Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens
Instruções para colheita e conservação de material científico para estudo
Instruções para colheita e
conservação de material científico
para estudo*
I. Dermatoses
Todas as dermatoses observadas no curso da expedição deverão ser registradas com as seguintes notas:
1. modo de composição
2. coloração geral
3. localização
4. evolução
5. perturbações da calorificação
6. perturbações da sensibilidade
I.
Quanto ao modo de composição é necessário mencionar as diversas lesões elementares que se combinam de maneira variada, dando à moléstia sua fisionomia característica. Esses elementos eruptivos ou são primários ou secundários.
Elementos eruptivos primários
Compreendem as máculas de modo geral, isto é, toda coloração anormal da pele. Dividem-se em:
a) Máculas propriamente ditas, quer devidas a excesso, quer a falta de pigmento cutâneo.
1) máculas pigmentárias;
2) máculas não pigmentárias.
Em qualquer destes grupos é necessário verificar se são congênitas ou adquiridas, circunscritas ou difusas, primitivas ou secundárias.
b) Manchas vasculares – Alterações permanentes da pele, devidas aos pequenos vasos dos tegumentos. Podem ser congênitas ou adquiridas; no primeiro grupo estão todos os vasos vasculares, no segundo os teleangiectásicos.
c) Púrpuras – Manchas vermelho vivo no começo, que não desaparecem pela pressão do dedo, evoluindo em 1 ou 2 semanas, variando então de coloração. São devidas a hemorragias cutâneas. Há 3 variedades:
1) petéquias – puntiformes, variando [seu tamanho] da cabeça
de um alfinete até o de uma unha, arredondadas, ovulares ou
pouco irregulares;
2) víbices – figurando sulcos ou estrias;
3) equimoses – muito extensas, irregulares, planas ou pouco
salientes. As púrpuras podem ser primitivas ou secundárias.
d) Exantemas – Manchas de cor vermelha variável, mais ou menos extensas ou circunscritas, não fazendo saliência notável nos tegumentos. O caráter patognomônico desaparece pela pressão do dedo momentaneamente, quer completamente, quer incompletamente, deixando uma coloração amarelada. Há 3 categorias:
1) roséola – pequenas manchas vermelhas ou róseas,
arredondadas ou ovais, às vezes irregulares, sempre pequenas,
nitidamente circunscritas;
2) eritema propriamente dita – placas, às vezes róseas, quase sempre vermelho vivo, formando extensões variáveis, sem forma e limite precisos;
3) aréola ou halo – círculos eritematosos que se desenvolvem ao redor dos focos inflamatórios.
e) Placas urticárias – Elevações achatadas, de formas variáveis, que dão ao dedo a sensação de dureza e tensão. Como caráter patognomônico, rapidez no aparecimento e desaparecimento. Quase sempre sensação viva de queimadura e prurido.
f) Pápulas – Pequenas elevações da pele, não contendo líquido, resistentes, circunscritas, de evolução rápida, constituídas por infiltrados da camada superficial do derma, não deixando, na maioria das vezes, cicatriz. As pápulas devem ser perfeitamente descritas, com todas as minudências, porque sua forma caracteriza grande número de dermatoses.
g) Tubérculas – Formações dérmicas sólidas, salientes ou não, arredondadas, de evolução lenta, não resolvendo espontaneamente, infiltrando as camadas profundas da pele. São dérmicas ou hipodérmicas.
h) Gomas – São muito semelhantes às tubérculas, mas quase sempre inflamatórias, tendendo a supuração central e abertura com formação de ulceração profunda.
i) Tumores
j) Vesículos – pequenas elevações circunscritas, arredondadas ou acuminadas da epiderme, contendo serosidade transparente.
k) Bolhas – Flictenas – são vesículas de grandes dimensões. l) Pústulas – elevações circunscritas e de ordinário da epiderme, contendo um líquido purulento.
m) Escamas – entre as escamas, as pitiriásicas são as escamas farinhosas, pequeninas. As escamas propriamente ditas vão até o tamanho da unha do pequeno dedo; as lâminas podem ter até 3 centímetros de diâmetro.
Elementos eruptivos secundários
a) Escoriações
b) Liquenificações – modificações que sofrem os tegumentos quando submetidos a traumatismos ou limitações incessantes.
c) Ulcerações
d) Rajadas – feridas lineares de forma e dimensão variáveis, interessando as partes superficiais da epiderme e do córion.
e) Crostas
f) Cicatrizes
II.
Todas as eflorescências cutâneas deverão ser fotografadas, no maior tamanho possível.
