Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens

Adolpho Lutz · Capítulo 11 de 24 · parte 1/4

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Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens

Viagem pelo rio São Francisco e por alguns dos seus afluentes entre Pirapora e Juazeiro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Viagem pelo rio São Francisco e por

alguns dos seus afluentes entre

Pirapora e Juazeiro*

 

Quando se iniciou nossa viagem, a estação seca já estava bem estabelecida. Não houve chuvas durante todo o tempo da excursão, apenas com uma ou duas exceções. Em conseqüência disso as margens do rio tornaram-se cada vez mais áridas, até que, chegados a Juazeiro, encontramos os arrabaldes com aspecto que lembrava o deserto, por estar toda a vegetação queimada pelo sol e muitas árvores sem folhas. Na mesma proporção diminuiu a vida dos insetos e outros pequenos animais. Disso ressentiram-se as coleções, porque as zonas percorridas, em estação mais favorável, sem dúvida, teriam sido mais ricas, posto que se trate de região relativamente pobre. Nas presentes circunstâncias, apenas conseguimos uma coleção regular de mariposas, quase todas pequenas, que foram apanhadas a bordo, onde, à noite, chegaram procurando os lampiões de acetileno que lá estabelecemos. Vinham acompanhadas de outros insetos, neurópteros e dípteros, com larvas aquáticas e, entre estes, um grande número de mosquitos, geralmente comuns e de poucas espécies. Além destes, conseguimos com muito custo outros dípteros sugadores de sangue. Toda a coleção, da qual trataremos separadamente, era pequena e constituída pela maior parte de espécies conhecidas. Tivemos, todavia, ocasião de fazer várias observações biológicas bastante interessantes que se referem a algumas dessas espécies.

Quanto às coleções de animais maiores que podíamos ter reunido nesta viagem rápida, tivemos de lamentar a perda duma caixa com líquidos conservadores. Tendo sido mandada a tempo, tivemos esperanças de recebê-la, o que até hoje não aconteceu. Assim, a coleção se limitou a peles secas e alguns répteis e peixes. Sentimos também a perda de certos líquidos, destinados principalmente a estudos microscópicos. A caixa que os continha nunca chegou às nossas mãos e perdeu-se completamente. Para compensar um pouco estas faltas, fizemos uma coleção bastante grande de plantas secas. A flora desta região, embora não seja rica em razão das secas, tem um caráter bastante especial que oferece muito interesse. Há muitas plantas adaptadas a um solo arenoso, e algumas que crescem na areia pura. Do outro lado, há grande número de plantas, mais ou menos, aquáticas.

Voyage down the São Francisco and some of its tributaries: itinerary.

Roteiro da viagem pelo São Francisco e alguns afluentes.

Itinerary of voyage up Grande [Big] river (tributary of São Francisco).

 

Roteiro da viagem pelo rio Grande (afluente do São Francisco).

Os estudos que fizemos sobre a patologia do homem e dos animais domésticos confirmaram as nossas presunções sobre a pouca variação observada nela. Os casos da moléstia de Chagas, que nos despertavam real interesse, foram diminuindo à medida que nos aproximávamos das fronteiras de Minas; no estado da Bahia quase faltavam na margem dos rios navegáveis. Em proporção talvez ainda mais rápida observava-se o desaparecimento do transmissor principal, o Triatoma, mais conhecido sob o nome Conorhinus megistus. A espécie sordida encontrava-se com abundância nas margens do rio, tanto em Minas, como na Bahia, mas a distribuição da moléstia não correspondia à presença desta. Se, dum lado, não se pode negar categoricamente a sua faculdade de transmitir o tripanossomo, tudo indica que raras vezes deve estar infeccionada.

O sangue humano não parece ser o seu alimento predileto e muitas vezes prefere os galinheiros às habitações humanas. Todavia, a espécie é geralmente conhecida, o que não se dá com a megista, totalmente desconhecida em zonas extensas. Além dessas espécies, encontramos mais uma terceira (maculosa), mas desta apenas um exemplar.

Outro problema dos mais interessantes na patologia da região é o do papo endêmico. Como muitos dos casos encontrados se observam em indivíduos sem dúvida infectados com

coreotripanose, 1 chegou-se a atribuir o papo desta região unicamente à moléstia de Chagas. Todavia, convém notar que as lesões da tireóide são mais comuns do que outros sintomas ou antecedentes indubitáveis da tripanose, verificando-se apenas com bastante freqüência a coexistência de gânglios intumescidos, principalmente no pescoço. Pelo resto, as lesões da tireóide não se distinguem claramente do papo endêmico comum. Visto que no rio São Francisco toda a população faz uso habitual e muitas vezes exclusivo da água do rio para beber, seria fácil inculpar esta pela produção dos papos. Todavia, nota-se também a diminuição dos papos à medida que se desce no rio, até que desaparecem praticamente nas pessoas que não saíram do lugar. Se esta observação, aliás feita também em outros rios, não exclui absolutamente a idéia de que a água do rio contenha alguma substância química ou algum organismo capaz de produzir a moléstia, também não fala em favor dela. Antes seria possível acusar a falta dum princípio antagonístico ao papo na água do curso superior do rio. Em todo caso, as nossas observações não permitem decidir essas questões, ao passo que continua incerta a etiologia do papo comum, endêmico em regiões onde não há coreotripanose.

A moléstia predominante em todo o vale do São Francisco é o impaludismo. Todavia, geralmente não oferece interesse especial, tratando-se de formas leves, de cuja transmissão só se pode inculpar a ubiqüitária Cellia argyrotarsis. As formas mais graves são raras, e, sobre a natureza de algumas epidemias ou casos esporádicos mais graves que nos foram citados, pairam algumas dúvidas. Se a febre amarela geralmente é desconhecida nestas regiões, todavia não se pode excluir completamente o aparecimento de casos isolados, tanto mais porque a Stegomyia está muito disseminada e freqüentemente é criada a bordo dos vapores, como observamos no “Presidente Dantas,” em que viajamos. Também será fácil o aparecimento da febre tifóide, embora não tivéssemos conhecimento de casos indubitáveis.

Não há noção de febres com os caracteres da febre de Malta ou de pappataci. Em toda a viagem observamos apenas um Phlebotomus, um macho de intermedius, e o Dr. Chagas viu alguns exemplares de espécie indeterminada em Pirapora.

As leishmanioses faltam completamente nas zonas que percorremos.

A ancilostomíase é geralmente menos abundante do que em outras zonas menos secas. Não verificamos nenhum caso de bilharziose e apenas uns poucos de elefantíase, provavelmente devido à filariose.

