Adolpho Lutz: Primeiros trabalhos: Alemanha, Suíça e Brasil (1878-1883)

Investigações sobre os cladóceros da região de Berna

Investigações sobre os cladóceros da

região de Berna *

 

Adolpho Lutz

Incentivado pelo tema proposto pela Universidade de Berna para um concurso de monografia, empreendi o estudo mais minucioso da fauna Cladocera de Berna. Tentarei expor brevemente os resultados que pude colher durante uma primavera e um verão.

Os cladóceros são conhecidos como habitantes de água doce. São mais abundantes e apresentam maior número de espécies nas águas paradas permanentes ou águas de corrente muito lenta, lagos, lagoas, brejos com turfa e valas lodosas ricas em plantas; só excepcionalmente ocorrem em águas velozes, córregos, nascentes e até em cochos alimentados por poços. Preferem as chamadas

águas moles,1 e a maior parte desses animais não suporta as águas duras de nascentes.

Se lançarmos um olhar sobre um mapa dos arredores de Berna, em um raio de uns vinte quilômetros, veremos as seguintes águas que oferecem condições propícias para a nossa finalidade:

1) O Aare, que é um rio de correnteza veloz, com leito

pedregoso, pobre em vegetação, mas que, em vários lugares,

forma braços rasos, enseadas e alimenta numerosas lagoinhas

por inundação ou comunicação subterrânea.

2) Os lagos chamados Gerzensee, Lopsingensee e os dois

lagos de Moosseedorfsee. São lagos menores, com entradas e

saídas insignificantes, fundos em sua maior parte turfosos, às

vezes, lodosos ou arenosos, e com margens guarnecidas por

uma cinta de plantas aquáticas e de brejo.

3) O Egelmoos, uma grande lagoa com leito pedregoso e

lodoso, que se distingue por flora e fauna relativamente

abundantes.

A estes se acrescentam alguns brejos de turfa (chamados de Móóser, no vernáculo local, que provém de “Moos”, brejo ou terreno turfoso), em geral com depósitos insignificantes de água, como o Gümligenmoos, Lóhrmoos etc.; e ainda algumas lagoas artificiais (em geral destinadas a extinguir incêndios), e valas e lagoinhas pouco numerosas e esparsas, que secam parcialmente no verão, em geral destituídas de flora característica.

Visando obter condições um pouco mais variadas, estendi o campo de coleta de modo a abranger os brejos turfosos situados entre Aarberg e Hageneck e nos arredores de Langenthal, que contêm os lagos Burgsee e Inkwylsee, além de numerosas valas e lagoas. Para abarcar uma bacia com maior extensão de água, visitei, também, o lago Bielersee, conquanto examinasse neste apenas a chamada fauna “pelágica”.

No território assim delimitado encontrei 42 espécies, distribuídas por 19 gêneros. Mais bem representados estão os linceídeos, com 19 espécies (6 gêneros). É provável que muitas delas tenham ampla distribuição, mas devido a seu tamanho exíguo, passaram desapercebidas a vários observadores (como, p. ex., Jurine). As maiores lacunas são encontradas entre os lincodafnídeos (representados por dois gêneros e três espécies), mas em geral são as espécies raras que faltam. Entre os dafnídeos faltaram-me, principalmente, o gênero Moina e muitas espécies de Daphnia.

Dou, primeiramente, a relação das espécies por mim observadas, com as localidades onde foram encontradas e observações sobre as formas que divergem das descrições anteriores. (A divisão e a

nomenclatura seguem, em sua maior parte, Sars e P. E. Müller).2

Cladocera

Seção I

Fam. 1 Sididae

Sida Strauss

crystallina O. F. Müller.

Disseminada e freqüente nos lagos maiores e menores. Lago Bielersee, grande lago Moosseedorfsee, os lagos Gerzensee, Lopsingensee, Burgsee, Inkwylsee.

Daphnella Baird

brandtiana Fischer.

Em lagos e lagoas de fundo turfoso. Abundante numa lagoa entre Bleienbach e Langenthal. Mais rara no Lopsingensee.

brachyura Liévin.

Disseminada pelos lagos, mas não abundante. Lago Bielersee, grande lago Moosseedorfsee, lago Burgsee.

