Adolpho Lutz: Primeiros trabalhos: Alemanha, Suíça e Brasil (1878-1883)
Sobre o efeito terapêutico do quebracho-colorado
Sobre o efeito terapêutico do
quebracho-colorado *
O nome “quebracho” foi mencionado pela primeira vez na literatura médica quando, em 17 de fevereiro de 1879, o dr. Francisco Penzoldt referiu à sociedade físico-médica de Erlangen as experiências que tinha feito com uma cortiça que lhe remetera Schickendanz de Pilciao (Argentina). Consta que esta substância é empregada como febrífugo pelos médicos nacionais, sob a denominação de cortiça quebracho, e que seu uso é seguido de bom resultado. Ela provém de uma apocinácea, Aspidosperma Quebracho Schlechtendal, que se encontra em abundância na província de Santiago.
Desta cortiça Penzoldt compôs uma tintura, mas não pôde conseguir efeito algum antipirético, porém pelo acaso descobriu outra qualidade sumamente notável, a saber, a de aliviar, ou fazer cessar, muitas formas de dispnéia. A mesma ação foi obtida, porém somente em dose maior, por uma tintura extraída da parte lenhosa da mesma planta.
Jorge Fraude isolou da cortiça e da madeira um alcalóide com a fórmula C H N O e denominou-o “aspidospermino”. Todavia este 22 28 2 2
não parece representar o princípio terapeuticamente eficaz.
Depois da publicação desses resultados fizeram-se, em diversas partes, experiências com quebracho. Por falta de cortiça, empregou-se madeira, que desde algum tempo, sob o nome “quebracho”, tinha sido usada para o curtume. Mas logo verificou-se que com este nome vendiam-se diferentes produtos, pelo que se tem denominado quebracho diversas madeiras rjas. Por estudos minuciosos chegou-se ao conhecimento de um fato muito notável: é que uma destas madeiras, não obstante uma ação terapêutica muito similar, provém de uma árvore inteiramente diversa, a saber: Quebrachia Lorentzii Griesebach (syn. Loxopterygium LorentziiGriesebach) da família das terebintáceas ou anacardiáceas. Na farmacologia, hoje, é conhecida pelo nome “quebracho-colorado”, em virtude de sua cor mais roxa, distinguindo-se assim do “quebracho-branco” (Aspidosperma quebracho).
No princípio de meus estudos sobre o quebracho empreguei diversas preparações, mas, aqui, somente me refiro às experiências feitas com uma delas, como mais freqüentes e completas. A saber “Extractum ligni Quebracho aquosum siccum de Büdingen em Frankfurt”. Este, segundo informações positivas, provém da Quebrachia Lorentzii, e por isso devia ser designado Extractum quebrachiae, ou definido pelo epíteto “colorado”. Neste trabalho me servirei da designação Extractum crudum, abreviado, extr. crud.
Essa substância apresenta-se em forma de massa fusca, tenaz, e, quando reduzida a pó, tem cor de carne. Uma quantidade reduzida a cinzas deu um resíduo de 1,04%. É pouco solúvel em água fria, porque agrumela-se em massa viscosa, enquanto em água quente dissolve-se com facilidade e fica dissolvida depois de esfriar. Porém, a solução sendo muito concentrada, a maior parte precipita-se quando esfria. Grande parte da substância consiste em matérias semelhantes ao ácido tânico, que eu designarei pelo nome coletivo de “tanino de Quebrachia”. Distinguem-se, essencialmente, pela sua solubilidade nos diversos líquidos. Precipitam o albume e a gelatina das suas soluções e apresentam reações similares às do ácido tânico. Também se distinguem por formarem sais de ferro verdes, como as matérias tânicas contidas em outros produtos, por exemplo, a Gummakino e o Kato.
Estes princípios comunicam à solução um gosto tão adstringente, que os melhores corrigentes não conseguem torná-lo tolerável. Esta inconveniência,junto à facilidade com que cria bolor, empenharam-me em empregar o pó em hóstias ou cápsulas gelatinosas, modo de administração que apenas retarda o efeito.
Como as observações demonstraram que os princípios ativos continuam dissolvidos depois do resfriamento de uma solução concentrada, eu não tive dificuldade de preparar, desse modo, um medicamento mais puro. O resultado de uma proporção definida variava entre 20-40% do extr. crud. Designo esta preparação como Extractum depuratum, abreviado extr. dep., e recomendo-a aos meus colegas em virtude de seu pequeno volume e de sua solubilidade. Também se presta muito a ser empregada em pílulas, ou por clister.
Obtém-se uma preparação ainda mais pura extraindo o extr. dep. com éter absoluto, que toma uma cor verdoenga. Sendo evaporado o líquido, resta uma massa amarela, que representa somente 3-4% da quantidade primitiva, e que contém os princípios eficazes. Ela tem um cheiro singular e característico e um gosto um pouco amargo, mas tão fácil de corrigir, que mesmo as crianças não hesitam em tomá-la. Fora dos princípios eficazes e das matérias tânicas, o extr. crud. contém, ainda, uma matéria colorante vermelha e substâncias resinosas.
Depois de tomar 0,5-1,0 extr. crud. (ou uma dose correspondente de extr. dep. ou extr. de éter), os adultos normais não acusam sensações particulares. O modo e a freqüência da respiração não se alteram, enquanto a FP habitualmente diminui um pouco (em torno de 10%). Este efeito não é constante, pode ser produzido por doses menores (0,2 extr. crud.), sendo porém, as doses maiores, é prolongado, mas não aumentado. Não se observou alteração de temperatura. As vezes, particularmente depois de doses maiores, nota-se congestão ligeira da face, raras vezes acompanhada de transpiração. Num coelho curarizado, a injeção subcutânea de uma solução neutralizada de 0,4 extr. dep. = 2,0 extr. crud. não produziu alteração nem sintomas de intoxicação.
Eu mesmo, depois de algumas experiências preliminares, cheguei a tomar 5,0 extr. crud. em pó, sem sentir efeito tóxico. Senti uma leve sensação de calor contínua na cabeça, mas não tão forte como a que fora provocada pela inalação de uma gota de éter amilonitroso.
A respiração era fácil; depois de esforços, talvez mais do que de costume. Não se verificou efeito notável sobre P e T.
Os efeitos são mais interessantes quando as doses sobreditas são dadas a adultos que padecem de qualquer forma de dispnéia. Quando esta é mista, e a FR muito acelerada, resulta geralmente depois de cinco a dez minutos uma diminuição gradual da FR que, na média, chega ao máximo de 25%, mas muitas vezes é notavelmente maior. Efeitos semelhantes são observados quando na R acelerada prevalece o tipo expiratório.
