Adolpho Lutz: Primeiros trabalhos: Alemanha, Suíça e Brasil (1878-1883)
Observações sobre os cladóceros dos arredores de Leipzig
Observações sobre os cladóceros
dos arredores de Leipzig*
As observações ora apresentadas foram realizadas no decorrer do verão de 1878, excetuada uma pequena parte feita nos meses de outubro e novembro de 1877. Já que eu só podia dedicar-lhes tempo restrito, estas investigações ficaram forçosamente muito incompletas, não me sendo possível, de modo algum, pretender ter esgotado a fauna local de Leipzig com relação a este grupo. Ao que eu saiba, essa fauna regional nunca foi submetida a estudo sistemático exaustivo. Que as presentes observações sirvam, pois, como início de tal investigação; quiçá apareça, adiante, algum amigo da natureza que queira conduzir o trabalho ao seu término.
Dou, primeiramente, uma relação das espécies, indicando as variedades, os locais onde foram encontradas e a época de aparecimento dos machos, tanto quanto foi possível observá-los.
Cladocera
Seção I
Fam. 1 Sididae
Sida Strauss
crystallina O. F. Müller.
Numa lagoa perto de Schleussig (também na de Schimmel e no
rio Pleisse, abaixo do Balneário Lt.).
Seção II
Fam. 1 Daphnidae
Daphnia Schödler
longispina Leydig, 1. var. Leydigii P. E. Müller.
Em lagoas e valas próximas a Leipzig, Plagwitz, Schleussig,
Schladebach etc., a maioria dos exemplares é transparente;
são pardos todos os indivíduos provenientes de uma vala
lodosa nas cercanias de Plagwitz. Aí mesmo, em princípios
dejulho, encontrei ♂ escassos.
magna Liljeborg Schaefferi Schódler.
Em quantidade enorme numa lagoa nas imediações de
Leenwis, perto de Keuschberg.
pulex de Geer, Leydig.
Em lagos do antigo Jardim Botânico, em valas próximas a
Kötzschau e no Scheibengehölz1 etc. Neste último local, em
princípios dejulho, não são raros os ♂ e as ♀ com efípios.
hyalina Leydig var. Mülleri mihi, Daphnia pellucida P. E. Müller.
Designo pelo primeiro nome uma forma que, segundo
demonstrou o próprio P. E. Müller, 2 constitui apenas uma
variedade da espécie de Leydig. Encontrei apenas poucas
fêmeas adultas na lagoa de Schimmel e numa lagoa perto de
Schleussig. Noutra, próxima a Maslau, encontra-se a variedade
descrita por Kurz3 como D. galeata, a qual, na fase adulta, mal
se distingue de D. pellucida P. E. Müller, ao passo que, no
estadojuvenil, aproxima-se de D. galeata Sars. De uma
localidade perto de Berna possuo indubitáveis formas de
transição entre D. pellucida P. E. Müller e D. galeata Sars, as
quais, na fase juvenil, diferem dos exemplares de Maslau.
(Essas formas de transição foram levadas àquela localidade
pela correnteza do rio Aare, vindo dos grandes lagos.) Nas
primeiras, o capacete é formado por dois ou três dentes,
situados na face dorsal da cabeça, e que são encontrados na
maioria dos indivíduosjovens. As quatro formas mencionadas
devem, portanto, ser consideradas como uma só espécie, cujas
variedades não se deixam delimitar com exatidão.
Ceriodaphnia Dana
megopsSars.
Lagoa de Schimmel; vala perto de Plagwitz; vegetação às
margens do Parthe, nas cercanias de Leipzig etc.
reticulata Leydig.
a) de colorido esbranquiçado. Comum, p. ex., na lagoa de
Schimmel, em meio à vegetação às margens do Parthe, nas
valas do Scheibengehólz. Perto de Maslau, emjulho, também
são encontrados alguns ♂ e algumas ♀ com efípios. Em água
salgada, no grande lago Róblingersee, perto de Eisleben; b) de
cor violeta saturada. Rara. Em uma vala perto de Plagwitz.
laticaudata P. E. Müller, quadrangula Sars.
