Arte de Louceiro

Nicolas-Christiern de Thy, conde de Milly · Capítulo 27 de 36

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Arte de Louceiro

ARTIGO XII. Do oleiro de fogareiros.

ARTIGO XII.

Do oleiro de fogareiros.

 

262 Ainda que os oleiros, que fazem os fogareiros, e cadinhos para os Chymicos, chamados fournalistas façaõ hum mesmo corpo com os que fazem os ladrilhos, utensis do uso, e outras obras, de que já fallei, pareceo-me justo tratar separadamente das obras dos que fazem fogareiros, e mais instrumentos chymicos; porque seu modo de trabalhar he muito differente da pratica dos outros oleiros.

263 Os de París se servem como os outros oleiros da argilla, que tiraõ em Gentilly. Para a amaciarem, e tornalla ductil, e propria a ser trabalhada; cortaõ-na em pedaços sobre huma taboa, como os outros oleiros; estes pedaços cahem em tinas, ou celhas com agua: quando está já bem penetrada da agua, a tiraõ para a amassarem. Se a argilla he muito forte, elles a fazem magra, como os outros oleiros; mas para isto naõ se servem da area: quando elles se propõe fazer obras usuaes, como esquentadores para serventias pequenas, ou fogareiros para fazer esquentar os ferros de engomar, e outras obras, que se daõ baratas: neste caso ligaõ o seu barro com escorias de ferro pizadas, e passadas por hum crivo, misturando depois partes iguaes deste pó, e do barro; porém para os fogareiros chymicos, como elles tem de soffrer hum fogo violento, e continuo, convem substituir a area huma substancia capaz de resistir á maior acçaõ do fogo, e naõ se tem achado outra cousa melhor para liga, do que os pedaços destes vasos de greda escura, que serviraõ de trazer manteiga de Isignes; dizem elles, e eu naõ sei se he com fundamento, que a louça de Picardia naõ he taõ boa como a de Normandia.

264 Seja como for elles compraõ aos tendeiros estes pedaços de greda de Normandia ás medidas; elles os pizaõ com huma massa de ferro, ou de páo guarnecida de ferro, sobre huma pedra muito dura, ou hum calháo, que se põe sobre a ponta de hum páo grosso; depois os passaõ por hum crivo bem fino, para que as molecudas da greda se reduzaõ, quando muito, ao tamanho de hum graõ de milho: elles misturaõ pouco mais, ou menos tanto deste pó, como da argilla, ou cinco partes deste pó com quatro de argilla; porque elles dizem, e com razaõ, que os fogareiros saõ tanto mais fortes, quanta maior porçaõ levaõ deste pó, e que argilla deve ser quanta baste para o ligar, finalmente usaõ deste pó mais fino para os cadinhos, do que para os fogareiros.

265 Os oleiros que fazem os fogareiros preparaõ argilla, como os outros oleiros; elles escolhem á maõ todos os corpos estranhos, que encontraõ, quando a cortaõ, e amassaõ; mas escolhem com mais cuidado aquella, que destinaõ para fazer cadinhos; elles a trabalhaõ, e a amassaõ sobre huma meza, e lançaõ fóra com muito cuidado todos os calháos, pyrites, ou fragmentos de pedra calcar, que encontraõ nas maõs. Alguns para fazerem os cadinhos mais perfeitos, depois de terem feito seccar a argilla, a pulverisaõ, e a passaõ pela peneira; se elles achaõ huma veia de barro, que contém muitos destes corpos estranhos, o põe de parte para fazerem os fogareiros, e reservaõ o barro mais puro para os cadinhos.

266 Amassaõ o barro, como os outros oleiros, põe o pó do barro cozido sobre hum sobrado, e a argilla por cima; depois de terem feito a primeira amassadura, tiraõ o barro do meio para os lados, e dos lados para o meio. Alguns amassaõ o barro batendo-o sobre huma meza com huma massa de ferro, e acabaõ de o amassar trabalhando-o nas maõs.

267 Até o presente se vê, que o trabalho destes differe pouco dos outros oleiros; porém elles senaõ servem de roda nem de moldes ocos, para formar suas obras; fazem-nas inteiramente a maõ, como explicarei.

268 Os fogareiros portateis, que estes fazem naõ servem aos Chymicos; pois para certas operações, se formaõ outros de hum feitio particular; elles mesmos os fazem com tijollos, que unem com o barro dos fornos, ou com argamassa de cal, e ladrilho moido, ou com hum luto, composto de huma parte de barro, outra de esterco de cavallo secco, e de duas de area.

