Adolpho Lutz: Primeiros trabalhos: Alemanha, Suíça e Brasil (1878-1883)
Apresentações/Presentations
As grandes nações constroem suas identidades e afirmam sua influência em qualquer ramo da fascinante empresa humana pelo cuidado que dispensam aos seus pensadores e cientistas. Para manter viva a memória dos cientistas brasileiros das áreas da biologia e da saúde, a Fundação Oswaldo Cruz criou a Casa de Oswaldo Cruz. Seus pesquisadores têm sido incansáveis no afã de guardar, recuperar, sistematizar, analisar, publicar, projetar para o futuro e, novamente, e muitas vezes, retomar tais ciclos sobre grandes momentos, instituições marcantes e grandes figuras da nossa ainda tão jovem ciência.
O final do século XIX e o século XX, pelo menos em suas primeiras décadas, foram marcados por expressiva reviravolta nas ciências biológicas e da saúde devida às magníficas descobertas de Pasteur e Koch, à redescoberta de Mendel e à afirmação da ciência genética em seus primeiros anos. Muitos trabalhos, livros, documentações de toda ordem já foram publicados sobre essa etapa marcante da história humana.
Sabemos bem que o Brasil não ficou inteiramente fora dessa revolução nas ciências. Manguinhos, no Rio de Janeiro, e os Institutos Bacteriológico e Butantan, em São Paulo, além de outros institutos em locais diversos do país, colocaram o país no proscênio da jovem ciência nascente. Mesmo longe dos grandes centros mundiais e enfrentando conjunturas bastante adversas, Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, para citar apenas dois dos grandes cientistas daqueles tempos, foram capazes de dar expressivas contribuições à medicina experimental e à biologia, no campo das doenças infecciosas e parasitárias.
Nessa mesma conjuntura, dos cinqüenta anos que cercam a passagem do século XIX ao XX, destacou-se também a figura definitiva de Adolpho Lutz. Suíço de raízes familiares, brasileiro de nascimento, o Dr. Lutz passou a maior parte dos seus 85 anos de vida no Brasil, e pelo menos seus últimos 32 anos em Manguinhos. Sua contribuição científica a áreas tão diversas como clínica médica, helmintología, bacteriologia, protozoologia, malacologia, micologia, veterinária, dermatologia e entomologia; sua fecunda vida científica em diversos países e regiões do mundo; a conexão que fez entre a Escola Tropicalista Bahiana e a medicina revolucionada de Pasteur e Koch; e a influência que teve na formação de centenas de jovens cientistas tornam Adolpho Lutz uma das figuras mais proeminentes e singulares da história da ciência brasileira. Já era mais do que hora de fazer-lhe justiça e entronizá-lo devidamente no panteão científico nacional.
É por isso que estamos publicando esta verdadeiramente monumental Obra Completa de Adolpho Lutz. Organizada por Jaime Benchimol e Magali Romero Sá, dois dos mais competentes e produtivos historiadores da ciência do país, vem a lume em diversas expressões: uma publicação extensa associada à constituição de uma biblioteca virtual; possivelmente um documentário para televisão, uma exposição itinerante internacional e, quem sabe, outras manifestações devidas à magnitude do projeto.
Reunir a extraordinária obra do Prof. Lutz, composta de mais de 250 trabalhos, além de fotografias, desenhos, correspondência pessoal e muitos outros materiais, em diferentes formatos, foi, por si só, um processo que exigiu dedicação, competência e, sobretudo, paixão. Tenho certeza de que isto não faltou aos dois organizadores: profunda dedicação à atividade de história da ciência, com toda a complexidade que essa disciplina, síntese de tantas outras, exige; e paixão, admiração, diria até carinho pela vida e obra, personalidade e produção desse soberbo cientista brasileiro.
