Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens

Adolpho Lutz · Capítulo 18 de 24 · parte 1/5

Páginas do PDF

Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens

Viagem científica no Rio Paraná e a Assunción, com volta por Buenos Aires, Montevidéu e Rio Grande

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Viagem científica no Rio Paraná e a

Assunción, com volta por Buenos

Aires, Montevidéu e Rio Grande*

 

Breve relação de viagem, extraída dos diários

dos Drs. Lutz e Araújo

(Os números intercalados referem-se às fotografias)

13-15. I. A comissão se reúne em São Paulo e prepara a viagem.

16. Embarque para Bauru às 7h5. Chegada às 17h. Noite no Hotel Cariani. Visitamos o prefeito, Dr. Figueira de Mello, e o Dr. Machado, chefe da Noroeste.

17 1,2 . Com o Dr. Goyanna vimos o Hospital. À tarde os doutores Lutz e Araújo visitaram a importante fazenda Val de Palmas, com um milhão de pés de café e alguma cana. Em caminho colecionaram várias plantas (Cochlospermun insigne, Reyhera e Dipladenia).

18. Viagem a Araçatuba, e 19 a Três Lagoas, com demora em Itapura e Jupiá. A Noroeste notamos importantes plantações de café datando dos últimos anos. Em Itapura vimos a cachoeira, que

estava bastante cheia. 3, 4 Havia uma Mourera e uma outra Podostemonacea, mas encontramos apenas um casulo novo de borrachudo nestas. Achamos um Chrysops costatus e várias plantas, entre estas uma Portulacca e um Talinum, diferente do patens, que foram secadas. Em Jupiá, que é o porto paulista no rio Paraná, colhemos Helicteres ovata. Passou-se a noite no Hotel dos Viajantes em Três Lagoas, primeira estação do lado de Mato Grosso. A vila, em terreno plano, é nova e parece destinada a aumentar rapidamente. Do lado de Mato Grosso, que pertence a um setor novo, a hora oficial é atrasada de 60 minutos.

Na manhã de 20, parte da Comissão visitou a lagoa; apanharam muita chuva e não encontraram nada de interessante. Os dias anteriores já eram chuvosos e o dia 20 era francamente de chuva. A E. de F. Itapura-Corumbá, que já nos tinha dado passagem especial de Jupiá, no dia depois nos levou outra vez para o rio. Já a viagem de Itapura para Jupiá foi feita em trenzinho fornecido pela mesma companhia.

21. Embarcamos no barranco do rio, tomando o vapor Paraná. [6] Este vinha de Jupiá, aonde não voltamos por ser um lugar sem recurso. A passagem do trem faz-se numa espécie de ajoujo que

pode carregar 4 vagões,5 sendo rebocado por um pequeno vapor

fluvial.6 De Jupiá desce-se obliquamente pelo rio. Mais abaixo do barranco, o rio oferece facilidades para a colocação da ponte, que já chegou em grande parte. Logo depois observamos o célebre rebojo do Jupiá. O rio tem geralmente perto de um quilômetro de largura e há uma zona contínua de mato dos dois lados. A cor da água é pardo-escuro, em parte por causa da chuva abundante dos últimos dias. Há muitas pedras agrupadas, ilhas maiores e alguns bancos de areia. Passamos em primeiro lugar a llha Comprida, deixando depois à esquerda a foz do Rio Aguapeí e à direita a llha das Ariranhas; atravessamos o labirinto, avistando logo depois a barra do rio Verde; finalmente paramos na llha Verde, para tomar lenha pela segunda vez (a primeira foi logo no princípio da viagem). Encontramos uma guabirobeira com frutas e pegamos alguns insetos. Na ilha das Capivaras encontramos muitos desses animais, e na Ilha da Jacutinga um bando de garças brancas, regulando entre cem e duzentas, quase todas da espécie maior. Na viagem vimos muitas das garças grandes com asas cinzentas em exemplares isolados, um bando de trinta-réis e alguns Latus dominicanus. Depois da llha das Capivaras encontramos muita chuva, e já era noite fechada quando chegamos a Tibiriçá, em frente à barra do rio Pardo.

22. Passamos a noite no hotel. De manhã apanharam-se numerosos Culicoides com escudo estriado de claro. Examinaram-se vários doentes, entre estes um de mal de engasgo, que era cozinheiro a bordo do “Paraná”. Esse vapor pertence à Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso, que no porto Tibiriçá faz o transporte das boiadas de uma margem do Paraná para a outra. Faz também a navegação do rio Pardo e de outro rio do Mato Grosso, mais ao Sul. A mesma companhia é dona do terreno, das casas (cerca de vinte), de oficinas, de uma farmácia, do hotel e de extensos pastos, onde o gado pode descansar da viagem. A venda de bebidas alcoólicas é estritamente proibida, assim como a caça no porto. Foi o Sr. Ovídio Braga que nos recebeu muito bem.

À tarde fizemos um passeio a cavalo, visitando duas matas e um pasto ao lado do rio. Apareceram poucas mutucas de dia, sendo a mais comum L. leucaspis. Havia também Neotabanus ochrophilus e outra espécie com duas listras verdes nos olhos e duas estrias, compostas, ferruginosas nos dois lados do abdome. À noite pegou-se E. xanthopogon, T. aurora e Chl. Mexicanus L.

Durante o dia fomos muitas vezes picados por um pequeno Culicoides. O C. scapularis, comum em toda parte, incomoda mais que os outros. Havia também Ianthinosoma musica, Mansonia titillans e uma Cellia que não era abundante. Falta a Stegomyia (que era comum em Bauru e Três Lagoas) e o C. quinquefasciatus.

23. O dia amanheceu bonito como aquele de ontem (que todavia mais tarde se tornou chuvoso). Às dez horas embarcamos no vapor “Rio Brilhante” para atravessar o Paraná e subir o Rio Pardo, a fim de fazer uma caçada de anta. No rio Pardo vimos muitos pássaros como jabirus, garças, marrecas, biguás, socozinhos, martins-pescadores e tucanos. Saltamos na margem direita, onde colhemos várias plantas interessantes e alguns insetos. Os cães, depois de muita demora, trouxeram uma anta que foi morta perto do vapor. [8, 9] Pegou-se também um pacu grande, três dourados, dos quais um bem grande, um piau e alguns peixes menores que serviram de isca.

