Adolpho Lutz: Primeiros trabalhos: Alemanha, Suíça e Brasil (1878-1883)

Prefácios/Prefaces

Prefácio/Preface

 

Adolpho Lutz: uma vida dedicada à

ciência

 

Eu ouvi falar do Dr. Lutz, menino ainda, nas histórias que me contava Eduardo Marques, meu parente, que freqüentou o Instituto nos tempos heróicos – nos tempos de Oswaldo Cruz. Lá escreveu sua tese de doutorado, em 1907.

Nos jardins da casa de meu tio, Eduardo Tinoco, na rua Visconde de Caravelas, em Botafogo, nas tardes de sábado, essas histórias me fascinavam. Já disse uma vez que foram elas, bem como a leitura do Caçadores de micróbios de Paul de Kruif, que definiram a minha vida profissional, antes mesmo de entrar para a Faculdade de Medicina.

O Dr. Lutz aparece depois, nas conversas com Gustavo de Oliveira Castro, com Lobato Paraense, Ari Miranda, Hugo Souza Lopes e Olympio da Fonseca, entre outros. A imagem que me transmitem é quase sempre a mesma, varia pouco: sábio, excêntrico e irreverente. Com um humor muito especial. Difícil no trato, mas apesar disso fascinante.

Adolpho Lutz nasceu no Rio de Janeiro a 18 de dezembro de 1855.

Pedro II tinha trinta anos, mas desde os quinze reinava. Era louro, de olhos azuis, e também gostava de estudar. Menino ainda, o futuro imperador escrevera à madrasta: “Sua ternura materna adivinha os meus gostos: nada realmente pode ser mais agradável

do que aquilo que se relaciona com o estudo”.1 Não tinha, portanto, a cara do Brasil. Mas amava este país, e era amado por ele.

Penso que o mesmo acontecia com o Dr. Lutz.

Aquele Brasil de 1855 era um país rural, dos barões do café que iriam continuar barões, mesmo depois da proclamação da República. Do padroado, das procissões e festas de igreja. Do poder moderador. Dos liberais e conservadores. Já havia a Lanterna Mágica e as primeiras caricaturas. Mas ainda viriam Ângelo Agostini e Bordalo Pinheiro. A primeira estrada de ferro e a iluminação a gás tinham sido inauguradas apenas um ano antes.

A Guerra do Paraguai ainda estava por acontecer. Solano Lopes andava pela Europa, aprendendo boas maneiras e seduzindo Mme. Linch. Machado de Assis era menino, portanto nem Helena, nem Iaiá Garcia, nem Quincas Borba, nem Capitu nem o Conselheiro Aires tinham vindo ao mundo. É verdade que em ciência, já se fizera a viagem filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira e a Flora Fluminense de Frei José Mariano da Conceição Veloso.

Na História das ruas do Rio, de Brasil Gerson, leio à página 381: “Na Farani, morava o Senador Cristiano Ottoni, primeiro diretor da Central do Brasil, e D. Mathilde Lutz, mãe e avó de cientistas dos

mais ilustres, tinha o seu colégio Suíço-Brasileiro”.2

Pertinho da casa de minha avó, depois de meus pais. Rua da Piedade, hoje Clarice Índio do Brasil. Ali passei minha infância. Não havia mais a casa dos Lutz, mas restava o colégio, hoje Universidade Santa Úrsula.

Na biologia, a evolução era objeto de polêmica. E não se deve esquecer nosso Fritz Müller – protegido da princesa – o da Lei Biogenética Fundamental. Foi chamado por Darwin “o príncipe dos observadores”. Corresponde-se com os grandes centros científicos da Europa, como faria Lutz mais tarde. Fritz Müller de Desterro, Santa Catarina, com Haeckel, de Berlim, e Huxley, de Londres. Recebe convites da Europa: “Uma cátedra em Berlim? Não, prefiro ensinar os meninos daqui. Além do mais, gosto de andar descalço”. Transcrevo do mestre Otto Bier: “No dia 30 de abril de 1878 foi apresentada à Academia de Ciências de Paris a sensacional comunicação de Pasteur, Jubert e Chamberland sobre a teoria dos

germes”.3 Lutz é nessa época estudante de medicina, já em fim de curso, na Suíça. Diploma de médico em 1878. Doutor em medicina, após defesa de tese, em 1880.

Além de estudos especiais de biologia, de ginecologia e obstetrícia. E de Cirurgia, com Lord Lister em Londres.

