Arte de Louceiro

Nicolas-Christiern de Thy, conde de Milly · Capítulo 8 de 36

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Arte de Louceiro

Do modo de fazer os vasos na roda.

72 Das obras de oleiro, humas se fazem inteiramente á maõ,

como as caldeirinhas quadradas F, fig. 10 est. I, outras só se fazem na roda, como os vasos de flores, as tijellas, e alguidares K, fig. 11, que naõ tem azas, outras se fazem parte na roda, e parte a maõ, como os vasos de tres pés, as marmitas fig. 12, os escalfadores fig. 13, as caçarolas fig. 14, o corpo das quaes se faz na roda, e os pés, azas, e orelhas se põe de fóra á maõ.

73 Agora começo a dizer alguma cousa sobre o trabalho da roda, ou torno; tambem explicarei como se acommodaõ nella differentes peças; depois darei alguns exemplos das obras, que se fazem inteiramente á maõ.

 

Do modo de fazer os vasos na roda.

 

74 Ha duas especies de rodas: huma he de ferro, e esta he verdadeiramente a roda de oleiros; e outra he de páo e se chama o torno. Quasi todos os oleiros de París se servem dellas; porém adoptaraõ a dos oleiros de louça fina vidrada.

75 Descripçaõ da roda de ferro aa Est. I, fig. 5, he o meio da roda, que tem a pequena roda bb, em alguns lugares se chama gimble, sobre o qual está a obra cc, em que se trabalha. No meio aa, se ajuntaõ os raios da roda dd, que saõ de ferro. Nesta figura só se vem dous; porém a roda tem seis, como se vê na figura 16. Estes raios vem dar em hum circulo de ferro, ou ambos, cuja grossura só se vê aqui representada pela linha ee; o meio aa, diminue de grossura em ff, e ainda mais em gg, esta parte, que he cylindrica, e pontuada na figura, he recebida por hum buraco em hum grosso pedaço de páo g, que fica bem seguro por huma cruz de páo hh, e pelas prisões ii. Em primeiro lugar he preciso conceber, que o meio aa, a parte ff, e o cylindro pontuado g, saõ tomadas em hum mesmo pedaço de páo; em segundo lugar que a parte cylindrica pontuada he recebida em hum buraco fundo, que está no centro do pedaço de páo g, no qual póde virar; que este cylindro pontuado, que tem a parte ff assim como este que nos temos chamado o meio aa, por cima do qual está a pequena roda bb, sobre a qual está a obra cc. Aqui se vê, que os raios dd, saõ obliquos, de sorte que por suas revoluções, formaõ hum conico cortado em aa; K saõ as pequenas mesas, que estaõ em roda do obreiro, em que elle põe as bolas de barro, de que vai fazer as obras, e as mesmas obras depois de feitas, huma gamela com agua, hum calibre de ferro ordinariamente, a que chamaõ atelle L, he huma taboa inclinada sobre a qual se assenta o obreiro. Tudo isto se tornará mais claro lançando os olhos sobre o plano perspectivo fig. 17.

76 A he o meio da roda: b a pequena roda, que sustenta em si a obra c, na qual se trabalha: d, os raios da roda ee, cambas da roda: f a parte cylindrica do meio, por baixo do qual fica a que está pontuada na fig. 1, perto de g: h a taboa que esta segura aqui por huma massa de gesso: k as mesas pequenas, sobre que se põe a obra logo depois de feita: l, a taboa inclinada, em que se assenta o obreiro: m, taboas grossas inclinadas, que tem entalhes profundos, em que os obreiros põe os pés como se vê fig. 16, e 17; estas especies de assento para os pés se chamaõ poiaes: n saõ as obras já acabadas: o, bôlos de barro para fazer outras obras: p, os pilares, ou pés direitos, que sustém as mesas k, l.

77 A figura 16 representa a mesma maquina vista em plano, e virada para se poder ver a roda por baixo: g, a parte cylindrica, que entra em hum buraco fundo feito na peça g: f, parte cylindrica mais grossa; aa, o meio da roda aonde se ajuntaõ os raios d: ee, a camba: p saõ os encaixes destinados para receber os pés direitos que sustem as mesas k, e o assento l: m, lugar de pôr os pés.