Vimos algumas dermatomicoses, mas nenhum caso de blastomicose, esporotricose ou Pemphigus foliaceus. Tampouco observamos o mal de engasgo. O alastrim era conhecido em muitos lugares, mas as epidemias já tinham cessado.

Encontramos um número grande de casos de sífilis, dos quais alguns com lesões extensas, devidas à falta de tratamento. Todavia, não tivemos a impressão de maior malignidade, às vezes atribuída aos casos da região do rio São Francisco. De boubas, observou-se apenas um caso, verificado por exame microscópico.

Considerando o grande número de casos, examinados em zonas onde muitas vezes falta um tratamento médico, não encontramos muitos casos notáveis. Vimos um caso de osteosarcoma do fêmur e alguns tumores intra-abdominais, fibromas ou cistos ovarianos.

O hábito de usar a água do rio para beber é certamente deplorável, tanto pelo lado estético como pelo lado higiênico. Até agora é difícil de abandoná-lo, porque, se não falta completamente outra água, esta, quando existe, muitas vezes não é de boa qualidade, sendo mais ou menos salobra. Até hoje a água do rio não tem causado grandes prejuízos, posto que o rio sirva tanto de esgoto, como de manancial, mas representa uma ameaça contínua, e isto principalmente em relação ao cólera-morbo, fácil de introduzir-se com a maior extensão do tráfico.

Em relação a moléstias de gado, só observamos alguns casos de peste de cadeiras, bem conhecida em certa zona onde há capivaras e mutucas. A moléstia foi verificada por injeções de sangue, produzindo a tripanose nos animais inoculados. Há também durina nesta zona e algumas outras moléstias, mais ou menos banais, mas não deparamos com afecção alguma, nova ou desconhecida.

A falta de material patológico de maior interesse nos levou a apressar um tanto a nossa viagem e visitar vários afluentes, na esperança de encontrar mais tarde material para estudos. Esta antecipação, porém, não se realizou, e também os poucos colegas que encontramos na segunda parte da viagem nada informaram sobre a ocorrência de moléstias menos banais.

Abaixo de Pirapora, o rio São Francisco percorre uma planície de aluvião, na qual existem inúmeras lagoas, das quais uma parte desaparece com o progresso da estação seca, ao passo que as outras persistem em estado reduzido.

Dos dois lados dessa planície seguem-se serras em grande número; em alguns pontos aproximam-se do rio. A sua altura geralmente não excede algumas centenas de metros, e a forma raras vezes corresponde ao nome de serra; geralmente têm mais o aspecto de tabuleiros, principalmente quando vistas de longe. Algumas vezes são cobertas duma capoeira, passando ocasionalmente a mato baixo; geralmente, porém, a vegetação é herbácea, predominando nos lugares mais áridos verdadeiros xerófitos, como cactáceos, macambiras etc. Muitas vezes aparece a pedra nua, geralmente em formas muito pitorescas; sendo constituída em grande parte de calcário, apresenta muitas grutas maiores e menores, algumas secas, outras ainda contendo água. Em outros lugares, principalmente no leito dos rios, onde formam cachoeiras e saltos, a estrutura xistácea da pedra parece em escadas e terraços, formados por grandes lajes. Há muitas vezes paredões constituídos

por grés,2 mais ou menos estratificados e corroídos, formando às vezes pitorescos pilares. Não obstante a sua natureza íngreme, esses rochedos são invadidos pela vegetação, e, tanto as figueiras como as barrigudas nascem nos seus interstícios, mandando a grande distância raízes longas e tortuosas.

 

Fig.1 – ‘Xiquexique’ and ‘macambiras’ on a mountain range near Boqueirão do Rio Grande. Image originally published in Plate 11.

Xiquexique e macambiras, em uma serra vizinha ao Boqueirão do

rio Grande. Foto originalmente publicada em Estampa 11 (BR. MN.

Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

O rio em tempo ordinário corre sempre em leito, fechado dos dois lados por barrancos mais ou menos elevados, conforme o lugar e, principalmente, o nível atual das águas. A corrente geralmente é vagarosa. Não obstante a sua grande largura, que freqüentemente excede meio quilômetro, o rio não tem nada de belo, porque a água é sempre turva e os barrancos íngremes geralmente são formados por terra barrenta. A vegetação da margem elevada quase sempre é baixa e sem atração. Os afluentes são geralmente mais bonitos e muitas vezes a sua água é mais clara ou de cor verde, como, às vezes, já o nome indica. Tem geralmente uma correnteza mais forte, o que não impede a navegação em trechos bastante extensos.

Na parte inferior do rio o barro é mais ou menos substituído por areia, que aparece também em bancos e dunas. O rio forma muitas vezes ilhas maiores. A água parece menos suja e, geralmente, as paisagens são mais interessantes. O aparecimento das dunas indica a zona do vento quase constante, que diminui o calor, habitual no tempo da seca. Nesta zona a navegação, que abaixo de Pirapora não mostrava obstáculos, torna-se mais difícil e exige muita atenção. Com a queda rápida do nível das águas, em razão do progresso da seca, os encalhes tornam-se mais freqüentes. Aparecem também várias pedras mais ou menos expostas. Pouco acima do Juazeiro, os vapores têm de parar no tempo da águas baixas, por causa duma corredeira, onde o canal navegável, não obstante alguns trabalhos executados, é estreito e pouco fundo.

Os vapores são todos de pouco calado. Só excepcionalmente deitam ferro para a interrupção da navegação, feita habitualmente à noite. Geralmente são amarrados à margem do rio. Faltando árvores, usam-se varas fortes, fincadas no barranco, depois de servir aos marinheiros para pular em terra. Basta uma ou duas para manter o navio. Também durante o dia as paradas são freqüentes, porque os vapores, que usam para combustível lenha, comprada nas margens dos rios, não podem navegar muito tempo sem reabastecer. A lenha está amontoada no barranco donde é lançada, pau por pau, no vapor, sendo contada na mesma ocasião. O embarque e o desembarque dos passageiros se fazem de modo muito primitivo, por meio de tábuas estreitas e pouco seguras para pé calçado.

 

Fig. 2 – Engenheiro Halfeld Steamboat. Image originally published in

Plate 3.

Vapor Engenheiro Halfeld. Imagem originalmente publicada em

Estampa 3.

Fig 3 – Engenheiro Halfeld Steamboat. Picture taken on May 7,

1912. Image originally published in Plate 3.

Vapor Engenheiro Halfeld. Foto tirada em 7.5.1912. Cópia

fotográfica que corresponde a imagem originalmente publicada em

Estampa 3 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244,

maço 5

Fig. 4 – Boats in São Francisco River. Image originally published in

Plate 6.

Barcos que navegam o rio São Francisco. Cópia fotográfica

originalmente publicada em Estampa 6 (BR. MN. Fundo Adolpho

Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig. 5 – Ferryboat in São Francisco River. Photo not published in the

1915 report.