Em 1881 Lutz está de volta ao Brasil. Exames para revalidação do diploma de médico. Quer exercer a profissão no Brasil, ainda Império. Mudara um pouco, mas não muito. Afinal de contas, já se disse, o século só terminaria em 1914.

É verdade que já havia o clube republicano, e o movimento abolicionista tornava-se cada dia mais forte. Apesar da Revolta do Quebra-quilos, nos tínhamos incorporado ao sistema métrico decimal. Pedro II já viajara pelos Estados Unidos e pela Europa. Já florescera a Escola Tropicalista Bahiana.

São os tempos de Zola, Hugo e Anatole France. Ibsen escreve Casa de bonecas, e Tolstói nos lega o genial Guerra e paz. Em Paris, os impressionistas revolucionam a pintura. Na Alemanha, a filosofia de Nietzsche, a música de Wagner. E destaca-se Rudolf Virchow, mestre que se movimenta, sempre elegante e seguro, pelos meandros da patologia celular, da antropologia, da política e até mesmo em barricadas de rua.

O fato é que Lutz volta. Certamente não teria dificuldade em se fixar na Europa, com uma cátedra universitária ou no exercício da clínica. Mas volta. E tem humor.

De uma história contada por Gustavo de Oliveira Castro: sábio estrangeiro pretensioso visita seu laboratório. Lutz faz-lhe uma série de perguntas, e o visitante vai ficando, pouco a pouco, sem resposta. Constrangido, este reclama: “O senhor está me sabatinando?”. A que ele responde: “Precisamente, e o senhor está se saindo muito mal”. Um pouco cáustico, é verdade. Mas no ponto, e com graça.

Em 1908, a convite de Oswaldo Cruz, vem para o Rio. Um Rio que mudara muito em pouco tempo. Por causa de Oswaldo e de Pereira Passos. A rua do Ouvidor perdia prestígio para a avenida Central. Já havia o Teatro Municipal. Lembra-me minha avó, contando histórias da proclamação da República e da passagem do século: “O povo chorava nas ruas com saudade do velho Imperador”. Compras na Europa pelos Colis Postaux. Vendedores na porta de casa. O geleiro, o quitandeiro, o peixeiro, o balde de gelo para sorvete e o periquito que tirava a sorte.

Vem para Manguinhos Adolpho Lutz. É um homem maduro, com mais de 50 anos, cientista respeitado no mundo inteiro. Foram-se os tempos dos estudos sobre lepra no Havaí, da direção do Bacteriológico, da clínica em Petrópolis, Limeira e São Francisco, esta na Califórnia. Finalmente vai poder se dedicar inteiramente à pesquisa.

E em Manguinhos, no seu apogeu. Manguinhos do recente trabalho de Aragão sobre o ciclo evolutivo do Haemoproteus columbae, das campanhas contra a febre amarela, a varíola e a peste bubônica. Doença de Chagas, só no ano seguinte.

Em Manguinhos, onde se chegava de barca ou de trem, Lutz finalmente se instala. Apesar de algumas viagens, aí vai trabalhar, intensamente, como sempre, até o fim de seus dias, em 1940. Contava Hugo Souza Lopes que, já cego, no final da vida, mantinha-se atualizado com as últimas descobertas científicas graças à filha Bertha, que lia para ele.

O laboratório do Dr. Lutz ficava à direita de quem entra no prédio do castelo, no primeiro andar, onde hoje fica a direção do Instituto Oswaldo Cruz. Falava-se baixo quando se passava na porta. Por respeito ou por medo.

Para prefaciar o primeiro livro da Obra Reunida de Adolpho Lutz, recebo a relação dos primeiros trabalhos do mestre realizados entre 1878 e 1883. A amplitude de interesse já se faz sentir nos artigos de zoologia pura sobre os crustáceos cladóceros, nos casos clínicos e na correspondência em que analisa as condições de vida em nosso país.

Em 1878, “Beobachtungen über die Cladoceren der Umgegend von Leipzig” e ainda”Untersuchungen Über die Cladoceren der Umgebung von Bern”. Trata-se do estudo sistemático dos cladóceros encontrados em águas próximas às duas cidades, o primeiro relatado à sociedade local de naturalistas por Karl Georg Friedrick Rudolf Leuckart (1822-1898), titular de zoologia em Leipzig com quem Lutz aprendeu novas técnicas de microscopia.

São crustáceos de plâncton de água doce, embora existam espécies marinhas; em certas épocas do ano, podem ser os principais consumidores primários da cadeia alimentar.

