Adolpho Lutz: Primeiros trabalhos: Alemanha, Suíça e Brasil (1878-1883)

Adolpho Lutz: formação e primeiros trabalhos

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

trabalhos

 

Magali Romero Sá; Jaime Benchimol

 

Adolpho Lutz: origens familiares

A o tratar das origens dos Lutz, uma das famílias mais tradicionais de Berna, os biógrafos dão destaque ao avô do cientista brasileiro, Friedrich Bernard Jacob Lutz, personagem importante na história da medicina suíça. Filho de Abraham Jacob Lutz (1756-1817) e de M. Elizabeth Barth, Friedrich nasceu em Lichtenfteig, em 28 de janeiro de 1785, e migrou com a família para Gesteid bei Interlaken, em

1794. 1 Foi educado pelo pai, pastor culto, versado nos clássicos antigos, e desde cedo revelou inclinação para o estudo da medicina, que não pôde fazer por falta de recursos.

Friedrich Bernard alcançou a maturidade numa conjuntura tumultuada da Confederação Helvética. De 1798, ano em que o exército napoleônico conquistou seus 13 cantões e submeteu-os à República Helvética, até 1815, quando o Congresso de Viena ratificou o novo pacto confederativo, além de perder sua autonomia, a Suíça perdeu território, com a anexação das regiões do Jura e de Neuchâtel à França. A política protecionista da França em relação às suas manufaturas, com forte taxação das mercadorias importadas, abalou os cantões romandos, muito mais do que os germânicos, que mantinham relações comerciais mais estreitas com a Prússia, Baviera e outras regiões do Império Austro-Húngaro.

A Revolução Francesa conquistara a adesão de numerosos democratas que haviam participado da revolta contra a burguesia de Genebra, em 1782, refugiando-se muitos deles em Paris antes de retornarem à Suíça com as tropas francesas. Friedrich Bernard, que simpatizava com os democratas, acompanhou o exército francês na fuga para Baadtland após a reação federalista, que levou Bonaparte a impor o “Ato de Mediação” em 1803, restaurando a organização confederativa, mas conservando o controle do país pela França.

 

Brasões da família Lutz, cujos integrantes eram cidadãos de Berna

desde 1559. Vinculados à corporação de ofício dos carpinteiros,

usavam preferencialmente o segundo brasão. Wappenbuch der

burgerlichen Geschlechter der Stadt Bern. Herausgegeben von der

Burgergemeinde. Bern: 1932.

Em 1804, Friedrich Bernard Lutz tornou-se médico assistente do hospital militar de Berna. Conseguiu que o enviassem a Munique, onde assistiu às aulas na universidade e visitou maternidades e hospitais. Mas a época não era propícia a estudos acadêmicos tranqüilos. Os exércitos daquela Europa conflagrada ofereciam melhores oportunidades práticas para um jovem se adestrar em medicina. No outono de 1805, Friedrich Bernard engajou-se como chirurgien sous-aide-major no exército napoleónico e, nos dias que se seguiram a Austerlitz e Magram, serviu nos hospitais de Munique, Lins e Braunau. Somente em 1807 conseguiu doutorar-se em medicina e cirurgia na Universidade de Heidelberg.

O Congresso de Viena (1815) redesenhou o mapa da Europa, e a Confederação Helvética readquiriu as fronteiras anteriores a 1789. O poder confederativo permaneceu, no entanto, fraco. Berna, Basiléia e Neuchâtel resistiram às reformas impostas pela burguesia liberal entre 1827 e 1831, à época em que nova vaga revolucionária varria a Europa. Os partidários da Jovem Suíça, de inspiração

mazziniana, 2 e os radicais, anticlericais e democratas dirigiram a confederação entre 1835 e 1845, enquanto outros estados europeus viviam sob o jugo de monarquias restauradas. Em setembro de 1848, ao mesmo tempo que ressurgiam as barricadas em numerosas capitais européias, foi promulgada a primeira constituição, instalando-se em Berna o governo central e a assembléia nacional da Confederação Helvética.

Mapa político da Suíça obtido no site

www.wsl.ch/hazards/3rdDFHM/pictures/schweiz.jpg

O avô de Adolpho Lutz desempenhou papel relevante nesses acontecimentos. Chefiou o serviço de vacinação antivariólica de 1811 a 1818. Em 1815, tornou-se médico-chefe do exército da confederação, então com cerca de 45 mil homens. Em janeiro de 1831, meses depois do levante popular que terminou com o triunfo dos democratas, foi nomeado médico-chefe das tropas de Berna, mantendo-se à frente do serviço médico do exército da confederação por mais quatro anos. Em 1859, Friedrich Bernard Jacob Lutz foi eleito membro do Conselho de Berna, condição prestigiosa que lhe dava o direito de votar e seguir portando armas. Terminou a carreira como vereador da capital suíça, “numa época em que a Câmara Municipal desafiava o governo federal”.

Por volta de 1812, casou-se com Margareta Sophie Wyss (1770-1815?); contraiu segundas núpcias em 1814 com Maria Stuber (1791-1819); e em 1824 casou-se pela terceira vez com Maria Elisabeth Bitzius (1797-1857). Um de seus três filhos, Gustav Lutz, nascido em Brunnengasse, cidade do cantão de Berna, em 31 de maio de 1818, casou-se em 1849 com Mathilde Oberteuffer (1824-1893). Naquele ano ainda, após a viagem de núpcias, o casal emigrou para o Brasil.

 

Friedrich Bernard Jacob Lutz (1785-1861), avô de Adolpho Lutz.

Ludwig Lauterburg. Berner Taschenbuch auf das Jahr 1862. Bern,

Druch und Verlag der Haller’schen Buchdruckerei, 1862, p.269-84.

A vinda dos Lutz articula-se a um movimento de imigração que tinha já três décadas de história. No cómputo geral do século XIX, os suíços representaram um dos menores contingentes de imigrantes, comparados a portugueses, italianos, espanhóis e alemães, mas protagonizaram as primeiras experiências de colonização dirigida do Brasil oitocentista, que deram origem a Nova Friburgo, na província

do Rio de Janeiro,3 à colónia Leopoldina, na Bahia, e às colónias formadas em São Paulo, em meados do século, pela empresa do senador Nicolau de Campos Vergueiro, com o objetivo, agora, de substituir a mão-de-obra escrava nas fazendas de café.

N.114 – LUTZ, Bernhard Friedrich/médico e cirurgião em Berna. Palestra apresentada em Burgdorf, em 22 de junho de 1825. Acervo

da Burgerbibliothek Bern: Mss.h.h.XXXIX 28.105-cover.

