Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens

Capítulo 1928

 

Notas da viagem para Natal e parte do

Estado do Rio Grande do Norte

 

7.7.28. Partida do Campo dos Afonsos, às 3h:40, com luar e ligeira cerração. Acompanhamos o litoral de Espírito Santo com visibilidade imperfeita. Passamos a entrada da baía de Vitória e chegamos ao campo de aviação às 7 horas. Depois de 20 minutos, continuamos a viagem para Caravelas. Depois de outra parada, continuamos a viagem para a Bahia passando sobre a ilha de Itaparica, avistando o recôncavo, e chegamos ao campo de aviação sem passar sobre a cidade. Depois de breve parada continuamos a viagem seguindo sempre a costa. Paramos em Maceió, no campo que é muito distante da cidade. Depois de esperar muito tempo com tempo ligeiramente chuvoso, levaram-nos para a cidade onde pernoitamos no Hotel Pimenta.

8.7.28. Às 4h:45 seguimos. Na costa de Pernambuco viu-se bem o recife costeiro que acaba no porto de Recife. Passamos sobre esta cidade para alcançar o campo de aviação, muito distante. Depois de breve parada, continuamos a viagem, passando sobre a cidade e o forte de Cabedelo e chegamos a Natal fazendo algumas evoluções sobre a cidade. Paramos definidamente no Campo de Parnamirim, distante 20 quilômetros da cidade. Fomos recebidos depois de bastante demora, porque o avião não era esperado tão cedo. Depois de um bonito passeio de automóvel, fomos instalados em Natal na vila Cincinnato, onde achei oportunidade de ter um laboratório. No campo fomos recebidos pelo presidente e várias outras pessoas de destaque, mas a nossa chegada matutina impediu as comissões de chegarem em tempo.

No mesmo dia da chegada visitei com o Dr. Varella a Leprosaria e a usina. Nesta encontramos larvas como também na lavanderia pública que está perto (veja mosquitos). Mais tarde, fomos à ponte do Rio Baldo onde, favorecidos pelo tempo chuvoso, encontramos muito material de batráquios (veja nota sobre estes).

9.7.28 De manhã visitamos a Lagoa Seca num subúrbio de Natal, da qual nasce o Rio Baldo. Havia uma Physa, Planorbis anatinus e dubius ou stramineus, um Ancylus muito grande, um Sphaerium pequeno e branco e ampulárias pequenas. Também existe um Homalonyx. Notamos a Paludicola falcipes com as suas larvas; algumas sanguessugas (? e planárias) e um filópode (Limnadia?) que se mantém perto do fundo. É a Cyclestheria hislopi ou sarsii

(Daday). 1

De tarde fomos à lagoa de Parnamirim com água clara e largas praias de areia branca. Não há vegetação aquática, mas existe a Paludicola falcipes. Nas bromélias havia pouca larva de mosquitos, mas uma larva verde de tabanídeo. Na volta colheulse numa lagoa um L. pentadactylus e uma Hyla, parecida com bivittata. Colhemos também plantas (Veja a lista)

11.7.28 Excursão à lagoa de Bonfim e Papary. A primeira, arenosa e descortinada, não nos forneceu nada. A segunda, muito grande, com mangue às margens, mostra muita Eichhornia crassipes. Comunica com o mar e contém peixes dos quais se obtiveram umas amostras. Não se viu caça, apenas piaçocas. Uma ainda nova, quando examinada, mostrou o Leucochloridium do Homalonyx. Passeamos em canoa.

Em lagoas pelo caminho encontrou-se L. pentadactylus e duas Hyla albomarginata legítimas. No barranco colheu-se um L. troglodytes e, debaixo de galhos cortados, alguns melanonotus que lá estavam reunidos. Obteve-se um casal em cópula que deitou ovos durante a noite.

12.7.28 Trabalhou-se no laboratório. Na carne de uma Hyla crepitans, encontramos distômulos livres com glândulas pedunculadas que demos a um pombinho. À noite, Joaquim apanhou 4 pentadactylus, 2 crepitans, 2 Hyla verdes parecidas com guentheri e 3 parecidas com bivittata.