III.
O grupo de moléstias da pele que deverá ser, de modo especial, pesquisado, é o das micoses. As que, mais freqüentemente, poderão ser encontradas são:
a) Tinhas microspóricas – são quase exclusivamente das crianças. Podem ser tricofíticas, isto é, atacarem os cabelos, ou simplesmente cutâneas.
No primeiro caso, serão examinados os cabelos, que, em geral, saem com a mesma facilidade que se estivessem implantados sobre manteiga; o exame com a solução de potassa (40%), aquecendo ligeiramente, entre lâmina e lamínula, permite notar se os esporos estão dentro ou fora do pêlo, sendo, na maioria, endotrix. As escamas que ficam na zona da pelada podem conter o parasito, quase sempre com o aspecto de pequenas hifas.
Semear em tubos com gelose de Sabouraud, quer cabelos, quer escamas, e repicar depois de uns 7 dias as colônias iguais que aparecerem. Um bom elemento para se conhecer um cogumelo produtor de tinhas de crianças é a presença de conídeas fusiformes em grande ou pequena abundância. O material que tiver de ser guardado será recolhido servindo-se o operador de lâminas, previamente flambadas e colocadas entre elas os cabelos e escamas colhidas na região. Nas microspóricas cutâneas será seguida a mesma técnica; estas formas são mais raras que as tricofíticas.
Nas unhas também podem aparecer, sendo então necessário raspar com uma pequena lima flambada e conservar o material, depois de parte semeada, entre duas lâminas que se aperta com um fio de linha e se embrulha em papel de filtro.
Essas lâminas deverão ser conservadas em latas fechadas, de modo a evitar umidade.
b) Tricofitoses -todas as lesões do couro cabeludo e as da pele com aspecto de herpes circinado, ou as eflorescências com contornos sinuosos ou regulares, mais ou menos circulares, são suspeitas.
Mencionar se o parasito ataca o pêlo ou é só cutâneo.
Semear em Sabouraud e guardar material do mesmo modo que com as tinhas microspóricas.
Chamo muita atenção, neste grupo, para os eczemas da prega da virilha -Eczema Marginatum de Hebra –, comuns em pessoas pouco limpas e que parecem existir com freqüência no Norte. Podem ser devidos a várias espécies micóticas. As tricofitoses são comuns em animais e teria muito interesse a verificação da crista branca dos galináceos, devida ao Achorion gallinae, assim como as tricofitoses que se notam pelo corpo das galinhas devido ao Tricophyton rosaceum. Nos ratos existe uma variedade de favus ainda não vista no Brasil.
Os casos de favus humanus devem ser pesquisados por serem raros no Sul do Brasil. A cultura é obtida com facilidade, semeando as partes profundas dos cabelos que mergulham nos godets favicos.
c) Micetomas ou Pé-de-madeira – podem ser encontradas 3 variedades: vermelha, preta e branca. Espremendo-se o pus que sai das fístulas vêem-se os grânulos, que, depois de lavados em água esterilizada, devem ser semeados em Sabouraud. Nesses casos é imprescindível a biopsia, fixando o material em formol e sublimado álcool.
d) Blastomicose – verificar e semear todas as coleções purulentas. Encontradas células de duplo contorno ou células de levedos, guardar as culturas e fazer a biopsia. Desconfiar de todos os casos de lúpus e de todas as lesões das mucosas, mesmo as que lembram as leishmanioses (nariz e boca). As úlceras antigas são sempre suspeitas.
e) Esporotricoses – quase sempre se apresentam como pequenas gomas no trajeto dos linfáticos.
As culturas são obtidas facilmente puras em meio de Sabouraud, aspirando com a seringa um pouco da serosidade e depois projetando-a sobre o meio de cultura e as suas paredes de vidro. Em 48 horas as colônias se desenvolvem no vidro e se vêem filamentos finos com os esporos, situados lateralmente, implantados sobre as hifas.
Biopsia. Esfregaços das úlceras.
f) Kladioses – muito semelhantes às esporotricoses; as culturas são vermiculares, lembrando as culturas descritas antigamente para a Piedra.
Biopsia. Esfregaços.
g) Piedras – guardar cabelos sempre que contenham nódulos ou quaisquer aderências sobre eles. Cultivá-los, podendo, em Sabouraud. Prestar atenção aos cabelos da axila e aos suores coloridos. Os pêlos do bigode podem ser sede de Piedra.
h) Pitiríase versicolor – escamas no tronco (peito e costas), mudando de cor, com abundante vegetação miceliana.