Quando a dispnéia é inspiratória, diminui a profundidade da respiração e o ruído que a acompanha; a FR, que, regra geral, não é acelerada, conserva-se a mesma. Pela ação do remédio em casos leves pode resultar em diminuição; nas formas graves, porém, quando a FR é muito diminuída, às vezes nota-se um aumento do número dos movimentos respiratórios.
Se há cianose, esta diminui freqüentemente de uma maneira admirável; em outros casos, porém, a diminuição é pouco sensível.
As mudanças objetivas citadas são acompanhadas, nos doentes capazes de dar contas das suas sensações, de um alívio importante. O mesmo se observou, algumas vezes, quando não era possível notar as mudanças objetivas no estado do doente. Este alívio, naturalmente, é o ponto essencial nojulgamento do resultado terapêutico, quando se trata, em primeiro lugar, do cumprimento de uma indicação sintomática.
Entretanto o estado do pulso é variável. Quando a FP é muito aumentada, como especialmente em estados febris e anêmicos, na generalidade dos casos há uma diminuição considerável, cujo valor, convenientemente calculado, muitas vezes corresponde exatamente à diminuição da TR. Também acontece que a FR apenas mude, enquanto a FP diminui consideravelmente. Quando, em estados dispnéicos, a FP é pequena, não se nota diminuição correspondente à da FR.
Visto isso, convinha ensaiar o novo remédio também nas condições nas quais havia aumento da FP, sem alteração da FR. Com efeito, em condições como estas obtive baixar a FP e remover a sensação incômoda de cardiopalmia; porém, em outros casos o resultado ou era insignificante, ou falhava de todo.
Quando FR e FPjuntas caem rapidamente, a temperatura ordinariamente por breve tempo baixa de uns décimos de grau. Afora isto, as doses empregadas nunca foram seguidas de um efeito antipirético.
Não tenho observado, com certeza, influência favorável sobre tosse, expectoração ou dores, apesar de alguns doentes afirmarem tossir menos e escarrar com mais facilidade. Semelhante a outras matérias ricas em tanino como Gummakino, Kato etc., emprega-se o extr. crud. com bom resultado nas diversas formas de diarréia.
Como acabamos de demonstrar, a ação mais importante desta substância é seu efeito na dispnéia. A sua ação sobre P e T não é muito notável, é talvez mesmo secundária, podendo ser comparada à de outros remédios. Por numerosos motivos parece provável, a priori, que nos indivíduos saudáveis tem uma influência facilitante sobre a função respiratória; porém, nem por sinais subjetivos nem objetivos isto é manifesto, a menos que se explicasse deste modo a diminuição moderada tão comum da FP. Pelo contrário, os sintomas de alívio, tanto subjetivos como objetivos, são patentes se a respiração estiver visivelmente impedida; o efeito não depende da forma da dispnéia (inspiratória, expiratória, mista) nem de sua etiologia (alteração da circulação pulmonar, redução da substância pulmonar capaz de função normal etc.). A dispnéia, em geral, não é sustada, mas somente reduzida, porém muitas vezes de maneira tão considerável que o doente crê respirar como em perfeita saúde, enquanto o alívio é só relativo. Raras vezes o efeito falha completamente (quase só nos graus mais elevados de insuficiência cardíaca e estenose dos tubos condutores do ar); porém, muitas vezes é fraco, nem sempre corresponde aos resultados obtidos nos casos semelhantes.
Sobre o modo como se opera o efeito singular do quebracho-colorado temos poucas noções, e estas, pela maior parte, negativas. Não foi possível observar uma variação da pressão sanguínea, nas experiências feitas com o kymographion, sobre coelhos. Por outra, uma ação antiespasmódica sobre as fibras musculares lisas do sistema bronquial não basta para explicar o efeito em todos os casos que hei de citar. A suposição de um efeito narcótico geral, ou limitado ao centro respiratório, é contestada pela circunstância de que também há melhoramento objetivo na respiração (diminuição da cianose etc.), enquanto outras observações tornam provável uma influência direta sobre o sistema nervoso. Uma mudança favorável no quimismo do sangue (segundo a hipótese de Penzoldt sobre o quebracho-branco, uma oxidação mais intensa) seria, em muitos casos, a explicação mais plausível, por exemplo, na dispnéia dos anêmicos. Porém, esta teoria nem está bem provada, nem é isenta de objeções. Em todo caso, parece incontestável que o quebracho, em estados dispnéicos, traz condições mais favoráveis à respiração; porém, se isso se faz por diminuição da despesa, ou por aumento da receita, por via mecânica ou química, são questões a decidir por experiências ulteriores.
O efeito sobre o pulso deve ser considerado como secundário, ao menos nos casos nos quais há uma diminuição na FR. Já que, conforme a experiência, a FR aumenta quando há impedimento da R, deve também abaixar quando este impedimento é diminuído ou removido.
Quando não faz efeito a primeira dose, esta deve ser repetida ou aumentada. Não obstante alguns doentes tomarem a seu pedido, durante algumas semanas, 4,0-5,0 extr. crud. por dia, nunca observei ação desagradável, nem sequer incômodos da digestão, que a grande quantidade de matérias tônicas poderia ter causado. Neste caso convém empregar uma preparação mais pura, ou uma dose menor.
O emprego do novo remédio na dispnéia tem, por fim, um alívio sintomático, enquanto o doente, por esforços respiratórios excessivos, ainda consegue tomar a quantidade necessária de O (isto é, se, não obstante a dispnéia, não houver cianose). Alcançando o fim proposto,já se presta ao doente um benefício muito grande; ainda mais precioso se torna o remédio quando é capaz de suprir a falta de O, que persiste, não obstante a respiração esforçada ao último grau, e evitar a intoxicação gradual e iminente de CO . Estes casos, nos quais o remédio pode satisfazer a 2
indicatio vitalis, são raros, porque os processos que causam tais condições são, pela maior parte, progressivos, e podem ser retardados, mas não removidos. Mas, muitas vezes seu emprego pode servir para ganhar tempo enquanto se empregam outros meios terapêuticos.
Do que tenho exposto deduz-se mais outra indicação: se for incontestável que, pela aceleração da R, principalmente em moléstias febris, é entretida uma aceleração excessiva da ação cardíaca, pode-se esperar uma influência favorável sobre o coração do emprego contínuo do quebracho-colorado acompanhada de efeito antidispnéico. Como pela diminuição secundária das contrações do coração, o processo nutritivo de sua substância muscular é melhorado, e a degenerescência adiposa é combatida, a insuficiência cardíaca pode ser adiada, e em casos favoráveis talvez evitada. Os casos de dispnéia com FP excessiva tratados pelo emprego contínuo de quebracho-colorado firmaram-me nestas conclusões.
