais que importávamos. O teor comparativo do artigo, citando romances de Zola, Gogol e dos Goncourt mostra que os escritores cearenses estavam com suas leituras atualizadas e estabeleciam comparações a partir de temas que definiam como importantes para a constituição do fazer literário à época.

É preciso destacar que os artigos aqui apresentados tiveram como objetivo mostrar que aos poucos as ideias que encontraremos no conjunto da obra de Adolfo Caminha estavam sendo assentadas no Ceará. O terreno intelectual estava aos poucos se formando, malgrado as dificuldades. Quando Adolfo Caminha chegou à Fortaleza, mesmo sempre se queixando da monotonia local, como é possível perceber nas páginas de sua coluna "Sabbatina", no jornal O Pão, as ideias ditas modernas e renovadoras já eram conhecidas de vários homens e mulheres de letras. Não diríamos de todos e todas ou nem todos e todas as cultivavam, pois como vimos, o romantismo não deixou de ser empregado como estética e nem o realismo ou o naturalismo pontificou sozinho. Nosso objetivo, então, é mostrar como a imprensa literária lidava com essas questões supostamente novas para a intelectualidade e a vida na cidade. Agora, porém, é hora de alimentar o espírito, aguardar a chegada de Adolfo Caminha, que, logo ao desembarcar em Fortaleza, foi convidado a pôr a mão na massa, arregaçar as mangas e assar O Pão, o pão dos padeiros da Padaria Espiritual.

Uma padaria para o espírito

Rua Formosa, moça bela a passear

Palmeira verde e uma lua a pratear

Um olho vivo, vivo, vivo, a procurar

Mais uma idéia pro padeiro amassar.

(Ednardo, "Artigo 26")

"Perguntas-me, entre curioso e tímido, como é que nasceu a Padaria Espiritual. Sei lá. Quem sabe a verdadeira origem das cousas?" (Caminha, 1999a, p.127) Foi com essas palavras que Adolfo Caminha, de um modo supostamente incerto, referiu-se ao inicio das atividades da Padaria Espiritual que se deu em 30 de maio de 1892. A incerteza do nascimento da agremiação dos Padeiros, como eram chamados os seus membros, continuou no decorrer da fala de Adolfo Caminha em artigo que ele escreveu já na volta definitiva ao Rio de Janeiro. O artigo intitulado "Padaria Espiritual" foi publicado junto de outros, em 1895, enfeixados com o título Cartas literárias. No citado artigo lemos:

O que desde logo te posso ir dizendo é o seguinte: Aos tantos

de maio de 1892, foram ao escritório do Diário, jornal em que

eu trabalhava, dois rapazes (lembra-me bem que um deles

trazia um pince-nez) convidar-me para fundar uma sociedade

literária, cujo nome fosse Padaria Espiritual. (ibidem)

Naquele momento de sua vida, o escritor se encontrava em Fortaleza. Em 1888, mais precisamente em junho daquele ano, segundo informação de Sânzio de Azevedo (1999, p.157), Adolfo Caminha "Apresenta a patente e, por motivos de saúde, pede e obtem transferência para o cruzador Paquequer, sediado em Fortaleza, Ceará". Se nas duas agremiações anteriormente analisadas – Academia Francesa do Ceará e Clube Literário –

Adolfo Caminha estava no Rio de Janeiro completando os seus estudos na Marinha, no caso da Padaria Espiritual, como vemos, foi diferente. Assim, deixemos que ele recorde o seu encontro com os futuros amigos de agremiação:

Qual o programa? inquiri depois de estranhar o título.

– Isso veremos. A primeira sessão preparatória realizar-se-á no

Café Java, ali à praça do Ferreira... Você está designado para

escrever uma carta a Guerra Junqueiro.

– Como uma carta a Guerra Junqueiro?

– O Sales vai se dirigir a Ramalho Ortigão, o Tibúrcio a Eça de

Queiroz, o Lopes

Filho a Antônio Nobre. A você coube-lhe Guerra Junqueiro.

– Mas... expliquem-se!

– Não é nada: uma ousadia, um escândalo, o que quiser! Trate

de fazer a correspondência para ser lida amanhã, no forno.

Ri-me embaraçado, com um ar tolo.

– Que devo escrever, então?

– Fale ao Guerra sobre a Padaria e diga-lhe que queremos um

exemplar da Morte de D. João, outro da Musa em férias, outro

da Velhice [A Velhice do Padre Eterno]..., enfim, um exemplar

de cada obra dele para a nossa futura biblioteca. Uma cousa

assim... (Caminha, 1999a, p.127)

Por esse breve retrospecto já podemos perceber que o recém-chegado Adolfo Caminha já se dedicava às letras por intermédio da edição de jornais, notadamente O Diário, cujo primeiro número é de 6 de maio de 1892; portanto, alguns dias antes da instalação da Padaria. Esse fato fez-nos dedicar um capítulo deste trabalho ao autor-editor de periódicos literário e noticioso, como veremos adiante. Em O Diário também não faltaram referências ao Pão, órgão da Padaria Espiritual. Nesse mesmo trecho citado, é possível perceber já algumas características da Padaria Espiritual, destacadamente a sua irreverência. Tratava-se de "uma sociedade de rapazes de Lettras e Arte" como constava no artigo primeiro de seu Programa de Instalação. O objetivo da agremiação, segundo o já dito programa, era "fornecer pão do espírito aos socios em particular e aos povos em geral". Mas, quem foram esses sócios? O que significava o "pão do espírito"? Por que essa nomenclatura tão diferente: padaria, padeiro, forno, fornada, padeiro-mor para um grêmio de literatos?