Não se cultiva o vômito. Suficiente guardar escamas entre lâminas.
i) Hemisporose – lesões ulcerosas dando rapidamente cultura de um cogumelo estrelado e de cor cinzento-escura.
j) Larva migrans – quase sempre no dorso do pé. Lesão linear, com sinuosidades, cheia de serosidade. Prurido extraordinário. Ver se é possível encontrar a pequena larva que a provoca e que deve estar a poucos milímetros da parte mais recente da lesão.
k) Pokelau ou Tinea imbricata – quase sempre no dorso, no peito e nos braços. As escamas, grandes, estão implantadas em semicírculo, dando a impressão de embricamento. Nota-se nelas um Aspergillus muito característico, dificilmente cultivável.
l) Tinea albigena – placas brancas nos palmos das mãos, de evolução muito lenta. Também ataca as unhas dos pés e das mãos. Guardar material. Semear.
m) Língua negra pilosa
n) Nodosidades justarticulares
o) Estomatite cremosa aguda
p) Actinomicose
Grupo de moléstias muito raras, devidas às feridas próximas às da actinomicose:
q) Caratés ou Pinta – largas placas descamativas podendo se estender a grandes zonas da pele. Brancas, cinzentas, azuis, violetas, vermelhas, negras. Começam quase sempre no rosto ou na nuca, podendo atacar as mucosas. Nunca atacam os cabelos e as unhas.
Prurido intenso. Em certas variedades brancas se encontra um Penicillium.
r) Boubas – Fixar os fragmentos em sublimado álcool.
Prestar atenção às formas que se localizam nos orifícios nasais, produzindo periostites dos casos dessa região e que não são mais que o Goundou, que existe entre os pretos do Nilo e do Congo.
s) Purupuru – úlceras graves existentes entre os indígenas do Tocantins e do Araguaia, e de natureza desconhecida.
III. Instruções para o estudo da distribuição
geográfica da tireoidite parasitária
Relativamente ao inseto:
I – Pesquisar, nas diversas regiões, a existência do barbeiro e colher informações, tão precisas quanto possível, relativamente aos hábitos do inseto nessas zonas, a quantidade dele nos domicílios, a existência nas cidades, se é encontrado fora dos domicílios e, neste caso, tentar capturá-lo para que haja certeza do fato. Não se fiar em informações.
II – Estudar, nas diversas regiões infestadas, as condições das casas, a fim de reconhecer a possibilidade da proliferação nelas do hematófago.
III – Nas diversas regiões estudar os parasitos encontrados no intestino dos barbeiros, a fim de verificar se neles existem só formas de critídias ou se, ao lado delas, existem também organismos com a morfologia de tripanossomos. Fazer esfregaços com o material do intestino de triatomas em todas as regiões infestadas, esfregaços em lâminas para coloração pelo Giemsa seco e esfregaços em lamínulas, as quais deverão ser fixadas no sublimado álcool, a úmido, para serem coradas pelos métodos com hematoxilina. Essas lamínulas, depois de permanecerem 15 ou 20 minutos no sublimado álcool, passarão para o álcool a 70°, em dispositivos especiais, a fim de serem enviadas ou trazidas com a comissão.
IV – Registrar cuidadosamente a ausência, que for verificada, de parasitos no intestino de barbeiros de qualquer região, tendo o cuidado de, em cada caso, examinar diversos exemplares do hematófago e em cada região estudar os insetos de diversas casas.
V – Indagar dos nomes que tem o inseto nas diversas regiões e colher informações sobre a existência do inseto fora das residências humanas.
VI – Reconhecer, em todas as regiões, a relação entre a intensidade endêmica e a quantidade de insetos dos domicílios humanos.
VII – Verificar, nos domicílios, a existência simultânea, com o Triatoma megistus, de outras espécies do gênero.
VIII – Verificar se em alguma região existe outra espécie de Triatoma, exclusiva, diversa do megistus, e, no caso positivo, verificar cuidadosamente a presença ou ausência aí da moléstia.
IX – Sempre que encontrar, nos domicílios humanos, outras espécies de hematófagos diversos do Triatoma megistus, estudar os parasitos do intestino delas e trazer, separadamente, esfregaços secos e úmidos.
X – Colher dados sobre o modo de se portarem os insetos nas casas recém-habitadas, informando-se do tempo aproximado de permanência deles ali.
XI – Colher informações sobre o meio habitual de serem levados insetos de umas para outras regiões e se, numa mesma região, existem casas próximas de casas infestadas, livres do inseto.