Palestra de abertura na Sociedade Médico-Cirúrgica do cantão de

Berna, proferida pelo Dr. Lutz. Acervo da Burgerbibliothek Bern:

Mss.h.h.XXXIX 28.105-titel.

Segundo Bertha Lutz em 4 Lutziana , seus avós Gustav e Mathilde chegaram ao Rio de Janeiro em janeiro de 1850. Teria sido, então, no auge da gravíssima epidemia de febre amarela que varreu, pela primeira vez, a capital brasileira, causando 4.160 mortes, de acordo com os dados oficiais, ou até 15 mil vítimas, segundo a contabilidade oficiosa. Adolpho Lutz (1930, p.2) escreveu, porém, que seus pais conheceram o Rio de Janeiro livre ainda da doença, o que significa que devem ter desembarcado pouco tempo antes de 28 de dezembro de 1849, data em que um médico natural de Lubeck, Robert Christian Berthold Avé-Lallement (1812-1884), diagnosticou os primeiros casos na enfermaria dos estrangeiros do

Hospital da Santa Casa da Misericórdia. 5

Livro com registro da emigração da Suíça para o Brasil de Mathilde Lutz, nascida Oberteuffer, mãe de Adolpho Lutz, com data de 25 de outubro de 1849. As colunas registram dados sobre cidade natal ou

local de residência (Berna); dignidade ou profissão (sem registro) e

“signalement” ou características físicas: verifica-se, então, que tinha

25 anos, 5 pés de altura, cabelos e sobrancelhas castanhos, rosto

oval, nariz, boca e queixo normal. Berna, Staatsarchiv, Pässe n.3,

147-1852, BB XIIIa55.

Na capital brasileira nasceram quase todos os dez filhos do casal, inclusive Adolpho, em 18 de dezembro de 1855.

Em sociedade com outro suíço chamado Keller, Gustav Lutz fundou uma casa de importação de “fazendas secas” e exportação de

gêneros agrícolas, na rua do Sabão, 44A.6 Em 1857, os Lutz regressaram a Berna, confiantes em que o sócio cuidaria bem do negócio. A decisão talvez fosse motivada pela insalubridade do Rio de Janeiro. Além da febre amarela, que passou a grassar quase todos os verões depois da crise de 1849-1850, enfrentaram, em 1855, devastadora epidemia de cólera, detectada justamente na rua do Sabão, onde adoeceu o escravo de ganho do negociante Leon Cohn (Gerson, 1965, p.88).

Panorama do Rio de Janeiro, litografia de Iluchar Desmons (1803,

França – ?). Desenhista, professor e litógrafo francês, fixou-se no

Rio de Janeiro em 1840. Com os desenhos feitos em 1854, imprimiu

em Paris, no ano seguinte, na oficina litográfica de Lemercier, o

álbum Panoramas de la Ville de Rio de Janeiro, com treze

litografias. Esta tomada do morro de Santo Antônio mostra o cais

Pharoux (atual praça XV de Novembro) onde desembarcou a família

de Adolpho Lutz quatro anos antes. Biblioteca Nacional.

Mapa arquitetural do Rio de Janeiro (1874), executado pelo

engenheiro J. Rocha Fragoso e gravado por M. J. Aranha, mostrando as fachadas dos prédios da área central. Neste

segmento, o cais Pharoux e as docas do mercado e da Alfândega.

Biblioteca Nacional.

Nova planta da cidade do Rio de Janeiro (1864), organizada pelos

editores Eduardo e Henrique Laemmert. Oriundos do grão-ducado

de Baden, tinham se estabelecido no Brasil em 1837. O mapa

registra praças, largos, ruas, travessas, ladeiras, igrejas e edifícios

públicos da cidade, cuja malha urbana começava a ultrapassar o

Campo de Santana, de um lado, e o outeiro da Glória, de outro,

vendo-se, nesta vertente, os sinais de ocupação até a praia de Botafogo, com penetrações rumo a Laranjeiras e a Botafogo. A

criação das primeiras linhas de carris urbanos na década de 1870

impulsionaria a expansão urbana nestas duas direções. Museu

Histórico Nacional. Mapoteca da Secretaria de Estado das Relações

Exteriores.

Rio de Janeiro, gravura em madeira de 1861 representando a orla

compreendida entre o outeiro da Glória, à esquerda, o morros do

Castelo, ao centro, e o de São Bento, à direita. O cais Pharoux

situava-se entre os dois últimos morros.

www.lombardmaps.com/cat/viewsforeign/southamerica/rio.jpg

Fotografia tirada na década de 1880. Família de Adolpho Lutz na

escadaria do prédio que servia de residência e de sede do “Colégio

Suisso Brazileiro”, na rua da Princeza Imperial, n.33, no bairro do

Catete, onde funcionou até 1886, ou rua Farani n.12, em Botafogo,

para onde se transferiu em 1887. Em primeiro plano, a mãe de

Adolpho Lutz, Mathilde Oberteuffer Lutz, segura a mão da neta,

Gertrude Lutz Warnstorff, nascida em 24.6.1880. À direita, Gustav,

pai do cientista, e à esquerda, a outra neta de Mathilde, Paula

Elisabeth Lutz Warnstorff. Em segundo plano, à direita da foto, a

segunda irmã de Adolpho Lutz, que herdou o nome da mãe

(Mathilde), e, à esquerda, Maria Elizabeth, a irmã primogênita, mãe

das duas crianças. A seu lado, um dos irmãos, Gustav ou William

Robert. Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Departamento de Arquivo e

Documentação, Setor iconográfico, Série Personalidades, Pasta IOC (P) LUTZ, A-7. Foto existente também no Instituto Adolfo Lutz.

As relações entre Keller e Gustav deterioraram-se, 7 e em 1864 os Lutz regressaram à capital brasileira, deixando, porém, os três meninos maiores na Basiléia, para cursarem a escola.

Mathilde Oberteuffer Lutz parece ter sido tão empreendedora quanto o marido. Brasil Gerson (1965) menciona a mulher culta que fundou um colégio suíço-brasileiro em Botafogo, na rua Farani, próximo à residência do senador Cristiano Ottoni, primeiro diretor da Estrada

de Ferro D. Pedro II. 8 No exemplar de 1880 do Almanak Laemmert encontra-se a primeira referência ao “Colégio de Meninas dirigido por d. Mathilde Elena Lutz”, na rua da Princeza Imperial, 33, no bairro do Catete. No ano seguinte, passou a chamar-se Colégio Suisso-Brasileiro. Em 1887, transferiu-se para a rua Farani, 12.