269 Alguns fazem a sua argamassa com hum bocado de barro de fornos, e muita cinza de lixivia, ou cenrrada, passada por huma peneira, e humedecida com agua. Mas como os tijollos communs naõ resistiriaõ a certas operações, por serem faceis de vitrificar, se fazem estas fornalhas mais fixas com tijollos, e barro de cadinhos.

270 O barro destes tijollos he o mesmo, que se usa para fazer os fogareiros portateis; estes tijollos se fazem em moldes de páo, que se enchem deste barro. Assim que os tijollos tomáraõ hum bocado de consistencia, depois de tirados dos moldes, batem-nos sobre huma taboa para comprimir o barro: mas com cuidado para os naõ desfigurar.

271 Os mestres dos fornos fazem estes tijollos quadrados, quasi do mesmo modo, que os ordinarios, e tambem os meios tijollos quadrados, para fazer os igualamentos.

272 Para dar varias figuras aos fornos os mestres fazem tijollos

de certa bitola, e figura est. II, fig. 13. E os Chymicos se servem delles para fazer fornos redondos, de sorte que algumas vezes quatro tijollos fazem a circunferencia de hum pequeno forno, para os grandes se carecem muitos mais. Ainda que se mude a curvatura destes tijollos segundo a figura, que se quer dar ao forno, sempre se tem meios tijollos, que saõ muito commodos para igualar as superficies. Estes tijollos se fazem em caixilhos, ou moldes, como os

tijollos ordinarios: a est. II, fig. 14. he para fazer os apoios dos cadinhos; e b, dos quadrados.

273 Os mestres dos fogareiros saõ os que preparaõ os materiaes, e os Chymicos as põe em obra, unindo os tijollos com barro de forno, ou com as argamassas, de que já fallei. Entre o cinzeiro, e a fornalha se põe huma grade de ferro, alguns tapaõ as portas ou aberturas com huma chapa de ferro delgada; outros se contentaõ em pôr por cima das portas hum pedaço de ferro chato, á maneira de portal. Dentro do laboratorio, que está por cima da fornalha, se põe humas chapas de ferro para supportar hum banho de area, ou cucurbitas, ou retortas, ou cadinhos; finalmente fazem mais fortes estes fornos, pondo-lhes por fóra humas chapas delgadas de ferro, que o cercaõ por todos os lados: porém naõ ha cousa melhor para segurar os tijollos, e impedir, que se naõ despeguem com a força do fogo, do que prender na argamassa, que os une pedaços de redes velhas de arame de ferro de tostar o tabaco rapé: estas naõ fazem enchimento, e por causa dos buracos, e desigualdades destas redes fazem huma excellente liga com a argamassa. Naõ entro em grandes individuações sobre as fornalhas fixas, porque isto naõ he huma parte essencial dos oleiros, que fazem fogareiros; as fornalhas portateis, ou fogareiros para o uso dos Chymicos, que verdadeiramente fazem a base desta arte, saõ os de que eu vou tratar com alguma maior individuaçaõ.