Os seus membros não foram poucos. Uma vez instalada em 1892, a Padaria sofreu uma reorganização em 28 de setembro de 1894, quando, segundo Sânzio de Azevedo (1976, p.158), "entraram para os seus quadros mais 10 sócios". Assim, podemos falar em duas fases da agremiação: a primeira, que vai de 30 de maio de 1892 a 28 de setembro de 1894; a segunda, que vai dessa data da reorganização até 1898, quando se extinguiu o grêmio. Da primeira fase participaram vinte sócios, quantidade que ordenava o terceiro artigo do Programa de Instalação: "Fica limitado em vinte o número de sócios, inclusive a Diretoria, podendo-se, porém, admitir sócios honorários, que se denominarão Padeiros-livres" (ibidem, p.151).

Como consta no artigo sexto – "os Padeiros terão um nome de guerra único, pelo qual serão tratados e do qual poderão usar no exercício de suas árduas e humanitárias funções" – todos eles assim o fizeram. Segue a lista dos nomes daqueles que participaram da primeira fase com seus respectivos nomes de guerra grafados em itálico: Jovino Guedes, Venceslau Tupiniquim; Antônio Sales, Moacir Jurema; Tibúrcio de Freitas, Lúcio Jaguar; Ulisses Bezerra, Frivolino Catavento; Carlos Vítor, Alcindo Bandolim; José de Moura Cavalcante, Silvino Batalha; Raimundo Teófilo de Moura, José Marbri; Álvaro Martins, Policarpo Estouro; Lopes Filho, Anatólio Gerval; Temístocles Machado, Túlio Guanabara; Sabino Batista, Sátiro Alegrete; José Maria Brígido, Mogar Jandira; Henrique Jorge, Sarazate Mirim; Lívio Barreto, Lucas Bizarro; Luís Sá, Corregio del Sarto; JoaquimVitoriano, Paulo Kandalaskaia; Gastão de Castro, Inácio Mongubeira; Adolfo Caminha, Félix Guanabarino; José dos Santos, Miguel Lince e João Paiva, Marco Agrata.

Após a reorganização, mantendo o hábito dos nomes de guerra, a agremiação passou a contar com mais quatorze sócios, além daqueles já existentes, o que de certo modo não cumpria com a determinação do já citado artigo terceiro. São eles: Antônio de Castro, Aurélio Sanhaçu; José Carlos Júnior, Bruno Jaci; Rodolfo Teófilo, Marcos Serrano; Almeida Braga, Paulo Giordano; Valdemiro Cavalcante, Ivan d'Azhoff; Antônio Bezerra, André Carnaúba; José de Carvalho, Cariri Braúna; X. de Castro, Bento Pesqueiro; Eduardo Sabóia, Braz Tubiba; José Nava, Gil Navarra; Roberto de Alencar, Benjamin Cajuí; Francisco Ferreira doVale, Flávio Boicininga; Artur Teófilo, Lopo de Mendoza e Cabral de Alencar, Abdul Assur.

O uso de pseudônimos já era corrente nos órgãos literários do século XIX no Ceará. Já em A Quinzena, órgão do Clube Literário, encontramos José Carlos Júnior assinando, com o mesmo nome de guerra que adotou na Padaria – Bruno Jacy –, seis poemas e dois contos ao longo dos trinta números do periódico. Também em A Quinzena encontramos Oliveira Paiva assinando como Gil ou GIL BERT. Vale destacar que a Padaria não reuniu apenas homens de letras, mas também um pintor e desenhista: Luis Sá, e dois músicos: os irmãos Henrique Jorge e CarlosVítor. Mas voltemos à recordação de Caminha.Vemos por ela que a sessão de abertura dos trabalhos

da Padaria deu-se no Café Java,18 um dos quatro quiosques que se localizavam na praça do Ferreira e era de propriedade do afamado Mané Coco.

A irreverência que marcou a Padaria já se deu nessa sua sessão de instalação feita em praça pública. Não menos irreverente foi a atitude dos Padeiros ao escreverem cartas para os autores portugueses, pedindo-lhes exemplares de suas obras, com o objetivo, talvez, de cumprir o que designava o artigo 24 do seu Programa de Instalação: "Trabalhar-se-á por organizar uma biblioteca, empregando-se para isso todos os meios lícitos e ilícitos" (Azevedo, 1976, p.153). Ou talvez para terem mais acesso ao que se fazia em Portugal. A irreverência continuou na designação dos membros, que, assim como já vimos, se chamaram "Padeiros", estendendo-se para os nomes de guerra que escolheram. Alguns foram mais contidos, relacionando os seus pseudônimos com situações de sua vida pessoal ou profissional, como o foi, por exemplo, Adolfo Caminha, que adotou o nome de Félix Guanabarino, numa referência à baía da Guanabara e à sua atividade como marinheiro; outros foram além: como Paulo Kandalaskaia, Brás Tubiba, Frivolino Catavento, Policarpo Estouro, Lucas Bizarro. Esses não economizaram na extravagância dos pseudônimos.

Também não faltaram exemplos de valorização de elementos nacionais, como nomes que se referiam à flora e à fauna brasileiras: Moacir Jurema, Inácio Mongubeira, Aurélio Sanhaçu; André Carnaúba e Cariri Braúna. Esse, talvez, tenha sido o mais radical ao cumprir o que determinava o sexto artigo do Programa de Instalação – "Será julgada indigna de publicidade qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhas à Fauna e à Flora brasileiras, como: cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho, etc, etc." (ibidem) – trocou nome e sobrenome por elementos nativos: o vocábulo Cariri, que designa uma região do sul do Ceará e é também a principal família de línguas indígenas do sertão do Nordeste, e também a Braúna, uma corruptela do vocábulo Baraúna, espécie de árvore nativa. Não parece ter sido acaso, então, que José Carvalho tenha se dedicado, como afirmou Sânzio, à coleta de trovas populares e ao estudo do folclore (ibidem, p.163). Além de trocar o carvalho europeu pela baraúna brasileira.