Balsa no rio São Francisco. Foto não utilizada no relato publicado

em 1915. (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço

5).

Se o rio, já em tempo de seca, leva um grande volume d’água, este, nas enchentes aumenta dum modo fabuloso. Não obstante as margens elevadas, o rio e seus afluentes transbordam em toda parte, cobrindo enormes extensões de terreno. Em certos anos, as enchentes atingem proporções extraordinárias, invadindo as povoações da margem e causando grandes prejuízos. Além de informações, dignas de fé, que obtivemos em muitos lugares, também há fotografias que dão uma idéia da altura que as águas podem alcançar. Nestas ocasiões, os vapores navegam em trechos extensos fora do leito do rio, aproveitando as comunicações temporárias que abreviam as viagens.

As numerosas lagoas, alimentadas pelas enchentes, acompanham todo o percurso do rio, de modo que dificilmente se encontra uma povoação que não tenha uma ou mais na sua vizinhança imediata. Assim se explica a freqüência de febres palustres, sendo essas lagoas os criadouros de mosquitos palustres, e principalmente das Cellia, transmissoras da infecção, e entre as quais predomina a espécie argyrotarsis. Uma modificação radical destas condições é difícil, e só se poderá lançar mão, por enquanto, de medidas paliativas.

Com o progresso da seca, a maior parte das lagoas fica sem água. Já antes do dessecamento completo as larvas de mosquito podem desaparecer nas lagoas sem sombra, em conseqüência da insolação poderosa, como tivemos ocasião de observar algumas vezes. Os mosquitos adultos só desaparecem bastante tempo depois das margens das mesmas lagoas, e com eles os casos de infeção primitiva, mas, em virtude das recaídas freqüentes, as febres não desaparecem.

As lagoas contribuem também para a alimentação do homem, porque são os criadouros principais dos peixes, sendo também visitadas por numerosos pássaros aquáticos.

Não obstante o grande número de povoações, entre as quais se contam algumas cidades regulares, o vale do rio São Francisco dá a impressão duma região pobre e atrasada. Quanto à população, convém dizer que o elemento índio nela é quase nulo. No entanto, a raça preta entra com um contingente grande, muitas vezes predominante. Não são raros os lugares onde, entre os nativos, falta o elemento completamente branco. Isto, naturalmente, influi muito sobre o caráter da população que geralmente vive de modo bastante primitivo. Comparações com povoados do mesmo tamanho, em outros estados e países, são pouco favoráveis aos moradores do São Francisco, e isto não se deve unicamente à falta de recursos, porque, se a gente pouco ganha, também pouco gasta para a vida. É certo que, nestas zonas, muitas necessidades de climas menos quentes passam a ser um luxo quase supérfluo, mas isso não inclui as necessidades higiênicas. Também não pode haver progresso onde a gente se contenta em vegetar sem melhorar as condições da sua vida.

Além da questão da raça, há outros elementos que se opõem ao progresso. O clima quente, cuja média é bastante superior à da capital federal, e certas moléstias, principalmente a malária, e, em menor extensão, a coreotripanose e a ancilostomíase, contribuem para aumentar a indolência dum povo ao qual também faltam outros exemplos. A produção da terra excede as necessidades locais em valores insignificantes, e a maior parte dos gêneros alcança preços pouco favoráveis, por causa da distância de outros mercados.

Durante a nossa viagem encontramos, principalmente nos afluentes, alguns lugares onde havia sinais de atividade humana em roças e plantações bem tratadas, mas a proporção é pequena. O rio Corrente é o único onde a irrigação artificial é usada em maior escala e com muito bom resultado. No resto, muitas vezes, poucos metros distante e acima do rio a terra é árida e estéril, sendo a vegetação escassa constituída por plantas não aproveitáveis, como a Ipomoea fistulosa e elementos da flora ruderal, que constituem o mato, encontrado ao longo dos caminhos. Considerando que na parte baixa do São Francisco moinhos de vento trabalhariam com muito proveito, sendo o vento quase contínuo, e que, no tempo de necessidade, há poucos lugares que se prestariam melhor à aplicação de motores de sol, tornando-se fácil a irrigação pelos dois sistemas, pode-se esperar que, com o tempo, as condições melhorem, e que então esta zona mereça a designação de ubérrima, o que hoje, certamente, não é o caso. Um dos elementos de atraso está também no fato de que a região é muito afastada do litoral, pedindo os pontos menos distantes uma viagem em estrada de ferro de 24 horas. A própria navegação no rio é demorada e as distâncias são enormes, de modo que muitos gêneros não pagam as despesas de uma exportação à distância.

Os gêneros que se exportam do rio São Francisco correspondem aos três grupos: agricultura, criação e indústrias extrativas. Além dos produtos consumidos no lu gar da produção, pode-se mencionar a casa de açúcar, que fornece rapadura e aguardente, consumidos no mesmo estado. Passa pelo rio também um pouco de café, vindo, porém, de zonas já um pouco distantes do rio. O arroz, que podia ser produzido em abundância, não representa papel importante.

A criação, feita por processos primitivos, fornece grande número de couros, geralmente não curtidos, que, formando parte da carga de um navio, comunicam ao ambiente um cheiro pouco agradável. A carne de sol, que em gosto é muito superior à carne seca que importamos, não é artigo de exportação.

Em razão das viagens longas, a exportação de animais vivos é rara. Encontramos, todavia, um transporte de éguas numa lancha grande, rebocada por vapor. Saíram de Pirapora e fizeram toda a viagem até o Juazeiro.

De produções naturais mencionaremos em primeiro lugar as borrachas, tanto maniçoba (ManihotglazioviiMuell. Arg.) como de mangabeira (Hancornia speciosa M.). Há muita gente que se ocupa em colher borracha, porém a borracha de maniçoba que colhem é muito impura e de má qualidade; com os preços atuais o negócio não pode ser rendoso. Há, também, algumas plantações de maniçoba que poderiam facilmente ser aumentadas se valesse a pena.

Outra produção natural é a cera de carnaúba, hoje bastante procurada para cilindros de fonógrafo. A extração parece rendosa, onde há carnaubais bastante grandes. Há também alguma produção de cera de abelhas.

A resina de jatobá, produto da Hymenaea courbaril L., é outro produto natural que podia facilmente ser obtido em quantidade maiores, mas parece que não há muita procura.

Em qualquer povoação maior encontram-se peles de caça, porém sempre tão mal tratadas que não representam maior valor do que qualquer outro couro do mesmo tamanho.