13.7.28 Num L. pentadactylus encontrei apenas uma Gorgoderina permagna e numa fêmea de Bufo marinus não achei trematódeos, mas uma Hyla crepitans tinha Plagiorchis no intestino e distomulos nos músculos. Fomos ver o avião Potyguar do Condor.

As Cyclestheria ainda existem em número regular e se têm propagado. À tarde, J[oaquim] apanhou um L. melanonotus, uma porção de Hyla crepitans e algumas verdes em metamorfose, alguns Ancylus, 1 Physa e duas espécies de Spirulina.

14.7.28 Observou-se uma cercária de cauda bifurcada que saiu do Pl. anatinus ou do stramineus (?dubius). Os galhos da cauda eram compridos, viu-se a faringe, o intestino com galhos compridos e o acetábulo na [?]. Numa larva de Hydrophilus achei um cisto de Plagiorchis e outro cisto redondo com distomulo incluído no corpo de um girino.

À tarde visitamos a lagoa do Jacob, onde havia Ancylus, Physa e Planorbis melleus. Uma grande ampulária era infectada com cercárias que não infectavam larvas de mosquitos, odonatas ou girinos.

15.7.28 De manhã laboratório, depois almoço oferecido pelos colegas. De tarde, excursão para sítios. Apanharam-se três Hyla mutabilis cujo desenho dorsal de estrias longitudinais pode desaparecer completamente.

16.7.28 De manhã, laboratório. De tarde, excursão para o campo de demonstração. Apanharam-se em bromélias duas larvas verdes de mutucas e outras larvas. Duas ampulárias não mostravam

infecção. 2

17.7.28 Um girino confrontado com algumas dicranocercárias pouco ativas de P-. anatinus mostrou depois uma metacercária nova e pequena e outra maior. A primeira morreu logo, a outra sobreviveu até ao dia depois. Uma C-epsina usada na mesma experiência não se infectou.

Nossos desenhos dos estados posteriores de D. gyrinipeta também mostravam as glândulas, reveladas pelo Neutra-rot. Foram feitas muitos anos antes. O Joaquim colheu material de Ancy-us, Physa e duas pequenas espécies de P-anorbis. Não se acharam cercárias.

A fêmea de uma Hyla sem caracteres especiais que estava em cópula pôs ovos brancos e pretos. Em contrário ao macho, a fêmea tinha um desenho branco lembrando guanina, como Guenther figurou na Bio-ogia Centra-i-americana. Chamamos a espécie pseudo-eucophy–ata. O macho, que morreu logo depois, se parece com a Hyla associada a bipunctata. Não tem dentes, nem tímpano, mas as extremidades palmadas, as anteriores um pouco menos, saco vocal pouco saliente. Testículos pretos. A cor é café-com-leite, podendo tornar-se muito clara. Tem indicação de estrias longitudinais submedianas mais escuras e uma faixa lateromarginal. A fêmea maior tem manchas salientes brancas ou amareladas sobre fundo sépia. Também não mostra tímpano. É a Hyla ebraccata Cope

da América Central.3

A metacercária de Hyla crepitans parece ter oito glândulas pedunculadas subcúbicas, mas somente quatro aparecem atrás dos cegos, um tanto abreviados. A faringe pequena marca a bifurcação do intestino. Na ventosa oral bastante longa há de cada lado pelo menos uma glândula utricular.

À tarde do mesmo dia, Joaquim esteve perto da escola de marinheiros, onde apanhou três exemplares de uma Pa-udico-a sem manchas inguinais, tímpano e dentes vomerianos. A voz parece ser: hau, hau.

No mesmo lugar havia larvas e casulos que deram a Uranotaenia geometrica.

18.7.28 Achei numa Hyla crepitans, morta espontaneamente, sobre a parede intestinal, alguns cistos caseosos contendo nematódeos aparentemente larvais. Havia também três P-agiorchis.