Relativamente aos doentes:
I – Estudar a condição dos habitantes das diversas regiões relativamente à glândula tireóide, pesquisando não só a existência do bócio volumoso, mas ainda procurando, pela deglutição de saliva, reconhecer os pequenos aumentos de volume da glândula.
II – Reconhecida a existência do bócio em qualquer região, estudar a extensão dele, a forma habitual, as dimensões etc., fotografando os bócios volumosos e aqueles de formas excepcionais. Estudar as dimensões do bócio em relação com as idades, procurando verificar se existem bócios volumosos em crianças. Fotografar os bócios de volume maior que forem encontrados em crianças e colher cuidadosas informações sobre a presença de bócios em recém-nascidos.
III – Estabelecer as relações existentes nas diversas zonas entre o bócio e o Triatoma, indicando cuidadosamente se o Triatoma existe em todas as regiões onde é conhecido o bócio, ou se o inverso é verificado. Na hipótese de encontrar bócio em alguma região onde não se tenha observado o barbeiro, procurar este último com o maior cuidado e, não o encontrando, informar-se da época em que se encontraram os bócios existentes e se são encontrados bócios recém-adquiridos.
IV – Estudar o bócio no ponto de vista da freqüência e das dimensões, em relação aos sexos, as raças e as idades.
V – Colher informações sobre a existência do bócio entre os indígenas, estudando neles, caso ela exista, as condições gerais da moléstia, procurando ainda reconhecer se nas residências dos índios existem barbeiros e as condições, aí, dos hábitos do inseto.
VI – Fazer pesquisas minuciosas de semiótica cardíaca em todas as regiões infestadas pelo barbeiro, procurando saber se em tais regiões existem perturbações freqüentes do ritmo cardíaco. Estas pesquisas devem ser realizadas tanto em indivíduos de aparência mórbida e com sinais subjetivos, quanto naqueles de aspecto robusto e que não acusam sofrimentos.
VII – Diagnosticar a modalidade mais freqüente de perturbações do ritmo cardíaco, registrando em cada caso de perturbações do ritmo o número de pulsações cardíacas e o número de pulsações arteriais por minuto. Tomar, sempre que for possível, o número de pulsações no decúbito dorsal e na vertical imediata, a fim de avaliar aproximadamente o grau da insuficiência cardíaca.
VIII – Estudar cuidadosamente os casos que forem encontrados de pulso lento permanente, colhendo informações sobre antecedentes nervosos, sobre a existência de convulsões e de síncopes, para verificar se se trata do caso verdadeiro da síndrome de Stokes-Adams.
IX – Colher informações minuciosas sobre o número de crianças paralíticas, afásicas, cegas etc. Sindicar da existência de indivíduos inválidos, de idiotas, de loucos, nas zonas contaminadas, registrando, sempre que possível, dados clínicos rápidos sobre os casos que puderem ser observados, nunca esquecendo de pesquisar, nos doentes de afecções nervosas, perturbações para o lado da glândula tireóide.
X – Colher informações sobre a letalidade infantil e sobre a poliletalidade familiar, indicando quando possível a causa mais freqüente da morte das crianças, especialmente indagando da freqüência de convulsões.
XI – Nos casos de perturbações motoras, de perturbações da palavra ou da inteligência, sempre indagar da época a que remonta o estado mórbido e dos incidentes patológicos ocorridos nas primeiras idades da vida.
XII – Colher dados sobre a freqüência de casos de loucura.
XIII – Informações, tão minuciosas quanto possível, sobre as funções genitais da mulher nas zonas contaminadas, indagando da regularidade ou não dos períodos menstruais, da existência de hemorragias etc. Sempre que possível, combinar essas observações com observações relativas ao aparelho circulatório, contando sempre o pulso no decúbito dorsal e na vertical.
XIV – Informar sobre a existência das menstruações precoces nas crianças e da época habitual de menstruação nas zonas contaminadas.
XV – Procurar casos de hipertireoidismos, observando, nos doentes do bócio, se existe qualquer grau de exoftalmia, se existe tremor generalizado e taquicardia.
XVI – Tomar observações sobre os casos de infantilismo, procurando conhecer-lhes os antecedentes familiares e pessoais – indagando da presença ou ausência de funções genitais, pesquisando o grau de desenvolvimento dos órgãos genitais, observando se apresentam mixedemacia generalizada ou ao menos a sensação especial descrita da crepitação da pele das faces. Fotografar todos os casos de infantilismo.