O resultado mais importante são as caixas contendo a obra de Adolpho Lutz, organizada em diversos livros, com sistematização temática, índices remissivos e tantos outros recursos para estimular o acesso a essa extraordinária produção. Os leitores estão convidados a ingressarem, com devoção, curiosidade, espírito crítico e muita sensibilidade no mundo pessoal e profissional de um homem complexo, criativo e racional, como foi o professor Lutz. Esperamos que cada um possa sair engrandecido e estimulado pelo exemplo de dedicação e amor pela ciência de Adolpho Lutz, glória e honra da ciência brasileira.
Prof. Paulo Marchiori Buss
Professor Titular da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio
Arouca e
Presidente da Fundação Oswaldo Cruz
In all branches of the fascinating human enterprise, great nations build their identities and affirm their influence through the care they bestow on their thinkers and scientists. Fundação Oswaldo Cruz created Casa de Oswaldo Cruz to keep alive the memory of Brazilian scientists in the fields of biology and health. With untiring diligence, the Foundation’s researchers have worked to preserve, recover, systematize, analyze, publish, project into the future, and, often times, take yet again another look at historic moments, major institutions, and prominent figures in Brazil’s still fledgling science.
The end of the nineteenth century and first decades of the twentieth were marked by a significant transformation in biological sciences and in the science of health around the world, thanks to Pasteur’s and Koch’s fantastic discoveries, the rediscovery of Mendel, and the emergence of genetic science. Many studies, books, and various and sundry types of documentation have already been published about this memorable phase of human history.
We know very well that Brazil did not stand aside this revolution in the sciences. Through a number of institutes around the country, led by Manguinhos in Rio de Janeiro and the Bacteriological and Butantan Institutes in São Paulo, Brazil also stepped onto the stage of the nascent young science. Even though Oswaldo Cruz and Carlos Chagas – to mention only two of Brazil’s noteworthy scientists of the day – lived far from the world’s main centers and toiled under quite adverse conditions, they made significant contributions to experimental medicine and biology in the field of infectious and parasitical diseases.
In this same period – that is, the fifty years around the turn of the twentieth century – the notable figure of Adolpho Lutz also stands out. A Brazilian of Swiss descent, Dr. Lutz spent most of his 85 years in Brazil and his last 32 at Manguinhos. Today he is considered one of the unique and most outstanding figures in the history of Brazilian science. His contributions encompassed such diverse areas as the clinical practice of medicine, helminthology, bacteriology, protozoology, malacology, mycology, veterinary science, dermatology and entomology. Lutz’s reputation also stems from his fruitful scientific life in different countries and regions of the world, the ties he made between Bahia’s Tropicalist School and Pasteur’s and Koch’s revolutionized medicine, and his influence over the formation of hundreds of young scientists. It is more than time to do justice to Adolpho Lutz by placing him in the pantheon of Brazil’s greatest scientists.
This is why we are now publishing this monumental collection entitled Obra Completa de Adolpho Lutz. Edited by Jaime Benchimol and Magali Romero Sá, two of Brazil’s most talented and prolific historians of science, the collection is being made public in several forms: the present extensive publication in conjunction with the creation of a virtual library; a possible television documentary; an international traveling exhibit; and, given the magnitude of the project, most likely in other forms as well.
Prof. Lutz’s prodigious works comprise over 250 papers, plus photographs, drawings, personal correspondence, and much more, in a variety of different formats. Bringing all these together was a process that in and of itself demanded dedication, skill, and, primarily, enthusiasm. I am certain the two editors lacked none of these. They both display a deep commitment to the history of science, with all the complexity demanded by this discipline, which is a synthesis of so many others. And they also possess an enthusiasm, admiration, and I would even say affection for the life and works, the personality and production of this illustrious Brazilian scientist.
The most important result of all these efforts are the boxes holding the works of Adolpho Lutz. They have been compiled in a number of books, organized by topic and supplemented with indexes and other resources that will facilitate access to this extraordinary material. I invite the reader to bring along his or her own enthusiasm, curiosity, and critical spirit and step into the personal and professional world of Prof. Lutz, a complex, creative, and rational man. I sincerely hope you will come to the end of the experience feeling richer, inspired by the example of the great and glorious Adolpho Lutz and his devotion to and love of science.