Em Vila Nova vimos carne-seca de mocós, expostas à venda, aliás por preço ínfimo. Do São Francisco vem surubim seco que é consumido dentro do estado. Este peixe, o Pseudoplatystoma corruscans, bem conservado em latas, podia ser exportado a maior distância, rivalizando com os melhores peixes importados. Seria oportuno que as autoridades estudassem o assunto, facilitando o estabelecimento desta indústria.

De minerais que passam pelo rio São Francisco, só vimos os carbonatos que vêm de zona um tanto distante. O seu preço é superior ao dos diamantes do mesmo tamanho, mas a produção total é pequena. A extração de sal, antigamente geral nesta zona, parece ter cessado.

A idéia de obter dinheiro por meio de produções minerais é muito popular nesta região, e recebemos várias amostras de minerais, mas, aparentemente, estes não tinham maior valor, além de vir de zonas afastadas do próprio vale do rio São Francisco, que não parece possuir riquezas minerais.

A fauna do vale do rio São Francisco mostra a falta das matas e de chuvas em todas as estações. À caça, que em grande parte depende das matas, faltam muitas espécies, e outras existem em número reduzido, pela facilidade de persegui-las em lugares onde não encontram esconderijos. Certos afluentes oferecem condições um tanto melhores, mas geralmente a fauna de mamíferos maiores é pobre. Todavia contém algumas espécies que não são encontradas na latitude da capital federal. Assim, existe uma espécie de guariba diferente, que encontramos no Rio Grande, cujas margens oferecem árvores maiores; é o Mycetes caraya Humb. A anta (Tapirus americanus L.) falta nas zonas mais habitadas e mesmo as capivaras (Hydrochoerus capybara Erxl.) geralmente são pouco abundantes e muito mais ariscas do que em outras regiões, onde não são perseguidas. Entre os roedores menores merece menção especial o mocó (Kerodon rupestris) que habita em grande número as serras das margens do rio, onde se pode esconder facilmente, quando perseguido. Mostram-se muito ariscos e dificilmente se chega a vê-los, mesmo em lugares onde abundam. Aparecem novas espécies de cutia, principalmente a cutia-de-rabo (Dasyprocta agouchy). Outro pequeno mamífero característico do baixo São Francisco é o tatu-bola Dasypus (Tolypeutes) conurus Is. Geoff., bastante comum na região do Juazeiro. Parece ser a única espécie de tatu que se conserva facilmente em cativeiro e até se torna mansa.

Os mamíferos, encontrados durante a nossa viagem em estado selvagem, reduzem-se a alguns sagüis, comuns perto de Pirapora, uns bandos de guaribas, no Rio Grande, alguns cachorros-do-mato (Barreiras e Poço de Mel, abaixo de Urubu), mocós, morcegos e alguns ratos e camundongos. Melhor juízo sobre a fauna podia-se fazer pelas espécies que se encontravam em estado domesticado, pela caça oferecida para comprar e pelas peles expostas à venda, como também pelas informações de pessoas competentes. Entre as peles, encontrava-se muitas vezes a da onça pintada, que ainda é bastante abundante em algumas serras perto do rio São Francisco, como na serra do Cabral, pouco distante de Pirapora. A variedade preta era rara. Existem também as outras espécies de gatos pintados.

Do lobo (Canis jubatus) encontramos apenas uma pele; parece bastante raro nestas regiões. O Ictycyon venaticus era completamente desconhecido.

Na cidade de Barra vimos uma grande pele de ariranha (Lutra brasiliensis).

De animais mansos encontramos alguns micos (Cebus sp.) no Rio Grande. As cutias mansas eram bastante comuns, mas não conseguimos obter um mocó vivo.

Obtivemos algumas cabeças de veado de campo (Cariacus campestris Cuv.); o veado galheiro (Cariacus paludosus Desm.) é raro e somente encontrado nos afluentes.

Compramos uma Didelphis albiventris viva. A cuíca d’água

(Chironectes palmatus) 3 era desconhecida.

A fauna de aves é mais rica. Aparecem novas espécies de pássaros pequenos, como a pomba fogo-apagou (Scardapella squamosa

Temm.), o 4 sofrê (Xanthornus jamacai Gm.), o cardeal (Paroaria sp.), a casaca-de-couro etc. A seriema (Microdactylus cristatus L.) é freqüentemente reconhecida pelo canto e também a ema (Rhea americana L.) existe em alguns lugares. Entre os pássaros de caça,

a 5 codorna parece bastante abundante; há também perdizes e jacus

nas margens de alguns afluentes. A nota predominante é dada pelos pássaros aquáticos, que ocorrem em grande número, em razão das condições favoráveis existentes, menos no próprio rio do que nas inúmeras lagoas, formadas por este e pelos seus afluentes. As espécies observadas serão mencionadas no diário. Aqui apenas chamarei atenção sobre a facilidade com a qual, em certos lugares, principalmente na cidade de Barra, se podem procurar vivos exemplares novos de pássaros aquáticos, mesmo de espécies que raras vezes se encontram em cativeiro. Entre o número das espécies conhecidas, notamos a ausência do guará ou íbis vermelho (Endocinus ruber L.). Em compensação o téu-téu (Vanellus cayennensis) não falta em parte alguma.

Entre os répteis,6 chama atenção a existência da iguana (Iguana tuberculata Laur.) geralmente conhecida pelo nome errado camaleão. Não obstante a perseguição constante, que lhe vale a sua carne comestível, esse lagarto curioso continua a ser bastante freqüente. Os outros répteis observados serão mencionados ocasionalmente. Aqui apenas diremos alguma coisa sobre as tartarugas. Posto que o rio, principalmente na parte inferior do seu curso, pareça oferecer condições excelentes para as espécies de água doce, não há no São Francisco e nos seus afluentes uma tartaruga de real valor. A espécie, que ocasionalmente encontramos, parecia pertencer ao gênero Hydromedusa, encontrado em toda parte e pouco aproveitada, embora tanto a carne como os ovos sejam comestíveis. Não podemos deixar de chamar aqui a atenção das autoridades públicas sobre as grandes vantagens que adviriam da introdução das tartarugas do Amazonas no sistema fluvial do São Francisco, o que poderia ser feito facilmente e com pouca despesa.

Posto que os peixes do rio São Francisco sejam bastante numerosos, os que se aproveitam para alimentação não passam de uma dúzia. Estes, todavia, representam um recurso enorme para os habitantes da região. Convém salientar principalmente o surubim, que é um peixe de primeira ordem, tanto pelo sabor da carne, quase livre de espinhas, como pelo enorme tamanho que alcança. Bem conservado, poderá rivalizar com as melhores conservas de peixe que se encontram no comércio. As outras espécies, além de menores, são geralmente inferiores em quantidade, mas merecem atenção pelo seu grande número. Teremos ocasião de mencioná-las mais minuciosamente.