O exame parasitológico da anta, que era fêmea nova, deu muitos carrapatos e um Oesophagostomun, também muito abundante, não se encontrando outro verme. Conservamos os ciliados do ceco. No dourado e no piau encontrou-se o D. obesum, e numa garça branca uma Taenia e nematódios. Observou-se que a L. lepidota procurava a anta morta, de preferência às pessoas que estavam em redor. Havia alguns E. clari, var. nigricans, e um S. tibiale. À noite recebemos ainda um M. sorbillans. De mosquitos observamos aqui grande abundância de C. scapularis, e à noite muitas Mansonia titillans, raras Ps. Ciliata, no mato, e, no rio, Ianth. musica e um exemplar de Aribalzagae. De Anophelinas havia apenas um exemplar de Cellia albipes.

Existe no hotel um exemplar novo, de sexo fêmeo, da Lutra paranensis ou ariranha, que está completamente manso e muito interessante para observar-se, tanto em terra como na água. [7]

24. De manhã observamos doentes, examinamos preparações de impaludismo e preparamos insetos. Depois visitamos em barca um banco e um canal abaixo do porto. Não encontramos larvas de mosquitos, por ser a água quente demais. O sol estava a prumo e o calor intensíssimo. De plantas havia a Scoparia flava, uma ou duas borragináceas e uma Mollinia. No mato encontramos a Aristolochia crenata. Voltamos por causa do calor. Apanhamos alguns himenópteros, lepidópteros e poucas mutucas.

De manhã vimos um bando de araras canindé, parado numa palmeira, perto de uma das casas da povoação.

À tarde percorremos o pasto, onde havia águas estagnadas por causa da enchente. Não encontramos larvas de anofelinas, porque o calor já devia ter esterilizado estas águas rasas, expostas ao sol. Apenas foram apanhadas duas ou três imagos de Cellia. Faltavam Mansonia, mas havia uma quantidade colossal de C. scapularis Rond. Ao escurecer apareceram muitos E. xanthopogon e alguns S. tibiale.

A primeira parte do dia foi de sol e muito quente, depois o tempo tornou-se um tanto chuvoso e o calor abrandou um pouco.

25. A manhã era fresca e o céu nublado. Dentro da casa apareceram algumas Mansonia que não tinham sugado. À tarde, quando se quis sair, veio uma forte pancada de chuva que durou bastante tempo.

26. De manhã fez-se, do lado de Mato Grosso, acima da foz do rio Pardo, uma caçada, matando-se um macho de cervo ainda muito novo, mas já grande, cuja carne experimentamos, achando-a muito boa. Vimos também um casal de cervos adultos pastando e achamos um crânio com galhos grandes. Apanhamos poucas mutucas e mosquitos e colhemos algumas plantas. Nas lagoas só parece haver uma Ampullaria. Foi preciso regressar, porque tinha chegado a lancha da Companhia Mate-Laranjeira com ordem de levar-nos rio abaixo. Embarcamos às 15 horas na chata “Sirena,” rebocada pela lancha “Brilhante,” em companhia do comandante, Sr. Ricardo Mendes, e paramos às 22 horas, percorrendo um trecho de 80 quilômetros. Na viagem viu-se, além de biguás e garças, alguns patos e quatro colhereiras num banco de areia. As margens ofereciam sempre uma borda de mato, cheio de embaúbas e sem habitação qualquer; a bordo apareceram algumas L. lepidota e um O. aurora. O tempo era bom, mas muito quente nas horas de sol. O pôr do sol foi muito brilhante e à noite houve lua cheia.

27. Levantamos ferro de manhã cedo. Nos mosquiteiros encontramos, do lado de fora, vários borrachudos, M. pseudotitillans e alguns I. arribalzagae, por dentro alguns C. lectularius.

O tempo amanheceu muito bonito, com uma temperatura de 25°; às 9h já havia 30° debaixo da tolda. Depois a temperatura chegou a 33° às 11h, quando veio forte chuva com muito vento e trovoada, abaixando a temperatura. À tarde chegamos à ilha que está em frente da barra do Paranapanema. Usando apenas a lancha, fizemos uma excursão em direção desta barra, que não foi alcançada. Depois continuamos a viagem durante a noite de lua cheia.

28. De manhã passamos pelo lado direito da grande llha das Sete Quedas e vimos a barra do rio Iguatemi. Continuamos a viagem com bom tempo, e antes das 11 horas avistamos a fumaça dos saltos. Um pouco depois das 11 aportamos em Porto Mojoli, [31-39] onde fomos muito bem recebidos. No mesmo dia fizemos uma operação em doente que sofria de oclusão intestinal havia nove dias. À noite veio uma forte pancada de chuva.

Em Porto Mojoli fomos recebidos pelo administrador, Sr. Thomas Jara, o médico Dr. Varella e o engenheiro Sr. Wilson, muito amável. O lugar foi fundado em 1909 e pertence à Empresa Mate-Laranjeira, que explora os ervais naturais do lado de Mato Grosso e transporta o produto para a Argentina. Com exceção dos chefes, o pessoal é

paraguaio 7 e fala quase exclusivamente o guarani. O consumo de bebidas alcoólicas e o jogo são proibidos.

29. De manhã cedo apanhamos, numa mula, vários exemplares de S. orbitale que, nessa hora, aparecem com mais freqüência. Alguns exemplares estavam extremamente cheios. Eram indivíduos que não tinham sugado antes. À tarde fomos, a cavalo, ao mato, onde apanhamos grande número de mutucas, principalmente E. ardens, e alguns mosquitos, prevalecendo, como em toda parte, o C. scapularis e, em segundo lugar, I. arribalzagae.

30 8 . Excursão na lancha “Roseira” para o rio Piqueri, [27-30] afluente do lado esquerdo do Paraná, com a foz vinte quilômetros acima do porto. Tem a água mais clara, verde. Viram-se biguás, biguatingas, patos bravos, duas ariranhas e rastos de anta, e, guiados por um espanhol, Manuel, único morador do lugar, caçamos duas jacutingas. Apanhamos também alguns peixes de tamanho médio, como dourado, piracanjuba e matrinxã. Colhemos na viagem várias mutucas e mosquitos. Matou-se também uma jararaca.

31. De manhã fomos ao mato, onde vimos duas araras vermelhas e alguns outros pássaros. O céu era nublado e mais tarde houve algumas pancadas de chuva.