Prof. Paulo Marchiori Buss
Professor of Sérgio Arouca National Public Health School – ENSP,
and
President of Fundação Oswaldo Cruz
Há dois anos, quando fui procurado pelos coordenadores do projeto que resultou nesta edição da Obra Completa de Adolpho Lutz, o fato que mais me chamou a atenção foi a abordagem proposta, não somente por recuperar o acervo documental do grande pesquisador e cientista, como por apresentá-lo na forma comentada, contextualizando-o historicamente e mostrando sua relação com os conhecimentos científicos produzidos na época.
Certamente ficamos muito honrados em poder apoiar o projeto, sobretudo porque conhecia a produção da equipe da Casa de Oswaldo Cruz e seu pioneirismo na historiografia da saúde pública brasileira.
Tinha conhecimento da produção científica do brilhante profissional, em cuja homenagem foi batizado o instituto que dirijo desde a segunda metade da década de 1990. Entretanto, ao acompanhar o desenvolvimento do projeto, fiquei impressionado com a dimensão quantitativa e com a diversidade de temas e áreas do conhecimento em que o Dr. Lutz exerceu suas atividades. Seus trabalhos abrangem desde a história natural (incluindo a botânica), em sentido estrito, até a clínica e a saúde pública propriamente ditas. Quando eu ainda atuava diretamente na pesquisa em malacologia, na área de doenças endêmicas, tive a oportunidade de tomar contato com os trabalhos de Adolpho Lutz, pioneiro no Brasil nos estudos sobre moluscos que atuam como vetores da esquistossomose mansônica. No último quarto do século XX, permanecia sem resposta uma questão: no oeste do estado de São Paulo se haviam encontrado os hospedeiros intermediários da doença e havia grande quantidade de migrantes portadores dessa parasitose, mas não se detectava a presença de focos de transmissão. O enigma veio a ser esclarecido em meados da década de 1980 por Wladimir Lobato Paraense, quando ele descreveu nova espécie de planorbídeo – Biomphalaria occidentalis – e comprovou que era refratária à infecção pelo Schistosoma mansoni.
Tão importante quanto a produção científica de Adolpho Lutz é sua correspondência, que ajuda a ambientar o leitor nos cenários em que viveu, nos séculos XIX e XX. São centenas de cartas, em vários idiomas, que demonstram a intensidade com que o cientista interagiu com seus contemporâneos.
Outro produto essencial do projeto é a recuperação, organização e higienização dos documentos de Lutz. Eles nos fornecem os elementos para entendermos como se desenvolveu o pensamento biológico e sanitário brasileiro, ressaltando-se que Adolpho Lutz era um profissional de sólida formação quando se juntou aos jovens pesquisadores do instituto soroterápico de Manguinhos, exercendo forte influência sobre sua formação.
Por fim, gostaria de chamar atenção para o esforço incansável da equipe que produziu este trabalho, envolvendo numerosas idas e vindas entre Rio de Janeiro e São Paulo, além de extensa viagem a diversos países da Europa para rastrear e catalogar toda documentação possível. O resultado é esta magnífica edição, que certamente será de muito proveito para o leitor e que faz jus à memória de um dos maiores cientistas que o Brasil já teve.
Cristiano Corrêa de Azevedo Marques
Diretor Geral do Instituto Adolfo Lutz
Two years ago, when I was approached by the coordinators of the project that has produced this book, what impressed me most was that, not only were they going to recover historical documents of the great researcher and scientist Adolpho Lutz, but also would publish them with commentaries, putting his work in context and showing its relationship to the scientific knowledge of his time.
I was very honored to be able to support the project, especially because I was familiar with the publications of Casa de Oswaldo Cruz team and its pioneering work in the history of Brazilian public health.