Quanto ao efeito provável, posso comunicar o seguinte:
Os sucessos mais extraordinários observam-se em muitos casos do complexo de fenômenos mórbidos chamado asma sintomática; também na asma idiopática, em doenças respiratórias agudas, e estados de anemia e de febre intensa, o efeito é, muitas vezes, surpreendente. Na dispnéia ocasionada por moléstias crônicas dos órgãos respiratórios sua ação terapêutica é muito menos certa; ainda, porém, convém empregar o remédio, porque às vezes os resultados são bem satisfatórios. Quando o tecido pulmonar normal é muito reduzido, ou quando há estenoses fortes dos tubos condutores do ar, sua influência no maior número de casos é insignificante, e em conseqüência dos incômodos persistentes é apenas apreciada pelos doentes, mesmo quando se pode demonstrá-la por sinais objetivos.
A dispnéia causada somente por fraqueza cardíaca fornece a prognose pior.
Depois destas indicações gerais tratarei de cada uma das doenças respiratórias, em relação ao emprego do quebracho.
As observações, das quais vou citar alguns exemplos, foram feitas em doentes da clínica médica da Universidade de Berna, e do hospital cantonal de St. Galle. Empreguei um método semelhante ao de Penzoldt. Numas experiências a R e o P foram verificados de cinco em cinco minutos; noutras, sempre depois de 15 ou 30 minutos, tomando-se um valor médio de três observações sucessivas, cada qual de um minuto. Serviam à comparação os valores médios obtidos nos últimos 15 a 30 minutos, observando-se se a FR ou a FP tinham aumentado ou diminuído. Enquanto foi possível durante o tempo de experiência, procurei fazer com que os doentes guardassem uma mesma posição confortável, evitando todas as influências perturbadoras.
A. Moléstias primárias dos órgãos da respiração
1 – Moléstia do parênquima pulmonar
1. Pneumonia cruposa
Nos casos leves de pneumonia, nos quais não há dispnéia e a respiração quase não difere da do estado normal, não há indicação para o emprego do extrato de Quebrachia. Diremos o mesmo quando a dispnéia é somente aparente e, por causa das dores pleuríticas, as inspirações são mais freqüentes e menos profundas; então, um narcótico é seguido de melhor efeito.
Ao contrário, há um número considerável de casos graves, nos quais a dispnéia aparece como um sintoma muito incômodo, sem que a insuficiência cardíaca esteja iminente. Tratamos dos casos de infiltração extensa, em pessoas com órgãos de circulação normais, nos quais a dispnéia é provocada tanto pela afecção local, como pela elevação da temperatura. Os doentes capazes de dar contas de seu estado acusaram grande alívio, logo depois de tomarem o remédio. Ao mesmo tempo notou-se uma diminuição considerável da FR. Alguns colegas amigos também me comunicaram resultados paliativos tão bons que me sinto obrigado a insistir especialmente no emprego do quebracho-colorado em condições semelhantes.
O pulso, em geral pouco acelerado, quando pôde ser observado, pouca ou nenhuma alteração apresentou.
Exemplo 1 1
Frederico O..., moço robusto, atacado de pneumonia havia cinco a seis dias. A expectoração tem cor de sangue com coágulos fibrinosos de forma ramificada. Nota-se obscuridade de som completa atrás e embaixo; do lado esquerdo da altura de uma mão, e do lado direito até ao meio da omoplata. Afora isso, há diarréia.
Em 5 dejaneiro de 1879 2
Em 6 de janeiro de 1879
Se no curso da pneumonia aparecer insuficiência cardíaca com edema pulmonar, há pouco que esperar do quebracho-colorado, entretanto aproveitei como remédio adjutório.
No hospital cantonal de St. Galle tive ocasião de observar uma epidemia muito singular de pneumotifo, na qual infiltrações pneumônicas, em parte limitadas a um lobo superior ou inferior, em parte muito extensas, se manifestaram no curso ou aparentemente no princípio de um tifo abdominal. Num destes casos houve complicação de meningite cerebral. Administrando o quebracho observei um efeito análogo ao obtido na pneumonia simples.
Exemplo 2
Conrado H..., homem muito robusto de 28 anos de idade, foi acometido de calafrios e dores pungentes no peito, em 6 de maio, depois de sentir-se indisposto bastante tempo, entrou no hospital em 9 de maio. Observou-se herpes labialis duplex muito distinto e infiltração extensa em ambos os pulmões. Expectoração, ao princípio hemorrágica, depois mucopurulenta e fortemente pigmentada. A terapêutica antipirética, empregada com grande energia para a moderação da febre, foi insuficiente. Morte em 13 de maio, com a temperatura de 39,8°.
Na autopsia o pulmão esquerdo inteiro encontrou-se infiltrado, afundando-se em sua totalidade; o lobo superior estava em estado de hepatização cinzenta; o lobo inferior em via de transição do engouement para hepatização vermelha. O lobo superior direito no mesmo estado como o esquerdo; o lóbulo inferior e uma parte do médio, como o inferior esquerdo, mas contendo um pouco mais de ar. Só uma parte do lóbulo médio, exceto o edema, não tem alteração. O baço inchado, quase deliqüescente. No íleo e no cólon, sinais patológicos de um tifo abdominal muito adiantado e muito extenso.
Em 9 de maio de 1880
2. Enfisema pulmonar
O enfisema pulmonar é, talvez, aquela doença que exige mais o emprego do quebracho. Justamente esta afecção tão freqüente é de tal interesse para a apreciação do grau do resultado, que eu me permito referir, brevemente, pelo menos, minhas numerosas observações.
Os diversos casos, por mim tratados, ofereciam, segundo a intensidade da moléstia, sintomas muito diferentes. Em muitos, os incômodos principais eram ocasionados por acessos de dispnéia que apareciam repentinamente, enquanto nos intervalos a respiração quase não era prejudicada. Aqui o quebracho manifestou-se como um remédio paliativo de um efeito tão seguro, que os doentes sempre tornaram a pedi-lo, e que podia servir como norma da ação e da medida das doses nas preparações diversas. Quando a observação podia efetuar-se, à aceleração considerável da FR sempre se seguia uma diminuição importante, sendo o efeito relativamente maior nos graus mais elevados. Ordinariamente, o pulso não era freqüente e não diminuía na mesma proporção; pelo contrário, a diferença era insignificante.
Exemplo 3
Br..., homem de uns 60 anos de idade. Enfisema pulmonar forte com ataques de dispnéia.