Seção II

Fam. 1 Daphnidae

Daphnia Schödler

pulex (De Geer, Leydig).

Em grande quantidade em algumas valas turfosas no brejo turfoso de Hageneck.

longispina Leydig.

Freqüente no Egelmoos, perto de Berna. Os animais são quase completamente transpa-rentes e incolores.

hyalina Leydig.

Abundante em lagos. Varia quanto à forma do escudo cefálico e à dentição secundária das garras terminais do post-abdomen, formando assim, transições à forma Daphnia pellucida P. E. Müller. Lago Bielersee, grande lago Moosseedorfsee, lago Burgsee.

Simocephalus Schödler

vetulus O. F. Müller.

Disseminada e muito abundante localmente: em todo o domínio

do rio Aare e no pequeno lago Moosseedorfsee. Menos

freqüente entre Aarberg e Hageneck, nos arredores de

Langenthal e nos lagos da região. Nos arredores de Berna é a

espécie mais comum de dafnídeo.

serrulatus Koch.

Em lagos com fundo turfoso; rara. Lagos Inkwylsee e Lopsigensee. 3

Ceriodaphnia Dana

quadrangula Sars, laticaudata P. E. Müller

Abundante numa lagoa perto de Roggwyl, nas vizinhanças de

Langenthal. Os animais se distinguem de todas as espécies

afins pelo colorido vermelho intenso.

reticulata Leydig.

Abundante em uma vala turfosa do Gümligenmoos, mais rara

em outra vala turfosa perto de Siselen na vizinhança de

Aarberg.

megops Sars.

Disseminada em lagoas lodosas e valas com turfas. Em valas

turfosas entre Siselen e Aarberg e no Bleienbachmoos perto de

Langenthal. Em lagoas artificiais próximas ao lago Gerzensee e

a Roggwyl, nas cercanias de Langenthal.

pulchella Sars.

Em lagos e lagoas com fundo turfoso. Muito disseminada em

redor de Langenthal, Lopsingensee.4

punctata P. E. Müller.

Grande lago Moosseedorfsee.

Scapholeberis Schödler

mucronata O. F. Muller.

Desta espécie existem, na região, várias formas, nas quais ou

falta, de todo, o chifre frontal, ou ele é apenas mais ou menos

desenvolvido (Sc. cornuta Schödler). Caso se quisesse separar

esta última como espécie, seria preciso desdobrá-la em

variedades. Pois, enquanto em exemplares do lago

Moosseedorfsee, o comprimento do chifre é de 0,035 mm,

naqueles oriundos do lago Brienzersee, atinge o dobro, isto é,

0,07 mm, ao passo que o tamanho do corpo e o comprimento

dos espinhos da carapaça (0,15-0,17 mm) mantêm-se bastante

concordes. Tendo em vista a variabilidade do chifre, sua

ausência completa também deveria ser considerada apenas

como caráter de variedade.

Em porções maiores e menores de água parada ou com

correnteza bem lenta, encontrei a var. fronte laevi. Em um vale

de turfa perto de Siselen, lagoas próximas a Roggwyl e no

Bleienbachmoos, a var. brevicornismihi, chifre com cerca de

0,035 mm. Em várzeas inundadas ao longo do rio Aare, entre

Berna e Muri; nos lagos Bielersee e Inkwylsee, no grande lago

Moosseedorfsee, nas valas turfosas no Brüttelenmoos, perto de

Aarberg, localizei a var. longicornismihi, provida de chifre com

cerca de 0,07 mm de comprimento. No lago Brienzersee, a uma

distância considerável da margem.5

Fam. 2 Bosminidae

Bosmina Baird

laevis.

Leydig Lago Inkwylsee, Burgsee, grande lago Moosseedorfsee.

cornuta Jurine, curvirostris Fischer.

Inkwylsee.

longispina Leydig.

Os meus exemplares diferem da descrição de Leydig porquanto

os cílios das garras anais prolongam-se, com deslocamento

para os lados, sobre os suportes das garras (conforme indica

Leydig para B. laevis); os prolongamentos da carapaça são,

com freqüência, um pouco mais curtos e serrados. Lago

Bielersee.

Fam. 3 Lyncodaphnidae

Macrothrix Baird

laticornis Jurine.