O mais importante deste uso de nomes de guerra, uns mais jocosos do que outros, porém, é a abolição do nome de família. Mesmo sendo os "Padeiros" homens oriundos das camadas simples da população cearense, pois muitos deles eram empregados do comércio, como se dizia à época – caixeiros – ou professores, o fato de escreverem sem seus nomes de batismo significava a renúncia da forte tradição do nome de família, como não o fizeram a maioria dos membros das agremiações que os antecederam.

Vale destacar o fato de que também pela primeira vez no Ceará esses homens de letras passaram a ser reconhecidos por uma profissão braçal ou manual em oposição ao trabalho intelectual que realizavam. Era, assim, uma atitude de confronto com a lógica estabelecida na longa tradição associativa dos homens de letras cearenses, todos os seus antecessores adotaram os títulos de poetas, escritores, romancistas, enfim, todos os designativos do trabalho intelectual. Eles não o fizeram, pois se definiram como padeiros, mesmo que produzissem o pão do espírito, encontrando-se em fornadas, como designavam as reuniões, que se realizam no forno, a sede da agremiação.

Entre tantas outras, essas foram marcas da irreverência da Padaria; irreverência que não durou muito, uma vez que a sua chamada segunda fase (1894-1898), foi, segundo Sânzio de Azevedo, "menos brincalhona e mais voltada para os trabalhos de maior fôlego" (ibidem, p.158). Essa segunda fase ficou a cargo de dois padeiros-mor: José Carlos Júnior e Rodolfo Teófilo. Ambos foram antecedidos por Jovino Guedes. Assim como o Clube Literário, a convivência de estéticas foi intensa durante a existência da Padaria Espiritual, valendo portanto para a sua análise aquelas mesmas palavras de Afrânio Coutinho que considerou o final do século XIX como uma encruzilhada estética.

No interior da Padaria havia padeiros simbolistas, como foi o caso, por exemplo, de Lopes Filho, que em 1893 publicou Phantos, um livro de poesia simbolista, ou seja, no mesmo ano em que Cruz e Souza tinha publicados os seus Missal e Broquéis no Rio de Janeiro, onde também Adolfo Caminha, pela mesma editora que Cruz e Souza, a Domingos de Magalhães, tinha publicado o seu romance de estreia, A normalista (Cenas do Ceará) escrito em Fortaleza durante o período em que fora membro da Padaria como ele mesmo lembrou: Vai para dois anos, meu amigo, que uma forte resolução e uma brisa de prosperidade arrancaram-se a esse poético e delicioso Outeiro, onde, por umas tardes incomparáveis de doçura e quietação, pude escrever as páginas mais verdadeiras e mais sinceras do meu primeiro livro... (Caminha, 1999a, p.127).

O que atestou também a escrita d'A normalista enquanto Adolfo Caminha morava em Fortaleza foi um artigo de Lucio Jaguar ao qual já nos referimos ao tratar neste capítulo do que chamamos de "tempo da produção". Se do Rio de Janeiro Caminha trazia na bagagem dois livros – Voos incertos (primeiros versos) e Judith e Lágrimas de um crente – ambos de 1887 – ele saiu de Fortaleza carregando na sua bagagem um livro muito mais bem acabado, seja no que diz respeito à narrativa, seja no que diz respeito à construção das personagens. Foi de Fortaleza que ele partiu para, logo após chegar ao Rio de Janeiro, lançar-se na crítica literária nas páginas da Gazeta de Notícias, periódicos fluminense de Ferreira de Araújo, como veremos neste trabalho no capítulo dedicado ao autor-crítico.

É preciso destacar essa passagem de Adolfo Caminha por Fortaleza. É bem verdade que ela já viera do Rio de Janeiro homem feito, tenente da Marinha Imperial Brasilera, educado nas tarefas do mar e onde também, além da formação militar, já demonstrava dedicar-se à literatura. No entanto, foi após a passagem por Fortaleza que se estruturou o autor de ficção, ao menos de uma ficção bem mais amadurecida do que aquela que ele trazia em sua bagagem antes de desembarcar no porto do Ceará. Foi de Fortaleza que ele também se lançou para a imprensa literária de maior porte. Editando na capital cearense o jornal O Diário e a Revista Moderna, pôde, chegando ao Rio de Janeiro, trabalhar nas páginas da Nova Revista e, assim, atuar como editor. O que nos leva a concluir que Fortaleza lhe serviu como um grande laboratório de experiências que fizeram dele um polígrafo, aqui entendido no sentido mais amplo possível, não somente como aquele que escreve sobre diversos assuntos, mas aquele que escreve de forma diversa e cujas diversas escritas mantêm entre si relações que ajudam a criar a ideia de uma dinâmica interna de construção do sentido de obra, que não se confunde como sinônimo de livro, de volume, de obra completa, mas é, mais do que isso, um modo de organizar que se faz perceber pelos seus pontos de contato internos.

Nas páginas de O Pão, Adolfo Caminha deteve-se na análise de Fortaleza, na sua vida cotidiana, na sua vida literária, queixando-se sempre do pouco caso da população para com os homens de letras, notadamente os Padeiros. Parte disso já foi aqui trabalhado ao tratarmos do seu constante descontentamento com o comodismo da sociedade cearense de então e também ao tratarmos do seu descontentamento com o burguês ou com a burguesia entendida segundo os critérios de sua época.

Mais do que as duas citadas agremiações, a Padaria Espiritual publicou uma infinidade de textos ficcionais: poemas, contos, fragmentos de romances. Não faltou também a crítica literária. Rodolfo Teófilo, por exemplo, escreveu vários artigos sobre o romance A normalista. Antônio Sales e Teófilo colocaram-se a respeito das Cartas literárias. O romance Bom-Crioulo foi anunciado em O Pão. Enfim, até ser desligado definitivamente da Padaria, o que segundo Sânzio de Azevedo com fundamentado em informação de Leonardo Mota, deu-se em 19 de julho de 1896, desligamento motivado talvez pelo seu artigo Padaria Espiritual, que data de 1895, como já o vimos, ou pelo artigo, também já visto, publicado na Mala da Europa, em Portugal, até então Caminha manteve-se em contato com a agremiação, mesmo já tendo voltado definitivamente ao Rio de Janeiro.