Examinado o pombinho que tinha comido carne de batráquios com distômulos livres, não se encontrou nada no fígado e na traquéia, mas na serosa em redor do fígado e da traquéia apareceram formas opacas pré-císticas de Tetracoty-e com a estrutura apagada por grânulos, mal deixando perceber, numa extremidade, o contorno de uma ventosa. Não mostravam movimentos, talvez devido à ação do clorofórmio. Foram isoladas duas, outras apareceram esmagadas, sendo a consistência mole. Depois encontraram-se mais exemplares, principalmente no tecido subcutâneo aderente à pele. Havia também uma forma nova e bem viva, mostrando ainda as glândulas posteriores, sem dúvida resultante de material infeccioso dado nos dias subseqüentes à primeira experiência. Consistia em parte em girinos que se mostraram infectados. De tarde, fomos à lagoa do Jacob, mas apareceu apenas 1 Anopheles e 2 ou 3 Taeniorhynchus. Havia bastante vento.

19.7.28 Além de Macaíba, visitamos várias lagoas: Capim Açu, L. d. Cavalos, da Mariquinha, de Maricaca e de Cajazeiro. Apanharam-se umas espirulinas, larvas de mosquitos, principalmente anofelinos, e atirou-se numa martinica, num anu branco e em duas marrecas novas, das quais apenas uma marrequinha estava infectada (com Ech. mendax). Obtivemos informação sobre um cavalo atacado por uma raposa, que morreu de pseudo-raiva depois de mais de duas semanas. Consta que nas mesmas circunstâncias a gente não adoece.

O mais interessante foi apanhar-se, numa poça de água barrenta ao lado da estrada, um grande filópode com uma forquilha vermelha, o corpo transparente e grande número de pernas branquíferas,

provavelmente uma espécie de 4 Branchipus. Planorbis cultratus foram encontrados na lagoa de Cajazeira. O ?dubius na lagoa de Capim Açu. Ampulárias ou ovos delas observam-se em toda parte. Geralmente eram pequenas, e as infecções com Xiphidocercaria, bastante raras.

Planorbis da lagoa de Cajazeira (?dubius) têm cerca de 6 mm de diâmetro maior, cinco e meio giros no mesmo plano, com abertura terminal não defletida, casca amarela de tartaruga ou chifre deixando perceber o pálio com muitas manchas pretas ovais e bastante grandes. O animal pigmentado é pardo e não preto, as antenas de fundo pardacento mostram uns desenhos longitudinais mais escuros. Não há sangue vermelho, nem estrias concêntricas na casca. Em posição sinistra, a margem superior é mais comprida do que a inferior. Bem se distingue de Pl. centimetralis e nigrilabris. O último giro mostra estrias de crescimento múltiplas e aconchegadas.

Nesta excursão foram secadas muitas plantas características.

20.7.28 Não fizemos excursão, mas examinaram-se as plantas e animais colecionados. Recebemos do Dr. Waldemar Antunes uma fêmea adulta e viva do Bufo paracnemis. Preparou-se a correspondência aérea.

21.7.28 Num urubu examinado encontraram-se apenas três Pseudolfersia vulturis e um grande malófago escuro. À tardezinha recebemos correspondência aérea.

À tarde, o Joaquim, que já tinha pegado um L. troglodytes, ouviu outros cantar, que estavam embaixo de um monte de tijolos.

22.7.28 De manhã, laboratório. Às três horas, partimos em automóvel em direção ao Ceará-Mirim, passando a vargem do Potengi. Na lagoa do Horto, perto de São Gonçalo, encontrou-se

uma sanguessuga5 infectada, faltando Physa e Planorbis maiores. Existia o cultratus e havia ampulárias. Colheu-se também uma larva de Hyla verde. Compraram-se os intestinos de uma martinica e duas marrecas, que continham Ech. mendax.

23.7.28 Excursão para a lagoa de Extremoz. Os Planorbis guadalupensis eram muito raros, e as ampulárias, pequenas. Em bromélias havia larvas e dois escorpiões. Atirou-se numa Ceryle amazonica e em outra espécie menor, que ambos tinham apenas um Clinostomum na boca. O menor também tinha uns vinte holostomídeos. À noite Bertha pegou em casa uma pequena Hyla, parecia com rubra, mas podendo mostrar faixas laterais atravessando os olhos e, de cada lado, uma submediana. A cor era bege.

