Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens
Informações sobre as moléstias observadas no Brasil em animais domésticos
Informações sobre as moléstias
observadas no Brasil em animais
domésticos *
Nestas informações, julgo dever limitar-me à enumeração das moléstias infecciosas e parasitárias observadas nos animais domésticos.
Em relação a estas, posso fornecer os dados seguintes, baseados pela maior parte em observações pessoais:
Moléstias de eqüinos – Existe, no Brasil, como quase em todo o mundo, o mormo sob as suas diversas formas. Geralmente esporádico, tem às vezes assumido caráter epizoótico, onde as condições eram favoráveis por serem muitos animais reunidos em espaço limitado. Isto se deu, principalmente, com as muitas companhias de tramways [bondes] e nas cocheiras destas. Tanto no Rio de Janeiro, como em São Paulo (e provavelmente também em outras cidades) foram observadas pequenas epizootias. Com a substituição da tração das mulas pela força elétrica que se está realizando na maioria das cidades importantes, a moléstia já diminuiu e provavelmente diminuirá mais ainda.
O tétano é, às vezes, observado em forma esporádica.
Em alguns estados, principalmente nas zonas mais quentes do interior e do Norte, existe, em estado epi ou enzoótico, uma tripanossomíase conhecida como peste-de-cadeira [ou mal-de-cadeiras].
Há também observações do piroplasmose, feitas no Rio de Janeiro. No estado do Pará, no Baixo Amazonas, observamos também em vários cavalos uma moléstia que produz uma hipertrofia dos ossos da cabeça, mas esta parece unicamente devida a condições locais e não a um agente infeccioso.
No mesmo estado observaram-se granulações fungosas consecutivas a ulcerações cutâneas de causa indeterminada, e geralmente conhecidas como esponja.
Verificamos a existência de casos isolados de hidrofobia, e há também vários parasitas cutâneos e intestinais, sem dúvida introduzidos e de distribuição cosmopolita, mas faltam observações sobre tuberculose eqüina e não me consta nada a respeito de outras moléstias epizoóticas.
Em certas regiões, as mordeduras de cobras venenosas são freqüentes e muitas vezes fatais. Os cavalos também sofrem muito das mordeduras de morcegos.
Moléstias de bovinos – A piroplasmose é muito espalhada em todas as zonas quentes do Brasil, onde abundam carrapatos do gênero Boophilus. No gado nacional só excepcionalmente faz estragos maiores, mas é muito fatal para os animais introduzidos.
O carbúnculo foi observado em muitos lugares, aparecendo algumas vezes em forma epi ou enzoótica. Existe também o carbúnculo sintomático em algumas zonas.
A febre aftosa, nestes últimos quinze anos, tem aparecido por duas vezes em forma epizoótica e quase panzoótica. No intervalo dessas epizootias não foi observada.
A tuberculose é observada de preferência nas cidades e nas vacas leiteiras, onde é bastante freqüente. No interior é mais rara, principalmente onde se faz a criação em campos extensos.
A actinomicose tem sido observada em alguns casos.
Nos bezerros da llha de Marajó observa-se uma oftalmia epizoótica com conjuntivites e ceratites.
Observamos também cisticercos da taenia medio-cannellata e o cisticerco tenuicoliis.
Os casos de miíase por lucilia macellaria não são raros, e as larvas de dermatobia cyaniventris são freqüentes em muitos lugares.
Moléstias de ovinos – Não conheço moléstia enzoótica entre os ovinos, cuja criação é pouco importante. As distomíases foram observadas apenas em animais importados. Os cordeiros são facilmente atacados por miíase localizada no umbigo e na boca.
Moléstias de suínos – O cólera foi algumas vezes observado em forma epizoótica em vários estados do Brasil. A tuberculose parece ser rara.
A cisticercose é freqüente, mas não há observações certas de triquinose.
Em certas zonas do interior o “kidney worm” (Sclerostomum pinguicola) é freqüente.
Moléstias de caninos – Observa-se a hidrofobia em casos esporádicos, e existe também a piroplasmose. A moléstia dos cães novos, conhecida na literatura como pasteurelose, ocorre com bastante freqüência. O Dochmius caninus é comum e pode produzir uma moléstia fatal.
Moléstia de gatos – Em gatinhos observa-se, às vezes, a
pneumonia 1 verminosa como causa de morte. A dochmiose também se torna, às vezes, fatal.
Observam-se, tanto nos gatos como nos cães, dermato e tricomicoses transmissíveis ao homem.
Moléstias de coelhos – Nos coelhos, a coccidiose é muito comum e a sarna é bastante freqüente.
Moléstia de galinhas – Nas galinhas e outras aves domésticas observam-se com muita freqüência casos de crupe ou difterite aviária. Da tuberculose de gali nhas só observei um caso neste estado.
A espirilose é freqüente no Rio de Janeiro e foi observada num ponto deste estado. Creio que a moléstia tem sido importante em período recente.
Nas galinhas, e mais raramente nos patos, observaram-se, às vezes, epizootias que antigamente foram classificadas como cólera, mas que na maior parte apresentavam mais os sintomas da peste, que naquele tempo não era ainda conhecida como moléstia distinta.
As galinhas são também sujeitas à sarna. O Dermanyssus é comum, mas o Argas miniatus só deve existir em poucos lugares.
Passarinho doméstico – Em passarinhos de gaiola foram observados casos fatais de pneumonomicose e de coccidiose. Nesta última, os coccídios apresentam o tipo da Diplospora lacazei.
* Trabalho publicado em 1908 em obra intitulada Moléstias de Animais, da Sociedade Nacional de Agricultura. Propaganda Agricola, v.9, p.13-5. Impressa no Rio de Janeiro, na Imprensa Nacional. Lutz assina este capítulo como diretor do Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo, apondo-lhe a data de 11 de janeiro de 1908. [N.E.]
1 Trata-se da encilostíase. O termo vem de Dochmius ankylostomum, nome dado em 1860, por Molin, ao verme que Dubini descreveu originalmente como Agchylostoma duodenale, e que foi oficialmente estabelecido como Ancylostoma duodenale pela Comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica, em resolução de fevereiro de 1915. [N.E.]