Anúncios publicados no Almanaque Laemmert em 1881, 1882 e

1889 (www.crl.uchicago.edu/info/brazil/pindex.htm).

 

Primeiros estudos

Adolpho Lutz viajou com os pais para a Suíça quando tinha dois anos; viveram juntos até 1864, depois permaneceriam afastados por 17 anos. Quando os pais regressaram para o Brasil, Adolpho, com nove anos, seu irmão mais velho, Gustav, com dez, e o menor, Friedrich Eugen, nascido na Suíça, com apenas sete ou oito anos ficaram sob os cuidados de familiares na Basiléia, e foram educados por preceptores locais, cursando aí o primário.

Durante a infância, Adolpho Lutz desenvolveu especial interesse pela história natural. Observar e colecionar espécimes fazia parte do aprendizado sobre a natureza, e constituía atividade social que combinava divertimento familiar e desenvolvimento intelectual, ainda em voga na segunda metade do século XIX. Moluscos com suas conchas, insetos, plantas, fósseis, rochas e minerais integravam coleções que eram admiradas, trocadas ou adquiridas por amadores e profissionais. A riqueza faunística e florística do Novo Mundo, já conhecida dos europeus através de relatos e espécimes trazidos por viajantes, despertava grande interesse nos colecionadores. Na carta que enviou da Basiléia, em 5 de agosto de 1865, a sua irmã Helena, que havia retornado ao Brasil com a família um ano antes, Adolpho Lutz já demonstrava seu instinto de colecionador e sua vocação para observar o mundo natural:

 

Basiléia, ponte sobre o Reno, por volta de 1884 (Meier, 1980, p.151,

fig. 180).

Riehentor (Portão Riehen), 1864. Edificado no século XIII, era o

mais elaborado portão de acesso à cidade de Basiléia (Meier, 1980,

p.191, fig. 228).

O ‘Aeschenvorstadt’, em foto tirada da praça Aeschenplatz por volta

de 1880 (Meier, 1980, p.59, fig.56).

Junto à Fonte de St. Elizabeth por volta de 1875. Esta fonte

edificada em 1863 é encimada por uma estátua em granito de R. H. Meili que representa a santa carregando um pão e um jarro de água

(Meier, 1980, p.45, fig. 38)

A primavera principiou com vigor e os brotos das árvores estão

se abrindo. Este ano há muitas violetas e eu conheço os

melhores lugares em que as podemos encontrar.

Quando houver oportunidade, não esqueçam de nos enviar

alguns objetos de história natural, caramujos, cavalinhos

marinhos, concha de náutilos e pedras mais raras, caso

possível, vários exemplares para podermos trocar.

Mandamos fazer uma casinhola para lagartas e vamos criá-las,

mas também vamos apanhar borboletas e esperamos obter

muitas para nossa coleção, embora a Basiléia não seja o

melhor lugar. Em Berna conheço lugares muito melhores.

Também queremos começar uma coleção de plantas secas, e

precisamos de folhas e flores brasileiras secas, de preferência

com os nomes. Nisso o Theophil Gautier também vai ajudar. Já

temos algumas plantas secas, mas temos ainda pouca prática

de secar. O livro sobre plantas vai servir-nos muito para plantar

nossos jardinzinhos.9

O interesse pela história natural aumentou e, aos 15 anos, quando estava prestes a ingressar no curso secundário e se deparava com a difícil decisão de optar por uma profissão, a de naturalista impôs-se como a verdadeira vocação do jovem Lutz. Em carta à mãe, em 4

de fevereiro de 1871, ele expôs seus anseios: 10

Veja, o que vou dizer são coisas em que acredito sinceramente,

e tenho a esperança de que a sra. também as aceite como

verdadeiras. Nem sei se será preciso trabalhar com muita

assiduidade, principalmente se quiser seguir uma das carreiras

com que me acenam. Quero falar mais uma vez a respeito de

minhas aspirações e propósitos quanto ao futuro. O que sempre

desejei em criança e, sem refletir devidamente, ainda o desejo

agora, é ser pesquisador em ciências naturais. Medito muito

sobre esta aspiração. Também penso muitas vezes que talvez

seja preciso um estudo para ganhar o pão. Em regra geral,

ocorre-me em primeiro lugar a medicina, embora também me

sinta atraído pela filosofia ... Se pudesse ser professor de

ciências naturais também serviria. Vou acumulando todos os

conhecimentos de história natural que consigo adquirir, faço

observações próprias, assisto a preleções públicas e, durante

as férias, estudo todos os livros de biologia ao meu alcance.

Realmente, não há muitos destes à minha disposição. Quase

peço autorização para adquirir um bom tratado de história

natural que me possa servir também mais tarde e durante toda

a minha vida. Espero, com o auxílio de Deus, chegar a ser um

verdadeiro naturalista. De minha parte, contentar-me-ei em

viver muito modestamente se puder ser um bom pesquisador. A

realização dessa aspiração não me parece de todo impossível.

O Sr. Massini, da Basiléia, com quem tenho conversado a

respeito, deu-me grandes esperanças.11

Nesse mesmo ano, 1871, Lutz ingressou no Gymnasium de Berna onde iria adquirir sólidos conhecimentos de grego e latim. Segundo Pyenson & Sheets-Pyenson (1999, p.57), esses idiomas eram, à época, indispensáveis para que o aluno fosse admitido na universidade, admissão franqueada mediante a apresentação do Abitur, o diploma de conclusão do curso secundário. Lutz acabou optando pela medicina e, em 4 de novembro de 1874, às vésperas de seu 19° aniversário, ingressou na Universidade de Berna.

Estava no auge a transformação pela qual passavam as universidades e instituições científicas nos países de língua alemã. As inovações introduzidas então foram decisivas para a sólida formação que Lutz recebeu, tanto na medicina como nas disciplinas relacionadas à história natural. O movimento reformista, que vinha sendo gestado desde a primeira metade do século XIX, privilegiava a prática científica nas universidades e estava interligado a uma reforma educacional mais ampla nas escolas primárias e secundárias. Pesquisadores como Jan Purkynje (1787-1869), Karl Heinrich Schultz (17981871) e Julius Budge (1811-1888) elaboravam planos ambiciosos para a criação de novos institutos de pesquisa experimental. A microscopia e a química ganhavam espaços próprios e privilegiados de experimentação. A fisiologia tornava-se independente da anatomia, e servia como uma das principais alavancas da reforma do ensino médico e biológico na Prússia e, por extensão, nos demais países de língua alemã, tendo sido muito importantes, para isso, os estudos de Johannes Müller (1801-1858), em Berlim, e Carl Ludwig (18161895), em Leipzig (Kremer, 1992, p.72-9). O princípio da ‘mão na massa’ tornou-se central na formação dos estudantes de medicina e filosofia, adquirindo o laboratório lugar cada vez mais importante na especialização das ciências.

