Amor & sorte

Jenna Evans Welch · Capítulo 4 de 15 · parte 2/2

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Amor & sorte

Falésias de Moher

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

— Ah, isso mesmo. Walt. — Rowan abriu a porta do carro e saiu, segurando uma caixa grande de cereal em que se podia ler .

— Por mais divertido que isso seja, todos nós sabemos que vocês não podem continuar assim para sempre. Então, que tal a gente ir lá pra dentro tomar um café da manhã de verdade? — Ele sacudiu a caixa de cereal de modo tentador para Ian. — Ou talvez algo mais forte, se você quiser. Uma cerveja? Vamos resolver isso.

Eu balancei a cabeça.

— Nós não temos idade para tomar cerveja. E não temos nada para conversar...

Em um lampejo, Ian deslizou pela frente do carro e agarrou meu pulso. Nós camos neste impasse: Ian tentando arrancar as chaves das minhas mãos enquanto eu me enrolava como um tatu-bola, focando toda a minha energia em manter os punhos cerrados. Outro clássico das brigas de Addie e Ian. Certa vez, no ensino fundamental, havíamos

cado nessa posição por onze minutos e meio, e por causa de um Oreo.

Walter havia cronometrado.

— Ian... me... solta!

Rowan se recostou no carro, en ando um punhado de cereal na boca.

— Vocês dois são o melhor argumento a favor de lhos únicos que eu já vi. — Ele mastigou um pouco e engoliu. — Então, acabei de ter uma ideia. Addie, que tal você entregar as chaves para mim e depois se juntar a nós em nossa primeira parada?

— Não é uma boa ideia — retrucou Ian, empurrando seu ombro contra o meu.

— Como assim, me juntar a vocês?

Dei uma cotovelada bem nas costelas do meu irmão.

— Addie. — Ian gemeu. — Isso dói.

— Essa é a minha estratégia — falei, orgulhosa.

— Olha só. — Rowan levantou a caixa de cereal. — A primeira parada não ca muito longe. Menos de uma hora. Você pode vir com a gente e entender melhor o que Ian está fazendo. Então, os dois podem pensar juntos em um plano para guardar segredo de seus pais, aí Addie segue viagem. Não precisam se digladiar até a morte.

Primeira parada. Quer dizer que havia mais de uma? Isso despertou minha curiosidade, mas eu me recusava a fazer perguntas sobre uma viagem na qual Ian não iria. Muito menos quando toda a minha energia estava sendo gasta em continuar segurando as chaves do carro.

— Não podemos arriscar perder nosso voo — falei, enfatizando o “nosso”. — Deixar de visitar Lina não é uma opção.

— Quem é Lina?

— Minha melhor amiga.

— Ah, sim! Aquela que se mudou para a Itália.

— O que mais Ian disse sobre mim? — perguntei, apertando ainda mais as chaves.

— Nem vem — disse Ian. — Acredite ou não, nós não passamos o dia inteiro falando de você.

Eu me virei e tentei correr de volta para o hotel, mas foi a vez de Ian quase me derrubar, fazendo as chaves caírem no cascalho. Tentei apanhá-las, mas Ian foi mais rápido.

Ele correu para o carro.

— Vamos! — gritou, jogando as chaves para Rowan. Este, no entanto, guardou as chaves no bolso com todo o cuidado e me olhou com uma expressão séria.

— Venha com a gente até nossa primeira parada. O aeroporto não

ca longe de Burren. Vai ter tempo de sobra.

Burren. Onde eu tinha ouvido aquela palavra antes? Você sabe onde, docinho, uma voz me disse. A Autora do Guia. Isso.

— É aquele lugar das pedras? — perguntei.

Seu rosto se iluminou e ele ajeitou os óculos com entusiasmo.

— Você já ouviu falar?

— Li sobre ele ontem à noite. — O Irlanda para corações partidos tinha uma seção inteira sobre Burren logo após a parte sobre as Falésias de Moher. Quais eram as chances de a primeira parada da não viagem de Ian também estar no meu guia? Minha postura mudou. — Você acha mesmo que a gente chegaria a tempo?

— Com certeza.

Rowan abriu um sorriso amigável.

Ian soltou um resmungo estrangulado, depois parou entre nós.

— Olha, Rowan, eu entendo o que você está tentando fazer, mas é uma má ideia. — E, com medo de Rowan não ter entendido, meu irmão continuou: — Na verdade, uma péssima ideia. Precisamos nos ater ao plano original.

— Não é uma péssima ideia — protestei.

— Mas estaríamos seguindo o plano original, apenas fazendo um pequeno desvio para o aeroporto. Não atrasaria a viagem — falou Rowan, devagar e com certa hesitação, a testa franzida. Ele não precisava dizer em voz alta o que estava pensando: Por que você está sendo tão babaca?

Os ombros de Ian desabaram e sua mão direita sumiu entre os cabelos em um gesto de nervosismo.

— Mas... tem tanta coisa no seu carro. Onde ela vai sentar?

— Isso é fácil. Ela é um pingo de gente. Vamos abrir espaço.

Um pingo de gente?

Rowan ergueu o queixo na minha direção.

— Você não se incomoda de car meio espremida por mais ou menos uma hora, né?

Eu me inclinei para olhar pela janela de trás. Ian não estava exagerando. O carro não só tinha o menor banco traseiro do mundo como também estava tão lotado quanto os carros de Archie e Walter quando os dois voltavam para a faculdade no início do semestre. Era uma confusão de roupas, livros e produtos de higiene. Pela primeira vez, ser pequena ia ser uma vantagem.

— Vou sobreviver.

Ian se balançava de um lado para outro, mexendo distraído no zíper do casaco. Ele estava dividido. Independentemente do que tinha dito, não se sentia bem me abandonando no hotel. Seu espírito de irmão mais velho era forte demais. Eu precisava usar isso a meu favor.

— Olha, faz sentido. — Rowan estendeu a caixa de cereal para Ian, que não aceitou. — Vocês precisam de um tempo para se acostumar com a ideia. O trajeto até Burren vai nos dar esse tempo.

— É uma má ideia — repetiu Ian.

— Você já disse isso.

Duas possibilidades passaram pela minha cabeça. Na melhor delas, eu poderia usar o tempo extra para fazer Ian ouvir a voz da razão. Na pior, veria outro lugar do guia de viagem e talvez me encontrasse um passo mais perto de curar meu coração partido — isso se a Autora do Guia soubesse do que estava falando — antes de seguir viagem sozinha para a Itália. Consultei minha bola de cristal mental: Tudo indica que sim.

Dei um passo decidido na direção de Rowan.

— Preciso que você me entregue as chaves.

— Não dê as chaves para ela — ordenou Ian.