274 Os oleiros mestres de fogareiros, ou fornalhas portateis as

fazem quadradas; taes saõ as fornalhas de cadinho a est. II, fig. 15, e algumas de fusaõ fig. 16; mas as fornalhas de digestaõ, e as de reverbero, em huma palavra, quasi todas as fornalhas portateis saõ redondas. Humas saõ de huma só peça isto he cinzeiro, fogaõ, e laboratorio; naõ tem mais que por-lhe em cima a abobada: outras saõ formadas de muitas corôas, que se põe humas sobre outras; algumas se põe sobre huma trempe de ferro, e estas naõ tem cinzeiro, porque a cinza cahe no chaõ; porém a maior parte tem hum cinzeiro, hum fogaõ, onde se põe o carvaõ sobre huma grade, que deixa cahir a cinza, e dá passagem ao ar, que aviva o fogo. Os mestres de fogareiros algumas vezes fazem estas grades de barro; entaõ he huma chapa de barro redonda, em que se abrem muitos buracos; outras se servem de grades de ferro. Por cima do fogaõ está hum espaço, que se chama o laboratorio, porque neste lugar he que se põe o banho de maria, ou de area, ou huma retorta: tem huma abertura por onde se introduz o collo, ou huma cucurbita, ou cadinhos; e todas estas cousas sustidas por algumas peças de ferro, e muitas vezes acaba tudo por hum corpo espherico, ou zimborio, que serve de reverberar o calor sobre a retorta, ou os cadinhos, que estaõ no laboratorio. Ha sempre no alto do zimborio huma abertura de tres ou quatro pollegadas de diametro conforme o tamanho da fornalha, e esta abertura tem algumas vezes huma ponta de tubo, para se poderem ajustar nella tubos mais compridos, quanto se quer augmentar a actividade do fogo; porque para accender-se o carvaõ com mais vivacidade, e produzir muito mais calor, se precisa estabelecer na fornalha huma corrente de ar, que entre pelo cinzeiro, e saia por cima da fornalha. Ora esta corrente de ar depende da ligeireza do ar quente, em comparaçaõ ao pezo do ar frio, e esta ligeireza se augmenta a proporçaõ, que elle se esquenta mais, e tambem á proporçaõ de huma maior columna de ar quente no cume da fornalha: e assim para se augmentar a actividade do fogo na fornalha, precisa, que possa entrar por baixo huma sufficiente quantidade de ar frio, e ajuntar por cima da fornalha huma extensaõ de tubos, para se fazer assim huma maior columna de ar quente, que serve como de huma bomba maior; he preciso tambem, que o diametro deste tubo seja proporcionado ao tamanho da fornalha; eu naõ envestiguei sobre estas proporções, porque ellas naõ pertencem ao official: este se deve conformar com as ordens do Chymico, que varia isto, conforme as operações, que pretende fazer.

275 Ha outras mais aberturas, tanto no zimborio, como no corpo da fornalha, que se abrem, ou se fechaõ para augmentar, ou diminuir o calor, conforme se quer, e levallo mais para huma parte da fornalha, do que para outra; para isto se deixaõ estes buracos abertos, ou se fechaõ, quando se julga a proposito, com batoques feitos mesmo de barro: a isto chamaõ registros.

276 Devem-se fazer muito grossas as paredes das fornalhas, para que naõ escape o calor para o laboratorio, onde incommoda ao artista, e ao mesmo tempo falta para operaçaõ.

277 Eu disse que os mestres de fogareiros faziaõ fornalhas

quadradas, e dei por exemplo as fornalhas de cadinho a est. II, fig. 15; ellas tem hum cinzeiro a, que tem huma porta, por cima da qual está o laboratorio b, e huma abertura que naõ se communica dentro da fornalha, mas sim huma especie de forno, feito de barro de cadinhos delgado, chamado moufles, ou receptaculo; delle fallarei, quando tratar dos cadinhos: este laboratorio está sustido por grades de ferro, que atravessaõ o interior da fornalha, e de todas as partes cercado por carvões ardentes; no moufle, ou receptaculo he que se põe os cadinhos para fazer as experiencias dos metaes, das peças esmaltadas, e dos cadinhos para certas operações. A fornalha he cuberta por hum zimborio quadrado, em cima do qual está huma grande abertura, que se póde tapar com hum testo, ou se lhe põe hum tubo, quando se quer que o fogo tenha huma grande actividade. Por meio deste receptaculo, se podem expôr a hum grande calor as materias, sem receberem alguma impressaõ de fumaça, nem mesmo vapores de carvaõ.

278 A fig. 16. C, representa huma fornalha de fusaõ, na qual se accende o fogo com hum folle; e por isso he que naõ tem grade no cinzeiro a, nem abertura por baixo na parte a, d, nem tubo em cima para fazer maior corrente, de ar na fornalha; o folle faz as vezes desta corrente de ar.

279 A parte aa, aa, B, he huma peça de barro, que fórma a parte debaixo do cinzeiro, onde se póde notar huma abertura b, a qual vai ter ao tubo do folle, e o vento sahe pela abertura c; o corpo da fornalha dd, se põe sobre o fundo aa. He preciso notar no interior desta fornalha huma sahida de barro ee, que circula ao redor da fornalha; esta se destina para suster a parte ff, que fórma a parte baixa do fogaõ na altura dd; porém tem nos angulos quatro aberturas gg, pelas quaes o vento do folle entra no corpo da fornalha, que he ao mesmo tempo fogaõ, e laboratorio, e aviva o fogo em todas as partes desta repartiçaõ, e em toda a circunferencia do cadinho, que está posto no meio do fundo ff, como se vê indicado nos pontos dd. Deste modo fica rodeado de hum calor muito vivo, sem receber immediatamente o vento do folle, que sendo frio, o refrescaria, e muitas vezes o faria rebentar. A cuberta, ou testo C, só se põe quando se tira o cadinho, para apagar o fogo, e fazer esfriar a fornalha devagar. Esta fornalha chamada de fusaõ se vê, que he muito bem ideada, a que se segue naõ carece de folles.

