Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens

O objetivo da viagem do Dr. Adolpho Lutz ao nosso estado

O objetivo da viagem do Dr. Adolpho

Lutz ao nosso estado *

 

Exmo. Sr. Dr. Juvenal Lamartine de Faria, M.D. presidente do estado do Rio Grande do Norte.

Tenho a honra de apresentar a V. Excelência as conclusões a que cheguei, durante o breve tempo de minha estadia nesta capital, visitando os arrabaldes e partes mais distantes do Estado, em direção a Guarabira.

Referindo-me a questões sanitárias sou de opinião que a situação atual do leprosário é muito boa, permitindo o isolamento dos doentes a grande distância de outros domicílios. Não falta espaço para construir enfermarias gerais e, se houver indicação, habitações privadas.

A posição num tabuleiro seco elimina o perigo de transporte de gêrmens por mosquitos, cujo desenvolvimento pode ser evitado por medidas simples e eficazes. Será, contudo, conveniente, principalmente, se aumentar o número de doentes, ter enfermarias separadas e protegidas por tecido de arame, para casos mais graves e, principalmente, para os casos febricitantes e de evolução rápida. A distância da cidade, sem ser excessiva para as visitas necessárias, é mais do que suficiente para todas as exigências. As instalações atuais só podem ser consideradas provisórias, mas, em vista do pequeno número de doentes, pertencendo todos a uma classe pouco exigente, permitem esperar um momento oportuno para a introdução de melhoramentos.

Quanto à malária, informaram-me em muitos lugares, onde havia água estagnada, que apareciam casos, o que não é de se admirar, visto tratar-se de uma zona intertropical. Parece, contudo, que geralmente se trata de um tipo benigno e obedecendo a um tratamento apropriado. Encontramos em vários lugares larvas de anofelinos, pela maior parte ainda novas, em pupas de formação recente, e criamos adultos do gênero Cellia, que, sendo o mais comum, fornece o maior número de transmissores. Nunca fomos atacados por anofelinos e a tentativa para apanhá-los a hora apropriadas, num cavalo amarrado perto de uma lagoa, deu um resultado completamente negativo, o que atribuo a reinar, geralmente, bastante vento nas horas de maior atividade destes mosquitos.

Quando às medidas para combater a criação de larvas, não podem ser aplicadas nas águas, que também servem para beber, com a exceção da introdução de peixinhos larvívoros, se não existirem, o que na regra será desnecessário, em coleções de água maiores e permanentes. As pequenas depressões, devidas às pegadas de animais, cheias de água de chuva ou percolada, não contêm peixinhos, sendo precisamente nestas que se encontram larvas com bastante facilidade. Nestas se podem aplicar larvicidas, ou entupi-las se não se prestam a ser drenadas, como convém fazer, se as margens dos rios e córregos são encharcadas. Na falta de vegetação, o sol pode matar as larvas ou secar as pequenas coleções de água, e por isso convém remover a vegetação palustre o mais possível.

O tratamento dos doentes por quinina é eficaz para fazer desaparecer os acessos, mas não serve muito para curar as formas crônicas que propagam a moléstia. Fazem-se, agora, muitas pesquisas no sentido de se obter também a cura destas formas, e pode ser que em breve tenhamos remédios de atividade mais radical, o que permitiria acabar com as infecções localizadas num dado foco.

Examinei muitas larvas de mosquitos, não pertencentes aos anofelinos, sem encontrar as da Stegomya transmissora da febre amarela. Não observei também a picada dos adultos. Vi todavia larvas do comum Culex noturno na usina e na nova lavanderia popular. Este mosquito também deve ser combatido pela destruição dos focos locais. O Culex bilineatus, que não pica pessoa alguma, tem fornecido o maior número de larvas. Em vários lugares observei casos de anemia evidente, que se podem atribuir ao parasitismo dos vermes. Aqui a profilaxia dos vermes deve achar ainda muito trabalho. A introdução de latrinas e o uso de calçados são medidas sanitárias mais eficazes, em combinação com o tratamento dos doentes.

A esquistossomíase, cuja existência é verificada por exames coprológicos, parece rara neste Estado como já verificamos em estudos anteriores. O fato se explica pela raridade dos moluscos transmissores nas coleções de água, das quais examinei um número muito grande. Os Planorbis maiores com sangue vermelho parecem os únicos transmissores. O Planorbis guadalupensis já observado pela expedição de Branner e depois por mim, embora em pequeno número, existe na lagoa de Extremoz. Contudo, é tão difícil de encontrar que dessa vez achamos apenas uma casca vazia. A multiplicação da espécie é evidentemente inibida por uma causa local, que deve prevalecer também em outras lagoas de aparência favorável.

As dez espécies de moluscos aquáticos ou semiaquáticos que observei nas lagoas e em outras coleções de água doce deste estado continham algumas espécies de trematódeos parasitários, mas nenhuma destas é infecciosa para o homem e o gado. Todavia os estudos feitos aqui, e que devem ser continuados, já me deram a chave de uma interessante questão helmintológica.

Colecionei também perto de vinte espécies de batráquios, das quais várias são pouco conhecidas, se não forem novas. Nos grandes museus não existe material colhido neste Estado, e é relativamente pouco o dos estados vizinhos. Durante estas excursões também achei duas espécies de filópodes, pequenos crustáceos muito interessantes e quase desconhecidos nas zonas intertropicais, cujo estudo tem de ser feito oportunamente. Também colecionei plantas típicas das regiões percorridas.

Pretendo reunir as observações zoológicas de interesse numa publicação separada, quando forem acabados os estudos mais detalhados.

Por fim, devo apresentar os meus cordiais agradecimentos pelas facilidades oferecidas tão gentilmente e que me permitiram fazer estas observações sem dificuldades materiais num tempo relativamente breve.

 

* O relatório preparado por Adolpho Lutz em Natal, 28.8.1928, para o presidente do Estado do Rio Grande do Norte, foi publicado na íntegra em A Republica, Orgão Official dos Poderes do Estado, ano XL, 23.8.1928 (quinta-feira), p.1-2. [N.E.]