Segundo Bonner (1962, p.15-6), por volta de 1870 as universidades dos países de língua alemã atingiram seu apogeu em termos de organização, produtividade e prestígio interno e internacional. Reduziram-se até mesmo as barreiras entre as instituições: a medicina germânica, assim como a ciência e a escola germânicas saíram do confinamento em fronteiras nacionais. Os estudantes, pouco influenciados pela geografia política, faziam cursos em diferentes países. As universidades alemãs, suíço-germânicas e austro-germânicas passaram a fazer parte de uma mesma comunidade de aprendizado – e o leitor há de reparar na extrema mobilidade que caracteriza tanto a trajetória de Lutz como a de seus colegas e professores. Os cursos freqüentados em qualquer uma daquelas universidades eram computados nos currículos, sem problemas.

Os leitores constatarão, também, que as trajetórias dos professores de Lutz foram fortemente marcadas pelas guerras que precederam a unificação alemã e, por isso, é bom que as mencionemos desde já.

Em meados de 1800, após sua aliança com a França, o Reino Dinamarquês entrou em declínio. Após sua derrota nas guerras napoleônicas (1814), acentuou-se a crise política e económica. Descontentes, e agasalhando forte convicção coletiva de que eram alemães e não dinamarqueses, os ducados de Schleswig e Holstein criaram um governo provisório em 1848, imediatamente reconhecido por Berlim (Prússia) e Frankfurt (Confederação Germânica). Foi então desencadeada a guerra pela posse dos dois ducados, de 1848 até 1851. Os austríacos ocuparam Holstein, e os dinamarqueses, Schleswig von Rendsburg. Em 8 de maio de 1852, o protocolo de Londres assegurou aos dois ducados autonomia mas sob a égide da monarquia dinamarquesa. O ultrajante desfecho da sublevação de Schleswig e Holstein causou exasperação aos nacionalistas alemães, que culparam tanto o rei da Prússia, como a falta de união dos estados germânicos. Em 1857, Christian IX foi coroado rei da Dinamarca e declarou que, de acordo com uma resolução de 1481, Holstein teria de ser reincorporado, mesmo que à força, a seu ducado irmão. Isso motivou nova intervenção armada da Prússia e da Áustria. A Dinamarca foi derrotada em 1864 e o tratado de Viena cedeu o território de Schleswig-Holstein aos vencedores. Em 1866, a região tornou-se parte do Império Prussiano. Apoiando-se num exército reorganizado, Bismarck começou a construir a Alemanha como estado soberano e unificado. A dissolução da Confederação Germânica e a formação de uma Confederação da Alemanha do Norte, em torno da Prússia e com a exclusão da Áustria (1866-1871), esbarrou na oposição da França, que impedia a anexação dos Estados ao sul do rio Meno. A guerra vitoriosa contra os franceses (18701871) consolidou a unidade alemã e resultou na proclamação do II Reich: uma monarquia federal, composta de 25 estados soberanos – incluindo-se a Alsácia-Lorena, tomada à França – em que Guilherme I reinava à sombra do poderoso Otto von Bismarck-Schõnhausen, que foi elevado a príncipe do novo império, reunindo os cargos de chanceler da Alemanha e primeiro-ministro da Prússia.

 

Faculdade de Medicina de Berna Criada em 1834, a Universidade de Berna pode ser vista como um longínquo desdobramento do seminário criado em 1528 no Barfüsserkloster – Mosteiro dos Descalços – onde se ensinava teologia, hebraico, grego e filosofia. No chamado Hospital Insular (Inselspital), fundado em 1354 para acolher indigentes e doentes pobres, professores do seminário davam aulas aos médicos e cirurgiões da região. Em 1797 foi fundado o Instituto de Medicina e, em 1805, a Escola Superior de Berna transformou-se em academia, seguindo o modelo francês, e passou a abranger aquele instituto e as escolas de direito, teologia e filosofia. Com o estabelecimento da Universidade, em 1834, mudanças significativas começaram a ocorrer no ensino médico, em consonância com a nova ordem que era implantada nas universidades dos países de língua alemã, caracterizada pela liberdade de ensino e aprendizado. Foram criadas as cátedras de clínica médica e cirúrgica, de química, e de anatomia e fisiologia. Professores “extraordinários” foram contratados para ministrar outras disciplinas: oftalmologia, obstetrícia, policlínica e medicina legal. Criaram-se clínicas e institutos para abrigar o ensino dessas disciplinas associado à pesquisa clínica e laboratorial. O Hospital Insular transformou-se em hospital universitário. O ensino médico em Berna ganhou considerável prestígio internacional graças aos novos professores contratados para reger as cátedras e disciplinas recém-criadas: Edwin Klebs (1834-1913), Bernhard Naunyn (1839-1925), Marcel Nencki (1847-1901), Theodor Kocher (1841-1917), Hermann Sahli (1856-1933), Wilhelm Philipp Friedrich Vogt (1786-1861), Hermann Askan Demme (1802-1867) e Gabriel Gustav Valentin (1810-1883), entre outros (Bickel, 1984, p.629).

Mapa de Berna (Reclus, 1878, p.95, fig.35).

Berna vista do oeste por volta de 1860 (Schwengeler, 1975, p.18).

 

Fosso dos ursos, por volta de 1857. Este animal é o símbolo

heráldico da cidade e do cantão de Berna. Em 1891, na

comemoração dos 700 anos de fundação da cidade, os ursos foram

levados pelas ruas em cortejo (Leuenberger, 1997, p.97).

Travessa do mercado (Marktgasse) em 1890, vendo-se ao centro a

fonte Schützenbrunnen. Nessa rua, no n° 84, morou Adolpho Lutz

quando cursava a Faculdade de Medicina em Berna (Schwengeler,

1975, p.54).