Em 29 de agosto de 1879
Exemplo 4
V..., mulher de 50 anos, padece há muito tempo de debilidade geral, anorexia e anemia muito pronunciada; além disso existem sintomas de enfisema pulmonar e acessos agudos de dispnéia. Mais tarde aparecem sucessivamente dispnéia constante e sintomas hidrópicos.
Na autopsia achou-se enfisema pulmonar forte e um carcinoma do piloro (cujo diâmetro não tinha diminuído) que durante a vida não tinha produzido nenhum sinal característico.
Eu deixo a seguir algumas observações.
Em 10 de setembro de 1879
Em 11 de setembro
Em 18 de setembro
Exemplo 5
N..., mulher de 30 anos. Enfisema pulmonar. Tórax raquítico. Estruma sub-esternal atrofiada em conseqüência de injeções parenquimatosas de tint. de iodo.
Dispnéia forte. A doente toma 0,04 extr. éter (corresp. 1,0 extr. crud.) dissolvido em água. Pouco depois alívio considerável.
Também vi bom efeito em casos em que as moléstias desenvolveram-se pouco a pouco pela complicação com bronquite, exsudações pleuríticas, gravidez etc.
Exemplo 6
L..., homem de 61 anos de idade. Enfisema pulmonar, bronquite aguda.
Observações policlínicas me levam a crer que o extr. crud. tem também uma ação profilática nos casos em que aparece dispnéia em conseqüência de esforços. (Confer. Picot: Sobre o efeito do córtex Quebracho.)
Onde, em conseqüência de enfisema pulmonar, há perturbação respiratória ligeira e contínua (geralmente sem grande aceleração da FR), ainda se pode obter alívio pelo nosso remédio. A FP usualmente moderada, apenas diminui, enquanto a FR vai abaixo do normal, por exemplo, de 24-15.
Também vi resultados em hidropisia bastante adiantada. Porém, falharam num caso em que havia insuficiência cardíaca muito evidente. A autopsia confirmou o diagnóstico de uma hipertrofia e dilatação do coração, com degenerescência adiposa, e do enfisema causal.
Quando o enfisema complica-se com bronquite e tosse forte, a combinação de extr. crud. com pequenas doses de morfina emprega-se com ótimo efeito.
3. Tísica pulmonar
Os diversos processos que se compreendem sob o nome tísica pulmonar têm a particularidade comum de minorar ou abolir completamente a função das partes atacadas dos pulmões. São acompanhadas muitas vezes de anemia geral distinta, porém raras vezes de hidropisia, que quase nunca atinge um grau elevado. Geralmente não há dispnéia contínua por muito tempo, aparecendo, ao contrário, somente no fim do processo mórbido; porém, ataques agudos de dispnéia (chamados asma sintomática em oposição à asma essencial) não são raros, mesmo no começo da moléstia. Nestas últimas, as preparações de Quebrachia sempre tiveram um efeito favorável nas numerosas observações por mim feitas.
Exemplo 7
Diogo L... 4, de cerca de 55 anos de idade. Diagnose: tísica dupla. Não há som amortecido, porém chiados numerosos das diversas qualidades estendidas sobre ambos os pulmões, e aumentando em número para os ápices. Escarro catarral muito copioso. Tosse freqüente. Febre de um tipo irregular. Ataques de dispnéia. — O diagnóstico mais tarde foi confirmado pela autopsia.
Em 29 de outubro de 1879
Também na dispnéia menos aguda, da qual uma parte deve ser atribuída à febre, à anemia e à debilidade geral, nas crises graves o novo medicamento costuma dar grande alívio, porque, mesmo nos casos piores, a dispnéia é muito variável, e ordinariamente mostra exacerbações paroxísticas, nas quais nunca deixei de observar uma influência benéfica do quebracho-colorado. Porém, isto não se deu quando a moléstia era excepcionalmente extensa, e havia dispnéia contínua e pouco variável. Assim, em dois casos de tísica muito adiantada, com grande empiema do lado direito, depois da administração de doses (moderadas, é verdade) não notei efeito sensível. Porém, os resultados eram surpreendentes nos freqüentes paroxismos de dispnéia no mais alto grau, num homem robusto, que padecia de uma tísica muito aguda, acompanhada de hidropisia medíocre.
Exemplo 8
Sp..., homem de 35 anos. Diagnose: tísica florida dupla. Obscuridade de som de ambos os lados até o meio das omoplatas. Dispnéia constante com exacerbações. — O diagnóstico foi confirmado pela autopsia depois de alguns dias.
Em 28 de abril de 1880
Em 24 de abril de 1880
A diminuição da FR é sempre acompanhada de um alívio considerável.
Exemplo 9
Diogo Z..., de cerca de 30 anos. Tísica florida. Resultado da autopsia: ambos os pulmões dos ápices para baixo infiltrados com tubérculos e focos cascosos. Coração coberto de camadas velosas (cor villosum), parênquima do coração e do fígado, e a substância cortical dos rins em degenerescência adiposa. Não há reação de substância amilóide. Pequenas exsudações em todas as cavidades serosas. Anasarca.
Em 13 de setembro de 1880 (poucos dias antes do falecimento do
doente)
Na terminação da tísica, como em outras doenças, o quebracho-colorado não produz efeito, porém em alguns casos vi alívio também no princípio da agonia.
Tuberculosis Miliaris Acuta
Num caso esquisito de tubérculos miliares nos pulmões, no fígado, nos rins e no baço (estando a pia-máter isenta deles) apresentando apenas sintomas de bronquite simples, o emprego do extr. crud. foi sempre seguido de alívio nos paroxismos de dispnéia muito fortes e no princípio do edema pulmonar terminal. Num outro caso observou-se diminuição da cianose. Observações do P e da R não foram feitas.
II – Moléstias das vias respiratórias
1. Estenose da laringe, da traquéia e dos brônquios maiores
Não tenho feito bastantes observações em moléstias destes órgãos para poder tirar conclusões precisas, tanto mais que não se puderam fazer estudos sobre FR, porque na respiração estenótica o número das respirações raras vezes passa além do normal. Também as poucas experiências, e a analogia com outras afecções que diminuem a ventilação pulmonar, me induzem à opinião de que graus medíocres de estenose não se opõem ao efeito antidispnéico do quebracho-colorado. Em graus mais elevados, como na estenose laríngea diftérica em crianças de menor idade, que necessitam a laringotomia, não tenho visto bom efeito.
Resultados observei em dois casos de difteria, um dos quais refere-se a uma criança de sete anos. Aqui manifestou-se somente um forte acesso de dispnéia inspiratória, que desapareceu depois de uma injeção subcutânea de uma preparação, depurada de matérias tânicas. O doente sucumbiu no décimo dia, depois de a temperatura ter abaixado em curva regular de 40° a 33,4°. A autopsia mostrou, além de inumeráveis hemorragias em quase todos os órgãos, uma camada membranosa contínua no paladar, na fossa nasopalatina e na entrada da laringe, incluindo o lado superior das cordas vocais. Mais para baixo não havia vestígios de membranas.