1.II. O tempo continuou chuvoso, mas nem por isso deixamos de realizar a projetada excursão à foz do Ivaí, distante uns cem quilômetros. [14-30] Depois de procurar o Manoel no rio Piqueri, voltamos ao Paraná subindo até um pouco acima do rio Alambari, onde dormimos. No dia seguinte fomos até o aldeamento dos índios (mansos) layuá, no arroio do Veado, perto da foz do Ivaí. Alguns deles sofriam de impaludismo. Vimos uma casa muito grande, completamente fechada, apenas algumas portas, das quais saía fumaça, produzida por causa dos mosquitos que eram insuportáveis e perseguiam os índios como nós. Posto que mais acostumados, não gostavam das picadas. Já eram bastante civilizados; entretanto, faziam arcos e flechas e maças a modo dos selvagens. Perto da aldeia havia grandes bandos de araras vermelhas. No porto havia numerosas borboletas de várias espécies sugando no solo úmido, como também alguns himenópteros. Do arroio entramos no rio Ivaí, sem encontrar nada de especial, nem ponto que se prestasse para saltar; continuando a chuva, resolvemos voltar. Passamos a noite perto do lugar onde dormimos na véspera. Voltamos no dia 3, deixando o Manuel no rio Pequeri. [34]

4. O dia de hoje foi todo de chuva, o que nos impediu de fazer excursões. Vimos alguns doentes de febres benignas, papo, ancilostomíase, úlceras etc.

5. De manhã o tempo era nublado, não tendo chovido desde a véspera. Depois do meio-dia realizamos o passeio à cachoeira 18 das Sete Quedas. [40-43] O mato estava ainda muito cheio de água. Vimos três cachoeiras, uma em cima da outra, nenhuma excedendo 10 metros de altura. A largura também era pequena. Observamos o Paraná abaixo do salto, reduzido a um rio de uns 80 metros de largura e correndo com grande velocidade no fundo de uma barranca de pedra de ferro, com paredes verticais, mas pouco elevadas. Em duas das pequenas poças lá existentes apanhou-se um pequeno filópode. Havia também alguns aruás pequenos. Apareceram vários exemplares de S. pertinax. Os cavalos eram atacados em pleno dia por E. ardens, que desaparece ao escurecer, pelo O. cinerarius com asas escuras e por outras espécies de Chrysops e Tabanus.

Deixamos de visitar os grandes saltos do Guaíra, que eram inacessíveis por causa da enchente do Paraná.

6. Com tempo muito bonito, fizemos uma excursão para o rio Iguatemi, do lado do Mato Grosso, [12] em companhia dos senhores Jara, Bianchini, Dr. Varella e do pessoal da lancha “Roseira,” que pertence ao Lloyd Paranaense. Matou-se uma Ardea agami que continha o Diplostomum grande Diesing, uma Cairina moschatae, e pegou-se um tatu azul que atravessava o rio a nado. Nestes animais não encontramos ectoparasitos. Durante a viagem apareceram muitos Diachlorus flavitaenia e bimaculata, O. aurora e cinerarius e L. lepidota, como também grande número de I. arribalzagae. Na volta vimos muitas pombas legítimas e tucanos grandes. Do lado do Mato Grosso, nas margens do afluente, vimos banhados e campos úmidos. Encontramos apenas um rancho, estabelecido pela empresa sobre uma das ilhas do Paraná e chamado Porto Isabel. Lá examinamos uma bromeliácea, que não continha larvas de mosquitos.

7. Despedimo-nos e embarcamos no trem para Porto Mendes, em companhia do Sr. Wilson. Em viagem encontramos alguns taquaruçus verdes que continham larvas de mosquitos. Esta espécie de bambu era muito abundante, mas todos os outros colmos eram secos por terem florescido no ano passado. A mata é toda em terra roxa. Contém árvores de Ilex paraguayensis.

Em Porto Mendes encontramos uma boa casa, 70 metros acima do rio, que corre com bastante rapidez numa barranca funda. A largura, comparada com aquela observada acima do salto, é muito reduzida. Há um plano inclinado que liga o porto com a linha da estrada de ferro. Na casa apareciam S. pertinax e um Culicoides pequeno. Havia muitos gafanhotos, principalmente uma Scaphura da espécie parecida com sphegidas. Vimo-la comer a carne cozida de um osso, atirado fora. Havia também grande número de borboletas, pousadas em lugar úmido. Algumas procuravam de preferência couros frescos e velhos. Ao escurecer fomos a bordo do vapor “España,” que tinha chegado pouco antes.

8. De manhã visitamos a importante empresa Alica (que explora o mate do lado do Paraná), embarcando depois. A maior parte do dia foi empregada no serviço de descarregar uma grande caldeira e muitas barricas, e no embarcar de sacos de mate. O vapor é bastante grande e confortável, sem ser bonito, e a comida a bordo era boa. De manhã o tempo era muito quente, mas refrescou depois de uma chuva forte que sobreveio às 4 horas da tarde. Era alta noite quando o vapor deixou o porto.

9. O rio continua enchendo, com as águas muito turvas e carregando muitos detritos. Tivemos de parar por duas vezes, por alguns galhos (de paus encalhados) terem entrado nas rodas, que são laterais. Às 11 horas chegamos ao porto de Iguaçu, de onde não se percebe a cidade. Esperavam-nos um char-a-bancs com cinco mulas e uma carroça, que nos levaram com a nossa bagagem, quando já principiava uma chuva que prometia durar o dia inteiro. A cidade consiste apenas em algumas dúzias de casas muito espaçadas, tudo situado sobre uma terra roxa escura. O horizonte é bastante vasto. [50-54]

Infelizmente a chuva continuou todo o dia e só encontramos pouca correspondência.

10. A manhã era muito chuvosa. Mais tarde o tempo melhorou um pouco, mas só conseguimos sair bastante tarde para o Salto. [55-65] O caminho de 29 quilômetros foi feito por carro de cinco animais em condições bastante boas, chegando-se ao hotel com noite fechada. O caminho do quilômetro 9 para diante é todo de mata bonita com muitas leguminosas, jacaratiá, fetos arborescentes, grandes urtigas, taquaruçu (que estava seco) e bambusáceas menores. O ruído do salto só foi percebido quando chegamos perto do hotel.