A Padaria manteve-se, no seu período de funcionamento, como uma encruzilhada de ideias e contatos. Os registros de sessões e comemorações de outros grupos são diversos, como o aniversário de Justiniano de Serpa, festejado pelo Centro Literário, agremiação fundada em 1894 por dissidentes da Padaria – Temístocles Machado e Álvaro Martins, esse, de fato, só chegado depois, aos dois poderíamos juntar o nome de Jovino Guedes, no entanto esse

mantevese nos dois grupos. 19 Assim como o aniversário de Justiniano de Serpa, foi saudado o retorno de João Lopes, aquele da Academia Francesa do Ceará, a Fortaleza, onde, com a família, passava férias. A esse respeito, em O Pão de 15 de janeiro de 1895, lemos: "A Padaria é toda abraços para cingir ao querido amigo no mais effusivo e fraternal amplexo".

Também não são poucos os anúncios de recebimentos de livros e periódicos literários e dos mais diversos tipos, bem como solicitações de envio de O Pão para agremiações de diversas cidades e estados brasileiros. Também o ir e vir dos Padeiros era sempre notificado nas páginas do periódico, ao qual também não faltavam os registros de nomes conhecidos da literatura de então, como Afonso Celso e Pardal Malet, esse de passagem pelo Ceará quando do fim de seu exílio no Norte do país.

O que queremos mostrar com o então exposto é que uma rede de relações se estabelecia entre as agremiações, funcionando como uma forma de difusão de ideias e também de obras. Luciana Brito, em sua tese de doutorado, considerou o jornal O Pão como um instrumento de intervenção na realidade cearense de então. Uma dessas intervenções foi, segundo ela, a valorização do profissional de letras e a formação de um público leitor. Luciana Brito (2008, p.143), a respeito da Padaria e da participação de Adolfo Caminha nela, afirmou:

Para Caminha e os outros padeiros, a literatura não seria uma

mera experiência do devaneio, uma atitude singularmente

escapista, mas um campo possível de redescoberta do

humano, através da qual os escritores teriam a missão de

regenerar comportamentos e valores daquela época. Cabe

afirmar que a idéia do "pão do espírito" teria um papel quase

pedagógico de ensinar aos leitores a não serem tomados pela

falsa realização material causada pela febre de consumir

produtos industrializados.

Apesar de já estar desligado da Padaria, como veremos na análise dos periódicos editados por Adolfo Caminha, notadamente no caso de A Nova Revista, de 1896, esse não deixou de anunciar nas páginas do periódico citado os livros dos colegas cearenses que lhe eram enviados, servindo, desse modo, a revista de vitrina da literatura local na então capital do país, além, evidentemente, de ainda estar tomado por aquele papel pedagógico do qual tratou Luciana Brito.

É preciso considerar que a convivência simultânea dessas agremiações foi o modo encontrado de difundir ideias, expandir o movimento de produção da literatura, o que não significa, no entanto, que entre elas não houvesse divergências. Nessa dinâmica própria confluíam as condições materiais e intelectuais de então. Temos sempre a compreensão de que as ideias vinham do centro para as periferias literárias do país, mas, como vimos, apesar dos diversos problemas enfrentados, o que uma análise mais descentralizada nos mostra é que o fluxo de ideias percorria o país então dividido entre os do Norte e os do Sul. É evidente que o Rio de Janeiro era a capital da República das Letras no Brasil do século XIX, e nem podia ser diferente, afinal, na capital do império e posteriormente da República achavam-se as melhores oportunidades para o trabalho de nossos homens de letras, sobretudo porque um sistema literário mais complexo que os permitisse viver apenas do trabalho com a palavra era inexistente em outras cidades do país. Por esse motivo, trabalhamos acima a respeito dos acordos com o tempo, pois, ao dividir-se entre tantos afazeres, o homens de letras sentia que nada era mais material do que o tempo.

Voltando ao Rio de Janeiro, Adolfo Caminha conviveu com as ideias que por lá e pela província também já se difundiam há muito. A crença em determinantes como meio, raça e momento era a tônica de nossa crítica literária representada pelos três grandes críticos então em voga: Araripe Júnior, Silvio Romero e José Veríssimo. Esses eram ingredientes que, naquele período do século XIX no Brasil, não podiam faltar a uma boa massa de pão do espírito, ou seja, a literatura, que muitas vezes voltou-se para si própria, para a sua constituição, produzindo um discurso, que, aqui chamamos de "discurso do descontente", sinalizando um mal-estar com as condições materiais e intelectuais que rodeavam os homens de letras. É sobre esse discurso que tratamos na seção seguinte.

O discurso do descontente. Os perfis do autor.

As memórias de produção da literatura brasileira

– E tenciona viver das letras? perguntou assombrado. O

estudante encolheu os hombros com resignação e o outro

irrompeu: Pois meu amigo, aceite os meus pezames. E,

inclinandose, rugiu ao ouvido de Anselmo: Cure-se! Não vá

para um convento, vá para um hospício. Cure-se emquanto é

tempo. Neste paiz viçoso a mania das letras é perigosa e fatal!

Quem sabe sintaxe aqui é como quem tem lepra. Cure-se! Isto

é um paiz de cretinos, de cretinos! convença-se.