Em vista dos recursos já existentes, não parece muito urgente a introdução de espécies novas, e só devia ser experimentada depois de estudo cuidadoso da questão. Uma experiência que podia ser realizada sem perigo, visto tratar-se dum animal herbívoro, seria a introdução do peixe-boi do Amazonas, que lembramos neste conjunto, sem ignorar ser um mamífero adaptado à vida aquática, e não um peixe.

Entre os insetos, além de lepidópteros e dípteros, dos quais trataremos separadamente, observamos atraídos pela luz efeméridas e frigânidos, em pequeno número de espécies, sendo porém os indivíduos numerosos. Em certas ocasiões, apareceu grande número de pequenas Cicadina. Colecionamos também duas espécies de Gryllotalpa. Como tivemos ocasião de observar no Amazonas, esses grilos habitam com muita freqüência a areia dos rios e podem ser encontrados em bancos, onde não há o menor vestígio de vegetação. Outros insetos, que, em estado larval, freqüentam os lugares arenosos, são os Ascalaphus e Myrmeleo, dos quais apanhamos algumas espécies muito vistosas. Nos mesmos lugares encontramos algumas cicindelas que, raras vezes, também apareciam na luz, e uma espécie de carabídeo. Nos acaris mortos e jogados na praia achamos uma espécie de Dermestes em grande número. No resto, os coleópteros faltavam quase completamente. A grande raridade dos insetos na estação seca foi notada por St. Hilaire e, pessoalmente, já a tinha um de nós verificado no Amazonas.

Aqui queremos mencionar um exemplar de Mantispa apanhado a bordo, na luz de acetileno.

De crustáceos só observamos formas microscópicas. Além de Cyclopidas achamos na água das lagoas uma espécie de Simoceohalus e outra de Ceriodaphnia, que representam as Cladocera mais comuns no Brasil. Na mesma ocasião observava se uma espécie de Hydra.

Entre os miriápodes e aracnídeos convém mencionar uma grande lacraia (Scolopendra sp.) e uns escorpiões aqui chamados lacrau.

Colhemos certo número de moluscos cuja determinação será dada mais adiante.

Encontramos também uma interessante esponja de água doce, pertencendo aparentemente ao gênero Spongilla. É bastante freqüente em alguns afluentes, mas não encontramos no rio principal. O povo conhece a sua existência, sem saber nada a respeito da sua natureza.

Falta dizer ainda alguma coisa sobre a flora desta região. Tanto a flora natural como as plantas cultivadas apresentam vários elementos desconhecidos ou raras vezes encontrados no Rio de Janeiro. Assim observa-se nos campos fechados, principalmente na região de Pirapora, o tingui (Magonia glabrata St. Hil.) com grandes frutos lenhosos, cujo conteúdo, ao que se diz, serve para sabão e para matar peixes. Devemos dizer que nos parece pouco ativo, tanto numa, como na outra qualidade. Na mesma zona encontramos o jenipapeiro (Genipa americana L.) e o Piqui (Caryocar brasiliensis Camb.) e a palmeira buriti. Na segunda parte da viagem aparecem a carnaubeira (Cepernicia cerifera M.) e o coqueiro-da-baía (Cocos nacifera L.). O sal, contido na terra, parece favorecer o crescimento dessas palmeiras e talvez explique por que esta última frutifique tão bem, embora cultivada a grande distância do mar. Na mesma zona aparecem o umbuzeiro (Spondias tuberosa) e o juazeiro (Zizyphus joazeiro), que encontramos sem frutos.

Há algumas plantas que foram, a princípio, cultivadas e depois se espalharam espontaneamente, como a chamada rosa-da-turquia (Parkinsonia aculeata L.) e uma Asclepiadacea arborescente (Oxytropis spec.), conhecida pelo nome de algodão de seda, por dar uma paina sedosa no interior de grandes frutos em forma de maçã. Ambas são exóticas, ao passo que um fumo arborescente com folhas dum verde muito claro e flores amarelo-verdes (Nicotiana glauca) parece indígena. Na margem da parte baixa do rio abunda um araticum com frutos cor de laranja e sem sabor (Annona spinoso). Nas serras, encontram-se cactáceos de várias espécies. Nos campos, mais ou menos secos, ao lado dos rios, encontram-se espécies bonitas de Evolvultus e Ipomoea, e na margem deles outras flores, como malváceas, esterculiáceas, malpighiáceas, papilionáceas e acantáceas, escrofulariáceas. Entre estas há várias espécies, já cultivadas ou que merecem ser adaptadas como flores de jardim, como os Evolvulus, Ruella e Agellonia. Nas lagoas, há muitas plantas aquáticas com flores bonitas. Procuramos criar várias espécies de sementes, mas só tivemos resultado com o algodão de seda e a Parkinsonia; ambas as plantas aqui se desenvolvem muito lentamente. Daremos mais pormenores sobre a flora no diário, cuja reprodução segue agora.

 

Diário (Dr. Lutz)

17 de abril – Tendo saído da capital na véspera, cheguei à noite a Pirapora e hospedei-me num hotel, onde já estavam alguns colegas, ocupados com estudos sobre a coreotripanose, entre eles o dr. Chagas, que partiu logo depois. Durante a última parte da viagem já tinha observado o caráter da região, formada por campos extensos com muitas árvores baixas e tão tortuosas que seria impossível encontrar-se uma vara direita no meio delas. Entre elas abunda o tingui (Magonia glabrata St. Hil.), com grandes frutos em forma de bola com três cristas. No horizonte, viam-se serras mais ou menos distantes e, geralmente, bastante plantas na parte superior. Depois de Lassance, abandona-se o rio das Velhas, até lá seguido pela estrada de ferro, e atravessa-se em direção oblíqua a região que separa este do São Francisco. Nessa ocasião, passa-se pela base duma pequena serra que parece ter uma flora interessante, tanto quanto se pode julgar do trem. Passando esse obstáculo, o trem se dirige em linha reta de extensão extraordinária para Pirapora. O rápido só alcança Pirapora com noite fechada. O centro da cidade e os hotéis são bastante distantes da estação, que, atualmente, marca o ponto final da estrada de ferro.

Fig. 6 – Pirapora Falls, São Francisco River, Minas Gerais. Photo

originally published in Plate 1.

Cachoeira de Pirapora, rio São Francisco, Minas Gerais. Cópia

fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em

Estampa 1 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244,

maço 5).

Fig. 7 – Pirapora Falls, São Francisco River, Minas Gerais. Photo

originally published in Plate 1.

Cachoeira de Pirapora, rio São Francisco, Minas Gerais. Cópia

fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em

Estampa 1 [Casa de Oswaldo Cruz (doravante COC), Departamento

de Arquivo e Documentação (DAD), Setor Iconográfico (SI), série

atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC].