24.7.28 Excursão para Bananeiras. No caminho examinei muitas lagoas, açudes e poças. No açude da Fazenda do Bosque havia um Pl. bastante abundante que parecia nigrilabris e [que] forneceu uma pequena Echinocercaria. A mesma foi encontrada em Guarabira, e o guadalupensis, num riozinho brejoso. Este continha uma D. cercaria com olhos, crista e ramos caudais curtos.

Encontrou-se um centimetralis (?) morto que continha muitos equinocistos mortos, talvez de Ech. mendax.

Apanhou-se grande número de Leptodactylus pentadactylos, mas faltava o ? gigas SPIX encontrado por mim numa lagoa que já não existia. O tipo é o mesmo de Natal para Guarabira, com o vermelho mais cor de salmão que carmim, pigmentação da barriga e garganta variável. Dorso do tronco e das extremidades bastante variegado. Encontrou-se também a Phyllomedusa hypochondrialis e uma Paludicola que faz: Hau, hau. Dormimos em Guarabira.

25.7.28 Com o médico do posto de profilaxia de Guarabira, que se formou anos depois de ter trabalhado como farmacêutico, fizemos uma excursão a Bananeiras passando por Borborema. De boubas só vimos dois ou três casos no posto de profilaxia, e estes crônicos com ceratose dos pés. Havia também uma úlcera do pé que talvez pertencesse à categoria das tropicais. Havia um menino que parecia um caso de tracoma muito benigno. No posto falta tudo, e quem quisesse fazer estudos sobre boubas teria de dedicar tempo de semanas ou meses. A moléstia parece relicto, tendo sempre grassado nesta zona. Não obtive informações sobre transmissores. Quanto à moléstia dos cafeeiros, dizem que a cultura está completamente aniquilada. Na volta almoçamos em Guarabira. Passamos na Fazenda do Bosque onde há uma mata com árvores altas: pau-ferro, pau-brasil, sucupira, pau-d'alho, jatobá. Levamos quatorze filostomídeos que não tinham trematódeos.

Passamos a noite em Canguarema. Colheu-se L. pentadactylus, Bufo granulosus, uma Hyla lembrando a rubra. Havia também Phyllomedusa.

26.7.28 Na casa do Sr. Lima, obtivemos um Pentadactylus e um pedaço de cobra.

Voltamos em casa sem novidade. Já perto da cidade apanhou-se a primeira mutuca, um Tabanus caiennensis. Em mais de 500 quilômetros percorridos vimos apenas uma raposa, três cobras, um bando de maitacas, gaviões, urubus, duas perdizes, uma codorna, uma alma-de-gato, duas espécies de anus, uma casaca-de-couro e marrecas em lagoas maiores. Colecionamos muitas plantas, sendo as mais bonitas um hibisco vermelho. Havia uma bignoniácea, amarantáceas, rubiáceas, convolvuláceas, papilionáceas, outras malváceas. Vimos pelo menos cinco cássias e a rosa-da-turquia formando árvore. De compósitas havia uma ? Vernonia alta cheirando de mel e uma amarela herbácea. Vimos também P-umbago, scandens, Urtiga, He-iotropium peruvianum e Asc-epias curassavica. Parece-se com um Leptodacty-us, mas tem os dedos curtos.

27-28.7.28 Numa ampulária da Fazenda do Bosque, em cujo açude se observam gaviões e carão, encontrou-se uma infecção com cercária de cauda subuliforme podendo ter 2½ vezes o comprimento da cauda que é bastante opaca e não deixa reconhecer o acetábulo, nem ferrão. O corpo é ovóide, podendo tornar-se discóide ou esférico. São localizadas apenas no fígado, sendo a maior parte livres; parece haver esporocistos muito simples. O P-anorbis ?nigri-abris contém uma pequena Xiphidiocercaria com tendência a se encurvar e encurtar, e que não parece infectar girinos. Não mostra colar de espinhos, mas com Neutra-rot apresenta os caracteres de uma Echinocercaria (?de Prianosoma). Vê-se um acetábulo grande o bastante para trazer grânulos nos tubos excretórios. Nas ampulárias foi observada mais uma Xiphidiocercaria muito pequena nascendo em esporocistos ovóides. Tem glândulas pedunculadas na altura do acetábulo.