Em um outro caso de estenose diftérica limitada à traquéia, notei, repetidas vezes, melhoras sensíveis na respiração estenótica.
A doente era uma mulher velha, que entrou para o hospital com os sintomas de cistite purulenta e que depois de alguns dias foi acometida de coma e respiração estenótica. Com o laringoscópio consegui distinguir, na parede da traquéia, manchas brancas irregulares com os contornos distintos. Na autopsia achei, no mesmo lugar, um depósito de membranas, porém, como durante a vida, a laringe estava completamente livre. Afora isso, ulcerações tuberculosas profundas dos rins e da bexiga.
Num terceiro caso de laringite e traqueíte aguda em uma mulher extremamente debilitada o quebracho-colorado deu alívio muito pronto tendo a dispnéia, por causa, a acumulação da secreção mucosa muito tenaz.
Num caso de bronquite fibrinosa aguda, descrito por mim no Correspondenzblatt für Schweizer Aerzte, Jahrgang X, n° 15, havia acesso forte de dispnéia inspiratória, com aumento da FR (depois da expectoração de duas membranas ramificadas). Esse provavelmente era causado pela obstrução de um ramo brônquico maior, por um pedaço de membrana fibrinosa. Eis a observação.
Exemplo 10
Catharina N., de 22 anos de idade. Diagnose: bronquite fibrinosa aguda.
Em 29 dejaneiro de 1880
2. Bronquite
Entre os numerosos casos de bronquite difusa, acompanhados de dispnéia, nos quais o quebracho-colorado foi empregado, poucos foram os que não se complicavam de moléstias do coração ou dos pulmões (principalmente enfisema). Também nestes o quebracho-colorado produziu seu efeito.
Exemplo 11
Martha F., de 55 anos, que nunca tinha tido dispnéia; não apresenta indícios de moléstia pulmonar ou do coração; desde alguns dias bronquite muito intensa e extensa, com dispnéia.
Em 24 dejunho de 1880
Não obstante a pouca diminuição da FR logo depois da administração do remédio houve alívio considerável.
A bronquite secundária é tratada conjuntamente com as moléstias primitivas, e aqui só direi que nas afecções nas quais a dispnéia é provocada ou aumentada pela bronquite, o quebracho-colorado produz bom efeito, principalmente sobre o estado subjetivo do doente.
Três crianças, nas quais depois da traqueotomia o processo diftérico tinha-se estendido sobre os brônquios menores, tornaram repetidas vezes a respirar com mais facilidade, depois de tomarem quebracho-colorado.
3. Moléstias pleuríticas
Infelizmente não tive casos à minha disposição, nos quais se pudesse excluir qualquer doença do parênquima pulmonar. Posso somente asseverar que doenças da pleura, complicando moléstias pulmonares, não impedem o efeito do quebracho-colorado. É verdade que em dois casosjá mencionados de tísica muito extensa com empiema não se notou efeito perceptível; porém, num terceiro, o bom resultado foi indubitável. Em exsudações serosas agudas, que como complicação de moléstias pulmonares causavam grande dispnéia, a ação era favorável e mesmo surpreendente em alguns casos.
Exemplo 12
Carolina W., 60 anos. 6 Enfisema pulmonar, pleurisia serosa esquerda.
Em 26 de outubro de 1879
Em 27 de outubro de 1879
A punção é adiantada, e só uns dias depois, como não há indícios de reabsorção, é ela feita com o aparelho de Potain. São evacuados 1.200 cm3 de um líquido seroso com frocas fibrinosas.
No único caso de piopneumotórax em que tive ocasião de empregar o quebracho-colorado verificou-se um resultado favorável sobre a dispnéia.
Exemplo 13
Christiano G., 44 anos. O pulmão esquerdo parece normal. Pneumotórax do lado direito com exsudação purulenta de cerca da altura de uma mão. Antes sentia dispnéia muito forte, que tem diminuído um pouco. Ruído de sucção muito distinto.
Em 6 dejunho de 1880
Em alguns casos de enfisema e tísica, em que durante a vida por tempo prolongado se tinha empregado o quebracho-colorado com bom resultado contra acessos freqüentes de dispnéia, notou-se na autopsia obliteração quase completa das cavidades pleuríticas. Não há dúvida de que esta circunstância deve contribuir muito para o aumento da dispnéia e, por isso, o efeito favorável em tais casos é decerto digno de notar-se.
B. Alteração da respiração sem doença primária
dos órgãos respiratórios
I – Aceleração da respiração em moléstias febris
A influência do quebracho-colorado sobre a FR em moléstias febris foi estudada, principalmente, em doentes de tifo abdominal. Alguns doentes ofereciam sintomas distintos de bronquite difusa, porém em outros apenas havia vestígios dela, e o aumento da FR era, principalmente, causado pela febre. Nestes casos cheguei aos resultados seguintes:
Na maior parte dos casos, quando há grande FR, essa, pela administração do quebracho-colorado, é visivelmente diminuída. Raras vezes é insignificante ou falha o efeito. Em casos muito especiais o máximo da diminuição importa em cerca de um terço; todos estes doentes tinham febre intensa, bronquite extensa, mas a ação cardíaca era ainda suficiente. Doses de 1,0 são seguidas do primeiro efeito distinto no espaço de cinco a dez minutos, segundo a forma empregada. Ao cabo de um quarto de hora obtém-se a maior parte do efeito em declínio rápido. Daí em diante a FR diminui mais devagar e chega ao mínimo, decorrida uma hora a uma hora e meia: então a curva respiratória eleva-se, pouco a pouco, até que, depois de duas horas a duas horas e meia, o efeito desaparece.
Ao registro da FR cabe naturalmente o papel principal, porque os doentes raras vezes são capazes de dar conta de suas sensações: quando estas nos foram comunicadas, provaram um alívio considerável no estado subjetivo.
Quando a curva respiratória decresce rapidamente, muitas vezes a curva pulsatória é quase exatamente paralela, somente a diminuição desta costuma durar mais tempo. Também quando a FR apenas baixava no tifo abdominal, o quebracho-colorado efetuava sempre uma diminuição da curva pulsatória, no geral dos casos tendo o máximo de 20,0 a 40,0%. Isso, porém, não pode ser uma conseqüência de alteração de temperatura, porque esta nunca diminuía mais de alguns décimos de grau.