Uma das sobrancelhas de Rowan se ergueu e ele abriu um pequeno sorriso.

— Tenho que buscar minha mala. E preciso ter uma garantia de que vocês não vão me deixar para trás.

— Rowan... — advertiu Ian.

Rowan assentiu, pensativo, e jogou as chaves para mim em um movimento perfeito, ainda sorrindo. Cada sorriso dele parecia um prêmio.

— Foi mal, Ian, mas ela está certa. Eu também não ia querer deixar a gente sozinho no estacionamento. Não resisto a bons argumentos.

Vitória.

Ian balançou o cabelo para cima do rosto e cruzou os braços, emburrado.

— Addison Jane Bennett, se você não voltar em cinco minutos, vou atrás de você.

A covinha de Rowan ressurgiu.

— É melhor correr, Addison Jane.

 

— Addison Jane Bennett, você tirou oito em geometria? Achei que só tirasse dez.

Eu dei um passo para trás, a mão no peito, quase tropeçando. Era a manhã de um dia de julho e das duas uma: ou eu estava vendo coisas ou Cubby Jones estava no meio da minha cozinha olhando meu boletim.

Eu pisquei algumas vezes, mas ele continuava lá. Só que agora tinha seu sorriso de sempre, uma das mãos ainda na geladeira. Muita coisa havia mudado desde a manhã em que eu tinha feito waffles. O sorriso de Cubby não chegava mais aos olhos, e algo nessa mudança parecia calculada, como se ele tivesse descoberto seu poder e estivesse usando-o em proveito próprio. Como agora.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei, a voz rouca.

Ele sorriu de novo e, em seguida, sentou-se na bancada com uma facilidade atlética.

— Não tente mudar de assunto. Oito? O que seu irmão, um dos melhores alunos da escola, acha disso?

— Eu me dei mal na última prova — respondi, tentando, sem sucesso, adotar um tom casual. — E você sabe que boletins são con denciais, não sabe?

Tentei arrancar o papel de sua mão, mas Cubby o segurou com mais força, puxando-me para mais perto antes de soltar. De repente eu tinha doze anos de novo, nesta mesma cozinha, olhando seus olhos pela primeira vez e percebendo que eram de cores diferentes. Ele também deve ter se lembrado, porque de repente o velho Cubby estava de volta, com o sorriso que chegava aos olhos.

— Então... — Ele pigarreou e me olhou de cima a baixo. — Você está saindo para correr?

Cruzei os braços, lembrando-me do que estava vestindo. Uma camiseta surrada e shorts velhos tão curtos que eu só usava para dormir ou para ir rápido até a cozinha beliscar alguma coisa. Ou, nesse caso, apenas para esbarrar na minha paixão de longa data.

Às vezes eu odiava minha vida.

— Não vou correr. Eu só... — Mordi o lábio, nervosa, louca para sair dali o mais rápido possível, mas ao mesmo tempo morrendo de vontade de car. — O que você está fazendo aqui, Cubby?

— Ninguém me chama mais de Cubby, Addison — disse ele, inclinando a cabeça de leve.

— Bem, ninguém me chama de Addison. E você não me respondeu.

Fui em direção ao corredor, sentindo o azulejo frio sob os pés descalços. O olhar de Cubby despertava sentimentos dentro de mim, e eles se emaranharam em um nó no meu estômago. Por que eu tinha que estar tão horrorosa? No andar de cima, a porta do banheiro bateu.

— Vim buscar seu irmão. O treinador marcou um treino extra de manhã, e Ian disse que você estava com o carro hoje.

— Temos guarda compartilhada. Este m de semana o carro ca comigo.

Cubby assentiu como se entendesse bem.

— Mas você se lembrou de explicar para o carro que isso não é culpa dele? E que vocês dois o amam muito?

Explodi em risadas no instante em que Ian apareceu na porta. Seu cabelo ainda estava molhado do banho e os cordões dos seus dois casacos estavam emaranhados. Ele era a única pessoa que eu conhecia que usava mais de um casaco com capuz ao mesmo tempo. Como ele fazia para vesti-los era um mistério não solucionado, para o qual eu vinha tentando encontrar uma resposta havia anos.

Cubby inclinou a cabeça.

— Oi, Bennett.

Ian acenou, sonolento, então me olhou com descon ança.

— Addie, por que está acordada tão cedo?

— Eu estava no telefone com a Lina.

Com a diferença de fuso horário, às vezes eu precisava acordar muito cedo se quisesse falar com ela.

Ele olhou para o meu pijama e franziu a testa. Eu não precisava ser nenhuma adivinha para saber o que ele estava pensando.

— Tchau, Addison — disse Cubby, simpático, então pulou da bancada e lançou um olhar demorado para mim ao seguir Ian para fora da cozinha.

— Tchau, Cubby — respondi, meu coração batendo rápido como o de um beija- or.

No segundo em que ele sumiu de vista, desabei na bancada. Por que eu sempre me comportava como uma menininha apaixonada do fundamental? Daria no mesmo andar por aí com uma camiseta dizendo EU ♥ CUBBY JONES .

De repente, o rosto de Cubby apareceu de volta no corredor.

— Ei, Addie, você quer sair um dia desses?

Eu me empertiguei na hora.

— Hã... quero?

Seria de se esperar que, convivendo com tantos irmãos, eu soubesse como falar com o sexo oposto, mas não era o caso. Eu só tinha aprendido a me defender. E o jeito que Cubby estava olhando para mim, olhando de verdade... Eu não tinha defesa para aquilo. Era como se todos os meus vasos sanguíneos estivessem pegando fogo.

No quarto do hotel, estabeleci o recorde mundial de pessoa que se vestiu, arrumou a mala e encontrou o celular mais rápido: tudo em menos de seis minutos. Depois de amarrar o tênis, en ei a cabeça no banheiro para investigar o suposto bilhete de Ian. Realmente havia um pedaço de papel dobrado preso no canto do espelho, e vi meu nome escrito com a letra minúscula do meu irmão. Eu talvez nem tivesse reparado.

— Caramba, Ian — resmunguei.

En ei o bilhete no bolso e levei a mala até a porta, parando ao avistar o guia caído debaixo da cama. Corri e o peguei. Não gostava muito da ideia de roubar um livro da biblioteca dos gnomos, mas aquelas páginas enrugadas faziam com que eu me sentisse melhor. Menos sozinha. E se, além disso, a Autora do Guia estivesse dizendo a verdade? E se ela fosse mesmo uma especialista em corações partidos? Eu precisava de toda a ajuda possível. Talvez eu pudesse dar um jeito de devolver o guia pelos correios quando estivesse na Itália.