Quando Adolpho Lutz ingressou na Faculdade de Medicina, o curso tinha a duração de seis semestres, submetendo-se o aluno, ao final, a uma avaliação de suas habilidades propedêuticas e à prova prática. A fisiologia, que se separara da anatomia, em 1863, era ministrada por Gabriel Gustav Valentin, um dos mais antigos professores da Universidade, autor de relevantes contribuições à fisiologia, anatomia e protozoologia. Nascido em Breslau, na antiga Prússia (atualmente Wroclaw, na Polônia), em 8 de julho de 1810, Valentin graduou-se em medicina, em 1832, pela Universidade de sua cidade natal, com dissertação sobre a “evolução do sistema muscular propulsor”. Em colaboração com seu mestre, o fisiologista tcheco Jan Evangelista Purkynje, descobriu, em 1834, o movimento

ciliar de células de vertebrados. 12 No ano seguinte, a Academia de Ciências de Paris conferiu a Valentin o Grande Prêmio de Ciências Físicas pelo trabalho Histiogenia Comparata sobre a evolução dos animais e plantas. Em 1836, ele descreveu a célula, o núcleo e o nucléolo dos neurônios. Naquele ano, foi contratado como professor titular (Ordinarius) da Universidade de Berna. Dirigiu o instituto de anatomia, de 1853 a 1863, e com a divisão das cátedras de anatomia e fisiologia nesse último ano, tornou-se o responsável pela cadeira, depois departamento de fisiologia, que continuou a funcionar no prédio do Instituto de Anatomia. Entre 1836 e 1843, publicou o Repertorium für Anatomie und Physiologie; em 1844, descobriu o papel do suco pancreático na atividade digestiva; já havia descrito em 1841 um tipo de Trypanosoma, que posteriormente seria reconhecido como o protozoário causador da doença do sono. Valentin era membro da Sociedade dos

Naturalistas de Berna e publicava regularmente em seu periódico. 13

 

Prédio da antiga escola superior, visto em 1890 da ponte Kirchenfeld

(Schwengeler, 1975, p.34).

O registro de matrícula de Adolpho Lutz na Universidade de Berna,

em 4 de novembro de 1874. Die Studierenden der Universität Bern

1834 bis 1914. Universitätsarchiv: www.uniarchiv.unibe.ch.

O prédio do Instituto de Anatomia, na atual Genfergasse, à época de

sua demolição no inverno de 1898-1899 (Schwengeler, 1975, p.73).

As aulas que Adolpho Lutz teve de anatomia humana e comparada, assim como de anatomia microscópica, foram dadas por Theodor Aeby (1835-1885), médico e anatomista suíço contratado pela Universidade de Berna em 1863, quando anatomia e fisiologia separaram-se. Apesar de não ter a mesma envergadura científica de Valentin, Aeby também produziu trabalhos muito importantes, como a descrição das estruturas musculares e craniométricas onde

se incluem o músculo e o plano de Aeby.14

Edwin Klebs (1834-1913).

Foto em www.uni-

wuerzburg.de/pathologie/Virchow/pathosum/klebs.htm

Até 1867, as aulas de patologia foram ministradas no prédio do Instituto de Anatomia. Ligada original-mente à anatomia patológica, a patologia tornou-se cátedra independente em 1866, sob a regência de Theodor Albrecht Edwin Klebs. Antes de mudar-se para Berna, este médico, formado em Kõnigsberg em 1859, fora assistente de Rudolph Virchow (1821-1902) no Instituto de Patologia

de Berlim, desde 1861. 15 Não se adaptou ao espaço acanhado que lhe concedeu a Universidade de Berna e, em 1867, conseguiu salas na Farmácia Nacional para instalar o novo Instituto de Patologia, que lá permaneceu até 1885, quando ganhou sede própria. No Instituto de Klebs, trabalhavam como professores e pesquisadores Gabriel Valentin (como substituto) e Daniel Jonquière (1821-1899), que era membro também da Sociedade de História Natural de Berna. Durante a permanência de Klebs na Universidade de Berna (1866 a 1872), ele fundou o Correspondezblatt für Schweizer Àrtze (Boletim de Correspondência para Médicos Suíços), periódico

especializado 16 em que Adolpho Lutz publicaria seus primeiros trabalhos, entre 1880 e 1883 (ver adiante, neste volume). Em Berna, Klebs concebeu a técnica de embeber tecidos em parafina, que seria muito importante para o avanço da pesquisa histológica.

Foi ele o responsável pela contratação de Bernhard Naunyn, médico recém-chegado à Universidade para chefiar a clínica médica. Formado em Berlim, em 1862, Naunyn fora assistente de Friedrich

Theodor von Frerichs (1819-1885),17 cujo laboratório, naquela cidade, reunia uma equipe jovem e muito motivada pelo estudo da relação entre doenças e metabolismo humano. Nessa área de patologia metabólica, Naunyn investigou especialmente o fígado, o pâncreas e a diabetes. Com Otto Schultzen, outro assistente daquele laboratório, publicou importante trabalho sobre o comportamento dos hidrocarbonetos derivados do benzeno no organismo animal.

 

Bernhard Naunyn (1839-1925). Foto em

www.iqb.es/HistoriaMedicina/personas/naunyn.htm

Ao ser contratado pela Universidade de Berna, em 1871, Naunyn levou importante bagagem científica tanto em patologia como em

bioquímica. 18 Cientes da importância desta última disciplina para os estudos médicos, Naunyn e Klebs tomaram a iniciativa de propor à Universidade a criação do cargo de assistente químico para o Instituto de Patologia, cargo para o qual foi contratado, em 1872, o polonês Marcel Nencki (1847-1901), outro ex-assistente de Frerichs em Berlim. Especializado em química biológica, Nencki estudara também com o químico berlinense Johann Friedrich Wilhelm Adolf von Baeyer (1835-1917) antes de instalar-se em Berna, como Privatdozent. Passou a professor extraordinário em 1876, quando a Química Médica tornou-se cadeira independente da Patologia. No ano seguinte, foi promovido a professor titular e chefe do novo laboratório de química médica, cargo que ocupou até 1891, quando se transferiu para São Petersburgo, na Rússia, para assumir a direção de um departamento no Instituto Imperial de Medicina Experimental.