11. O dia foi dedicado a ver o Salto. O Paraná estava muito cheio, o que é de vantagem para o aspecto geral, mas impede de visitar muitos pontos que só são acessíveis na vazante. A linha de quebradura, que produz o salto, tem a forma de um ‘S’ alongado, deitado obliquamente ao rio. Há geralmente dois degraus, separados por uma plataforma que, em alguns lugares, fica bastante larga; no meio do salto ela forma uma ilha, assaz extensa. O degrau de cima tem apenas a metade da altura do interior. A massa de água é subdividida em vários saltos, cujo número aumenta com a enchente, sendo a extensão total muito grande, em comparação com a altura do salto, o que prejudica um tanto o efeito. Não há um lugar onde se possa apreciar todo o conjunto, mas é indubitável que do lado brasileiro os pontos de vista são muito melhores. Já existem caminhos que permitem chegar aos melhores pontos, sem dificuldade séria.

Com o rio cheio o ruído do salto é muito forte; desprendem-se grandes quantidades de pó d’água, formando nevoeiros, cuja altitude e intensidade variam com o estado da atmosfera. Freqüentemente esses nevoeiros se propagam a grande distância. A água abaixo do salto é estriada de espuma, que forma desenhos assaz constantes. Acima do salto a correnteza é bastante forte e há muitas corredeiras, das quais a maior parte é atualmente coberta pela água. Nas pedras só se vê uma grande gramínea. Não há pontederiáceas descobertas. Com muito custo conseguiu-se arranjar alguns casulos e larvas de borrachudos, sendo quase tudo S. orbitale. Havia também indicações de amazonense e paraguayense. Este existe em número fenomenal nas matas perto do salto e pica com freqüência. A picada é muito sensível, mas o efeito é mais passageiro que o da picada do S. pertinax, que apareceu em número pequeno; misturados com o paraguayensis existem também alguns amazonensis que têm o mesmo tamanho, relativamente pequeno. Havia também muitos Culicoides debilipalpis e poucos culicídeos. Só conseguimos apanhar um Phlebotomus longipalpis, que veio à noite picar no mato, onde paramos à luz de uma lanterna.

12. De manhã fomos pelo mato a um porto a dois quilômetros acima do salto. De lá voltamos pela margem do rio por uma picada um tanto fechada, tendo de passar alguns córregos, bastante cheios em conseqüência da enchente. Voltamos depois do meio-dia. À tarde houve trovoada. À noite fomos ao mato, levando uma lanterna, mas apanhamos pouca coisa.

13. Cedo fomos ver o salto pela última vez, colhendo um pouco de material de borrachudos, e observamos no caminho uma ou duas cutias. Na casa recebemos um escorpião. Depois voltamos de carro para a cidade. No caminho paramos para ver um porto antigo, onde achamos o Tropaeolum warmingiamm, e para colher água da Urera semipeltata, que continha uma larva de Dendromyia.

14. Fizemos, a carro, uma excursão para uma furna, distante quatro quilômetros: lá apanhamos três Phyllostoma. Vimos também árvores de Cordia salicifolia e de uma espécie de Maclura, ambas indígenas. Todos estes dias a temperatura era geralmente muito elevada, quando não havia chuva ou trovoada pouco distante. Recebemos uma jequitiranabóia viva. No peritônio de um dos morcegos encontramos filárias, e microfilárias no sangue. Havia também Streblas, mas não havia pulgas. Não se fez outra excursão nesse dia. O calor chegou a 34°.

15. Fomos em carro a um porto no Iguaçu, de onde atravessamos para Porto Aguirre. Lá vimos o hotel e compramos uns cartões postais com vistas do Salto de Iguaçu. Do Porto Aguirre descemos o rio e entramos no Paraná, seguindo até Puerto Bertoni, [67] onde encontramos o Dr. Bertoni que nos mostrou as suas ricas coleções de objetos de índios, plantas, animais, especialmente pássaros, e insetos. Recebemos várias publicações dele e de seu filho, A. de Winkelried. O Dr. Bertoni imprime lá mesmo um pequeno jornal científico. Ele é natural da Suíça e imigrou em 1884. Infelizmente o nosso tempo era limitado e tivemos de despedir-nos, antes de ter visto, mesmo de modo sumário, a metade das coleções interessantes. Voltamos contra a corrente, que em muitos lugares é fortíssima. Em outros pode se aproveitar o remanso. Ficamos sempre ao lado direito do rio.

Passamos a noite em Iguaçu. Na manhã seguinte achamos um Conorrhinus sordidus afogado numa bacia de lavar as mãos.

16. De manhã não se fez nada, senão esperar por um vapor que não chegou. À tarde houve trovoada e forte chuva, que deixou o tempo mais fresco.

Nos dias 17, 18 e 19 não se empreendeu nada. Choveu freqüentemente. Esperávamos pela volta do vapor “Espanha,” que tinha passado sem deixar correspondência de importância. No dia 20 pela manhã ainda esperávamos o “España”. À tarde o Dr. Lutz fez um passeio e viu lotes de terra cobertos por uma Vernonia cujos caules atingiam, às vezes, mais de quatro metros de altura. Na casca de uma árvore cortada achou uma depressão cheia de água de chuva, a qual continha larvas nematóides que pareciam pertencer a uma espécie de Culicoides. Embaixo de outros paus caídos encontrou um mixomiceto e um outro cogumelo maior em frutificação. Examinou um riozinho encachoeirado que não continha borrachudos. Ao anoitecer finalmente chegou o “Espanha” [48, 49] e embarcamos logo, mas o vapor ainda demorou algum tempo. A noite era clara, com a lua meio cheia, permitindo a navegação. Jantamos a bordo e conversamos com um filho do Dr. Bertoni, que encontramos a bordo e que saltou num porto acima de Puerto Bertoni. Primeiro entramos na foz do Iguaçu, que tinha caído muito, talvez uns três metros, e tocamos em Porto Aguirre. Depois descemos o rio, parando brevemente em vários portos.

21. Ao amanhecer estamos em Porto Thereza, onde tomamos uma quantidade de sacos de mate que enchia uma chata. O rio agora era bastante largo, talvez como o Reno na parte mais navegada, mas a água era sempre suja. As margens eram muito menos elevadas e íngremes, a vegetação a mesma, mas menos viçosa, com muitos sinais de roças, feitas aparentemente para obter lenha e não para plantar. Viam-se no rio muitas pedras escuras, e nas margens, alguns bancos de areia branca. Havia muitas andorinhas pequenas, azuis e brancas, e, de vez em quando, uma garça cinzenta ou branca maior. Pelo resto não se viam sinais de animais, nem vinham insetos a bordo.

Às 9 horas passamos a foz do rio Piraí e o porto do mesmo nome. Pouco antes vimos do outro lado um porto, onde havia grande número de troncos de madeira, em parte embarcada em uma grande chata, munida de guindastes. Perto jazia, a metade fora da água, um grande rebocador. O mato, neste lugar, era derrubado em vasta extensão. No porto de Piraí havia grande número de cabritos de todas as cores.