Exemplo 14
Sra. F., de cerca de 35 anos, mulher muito fraca e anêmica, tifo abdominal bem caracterizado.
Em 24 de setembro de 1879
Exemplo 15
Anna St..., 28 anos, tifo abdominal. Bronquite difusa pouco forte.
Em 24 de setembro de 1879
Exemplo 16
Elisa H., 30 anos. Tifo, bronquite menos forte.
Em 22 de novembro de 1879
Exemplo 17
Mathilde J., 15 anos. Tifo abdominal (provavelmente recaída) com bronquite difusa muito extensa, dispnéia forte.
Em um indivíduo dado às bebidas alcoólicas, acometido de tifo abdominal com bronquite extensa, o emprego do quebracho-colorado deu bom resultado, combatendo a dispnéia, aumentada pela febre forte. Assim, depois de tomar 0,5 extr. crud. a FR caiu de 44 até 32 e de 42 até 27. A despeito da queda contínua da febre, o efeito minorava na mesma proporção em que os sintomas de insuficiência cardíaca cresciam, e falhou completamente no edema pulmonar terminal. Digno de reparo é que o P muito acelerado (140-150) ainda baixava sempre de 14-30%, proporcionalmente à dose administrada.
II – Alterações da respiração causadas por anomalias da circulação
Minhas experiências em relação às lesões das válvulas cardíacas compreendem somente alguns casos de insuficiência mitral e duas lesões valvulares complicadas. Em todos estes casos a compensação era de todo insuficiente. Aqui o quebracho-colorado não produziu efeito digno de menção. Não tenho observado senão um caso com compensação bastante, a saber um de insuficiência aórtica distinta, apesar de ela ser complicada com sintomas de clorose:
Exemplo 18
Carolina T..., com 18 anos de idade. De tempos a tempos apareciam acessos leves de opressão, que foram cortados pelo quebracho-colorado.
Pulsação de dispnéia e cardiopalmia. A doente toma 0,8 extr. crud.
Em 26 de outubro de 1879
Uma outra doente que não tinha sintomas de lesão valvular, mas sim de uma endocardite crônica com recrudescência aguda, sentiu-se um pouco aliviada depois de tomar o quebracho-colorado.
Exemplo 19
A doente, de 33 anos, teve cinco meses antes de sua entrada para o hospital uma hemiplegia com afasia parcial e apresentava diversas vezes sintomas cerebrais passageiros, que me faziam supor processos de embolia. Longo tempo antes sofria de palpitações cardíacas. Quando foi recebida no hospital não havia sintomas de dilatação do coração, nem tampouco ruído sobre as válvulas. Porém, o impulso do coração era muito arrítmico e mantinha-se por largo tempo entre 140 a 170 por minuto, contados no coração, enquanto só cerca da metade das contrações podiam ser contadas na radial. A FP baixou depois de um tratamento prolongado, mas conservava-se sempre em mais de 100, quando a doente não tomava digitalis. As vezes havia dificuldade na respiração, mas não tinha sintomas de embolias nos pulmões. O quebracho-colorado diminuía a FR de 10-15% (36-32, 44-38, 48-41), causava decréscimo correspondente da FP (168144, 96-86); um alívio subjetivo era evidente, sem, porém, ser completo.
Nos casos em que uma ligeira fraqueza do coração devia ser considerada como causa da dispnéia (infiltração e degenerescência do miocárdio, obliteração da cavidade do pericárdio) às vezes a FR diminuía; mais freqüentemente dava-se um alívio subjetivo, decrescendo distintamente a opressão e a palpitação. O mais constante era uma diminuição da FP de 10-25%, também quando a FR não aumentava. Acessos agudos se manifestavam mais favoráveis do que estados crônicos. Com raras exceções o efeito do quebracho-colorado foi menos distinto e geralmente menos certo do que nas moléstias primitivas dos órgãos da respiração.
Quando a degenerescência cardíaca tinha chegado ao seu máximo, por exemplo, em um caso de intoxicação por fósforo, não havia efeito.
Como congestão pulmonar ativa considero os acessos de dispnéia com aceleração da FR que,junto com palpitações do coração, aparecem depois de esforços e mesmo espontaneamente em certos indivíduos. Nesses casos comumente vi alívio subjetivo considerável,junto com diminuição das palpitações e abaixamento de FP. A FR umas vezes minorava consideravelmente, outras pouco ou nada.
Principalmente pela fluxão ativa também explicam-se os acessos de dispnéia muito violentos, que são causados pela inalação de cloro em quantidade considerável, os quais duram bastante tempo. Estes paroxismos podem ser aliviados em poucos minutos pelo quebracho-colorado, como observei diversas vezes em algumas outras pessoas, assim como em mim. Da sensação de opressão quase insuportável apenas restava uma ligeira dor na região esternal.
C. Alterações da respiração não causadas por moléstias primitivas dos órgãos da respiração e da circulação
Restam ainda as alterações da R, que parecem ser provocadas por influências nervosas; entre as quais citarei a asma essencial e a chamada asma histérica. Desta tive ocasião de observar um caso muito interessante.
Exemplo 20
Sabina G., de cerca de 80 anos,7 outrora foi tratada de hiperemia prolongada e convulsões; no tempo da observação sofria de edemas migrantes do rosto, que semelhavam à erisipela, faltando, porém, o rubor. (Entretanto não havia fenômenos hidrópicos, nem doença que os pudesse causar.) Um dia, repentinamente, a respiração tornou-se de um tipo estenótico tão característico que em primeiro lugar devia se pensar em edema da glote. Depois de algumas horas, subitamente tornou ao estado normal quando virou-se a epiglote com o dedo, na ocasião em que se examinava a laringe. Em breve a respiração voltou a ser inspiratória e semelhante a suspiros; a FR, ao princípio pouco intensa, foi crescendo até 72 por minuto, enquanto a FP passava de 170. Então a volta da epiglote, a faradização da laringe etc. foram sem efeito, porém os sintomas cessavam ex abrupto depois da inalação de clorofórmio até a narcose profunda. Passado algum tempo, voltava gradualmente o estado mórbido. Esta disposição continuou durante alguns dias; os acessos eram acompanhados de cianose e forte opressão. Então foram substituídas por convulsões tetânicas de extrema intensidade, a ponto de a doente durante horas apoiar-se somente sobre o occipício e os calcanhares. Também uma vez houve afonia, que desapareceu logo que a laringe foi faradizada. Durante os espasmos respiratórios o quebracho-colorado minorou temporariamente os sintomas, mas não os acessos.