Rara. Em uma lagoa lodosa em Mettlen, perto de Berna.

rosea.

Bastante freqüente em uma lagoa no Bleienbachmoos.

Iliocryptus Sars

sordidus Liévin.

Em águas paradas com fundo turfoso ou lodoso. Bastante

freqüente em duas lagoas do Gümligenmoos. Mais rara em

uma lagoa no Bleienbachmoos e no grande lago

Moosseedorfsee.

Fam. 4 Lynceidae

Eurycercus Baird

lamellatus O. F. Müller.

Não é freqüente. Várzeas inundadas em Elfenau, valas turfosas

perto de Siselen. (Lago Schwarzsee, no cantão de Friburgo,

fora da região).6

Camptocercus Baird

macrurus O. F. Muller.

Lago Bielersee, grande lago Moosseedorfsee, lagos

Lopsingensee e Inkwylsee, mas esparsa em todos estes

lugares.

Acroperus Baird

leucocephalus Koch.

Muito disseminada e freqüente em toda a região.

Alona Baird

quadrangularis 7 O. F. Müller.

Disseminada e muito abundante em alguns locais. Grande lago

de Seedorf, Gümligenmoos, lagos Lopsingenseee Burgsee,

várzeas inundadas às margens do Aare etc.

costata Sars.

Disseminada, mas sempre pouco freqüente. Grande lago

Moosseedorfsee, Lago Burgsee, lagoa próxima a Roggwyl.

similis Leydig.

Muito rara. Lopsigensee.

tenuicaudis Sars.

Muito rara. Em uma lagoa perto de Roggwyl e numa vala funda

próxima a Gutenburg, nas vizinhanças de Langenthal.

lineata Fischer.

Disseminada e freqüente. Gümligenmoos, Gutenburg, Roggwyl,

Bleienbachmoos perto de Langenthal etc.

transversa Schödler, pygmaea Sars.

Disseminada. Freqüente no Gümligenmoos e no Bleienbachmoos.

reticulata Baird, grisea Fischer.

Disseminada. Lagos Lopsingensee, Gerzensee, Inkwylsee,

lagoas próximas a Roggwyl, Bleienbachmoos etc.

verrucosa mihi.8

Muito rara. Gutenburg e Bleienbachmoos, perto de Langenthal. 9

Pleuroxus 10 Baird

truncatus O. F. Müller.

Não rara. Perto de Berna, p. ex., Gümligenmoos, grande lago

Moosseedorfsee, lago Lopsingensee. Muito freqüente na região

de Langenthal.

exiguus Liljeborg.

Disseminada. Lago Lopsingensee, grande lago

Moosseedorfsee, Gümligenmoos, perto de Berna;

Bleienbachmoos, Roggwyl, Gutenburg, lago Burgsee etc., perto

de Langenthal.

aduncus Jurine.

Lagos de Moosseedorfsee e Lopsingensee.11 Muito

disseminada e freqüente na região de Langenthal.12

personatus Leydig.

Escassa no lago Moosseedorfsee.

hastatus Sars.

Rara. Inkwylsee e lagoa perto de Roggwyl.13

Chydorus Leach

sphaericus O. F. Müller.

A espécie de Lynceideo mais comum de toda a região.

globosus Baird.

Bastante freqüente no Lóhrmoos, mais raro no grande lago

Moosseedorfsee e no de Bielersee. Em uma poça perto de

Aarberg.

latus Sars.

Disseminada, mas muito escassa em toda parte. Lagos

Lopsingensee, Inkwylsee, lagoas próximas a Roggwyl, lagoa de

Mummenthal, perto de Lagenthal.14

Seção III

Fam. 1 Polyphemidae

Polyphemus O. F. Müller

pediculus de Geer.

Muito escasso em uma lagoa no Bleienbachmoos.

Bythotrephes Leydig

longimanus Leydig, Liljeborg; Cederstrómii Schödler.

Lago Bielersee, lagos Thunersee (segundo P. E. Müller) e

Brienzersee, fora da região.

Fam. 2 Leptodoridae

Leptodora Liljeborg

hyalina Liljeborg.

Lagos Bielersee, Burgsee, Thunersee (segundo P. E. Müller) e

lago Brienzersee, fora da região.