Lá fora, o carro continuava parado no mesmo lugar e Rowan estava revirando o porta-malas. Agora que não estava mais ocupada lutando com meu irmão, tive a oportunidade de reparar em Rowan direito. Ele era mais alto do que eu esperava e bem magro — Archie ou Walter dariam dois dele. Ainda assim, era óbvio que ele tinha o que minha mãe chamava de “presença”. Se Rowan entrasse em qualquer refeitório em qualquer escola, dez garotas desviariam os olhos de seus sanduíches de presunto e sussurrariam “Quem é esse?” em vozes ofegantes idênticas.

Sorte que minha voz ofegante tinha partido para nunca mais voltar.

— Bem-vinda de volta.

Rowan pegou minha mala e a jogou no porta-malas. Apontei para os adesivos colados na traseira do carro.

— Você escolheu todos ou eles já vieram com o carro?

— Segunda opção. Faz três semanas que eu tenho esse carro.

 

!

 

— O do muffin é engraçado — falei, segurando o guia debaixo do braço.

— Também acho. Pode ter sido o motivo pelo qual comprei esse carro. Não havia muito mais o que amar.

Eu balancei a cabeça.

— Não é verdade. O carro veio com um raro escapamento rebaixado. Aposto que esse pessoal fanático por carros antigos iria à loucura.

— Peraí. Isso é uma piada ou o escapamento está mesmo baixo demais?

Ele olhou preocupado para o teto do carro, dois metros acima de onde cava o escapamento. Caramba. Pelo visto Rowan não entendia muito de carros.

— Hã... aquele cano ali embaixo — respondi, apontando para o para-choque traseiro. — Ele joga os gases da combustão para fora do carro. Se começar a arrastar no chão, vai fazer uma barulheira dos infernos.

— Ah... — Ele soltou o ar e suas bochechas coraram. — Na verdade, acho que já estava fazendo esse barulho. No caminho até aqui. Principalmente quando a estrada cou mais irregular. Mas Trevo faz tantos barulhos altos que pensei que não era nada fora do normal.

Ele deu um tapinha afetuoso no carro.

— Trevo?

Rowan apontou para o adesivo mais proeminente, um trevo grande e desbotado.

— É o apelido do carro.

— Que irlandês.

— Nada como um bom estereótipo — respondeu ele, a boca se franzindo em outro sorriso.

Eu queria que ele parasse de sorrir tanto. Isso me trazia lembranças de outro sorriso notável.

— Está na hora. — Ian en ou a cabeça para fora da janela, batucando na lateral do carro. Acho que foi sem querer, mas sua expressão empolgada estava voltada para mim. — Addie, abri espaço pra você. Acho que vai ser melhor se você entrar por este lado.

Eu corri para o carro, querendo preservar sua boa vontade, mas quando olhei para dentro a alegria que o sorriso de Ian havia despertado desapareceu na hora. Ele tinha dado um jeito de colocar os pertences de Rowan em uma pilha instável que quase chegava ao teto. O único espaço livre era atrás do banco de Ian, onde caberiam apenas três esquilos desnutridos. Se todos encolhessem a barriga.

— Maravilha, Ian — disse Rowan atrás de mim. — Você fez um milagre aí atrás.

Ou ele era um grande mentiroso ou um grande otimista.

— Hã... é, arrasou, Ian — elogiei, apoiando as mãos nos dois lados da janela. Eu precisava manter o clima positivo. — Então, como faço exatamente para entrar?

— Pelo meio — disse Ian. — Pode passar por cima de mim.

— Ótimo.

Eu passei a perna pela janela, ainda segurando o guia enquanto tentava passar entre os dois bancos da frente.

— O que é isso? — perguntou Ian, fazendo menção de pegar o livro.

Eu rapidamente o joguei no banco de trás.

— É um guia da Irlanda.

— Ah, sim, onde você leu sobre Burren — comentou Rowan.

— Isso aí.

Fiquei parada, sem saber como dar o próximo passo. Contornar a pilha de cacarecos não seria um processo simples.

— Tente botar o pé no...

Rowan não terminou a sugestão, pois eu já estava caindo, arrastando os pertences dele junto. Desabei na pilha de tralhas.

— Tenho quase certeza de que havia uma maneira menos violenta de fazer isso — observou Ian.

Rowan ergueu as sobrancelhas.

— Tenho certeza absoluta de que havia uma maneira menos violenta de fazer isso. Mas nenhuma tão divertida quanto essa.

O veludo desbotado pelo sol que revestia o banco de trás tinha um leve cheiro de queijo. E o banco de Ian estava tão recuado que meus joelhos mal cabiam ali. Dobrei as pernas ao máximo, estremecendo ao me ver tão espremida, e em seguida cutuquei a pilha de cacarecos.

— Rowan, o que é tudo isso?

— É uma longa história. — Ele ligou o carro e apontou para o olho roxo de Ian. — E aí, você vai me contar o que aconteceu ou esse vai ser o grande mistério da viagem?

— Pergunte pra ela. — Ian apontou para trás com o polegar. — Foi a Addie.

Rowan se virou e olhou para mim com ar impressionado.

— Uau. Você é sempre assim tão agressiva?

— Sempre — respondeu Ian por mim.

Era impressão minha ou havia um leve orgulho misturado à exasperação daquela palavra? De qualquer maneira, não protestei. Rowan achar que eu era perigosa poderia funcionar a meu favor.

— Prontos? — perguntou Rowan.

Antes que pudéssemos responder, ele acelerou e o carro deu um solavanco tão grande que a pilha de cacarecos tombou, cuspindo um punhado de discos e um sapato. Um bando de pássaros levantou voo quando cantamos pneu pelo estacionamento e pegamos a estrada iluminada pelo sol, com pétalas de rosa voando atrás de nós.

Ou pelo menos foi assim que imaginei nossa partida. Havia coisa demais bloqueando minha visão e não dava para ter certeza.

* * *

Eu achei que, quando pegássemos a estrada, algumas coisas seriam esclarecidas. Por exemplo, o que um ponto turístico na Irlanda ocidental tinha a ver com a banda favorita do meu irmão. No entanto, em vez de explicar, Ian pegou um mapa da Irlanda enorme e rabiscado que aparentemente vinha carregando na mochila, Rowan passou sua caixa de cereal para ele, e os dois começaram a gritar um com o outro.

