Arte de Louceiro
Do torno, ou roda, que os oleiros de obra grossa tomáraõ dos de obra fina.
78 Nos campos muitas vezes he de páo, tudo o que aqui se representa de ferro; neste caso a camba da roda he muito grossa: para que com o seu peso conserve por mais tempo o movimento, que o oleiro lhe imprime. Como ellas saõ menos perfeitas que as de ferro, escuso entrar em individuações a seu respeito.
79 Para se trabalhar sobre esta roda, he preciso imprimir-lhe hum
movimento circular rapido, com hum páo a, est. II, fig. 4, que se chama virador. Vê-se nesta fig. 4, hum obreiro disposto para pôr a roda em movimento; está sentado no assento l, os pés estaõ nos entalhes dos lugares de ter os pés m; e com huma ponta do virador a, toca em hum raio de roda para a fazer andar, e imprimir-lhe hum movimento circular, que ella conserva bem tempo para o obreiro, fig. 5, poder formar hum vaso.
Do torno, ou roda, que os oleiros de obra grossa
tomáraõ dos de obra fina.
80 Esta roda a, fig. 18, est. I, he de páo, e tem de grosso tres ou quatro pollegadas, para que o maior peso lhe faça conservar o movimento mais tempo; ella he atravessada por hum eixo de páo, ou de ferro b, que finda por baixo da roda em hum mancal: este eixo passa ao nivel da mesa por hum colar, e tem na sua extremidade superior huma roda pequena c, sobre a qual está a obra d; o obreiro h, estando assentado hum pouco obliquamente sobre a taboa inclinada i, tem muitas vezes as pernas ambas do mesmo lado de sorte, que o eixo b, lhe passa por detraz da perna esquerda; muitas vezes tem as pernas abertas, e o eixo lhe passa pelo meio, estando os pés apoiados, e o esquerdo fica na travessa g, da mesa: f, he huma gamella com agua: tendo o obreiro o pé esquerdo sobre a travessa g, apoia o pé direito ligeiramente sobre, a roda e empurrando-a para diante lhe imprime hum movimento circular, que se communica a roda pequena c, sobre a qual está a obra d. Como esta roda naõ vira taõ veloz, quanto a de ferro, o obreiro póde formar a sua obra com mais regularidade, e póde accelerar-lhe o movimento, ou retardarllo conforme lhe parecer, e paralla mesmo quando quer: o que se naõ póde fazer com a roda de ferro.
81 Quando o obreiro tem as pernas ambas do mesmo lado, se tem a direita cançada, póde tocar a roda com o pé esquerdo: algumas vezes para tocar a roda mais ligeira se vale de ambos os pés para a tocar.
82 Ha alguns oleiros Alemães, que tendo o eixo b, entre as pernas, se servem de ambos os pés; mas he preciso entaõ, que o pé direito toque a roda para diante, e com o esquerdo a puxe para si: com o uso se vem a facilitar este movimento dos pés em sentidos contrarios.
83 A roda de ferro he commoda para fazer obras, que naõ requerem muita regularidade. Logo que o oleiro lhe imprime o movimento com o virador, ella vira com muita ligeireza, e seu movimento se enfraquece pouco a pouco, e isto he muito vantajoso; porque, quando se começa huma peça a roda naõ póde virar muito ligeira, mas para a acabar, carece mesmo de virar devagar: algumas vezes perde ella o seu movimento antes da peça, estar acabada, e entaõ precisa o oleiro com o virador tornar-lhe a dar novo movimento.
84 Como com a roda de páo está o oleiro senhor de augmentar, ou diminuir o seu movimento, e ainda de interromper, fica esta mais commoda para obras finas, e que requerem mais exacçaõ; e ao presente os oleiros de París já naõ fazem uso da roda de ferro.