 

Friedrich Theodor von Frerichs (1819-1885). Foto em www.ms-

society.ie/history/hist_fvf.html

Enquanto viveu em Berna, Nencki participou ativamente de sua Sociedade de História Natural. Em 1888, passou a ensinar bacteriologia, também, fundando posteriormente um departamento

só para essa disciplina na Farmácia Nacional.19

O prédio da Farmácia Nacional abrigava, também, a Clínica de Olhos, inaugurada em novembro de 1867 pelo médico suíço Henri

Dor, 20 que a dirigiu até 1876, quando se transferiu para Lyon. Em seu lugar foi contratado Ernst Pflüger (1846-1903), que conseguiu

um lugar para a clínica no novo Hospital Insular, 21 onde eram ministradas as cadeiras de clínica médica e cirúrgica, ginecologia e obstetrícia.

 

Marcel Nencki (1847-1901). Foto em

www.clendening.kumc.edu/dc/pc/nencki.jpg

 

Gabinete de microscopia no Instituto de Farmácia em 1894 (Bickel,

1984, p.675).

No período em que Adolpho Lutz freqüentou a Universidade de Berna, a Clínica Médica era ministrada por Heinrich Irenaeus Quincke (1842-1922), médico alemão formado em Berlim onde fora, também, assistente de Frerichs, no Hospital da Charité, entre 1867 e 1871. Seu objeto de investigação era a anatomia e a fisiologia do fluido cérebro-espinhal. Durante os cinco anos em que foi professor titular (Ordinarius) e chefe da Clínica Médica em Berna (1873 a 1878), realizou importantes pesquisas sobre a reabsorção de ferro inorgânico no tratamento da anemia por deficiência desse mineral, tendo sido o primeiro a assinalar a poiquilocitose na anemia

perniciosa, associando-a ao câncer gástrico. 22 As aulas de Clínica Médica eram dadas na sala de conferências ou nas enfermarias do Hospital Insular, onde 20 a 24 leitos eram reservados para o professor. A disciplina de Quincke foi uma das primeiras que Adolpho Lutz cursou. Um mês após o início das aulas, este pediu a um professor da Universidade esclarecimentos sobre um diagnóstico de diabetes que fizera num paciente. Na resposta escrita em Berna, em 22 de dezembro de 1874, aquele professor dizia:

À primeira vista não afirmaria com certeza que seu caso seja,

de fato, um diabetes transcorrido espontaneamente — um

diagnóstico de tanto peso só é permitido quando a melitúria

ficar comprovada; os sintomas subjetivos que a anamnese

fornece não me parecem suficientes.

Quanto à questão da acetona, está comprovado que o cheiro

dela no hálito não é indício certo de glicosúria, pois também

ocorre nos catarros gástricos e nas desordens digestivas febris

... Além disso, como me informou Nencki, a quem perguntei

certa vez, o dióxido ácido acético é igualmente inseguro. Para a

comprovação segura do diabetes é necessária a sua descrição.

Caso o senhor se proponha a fazer isso, eu lhe pediria que se

dirigisse diretamente a Nencki, pois esse diagnóstico não me é

familiar.23

No Hospital Insular, Lutz assistiu também às aulas de clínica

cirúrgica dadas pelo catedrático Theodor Kocher. 24 Nascido em Berna, em 23 de agosto de 1841, pertencia a uma antiga família da região (seu pai era o engenheiro-chefe do Cantão de Berna). Kocher estudara medicina em sua cidade natal e, após o término do curso, viajara para Berlim, Paris e Londres. Em 1866, fora contratado pela Universidade de Berna como professor assistente de cirurgia.

 

Theodor Kocher (1841-1917). Berna, Staatsarchiv.

Hospital insular visto do lado norte de Berna (Leuenberger e Erne,

1997).

A clínica de cirurgia e obstetrícia, instituída com a criação da Universidade, em 1834, foi regida, a princípio, pelo catedrático Hermann Askan Demme (1802-1867), que tinha à sua disposição dois quartos com 20 leitos no Hospital Insular. Em 1838, obteve um prédio anexo ao Hospital para a realização de autópsias. Ali os candidatos a médicos e cirurgiões praticavam a dissecação de cadáveres. Demme deixou a universidade em 1865. Seu sucessor, Georg Albert Lücke (1829-1894), livre-docente em Berlim, permaneceu em Berna só até 1872, passando o bastão a Kocher, seu assistente. Este passou a professor titular ao assumir a direção da clínica, permanecendo à sua frente por quarenta anos.

Com Kocher, a clínica cirúrgica ganhou bastante prestígio. Ele transformou a ‘escola de cirurgiões de Berna’ num centro atraente para jovens doutores e doutorandos que desejavam seguir o revolucionário método antisséptico proposto por Lister e aperfeiçoado pelo médico bernense. Kocher verificara que não era tanto o ar, mas principalmente os instrumentos e as mãos do cirurgião que comprometiam a saúde dos pacientes operados. Além disso, conseguira diminuir consideravelmente a mortalidade pós-operatória com o uso de ligaduras antissépticas, dando o primeiro passo em direção à assepsia. De início, não havia no Hospital Insular uma sala própria para as intervenções cirúrgicas, que eram realizadas no auditório. Em 1884, a clínica cirúrgica já abrangia três prédios: a clínica propriamente dita, com sala de aula e seis gabinetes; um pavilhão de dois andares; e um pavilhão cirúrgico de um andar, destinado especialmente a recém-operados. A sala de operações construída em 1890 teria aparelho a vapor para esterilização dos instrumentos e do próprio ambiente. Primeiro cirurgião a receber o prêmio Nobel por seu trabalho sobre bócio, em 1909, Kocher faleceria em 27 de julho de 1917.

À época em que Adolpho Lutz foi seu aluno, a ginecologia e a obstetrícia eram ministradas por Peter Müller (1836-1922), professor titular de 1874 a 1910. Quando se criou a Universidade, a obstetrícia era ligada à cirurgia sob a regência de Demme, ao passo que a ginecologia tinha status de cadeira extraordinária, e era ministrada por Johann Jakob Hermann (1790-1861). Em 1867, a obstetrícia tornou-se cadeira independente, sendo, então, contratado para ministrá-la o médico tcheco August Breisky (1832-1889). Ele conseguiu que fosse construída uma maternidade junto à clínica ginecológica, mas antes de sua inauguração, mudou-se para Praga (1874). Coube a Peter Müller, seu sucessor, inaugurar dois anos depois a nova clínica e maternidade, à frente da qual permaneceria por 36 anos.

A maternidade funcionou na Brunngasse (Travessa do Poço) 28, em

Berna, até 1876. Foto Q. Reichen (Bickel, 1984, p.662).