Não gritar com raiva, era um gritar animado, em parte necessário devido à música alta — porque, como Rowan explicou, o botão do volume estava quebrado — e em parte por pura empolgação. Era como se os dois tivessem acumulado um arsenal de coisas para dizer e, agora que estavam cara a cara, precisavam soltar tudo de uma vez ou corriam o risco de explodir. E Rowan era um nerd de música como Ian, talvez até mais. Em dez minutos, eles discutiram sobre:

Um músico dos anos 1980 chamado Bruce alguma coisa, famoso por compor sinfonias de guitarra que envolviam trazer mais de trinta guitarristas ao palco de uma vez só

Se o minimalismo é a marca de um grande músico

Algo chamado “violência punk” que, segundo Rowan (e Ian concordou com muito entusiasmo), era uma reação natural ao gênero synth-pop que surgiu no início da MTV

O fato de o termo “indie” não significar mais nada agora que os grandes selos independentes estavam produzindo artistas em uma linha de montagem gigantesca

Eu estava dividida entre car ouvindo Ian conversar sobre seu assunto favorito e tentar não ter um ataque de pânico toda vez que olhava para a estrada. Rowan era um terror ao volante. Ele andava apenas um pouco abaixo da velocidade da luz e tinha desenvolvido algum método divinatório para saber em quais curvas não precisava car na própria pista.

Mas eu era a única preocupada. A voz animada de Ian foi cando cada vez mais alta, e ele alternava entre seus tiques nervosos favoritos: balançar o joelho, tamborilar e brincar com o cabelo. Ele não deveria estar explicando as coisas para mim?

Meu celular vibrou e parei de prestar atenção na conversa para ler uma mensagem gigantesca:

(1) Obrigada por sua inscrição no BOLETIM MIAU DA LINA — a maneira

mais divertida de parar de ignorar sua melhor amiga e aprender

curiosidades sobre felinos! Você sabia que quando um gato doméstico

morria no Antigo Egito, os membros de sua família raspavam as

sobrancelhas para demonstrar seu luto? E uma curiosidade bônus: Você

sabia que corre o risco de ter as SUAS sobrancelhas raspadas? POR MIM?

(Principalmente porque você chega à Itália hoje e eu não tenho notícias

suas faz UMA SEMANA E MEIA?) Para receber mais curiosidades sobre

felinos, basta continuar a me ignorar. Obrigada mais uma vez pela sua

assinatura e tenha um dia ronronante!

— Ai, não... — sussurrei para mim mesma.

Na mesma hora, novas mensagens de Lina começaram a se proliferar como bolas de pelos. A curiosidade sobre a família egípcia tinha sido apenas o começo.

(2) A taxa de sobrevivência de gatos que caem de uma altura de cinco

andares é de 90%. Garotas que ignoram suas amigas por mais de 7 dias

têm apenas 3% de chance de permanecerem amigas (e isso somente se

tiverem um bom motivo). Obrigada mais uma vez pela sua assinatura e

tenha um dia ronronante!

(3) O coletivo de gatos pode ser gataria, gatarada, balaio, bichanada ou até

mesmo cambada. Mas só existe uma palavra para descrever aqueles que

param de conversar com suas melhores amigas sem qualquer motivo:

babaca. Este não é um fato felino. É apenas um fato. Obrigada mais uma vez

pela sua assinatura e tenha um dia ronronante!

(4) Na década de 1960, a CIA transformou uma gata em uma pequena

espiã de quatro patas ao implantar um microfone e uma câmera em seu

ouvido e costas. Infelizmente, a missão da Gata Espiã chegou ao fim

quando ela correu para a rua e foi atropelada por um táxi. Isso me

lembrou daquela vez que você resolveu me visitar na Itália e, na semana

anterior, parou de falar comigo. VOCÊ AINDA VEM??? Obrigada mais uma

vez pela sua assinatura e tenha um dia ronronante!

A culpa pesava nos meus ombros. Eu tinha que responder.

Desculpa desculpa desculpa. Claro que ainda vou para a Itália. Explico

tudo quando chegar aí!

— É nossa mãe?

A voz de Ian contornou a pilha de pertences de Rowan para me atingir na cara. Ele segurava uma mecha de cabelo molhado perto da boca.

— Que nojo — falei, apontando para o cabelo dele. — E não. É a Lina.

Ele continuou mastigando a mecha.

— O que ela disse?

— Que está muito animada para nos ver. Sabe, porque nós dois vamos para lá.

Eu ergui as sobrancelhas para ele. Às vezes o humor era a melhor resposta quando se tratava do Ian.

— Nos seus sonhos — respondeu ele.

É, acho que não funcionou.

— Addie, você quer cereal? — Rowan passou a caixa de Sugar Puffs pelo espaço entre os bancos.

— Não. Obrigada. — Eu me inclinei para trás, esfregando a coxa. Estar espremida em um espaço tão pequeno tinha deixado minha perna esquerda formigando, como se estivesse levando agulhadas. — E aí, quando vão me contar?

— Contar o quê? — Ian tirou a mecha da boca, e o cabelo caiu no seu ombro.

— Seu plano. — Apontei para o mapa. — Pode começar explicando o que Burren tem a ver com Titletrack.

O joelho de Ian balançou.

— Boa tentativa, Addie. A gente tem uma hora até deixar você no aeroporto, e o nosso combinado é que você que quietinha até lá. Então pode relaxar aí.

Eu odiava quando Ian usava aquele tom condescendente comigo. Só aparecia quando ele estava tentando tirar vantagem de sua posição de irmão mais velho. Quinze meses não eram muita experiência extra, mas, segundo ele, a criação do universo tinha acontecido naquele intervalo de tempo.

— Que combinado? A gente não combinou nada.

Ele se virou para trás, com um sorriso alegre que me pegou desprevenida. Mesmo com a minha presença, Ian estava mais feliz do que no verão inteiro.

— Ao entrar neste carro você automaticamente concordou com nossos termos e condições. Foi um trato.

— Ah, sim, e por caso é você quem decide os termos?

— É isso aí. — Ele deu um tapinha condescendente em meu braço. — Agora você entendeu.

Empurrei a mão dele.

— Quer saber? Deixa pra lá. É melhor assim. Em vez de pensar na viagem de carro pela Irlanda que você não vai fazer, posso passar meu tempo apreciando a vista e pensando em como vamos nos divertir muito mais em Florença.

— Vai sonhando, irmãzinha.

Rowan encontrou meu olhar pelo retrovisor, os cantos de sua boca se curvando em um sorriso divertido. Eu esperava que ele interviesse a meu favor — a nal de contas, tinha sido ele quem sugerira que usássemos essa pequena viagem paralela como uma oportunidade para esclarecer tudo —, mas, em vez disso, ele e Ian voltaram para a conversa deles. O apelo da música era forte demais.