Nos portos aparecem Syrphidas e Anthracida a bordo, onde às vezes as aranhas os pegam, e nota-se grande número de Pieridas, Papilioniodas, Hesperidas e Nymphalidas, como Colaena juno etc., ocupadas a sugar o barro úmido. Algumas vêm a bordo das chatas ou mesmo do vapor. A paisagem continua a ser bastante monótona. Às 3 horas peguei num porto argentino uma mutuca do gênero Catachlorops que veio a bordo. Parece capreolus. O tempo, que era muito quente, abrandou com uma ameaça de chuva. Mais tarde encontramos um vapor, bastante carregado, com roda na popa (o “Espanha” tem rodas laterais). Depois disso tivemos uma chuva bastante forte. Peguei a bordo I. arribalzagae em ato de sugar, e guardei-o vivo para ver se punha ovos.

As árvores nesta paragem parecem menos desenvolvidas do que mais para cima. Uma vez me pareceu ver no mato uma Chorisia speciosa em flor, o que foi a primeira vez. Geralmente só se vê verdura. Resolvemos parar à noite em Porto Cantera, onde devíamos chegar às 23 horas.

Chegados lá, os doutores Lutz e Fonseca pararam, enquanto os outros continuaram a viagem.

22. Depois de uma visita ao Sr. Schrottky, cuja coleção não conseguimos ver, e sabendo que não havia tempo para visitar as ruínas de Santo Ignácio, continuamos a viagem no “Sparta,” chegando pelas três horas da tarde a Encarnación, onde paramos no Hotel Internacional. O rio entre Posadas e Encarnación, [69, 69a] com quatro quilômetros de largura, oferece o espetáculo de um lago. Em conseqüência dos reflexos a cor suja das águas, que são perfeitamente calmas, aparece menos. Em Posadas, vê-se uma grande igreja e uma antena alta. Em Encarnación há outra antena e uma grande ponte para os vapores. Já antes de chegar, vê-se do lado direito um campo extenso. As cidades são arborizadas e as ruas ainda muito incompletas, principalmente do lado de Encarnación, que se pode chamar uma cidade em esboço. Em Posadas há duas praças ajardinadas, das quais uma com um monumento, e o número de casas boas e edifícios públicos é maior. Todavia há também aqui muitas lacunas entre as casas, e as ruas são, pela maior parte, muito incompletas. Em Encarnación hospedamo-nos no Hotel Internacional.

Anunciou-se um dia de chuva, mas deu tempo ainda para se fazer uns passeios botânico-zoológicos, nos quais se encontraram várias novidades, como Pl. cimex e outra espécie pequena com animal pigmentado, uma Ampullaria menor, uma Ipomoea erecta, parecida com fistulosa porém menor, verbenáceas e escrofulariáceas bonitas, uma asclepiadácea de flores brancas com cálice tubular etc. Mais tarde choveu copiosamente. Fizemos uma visita em Posadas, onde tudo estava fechado por causa da sesta.

24. O dia amanheceu bonito. Às 8h30 tomamos o trem para Assunción, [70-73] onde só chegamos às 23, com uma hora de atraso. Passamos extensos trechos de campos, primeiramente mais úmidos, depois mais secos. Havia também muitas ilhas de mato, vários arroios e rios pequenos e uma lagoa maior. Há muitas estações onde, por ser domingo, havia grande movimento. Nos campos vimos muito gado vacum e cavalos, acompanhados por gaviões, quero-queros, anus brancos e pretos e pombos domésticos. Há muitas convolvuláceas, solanáceas, leguminosas compósitas e outras famílias, observadas em São Paulo na mesma latitude, porém aqui, muitas vezes, representadas por outras espécies campestres. Viu-se chover em alguns pontos no horizonte, mas, em geral, o tempo se conservou bonito e muito quente ao meio-dia. Hospedamo-nos no Hotel Hispanoamericano.

25. O dia amanheceu bonito, mas quente, com uma temperatura matinal de 27° que subiu rapidamente acima de 30°. Mandei uma carta para o Dr. Migone, que veio visitar-nos no hotel e foi conosco ao palácio do governo, onde nos apresentou ao ministro do Interior e ao presidente. Recebemos várias publicações oficiais. Vimos o porto e parte da cidade. Visitamos o nosso ministro e o nosso cônsul, mas não os encontramos em casa. O ministro depois nos visitou no hotel; o cônsul já nos tinha procurado de manhã. Durante o dia tínhamos visitado também a repartição de higiene e seu diretor.

26. De manhã fomos ao hospital, onde vimos grande número de leishmanioses das mucosas que, geralmente, mostravam cicatrizes de processos cutâneos anteriores. Vimos também um escrofuloderma e outros processos de tuberculose local, uma apendicite, uma ectopia vesical e três casos com diagnósticos de Granuloma pudendorum, sendo um muito duvidoso e com aparência desconhecida. Fomos também ao laboratório bacteriológico, onde vimos algumas preparações e examinamos vários insetos sugadores de sangue. Fizemos um passeio de bote no porto de Assunción, durante o qual vimos muitas pequenas efeméridas passando rapidamente pela metamorfose de subimago a inseto adulto. Pescou-se sem resultado, por ser a água muito rasa.

27. De manhã trabalhou-se mais no laboratório, examinando os sugadores de sangue já colecionados pelo Dr. Migone, dos quais se fez uma lista.

28. II. Em companhia do Dr. Migone fizemos uma excursão a San Bernardino, situado na lagoa de Ipacaraí, [74] que é muito extensa (5,18 km), mas pouco funda. Por isso a água, muito revolvida pelo vento, não é muito clara. No mesmo dia fez-se um passeio em lancha. Colecionou-se bastante plâncton que continha um Copepode e vários Cladocera, como Bosmina, Ceriodaphnia, Daphnella e outras espécies. Apanhamos em lugar raso alguns exemplares de um filópode e um Planorbis com sua postura. Verificou-se neste uma Cercaria com os caracteres da valdefissa. Havia muito Limnanthemum H., uma grande Maranthacea, Conferva e uma Characea, mas não se encontrou a Pistia, não obstante a freqüência da Mansonia. Em San Bernardino, no hotel do lago, encontramos esta e a Stegomyia fasciata que também existe em Assunción.