O ?g-ada-upensis de Guarabira contém uma Dicranocercaria cristada com 2 ocelos pretos muito para trás, ventosa oral longa, acetábulo indistinto, bifurcação caudal curta e tendência a encurvar-se. Parece nascer em esporocistos muito longos e enovelados. A bifurcação não é separada, mas existe uma ponta papiliforme destacada no ápice dos galhos. Esta cercária, que me é muito conhecida, deve infectar girinos. Não se encista; pode ser encontrada livre depois de alguns dias, sendo reconhecida pelos ocelos.

Há mais uma rédia com faringe larga e intestino comprido, geralmente esbranquiçada, excepcionalmente ferruginosa, na qual parecem desenvolver-se grandes (?Echino-) cercaria com cauda curta. O material era muito escasso. Depois de examinarmos sem resultado umas trinta ampulárias, encontramos outra infecção com esporocistos ovais. As cercárias quando maduras têm um xiphidio muito fino com ponta de lança e espessamento posterior. O acetábulo indistinto parece posterior às glândulas cefálicas das quais há duas (ou dois grupos) tandem de cada lado. A vesícula é bilobada. Lembra a X. p-anorbina, mas não se conseguiu reconhecer o hospedador intermediário, usando peixinhos, larvas de Agrionida e girinos. Os animais de experiência parecem morrer intoxicados quando ficam com muito fígado de ampulária. O Neutra-rot é de pouca vantagem para o estudo destes animais.

Os girinos e peixinhos confrontados com a cercária ocelífera resistiram, mas um, examinado depois de seis dias, mostrou um cisto recente de holostomídeo na sua carne. A larva é alongada com uma parte anterior em ovóide curta e bem destacada. Vê-se um acetábulo no meio do corpo e uma formação esférica na extremidade do segmento mais comprido. O cisto muito fino e muito mais largo que a larva rompeu-se com a pressão da lamínula,

deixando sair a larva bastante móvel. Está cheia de concreções6 que formam um cordão mediano anastomasado com duas massas laterais mais largas. Com Neutralrot aparecem dois canais vermelhos muito finos saindo do segmento anterior e passando ao lado da ventosa mediana, que parece corresponder ao órgão adesivo.

Foram encontrados mais quatro exemplares que se deformaram devido à consistência mole. Há muitos grânulos pequenos, redondos e refringentes, localizados principalmente na parte anterior esférica. A larva ainda se alongou mais. Outros peixinhos do mesmo rio não tinham apresentado infecção semelhante.

Nos pequenos Planorbis do tipo de nigrilabris, nunca se observou a pigmentação preta no lábio que parece inconstante, dependendo do meio em que viveram.

Nas Spirulina do Rio Baldo havia também uma Xiphidiocercaria, e numa larva de Hydrophilida, uns quistos.

28.7.28 Na manhã deste dia fiz um pequeno relatório para o presidente.

29.7.28 De manhã, laboratório. À noite, o Joaquim procurou material entre a Escola dos Marinheiros e o Potengi. O Troglodytes canta também dos buracos de guaiamu.

30.7.28 De manhã, laboratório e trabalhos por escrito. De tarde estive com o Dr. Waldemar na Profilaxia Rural e depois na casa dele. Finalmente fomos à Lagoa Manoel Felipe, onde obtivemos ampulárias com alta porcentagem de infecção por Xiphidiocercaria. O Joaquim à noite procurou mais material, achando também algumas Hyla.

À noite houve uma festa no teatro.

31.7.28 Trabalhei no laboratório e mandei para o Rio as provas do meu trabalho de Ven[ezuela], chegadas do Rio por correio aéreo. Fizemos uma excursão em lancha para o Forte dos Magos, que está num recife, onde não se achou nada de importante. Vimos também o aeroplano italiano que diziam atolado, mas que logo depois voou por muito tempo.

À noite o Joaquim foi para o brejo além da Escola de Marinheiros, mas não achou material.