Fig. 8 – Pirapora Port, Minas Gerais. Image originally published in

Plate 4.

Porto de Pirapora, Minas Gerais. Cópia fotográfica que corresponde

à Estampa 4 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie

expedições, maço FOC).

18 de abril – Tendo de esperar ainda pelos companheiros da expedição, resolvi aproveitar o meu tempo, o mais possível, fazendo excursões na região. Principiei hoje, acompanhando os drs. Eurico Villela e Leocadio Chaves numa excursão para Guacuí ou Bom Sucesso, situado na confluência do São Francisco com o rio das Velhas. Este último é mais estreito, mas tem mais correnteza do que o rio principal. Ambos são muito barrentos, correndo entre barrancos altos, guarnecidos só em cima de árvores e arbustos, que não formam mato verdadeiro. Na viagem já encontramos grande número de pássaros aquáticos, muitas garças, um bando de cegonhas chamadas aqui jabiru, moleque, colhereiras e outras espécies menores. Nos barrancos do São Francisco, que tinham uma altura aproximativa de cinco metros, havia muitos buracos, marcando os ninhos da Ceryle torquata ou martim-pescador grande que aparecia

na vizinhança deles.7

 

Fig. 9 – Nests of ‘martim-pescador’ (kingfisher) at the Rio Grande

riverbanks. Image originally published in Plate 4.

Ninhos de martim-pescador, nos barrancos do Rio Grande. Imagem

originalmente publicada em Estampa 4.

O dia era muito quente; não havendo chovido por muitos dias, a terra estava bastante seca. O lugar é pequeno e dá a impressão de decadência. Há umas 150 casas, todas pequenas e mal construídas, oferecendo muitos esconderijos para o barbeiro, que é observado com freqüência. Todavia, não faltavam vestígios de cultura. Notei cana-de-açúcar, laranjeiras, limoeiros, jenipapeiros e uma mangueira, certamente plantados, além de figueiras brancas, aru e pequi, que talvez nascessem espontaneamente.

No lugar havia muitos doentes de moléstia de Chagas, o que nos impediu de ir passear mais longe. Alguns apresentavam sintomas cardíacos, outros localizações nos centros nervosos. Havia também um caso de mixedema no princípio. As alterações da tireóide são freqüentes, mas os papos volumosos comparativamente raros.

Voltamos no mesmo dia para Pirapora. Fizemos a viagem no “Presidente Dantas,” que tinha sido posto à nossa disposição. O comandante Arthur Vianna foi um excelente companheiro de viagem e nos prestou muitos serviços, como também o major Ramos, que nos acompanhou a Guacuí e sempre nos obsequiou em Pirapora, onde reside. Encarregou-se também da nossa correspondência.

 

Fig. 10 – Presidente Dantas Steamboat being supplied with

firewood. Adolpho Lutz and Astrogildo Machado travelled in this

ship. Photo not published in the 1915 report.

Presidente Dantas abastecendo-se de lenha. Nesse vapor viajaram

Adolpho Lutz e Astrogildo Machado. Foto não utilizada no relato

publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas,

subsérie expedições, maço FOC).

Fig. 11 – Commodore and machinist of Presidente Dantas

Steamboat. Photo taken in Pirapora, April 1912 and not published in

the 1915 report.

Comandante e maquinista do vapor Presidente Dantas. Foto batida em Pirapora, em abril de 1912, não utilizada no relato publicado em

1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie

expedições, maço FOC).

19 de abril – Como pressentia na véspera, mas contra as predições dos moradores, o tempo tornou-se chuvoso. De manhã caiu uma chuva torrencial que inundou as ruas e uma parte do hotel. De tarde abrandou o aguaceiro, completamente anormal nesta estação, permitindo-nos sair um pouco. O primeiro passeio foi à cachoeira que já tinha visitado em ano anterior. Naquela ocasião o rio estava baixo e permitiu-nos alcançar a cachoeira principal, que nesse tempo era muito pitoresca. Combinando a visita com um banho, colhi naquela ocasião, nas pedras quase à tona d’água, grande quantidade de podostemáceas do gênero Ligea que estavam literalmente cobertas com larvas e casulos duma espécie de borrachudo especial aos saltos e grandes cachoeiras de rios maiores. Verifiquei, então, que o inseto adulto sai somente quando os casulos são expostos ao ar pela vazante do rio, o que explica o seu aparecimento periódico.

Desta vez a água ainda estava alta demais para se chegar ao mesmo ponto e as lajes cobertas por um precipitado barrento eram muito escorregadiças. Com muito custo, conseguimos apanhar alguns casulos dessa espécie, que parece a única nesta cachoeira. Há outra espécie de podostemácea que me parece uma Mouriera, mas encontra-se mais no meio e do outro lado, de modo que desta vez não a achei. Não é procurada pelas larvas e casulos daquele borrachudo, que se chama Simulium orbitale Lutz e nunca ataca a gente, mas persegue os cavalos. Notamos nesta ocasião grande número de peixes pequenos procurando subir pela cachoeira.

Figs. 12, 13 – An agenda at a German pharmaceutical laboratory

contains Adolpho Lutz's notes in Portuguese and in German, dated

between April 19 and 25, 1912.

Numa agenda de um laboratório farmacêutico alemão encontram-se

anotações feitas por Adolpho Lutz em português e em alemão

correspondentes aos dias 19 a 25 de abril de 1912 (BR. MN. Fundo

Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

A cidade de Pirapora, que percorremos depois, é bastante grande e em via de progresso. Levando em conta a grande distância dos centros, produz uma impressão bastante favorável, sem ter atrativos especiais. O melhor edifício da zona está situado do outro lado do rio e serve para a escola de aprendizes marinheiros. Pelo resto, as casas e mesmo as igrejas são modestas, mas as ruas são assaz largas e bem traçadas e o terreno, bastante arenoso, tem grandes vantagens. A cachoeira está ainda na altura da cidade e por isso o porto acha-se um pouco abaixo desta. Vi vários casos de coreotripanose e impaludismo, além dum reumatismo articular e afeções banais.