XVII – Procurar casos de acondroplasia e, se os encontrar, tomar as dimensões do tronco (do apêndice sifóide à sínfise do púbis), a distância do púbis ao solo, o comprimento dos membros, o diâmetro
do crânio. Fotografar os casos de acondroplasia.1
XIX – Procurar casos de melanodermia, da pele e das mucosas, indagando dos respectivos indivíduos se são muito sonolentos, se têm grande fraqueza muscular, inaptidão para o trabalho etc.
XX – Em todos os casos clínicos procurar as lesões da glândula tireóide.
VI. Protozoários
Técnica para colheita do material
Protozoários da água doce
A água deve ser colhida na superfície dos pântanos, poços d’água, córregos etc., principalmente nos pontos em que a vegetação for abundante. Uma vez encontrado o ponto apropriado para colheita do material, tomar um vidro de mosquito que se encheu até a metade com sublimado álcool e completá-lo com água e alguns vegetais aquáticos ou fragmentos deles.
Quando a comissão se demorar em uma localidade qualquer, deverá logo que chegar tomar a água e um pouco de vegetais aquáticos de diferentes pontos, colocá-los em cristalizadores, garrafas quebradas, taquaruçus ou qualquer outro recipiente que não tenha contido anti-sépticos e, 5 ou 6 dias depois, ou na ocasião da partida, fixar uma parte do material como acima ficou dito.
Protozoários Parasitos
Parasitos intestinais do homem e de animais
Todas as fezes disentéricas ou diarréicas e aquelas que contenham qualquer protozoário devem ser conservadas do seguinte modo.
Fazer 6 esfregaços em lamínulas e fixá-los ainda úmidos em sublimado álcool. Fixar igualmente fragmentos de intestino ou de epitélio sempre que for feita a autópsia ou houver descamação pelo processo patológico, assim como algumas gotas das fezes disentéricas. Nos casos de abscesso de fígado fazer esfregaços com o pus e fixar fragmentos da parede do abscesso.
Parasitos do sangue etc.
Fazer 2 esfregaços de sangue e um do pulmão de todo e qualquer animal morto durante a excursão. Conservar os esfregaços em vasilhas com cloreto de cálcio e fechar hermeticamente, ou então corá-los imediatamente pelo Giemsa e depois envolvê-los em papel. Conservar o material ao abrigo da umidade. Do mesmo modo proceder em relação ao impaludismo, fixando pequenos fragmentos dos diferentes órgãos em sublimado álcool se for feita autópsia.
Leishmânia: esfregaços de fragmentos obtidos por biópsia, fixados em sublimado álcool. Caso sejam encontrados casos de tracoma, Molluscus contagiosum ou Granulona venereum, fazer esfregaços em lamínula e, se for possível biopsia, trazer fragmentos em sublimado álcool.
Todo o material deve ser rotulado com indicações precisas a respeito do doente ou animal e localidade em que for colhido.
VII. Higiene – Plantas Tóxicas – Epizootias
Clima.
Água.
Natureza da H O potável. 2
Grau hidrotimétrico.
Matéria orgânica.
Apontar as deficiências, ver o ponto de vista sanitário e indicar meios de corrigir o [exame] organoléptico.
Propriedades físicas.
Cidades e vilas
Abastecimentos de água, sistema de esgotos – iluminação –
calçamento -orientação dos efeitos da seca. Inundações e quais
as conseqüências.
Habitação = descrição – planta – material de construção – colocação em rela ção aos cursos d’água e aos mananciais d’água potável.
Alimentação = natureza – qualidade – modo de preparar.
Mortalidade e morbidade gerais
Estudo dos registros civis.
Aspecto geral da população.
Alcoolismo = natureza do álcool usado.
Moléstias mentais e suas causas prováveis.
Condições gerais da vida
Agricultura
Indústria
Comércio
Influência sobre a saúde
Moléstias parasitárias e microbianas: verificação e caracterização científica. Coleta de material.
Apontar as medidas de profilaxia de acordo com cada região.
VIII. Instruções para a colheita, conservação e
fixação de helmintos
Os helmintos devem ser procurados principalmente no tubo digestivo de todos os animais domésticos ou selvagens que se possam obter vivos ou mortos. Convém só colecioná-los de animais recentemente mortos. Animais tendo mais de 12 horas de mortos e menos ainda na estação quente são completamente imprestáveis, visto que os parasitos se deterioram rapidamente principalmente no intestino e vísceras anexas, lugares principais onde se inicia a putrefação. Praticar, portanto, a autópsia o mais rápido possível, se possível logo após a caça.