As ampulárias da lagoa Manoel Felipe mostravam infecções por duas espécies de Xiphidiocercaria. A maior, com cauda comprida que se pode alongar, nasce em pequenos esporocistos ovais. Tem de cada lado duas glândulas pedunculadas (tandem), o acetábulo muito pequeno e colocado muito para trás é bem percebido em perfil, sendo geralmente extruso. Vesícula em forma de V.

A menor desenvolve-se em esporocistos longos e parece mais transparente. Parece ter apenas uma glândula ou grupo glandular de cada lado. O acetábulo é percebido com dificuldade, muitas vezes também o xiphidio. É muito menor. Também não se descobriu a infecção.

1.8.28 Uma lavadeira que o Joaquim trouxe da lagoa Manoel Felipe morreu depois de ter comido de ampulária infectada. No intestino encontrou-se um pequeno dístomo em maior número. Parece tratar-se de um Phaneropso-us.

Examinamos o patinho que durante 12 dias tinha recebido carne e girinos de Hyla crepitans. Desta vez encontramos as Tetracoty-e maduras típicas principalmente no pescoço e aderentes à pele. Estavam por dentro de cistos serosos bastante grandes, formados pelo hospedador e bem visíveis a olho nu, lembrando pequenos cisticercos.

À noite recebemos uma rã apanhada passeando diante da casa do presidente depois de uma pancada de chuva. Parece-se bastante com o L. trog-odytes, mas creio que se trata de P-eurodema sem manchas inguinais. Os dedos são curtos e em parte, os dos pés, ligeiramente carenados. O disco é perfeito, o abdome granuloso mas com a pele transparente, mostrando a cor de carne na parte posterior. O tamanho lembra o trog-odytes tendo também o habitus de um sapo e manchas dorsais escuras sobre fundo claro. Há dentes vomerianos e um tímpano pequeno e pouco visível.

2.8.28 Num peixe confrontado com a Dicranocercaria oce–ata foram encontrados cinco holostomídeos larvais recém-encistados. Procura-se infectar um gatinho com as metacercárias da carne de Hyla crepitans da lagoa de Manoel Felipe, onde a infecção também é comum. É preciso dar os pseudodístomos isolados porque rejeita a carne de Hyla.

Quanto às metacercárias de peixinho, é possível tratar-se do Ho-ostomum herodianum.

De tarde do mesmo dia fez-se uma excursão em automóvel a Ceará-Mirim, colhendo-se muitas plantas pelo caminho. Paramos na própria cidade com o coronel Santos, que nos acompanhou. No rio perto da cidade só foram achados ampulárias e L. pentadacty-us e oce–atis. O Joaquim descobriu numa casa de engenho um ninho de coruja com 3 filhotes em penugem, porém já grandes.

3.8.28 Fizemos uma excursão pelos campos e plantações, gozando um panorama bonito da fazenda do coronel onde havia algodão, cana e muitas fruteiras, entre estas um caquizeiro bem grande. Havia também uma Erythrina com flores alaranjadas não cleistogâmicas. Numa excursão a uma fazenda onde havia uma plantação de abacaxis, com 700 mil pés, encontramos no caminho uma pequena lagoa com muitas plantas aquáticas e uma ? Hydrophyllacea de bonitas flores azuis. Ampulárias e cascas quebradas há em toda parte. Na cidade vimos a igreja e o mercado, ambos sem maior interesse. Deram-nos uma Fe-ix mitis novinha.

Na volta, numa pequena lagoa, Joaquim atirou num Butorides que tinha no bico dois C-inostomun de espécie grande, uns dístomos na bile e no intestino além de uma Taenia., Leptopha–ida ou Hetreophyida pequenas e o Ho-ostomum herodianum. Foi vista apenas uma Tetrocoty-e? na carne.