A partir destes dados conclui-se que a fauna apresentada

acima pouco diverge daquela da Dinamarca e das redondezas

de Christiania (admiravelmente descrita por P. E. Müller e Sars).

Na realidade, faltam-nos muitas das formas por eles

assinaladas (o que não é de estranhar, dada a exigüidade do

território que abrangemos), ao passo que possuímos umas

poucas espécies mais raras, ausentes naquelas regiões.

Contudo, no geral, não se pode deixar de reconhecer a extrema

similitude das formas e, por isso, só me resta concordar com P.

E. Muller, quando diz, em seu excelente artigo sobre os

cladóceros suíços, que “cette faune appartient à une aire

zoologique qui, selon l’état actuel de nos connaissances,

occupe toute la partie centrale et occidentale de l’Europe, à

partir des hautes montagnes de la Scandinaviejusqu’aux Alpes,

du centre de la Russiejusqu’à l’Atlantique”.

Espécies raras e, tanto quanto eu saiba, ainda não indicadas

por mais ninguém além de Sars e P. E. Müller são, em

particular, Ceriodaphnia punctata P. E. Müller, Pleuroxus

hastatus Sars, Alona tenuicaudis Sars, A. costata Sars e

Chydorus latus Sars.

Os exemplares observados eram quase todos fêmeas,já que os

estudos foram feitos na primavera e no verão.

Excepcionalmente observei,já em fins de agosto, um macho e

uma fêmea de Ceriodaphnia punctata em vias de formar efípios

e, certa vez,já em fins de abril, uma fêmea de Simocephalus

vetulus com efípio quase completamente desenvolvido.

Os arredores de Berna não se prestam ao estudo da

distribuição vertical dos cladóceros, porque os pontos próprios

para estudo, acima indicados, acham-se aproximadamente na

mesma altitude de 500 a 600 metros acima do nível do mar. Por

outro lado, tive a oportunidade de fazer algumas observações

além da região prescrita: demonstraram que o limite da

distribuição vertical fica a uma altitude muito elevada, indo

provavelmente até onde se encontram águas paradas que não

provêm diretamente do derretimento de massas de gelo e neve.

Contudo, no limite superior ainda ocorrem as mesmas espécies

existentes na planície. Assim, encontrei nos lagos do passo de

São Gotardo, a 1.800 metros, Sida crystallina, Bosmina

longispina Leydig, B. laevisLeydig e Chydorus sphaericus, e no

passo de Giacomo, a 2.400 metros, encontrei ainda Alona

lineata Fischer e Chydorus sphaericus.

Sobre a distribuição em profundidade, encontram-se na

interessante obra do Professor F. A. Forel, “La faune profonde

du lac Léman”, dados que também parecem válidos para o lago

Bielersee. Nas águas muito mais turvas do lago

Moosseedorfsee e do lago Burgsee verifiquei que a fauna

pelágica era mais abundante a uma profundidade de 3,5-6

metros abaixo da superfície. A cinco metros de profundidade

não encontrei mais representantes da fauna das margens.

As seguintes espécies pertencem exclusivamente à fauna

pelágica:

Daphnia hyalina Leydig

Ceriodaphnia punctata P. E. Müller

Daphnella brachyura Liévin

Bythotrephes longimanus

Leptodora hyalina15

As espécies de Bosmina ocorrem tanto nas águas paradas

menores como nas maiores, a uma distância bastante grande

da terra, misturadas com a fauna pelágica, ou mais próximas da

superfície.

De permeio com a fauna pelágica pesquei, à noite, na

superfície do lago Brienzersee, numerosos exemplares de

Scapholeberis mucronata var. longicornis; a variedade sem

chifre também parece se afastar muito da margem, conforme

demonstram dois exemplares coletados pelo Professor F. A.

Forel na superfície do lago de Genebra, a considerável

distância da terra.