I already knew the scientific work of this brilliant professional, whose name was given to the insititute I have directed since the mid-1990s. However, as I saw the project develop, I was impressed by the number and diversity of issues and fields of knowledge in which Dr. Lutz was active. His work ranges from natural history (including botany), in a strict sense, to clinical and public health work. When I was involved in malacology research on endemic diseases, I had the opportunity to see Adolpho Lutz’s pioneering work in Brazil on mollusks that are vectors for Manson’s schistosomiasis. In the last quarter of the 20 th century, only one question remained unanswered: in western São Paulo a large number of intermediate hosts of the disease had been found and there were many migrants who carried this parasitosis, but foci of contagion had not been detected. The enigma was cleared up the mid-1980s by Wladimir Lobato Paraense, when he described a new species of Planorbis – Biomphalaria occidentalis – and proved that it was resistant to infection by Schistosoma mansoni.
Adolpho Lutz’s correspondence is as important as his scientific work, because it helps the reader understand the 19 th th and 20 century environment in which he lived. Hundreds of letters in several languages show the intensity with which this scientist interacted with his contemporaries.
Another essential product of this project is the recovering, organization and cleaning of Lutz’s documents. They provide a basis for understanding Brazilian thinking on biology and public health, while showing that Adolpho Lutz was a professional with a very solid education when he joined the young researchers at the serotherapeutic institute at Manguinhos, strongly influencing their education, in turn.
Finally, I would like to commend the tireless efforts of the project team, involving many comings and goings between Rio de Janeiro and São Paulo and extensive traveling to different countries of Europe to trace and catalogue all possible documentation. The result is this magnificent publication, which will certainly be of great use to the reader and does justice to the memory of one of Brazil’s greatest scientists.
Cristiano Corrêa de Azevedo Marques
General Director, Instituto Adolfo Lutz
Adolpho Lutz deixou um legado científico de valor inestimável em diversas áreas. Parasitologia, veterinária, zoologia médica, bacteriologia, dermatologia e botânica são algumas das especialidades em que se destacou. Muitos de seus trabalhos tiveram caráter pioneiro, alguns permanecem inéditos. O volume e a relevância dessa produção intelectual, somados às características de personalidade realçadas pelos biógrafos, reforçam a imagem do pesquisador de laboratório, não obstante a intensa atividade experimental tenha se combinado com importantes ações na saúde pública. Além de atuar como diretor do Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo, alguns de seus estudos tiveram grande impacto na definição de campanhas sanitárias. Essa obra múltipla de um dos mais notáveis cientistas brasileiros, cuja publicação ora iniciamos, agora poderá ser mais conhecida e estudada graças ao incansável esforço de pesquisa da equipe coordenada por Jaime Benchimol e Magali Romero Sá.
Obra completa de Adolpho Lutz é mais do que um ambicioso projeto editorial. Trata-se de criteriosa investigação com base em extenso levantamento em que os pesquisadores lidaram com inúmeras dificuldades, inclusive as decorrentes do idioma alemão utilizado na maior parte da documentação consultada. Com toda certeza, abre uma senda para novas pesquisas tanto no campo biomédico como na história das ciências. No que se refere à pesquisa histórica, contribuirá para a reflexão sobre os mais variados aspectos: as relações entre medicina tropical e bacteriologia em fins do século XIX e início do século XX; o desenvolvimento de especialidades do campo biomédico; as faces internacional e nacional de uma notável carreira científica; a influência, ainda tão pouco estudada, que a pesquisa biomédica alemã teve em nosso país; e as complexas relações entre novos paradigmas científicos e implementação de políticas de saúde.
A Casa de Oswaldo Cruz, desde suas origens, vem procurando associar a atividade de preservação da memória institucional à adoção de perspectivas inovadoras para o estudo histórico da atividade científica. Desse modo, só pode sentir-se honrada em abrigar essa iniciativa. Mais do que tudo, valoriza a expressiva rede de colaboradores institucionais e individuais que, sob a liderança dos coordenadores do projeto, tornaram possível tal resultado. Diante do mérito da obra de um cientista com tantas faces como Adolpho Lutz, cuja trajetória se entrelaça a parte significativa da história da Fundação Oswaldo Cruz, todo esse notável esforço de pesquisa e divulgação é também um merecido e tardio tributo.