1. III. De manhã visitamos o lugar, onde há um fotógrafo que também coleciona insetos, e vimos trabalhos de marcenaria em madeira indígena; depois fomos a cavalo para os restos [sic] do rio Salgado, afluente da lagoa, que se acham a três léguas paraguaias de distância. [75] Vimos uma flora interessante de campos úmidos com Lobelia, Agelonia spec., Araujia stenophylla e muitas outras plantas interessantes. Na ida fomos perseguidos por M. titillans e três variedades de Psorophora. No lugar pegamos muitas E. marginalis, Dichelacera fuscipennis e um Chrysops (?brevifascia).

Havia também N. triangulum e ochrophilus e um T. importunus. Na volta apareceram alguns E. ardens. Encontramos alguma Pistia sem larvas. A julgar pelas coleções de lepidópteros e coleópteros, que vimos, a fauna local contém muitas espécies interessantes.

2. Trabalhou-se com o material de ontem, dissecando muitos tabanídeos. À tardezinha fez-se outro passeio de lancha em direção oposta. A água era bastante rasa e não se encontrou nada de importante.

3. Voltamos para Assunción.

4. Não se empreendeu nada. No dia 5 fizemos uma interessante excursão ao Jardim Botânico de Trinidad, [76, 78] seguindo para lá em lancha no rio Paraguai, que é muito largo, mas não oferece nada de especial. No lugar colheu-se Planorbis de qualidade diversa da encontrada em Encarnación e em San Bernardino. Depois vimos as coleções botânicas e zoológicas. Colhemos várias plantas aquáticas, entre estas uma Utricularia, na qual se encontrou uma larva de Chrysops. Depois da volta despedimo-nos do nosso ministro e do cônsul, e à noite assistimos a [sic] um banquete, dado pelos médicos do lugar, no qual reinou muita cordialidade.

6. Embarcamos cedo no vapor “Brusellas,” da firma Mihanowitz.

Despedimo-nos dos amigos que tinham vindo a bordo, e seguimos às 7h30. O vapor é muito grande e os nossos camarotes eram bons, porém infestados por muitas Stegomyia, talvez criadas a bordo. A comida é regular e o navio no andar fica bem ventilado. O rio apresenta-se ora bastante estreito, talvez como o Reno na Basiléia, ora muito mais largo, formando braços e ilhas maiores ou menores. Vêem-se também algumas lagoas por dentro das margens. Os pequenos portos são numerosos, mas nenhum parece ter maior importância. Vimos vários pássaros aquáticos, tuiuius, garças cinzentas e brancas e algumas Chauna cristata. Há também muitos gaviões e urubus. Há regiões com mato bastante fechado, mas a maior parte é campo. Nota-se a Ipomoea fistulosa e, em vários lugares, geralmente ao lado das Missões, carnaubais menores e maiores. [79] Às 3h30 chegamos ao porto de Formosa, onde se vêem casas boas, uma estrada de ferro, um engenho e grandes quantidades de madeira que seguem, em parte, num vapor grande que se acha no porto.

7. Amanhecemos no Porto de Corrientes e tivemos tempo de saltar e fazer um passeio pela cidade, que é extensa e contém alguns edifícios mais importantes. O porto é bem movimentado.

Ao longe vê-se a foz do Paraguai. A região inteira é plana. Pouco tempo depois de sair tocamos em Porto Celman, onde há uma estação da Estrada de Ferro de Santa Fé. Demoramos algum tempo. Parece haver bastante comércio. O lugar, que não tem nada de atrativo, é situado num braço do rio Paraná que, logo abaixo, apresenta várias ilhas, sendo a largura total muito considerável. Há também vargens com algumas lagoas. A água é amarela.

O tempo hoje está encoberto. Notei um pássaro branco com as asas pretas, do tamanho de uma gaivota. Vi também uma pequena plantação de algodão. Mais tarde apareceram muitas gaivotas. O rio, em alguns lugares, parece ter uma largura de 4 a 5 quilômetros. Paramos brevemente em Empedrado e Bela Vista, [47] onde embarcaram muitos passageiros, de modo que a grande sala de jantar estava quase inteiramente ocupada. Em Bela Vista a margem do rio era mais alta, mas continuava geralmente com o mesmo caráter.

8. Às 7 horas do dia 8 passamos o porto Bruno. A ribanceira é outra vez alta e estratificada, com sinais de terraços. Às 9h30 estávamos no Porto de Paraná, capital de Entre Rios. A cidade, que parece bastante grande, fica um tanto distante.

Continuando a viagem vimos muitas ilhas, algumas com gado e cavalos. Em outras viram-se salgueiros. Mais tarde atravessamos para a outra margem, que também é elevada, mas menos perpendicular que a esquerda. No barranco havia o Gynerium argenteum, a grama das pampas. Chegamos depois a Rosário (às 17 horas), onde demoramos pouco. A cidade é extensa e tem muitas igrejas. [80] As obras do porto são muito importantes. À noite houve a bordo uma invasão de C. albifasciatus Arribalzaga, do qual já tinham aparecido alguns exemplares depois de Corrientes. Foram apanhados machos e fêmeas, estas em parte cheias de sangue. Havia também uma Psorophora holmbergi.

9. Chegamos cedo a Buenos Aires, [81, 82] mas com o despacho da bagagem e outras coisas necessárias passou toda a manhã. À tarde fomos ao Lloyd e depois ao Instituto Nacional de Bacteriologia, que nos foi mostrado pelo diretor, professor Kraus, com todas as suas instalações, já conhecidas das descrições publicadas.

10. Hoje visitamos o museu de La Plata, com coleções muito interessantes de etnologia e paleontologia, e estivemos com o professor de zoologia Carlos Bruch. À tarde visitamos o jardim zoológico e conversamos com o diretor, Dr. Onelli.

Nos dias 11-14 visitamos vários estabelecimentos e repartições científicas, como o hospital de moléstias infecciosas (onde assistimos a uma autópsia de carbúnculo intestinal), a maternidade, com importantes coleções, o museu de anatomia patológica e o laboratório de farmacologia, onde vimos interessantes papéis de Bonpland, plantas e insetos, e a assistência pública. Jantamos nas casas dos professores Kraus e Sommer, e almoçamos com o Dr. Araos Alfaro. Percorreu-se também a cidade e alguns dos subúrbios. No dia 15 despedimo-nos do professor Kraus, como também dos outros colegas, percorrendo mais uma vez o laboratório e vendo os trabalhos. Embarcamos para Montevidéu, no vapor do mesmo nome, às 21 horas. O vapor saiu às 22.