Disseminada. Encontrada em lagos do antigo Jardim Botânico,
numa lagoa próxima a Schleussig, em água salgada no grande
Róblingersee. Em princípios dejulho, foram encontrados quase
que exclusivamente & com efípios e % em uma vala perto do
Scheibengehólz.
pulchella Sars.
Rara. Na lagoa de Schimmel.
Simocephalus Schódler
vetulus O. F. Müller.
Freqüente.
exspinosus Koch, Schódler e congener Koch, Schódler.
Também ocorrem na região. Não foi determinada a procedência exata.
Scapholeberis Schódler
mucronata O. F. Müller var. cornuta P. E. Müller.
Freqüente; também em água corrente.
Moina Baird
micrura Kurz.
Em uma lagoa perto de Maslau.
paradoxa Gruber e Weismann.
No mesmo local.
Fam. 2 Lyncodaphnidae
Pasithea Koch, Lathonura Liljeborg
rectirostris O. F. Müller.
Muito rara. Parthe, entre Leipzig e Schónefeld.
Macrothrix Baird
rosea Jurine.
Na lagoa de Schimmel.
Fam. 3 Bosminidae
Bosmina Baird
comuta Jurine.
Na lagoa de Schimmel. Inúmeros exemplares em uma lagoa perto de Schleussig. longirostris O. F. Müller.
Como a anterior. Ambas as espécies são completamente
transparentes; a última mostra numerosas variações na forma e
tamanho das antenas tácteis e dos espinhos da casca.
Fam. 4 Lynceidae
Eurycercus Baird
lamellatus O. F. Müller.
Freqüente na lagoa de Schimmel; numa vala perto de Plagwitz. ♂ em novembro.
Camptocercus Baird
macrurus O. F. Müller.
Na lagoa de Schimmel.
Lilljeborgi P. E. Müller
Escassa numa lagoa perto de Maslau.
Acroperus Baird
leucocephalus Koch.
Freqüente.
Alona Baird
acanthocercoides Fischer.
♂ em novembro na lagoa de Schimmel. Em lago no antigo Jardim Botânico.
quadrangularis O. F. Müller.
Na lagoa de Schimmel. Machos em novembro.
costata Sars.
Em uma vala perto de Plagwitz.
tenuicaudis Sars.
Lagoa de Schimmel, vala no Scheibengehólz e outras localidades.
lineata Fischer.
Lagoa de Schimmel e outros locais. ♂ em outubro.
guttata Sars.
Lagoa de Schimmel.
pygmaea Sars, transversa Schódler.
Lagoa perto de Maslau.
Pleuroxus Baird
truncatus O. F. Müller.
Lagoa de Schimmel, lagoa no antigo Jardim Botânico e outras
localidades. ♂ em outubro.
aduncus Jurine.
Muito disseminado.
personatus Leydig.
Lagoa de Schimmel. Lagoa no antigo Jardim Botânico.
exiguus Liljeborg.
Lagoa de Schimmel. Lagoa em Maslau.
Chydorus Leach
sphaericus O. F. Müller.
Comum.
No que diz respeito à freqüência, é interessante notar que Ceriodaphnia laticaudata P. E. Müller e Alona tenuicaudis Sars, duas espécies geralmente raras, são bastante abundantes nesta região. Como ocorrências raras devem ser destacadas: Pasithea rectirostris O. F. Müller, Alona costata Sars, A. guttata Sars e Camptocercus lilljeborgii P. E. Müller.
Foram observados coloridos ornamentais, sob forma de manchas azuis no dorso dos animais, em Sida crystallina O. F. Müller, Simocephalus vetulus O. F. Müller e Eurycercus lamellatus O. F. Müller. A substituição do pigmento preto dos olhos por um magnífico pigmento vermelho-escuro, que observei no outono em exemplares de Sida crystallina O. F. Müller, das localidades acima indicadas, parece ter o mesmo significado.