Eu me inclinei para a frente a m de procurar pistas no mapa de Ian. Uma sequência de Xs formava um arco crescente ao longo do sul da Irlanda, cada local rodeado por anotações na caligra a minúscula de Ian. A maior parte das anotações estava concentrada em seis pontos numerados:

1. Poulnabrone

2. Slea Head

3. Torc Manor

4. Pub Au Bohair

5. Castelo de Cashel

E o grand nale, escrito em letras maiúsculas:

6. ELECTRIC PICNIC

Ótimo. Eu sabia reconhecer um dos projetos de Ian quando via um. Toda vez que encontrava algo que o interessava de verdade, ele caía de cabeça, e nem todos os argumentos do mundo poderiam fazê-lo mudar de ideia. Quando se decidia, dava tudo de si. Era o que fazia dele um grande atleta.

Peguei seu bilhete no meu bolso.

Addie,

Mudança de planos. Não vou para a Itália.

Diga a Lina e ao pai dela que precisei voltar para casa mais cedo para treinar. E diga a nossos pais que estou com você. Vou encontrar vocês no voo de volta para casa. Explico mais tarde.

— Ian

Aquilo era sério? Eu me debrucei nos bancos da frente de novo, en ando o papel na cara de Ian.

— Esse era o seu bilhete? Sua grande explicação? Nem parece sua letra! Eu ia achar que você tinha sido sequestrado!

Ian se assustou, como se tivesse se esquecido de que eu estava no banco de trás. Talvez tivesse mesmo. Ele pegou o bilhete.

— Eu estava tentando ser breve.

— É, conseguiu.

— Posso ver? — Rowan pegou o bilhete e leu em voz alta, sua voz musical fazendo a mensagem parecer ainda mais enigmática. — Uau, é ruim mesmo.

Ian pegou o papel e o guardou na mochila.

— Eu queria que fosse que nem nos lmes de guerra, em que as pessoas só têm as informações absolutamente necessárias. Assim, caso sejam capturadas pelo inimigo, não vão revelar segredos sob tortura.

— Sob tortura? — perguntei, incrédula.

Ele encolheu os ombros, envergonhado.

— Você entendeu o que quis dizer. Só achei que seria melhor se você não tivesse todas as informações.

— Eu ainda não tenho todas as informações.

Puxei a perna direita, conseguindo libertá-la da fenda entre os bancos. Se Ian não ia me contar o que estava acontecendo, talvez Rowan contasse. Eu xei meu olhar na parte de trás do seu pescoço. Seu cabelo era um pouco mais longo na nuca.

— Então, quem é você exatamente? — perguntei, usando minha voz mais amigável, aprovada por Catarina, a guru dos imóveis. Ela considerava a curiosidade uma poderosa ferramenta de persuasão. O primeiro passo era ngir interesse.

Não sei se foi a pergunta ou o tom alegre, mas seus olhos se voltaram para mim com cautela.

— Me chamo Rowan. Nos conhecemos no hotel, lembra? Você disse que meu amortecedor estava baixo demais...

— Isso parece um eufemismo — a rmou Ian.

— Era o escapamento — retruquei em tom choroso, desistindo do

ngimento. — Deixa pra lá. Essa parte não importa. O que quero saber

é por que você — apontei para ele —, claramente irlandês, e meu irmão — apontei para Ian —, claramente americano, estão agindo como se fossem amigos de longa data. E não venham de novo com esse papo de que se conheceram na internet. Pessoas que só se conhecem na internet não conseguem adivinhar os pensamentos uma da outra.

— Isso não é uma violação dos termos e condições? — perguntou Rowan, citando a desculpa anterior de Ian.

Meu irmão abriu um sorriso conspiratório.

— É verdade, é uma violação clara — comecei a dizer, mas parei para pensar. O que eu precisava era de um bom argumento. Tinha funcionado antes e me ajudado a convencer Rowan a me entregar as chaves. — Rowan, a questão é que a chance de eu apoiar os planos de Ian é bem maior se eu souber o que está acontecendo.

— Seeeei... — disse Ian, em tom de quem não acreditava nem um pouco.

— É verdade — insisti. — Eu não vim com vocês até a sua primeira parada só para car aqui sentada ouvindo os dois analisarem a indústria da música.

Dizer “primeira parada” me pareceu uma concessão perigosa. Sugeria a possibilidade de a viagem de carro continuar.

Rowan tirou as duas mãos do volante para ajeitar os óculos.

— Addie tem razão. Foi por isso que ela veio com a gente, a nal, para ter tempo de se acostumar com a ideia.

Ou para fazê-los mudar de ideia, acrescentei em pensamento.

— Está bem. Pode cair nas artimanhas malignas dela. Mas não venha chorar para mim quando ela zer da sua vida um inferno.

Ian desabou, apoiando a cabeça na janela. Sempre achei um desperdício de talento ele não se inscrever no clube de teatro. Era um ator nato.

Rowan ergueu o queixo com curiosidade para o espelho retrovisor.

Dei de ombros.

— Pode falar. Eu aviso quando minhas artimanhas malignas começarem.

Sua covinha pareceu piscar para mim.

— Combinado. Bem, Ian e eu conversamos muito. Quase todo dia. E a gente se conhece desde o verão passado. Bem, acho que “conhece” não é bem a palavra, né? — Ian cou em silêncio. Rowan continuou, nervoso: — No começo eu só conhecia o trabalho dele. Li sua primeira leva de artigos e começamos a trocar e-mails. E depois...

— Leu sua primeira leva do quê? — interrompi.

Ian soltou um gemido quase inaudível, e Rowan franziu a testa, confuso.

— Desculpa, eu achava que vocês dois se conheciam. Addie, este é Ian Bennett, ilustre jornalista adolescente de música. Ian, esta é a Addie, pro ssional em derrubar pessoas em estacionamentos.

Jornalista de música? En ei os joelhos na parte de trás do banco de Ian.

— Você está de brincadeira, né?

Rowan pigarreou.

— Hã, desculpa, mas isso é uma piada?

— Addie, eu escrevo artigos. — Ian apoiou os pés em cima do painel e puxou o cadarço do sapato com irritação. — Já tive um blog, mas agora sou pago para escrever artigos on-line.

— Rá rá. E você também ama My Little Pony, certo?

— Como é que esses caras são chamados mesmo? — perguntou Rowan. — Bronies?

Ian me lançou um olhar irritado, e eu me encolhi. Ele estava sério — e magoado. Dava para ver pela maneira como projetava o queixo.

— Peraí. Você tem mesmo um blog? Na internet?

— É, na internet. Onde mais seria? — Ele fez cara feia.

— Mas... — Eu hesitei, esperando a cha cair e as peças se encaixarem, mas isso não aconteceu. — Você tem um blog? Escreve posts e tal?

— Isso... É tipo um site, só que gerenciado por uma pessoa só, sabe? Em geral são bem informais — disse Rowan, em tom gentil. — É muito fácil criar um.