Em compensação, em águas muito rasas, com poucos

centímetros de profundidade, e em lagoinhas e poças bem

pequenas, encontrei:

Simocephalus vetulus16

Chydorus sphaericus17

Chydorus globosus Baird

As espécies não citadas a propósito da fauna pelágica são

geralmente encontradas em águas paradas menores ou na

zona marginal de lagoas e lagos maiores. Nestes últimos,

exclusivamente, foram encontrados:

Sida crystallina18

Daphnia longispina19

Simocephalus serrulatus20

Ceriodaphnia laticaudata P. E. Müller

Camptocercus macrurus O. F. Müller

Chydorus latus21

Polyphemus pediculus22

Em águas fluviais encontrei as seguintes espécies (os dados referem-se exclusivamente a várzeas inundadas pelas enchentes):

Simocephalus vetulus23

Scapholeberis mucronata (v. brevicornis)

Eurycercus lamellatus24

Acroporus leucocephalus25

Alona quadrangularis O. F. Müller

Chydorus sphaericus26

Quase todas as espécies citadas da fauna marginal podem ser

consideradas como habitantes de águas turfosas, visto que a

maioria das águas examinadas tem fundo turfoso e, quando

não é este o caso, dificilmente são encontradas outras

espécies.

No que diz respeito à modalidade de disseminação, só dois

mecanismos são relevantes na região: o arrastamento de

indivíduos ou de efípios pelo transbordamento da água corrente

(por exemplo, nas regiões ao longo do rio Aare), e o transporte

por pássaros aquáticos. Assim, num sítio turfoso abandonado,

no Bleienbachmoos, formou-se uma lagoa que contém,

atualmente, ao menos quinze espécies de cladóceros, muitas

das quais não ocorrem em toda a redondeza, de modo que fica

assim afastada a possibilidade de transporte de efípios pelo

vento.

Os cladóceros têm muitos inimigos entre os animais que

coabitam nas mesmas águas. Encontrei cladóceros inteiros ou

partes características no tubo digestivo de corégonos, Phoxinus

laevis, e diversas libélulas e larvas de coleópteros aquáticos.

Em corégonosjuvenis do lago Bielersee, o conteúdo do

estômago era constituído quase exclusivamente por Daphnia

hyalina, Bosmina longispinae Cyclopides. Nos outros animais

indicados, os cladóceros são encontrados apenas isoladamente

em meio a outros restos de alimentos. As vezes, devem ser

presas também de diversas aves aquáticas, de batráquios, de

espécies de Hydra e mesmo de formas maiores de sua própria

família. Mas, em muitos lugares, estas influências prejudiciais

carecem de importância.

Influência maior parece ser exercida pela eliminação provocada

por espécies mais bem adaptadas, da mesma família ou de

família estranha. Assim, no brejo turfoso de Bleienbach, em

meio a uma série de valas povoadas por cladóceros, existe uma

única que não os contém, mas que, em contrapartida, abriga

enorme quantidade de uma espécie minúscula de ostracode. É

ainda mais comum encontrarem-se, em condições propícias,

somente hostes imensas de Cyclopides, entre os quais se

acham, quando muito, algumas espécies pequenas de

linceídeos.

Onde o biótopo não permite que se esquivem reciprocamente,

em geral predomina só uma das espécies maiores. Encontrei,

por exemplo, uma vala povoada exclusivamente por Daphnia

pulex Leydig e outra por Ceriodaphnia reticulata Leydig. Nos

arredores de Berna, Daphnia longispina Leydig é encontrada

apenas no Egelmoos, mas aí em quantidade prodigiosa,

enquanto Simocephalus vetulus, tão freqüente alhures,

mantém-se, apenas esparsamente, em sítios isolados e

também faltam quase completamente os linceídeos menores.

Quando várias espécies maiores habitam a mesma água, as

espécies mais raras costumam manter-se separadas em

determinados pontos, conforme me foi dado observar, de modo

muito evidente, em relação a Simocephalus serrulatus,

Ceriodaphnia laticaudata 27 P. E. Müller e Eurycercus lamellatus.

Os cladóceros pouco sofrem de parasitas propriamente ditos.

Observei uma Saprolegniaem Leptodora hyalina do lago

Burgsee, provavelmente idêntica à espécie descrita por P. E.

Müller. Em poucos casos encontrei um vivo colorido amarelo-

alaranjado em Daphnia longispina, presumivelmente atribuível a

um parasita que estivesse habitando a corrente sangüínea, tal

como o colorido vermelho visto por Leydig em Chydorus

sphaericus.