Nísia Trindade Lima
Diretora da Casa de Oswaldo Cruz Adolpho Lutz left an invaluable scientific legacy in many areas. Parasitology, veterinary science, medical zoology, bacteriology, dermatology and botany are some of the specialties in which he made a name for himself. Many of his studies were pioneer; some are still unpublished. Although the volume and value of his intellectual production, along with the personality traits highlighted by his biographers, reinforce our image of Lutz as a laboratory researcher, his intensive experimental activities were also complemented by important endeavors in the field of public health. Dr. Lutz served as director of Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo, and some of his studies had a major impact in the definition of sanitation campaigns. This diversified work by one of Brazil’s most eminent scientists will now be made available to a larger public through the inauguration of this project, thanks to the diligent efforts of the research team coordinated by Jaime Benchimol and Magali Romero Sá.
Obra completa de Adolpho Lutz is more than an ambitious editorial project. It represents a painstaking investigation based on a broad survey, which presented researchers with countless problems, including the fact that most of the consulted documentation is in German. The project undoubtedly opens the door to further research both in the biomedical field and in the history of science. In terms of historical research, it will contribute to reflections on a broad gamut of topics: the relations between tropical medicine and bacteriology during the late nineteenth and early twentieth centuries; the development of specialities within the biomedical field; the international and national facets of one man’s notable career in science; the influence of German biomedical research in Brazil, studied little to date; and the complex relations between new scientific paradigms and the implementation of health policies.
From the time of its founding, Casa de Oswaldo Cruz has worked to preserve Fiocruz’s institutional memory and to adopt innovative approaches in the historical study of scientific activities. And so, of course, is greatly honored to stand behind the present project. Above all, it values the impressive network of institutional and individual collaborators who, under the leadership of the project coordinators, have made it all possible. As a multifaceted scientist, Adolpho Lutz forged a career that intertwines with a meaningful part of the history of Fundação Oswaldo Cruz. Given the import of his works, this current initiative stands as a well-deserved if somewhat tardy tribute to the distinguished Brazilian scientist.
Nísia Trindade Lima
Director – Casa de Oswaldo Cruz
Criado por D. João VI em junho de 1818, o Museu Nacional foi, por quase um século, a principal instituição brasileira dedicada à História Natural, e ainda é um dos mais tradicionais centros de pesquisa da América Latina no campo das ciências naturais e antropológicas. Ao longo de sua história, esteve subordinado a diversos Ministérios (Agricultura, Justiça, Educação). Desde 1946, integra a Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Suas funções acadêmicas são desenvolvidas no âmbito de seis departamentos (Antropologia, Botânica, Geologia/Paleontologia, Entomologia, Zoologia de Invertebrados e Vertebrados), e de suas Coordenações de Pós-Graduação em Antropologia Social, Zoologia, Botânica, Geologia e Lingüística.
Desde suas origens, o Museu vem formando valioso acervo de documentos concernentes aos primórdios do trabalho científico no Brasil, e à dinâmica de diversas ciências em instituições congêneres do país e do exterior. Trata-se de uma documentação de valor inestimável não só para a memória da instituição e do palácio imperial em que está alojada, como para o resgate da história das ciências no Brasil, que têm no Museu um seus primeiros e mais importantes mananciais.
Por isso, é muito gratificante para nós apresentar o primeiro volume da obra do renomado cientista brasileiro Adolpho Lutz, uma vez que parte significativa dos documentos reunidos aí está sob a guarda do Museu Nacional. A constituição desta parte de seu acervo deve-se aos esforços envidados por Bertha Lutz para preservar a memória do pai após seu falecimento em 6 de outubro de 1940. Funcionária da instituição desde 1919, ela dedicou-se à árdua tarefa de organizar o arquivo de Adolpho Lutz, tendo em vista a publicação de uma biografia do cientista e a edição completa de sua obra. Trinta anos após a morte de Bertha Lutz (16.9.1976), o Museu Nacional, a Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Adolfo Lutz somaram esforços para viabilizar esta causa comum. Em fins de 2000, por iniciativa de dois pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz) —, Jaime L. Benchimol e Magali Romero Sá —, com o apoio de Maria José Veloso da Costa Santos, chefe da Seção de Memória e Arquivo do Museu Nacional, o projeto de publicação da obra de Adolpho Lutz foi retomado, incluindo, agora, além dos livros, a divulgação da obra do grande zoólogo brasileiro a um público mais amplo, através da biblioteca virtual que está sendo realizada em parceria com o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme).