 

Estudos em Leipzig, Praga e Estrasburgo

Lutz fez cursos na Universidade de Berna até o fim do verão de 1877 e prosseguiu os estudos em Leipzig. Matriculou-se na faculdade de medicina desta cidade em 22 de outubro de 1877, e freqüentou-a por dois semestres. Na Universidade de Leipzig, Adolpho Lutz conviveu com grandes nomes da medicina e das

ciências naturais.25 Durante o inverno de 1877-1878, teve aulas de

clínica cirúrgica e especializada com Karl Thiersch (1822-1895), 26 de propedêutica cirúrgica com Helferich, de clínica médica com

Ernest Leberecht Wagner (1829-1888),27 e de clínica ginecológica com Carl Siegmund Franz Credé (1819-1892). Fez ainda especialização em oftalmologia com Schoen. No verão de 1878, cursou as disciplinas de clínica e ginecologia, freqüentando também as aulas de anatomia patológica, histologia, prática de microscópio e patologia, ministradas por Julius Cohnheim (1839-1884) e seu assistente Carl Weigert (1845-1904), que deu também o curso de operações cirúrgicas (autópsias). As lições de propedêutica oftalmológica foram dadas por Küster; de abdução, por von Lesser; e de policlínica, com ênfase em pediatria, por Johann Otto Leonhard

Heubner (1843-1926). 28

 

Augustplatz, em Leipzig, vendo-se ao fundo o prédio da

Universidade. Cartão Postal produzido por Louis Glaser, 1906 (Sohl,

1989, p.32).

Planta da Universidade de Lepzig (Festschrift, 1909).

Entre as vivências de Lutz no período, ficariam gravadas especialmente as lições de patologia e autópsia e a memorável visita de Robert Koch a Cohnheim e Weigert. Em 1936 (p.852), o médico brasileiro recordaria:

De 1877 a 1878, passei meu segundo e terceiro semestres

clínicos em Leipzig, onde vi casos e autopsias de febre tifóide.

Já se começava a desconfiar que esta doença era causada por

um bacilo específico, que entretanto não aparecia ainda nos

cortes mostrados no curso de Cohnheim, assistido por Weigert.

Em 1878, Koch visitou Cohnheim e exibiu as primeiras

preparações do Bacillus anthracis, colorido pelo azul de

metileno, contrastando com o tecido incolor. Tive o privilégio de

ver essas preparações, que marcaram uma etapa importante na

técnica microscópica. Naquele tempo, os cortes histológicos

eram coloridos pela vesuvina (Bismarckbraun) ou pela violeta

de anilina,29 muito tolerante para a glicerina.

No fim daqueles semestres, tomei vários cursos de férias, entre

os quais um de autopsias dado por Weigert, que foi muito

proveitoso em conseqüência do número reduzido dos

praticantes.

À época em que Lutz estudou em Leipzig, Julius Cohnheim havia acabado de assumir a cátedra de patologia, em substituição a

Wagner.30 Nascido em Demmin, em 20 de julho de 1839, Cohnheim fez seus estudos médicos em Würzburg, Greifswald e Berlim, onde defendeu tese em 1861. Trabalhou como assistente de Rudolph Virchow em seu Instituto de Patologia, e aí descobriu o método de corar com ouro clorídrico, que facilitou a evidenciação das finas extremidades dos nervos. Em 1869, tornou-se professor titular de Anatomia Patológica e Patologia Geral na Universidade de Kiel e passou a freqüentar, em Leipzig, o Instituto de Fisiologia de Carl Ludwig, considerado um dos maiores fisiologistas de seu tempo. Em 1872, Cohnheim, que tinha especial interesse pelo que hoje se chama fisiologia patológica, transferiu-se para a Universidade de Breslau, substituindo Heinrich Wilhelm Gottfried von Waldeyer-Hartz (1836-1921), que deixava aquela cidade, após oito anos, para lecionar em Estrasburgo. Carl Weigert, primo do bacterio-logista Paul Ehrlich, trabalhava com Waldeyer-Hartz desde 1866. Continuou no Instituto de Breslau, agora como colaborador de Cohnheim. Quando este migrou para Leipzig, em 1878, levou consigo o

assistente, Weigert. 31

Julius Cohnheim (1839-1884). Foto em

 

www.umanitoba.ca/faculties/medicine/units/history/lesion/lesion11.ht

ml

 

Carl Weigert (1845-1904). Foto em

www.uic.edu/depts/mcne/founders/page0100.html

Carl Ludwig (1816-1895). Foto publicada em Festschrift (1909,

 

p.53).

Em Breslau, tiveram a oportunidade de assistir à primeira demonstração de Koch sobre o ciclo de vida do bacilo do antraz, em 30 de abril de 1876. Segundo Mazumdar (1995, p.60), ficaram tão impressionados que Cohnheim, ao voltar para seu laboratório, teria dito aos assistentes: “larguem tudo que estão fazendo e vão ver Koch. Esse homem fez uma grande descoberta”. Aquele médico ainda desconhecido, de um distrito rural de Wollstein, fora visitar o botânico Ferdinand Cohn (1828-1898), um dos únicos a trabalhar

com classificação de bactérias. 32 Acabou fazendo amizade com Cohnheim e Weigert e, durante os dias que passou em Breslau, Koch teve a oportunidade de observar os novos métodos de corar tecidos que o último vinha desenvolvendo com anilinas.

Weigert estudara medicina em Breslau com Ferdinand Cohn, Rudolf Heidenhain (1834-1897) e Wilhelm von Waldeyer-Hartz (1836-1921), e continuara seus estudos em Berlim, onde trabalhara com Virchow. Passara ainda uma temporada em Viena antes de obter seu diploma de médico pela Universidade de Berlim, em 1866, com tese intitulada De nervorum laesionibus telorum ictu effectis. Dois anos depois, regressou a Breslau para trabalhar com Waldeyer-Hartz. Em 1870-1871, servira na Guerra Franco-Prussiana e, após a desmobilização, tornara-se assistente do clínico Hermann Lebert (1813-1878).

Nesse período, Weigert começou a produzir inovações revolucionárias nas técnicas histológicas ao demonstrar a ação seletiva dos corantes nos materiais biológicos. Se não foi o primeiro

a corar bactérias,33 cabe-lhe a primazia na introdução dos corantes de anilina nas técnicas microscópicas, e elas seriam de grande utilidade para Koch em suas pesquisas futuras.