(Coelho Neto, A conquista)

A relação entre as condições materiais e intelectuais produziram um fato ligado diretamente à produção do discurso literário. O fato de não poder viver somente de sua escrita, recebendo os dividendos que considerariam justos, causava nos autores de um modo geral e, em particular, em Adolfo Caminha a produção do discurso que chamamos de discurso do descontente. Ainda que não tenha sido retirada de um título caminhiano, a epígrafe citada é um exemplo do que aqui afirmamos. Trata-se de um discurso marcado, fortemente, por recursos da oralidade: o uso constante de vocativos, de advérbios, de locuções. Nele, a ironia e a crítica contundentes tomam especial feição na constituição de personagens que estão fora de um texto pactualmente ficcional como podemos constatar na citação a seguir, e em especial nos grifos que pusemos:

Dói n'alma e causa desalento o abandono quase completo, a

indiferença já tanta vez invocada, com que são vistos no Brasil

os homens de letras, os obreiros da inteligência, os abnegados

da Arte, para quem a vida consiste principalmente no belo e na

verdade, fundidos num símbolo indissolúvel e eterno; maior

pena, porém, é ver a estatística das nossas produções

literárias, a sinopse demonstrativa do nosso esforço mental

durante trezentos e sessenta e cinco dias do ano.

Admiram zelosos economistas o estado das nossas finanças e

bradam e vociferam contra o relaxamento dos governos...

Pobre literatura nacional! Essa nem ao menos encontra quem

lhe chore o abandono pungente.Vive por aí, mísera viúva,

perpetuamente em crepe, num abandono pungente, coberta do

desprezo e de ridículo, apupada mesmo pela malandrice

audaciosa e irreverente... (Caminha, 1999a, p.17)

Esse discurso, porém, é também o registro da condição desfavorável em que vivia o autor. E porque o faz significa dizer que ele tem em mente uma condição favorável ou que ao menos considerasse como tal, apesar de denotar que vivia em uma condição desfavorável. Definem-se a partir dele dois perfis do autor. No primeiro está a realidade representada por Caminha. Nesse perfil, os autores são preguiçosos, bajuladores da imprensa, amantes da flânerie, como podemos constatar nesta sua afirmação: "Preferimos a suave palestra, descuidada e livre, do beco do Ouvidor, ao penoso trabalho de gabinete, monótono e esfalfante, que produz sábios e loucos, literatos e tuberculosos" (ibidem).

Não somente por oposição podemos constatar em seus textos o que para Adolfo Caminha seria o perfil ideal. Primeiramente, por oposição ao primeiro perfil, o autor ideal seria o trabalhador incansável, o operário das letras recluso em seu gabinete, pesquisando livros e toda a sorte de escritos que lhe pudessem servir de fonte. Mas é no próprio texto de Caminha que encontramos o perfil ideal. Portanto, deixemos o autor falar: "Falemos, sim, dos que entram no maravilhoso templo da Arte com o respeito e a convicção de sacerdotes impolutos. Diminuidíssimo é o número destes. Magra estatística onde se reflete, tal como é, a nossa índole – meio cabocla, meio ariana – preguiçosa e mórbida" (ibidem).

Esse sujeito que escreve o discurso descontente é um sujeito com práticas em estado de tensão entre o presente e o devir, entre as circunstâncias e o desejo. As marcas do discurso oral, aliadas aos recursos da comparação, da rememoração de fatos na tentativa de explicar as circunstâncias, os seguidos exemplos, a narração pormenorizada de acontecimentos, as citações, as notas explicativas só são possíveis graças a uma característica da escrita: a fixação do pensamento, notadamente aquele que se deseja vincular como memória. Caminha traz à cena o passado e o futuro que ela deseja, mas, como todo futuro, é ainda desconhecido. O uso desses recursos demonstra o quanto assegurar ao menos as garantias relativas era uma necessidade premente dos autores, ou pelo menos de Adolfo Caminha no Brasil do final do século XIX, naquele momento de mudanças as mais diversas, quando mesmo de forma canhestra o país passou a fazer parte do comércio internacional de bens de consumo industrializados. O autor que entrava no mercado era apenas o consumidor e não o produtor de um bem que lhe rendesse dinheiro o suficiente sem que precisasse recorrer a outros expedientes e serviços.

Esses relatos da insatisfação, do sentimento de abandono, da condição de pouco caso com que se sentiam tratados os autores e os homens de letras, estão muito presentes nas cartas trocadas entre pares ou em autobiografias e memórias. A sua presença também é constante na literatura nacional; tão constante quanto a escrita de romances, contos, novelas etc. São narrativas de um eu autoral escritas ao mesmo tempo em que são escritos os textos ficcionais. Portanto, constituem memórias da produção ficcional nacional; são memórias das condições de produção e, notadamente, do produtor. A constância desses relatos fez que eles passassem a conviver diretamente com o texto literário ficcional. Eles são o exemplo do diálogo entre as práticas do autor e do crítico, portanto, do polígrafo.

Assim, esses relatos constituem uma força fundamental, por exemplo, na construção de personagens, nas experiências do narrador, nas observações feitas ao narratário. São fontes pouco exploradas na história da literatura nacional. Um bom exemplo desse tipo de discurso está em A conquista e em A capital federal, ambos romances de Coelho Neto, que são ao mesmo tempo, na nossa compreensão, literatura e memória de uma geração de escritores que se empenharam para entrar no campo literário.

Nesse sentido, o autor fala de si mesmo, transforma-se em matéria da sua obra, mas não diretamente; ele o faz em estado de tensão, de atrito entre a ficção e a crítica, entre o real e o ideal, usando, até mesmo, pseudônimos, em vez de nomes, para as personagens, uma vez que pelo próprio pseudônimo é fácil saber de quem o autor estava tratando. Em A conquista, por exemplo, Rui Vaz é Aluízio Azevedo; Octavio Bivar é Olavo Bilac; Luiz Moraes é Luiz Murat; Paulo Neiva é o cearense Paula Ney e Anselmo Ribas o próprio Coelho Neto, autor do romance. A referência a José do Patrocínio é explicita, o que cria uma tensão entre o real e a representação no interior da narrativa romanesca, reforçando o aspecto da memória.