16. Chegamos cedo a Montevidéu e, depois de transferir a nossa bagagem para bordo do “Servulo Dourado,” fomos visitar o Hospital Maciel, onde vimos o serviço de sífilis e de profilaxia contra as moléstias sexuais, como também o muito interessante Instituto Curie onde se trata por fototerapia, raios X e rádio; recebemos vários impressos. Combinamos para a tarde uma visita ao museu e a vários estabelecimentos científicos. Depois do almoço fomos tratar das passagens. Às 4 horas fomos ao museu de história natural, onde encontramos o diretor. Examinei os moluscos de água doce e terrestres, levando várias amostras. Depois vieram dois colegas buscar-nos para uma visita à faculdade de medicina, que está muito bem instalada. Vimos também os institutos de fisiologia e de anatomia, onde existe um frigorífico (como também em Buenos Aires). Depois visitamos a maternidade e terminamos com uma bonita excursão em automóvel pelas praias e a um hotel que pertence à municipalidade, onde se preparava uma exposição de flores. Depois de jantar num restaurante muito grande e concorrido recolhemo-nos ao navio.

17 O “Servulo Dourado” deixou o porto de manhã cedo. Depois de algumas horas passamos entre Maldonado e a Isla de los Lobos, sem ver nenhum desses animais, que provavelmente só aparecem no inverno. Navegamos todo o dia com o mar ligeiramente agitado, sem ver nada de interessante, ficando a terra a distância e pouco visível. O mesmo se deu durante a noite. Só pelas 4 horas principiou-se a avistar os grandes molhes dos dois lados do canal que conduz a Rio Grande, carregando cada um um enorme guindaste, lembrando um canhão gigantesco. Levamos muito tempo para entrar no porto, e só chegamos com noite fechada. Saltamos ainda e fomos à cidade, [83, 87, 95] que principia a um quilômetro do porto. É bastante grande e tem as ruas regulares e bem dispostas, com bastante largura. As casas, na maior parte unidas ou pouco espaçadas, são geralmente pouco elevadas. Vimos alguns edifícios mais bonitos e algumas praças ajardinadas. Há uma linha de tramway [bonde] que passa pelo centro e outra circular. O terreno é todo arenoso e plano; só por fora da cidade vêem-se dunas de areia que incomodam bastante os olhos. O porto, separado da cidade, é muito extenso e bem construído. Os navios atracam em sentido do comprimento, e há guindastes sobre trilhos. Existe uma estação marítima e uma central da linha que vai para o centro.

O campo arenoso, [96] perto do porto e entre este e a cidade, tem uma flora especial, na qual se distinguem algumas compósitas, especialmente um Eupatorium que alcança três metros de altura. [97] Há também grandes extensões de Tamarix gallica, que parece plantada e sobre a qual vivem muitas lagartas, fechadas em casulos. [98] Em toda a região abunda o Culex albifasciatus MacQuart, que pica em pleno sol, mas invade também as casas e os navios, atraído pela luz. Comporta-se como o C. confirmatus, com quem se parece no desenho do abdome, sendo este do escudo mais parecido com o da Psorophora ciliata. Colhemos grande número de exemplares no posto da alfândega, onde era muito mais comum que C. fatigans. A Stegomyia não existe lá, mas vimos na cidade, num hotel, um mosquito que talvez fosse dessa espécie. Procurei moluscos de água doce, mas não consegui nada. No mercado havia uvas Isabel e algumas de outra qualidade, porém muito caras. As maçãs e pêras, como também os pêssegos, eram inferiores às que se vêem em Buenos Aires. Ao mercado de peixe chegamos tarde demais, e só vimos alguns peixes e camarões.

No dia 18 visitamos o hospital, onde vimos um caso típico de Psoriasis num preto e mais dois casos interessantes de moléstias de pele. Havia também um caso de lepra, talvez procedendo de Minas. No porto vimos outro, talvez importado, num carregador. Certamente não se pode afirmar que a moléstia falte completamente neste estado. A questão se há casos indígenas, vale a pena ser estudada.

Na tarde desse dia o Dr. Araújo nos deixou para embarcar para Bagé.

19. De manhã visitamos o parque, onde encontramos nada de especial. Está no bordo de uma praia mansa e pouco funda, com boa vista. Rodeamos a cidade em bonde circular. Devíamos ter seguido às 2 horas, mas só deixamos o porto pouco antes das 6. O mar estava bastante manso.

20 e 21. Deixamos o porto de Rio Grande bastante tarde, de modo que já era quase noite quando largamos o prático. O tempo era bom e o mar apenas ligeiramente agitado. No dia seguinte (21) viu-se pela manhã a praia de Pernambuco com as suas areias amareladas, que limita a Lagoa dos Patos para fora. Passada esta, apareceram as primeiras serras do litoral. O tempo continuou bom. Fizemos algumas pescarias de plâncton.

22. Durante a noite viu-se um farol com luz constante, mas mudando de cor, nas costas que passamos, e um outro de frente, que marca a entrada do braço de mar entre a ilha de Santa Catarina e a terra firme. Chegamos cedo, passando ao lado de uma fortaleza com algumas peças descobertas e alguns faróis menores, até avistar Florianópolis, [99] estendida sobre um promontório da ilha que é montanhosa e bastante pitoresca. Ancoramos às 9 horas a bastante distância da terra, demorando apenas até o meio-dia. Vimos bem a cidade e o estreito entre esta e a terra firme. Depois de passar este, vê-se um outro aspecto da cidade. A ilha é comprida e sempre montanhosa. O tamanho lembra o da Ilha Grande e da Ilha de São Sebastião. A costa da terra firme também é coberta de montanhas que chegam até perto do mar.

Entre 5 e 6 horas entramos na barra do Rio Itajaí, que é estreita e parece perigosa. Está no meio de uma enseada larga que a protege de dois lados. Aqui já se vêem palmeiras reais ao lado de Araucárias do Chile, bambus etc., indicando um clima bastante quente. Subimos o rio até o porto, [101] mas não tivemos tempo para ver a cidade, porque o navio pouco se demorou. Apenas pus o pé em terra quando já era noite escura. Continuamos a viagem logo depois do jantar.