Em abril de 1878, em meio aos dois semestres que passou em Leipzig, Adolpho Lutz esteve em Praga para fazer cursos práticos de ginecologia com Johannowsky, Nérat e August Breisky (1832-1889) no Hospital Ginecológico daquela cidade, obtendo os

certificados de conclusão em 27 e 28 de abril de 1878. 34 De volta a Leipzig, cursou as já referidas disciplinas no verão de 1878, mas ao final desse período caiu doente com febre tifóide. Conta ele (1936, p.852):

Durante essas férias, comecei a sentir-me mal, perdendo

completamente o apetite, o sono e a tolerância para o barulho e

cansando-me também muito rapidamente. Depois de ter

perambulado assim durante uma semana e meia, tive de ficar

de cama. O docente que tratava dos estudantes denominou o

meu caso catarro de estômago febril, mas um colega mais

velho disse-me, com toda razão, que eu sofria de febre tifóide e

que já houvera outro caso entre os nossos colegas. A febre

acentuou-se mais e passei alguns dias dos quais não me ficou

recordação. Depois de dez ou doze dias a febre abrandou, de

modo que pude levantar-me e tratar da minha partida. Tinha

emagrecido extremamente e ainda estava muito fraco.

Conquanto meu caso possa ser classificado em parte de

ambulante e em parte de abortivo, tinha estado mais doente do

que pensava, e a convalescença foi demorada. Tive tromboses

de pequenas veias nas pernas, furunculose e queda de cabelo

típica, posto que passageira, mas depois de outras cinco

semanas pude considerar-me restabelecido.

A ponte Kärlsbrucke em Praga. Desenho de H. Clerget baseado em

foto de M. M. Lévy e Cia. (Reclus, 1878, p.56).

Vencidos esses tormentos, Adolpho Lutz viajou novamente, com a intenção, agora, de cursar algumas disciplinas na Universidade de Estrasburgo, especialmente a Clínica Geral que era chefiada por Adolf Kussmaul (18221902) desde 1876. Formado em Heidelberg, com passagem, também, por Viena, Kussmaul era considerado uma autoridade em sua área graças aos inovadores procedimentos diagnósticos e terapêuticos que criara; entre os trabalhos de sua autoria, sobressaía aquele sobre a afasia, publicado em 1877, e

considerado à época um marco na clínica médica.35

Depois que a Prússia conquistou a Alsácia, os professores franceses foram forçados a se demitir da Universidade de Estrasburgo e suas vagas foram preenchidas por professores recrutados em outras universidades alemãs. Waldeyer-Hartz chegou a Estrasburgo em 1872, assumindo a cátedra de anatomia. Outros recém-chegados eram Friedrich Leopold Goltz (1834-1902),

professor de fisiologia, 36 Friedrich Daniel von Recklinghausen (1833-1910), patologista e reitor da Universidade à época em que

Lutz estudou lá,37 e Kussmaul, todos empenhados em transformar aquela Universidade, agora denominada Kaiser-Wilhelms-Universität, num centro mais atraente para os estudantes dos países de língua alemã.

Lutz matriculou-se aí em 6 de novembro de 1878, e durante o semestre de inverno cursou as disciplinas de clínica médica, clínica cirúrgica e policlínica, oftalmologia e clínica psiquiátrica. Freqüentou

também os laboratórios de farmácia e toxicologia. 38 Em dezembro de 1878, recebeu carta de um colega de Leipzig que se mostrava surpreso por ele não ter feito o exame final em Bonn, como planejara:

Tive notícias suas através de Ewald. Mas, pelo amor de Deus, o

que você está fazendo em Estrasburgo? Pensei que estivesse

em plenas provas em Bonn. O que acontecerá com seu exame,

você agora o fará em Estrasburgo? Aqui em Leipzig é a rotina

habitual, tudo na clínica me parece terrivelmente esclerosado.

Só que, imagine, milagrosamente, Credé neste inverno não

deixa de despertar curiosidade. A cada aula, o homem dá

palestras as mais interessantes, de modo que está

praticamente irreconhecível! Ao contrário, Wagner e Thiersch

são de um enfado próprio dos deuses. Todos os dias Wagner

esfola pelo menos 2 licen-ciandos à frente de toda a clínica.39

Na verdade, foi na Berna de seus antepassados, a que retornou em março de 1879, que Adolpho Lutz prestou os exames finais de seu curso de medicina.

Diploma de bacharel da Kaiser-Wilhelms-Universität, emitido em 20

de março de 1879, de conclusão dos cursos iniciados em 6 de

novembro de 1878. BR. MN. Fundo Adolpho Lutz. Diplomas.

 

A história natural

Durante esses anos, Lutz não perdeu o interesse pela história natural. Seu dom de naturalista e colecionador levou-o a manter estreita relação com os professores da área, a assistir suas palestras na Faculdade de Filosofia de Berna e nas outras escolas superiores que freqüentou, mantendo-se sempre em dia com as novas descobertas. Entre os professores de história natural que Lutz conheceu sobressai Joseph Anton Maximilian Perty (1804-1884), um dos docentes mais antigos da Universidade de Berna, admitido em 1833, quando ela ainda era Academia. Perty formou-se em medicina em Munique e foi contratado pela Faculdade de Ciências dessa Universidade. Passou a cuidar também de coleções zoológicas da Academia de Ciências de Munique, inclusive aquelas formadas pelos naturalistas Johann Baptist von Spix e Karl Friedrich Philipp von Martius durante os três anos e meio em que haviam

percorrido o Brasil (1817-1820).40 Perty estudou a coleção entomológica reunida por Spix, o zoólogo da expedição, e entre 1830 e 1833 publicou relevante contribuição ao conhecimento dos insetos brasileiros. Durante o meio século em que viveu em Berna, escreveu muitos outros trabalhos sobre zoologia, antropologia e psicologia. Dedicou-se especialmente a observação dos animais microscópicos e formulou até mesmo uma classificação para as bactérias (Papavero, 1971, v.1, p.110-1). Reitor da Universidade de Berna entre 1837 e 1856, Perty encontrava-se em plena atividade a época em que Lutz o conheceu.

Theophil Studer (1845-1922) (Attinger Godet, 1930, p.394).

O inventário dos naturalistas que influenciaram o médico brasileiro deve incluir também Theophil Studer (1845-1922), professor de zoologia e curador das coleções zoológicas do Museu de História Natural de Berna entre 1871 e 1922. No período de 1874 a 1876, participou da viagem de circunavegação da fragata alemã S. M. S.

Gazelle 41 sob o comando do capitão Georg Freiherr von Schleinitz.

Dois anos após seu retorno, tornou-se professor de zoologia e anatomia comparada da Escola de Medicina Veterinária de Berna.

Continuar: parte 2 de 3