Fiquei sem reação. Rowan era legal demais. Qualquer outra pessoa teria rido de mim.

— Obrigada, Rowan, mas não é a de nição de blog que está me deixando confusa. Só estou achando um pouco difícil acreditar que Ian tenha um.

A ideia de Ian voltar para casa do treino para despejar seus sentimentos em um diário on-line era tão inconcebível que chegava a ser impossível.

— Por que você não consegue acreditar? — falou Ian, a boca contraída em uma linha na. Para ser sincera, ele estava igualzinho a mim quando falei com Archie na noite anterior. Acha tão impossível assim um jogador de futebol americano popular gostar de alguém como eu? — Por acaso jogadores de futebol americano só podem praticar esportes o dia inteiro? Valeu pelo estereótipo.

— Ai, Ian, ninguém está estereotipando você. — Nos últimos tempos, Ian cava muito ofendido por ser visto como O Atleta, o que era praticamente impossível já que ele se esforçava tanto para parecer alternativo. E por que se importava assim com o rótulo? Graças ao futebol americano, Ian era quase um deus na nossa escola. — Eu só não entendo como você tem tempo de escrever. Durante o ano letivo, você está sempre fazendo seu dever de casa ou treinando.

— Eu sempre encontro tempo — disse Ian. — E o que você acha que passei o verão inteiro fazendo?

Por m, uma peça do quebra-cabeça se encaixou. Quando não estava no treino, Ian tinha passado a maior parte do tempo na frente do computador.

— A mamãe disse que você estava trabalhando nas redações de admissão para as faculdades.

Ele soltou um daqueles roncos ásperos que às vezes se passam por risada.

— Não mesmo. A menos que você conte meus artigos como portfólio para as faculdades de jornalismo.

— Jornalismo? Não sabia que a Washington State tinha curso de jornalismo.

Ian bateu as mãos no painel, fazendo Rowan e eu nos sobressaltarmos.

— Eu não vou para a Washington State.

— Caramba, Ian. Tudo bem aí? — perguntou Rowan.

Ian ergueu o queixo de leve, como se estivesse se preparando para uma briga.

— Como assim você não vai para a Washington State? Eles sondaram você no início do verão. Vão oferecer uma bolsa de estudos integral.

E se aquela bolsa de estudos não se concretizasse, ele arrumaria outra. Além de um jogador excepcional, Ian era ótimo aluno. Tudo que as faculdades queriam.

— Eu não estou nem aí para a bolsa de estudos de futebol americano — disse Ian, baixando a voz.

— Por quê? Por acaso você ganhou na loteria?

— Alguém me explique uma coisa, por favor — interrompeu Rowan, a voz confusa. — Vocês dois obviamente são irmãos, mas por acaso foram separados na maternidade? A mãe cou com um e o pai cou com outro? Foi isso? Ou um de vocês só aprendeu a falar há pouco tempo, então nunca conversaram antes?

A ponta das orelhas de Ian cou vermelha de repente.

— É muito difícil conversar com alguém que passou o verão inteiro mentindo para você.

Eu agarrei as costas do banco do carona, minhas orelhas tão vermelhas quanto as dele. Era nosso principal indicador de raiva.

— Nem tente en ar o Cubby nessa história. Além disso, você não tem moral para falar nada. Aparentemente, você tem uma vida secreta.

— Não é uma “vida secreta” — retrucou ele, imitando meu tom. — Foi só este verão. E eu teria contado se você não estivesse tão ocupada saindo escondida com Cubby.

— Para de falar nele! — gritei.

Rowan pisou no freio de Trevo com força, e nós dois fomos lançados para a frente. Se não fôssemos os únicos na estrada, com certeza teriam batido na nossa traseira.

— Olha, pessoal — começou Rowan —, eu entendo que vocês estejam lidando com alguns problemas, mas já ouvi discussão su ciente para uma vida inteira. Então, Ian, que tal você atualizar Addie sobre essa sua tal “vida dupla”? Estou doido para saber como você conseguiu manter segredo da sua família.

— Não foi difícil. A menos que tenha a ver com futebol americano, ninguém se importa com o que eu faço. — Ian deu de ombros, seu olhar tenso. — Bem... Addie, o que você quer saber?

Por onde começar?

— Qual o nome do seu blog?

— Meu Léxico — disse Ian.

— Como se escreve isso?

Peguei o telefone e Rowan soletrou para mim. Não só existia como também parecia muito mais pro ssional do que se esperaria do blog de um garoto de dezessete anos, com um tema monocromático elegante e

em letras maiúsculas na parte superior.

— É uma referência a uma frase de Bob Dylan — explicou Rowan antes que eu pudesse perguntar. — “Minhas canções são meu léxico. Eu acredito nas canções.”

Ian cruzou os braços com raiva.

— Foi por causa do blog que consegui a coluna na IndieBlurb. Escrevo uma vez por semana para eles.

— Se chama “As Cinco da Semana de Indie Ian” — disse Rowan.

— Indie Ian? Esse é seu pseudônimo? — Fiquei esperando um deles começar a rir, mas nenhum dos dois fez isso. — Tá. São cinco o quê?

— Categorias de música. — Ian as listou em seus dedos. — “Vale o hype”, “Nem tudo isso”, “Covers”, “Clássicas” e “Obscuras”. Toda semana eu escolho uma música para cada categoria. — Ele suspirou alto. — Por que você acha tão difícil acreditar nisso tudo? Sempre gostei de escrever. E de música. Tentei entrar para o jornal da escola no ano passado, mas o treinador não deixou. Ele não queria que eu perdesse o foco.

O treinador tinha dito isso? Um instinto raivoso de superproteção fraterna rugiu na minha mente.

— Ian tem muitos seguidores no Twitter — contou Rowan. — Toda vez que publica algo, a hashtag dele sobe. É #IndieIan. Foi assim que conheci seu irmão.

— Ah, que nada! Não tenho tantos seguidores assim — ponderou Ian, tentando soar modesto, mas deu para sentir um quê de orgulho em sua voz.

— Você tem dez mil seguidores, como isso não é muito? — rebateu Rowan.

Dez mil? Nada mal.

Ian sacudiu o cabelo, fazendo-o cair em seus olhos.

— Não, nunca tive dez mil. Toda vez que chego perto, ponho alguma música na categoria “Nem tudo isso” que ofende as pessoas e o número cai. Na minha lápide, vai estar escrito: “Nunca chegou aos dez mil seguidores.”

Rowan bufou.

Peguei o celular de novo para procurar a conta no Twitter. A imagem de per l de @IndieIan11 era uma foto dos olhos de Ian, o cabelo comprido emoldurando o lado direito. Tinha 9,9 mil seguidores. Uma grande festa para a qual eu não havia sido convidada. Sobre a qual ninguém tinha nem me contado.