O trabalho não se limita à classificação das espécies encontradas, mas, com uma visão ecológica moderna, estabelece relação com os diferentes tipos de ambiente e as diferentes espécies. No artigo de Berna, realizado durante uma primavera e um verão, desenvolve tema proposto pela Universidade para um concurso de monografias. Nesse trabalho, Lutz declara ter encontrado 42 espécies distribuídas em 19 gêneros. A lápis, faz alguns acréscimos ao texto impresso.

Elogia os trabalhos de P. E. Müller e Sars feitos na Dinamarca e em Cristiânia, descreve as diferenças entre espécies encontradas na Suíça, tratando de sua distribuição geográfica e suas variações anuais. Mas, impressionado com as semelhanças, Lutz cita Müller:

Cette faune appartient à une aire zoologique qui, selon l’état

actuei de nos connaissances, occupe toute la partie centrale et

occidentale de l’Europe à partir des hautes montagnes de la

Scandinavie jusqu’aux Alpes, du centre de la Russie jusqu’à

l’Atlantique.

Mais adiante, adverte que a região onde trabalhou não se presta ao estudo da distribuição vertical porque os pontos estudados acham-se todos entre 500 e 600 metros acima do nível do mar.

Trata da fauna de superfície e de região mais profunda. Chama atenção para os mecanismos de disseminação, ressalta o transbordamento das águas correntes e o transporte por pássaros aquáticos, afastando, assim, o transporte pelos ventos. Estuda, ainda, o papel dos predadores de cladóceros e a competição entre as espécies.

Trata-se, sem dúvida, de um trabalho completo em que o mestre, ainda jovem, já mostra suas qualidades de fino observador.

Seguem-se dois trabalhos sobre assuntos médicos. Em “Ein Fall von Acuter fibrinõser Bronchitis”, Lutz trata de um caso de bronquite fibrinosa aguda por ele observado quando era médico assistente do hospital cantonal de St. Gallen. Justifica a publicação pela raridade do caso.

Em 1880 defende na Universidade de Berna sua tese de doutorado: “Ueber die Therapeutische Wikung der Quebrachopräparate”. Esse trabalho vai ganhar versão em português para reconhecimento do diploma no Império do Brasil: “Sobre o efeito terapêutico do quebracho-colorado”, com data de 1881. Na capa, lê-se que Adolpho Lutz é doutor em medicina, cirurgia e partos pela Faculdade de Berna.

Em seguida vem “Literatura sobre as preparações denominadas Quebracho”. São catorze referências entre 1879 e 1880. Descreve as plantas de onde o produto é retirado, e informa que “na farmacologia hoje é conhecido pelo nome de quebracho-colorado em virtude de sua cor mais roxa, distinguindo-se assim do quebracho-branco”.

Introduz maneira nova na preparação, que designa Extratum depuratum. Relata experiências feitas em si próprio que produziram apenas leve sensação de calor na cabeça e nenhum efeito notável sobre a pressão e temperatura.

Passa então ao estudo da ação dessa substância na dispnéia. Suas observações foram feitas na clínica médica de Berna e no hospital cantonal de St. Gallen. Separa os casos estudados em:

a) Moléstias primárias dos órgãos da respiração, como tísica

pulmonar, estenose da laringe, da traquéia e dos brônquios

maiores, enfisema pulmonar etc.

b) Alterações da respiração sem doença primária dos órgãos

respiratórios, com um capítulo sobre alterações causadas por

anomalias da circulação.

c) Alterações da respiração não causadas por moléstias

primitivas dos órgãos da respiração e da circulação.

Depois da análise minuciosa dos casos referentes a cada uma das categorias, conclui:

Comparando essas observações feitas com quebracho-

colorado com as experiências com o quebracho blanco por

Penzoldt, acha-se uma concordância evidente.

Como não conhecemos outras substâncias que gozam do

mesmo efeito é muito provável que o princípio eficaz seja o

mesmo ou pelo menos muito similar.

Porém não pode ser a aspidospermina, mas deve ser uma

substância mais eficaz quando administrada em doses

pequenas e menos tóxicas em doses grandes. Ambas as

preparações sem serem panacéias têm porém obtido tantos

resultados favoráveis que nós as julgamos destinadas a suprir

uma lacuna no nosso erário terapêutico, e esperamos que em

breve estejam ao alcance de todos os doentes.

De acordo com o modelo vigente à época, seguem-se as teses correspondentes às diferentes cátedras. Assim, por exemplo:

Anatomia descritiva: “o canal colédoco passa freqüentemente

através da cabeça do pâncreas”.