É provavelmente diversa a significação da cor vermelha observadajá por Leydig em Chydorus sphaericus, a qual se estende sempre ao corpo inteiro do animal. Observei-a na primavera em alguns exemplares de Simocephalus vetulus e de Chydorus sphaericus O. F. Müller das lagoas de Schimmel e de Schleussig. Assim como Leydig, atribuo essa coloração a um acúmulo de microrganismos nos espaços vasculares. Já observei colorido análogo, porém amarelo-alaranjado, em Daphnia longispina var. leydigii.
Parece-me, também, de grande interesse o aparecimento, durante a primavera e o verão, de machos e de fêmeas portadoras de efípios, conforme já foi enfatizado por diversos observadores. Até agora, só observei formação de efípios nos gêneros Daphnia Schódler, Ceriodaphnia Dana, e uma vez em Simocephalus vetulus. Em geral, eram apenas casos esporádicos; uma única vez esta particularidade abrangeu praticamente todos os exemplares de Ceriodaphnia laticaudata P. E. Müller de um local, sem que pudesse ser constatada uma influência especial da temperatura ou do nível da água. É evidente que a produção constante de ovos férteis isolados no inverno protege a espécie contra os perigos do dessecamento e das geadas prematuras, principalmente em lugares situados em maior altitude; em conformidade com esse fato, tal produção parece ocorrer principalmente entre as espécies mais ameaçadas pelos mencionados perigos. Nos Lynceidae, que estão menos sujeitos a eles graças a seu modo de vida, seu pequeno tamanho e sua insensibilidade às geadas, só no outono encontrei ovos de inverno e machos, e, em geral, muito tardiamente. Pode-se dizer o mesmo das espécies (como, p. ex., Sida crystallina O. F. Müller) que só habitam porções maiores de água e da fauna propriamente pelágica. (Tão-somente na pelágica Ceriodaphnia punctata P. E. Müller, encontrei,já em fins de agosto, um macho e uma fêmea portadora de efípio.) Tal propriedade parece, pois, ter sido adquirida por algumas espécies mediante a seleção natural; em compensação,julgo duvidoso que o aparecimento de machos e de efípios possa ser provocado, concretamente, por dessecamento ou queda da temperatura.
Devo ainda mencionar que, nos machos de Ceriodaphnia laticaudata P. O. Müller, descritos primeiramente por Kurz (l. c.), encontro o flagelo das antenas tácteis constantemente dobrado em forma de gancho. O macho, ainda não descrito, de Alona acanthocercoides Fischer difere da fêmea principalmente pelo flagelo das antenas tácteis, pela ausência da pequena fila externa de espículos no post-abdomen e pelo espaço anterior às garras da cauda, onde, no meu exemplar, o vaso deferente fica pendurado muito para fora, lembrando um pênis; acrescentem-se, ainda, as garras fortes do primeiro par de patas e o tamanho menor.
* Comunicação à Sociedade de Ciências Naturais de Leipzig. Traduzido de “Beobachtungen über die Cladoceren der Umgegend von Leipzig” feita por Rudolf Leuckart, à época professor de zoologia e zootomia na Universidade ddaquela cidade. Sitzungsberichte der Naturforschenden Gesellschaft zu Leipzig, v.5, n.1-3, p.36-41, 1878.
1 Não encontramos referência a esta localidade nas enciclopédias consultadas. Scheibengehólz poderia ser traduzido como bosque de Scheiben. Esta palavra, por sua vez, pode designar, entre outras coisas, uma seção de tronco de árvore. [N.E.]
2 Ver P. E. Müller, “Note sur les Cladocères etc.”. Archives des Sciences Physiques et Naturelles. Tome XXXVII, Bibliothèque Universelle et Revue Suisse, Genève, 1870. [Nota do original]
3 Ver Kurz: Dodekas neuer Cladoceren. Sitzungsberichte der kaiserlichen Akademie der Wissenschaften. Mathem. naturw. Abtheilg. Bd. LXX, Heft I, Wien, 1874. [Nota do original]