É, pois, entre as tensões do real e do ideal, do vivido e do desejado, concernente à prática da escrita e da publicação de livros, que se estrutura, ao menos em parte, a problemática e a análise aqui expostas, pois estas tensões estão no cerne dos escritos de Adolfo Caminha e nos serviram para def ini-lo como um autor tenso na introdução deste trabalho. Nesse sentido, os relatos de Caminha a respeito das condições de escrita dos seus textos são considerados por nós também como memórias; são considerados em si e na relação deles com o sujeito que os produziu e ainda na relação com os textos f iccionais, pois não procuramos neutralizar a força específica desses relatos. A esse respeito, afirmou Pascale Casanova (2002, p.23):

Há muito os escritores descreveram eles mesmos, parcialmente

e de maneira bem diversa, as dificuldades ligadas à sua

posição no universo literário e às questões específicas que têm

de resolver, sobretudo as leis estranhas da economia específica

segundo a qual é governado o espaço literário. Porém, a força

de denegação e de recusa é tão grande nesse universo, que

todos os textos abordam com mais ou menos detalhes essas

questões perigosas e atentatórias à ordem literária foram de

imediato neutralizadas. Desde Du Bellay, muitos foram os que

tentaram em suas próprias obras revelar a violência e os

desafios verdadeiros que presidiam a sua vida e a sua luta

específicas de escritores.

Esse caráter memorialístico do texto literário e do texto crítico parece ter sido a causa, por exemplo, para que autores, como o já citado Coelho Neto, fossem esquecidos e quase não figurem na prateleiras das livrarias, ou sejam lembrados por leitores atuais como a mesma facilidade que o foram por leitores no passado. Mas nesses autores esquecidos e realizadores de um discurso descontente está parte considerável da história da literatura brasileira ou da memória da literatura brasileira transformada em ficção. Nesse rol de escritores descontentes está Adolfo Caminha. Os seus textos críticos passaram mais de cem anos para merecer uma segunda edição. São fontes pouco consideradas para o estudo de sua obra e para o estudo de sua época quando o trabalho do escritor no Brasil começa a se constituir como ofício, o que significa dizer que ele estava presente nesse princípio que parece se arrastar e não deixa de constituir o discurso descontente, mesmo com a aparente mudança da situação do autor ante as condições de trabalho, o que faria de seu ofício um entre outros, ou seja, em termos de remuneração, sobretudo na lógica capitalista na qual estamos inseridos, resultaria em ganhos financeiros como os demais ofícios.

Tato e transcendência, amor e objetividade ou um modo de voltar ao começo.

Para concluir este capítulo, voltamos ao seu começo, mais especificamente às três epígrafes que lhe servem de porta de entrada. Do trecho da música "Livro", de Caetano Veloso, retiramos a ideia que perpassou toda a escrita do presente capítulo: tato e transcendência, como binômio que significou a relação entre as condições materiais e intelectuais da literatura brasileira no final do século XIX no Brasil. O tato representa, assim, as condições materiais, a necessidade de objetivar as ideias sem as quais ele, o tato, também não se efetiva. Tratar separadamente tato e transcendência só se justifica pela nossa incapacidade de perceber a relação entre ambos, ou melhor, a nossa incapacidade de construir um método que os analise de forma mútua, pois é, assim, que eles existem.

Neste capítulo, não compreendemos as condições como sinônimos de determinantes, ideia essa, aliás, vigente à época em que Adolfo Caminha produziu o conjunto de sua obra. Compreendemos as condições – materiais e espirituais – como circunstanciais, que podiam ser superadas pela existência de um projeto pessoal de cada autor. Sendo o século XIX uma encruzilhada de estéticas, como o definiu Afrânio Coutinho, não há por que defender que essas condições, incluindo as condições de cada estética, existissem de modo estanque. Elas se entrecruzam, formam estéticas simbióticas, mutantes, o que dificulta, por exemplo, a nossa capacidade de ordenar as coisas, para lembrar, aqui, de Michel Foucault.

De Pierre Bourdieu veio-nos um outro binômio – amor e objetividade – ou por que não dizer, amor e objeto. Esse mesmo objeto que a memória do corpo nos faz guardar na memória da pele. Binômio esse que também significa as inúmeras relações que se tecem e tecem o campo literário e os demais campos, para usar aqui a nomenclatura de Bourdieu. Quanto de amor se colocou na produção da literatura? Quanto de objetividade foi recebido? Essas nos parecem que são questões – talvez teóricas – que estão por detrás, dos lados, nas terceiras e quartas margens; enfim, dentro do que aqui se procurou apresentar.

De Gilles Deleuze nos veio a ideia do livro como uma engrenagem na maquinaria que lhe é exterior. O que nos levou, por exemplo, a procurar exemplificar as condições com as quais a literatura brasileira era produzida no século XIX. A ideia de fluxo também nos foi cara, pois no permitiu tratar de assuntos diretamente ligados aos mundos do livro, da escrita e leitura, talvez, de forma indireta, como as coordenadas tempo-espaço. A ideia de fluxo nos possibilitou perceber e constituir também as relações-possíveis. Não somente aquelas que aqui foram exemplificadas ou nomeadas, mas também se apresentou ao tratarmos da escrita e da vida como uma necessidade. Uma escrita para a vida e uma vida para a escrita parece ter sido o que nos levou a escrever este capítulo. Assim, voltamos ao começo dele, ao momento que o iniciamos, capturando ideias de outros no contínuo exercício de nos colocarmos em diálogo.