Apertei o celular com força, uma confusão de sentimentos em meu peito. Pelo menos agora eu sabia por que Ian estivera tão distante o verão inteiro. Ele tinha uma vida on-line secreta.

— Por que você não me contou nada disso? — perguntei.

Ian balançou a cabeça.

— Por que eu deveria ter contado? Não é como se você me escutasse.

Estava tentando fugir do assunto.

— Ian, pela última vez, isso não é sobre o Cubby. Se Rowan encontrou você há um ano, signi ca que você já estava com essa história de... de diário musical muito antes de Cubby e eu começarmos a sair.

— Diário musical. Gostei. — Rowan poderia muito bem estar usando um uniforme de arbitragem. Estava desesperado para um m à briga.

Ian se virou para trás, impaciente.

— Então responda de uma vez: você planeja contar sobre Cubby para nossa mãe durante ou depois de sua viagem a Florença?

— Ian, nós já discutimos isso um milhão de vezes. Não vou contar pra ela. — Minhas palavras ecoaram no carro. Como tínhamos voltado a esse assunto? — E não é minha viagem a Florença. É nossa viagem.

Mas nem eu parecia acreditar mais naquilo.

A primeira vez que menti para Ian foi sobre Cubby. E foi surpreendentemente fácil.

Aconteceu durante nossa última excursão juntos, e logo no início percebi que havia algo diferente. Em geral, nossos passeios eram para lugares que meu irmão havia descoberto recentemente, mas daquela vez não.

— Venho para cá desde que tirei a habilitação — contou ele, enquanto eu apontava a lanterna para a estátua de troll, fazendo seu único olho visível brilhar. Carros rugiam no viaduto acima de nós.

Ian subiu na mão retorcida da estátua, acomodando-se no ombro do troll. Examinei a escultura com a lanterna. O troll de concreto tinha mais de seis metros de altura, e uma das mãos rechonchudas segurava um carro em tamanho real.

— Por que você nunca me trouxe aqui antes?

Ian se esparramou no braço da estátua.

— Eu gosto de vir aqui depois do treino. Para pensar.

— Pensar sobre o quê? Como você vai arrasar no jogo seguinte? — provoquei.

Ele resmungou, mudando rapidamente de assunto.

— Reparou como o troll é meio achatado? É porque as pessoas picham a estátua e a única maneira de remover a tinta é cobrir com mais cimento.

— Nossa, que mudança de assunto sutil.

Nos últimos tempos, Ian vinha evitando todas as conversas que tinham a ver com futebol americano. Mas naquela noite eu não quis forçar a barra. Era bom estar com meu irmão. Ele andava meio sumido.

En ei a lanterna no bolso do moletom e escalei para me juntar a ele. Passamos um tempo ouvindo o barulho dos carros lá em cima. Barulhos previsíveis e reconfortantes.

Dava para entender por que Ian gostava dali.

— Onde você estava ontem à noite? — perguntou ele de repente, e meu coração acelerou mais do que os carros na estrada.

Evitei olhá-lo nos olhos.

— Fui dormir cedo.

Ele balançou a cabeça.

— Passei no seu quarto para ver se você queria assistir a Saturday Night Live. Você também saiu na terça à noite. Como está escapando? Pela janela? Tem que ter coragem para passar na frente do quarto dos nossos pais.

Muita coragem. Ainda mais para uma pessoa com menos de 1,60 metro tentando descer uma árvore cujos galhos estavam a pelo menos um metro e meio um do outro.

— Eu devia estar na cozinha — respondi, surpresa com a facilidade com que a mentira saiu da minha boca.

Nunca tinha mentido para Ian antes, nunca nem havia cogitado a ideia. Acho que nunca havia tido sobre o que mentir. Abri um sorrisinho. Não pude evitar. Ele ergueu as sobrancelhas.

— Então, agora que sei como você está saindo às escondidas, a questão é com quem?

Fechei bem a boca, selando meu segredo. Às vezes parecia que tudo o que eu tinha pertencera a um de meus irmãos primeiro. Por mais que os amasse, eu amava ainda mais a ideia de ter algo só meu.

Depois de alguns segundos, Ian soltou um suspiro longo e exasperado.

— Está bem. Não precisa contar. — Ele se deixou escorregar do troll, os tênis batendo pesadamente no chão. — Você sabe que vou acabar descobrindo de um jeito ou de outro.

Levar-me até o troll tinha sido a tentativa de Ian de arrancar meu segredo: eu conto um dos meus, e você me conta um dos seus.

Infelizmente, ele acabaria descobrindo de outro jeito.

 

O carro de Rowan avançava a toda pela estrada sinuosa enquanto eu observava a Irlanda se transformar aos poucos em um lugar remoto e feroz. Estruturas de pedra sem telhado ladeavam as estradas estreitas, cobertas por musgo verde. Tudo parecia abandonado, o que, por alguma razão, fez meu relógio interno bater ainda mais alto. Eu tinha menos de uma hora para convencer Ian a desistir de seu plano.

Por sorte, eu tinha uma arma secreta. Duas semanas antes, minha mãe e eu havíamos viajado mais de uma hora de carro para visitar a tia dela, e eu fora obrigada a ouvir uma nova gravação de Catarina Hayford chamada “Formas de Persuasão”. Eu nem imaginava que encontraria utilidade para aquilo. Mas agora era preciso recorrer aos especialistas. Primeiro passo: demonstre curiosidade.

— Então, o que Burren tem a ver com o Titletrack?

O olho roxo de Ian me encarou acusadoramente.

— Escuta aqui, Catarina. Só vou contar o que for necessário. Além disso, ninguém convidou você para vir junto, então pare de fazer perguntas.

— Eu não estava sendo a Catarina — retruquei. Pelo visto ele devia ter ouvido a gravação também.

— Estava, sim. O primeiro passo — disse ele em uma imitação surpreendentemente boa da voz gutural de Catarina — é demonstrar curiosidade.

— Eu perguntaria quem é Catarina, mas acho que vocês vão querer arrancar minha cabeça — disse Rowan.

— Não tem problema — garantiu Ian. — Ela é uma guru do mercado imobiliário que parece passar todo o tempo livre fazendo bronzeamento arti cial. Ela transformou nossa mãe em uma gurona do ramo imobiliário de Seattle.

— Eu não sabia que sua mãe trabalhava com isso.

Rowan olhou para Ian com curiosidade. Para alguém tão próximo do meu irmão, era uma surpresa como sabia pouco sobre ele. Nem sabia o nome de Walt.