20 de abril – Pela bondade de um companheiro do hotel, Sr. Mattoso, ocupado nos trabalhos do prolongamento da estrada de ferro e conhecedor da região, obtivemos cavalos para uma excursão à cabeceira interessante do Brejinho, situada na serra e fazenda do mesmo nome. Tivemos de atravessar o rio com os cavalos num ajoujo e aproveitamos a ocasião para visitar a referida escola que ainda não estava aberta, porém quase pronta. Na excursão, vimos várias plantas interessantes, entre as quais uma mimosa com vistosas flores vermelhas e outra planta decorativa, à qual dão aqui o nome de algodoeiro bravo, que, em outras regiões, designa plantas muito diferentes. É um arbusto lembrando um pouco um dos grandes rododendros, mas as flores encarnadas mais se parecem com as rosas selvagens da Europa. Encontra-se em várias serras perto de Pirapora, mas depois desapareceu e senti muito não ter levado exemplares secos. Provavelmente tratase de uma espécie de Kielmeyera. A cachoeira que corre por enormes lajes foi fotografada. Colhi na viagem algum material de borrachudos e mutucas. Apanhamos também, sem querer, bom número de carrapatinhos que nesta região constituem uma praga terrível. Felizmente tornaram-se mais raros no decurso da viagem e finalmente desapareceram completamente.

Fig. 14 – Brejinho Falls, Minas Gerais. The image originally

belonged to Plate 1.

Cachoeira do Brejinho, Minas Gerais. Imagem originalmente em

Estampa 1.

Fig.15 – Brejinho Falls, Minas Gerais. Photo originally published in

Plate1.

Cachoeira do Brejinho, Minas Gerais. Cópia fotográfica que

corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 1

(COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições,

maço FOC).

21 de abril – Fiz hoje uma excursão para Buriti das Mulatas, uma das últimas estações da estrada de ferro. Há neste lugar um buritizal no meio dum brejo onde o Dr. Chagas tinha encontrado a Stethomyia nimba, espécie interessante de anofelino. Todavia, nem com cavalo conseguimos apanhar um exemplar e também não achamos as larvas, apurando apenas que não devem ser bromelícolas. Havia na água do brejo larvas de espécies de Cellia, Uranotaenia e Culex (cingulatus) e uma espécie de Ceriodaphnia. Apanhei algumas mutucas interessantes, mas o trabalho em geral foi mal remunerado, visto tratar-se dum lugar que já tinha fornecido coleções muito interessantes. Tivemos aqui a primeira prova de que a estação favorável já tinha passado. Procuramos também o barbeiro, porém sem resultado, não obstante tratar-se de região infectada. Finalmente tivemos ainda de esperar o trem por um [tempo] enorme, chegando a Pirapora com quatro horas de atraso, às 2 horas da manhã.

22 de abril – Recebemos neste dia a maior parte de nossa bagagem bastante volumosa, que foi transferida para bordo. Vi mais alguns doentes e verifiquei no hotel a Cellia albimana. Com o trem da noite, que felizmente chegou a tempo, veio o Dr. Astrogildo Machado, que devia substituir o Dr. Chagas nessa expedição. Fomos dormir a bordo, onde já estava tudo preparado. O rio, nestes últimos dias, tinha caído tanto que o vapor foi obrigado a mudar de lugar para não encalhar.

23 de abril – Tendo levantado ferro cedo, chegamos às 8h30 a Guacuí, distante 20 quilômetros. As 12h37 partimos a cavalo para a serra de Rompe-dia, que faz parte da serra do Cabral. Esta era conhecida como paradeiro de muitas onças que ainda hoje não desapareceram completamente. Na ascensão bastante íngreme encontramos primeiro a vegetação tortuosa dos campos fechados. Mais acima apareceram veredas com buritis e um Paepelanthus, [espécie de] Eriocaulacea de dimensões extraordinárias. Passamos por campos abertos, parecendo apropriados para gado, que só encontramos em número relativamente pequeno, e atravessamos vários rios, em cujas lajes encontrei larvas e pupas de Simulium rubrithorax. Passando ao lado de rochedos de grés avermelhado, decomposto em formas fantásticas, e descendo depois por uma capoeira muito fechada, chegamos a uma caverna, da qual nos tinham falado e que desejávamos visitar. Consiste num túnel, formado pela água do córrego Rompe-dia, de cerca de 30 metros de comprimento e com uma abertura de cada lado. O solo da gruta é formado pela própria pedra, não prometendo resultados paleontológicos; há apenas indicação de formação de estalactites. Considerando o acesso bastante difícil, essa gruta mal compensa o trabalho de visitá-la, mas a excursão na serra oferece um panorama muito interessante. Esta serra parece menos árida que aquelas que se encontram mais rio abaixo, e parece também ter uma flora bastante rica. Encontramos muitas flores bonitas, pertencendo às leguminosas, bignoniáceas, acantáceas, convolvuláceas etc. Durante a excursão encontramos também rastos de antas e porcos de mato. Na volta apanhei algumas mutucas crepusculares. Antes de chegar à serra, atravessamos uma zona com bastantes árvores elevadas, entre as quais se destacava o tamboril (Enterolobrium timbouva M.). Verificamos em Guacuí muitas Cellia argyrotarsis, única anofelina que se pode responsabilizar pela freqüência do impaludismo nesta zona. Um pouco para dentro desse lugar é Porteira, lugar antigo, mas completamente decaído em conseqüência dessa moléstia, o que não é para estranhar, visto estar na borda duma lagoa que se estende duma povoação a outra. Deve ser um excelente criadouro de Cellia, tanto mais que não está muito exposta ao sol. Pelo tempo que a barra do Rio das Velhas já está habitada, devia-se já encontrar uma grande cidade neste ponto, se o lugar fosse mais salubre. Existem aqui duas igrejas grandes, que nunca foram acabadas e apresentam uma decadência ainda maior do que as povoações.

Fig.16 – Eriocaulacea, a species of Paepelanthus. Cabral

Mountains. Image originally published in Plate 9

Eriocaulacea, espécie de Paepelanthus. Serra do Cabral. Cópia

fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em

Estampa 9 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244,

maço 5).

24 de abril – Neste e no dia anterior foram examinados vários doentes e tiradas fotografias de alguns. Observamos um caso interessante de Eczema marginatum de Hebra, generalizado, o que indica um clima quente. Continuando a viagem durante a manhã, chegamos, depois de breve percurso, na parada da fazenda Jatobá, mas não encontramos os cavalos, pedidos com antecedência. Só chegaram muito tarde, de modo que quase não havia mais tempo para a excursão projetada à cachoeira do Rio Jatobá. Resolvemos, todavia, seguir, e atravessamos primeiramente um mato baixo, chegando então a uma serra, pouco elevada, porém bastante íngreme, onde havia primeiramente campo fechado e depois campo aberto. Alcançamos finalmente a cachoeira que é bastante volumosa e pitoresca, lembrando um pouco o salto de Itu. Tiraram-se fotografias e apanhou-se material de Simulium, larvas e casulos no rio, os adultos nos cavalos. Parece, todavia, que os verdadeiros criadores não eram acessíveis. Também não se encontram podostemonáceas.