280 Tambem se póde fazer uso de huma fornalha da invençaõ de Mr. Maquer, que produz hum calor muito forte, e vitrifica quasi todas as substancias que nella se põe. Esta fornalha naõ tem cinzeiro; põe-se sobre huma trempe; por baixo tem huma grade, pela qual cahe a cinza, e dá huma passagem livre ao ar. A porta só serve para facilmente se alimpar a grade com o esborralhador, no cazo de precisar. A porta he destinada para se ajustar por detraz hum cadinho para algumas operações, em que se tomasse o fumo, ou vapores de carvaõ; a parte posterior está, como se vê, inclinada para traz da fornalha: e a porta grande serve para metter o carvaõ na fornalha; he preciso que ella seja grande, porque esta fornalha consome muito carvaõ; esta parte faz vezes de zimborio, tem no meio hum principio de tubo, para receber os outros tubos, que se ajustaõ huns por cima dos outros, e quantos mais se mettem mais calor ha. Bem se vê que esta fornalha deve ter muita actividade, porque se estabelece no interior huma corrente do ar, estando o fundo todo aberto, e a columna de ar quente se eleva muito. Finalmente põe-se no interior algumas grades de ferro para sustentar o receptaculo, quando se põe hum cadinho, ou muitos, e vasos que contém as materias de que se fazem as experiencias.

281 A fig. 17, est. II, he hum pequeno forno, de digestaõ destinado para entreter em hum calor brando certas substancias por hum tempo consideravel.

282 O que aqui se representa, he de folha de ferro, forrado por dentro de barro de cadinhos; a he o cinzeiro; b lugar onde se põe o fogo; c he huma tapagem, que cobre todo o forno; d he huma torre, onde se põe huma provisaõ de carvaõ, por naõ ser preciso pollo a miudo pela porta e: enche-se de area a capacidade c, f, e nesta area he que se põe os crisoes, ou vasos, que contém as materias postas em digestaõ. Este forno, ao contrario daquelles, de que acima fallei, he destinado para entreter por muito tempo hum calor brando, e igual; para isto he preciso, que a corrente de ar, que deve atravessar este forno, seja vagarosa, e bem dirigida. He evidente, que fechando-se exactamente as portas g, e, e os buracos, que estaõ no testo, ou cuberta h, da torre d, o fogo se apagaria, e que, abrindo-se estes buracos, o carvaõ se consumiria com presteza, e produziria muito calor. E assim para obter hum meio conveniente, se devem abrir alguns dos buracos, que estaõ nas portas g, e, e algumas das que estaõ na cuberta da torre h: por meio disto o carvaõ, que se pôs na torre d, naõ se accende, mas cahe pouco a pouco na parte b, a medida que se vai gastando o que ahi está; e quando a torre he grande, o fogo se entretem por muito tempo no forno, sem ser preciso haver com elle algum cuidado.

283 Eu podia trazer hum maior numero de fornos, ou fogareiros, que fazem estes oleiros; porém alguns exemplos bastaraõ para fazer comprehender seu modo de trabalhar.

284 Todas as fornalhas portateis, ou fogareiros saõ feitas á maõ com argilla, misturada com o pó dos vasos de manteiga, como fica dito.

285 Com hum compasso se risca em huma meza a largura, que a fornalha deve ter no fundo; depois o oleiro tendo posto sobre a meza hum bocado de cinza fina, para que o barro senaõ pegue, estende, como fazem os pasteleiros, huma pasta de barro redonda, e a põe sobre o traço que fez o compasso; este he o fundo da fornalha; depois com este mesmo barro faz outra pasta, que põe em roda sobre a pasta de barro, que fórma o fundo, tendo cuidado de os comprimir bem com os dedos, e dar-lhe mais grossura, do que devem ter as paredes da fornalha, naõ só porque o barro encolhe, mas tambem, porque batendo-o, diminue a grossura. Ajunta outros rolos de barro huns sobre outros, e tem o cuidado de os comprimir, e unir bem com os dedos para vir a fazer tudo hum só corpo, naõ ficando vacuo interposto entre as camadas de barro, porque o ar contido neste vacuo faria arrebentar o forno, quando se dilatasse pelo calor. Quando o forno chega a altura, em que se deve pôr a grade, por cima do cinzeiro, fórma huma pequena sahida ou borda com o mesmo barro para suster a grade.