4.8.28 Numa ampulária do Rio de Ceará-Mirim encontramos uma cercária em rédias maiores e menores que contêm geralmente algumas cercárias, das quais uma parte se encistou na rédia, mostrando às vezes os espinhos no colar que faltam ainda nas rédias novas. A cercária, que deve pertencer ao Prianosoma dentatum, tem um remo formado por crista dorsal e ventral bastante larga que acompanha toda a cauda. Com Neutralrot percebem-se uns riscos transversais no esôfago contraído. O intestino bifurcado atinge a margem posterior da vesícula excretória, da qual nascem dois canais tortuosos que se extendem até a cabeça, parecendo anastomosar abaixo da faringe. A sua parte anterior contém grânulos iguais e resplendentes, formando um rosário simples. Os grânulos são pequenos, mas bem distintos. A ventosa anterior e a faringe não são muito musculosas, principalmente a faringe, que forma um ovóide alongado. A faringe da rédia é pequena, o intestino parece comprido. Processos ambulacrais presentes, mas colar e orifício de parte duvidosos. Os cistos arrebentados deixam contar até 40 e mais espinhos. As corujas, tendo comido aruás no dia 3

que procediam de Ceará-Mirim, dever estar infectadas. 7 Em toda esta região os carões são muito conhecidos, mas não conseguimos obter um exemplar desta ave muito arisca que parece comer de manhã muito cedo e ao escurecer.

5.8.28 Uma preparação clareada com glicerina permitiu verificar que a infecção da ampulária de ontem não era outra coisa que uma por E. parcespinosum. Continua-se a infecção de um gatinho com a injeção da Hyla boans. Uma ampulária do mesmo lugar mostra um grupo de cistos sem rédias.

Alguns peixinhos do Rio Baldo não mostraram a infecção observada no peixinho em experiência. Não se conseguiu esclarecer o encistamento das Xiphidiocercaria de Ampullaria. Nota-se, contudo, que se podem conservar vivas muito tempo e mesmo de um dia para outro.

6.8.28 Trabalhou-se no laboratório. De tarde fomos a Areia Preta, onde se encontraram nas pedras apenas uns caramujinhos muito pequenos e um maior. De noite o Joaquim com um ajudante fez uma caçada no mesmo lugar, apanhando L. troglodytes grandes e pequenos, Paludicola falcipes, Eupemphix e Hyla verdes.

7.8.28 Com o Dr. Waldemar Antunes fomos a uma lagoa além de Macaíba (?Pararacá ou Itapará) onde havia grande número de cascas perfeitas de uma ampulária grande. Também se apanharam exemplares vivos, dos quais as primeiras se mostravam infectadas. Em redor da lagoa havia uma zona com pequenas plantas, Genlisea, Schultzia, ?Xyris, várias melastomáceas, uma papilionácea com flores pequenas, Cassia tetraphylla e uma Oxalis, todas amarelas. Havia também uma escrofulariácea lilás ou rosada. Havia um arbusto com cachos de frutas (?-olygonacea) e neste e em outra a Cassythia era um parasito freqüente. Na volta encontrou-se também uma orquídea terrestre e umas Hyla pequenas numa bromeliácea. Atirou-se num gavião do tamanho de um pombo com as asas avermelhadas, que continha alguns holostomídeos.

No sábado da mesma semana voltei por avião, pernoitando em Pernambuco e Vitória.

Página do diário de Adolpho Lutz quando esteve em Natal, em 1928, manuscrito à caneta ou a lápis, com desenhos (BR. MN.

Fundo Adolpho Lutz, caixa 15, pasta 101).

Páginas do diário de viagem a Natal, já datilografadas, mas ainda

com correções e desenhos feitos à mão por Adolpho Lutz (BR. MN.

Fundo Adolpho Lutz, caixa 15, pasta 101).

Relação de anfíbios coletados por Adolpho e Bertha Lutz e o auxiliar Joaquim Venâncio Fernandes quando estiveram em Natal, em 1928

(BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 15, pasta 101).

 

1 No original, esta última frase foi acrescentada a caneta, e a expressão “Limnadia?,” um pouco antes, riscada a lápis. [N.E.]

2 A lápis, foi manuscrito em seguida: (Hyptis). [N.E.]

3 No original, esta última frase foi acrescentada a caneta. [N.E.]

4 Acrescentado com caneta: Chirocephalus ornatus n. sp. [N.E.]

5 No original consta “sanguesauge,” provável erro de datilografia. [N.E.]

6 No original consta “concrementos”. [N.E.]

7 Frase acrescentada a lápis, assim como desenhos. [N.E.]