Observei alívio considerável em algumas outras doentes, cujos incômodos deviam ser considerados como sintomas histéricos. Descreveram-nos como sensações de opressão e palpitação. Quando não havia senão pouco aumento na FR e FP, também havia um decréscimo correspondente a um melhoramento subjetivo. Raras vezes deixaram de notar-se sintomas objetivos. Mas a versatilidade conhecida da histeria não fez exceção a respeito deste medicamento, não tendo dado resultado favorável em outros casos muito análogos. Isto aconteceu também em uma doente cuja FR aumentou por acessos até 72 por minuto, embora não tivesse dispnéia verdadeira.
Além disso, por duas vezes observei acessos de dispnéia, sem poder descobrir moléstia orgânica. Considero os casos de asma nervosa, não obstante ser acelerada a FR em ambos. Apesar de a dispnéia não ter desaparecido completamente com a primeira dose, consegui terminar o acesso por uma repetição, e isto em muito menos tempo do que ele costumava durar. Entretanto,já desde as primeiras doses a ação era tão benéfica, que os doentes tinham a sensação de bem-estar completo, quando a FR era ainda consideravelmente aumentada.
Exemplo 21
Sp..., de cerca de 80 anos,8 padece desde longo tempo de acessos de dispnéia repetindo-se em intervalos regulares, durante os quais, por alguns dias, lhe é impossível trabalhar, e apenas pode falar. Na sua entrada para o hospital o exame físico demonstra o estado dos pulmões normal, e nada de patológico se observa. Depois de alguns dias o doente desperta com dispnéia, que cresce rapidamente, enquanto a sua voz continua a perder o vigor e a sonoridade.
Quando o vi estava assentado, com as mãos apoiadas nos braços da poltrona e o rosto cianótico. A respiração de tipo expiratório era acelerada; a voz tinha perdido o som, e só em voz baixa e afônica pronunciava, a grande custo, uma ou outra palavra. O limite absoluto hepatopulmonar conservava-se na linha mamilar, sob a sétima costela; o tórax está em estado inspiratório; sobre ambos os pulmões por diante nota-se som de Biermer distinto.
Eis as notas desta observação:
O limite hepatopulmonar agora está na margem inferior da sexta costela. O doente assevera estar muito bem. Como no dia seguinte outra vez aparece dispnéia, o doente torna a tomar extr. crud. e daqui em diante continua a tomar, durante 15 dias, sem fenômenos desagradáveis quaisquer, diariamente 4,0-5,0 extr. crud. Durante todo este tempo não há outro acesso. O doente afirma nunca ter tido um ataque tão breve, e um intervalo livre tão longo, e está convencido de que isso deve atribuir-se só ao remédio. Julgando-se curado, quer deixar a casa; aconselha-se-lhe tomar por algum tempo mais 1,0-2,0 extr. crud. diariamente, e apresentar-se, de
novo, se houver recaída. Há mais de um ano que não voltou. 9
Não menos ativo mostrou-se o quebracho-colorado em um terceiro caso, que se diferençava dosjá mencionados pela causa palpável que produzia a dispnéia: vista a sua importância, vou referi-lo em sua totalidade, o mais breve possível.
Exemplo 22
Josephina B., de cerca de 19 anos, entrou para o hospital em 10 de novembro de 1879. Desde alguns dias sofria de ataques fortes de dispnéia, durante os quais receava sufocar-se. A doente, para sua idade, é extraordinariamente gorda, mas afora isso parece sadia. O exame físico dá um resultado negativo. A FR varia entre 20-24 por minuto; no acesso a R é um pouco retardada (16-20 por minuto), inspiratória e suspirosa. O P sempre é excessivamente vagaroso (44-48 por minuto). A doente também se queixa de dismenorréia; sempre tem constipação de ventre e algumas vezes, quando estava de cama, não podia urinar. Não notei sintomas característicos de histeria, apesar de suspeitá-la. Depois de vários exames, achei no lado esquerdo da cartilagem tireóide um corpo móvel do tamanho de uma amêndoa grande, que parecia uma glândula linfática intumescida. (A doente também conta que, havia cerca de três meses, tinham aparecido no seu pescoço grandes aglomerações de glândulas inchadas, mas que desapareceram depois do uso de óleo de fígado de bacalhau.) Tornava-se notável que cada pressão sobre este pequeno tumor provocava um acesso da dispnéia já mencionada (sem que a laringe ou qualquer vaso sanguíneo fosse comprimido), mas que desaparecia imediatamente, depois de cessar a pressão, enquanto os ataques espontâneos, que voltaram diversas vezes por dia, duravam por muito mais tempo e foram muito penosos. Depois de uma dose de extr. crud. a FR aumentou um pouco, e tornou-se mais fácil e tranqüila, desaparecendo o tipo inspiratório e o ruído que o acompanhava.
Daqui em diante a doente toma 1,0 extr. crud. em cada paroxismo, que sempre diminui muito ou desaparece por uma hora e meia ou duas horas, pouco mais ou menos. Assim tomou durante bastante tempo com sucesso contínuo até 6,0 por dia. Também fazia uso regular de ungüentos, em primeiro lugar de iodofórmio, e depois de iodureto de potássio com iodo puro. Durante este tratamento, o tumor minguava pouco a pouco; na mesma proporção os ataques espontâneos tornaram-se mais raros e desapareceram quase completamente no fim da terceira semana. Sucessivamente a FP elevava-se até 60-80 por minuto, mas imediatamente recaía a 44-48, logo que se comprimia o tumor reduzido ao tamanho de uma fava. Sobre estas observações fiz o diagnóstico de um linfoma aderindo ao nervo vago e provocando irritação pela compressão ou inchação. Esta irritação devia tocar de preferência às fibras retardadoras da respiração.
A doente no fim do ano pôde ser despedida. Mês e meio depois me disse ter passado perfeitamente bem. Porém sempre podia-se provocar dispnéia súbita pela pressão, e abaixar a FR de 70-80 até 44-48 por minuto.
Consta-me que, depois desse tempo, com a temperatura fria e depois de grandes esforços, apareciam mais alguns acessos leves. Uma vez foram notadas 44, e uma outra vez, 48 pulsações por minuto.
Conclusão
Comparando estas observações feitas com quebracho-colorado com as experiências feitas com o quebracho-branco por Penzoldt e outros, acha-se uma concordância evidente. Como não conhecemos outras matérias que gozam do mesmo efeito, é muito provável que o princípio eficaz seja o mesmo, ou pelo menos muito similar. Porém, não pode ser a aspidospermina, mas deve ser uma substância mais eficaz quando administrada em doses pequenas, e menos venenosa em doses grandes. Ambas as preparações, sem serem panacéias, têm, porém, obtido tantos resultados favoráveis que nós asjulgamos destinadas a suprir uma lacuna no nosso erário terapêutico e esperamos que em breve estejam ao alcance de todos os doentes.