Todos os vertebrados são em geral portadores de vermes parasitos. Nos mamíferos e nos vertebrados em geral os parasitos devem ser pesquisados no intestino, no estômago, no esôfago e na boca. Também se podem encontrar parasitos na conjuntiva (pássaros aquáticos), nas cavidades nasais (idem), nos pulmões e nos brônquios. Cuidado especial devem merecer o fígado e a vesícula biliar, que são sede muito freqüente de parasitos. O colecionador deve passar os olhos num livro elementar de zoologia para aprender a distinguir os principais grupos de parasitos e poder aplicar os métodos que aqui são relatados.
Nematódeos
Para toda e qualquer espécie de nematódeo deve-se usar o método fixador aconselhado por Loos, o que constitui um processo ideal.
Retirados os vermes do animal, devem ser eles agitados em tubo de ensaio com água fisiológica para livrá-los de impurezas, como sejam: mucos, fezes, sangue etc., e essa solução deve ser 3 ou 4 vezes renovada. Nunca se empregará água destilada ou comum, pois aí os vermes se alteram completamente. Bem lavados os vermes, é a água decantada (esta deve sair completamente límpida). São eles agora recobertos por álcool a 70° aquecido a 70°C, onde os animais morrem rapidamente e perfeitamente estirados. Depois, substitui-se esse álcool uma ou duas vezes, onde os animais são conservados indefinidamente.
Não empregar álcool nem mais forte nem mais fraco, e também não se deve exceder na temperatura.
Vermes de qualquer espécie nunca devem ser tomados com pinças, agulhas, tesouras ou outros objetos cortantes, que os danificam com a maior facilidade, e sim com espátulas, palitos ou pequenos pedaços de madeira não afiados e sem ponta.
Muito para recomendar são as espátulas feitas de madeira de bambu, conforme as indicações do Dr. Lutz. Elas podem servir para raspar as mucosas cuidadosamente e desta maneira destacar vermes que se fixam fortemente às mucosas. É preciso não deixar que os vermes se macerem na água fisiológica durante muito tempo, pois sofrem rapidamente autólise, o que os torna impróprios para estudos.
Acanthocephalus ou Echinorhynchus
Estes são tratados como os nematódeos, tendo-se mais cuidado de verificar que as trombas estejam livres de muco, assim como as bolsas copuladoras, o que se faz com uma lente de bolso (12 vezes). Quando haja material muito abundante podem alguns (6) ser tratados pelo sublimado álcool quente a 60°C.
Sublimado sol. ag. sat. – 2p.
Álcool absoluto – 1 parte
Aquecido a 60°C.
Aí são deixados entre cerca de 20 minutos e 6 horas, conforme o volume do animal. Depois são lavados durante algumas horas em álcool iodado (cor de vinho do porto) e por fim conservados em álcool a 80° indefinidamente.
O tempo de tratamento varia com as dimensões do animal, e isso fica ao critério do colecionador.
Cestódeos ou tênias Estes animais necessitam muito cuidado na captura visto serem muito frágeis, sobretudo as cabeças, que, às vezes, muito fixadas, se destacam do resto do corpo. Aí as espátulas e os pincéis prestam bons serviços. As espátulas servem para raspar as mucosas onde se fixam, e os pincéis, para proceder à toalete dos vermes.
Bem lavados com água fisiológica e retirado o muco que os recobre, podem ser fixados com uma solução de formol a 5 por cento preparando esta com soluto fisiológico a 8,5 0/00 – Também se podem fixar aos pedaços em sal meio saturado de sublimado com 1 por cento de ácido acético quente a 80°C. Isto só quando houver muito material da mesma espécie. Em lugar do formol se pode conservar em álcool a 70°, mas o primeiro é preferível. É preciso muito cuidado em conservar a cabeça das tênias e não procurar arrancá-las, porque em geral elas se fragmentam. É bom guardar a maior parte possível de certos animais soltos que se encontram em liberdade, pois estes em geral são os mais maduros e têm importância sistemática.