Durante a viagem fomos muito incomodados por grande número de pequenas moscas do gênero Hippelates. Surpreendidos pela noite e tendo o camarada perdido o caminho, quase tivemos de pernoitar no campo. Em certo ponto, fomos assaltados por grande número de mosquitos que picavam sem zunido. Não pudemos no escuro verificar se se tratava de Cellia ou de Culicoides. Só voltamos com a noite fechada à fazenda de Jatobá, onde havia apenas umas casas completamente primitivas e sem valor. Essa fazenda, incluindo a cachoeira que pode fornecer muita força, foi ultimamente comprada pelo governo de Minas.

 

Fig.17 – Guacuí view on April 23, 1912. Photo not published in the

1915 report.

Vista de Guacuí em 23.4.1912. Foto não utilizada no relato

publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas,

subsérie expedições, maço FOC).

Fig.18 – A case of Eczema marginatum (Hebra). Photo not

published in the 1915 report.

Um caso de Eczema marginatum (Hebra). Foto não utilizada no

relato publicado em 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35,

pasta 244, maço 5).

 

Fig.19 – Patients waiting for consultation with physicians from the

São Francisco River expedition. Photo not published in the 1915

report.

Doentes aguardando consulta com os médicos da expedição pelo

rio São Francisco. Foto não utilizada no relato publicado em 1915

(BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.20 – Shoulders and nape of a man with generalized Eczema

marginatum (Hebra); examined in Guacuí on April 24, 1912. Photo

not published in the 1915 report.

Ombros e nuca de homem com Eczema marginatum (Hebra) generalizado, examinado em Guacuí em 24.4.1912. Foto não

utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série

atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.21 – Waterfall, Jatobá River. Photo not published in the 1915

report.

Cachoeira do rio Jatobá. Foto não utilizada no relato publicado em

1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie

expedições, maço FOC).

25 de abril – Saindo cedo, chegamos às 10 horas a Extrema de Monteclaro, distante 87 quilômetros de Pirapora. Tem umas casas e o seu aspecto é melhor do que o de Guacuí. Aqui, por exceção, há umas cisternas ou poços, quando geralmente nesta região só se bebe a água do rio. Informaram-nos que aqui não havia nem papos, nem barbeiros; assim mesmo encontramos casos tanto de papo, como de coreotripanose, além de muitos casos de febre intermitente. Observamos e fotografamos também um caso de osteossarcoma do fêmur. Resumimos a viagem às 3 horas da tarde. Ao anoitecer passamos a barra do importante tributário Paracatu, a 134 quilômetros de Pirapora, e paramos para passar a noite entre esta barra e São Romão.

Fig.22 – Extrema de Monteclaro, located 87 km from Pirapora,

Minas Gerais. Photo not published in the 1915 report.

Extrema de Monteclaro, distante 87 km de Pirapora, Minas Gerais.

Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série

atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.23 – Extrema de Monteclaro. Photo taken on April 25,1912. Not

published in the 1915 report.

Extrema de Monteclaro, foto batida em 25.4.1912. Foto não utilizada

no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades

científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.24 – Village of São Romão on April 26, 1912. Photo not

published in the 1915 report.

Povoado de São Romão, em 26.4.1912. Foto não utilizada no relato

publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas,

subsérie expedições, maço FOC).

Fig.25 – Affluence of the Paracatu River. Image originally published

in Plate 5.

Afluência do rio Paracatu. Imagem originalmente publicada em

Estampa 5.

Fig.26 – São Romão. Photo not published in the 1915 report.

São Romão. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC,

DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço

FOC).

26 de abril – Chegamos muito cedo a São Romão, vila de 500 a 600 casas, ao que informaram. Já tem um século de existência, mas ainda se acha em estado bastante primitivo. Bebe-se água do rio, e o lugar parece pouco salubre. Vimos grande número de doentes das moléstias endêmicas: papo, tripanose e impaludismo. Apareceu também um caso de ancilostomíase e um de sífilis terciária, bastante extensa. Depois de tirar algumas fotografias, tocamos para São Francisco, aonde chegamos às 4 horas da tarde, examinando ainda bom número de doentes.

27 de abril – Acompanhados por vários moradores de São Francisco fizemos uma excursão à Lagoa do Feijão. É muito grande, mas dista uma légua da cidade, de modo que não influi sobre a saúde dos moradores. De outro lado, a Cellia argyrotarsis abunda na própria cidade e logo invadiu nosso navio. Tem os seus criadores dentro ou perto da cidade, que é muito sujeita a inundações. A maior enchente dos últimos tempos foi em 1906. A julgar pelos lugares, que nos indicaram como submergidos, o nível do rio, naquela ocasião, deveria ter estado pelo menos 10 metros acima do nível mais baixo. Em anos ordinários a diferença alcança oito metros. A enchente deste ano, que foi bastante grande, já tinha baixado de cerca de um metro. Principiou em fim de fevereiro e continuou em março, inundando grande parte da cidade. A igreja, bastante grande, mas não completamente acabada, está situada no lugar mais alto da margem, numa espécie de promontório de pedra.

À tarde, vimos mais doentes e jantamos depois no edifício da câmara municipal com os honoratiores do lugar, que nos cumularam de muitas atenções durante a nossa estadia.

Dos lugares vizinhos, São Romão é o mais velho, e já foi muito maior. São Francisco, distante de Pirapora uns 229 quilômetros, foi declarado vila em 1872 e a sua população é avaliada em 10 mil habitantes. Januária, cuja população, incluindo os arrabaldes, é calculada em 23 mil pessoas, é mais recente.

A patologia do lugar é igual à de toda esta zona. Atualmente predomina o impaludismo. O Dr. Machado descobriu um caso de framboesia, sendo o diagnóstico confirmado pela presença dos espiroquetas em preparações feitas pelo método de Burri.

28 de abril – Desamarramos cedo, continuando a viagem rio abaixo. Deixa-mos à esquerda as barras do rio Pardo, carregando água barrenta, e do rio Verde, cuja água verde-escura e límpida se destaca ainda algum tempo depois da confluência com as águas amareladas do São Francisco. Saltamos em Pedra de Santa Maria da Cruz, 299 quilômetros abaixo de Pirapora. Tínhamos informação sobre a freqüência dum barbeiro menor (Triatoma sordida) neste lugar. A sua presença, a princípio negada, foi depois admitida e finalmente apareceu, que era quase geral. Todavia foi só com custo que arranjamos uma larva e uma imago, que acabava de se transformar, como o indicava a cor vermelha que, depois de algumas horas, cedeu lugar à coloração natural do inseto adulto. No lugar havia muitos casos de coreotripanose e as casas, mal construídas, eram mais apropriadas para moradia de barbeiros que para residência dos homens.

Continuar: parte 2 de 4