Fisiologia: “a alimentação mista é a que convém ao homem,

como o prova a organização deste”.

Patologia cirúrgica: “a elenfantíase-dos-árabes pode ser

provocada por diferentes processos patológicos”.

Ginecologia: “a metrite e a ovarite crônicas são as causas mais

freqüentes da histeria”.

E assim por diante. Em seguida vêm os Hippocratis aphorismi, evidentemente em latim. Começa por “Natura corporis est in medicina principium studii” (Sect. VI Aph. 6), e lista mais cinco, terminando por “Vita brevis, ars longa, occasio praeceps, experimentum periculosum, judicium difficile” (Sect. I Aph. I).

Fechando a tese, na versão em português, lemos o atestado de conformidade aos estatutos, assinado pelos doutores J. J. Pizarro, Nuno de Andrade e Oscar Bulhões em 20 de dezembro de 1881.

Trata-se, sem dúvida, de um trabalho primoroso.

Os dois artigos seguintes, intitulados “Correspondenz-Blatt für Schweizer Aerzte”, são informações que Lutz envia daqui para médicos suíços, especialmente relacionados ao curso médico e à revalidação do diploma para profissionais formados em outros países. É muito crítico em relação ao ensino no Brasil e ao comportamento das pessoas. Lembra que a grande influência estrangeira ainda é a francesa, e dá a impressão de uma pontinha de ciúme.

Lutz e Oswaldo são duas personalidade fortes. Mas são complementares, diferentes. Por isso se entendem. Admiram-se. Oswaldo dirige. No laboratório, Lutz desenvolve seus trabalhos de pesquisa. É um exemplo.

Muito se tem discutido sobre as condições do êxito das instituições européias quando trazidas para o trópico. Têm de se adaptar às condições locais, do contrário fracassam.

Sobre Oswaldo já escrevi. A capacidade de sintetizar em sua personalidade complexa o europeu moderno – nos bigodes à Kaiser, na cartola alta, na gravata à príncipe de Gales – com as tradições da terra – senhor de engenho, homem de cá.

Lutz também, à sua maneira, ajustou-se. Entendeu o Brasil. Ficou e teve êxito. Marcou muito a geração que conviveu com ele, e marcou também as que vieram depois. Não é por acaso que as histórias do dr. Lutz continuam a ser contadas até hoje pelos corredores da Fundação Oswaldo Cruz. Até hoje ele fascina.

Neiva, discípulo e colaborador em vários trabalhos, escreveu:

Procurei, muitas vezes, achar uma explicação para a

impressionante soma de saber que Adolpho Lutz conseguira

acumular em vários departamentos dos conhecimentos

humanos. Julgava encontrá-la, em parte no fato de se ter

formado na Suíça... No domínio que possuía de vários idiomas,

nas longas viagens que fizera no estrangeiro, fatores esses que

no entanto não explicavam tudo ... Isso ocorreu, porém, porque

a avidez de investigar e aprender que o abrasava provinha,

principalmente – e esta é a mais natural das explicações –, por

ter sido um naturalista nato, condição que suscita nos

portadores de tal dom a sede perene de saber.4

Lembra uma história parecida. A do velho Cancio, tio-avô de meu amigo Arlindo Fábio. Era típico gaúcho de fronteira, alto, desempenado. Tendo vindo para o Rio com as tropas da Revolução de 1930, por aqui andava de chapéu de aba larga, lenço no pescoço, botas, esporas e o punhal sempre na cava do colete.

Um repórter o entrevista e diz: “General, o senhor que esteve entre os mais brilhantes soldados da revolução, que abandonou as suas terras, sua china, seu gado, seu pampa. Que correu riscos e tanto sacrifício fez, pretende agora voltar à paz de suas terras, ou vai dar mais uma cota de sacrifício, participando da nova organização do país?”.

No que ele, no seu linguajar truncado de fronteira, responde: “Ora, peleo porque me gusta pelear”.

Luiz Fernando Rocha Ferreira da Silva

Professor titular da Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação

Oswaldo Cruz

 

1 CALMON, P. História de D. Pedro II. Tomo I. Infância e mocidade, 1825-1853. Rio de Janeiro: J. Olympio Ed., 1975.

2 GERSON, B. História das ruas do Rio. 4.ed. Rio de Janeiro: Livr. Brasiliana Ed., 1965.

3 BIER, O. Bacteriologia e Imunologia. 17.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1976.

4 NEIVA, A. Necrológio do Professor Adolpho Lutz – 1855-1940. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, t. 36, fasc. 1, p.I-XXIII, 1941.