Literatura sobre as preparações denominadas
quebracho
Dr. Franz Penzoldt: Quebracho und sein günstiger Einfluss auf verschiedene Formen von Dyspnoë. Berliner klinische Wochenschrift. Jahrgang XVI, n° 19.
Dr. Franz Penzoldt: Quebracho und seine gunstige Wirkung bei Dyspnoë. Aus den Sitzungsberichten der physikalisch-medicinischen Societät zu Erlangen. Sitzung vom 17. Februar 1879.
Dr. Franz Penzoldt: Zur Beurtheilung der Wirksamkeit der Droguen von Quebracho Aspidosperma, insbesondere des kãuflichen Lignum Quebracho in Fallen von Dyspnoë. Berliner klinische Wochenschrift. Jahrgang XVII, n° 10.
Dr. Franz Penzoldt: Einiges über die Wirkung des Aspidospermins, eines Alkaloids der Rinde von Aspidosperma Quebracho. Berliner klinische Wochenschrift. Jahrgang XVII, n° 40.
Dr. L. Laquer: Zur therapeutischen Würdigung des Quebracho. Breslauer ãrztliche Zeitschrift. Jahrgang I, n° 24.
Berthold: Ueber Quebracho. Berliner klinische Wochenschrift. Jahrgang XVI, n° 52.
Picot: Zur Wirkung des Cortex Quebracho. Berliner klinische Wochenschrift. Jahrgang XVI, n° 52.
Fraude: Bericht der deutschen chemischen Gesellschaft, XI, 2189.
Poehl: Petersburger medicinische Wochenschrift, 1880, n° 5.
O. Primke: Pharmaceutische Zeitung. 1880, n° 9.
Wiener medicinische Blätter. 1879, n° 41. Seite 996.
Pribram: Prager medicinische Wochenschrift. 1879.
Krauth: Betz’Memorabilien, 1879, Heft. 11. Seite 510.
Fronmuller: Betz’Memorabilien, 1879, Heft. 11. Seite 510.
Hansen, Adolph: Die Quebrachorinde. Berlin, 1880.
Teses
Física
A capacidade absorvente dos fluidos para os gases decresce pela diminuição da pressão atmosférica e a elevação da temperatura.
Química inorgânica
Os sais de amoníaco podem ser considerados como compostos de um radical NH , que tem as propriedades de um álcali. 4
Mineralogia
O talco é um silicato de magnésia.
Zoologia
A imigração do Ankylostomum duodenale (Dochmins duodenalis) se faz pela água que se bebe.
Anatomia Descritiva
O canal colédoco passa freqüentemente através da cabeça do pâncreas.
Histologia Os corpúsculos sanguíneos alteram-se pela adição e subtração de água.
Química inorgânica
Há diversas espécies de ácidos tânicos, das quais somente a contida nos galhos de carvalho é bem conhecida.
Fisiologia
A alimentação mista é a que convém ao homem, como o prova a organização deste.
Anatomia patológica
A multiplicidade de um neoplasma nem sempre é causada pela formação de metástases.
Patologia geral
Na dispnéia, o número das respirações pode ser aumentado ou diminuído.
Patologia médica
A bronquite fibrinosa (pseudomembranácea) é uma forma rara da bronquite comum.
Patologia cirúrgica
A elefantíase-dos-árabes pode ser provocada por diferentes processos patológicos.
Farmacologia
A morfina é um antídoto da atropina.
Matéria médica O láudano de Sydenham não tem vantagens essenciais sobre a tintura tebaica.
Obstetrícia
O prognóstico da operação cesariana torna-se menos grave pelo método de operação de Porro.
Anatomia topográfica e operações
Nas operações das hérnias crurais deve-se contar com a possibilidade de uma origem anormal da artéria obturadora.
Aparelhos
No tratamento das queimaduras extensas o borlint de Lister preenche todas as indicações.
Higiene
O pó, quando é espalhado na atmosfera em grande quantidade, produz moléstias dos órgãos respiratórios.
Medicina legal e toxicologia
A icterícia não é um sintoma necessário da intoxicação pelo fósforo.
Clínica médica
A tuberculose miliar aguda não tem sintoma característico que se observe em todos os casos.
Clínica cirúrgica
A flutuação não é somente produzida por fluidos; a designação “pseudoflutuação” não é justificada por uma diferença na sensação percebida.
Ginecologia A metrite e ovarite crônica são as causas as mais freqüentes da histeria.
* Tese submetida à Faculdade de Medicina da Universidade de Berna, em julho de 1880, e traduzida por iniciativa de Adolpho Lutz para validar seu diploma junto à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, como ele próprio explica na correspondência publicada em Correspondenz-Blatt für Schweizer Aerzte (1.4.1882) e reproduzida adiante, neste volume. Ao cotejarmos a versão em português com o original em alemão, verificamos que há inversões de parágrafos no início do trabalho, e supressão de outros ao longo do texto, assim como de informações que só fariam sentido para o leitor suíço, como, por exemplo, a indicação do farmacêutico que fornecia quebracho a Lutz, ou o nome do professor Lichtheim, de Berna, que o incentivou a fazer a pesquisa ou, ainda, os agradecimentos de praxe em trabalhos acadêmicos dessa natureza. Entretanto, a versão em português inclui novas informações sobre o quebracho. Na carta aqui mencionada, Lutz comenta que encontrou muitas dificuldades para verter sua tese, pagando muito dinheiro para obter traduções insuficientes dos profissionais. Acabou recorrendo a um leigo, e depois pediu a um amigo brasileiro que corrigisse a tradução. Não obstante considerasse que se saíra “razoavelmente bem”, há muitos erros na versão em português, alguns dos quais assinalamos em notas de rodapé. [N.E.]
1 No original em alemão, este é o terceiro exemplo. Os dois primeiros, assim como o exemplo n° 10 e a tabela relativa ao dia 26 de outubro, no exemplo n° 4, foram suprimidos na versão em português. Porém, nela foram inseridos comentários que não constam do texto primitivo. [N.E.]
2 Na tradução para o português consta, certamente por engano, julho. [N.E.]
3 Na tradução original para o português, a palavra “Abend” (noite) foi utilizada em algumas tabelas ora como noite, ora como tarde. Optamos pela tradução correta do original em alemão. [N.E.]
4 No original em alemão, consta Jakob. [N.E.]
5 No original em alemão, a hora assinalada é 6H48. [N.E.]
6 No original em alemão, consta 66 anos. [N.E.]
7 No original em alemão, consta 30 anos. [N.E.]
8 No original em alemão, consta 30 anos. [N.E.]
9 No original consta “cerca de três meses”. [N.E.]