23. III. Chegamos cedo à entrada da baía de São Francisco, e antes das 8 horas ao porto. [100]

O navio parou perto da ponte, sem encostar. O tempo continuava bom, mas não era completamente claro. Saímos outra vez depois de breve demora, continuando a viagem. Pelas duas horas entramos na baía de Paranaguá, onde logo vimos grande número de medusas de tamanho médio; tinham forma de campânula, com um estreitamento acima dos tentáculos. Na maior parte eram completamente hialinas, mas algumas eram ferruginosas em maior ou menor extensão. Encontramos também grande número de Larus dominicanus adultos com alguns novos, e várias Fregata. Paramos em frente a Paranaguá sem encostar, e saímos outra vez umas duas horas depois. O tempo continuou regular, com algumas ameaças de chuva do lado da terra. Na volta vimos outra vez as medusas, que existiam em número enorme mas não chegavam à parte interior da baía, onde há muito mangue.

O resto da viagem dos doutores Lutz e Fonseca foi feita no mesmo vapor. Demoraram-se apenas algumas horas em Santos e chegaram ao Rio de Janeiro sem incidente.

 

Diário do Dr. Souza Araújo

Rio Grande. Março 17

Às 21 horas atracamos no cais do porto novo desta cidade.

Gastamos na viagem de Montevidéu até aqui dois dias e uma noite. O nosso vapor está com pequena velocidade porque o carvão nacional, único que o Lloyd está empregando, não é de boa qualidade.

Desembarcamos e fomos visitar a cidade, [83-87, 95] que fica bem distante do porto. Faz-se o trajeto em bondes elétricos. De volta da cidade estivemos no posto da Alfândega caçando mosquitos; havia-os em grande abundância, mesmo dentro dos bondes.

No dia 18, apesar do mau tempo, percorremos os principais pontos da cidade e visitamos a Santa Casa de Misericórdia. À tardinha um de nós, Souza Araújo, partiu para Bagé.

Bagé. Março 19 a 25 [88-93]

Chegamos a esta cidade às 6 horas, tendo viajado no comboio noturno “Rio Grande-Santa Maria”. Hospedamo-nos no Hotel Brazil.

A temperatura baixou consideravelmente durante a noite. Às 8 horas o termômetro marcava 16°C, parecendo ter descido a 12°C de madrugada.

Bagé, que é uma importante cidade, está situada na campanha, numa atitude aproximada de 160 metros acima do nível do mar. Nesta cidade exercem a clínica mais de vinte médicos; existe um bom Hospital de Caridade e muitas farmácias. A principal indústria de Bagé é a do charque, contando a comarca diversas charqueadas, uma das quais, a de Magalhães, Prati & Cia., é muito importante. Esta charqueada é muito bem instalada e tem agora, durante a safra de matança, quatrocentos empregados, número este que baixa a cem durante a safra seca.

O estabelecimento tem capacidade para matar cem reses por dia, mas a média de matança, durante a safra, é de 550.

Os principais produtos desse estabelecimento são: charque, sebo, graxa refinada, couros salgados, ossos de indústria, sangue seco, nervos secos, unhas, chifres, sabugos, adubos, óleo de mocotó, extrato de carne e cinza calcinada. A produção anual da empresa é a seguinte, conforme informação que nos forneceu por escrito o Sr. G. Burns, respectivo guarda-livros: charque 3.600.000 quilos; sebo 1.080.000 quilos; graxa refinada 20.000 quilos; couros 1.035.000 quilos; ossos 200.000 quilos; sangue seco 30.000 quilos; nervos secos 13.200 quilos; unhas 22.400 quilos; chifres 40.000 unidades; sabugos 29.200 quilos; adubos 50.000 quilos; óleo de mocotó 12.000 quilos; extrato de carne 13.000 quilos; cinza calcinada 500.000 quilos. A companhia gasta anualmente 2.000.000 de quilos de sal; 1.125 pipas para sebo; 3.070 bordalesas para sebo e óleo e 2.000 toneladas de carvão nacional. Estas informações foram-nos prestadas em 21 de março.

Da matança, que acompanhamos, e do secamento da carne ao sol tiramos algumas fotografias que vão reproduzidas adiante. No correr da semana, que passamos em Bagé, fomos visitar, acompanhado do Dr. Cantera, nosso colega e amigo dedicado, a Estância de Santo Antônio, de propriedade do senhor Henrique Barboza Netto. Foi um excelente passeio. Do bom gado Hereford que lá vimos, juntamos algumas fotografias. É essa raça de gado a que predomina hoje nos campos do Rio Grande do Sul. Depois de termos feitos outros passeios e colhido algum material de insetos para o Instituto, regressamos na manhã de 26 para Pelotas, com destino a Porto Alegre.

Antes de chegarmos a Pedras Altas, onde vive num belo castelo, situado em modelar estância, o grande brasileiro Assis Brazil, vimos vários montes de carvão nacional ao longo da estrada, aguardando condução e muitos vagões carregados desse precioso mineral que está sendo largamente explorado no sul.

Pelotas. Março 26 e 27

Chegamos a Pelotas, chamada “Princesa do Sul” pelos rio-grandenses, às 15 horas do dia 26. Hospedados no Hotel Aliança, em pleno coração da bela cidade, aproveitamos o resto do dia em visitas aos seus bairros pitorescos, às suas praças e ao Clube Comercial, o célebre ponto de reunião, durante o inverno, de toda a flor da sociedade rio-grandense.

O dia 27 foi bem aproveitado nas visitas que fizemos, em companhia do nosso colega e amigo Dr. João Alfredo Braga, ao Hospital de Misericórdia e ao Instituto de Higiene. A boa impressão que recebemos desses dois importantes estabelecimentos, procuramos externar da maneira mais fiel e mais completa no capítulo “Estado Sanitário”.

À tarde partimos para Porto Alegre pelo “Itapura,” vapor da Companhia de Navegação Costeira.

Porto Alegre. Março 28 [94]

Às 8 horas o “Itapura” atracou no porto. A viagem correu muito bem; o vapor não jogou. Alguns companheiros de viagem disseram-nos nunca terem visto tão calma a imensa e profunda Lagoa dos Patos.

Hospedamo-nos no Grande Hotel.

Os dias 28, 29, 30 e 31 de março foram perdidos, no ponto de vista médico, por motivo da Semana Santa. Só a 1° de abril começamos a trabalhar. Durante a Semana Santa visitamos toda a parte central da cidade e os principais bairros. A cidade é grande e muito importante, porém calculávamos que fosse muito mais adiantada. O calçamento é ruim, exceto o de duas ou três ruas principais; a iluminação é insuficiente; as ruas não são arborizadas e a cidade não possui nenhum jardim, nenhum parque digno de tão importante capital.

Continuar: parte 2 de 5