— Segundo passo: nunca tente chegar a um meio-termo com o cliente. Vá até ele. — Ian jogou o cabelo para trás do ombro e franziu os lábios de forma convincente. — Terceiro passo: seja realista e otimista. O futuro pertence aos esperançosos.

Eu dei um peteleco em seu ombro.

— Ian, pare com isso.

Ele bufou e parou de fazer pose, abaixando-se para olhar pelo para-brisa.

— Rowan, estamos em Coro n?

— Não. Essa foi a primeira cidade. Agora estamos em Killinaboy. Além disso, decidi ignorar os termos e condições. — O olhar de Rowan pousou sobre mim, leve como uma borboleta. — Sua irmã precisa saber o que estamos fazendo.

— O quê? Por quê? — perguntou Ian.

— Se ela souber por que você está indo embora sozinho, talvez não reaja tão mal.

— Rowan, vai por mim: a reação vai ser a mesma — disse Ian.

— Eu ainda estou aqui — lembrei-os, e vi mais uma tentativa de Rowan de ajeitar os óculos. Ele os empurrava para cima com um gesto que era a combinação perfeita de cativante e meio nerd. Se não parecesse tão distraído quando fazia isso, eu até pensaria que era proposital. — E, Ian, estou começando a gostar desse seu amigo. Ao contrário de você, ele se importa com os sentimentos dos outros.

A minha intenção era ser engraçada, mas percebi meu erro assim que as palavras saíram da minha boca. Ian levava lealdade muito a sério — bastava uma mera insinuação de que estava decepcionando alguém para deixá-lo furioso.

Ele se virou para trás.

— Ah, entendi. Porque eu nunca me importo com seus sentimentos. Nunca defendo você ou ajudo com a escola ou resolvo os problemas que você mesma criou.

Minhas bochechas caram vermelhas. Ele tinha mesmo acabado de comparar me ajudar na escola com a situação do Cubby?

— Não acredito que você disse isso.

Rowan nos apartou verbalmente.

— Ok, pessoal. Que tal falarmos sobre Titletrack? No início da carreira, não estavam conseguindo fechar contrato com nenhuma gravadora, então começaram a postar as músicas na internet e a se apresentar em bares. Depois de um tempo, conseguiram convencer uma estação de rádio a tocar uma de suas músicas, e os ouvintes pediram para ouvi-la tantas vezes que acabou no top 10. Depois disso, as gravadoras não podiam mais ignorar a banda.

Houve uma pausa longa e desconfortável, mas o comentário aleatório tinha funcionado. Não estávamos mais brigando. Ian afundou no assento, o queixo encostando no peito.

Rowan continuou, talvez na esperança de impedir uma nova erupção:

— E o último show do Titletrack é daqui a três dias. Eles anunciaram no início do ano e juraram que não vão fazer aquela coisa idiota que as bandas fazem de se aposentar e depois marcar várias turnês especiais.

— Eu odeio isso — comentou Ian, redirecionando sua raiva.

Era o último show da banda? Então eu tinha ainda menos chance do que havia pensado.

— E o que Burren tem a ver com isso? — perguntei de novo, com cuidado.

Rowan, valente, respondeu:

— Ian teve a ideia... brilhante, devo dizer... de visitar alguns dos lugares que foram relevantes para a banda no início da carreira e escrever um artigo que culmina na última apresentação deles. Como se a gente estivesse seguindo os passos deles até o Electric Picnic. — Rowan fez uma pausa. — Ian, esse deveria ser o título!

— Hum... — fez Ian, sem querer se comprometer.

— Mas en m, Burren foi onde eles lmaram o primeiro clipe, da música “Classic”, que, na minha humilde opinião, é a melhor música do mundo.

— É mesmo — con rmou Ian. Ele se inclinou para a frente e seu cabelo caiu em cascata ao redor do rosto. — Eu coloquei para você ouvir no caminho para a escola algumas vezes. É aquela com a letra que fala da “simplicidade escorregadia”.

Eu me lembrava da música. Até tinha pedido para ele botar para tocar no carro algumas vezes, principalmente porque gostava de como o cantor pronunciava “simplicidade escorregadia”, rolando as palavras na boca como se fossem uma bala de caramelo.

— Certo — disse Rowan. — Vamos documentar toda a viagem, Ian vai postar várias fotos em seu blog e nas redes sociais. Então, quando estiver tudo pronto, ele vai enviar o artigo para uma revista importante.

— Talvez eu envie para alguma revista importante — corrigiu Ian rapidamente.

— Como assim “talvez”? — A voz de Rowan soou incrédula. — Se você não mandar, então mando eu. Sua escrita com certeza é boa o su ciente, e tenho uma lista de revistas irlandesas de música que cariam loucas por um artigo desses.

— Então, isso é uma mistura de fã clube com pesquisa de campo — falei.

Cada nova informação me deixava mais desesperada.

— Isso aí. — Rowan deu um soco no ar de tanto entusiasmo. — E o casamento da sua tia? Foi a melhor coincidência que já aconteceu no planeta Terra.

Ian sorriu para Rowan, a raiva já esquecida. Ele era oito ou oitenta. Podia passar de um extremo a outro bem rápido. Depois de uma vida inteira de brigas, eu já deveria estar acostumada, mas ainda me pegava desprevenida às vezes. Ainda mais agora, quando achei que estávamos nos encaminhando para um confronto enorme, como o que tivemos nas falésias.

— Eu mal pude acreditar — disse Ian. — Quer dizer, quais são as chances de eu estar na Irlanda na mesma época do último show deles?

Bem altas, na verdade. A vida gostava de fazer as coisas darem certo para o Ian.

Desabei no banco de trás, a resignação tomando conta de mim. A Irlanda era encantadora, Rowan era o melhor amigo que Ian sempre sonhou em ter e a banda favorita do meu irmão ia fazer um show imperdível. Eu nunca tive a menor chance de convencê-lo.

Eu me encolhi, abraçando os joelhos.

— Preciso que vocês sejam rápidos em Burren. Ian, você cancelou sua passagem para a Itália?

Ian começou a olhar para trás, mas se conteve no meio do caminho.

— Não, mas liguei para a companhia aérea. Eles vão ceder o meu lugar para outra pessoa quando eu não aparecer.

Ele teve compaixão su ciente para não falar em tom vitorioso.

Itália e Lina estenderam a mão para mim, calorosas e convidativas. Sol, gelato, museus de arte, lambretas, espaguete, minha melhor amiga. Fechei os olhos e me agarrei àquela imagem. Deixar Ian para trás na Irlanda não era o que eu tinha em mente, mas talvez fosse bom para nós dois. Eu esperava que a hora seguinte passasse voando.

— Tudo bem — respondi, derrotada. — Você venceu. Como sempre.