 

1 A respeito de Medeiros e Albuquerque, afirmou Brito Broca (2005, p.10-12): "Medeiros e Albuquerque, que foi um dos auxiliares de Pereira Passos, como diretor da Instrução Pública no Distrito Federal, tendo tomado parte ativa na conspiração de que resultou o golpe de 15 de novembro, já havia exercido o mandato na segunda legislatura de 1894. Em outubro de 1901 foi eleito deputado na vaga de Herculano Bandeira, conseguindo reeleger-se em 1904 e depois em 1906, quando permaneceu na Câmara até 1911. Espírito essencialmente combativo, trocou tiros de revólver com adversários políticos e viu-se, certa vez obrigado a afastar-se do país para escapar à fúria de inimigos que desejavam eliminá-lo a todo preço, e também para atender aos apelos do chefe de polícia, que não sabia como garantir-lhe a vida, segundo o próprio escritor nos informa no livro Por alheias terras. Da sua atividade política deixou duas leis de grande importância: a dos direitos autorais e a da expulsão dos estrangeiros" (grifo nosso).

2 "Aos que escrevem: Conselhos de um grande medico francez" (O Diario. Fortaleza, n.30, p.3, 21 jun. 1892).

3 "Em 1855, Claude Bernard, sucede Magendie na cadeira de Medicina Experimental no College de France. Muito rapidamente, a audiência de seus cursos e a notoriedade do seu ensino ultrapassam o público ao qual era normalmente destinado. Assistem os seus cursos: o conde de Paris, o príncipe de Galles, o imperador do Brasil. Mulheres elegantes. E também os Goncourt, Théophille Gautier, Flaubert. Suas palavras não são fáceis, mas é interessante escutá-lo, dizem os Goncourts, e agradável de ver. Desde antes da aparição da introdução ao estudo da medicina experimental (1865) suas idéias estão no ar. Fala-se e discute-se a respeito delas. Elas excitam a imaginação. Zola não é estranho a elas" (tradução nossa).

4 A edição das Cartas literárias em livro não foi particular. Ainda que não traga o nome da editora Domingos de Magalhães, sabemos por fontes com base na bibliografia sobre essa obra de Caminha que fora publicada nela mandado fazer na Tipografia Aldina, na rua Sete de Setembro, 79. O exemplar que consultamos de sua primeira edição, apesar de não ter a capa original, traz a folha de guarda um carimbo da DOMINGOS DE MAGALHÃES, assim em caixa alta, e ainda com as seguintes informações: Livraria Moderna, Lavradio, 126, Rio de Janeiro.

5 "Muito rápido um tempo editorial preciso se coloca em cena que não conhecerá exceção: o manuscrito é enviado a um impressor ou a um editor na sua totalidade, ele [o manuscrito] aparece em seguida em folhetins em um jornal ou em revista durante dias ou semanas; a publicação do texto em volume, um ou vários segundo a duração da obra como o que o hábito do tempo, seguido de um atraso breve, geralmente inferior a seis meses" (tradução nossa).

6 Cf. O pão da Padaria Espiritual. Edição Fac-similar, 1 fev. 1895, p. 5 (grifos nossos).

7 A esse respeito, consultar Cardoso (2005), do qual destacamos os seguintes textos: "A circulação de imagens no Brasil oitocentista: uma história com marca registrada", de Lívia Lazzaro Rezende; "Do gráfico ao fotográfico: a presença da fotografia nos impressos", de Joaquim Marçal Ferreira de Andrade; e "O início do design de livros no Brasil", de Rafael Cardoso.

8 Registro de entradas. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, Domingo, 11 de dezembro de 1887. [Conservamos a ortografia original do texto]

9 O número 183 dessa citação refere-se a: "Viana Moog – Uma interpretação da literatura brasileira, Edição da Casa do Estudante do Brasil, Rio, 1943, p. 67".

10 Djacir Menezes, responsável pela introdução e notas da terceira edição de Crítica e literatura, de Rocha Lima, foi ainda mais preciso ao tratar destas reuniões em casa do jovem acadêmico e do nome dado à agremiação: "A casa de D. Maria Bezerra, tia de Rocha Lima, era na rua da Misericórdia, n.° 29, onde viveu e onde se reuniria, em 1875, a Academia Francesa, como a chamavam por gracejo. 'O certo, porém, – escreve Dolor Barreira – é que, a força de repetida, ficou a denominação consagrada, e com ela passou a sociedade ao conhecimento dos contemporâneos e dos pósteros'"

11 A respeito do início das atividades da Academia Francesa do Ceará afirmou Azevedo (1976, p.71): "Para o Barão de Studart, começaram as atividades do grêmio no ano de 1872; entretanto, como nada prova haverem se iniciado nesse ano as reuniões, preferimos marcar – seguindo assim o historiador José Aurélio Saraiva Câmara – como data inaugural do movimento o ano de 1873, em que começou a circular o jornal Fraternidade, da Au.: Loj.: Frat.: Cearense, e que serviria de arena de combate dos jovens pensadores. Também desse ano a estrada de Araripe Júnior para o grupo". Afrânio Coutinho (1975, p.192) também deu como data inicial dos trabalhos da Academia o ano de 1872: "Expressões dessa ebulição foram a 'Academia Francesa' do Ceará e a 'Escola do Recife'. A primeira viveu de 1872 a 1875...".

12 Abaixo do relatório, mas sem já constar com aspas lemos: "Quem leu e assinou o relatório, na qualidade se secretário, foi um dos mais operosos e constantes amigos de Rocha Lima – João Lopes Ferreira Filho" (Lima, 1968, p.356).

13 Trata-se de um anexo da encíclica Quanta Cura "Condenação e proscrição dos graves erros do tempo presente", do papa Pio IX, publicado em 1864 e traduzido para o português por Antônio Secioso Moreira de Sá em 1872, um ano anterior à instalação da Academia Francesa do Ceará. Os ditos "erros graves do tempo presente" eram: panteísmo, naturalismo e racionalismo absoluto; racionalismo moderado; indiferentismo, latitudinarismo; socialismo, comunismo, sociedades secretas, sociedades bíblicas, sociedades clérico-liberais; erros sobre a Igreja e os seus direitos; erros de sociedade civil, tanto considerada em si, como nas suas relações com a Igreja; erros acerca do matrimônio cristão; erros acerca do principado civil do pontífice romano. Fonte: papa Pio IX. "Syllabus" Montfort Associação Cultural. Disponível em

<http://www.montfort.org.br/index.php?

secao=documentos&subsecao=enciclicas&artigo=silabo&lang=bra> Acesso em: 20 abr. 2008.