Com muito mais freqüência são encontradas algas ou infusórios

presos à carapaça dos cladóceros, que lhes servem apenas de

sustentáculo e não de alimento. (Não encontrei exem-

plaresjuvenis de Spongilla em cladóceros, mas sim em

Cyclopides que viviam nas mesmas águas.) Em geral, estão

localizados apenas nas partes das quais não podem ser

removidos pelas antenas remadoras ou pelo post-abdomen

nunca verifiquei um grande entrave aos movimentos em

conseqüência deles. Tais inquilinos são particularmente

freqüentes em Chydorus sphaericus, Scapholeberis mucronata,

Simocephalus vetulus e Daphnia longispina Leydig.

São estes aproximadamente os resultados das observações

que tive o ensejo de fazer durante uma primavera e um verão.

Embora a maioria dos locais tenha sido visitada repetidamente,

um ou outro fato poderá ter escapado à observação; parte das

espécies pode desaparecer e, em compensação, outras podem

surgir, sendo, portanto, impossível dar uma imagem completa e

permanente da fauna. Este esboço bastará, contudo, para

mostrar que nossa região oferece aspectos interessantes

também em relação a esses pequenos animais de água doce.

Novas observações em outras partes da Suíça deverão revelar

outras espécies dignas de nota, provando que, se nossa fauna

Cladocera parece pobre, tal fato deve-se unicamente à

circunstância de não ter sido estudada tanto quanto o foi a

fauna nórdica pelos pesquisadores daquela região.

 

* Comunicação apresentada na sessão geral de 2 de março de 1878. Tradução de:

“Untersuchungen über die Cladoceren der Umgebung von Bern. Vorgetragen in der allgemeinen Sitzung, den 2. Mãrz, 1878”. Mitteilungen der Naturforschenden Gesellschaft in Bern, p.38-54. Em versão datilografada desta comunicação à Sociedade de Ciências Naturais de Berna, em rodapé, como parte do título, consta Gekrónte Preisschrift” (Trabalho Premiado). No Arquivo Adolpho Lutz encontra-se a versão em português desta comunicação escrita originalmente em alemão. O texto ora publicado contém correções dos editores à tradução feita provavelmente por Bertha Lutz, na década de 1950, quando colaborava com o estudo que Lejeune de Oliveira fazia sobre os crustáceos existentes no campus do Instituto Oswaldo Cruz (esse estudo seria publicado como parte das comemorações do centenário de nascimento de Adolpho Lutz, mas permaneceu inédito). A tradução de Bertha incluiu as notas que seu pai escreveu a lápis, em alemão, no exemplar do artigo publicado em Berna que utilizava habitualmente. Tais notas foram mantidas no texto ora publicado, mas como “Notas acrescentadas”, de maneira a serem diferenciadas das que figuravam na publicação original [Nota do original]. Em rodapé, consignamos ainda as modificações feitas na versão original do trabalho por quem o traduziu ou reviu, modificações cuja autoria atribuímos a Bertha Lutz. [N.E.]

1 Águas moles são assim chamadas porque contêm pequena quantidade de sais de cálcio e magnésio, por oposição às águas duras, que contêm elevada proporção de sais alcalino-terrosos. [N.E.]

2 [Nota do original] São os seguintes os autores que utilizei, e cujas obras, em parte, só estiveram à minha disposição por pouco tempo:

Jurine. Histoire des monocles, qui se trouvent aux environs de Genève, 1820.

Schödler, J. E. Cladoceren des frischen Haffs (Wiegmanns Archiv für Naturgeschichte, 32. Jahrg., Bd.1)

Leydig, Dr. Fr. Naturgeschichte der Daphniden, Tübingen, 1860.

Müller, P. E. Danmarks Cladocera (Schiódte, Naturhistorisk Tidsskrift III. R., V. Bd, 1867). – “Note sur les Cladoceres des grands lacs de la Suisse”. Archives des Sciences Physiques et Naturelles. Tome XXXVII, Genève, 1870.

Fischer, Dr. S. Abhandlung über einige neue oder noch nicht genau gekannte Daphniden und Lynceiden, als Beitrag zur Fauna Russlands. Moskau, 1854.