Trematódeos
Estes são os animais mais delicados e é preciso muita atenção para colecioná-los, pois há um grande número de espécies que são pequeníssimas e que, apesar disso, oferecem um alto interesse zoológico. Retirados esses vermes das imundícies que os cercam, são colocados em H O fisiológica e lavados rapidamente, porém 2
bem. Estes se alteram mais rapidamente aqui que quaisquer outros, porque a vesícula se destaca muito rapidamente com a maceração. Para melhor poderem ser estudados, convém preparar alguns pelo método de compressão. Para isso tomase uma lâmina limpa e colocam-se os vermes perfeitamente limpos e distendidos e depois se recobre com uma lamínula, tendo antes deitado uma pequena gota de água fisiológica. Retirando essa água por meio de um pedaço de papel chupão ou de filtro regulariza-se a pressão exercida pela lamínula, que não deve demasiada. Quando se teme demasiada pressão, coloquem-se entre lâmina e lamínula dois pedacinhos de cartão paralelos, e, quando se queira aumentar a pressão, coloque-se um grão de chumbo achatado ou mais e de tamanho conveniente sobre a lamínula. Assim se regulariza a pressão. Os esquemas aqui juntos facilitam a compreensão do
método. 2
Assim feito, coloca-se uma gota de fixador ao da lamínula e procura-se fazer passar este por capilaridade, sugando a água fisiológica do lado oposto por meio de papel chupão. Isto feito repete-se um bom número de vezes, e aí se deixam os vermes desde 20 minutos até 3 horas, conforme as dimensões. O fixador mais usado é o líquido de Hofer.
Sol. Ag. Sat. de ácido pícrico – 48p.
Água destilada – 50p.
Ácido acético – 2p.
Um bom critério para avaliar a fixação é a opacidade dos animais. Muitas vezes é necessário levantar a lamínula para que a fixação se faça bem, e assim feito se repõe logo a lamínula para repetir 2 ou 3 vezes novamente. Se possível, verificar a inteira fixação ao microscópio. As partes centrais às vezes resistem um pouco. É uma questão de tempo. Fixados os vermes, são lavados em água e depois em álcool a 50°, depois a 70°, até que percam completamente a cor amarela que lhes dá o ácido pícrico. Isto obtido, podem ser indefinidamente conservados em álcool a 70° ou 80°.
Trematódeos para mais detalhado estudo ou espécies grandes e grossas devem ser fixados em sublimado álcool quente e tratados como já foi dito para os acantocéfalos.
Esquistossomos segundo Loos devem ser bem fixados numa solução de sublimado em álcool a 7° (1%). Devem ser separados alguns machos das respectivas fêmeas, e eles distendidos por meios de pincéis ou dos dedos, cuidadosamente e fixados a quente. O tratamento ulterior é como para o sublimado álcool.
Para terminar, devo dizer que em viagem quando se está apressado tudo se pode conservar em álcool a 70°, que é excelente fixador. Material que deve servir apenas para coleções ou museus pode ser todo assim conservado. Há coleções perfeitamente conservadas até hoje e que foram feitas há mais de 100 e 150 anos, empregando só o álcool.
Convém a todo transe evitar a evaporação ou a baixa concentração do álcool, e quando se fixa muito material em álcool este deve ser várias vezes renovado. Se baixa a concentração do álcool, podemos ter uma putrefação completa do material e a conseqüente inutilização muitas vezes de uma coleção importante.
Os pentastomos se conservam muito bem em álcool a 70°.
A seguir damos uma lista de animais em que se podem procurar e recolher os parasitos, por terem um interesse especial:
Macacos: procurar ancilóstomos e dístomos (1 sp. já é conhecida) e bilharzia nas veias do mesentérioe no fígado. Caso se encontrem bilharzias, procurar a todo transe os ovos, nas fezes, no fígado, nos órgãos genitais. Fixar órgãos com ovos em sublimado acético e tratar como é sabido. Tênias também têm interesse.
Lontra, ariranha: esse animal tem um valor helmintológico colossal. Nele se encontra um Paragonimus. É no pulmão que é preciso procurar. Vivem em cistos ou tubérculos. Fixar os vermes retirados do cisto do pulmão como trematódeo que é. Guardar peças com cistos do pulmão no Kayserling. Procurar no fígado. Procurar no muco brônquico, conservar estes (formol 5%). Procurar no cérebro. Fixar pedaços de cérebro em sublimado acético (5%), pulmão do mesmo modo e todos os órgãos onde se possam encontrar tais cistos.
Esse 3 Paragonimus que é semelhante ao do [-] só foi encontrado até hoje por Natterer, e como o westermani também foi descoberto no tigre por Kerbert, é bem possível que o nosso também infecte o homem morador das margens dos rios e comedor de peixes. Desconfiar das tuberculosas [sic], examinar os escarros entre lâmina e lamínula e procurar descobrir os ovos.
Cães do mato, lobo, quatis, gatos do mato: têm um interesse muito grande relacionado aos seus ancilóstomos. Procurar com atenção na mucosa do intestino delgado; às vezes são tão finos que parecem pêlos; prestar atenção à cor, quando não são avermelhados.