O volume que trazemos a público contêm os livros referentes aos primeiros trabalhos de Adolpho Lutz (1878 e 1883), aos artigos e comunicações sobre a hanseníase, e às contribuições do autor à dermatologia e à micologia. Importa notar que cada livro vem acompanhado de um prefácio escrito por especialista da área e de uma apresentação histórica que contextualiza o assunto tratado.
Como diretor do Museu Nacional, somente tenho que me congratular com a iniciativa dos pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz, ressaltando que a qualidade do material que neste momento se oferece aos leitores em muito dignifica a história de nossa ciência e a memória de um de seus maiores representantes.
Sérgio Alex Kugland de Azevedo
Diretor do Museu Nacional
Founded in June, 1818 by Dom João VI, the Museu Nacional was Brazil’s primary natural history institution for nearly a century. It is also one of the oldest research institutions in Latin America in the area of natural and anthropological sciences. During its long history, the Museu Nacional has been subordinate to a number of governmental ministries, including Agriculture, Justice, and Education. In 1946, it became part of the University of Brazil, which today is known as the Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ). The Museum’s academic functions are carried out through six departments (Anthropology; Botany; Geology/Paleontology; Entomology; and Invertebrate and Vertebrate Zoology) and the coordinations of graduate programs in Social Anthropology, Zoology, Botany, Geology, and Linguistics.
Since the very beginning, the Museum has housed a valuable collection of primary documents from the early years of scientific work in Brazil. It also contains works relevant to the dynamic of diverse related sciences, both within Brazil and abroad. These rare documents are extremely important in terms of the memory of the institution and that of the imperial palace in which they are housed. They are also essential primary sources for tracing the history of science in Brazil, a history in which the Museum has played a quintessential role.
For these reasons, it is truly a pleasure to present this first volume of the work of the renowned Brazilian scientist Adolpho Lutz, since a significant part of the documents gathered here form part of the collection of the Museu Nacional. This part of the collection was created as a result of Bertha Lutz’ efforts to preserve her father’s memory after his death on October 6, 1940. A member of the museum’s staff since 1919, she devoted herself to the arduous task of organizing the Adolpho Lutz papers, with the goal of publishing a biography of her father’s life as well as a complete edition of his work. Thirty years after the death of Bertha Lutz on September 16, 1976, the Museu Nacional, the Fundação Oswaldo Cruz, and the Instituto Adolfo Lutz joined forces to make this goal possible. At the end of 2000, through the initiative of two researchers from the Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz), Jaime L. Benchimol and Magali Romero Sá, with the assistance of Maria José Veloso da Costa Santos, head of the Memória e Arquivo section of the Museu Nacional, the efforts to publish the work of Adolpho Lutz resumed. In addition to the publication of books, this endeavor now includes the dissemination of the work of this great zoologist to a wider audience through a virtual library, which is being implemented in partnership with the Latin American and Caribbean Center for Information on Health Sciences (Bireme).
The volume here brought to the public includes the works that became Adolpho Lutz’ first books (1878 and 1883), articles and papers on Hansen’s disease, and the author’s contributions to dermatology and mycology. It is important to note that each book is accompanied by a preface written by a specialist in the area and a historical analysis to contextualize the work.
As Director of the Museu Nacional, I can only congratulate the initiative of the researchers from the Casa de Oswaldo Cruz, emphasizing that the quality of the material herein offered to readers is a worthy contribution to the history of Brazilian science and to the memory of one of its most important proponents.
Sérgio Alex Kugland de Azevedo
Director of the Museu Nacional