286 Pensaõ, e com razaõ, que os rolos de barro, comprimidos com os dedos deixaõ desigualdades. Depois que o forno tem chegado a huma certa altura, o official passa o gume da maõ, de cima a baixo, e ao través, e deste modo o une, e torna igual. Esta operaçaõ une a obra, e destroe as desigualdades, e a faz compacta, tirando-lhe os pequenos vacuos, que teriaõ ficado. Continua por diante a pôr os rolos de barro para levantar o forno, e formar a parte, que se chama fornalha, ou o fogaõ; depois o laboratorio até o lugar, em que se deve pôr o zimborio, e de vez em quando pule a obra, como já fica dito.

287 Sabe-se muito bem, que os fornos saõ mais largos por cima do que por baixo. O habito dos bons forneiros he, o que os obriga a observar este methodo regularmente, vindo a dar ás paredes dos fornos a devida grossura; fazem-lhes varios contornos muito regulares, e para tudo isto naõ carecem de regua, nem compasso, he só com a vista, e nem tem outros instrumentos, senaõ as maõs, e o instrumento de bater o barro em pasta.

288 Querendo-se formar pequenas chaminés para dar sahida ao vapor do fogo, se fazem no corpo do forno buracos, que se tapaõ com o mesmo barro disposto na figura conveniente a maõ, ou em molde, e segura-se quasi como as azas na louça. Os lugares, em que se péga, para mudar o forno de hum lugar para outro, e as sahidas, ou crescimento de barro, que se faz por baixo das portas, se começaõ, quando se fórma o corpo do forno, e se aperfeiçoaõ, quando se acaba de bater. Feitos assim os fornos, como se acaba de dizer, e aperfeiçoada a superficie com os dedos se põe a enxugar, e depois se acaba; para isto se bate com huma taboasinha por fóra, e mesmo por dentro, quando o diametro o permitte; abrem-se as portas com huma faca molhada, finalmente em quanto o barro está ainda mole, e ductil, se aperfeiçoaõ todas as partes do forno; e os habeis obreiros os fazem com tanta perfeiçaõ, como se fossem feitos em moldes, ou em roda.

289 Fazem-se á parte batoques para os registros, e portas para fechar as aberturas; escolhem-se em hum numero que ha de differentes tamanhos, as peças, que servem: isto he facil; porque, como se fazem de cantos, ou quadradas, servem nas aberturas, que se fizeraõ no forno.

290 Os fornos grandes se fazem de muitas peças. O cinzeiro a, a fornalha b, e o laboratorio c saõ formados da differentes peças, que se ajustaõ humas sobre outras com encaixes. Como estas peças devem ser todas iguaes por medida, para ajustarem humas sobre as outras, os oleiros logo que fazem o cinzeiro as medem exactamente o seu diametro por cima com hum compasso, e riscaõ esta medida em huma meza, e em cima formaõ a peça c, que deve ajustar por cima; deste modo o barro encolhe com igualdade, e as peças se ajustaõ bem, depois do barro ter tomado consistencia se aparaõ, e aperfeiçoaõ os encaixes, e se põe as peças humas sobre outras, e se batem com a taboinha, de sorte que o forno parece ser de huma peça só.

291 Depois de começado hum forno, se precisa acabar sem parar; porque o barro humido naõ se liga com o barro secco, e este já teria encolhido; e por isso, sendo preciso parar com a obra, se deve cubrir com pannos molhados por naõ seccar.

292 Quando se acaba o forno, se devem fazer em roda, e em differentes alturas rasgos fundos, para se passar hum fio de arame grosso, que abrace toda a circunferencia do forno, em cada hum destes rasgos; porque isto ajuda muito a conservar os fornos.

293 A abobada, que se deve pôr sobre o forno como já disse, tambem se faz a maõ e sem moldes, ajustando rolos de barro mais finos, do que os do corpo do forno, huns sobre os outros; começa-se por hum traço de compasso que mostra a largura de cima do forno, aonde se deve pôr a abobada; e para o barro se poder suster toma-se de algum, que se amassasse mais duro; e em geral o barro, em que trabalhaõ os forneiros, he mais duro, do que o dos outros oleiros.