Sars, G. O. Oversigt af de af ham i Omegnen af Christiania iagttagne crustacca Cladocera Forhandlinger i Videnskabs selskabet i Christiania 1863.

Bronn’s, Dr. H. G. Klassen und Ordnungen des Thierreichs, fortgesetzt von Dr. A. Gerstãcker. 22. Lieferung, 1876. Leipzig und Heidelberg.

3 Moina paradoxa Mu dorf perto de Basel. [Nota acrescentada]

4 Lago Thunersee. [Nota acrescentada]

5 O mesmo no lago Thunersee. [Nota acrescentada]

6 Lago Thunersee. Mais tarde nomeada elongata P. E. Müller. [Nota acrescentada]

7 Encontrada em Langenthal. [Nota acrescentada]

8 [Nota do original] Segue a descrição mais detalhada de Alona verrucosa n.sp. Bordo superior quase regularmente encurvado a partir da ponta do bico, confluindo com o bordo posterior por meio de ângulo arredondado, em direção ao bordo inferior. Este revestido por cordas pequenas, que diminuem em comprimento de trás para diante; quase reto até onde passa em ângulo arredondado para o bordo anterior, o qual é verticalmente ascendente. A carapaça, sem o escudo cefálico, adquire, assim, a forma de um retângulo de cantos arredondados. Escudo cefálico largo, bem destacado da carapaça; sua parte terminal romba, alcançada pela base das antenas tácteis. Olho grande. Ocelo pequeno, mais afastado do olho que da ponta do bico. Post-abdomen bastante largo, curto, chanfrado por trás das fortes garras terminais, providas de acúleo basal; seu bordo posterior, guarnecido de 7-8 espinhos decrescentes, forma ângulo pouco saliente a partir da ponta. Cerdas remadoras bastante longas, onduladas. A escultura da carapaça e do escudo cefálico constitui caráter específico; é formada por verrugas pequenas, dispostas em estrias oblíquas, dando um aspecto delicado ao animal. Colorido cinzento. Comprimento do animal 0,336 mm; maior largura da carapaça 0,217 mm (2 mensurações coincidentes).

9 Na versão datilografada e revista do trabalho, consta, também, Roggwyl e um etc. [N.E.]

10 acanthocercoides em Morges, lago de Genebra [Nota acrescentada]

11 No texto datilografado e revisto, entraria aqui outra nota, indicando-se apenas a interrogação (“?”).

12 trigonellus. [Nota acrescentada]

13 Lago Thunersee, perto de Gwatt. [Nota acrescentada]

14 Gwatt, no lago Thunersee. [Nota acrescentada]

15Bosmina longispina. [Nota acrescentada] Na versão original do texto traduzido, Bertha Lutz inclui os autores das espécies: Bythotrephes longimanus Leydig e Leptodora hyalina Lilljeborg. [N.E.]

16 Na tradução original, Bertha Lutz inclui o autor da espécie: Simocephalus vetulus O. F. Müller.

O mesmo se aplica às notas apresentadas a seguir. [N.E.]

17 Na tradução original, Chydorus sphaericus O. F. Müller. [N.E.]

18 Na tradução original, Sida crystallina O. F. Muller. [N.E.]

19 Daphnia longispina Leydig. [N.E.]

20 Simocephalus serrulatus Koch. [N.E.]

21 Chydorus latus Sars. [N.E.]

22 Polyphemus pediculus de Geer. [N.E.]

23 Simocephalus vetulus O. F. Müller na tradução original. [N.E.]

24 Eurycercus lamellatus O. F. Müller. [N.E.]

25 Acroperus leucocephalus Koch. [N.E.]

26 Chydorus sphaericus O. F. Müller na tradução original [N.E.] No exemplar do trabalho publicado em Berna, com observações manuscritas por Lutz, lê-se o comentário “Nos lagos maiores definitivamente não”, aparentemente referido às seis últimas espécies; a esta lista ele parece incluir “Daphnia pellucida”. [Notas acrescentadas]

27 Na tradução original, não é mencionada Simocephalus serrulatus, consta Daphnia laticaudata P. E. Müller em lugar de Ceriodaphnia laticaudata P. E. Müller, e Eurycercus lamellatus vem acrescido do descobrido da espécie, O. F. Müller. [N.E.]