14 "O Dr. Manoel Soares da Silva Bezerra nasceu no ano de 1810, em Riacho do Sangue, formou-se pela Academia de Olinda em 1836, foi deputado provincial por duas legislaturas, de 40-43 e 70-73, Vice-Presidente da Assembléia (60-63), Presidente da Câmara Municipal de Fortaleza (60-63) e governou mesmo alguns dias do ano de 1872. Seu itinerário registra ainda o exercício de outros postos menores. Recebera o hábito de Cristo e o de S. Gregório Magno conferido por Pio IX, cultivou a literatura latina, teve 18 filhos, entre os quais o hitoriador notável de Algumas Origens do Ceará, Antônio Bezerra. Homem combativo, colaborou no Pedro II e na Tribuna Católica. Era, portanto, o adversário austero e digno, sempre na brecha contra os jovens que arvoravam bandeiras lembrando leituras de enciclopedistas e revolucionários franceses. Não era aquêle 'velho tolo e ignorante' como ridicularizava o jornal adversário" (Menezes, 1968, p.367, p.5-67, p.39-40).

15 "Rocha Lima estava entre êstes adolescentes, mas seu gênio precoce lhe abrira lugar destacado nas fileiras onde, já formado e com a diferença de poucos anos, figuravamTomás Pompeu Filho e Xilderico de Faria. Sua liderança, como já vimos, começara muito cedo, desde 16 anos, quando era um dos diretores da associação Fênix Estudantil [sic]. Quis submeter o passado à crítica a fim de preparar o caminho para o futuro; e viu esta preparação como trabalho do pensamento de uma 'geração afirmativa'" (grifo nosso). O nome da associação fundada por Rocha Lima em 1870 era Fênix Estudantal e não Estudantil, como o grafou Djacir Menezes, uma vez que esse adjetivo não existia no século XIX.

16 Dolor Barreira (1986, p.106-14), em sua História da Literatura Cearense, citou, por exemplo, a existência do Gabinete Cearense de Leitura instalado em 1875 "no sobrado n. 92 da então rua Formosa (hoje Barão do Rio Branco), nesta cidade" e funcionou até 5 de julho de 1886. Ainda segundo Barreira foram os seus fundadores: "o dr. António Rodrigues da Silva [presidente], Farmacêutico João da Rocha Moreira, Fausto Domingues da Silva, Joaquim Álvaro Garcia, Vicente Alves Linhares Filho, Francisco Perdigão de Oliveira e António Domingues dos Santos Filho". Desse Gabinete fizeram parte "na maioria [...] estudantes de preparatórios: Rocha Lima, Tomás Pompeu, Capistrano de Abreu, Araripe Júnior, João Lopes, Xilderico de Faria, Clóvis Bevilacqua, Gil Amora e João Edmundo", como vemos, vários dos nomes da Academia Francesa do Ceará. Assim como a Academia, "instituiu um curso de conferências públicas, abrindo aulas para o ensino de línguas e ciências" e mais: "por longo tempo, manteve um curso noturno de instrução primária, que foi inaugurado por ocasião da sessão literária com que o Gabinete comemorou, a 10 de Junho de 1880, o tricentenário de Luís de Camões, e que ficou sob a direção do secretário do mesmo Gabinte". Em uma nota de rodapé, Barreira informou que a conferência proferida na inauguração do curso noturno foi de Rocha Lima e intitulava-se A Mulher, que, aparentemente, não é a mesma que se encontra na terceira edição de Crítica e literatura, ou a é com modificações sensíveis. Mas esse também não foi o único grêmio em que se reuniram os homens de letras do Ceará. Leonardo Mota (1994, p.27) contabilizou entre a Academia Francesa do Ceará e o Clube Literário treze grêmios, associações e congêneres, a saber: Gabinete de Leitura (Baturité), de 1875; Instituto Histórico e Geográfico Cearense, de 1877; Gabinete de Leitura (Aracati), de 1879; Associação Literária Uniense (União), de 1879; Gabinete de Leitura (Granja), de 1880; Recreio Instrutivo, de 1881 e Gabinete de Leitura (Pereiro), de 1883; Clube Literário Cearense, de 1884; Gabinete de Leitura (Campo Grande), de 1884; Sociedade Rocha Lima, de 1884; Grêmio Literário, de 1885; Gabinete de Leitura (Ipu), de 1886.

17 Acréscimos nosso.

18 "O Java data da década de 80 do século XIX. Foi demolido pela reforma da praça [do Ferreira] em 1925" (Ponte, 1999, p.150, acréscimo nosso). Segundo Otacílio de Azevedo (1992, p.58), em sua Fortaleza descalça, o Café Java "ocupava o ângulo nordeste da Praça, defronte a Intendência Municipal [como à época era chamada a prefeitura]. Foi o primeiro a funcionar, e seu dono era o aracatiense Manuel Pereira dos Santos, o popular Mané Coco, que o ergue por volta de 1886. Depois o café passou às mãos de Ovídio Leopoldino da Silva". Ainda segundo Otacílio Azevedo, neste mesmo livro citado, os demais cafés eram: Café do Comércio, Café Elegante e Café Iracema. O citado Café Java em A Quinzena tinha anúncio de seus serviços, como podemos constatar no número 17, do ano 1, datado de 17 de setembro de 1887.

19 O que motivou o surgimento do Centro Literário é indefinido. As opiniões registradas na historiografia literária cearense são as mais diversas. Assim, a esse respeito, ler Azevedo (1976, p.171-4).