294 Algumas vezes, em quanto o barro naõ está ainda muito duro, com moldes lhe imprimem varias molduras para adorno dos fornos.

295 Os fornos de cadinhos se trabalhaõ do mesmo modo que este, de que acabo de fallar, tudo he a maõ; e sem usarem de regua nem compasso, lhe daõ huma figura muito regular: só o cadinho deve ser trabalhado por differente modo: delles fallarei, quando tratar dos cadinhos.

296 Fazem tubos, para descarregar a fumaça, com o mesmo barro dos fornos, e os formaõ com hum cilindro de páo, que he mais grosso em huma ponta do que em outra para poder-se tirar o molde, depois do tubo feito, e para o barro senaõ pegar ao páo, esfregaõ em cinza muito fina. Assim que o barro do tubo ficou alguma cousa duro, batem-no com a taboinha para alizallo, e fazello mais compacto.

297 Os oleiros fazem os cadinhos na roda, e os forneiros as fazem a maõ em huma especie de torno de páo, que elles chamaõ

molde, c d, fig. 22, est. I.

298 Suposto que disse que os oleiros de Picardia faziaõ bons cadinhos com o seu barro de greda, toda via arrebentaõ no fogo, se os esquentaõ precipitadamente; porém se os esquentaõ aos poucos resistem a hum fogo violento sem se desfigurarem, e resistem a

acçaõ dos saes, e metaes derretidos.[25]

299 O barro de Gournaes em Normandia he muito bom; elle sopporta hum fogo muito grande sem se desfigurar; mas tem o defeito de conter em si muita quantidade de pequenas pyrites, e fragmentos de mina de ferro. Eu disse, que tinha chegado a remediar ao menos em partes, estas faltas, dissolvendo-o em muita agua, e deixando precipitar o que era mais pezado, e mais grosseiro, para me servir do barro fino, que se precipitava depois.

300 Para fazer os vasos das fabricas de vidros, em que se tem o vidro derretido, tres semanas sem interrupçaõ, se escolhe da boa argilla, a mais pura, que se possa achar; liga-se com esta mesma argilla bem cozida, reduzida a pó. Esta liga se faz em differentes doses, segundo a argilla he mais, ou menos macia e ductil, e mais disposta a fechar-se, sendo cozida; de sorte que certas argillas cruas naõ podem soffrer senaõ partes iguaes de argilla cozida, e outras muito macias podem soffrer cinco, e seis partes de argilla cozida em quatro partes da crua.

301 Ha fabricas de vidros, que fazem os seus grandes cadinhos, a que elles chamaõ potes, com rolos de barro, como os nossos forneiros, outros os fazem em moldes.

302 Os forneiros de París fazem seus cadinhos com argilla cinzenta de Gentilly; elles a escolhem, e alimpaõ com mais cuidado, do que para os fornos; depois a ligaõ com pouco mais de outro tanto de barro cozido, que passaõ por hum crivo hum pouco mais fino, do que para os fornos. Depois de terem preparado o barro o estendem

pouco a pouco sobre hum molde de páo c est. I, fig. 22, que tem a figura que deve ter o interior do cadinho, tendo-o esfregado com area fina, para que o barro senaõ pegue; começaõ pelo fundo do cadinho, cobrem o molde com huma camada de barro, que tem tres, ou quatro linhas de grosso, e estendem-na pouco a pouco com pequenos golpes; e isto fazem com muita destreza, e regularidade. Estes cadinhos saõ bons para muitas operações, ainda que naõ podem supportar hum fogo muito grande, nem ter saes em fusaõ, como fazem os cadinhos de greda, e os de Allemanha.