Pássaros em geral: examine sempre os olhos, a boca, o esófago. Depois o fígado e a vesícula biliar, sede freqüente de dístomos. Cortar o fígado em duas metades e exprimir da periferia para o centro.
Nos pássaros de água, procure também nos seios nasais e frontais e na traquéia os monostomos que aí se encontram.
Nos patos e marrecos, procure uma bilharziela [sic] e seus respectivos ovos.
Capivaras: procurar no grosso intestino um anfistomo grande e da forma cônica, que é certamente uma nova espécie. Com os exemplares pequenos tentar preparações entre lâmina e lamínula.
Porcos do mato: procurar vermes semelhantes a ancilóstomos e que vivem no intestino. Procurar pentastômidas no coração e em outros órgãos (cistos). No porco do mato há um verme de grande importância sistemática (Ancilostomum).
Parasitos do homem: sempre que se puderem praticar autópsias, devem-se procurar em todo o intestino delgado e grosso os vermes, e quaisquer que eles sejam devem ser conservados segundo a técnica habitual, para serem estudados por especialistas.
Sendo possível praticar exames de fezes, deve-se notar a existência dos ovos, e, caso se encontrem ovos que se não possam diagnosticar, devem ser as fezes conservadas com o método de Loos. Para isso diluir as fezes com água fisiológica e deixar sedimentar depois de ter cozido o material em gaze duas ou três vezes dobrada. O sedimento é tratado pelo álcool a 70° plus 5% de glicerina aquecida a 60°C, e depois deixado evaporar até a consistência pastosa. É preciso empregar sempre um excesso do fixador, para que reste uma boa porção de glicerina que não se evapora.
A massa pastosa [-] de algumas gotas de glicerina pode ser conservada em frascos bem fechados para ser ulteriormente examinada.
Sempre que se encontrarem ovos de parasitos não reconhecíveis deve-se administrar timol ou outro anti-helmíntico (timol até 8 g de preferência) e procurar nas fezes os parasitos eliminados, que serão conservados como já foi dito.
Cuidado especial merece a pesquisa dos ovos de esquistossomo, para verificar a geografia da moléstia no Brasil.
Também em autópsias se devem procurar estes nas veias mesentéricas e no fígado. Nesse órgão empregar o método de Schiers, que consiste em recolher o sangue que sai da veia da parte que não se corta em uma cápsula branca ou colher grande e depois diluir esse sangue em água fisiológica numa placa grande e procurar aí os vermes, que aparecem como fios brancos e móveis. Fixá-los como já foi dito. Guardar todas as peças anatômicas referentes a estes casos.
* Não temos elementos para determinar, com segurança, a autoria das nove partes que perfazem as 24 páginas datilografadas deste documento, cujos originais encontram-se em BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 36, pasta 247. A primeira explica aos médicos expedicionários como devem registrar as doenças de pele observadas no curso de suas viagens científicas. A segunda, concernente aos insetos, foi publicada como folheto independente em 1912, com o título “Instruções para colheita e conservação de hematófagos”. Esse folheto é reproduzido no livro 4 do volume II desta coleção (Entomologia/Entomology, p.891-6). A terceira parte intitula-se “Instruções para o estudo da distribuição geográfica da tireoidite parasitária,” então tomada, equivocadamente, como sinal da doença recém-descoberta por Carlos Chagas. A quarta parte diz respeito à “Dosagem de matérias orgânicas na água,” empregando-se método estabelecido por Kubel em 1866. A quinta explica as várias técnicas de dissecação e conservação de “Mamíferos,” e a sexta, as técnicas para coleta e estudo de “Protozoários;” a sétima parte tem por título “Higiene – Plantas tóxicas – Epizootias;” a oitava contém “Instruções para a colheita, conservação e fixação de helmintos,” e a nona parte apresenta as técnicas para “Determinação do grau hidrotimétrico da água,” baseando-se na obra de G. Bourrey e E. Marquet, Traité d'Analyse Chimique Industrielle, Commerciale, Agricole, Paris, Octave Doin Editeur, 1908. Adolpho Lutz possivelmente foi o autor de alguns segmentos ou colaborou em sua preparação, em particular aqueles relacionados às dermatoses e aos helmintos. É quase certo que tenha sido o autor da parte relativa aos insetos. Deixamos de reproduzir aqui as partes IV, V e IX por não apresentarem tanta originalidade quanto as outras. [N.E.]
1 No original falta o ítem XVIII. [N.E.]
2 No documento com que trabalhamos, não consta esse esquema. [N.E.]
3 No original, em branco. [N.E.]