303 Do modo seguinte os tenho feito para as pequenas experiencias de mina. Dissolvi a argilla de Gentilly em muita agua, e deixei precipitar os corpos mais pezados; fiz depois seccar a argilla pura, que se precipitou em ultimo lugar; depois a pizei, e passei por huma peneira fina. Com estas preparações separei da argilla todos os corpos estranhos, a excepçaõ só das substancias, que estavaõ muito soltas, e em particulas minimas: liguei esta argilla com o pó dos vasos de manteiga passados por peneira fina, e formei os cadinhos em hum molde de cobre comprimindo-os, do modo que se faz o forno dos pitos. Estes cadinhos eraõ bons; com tudo naõ podiaõ soffrer hum fogo grande, e me achei melhor com a argilla branca, de que se fazem os pitos em Normandia; pois esta argilla commummente he mais izenta de substancias estranhas, do que ás argillas de côres. Digo commummente, porque ha argillas brancas, que saõ mui fusiveis, e carregadas de partes metallicas; e por isso o mais seguro he experimentallas antes de fazer uso dellas; visto que se pode dizer em geral, que he preciso escolher huma argilla, que naõ seja fusivel, e sobre tudo, que naõ tenha mistura de pyrites, de substancias metallicas, nem de area vitrificavel; porque os saes, ou substancias metallicas, que se põe nestes cadinhos vitrificaõ estas substancias estranhas ao barro, e os cadinhos ou rachaõ, ou furaõ. Havendo huma argilla pura, e refractaria, que dá ductilidade a pasta, se precisa, como já fica dito, ligalla com algum pó de tijollo, para impedir á argilla, de se encolher, e rachar ao cozer. He preciso, que estes pós de tijollos sejaõ refractarios: por isto nas fabricas de vidros se servem da argilla, que elles mesmos fizeraõ cozer; e para os cadinhos pequenos bastaõ os pitos bem cozidos, e feitos em pó. Os forneiros fazem uso do pó dos vasos de manteiga de Normandia: desgraçadamente sua argilla naõ he tal, como se poderia desejar. Elles o sabem; e para fazer seus cadinhos melhores, misturaõ muito pó de greda com a argilla; porém entaõ naõ fica muito compacto o barro dos cadinhos, e deixa passar pelos poros as materias, que tem em fusaõ, quando estaõ muito fluidas. Os cadinhos de greda naõ tem este defeito; e assim he preciso observar huma justa proporçaõ nestas ligas; porque, pondo-se muita argilla crua, he bem difficil de impedir o racharem os cadinhos ao seccar, ou ao cozer; e pondo-se muito pó, ficaõ os cadinhos com pouca firmeza, e naõ podem suster o pezo dos metaes, e tendo os poros muito abertos, o metal, e sobre tudo os saes, os penetraõ: por isso dizem alguns, que he preciso misturar-lhe hum bocado de area vitrificavel. Mr. de Reaumur, por exemplo, se achou bem em fazer cadinhos com partes iguaes de greda, area, e barro de pitos.

304 As ligas seguintes saõ exageradas por alguns; mas eu nunca as experimentei.

305 Duas partes de argilla boa, pura, e bem secca, duas partes de pó de vasos de greda, huma parte de area; alguns lhe ajuntaõ hum bocado de limalha de ferro, e agua salgada.

306 Outro: seis partes de argilla secca, duas partes de caput mortuum de agua forte, duas partes de pó de vasos de greda, huma parte de escorias de ferro, e huma de vidro muido, e hum bocado de cal desfeita ao ar.

307 Outro: partes iguaes de argilla secca, de amianto, talco espurio, ou terra de gelo, ou mica.

308 Fazem-se cadinhos em figura de copos; algumas vezes se lhe faz hum pequeno aperto por cima, formando bico: tambem se fazem triangulares, para vasarem o metal com mais commodo. Finalmente fazem-se para ensaiar minas de metaes preciosos; estes terminaõ em ponta d, para que o metal derretido se ajunte melhor no fundo do cadinho; entaõ se lhe faz hum pequeno pé para que elles se sustenhaõ melhor dentro, e fora do forno.

309 A respeito das capsulas, e cabeças só differem dos cadinhos por sua figura, assim como certos cadinhos com pé, a que os Francezes chamaõ tutes.

310 As mangas, ou receptaculos para os fornos de crisoes se fazem com o mesmo barro dos cadinhos; estende-se o barro bem delgado sobre huma meza, assim como fazem os pasteleiros; corta-se hum pedaço desta pasta para fazer a parte de cima do receptaculo; põe-se este pedaço sobre hum molde a, para lhe fazer tomar huma curvatura conveniente, e servindo-se do mesmo molde se lhe ajusta por baixo o fundo, e por detraz outro pedaço para fechar huma das pontas do receptaculo, estando bem justos estes differentes pedaços, se deixa endurecer hum pouco o barro; entaõ se acaba de fazer esta peça: com huma faca molhada se lhe abrem os pequenos buracos dos lados, e estaõ promptos para se cozerem.