Arte de Louceiro
Louça de Inglaterra.
216 Eu tirei do Calendario Limousino, algumas individuações sobre as louças de S. Eutropio em Angoumes especialmente sobre as que chamaõ panellas, e destas humas saõ envernizadas, e outras naõ; estas vaõ huma só vez ao forno, as outras vaõ duas vezes, e nelle se deixaõ tres dias para ficarem perfeitamente cozidas. Seu verniz nada tem de particular: porém he justo referir huma industria, com que os oleiros de algum modo suprem o verniz, tingindo de preto os vasos, que em muitas serventias saõ preferiveis aos envernizados. Consiste pois nisto sua industria.
217 Assim que se põe a louça no forno, se lhe lança, por cima cinza de Estevas, ou urzes, e se cobrem com ella o mais que póde ser. Põe-se depois seis, ou sete feixes deste arbusto no fogo. Depois de se inflammarem bem estes feixes se tapaõ as bocas superiores do forno, e se sufoca o fogo: a louça deste modo recebe a fumaça, que a penetra, quando ella está ainda humida (a que chamaõ suar a louça) quando se começa a esquentar, ou a dar a tempera. Esta fumaça ajuntando-se com a cinza faz huma côr negra, e muito solida ás louças. Depois desta fumigaçaõ, se abrem os buracos superiores do forno, e se continua a cozer a louça.
Louça de Inglaterra.
218 Mr. Jars, correspondente da Academia, sabendo, que eu me occupava em fazer a arte de oleiro teve prazer em me communicar algumas memorias sobre a louça de Inglaterra, que elle tinha achado entre os papeis do falecido seu irmaõ da Academia das Sciencias. Naõ deve haver duvida, que se Mr. Jars as tinha publicado, teria ajuntado muitas individuações, que as fizessem mais claras; mas julguei devellas dar taes, quaes elle me remetteo, persuadido que as pessoas já instruidas no trabalho da louça poderaõ nellas achar algumas praticas, que cooperem para a perfeiçaõ desta arte.
219 Comté de Nordhumberlane. Nas visinhanças da Cidade de Neuwcastle se estabeleceraõ differentes fabricas de louça; onde se fazem de toda a qualidade, a excepçaõ só da branca, que em França chamamos de barro de Inglaterra.
220 Neuwcastle está situada com a maior vantagem para este commercio: o carvaõ de pedra he muito, e barato, porque o do gasto do paiz naõ paga direito algum.
221 Em quanto aos materiaes proprios para fazer a louça estes tambem lhes vem baratos, porque os Navios que vaõ levar o carvaõ a Londres, na volta lhos trazem; visto deverem trazer lastro. A materia propria para fazer a pederneira, ou pedras de tirar fogo: sabe-se que dellas ha grande abundancia na parte Meridional de Inglaterra; pois de Douvres até Londres, quasi todo o terreno he huma mistura de greda, e pederneiras.
222 Destas materias fazem o lastro os mais dos Navios, que muitas vezes voltaõ de Londres vazios; deves-se suppôr, que tornando a Neuwcastle ellas se vendem baratas; os que tomaõ os fornos de cal de empreitada, que saõ muitos na visinhança do rio, as compraõ; elles fazem huma mistura de greda, pederneira, e pedra de cal sem distinçaõ alguma, e cozem tudo acamado, huma cousa por cima de outra. Depois da calcinaçaõ he muito facil distinguir a pederneira, ainda que se torna muito branca de escura que era dantes; põe se de parte esta pederneira para se vender aos oleiros, a razaõ de oito, ou nove xelins a tonelada; e cada huma tem vinte quintaes de cento, e doze libras de pezo de Inglaterra.
223 Em geral saõ semilhantes todos os fornos, de que se servem para cozer a louça; só differem na construçaõ em serem maiores, ou mais pequenos.
224 A louça ordinaria, que se chama louça fina, para a distinguir de huma mais, commum, do que adiante se fallará, se faz de huma argila de côr cinzenta, tirando mais a branca, e da pederneira calcinada, que entra na composiçaõ de quasi todas as louças. Antes de misturar, ou preparar, como se segue.
225 Cada fabrica tem huma especie de moinho, para moer a pederneira, que he tocado por agua, ou por hum cavallo; alguns donos destes moinhos compraõ a pederneira, e a vendem, depois de moida aos oleiros. Este moinho consiste em huma especie de pia de páo de cinco, ou seis pés de diametro, cujo fundo se faz de humas grandes pederneiras naõ calcinadas, postas humas ao pé das outras de modo, que deixaõ entre si vacuos bem consideraveis; no meio deste fundo ha hum mancal, que recebe o piaõ de hum páo vertical com hum braço em que se prende o cavallo, ou bois que o tocao (no Brazil se chama atafona;) em roda deste páo estaõ muitas pederneiras grandes encaixadas, e seguras com gatos de ferro, que servem de mós. Mr. Jars, vio destes moinhos, aonde em lugares de pederneiras, se servem de marmores durissimos, de que fazem a mó superior, unindo quatro pedras grossas com gatos de ferro ao páo vertical.
226 Nestes moinhos, e entre estas pedras, se moe a dita pederneira calcinada, lançando-lhe sempre agua; quando a agua está já bem carregada, se tira huma cavilha de páo, que está na pia, para cahir agua em huma peneira de cabello, e desta em huma celha: lança-se nova agua no moinho, e se procede do mesmo modo, que fica dito, lançando outra vez na pia, o que naõ póde passar pela peneira; depois disto, se passa por huma peneira de seda muito fina, quando se quer misturar com a argilla, que se prepara do modo seguinte.
227 A argilla, de que se faz a louça, se tira do condado de Devonshire, de donde vem por mar, e serve de fazer lastro aos Navios de volta, como a pederneira; tambem se servem della para fazer pitos: posta em Neuwcastle custa sete, ou oito xelins a tonelada. He côr de cinza, tirando mais o branco; tem a grã muito fina; dilue-se com agua em tanques grandes, agitando-a bem para se dividir melhor; depois se passa esta argilla desfeita n’agua por huma peneira de cabello taõ fina, como aquella, em que se passou a pederneira, e depois em huma de seda taõ fina, como a da pederneira; e entaõ se vai logo fazer a mistura.
228 Misturaõ se dez partes de agua carregada de argilla com huma parte da agua da pederneira: estando tudo bem misturado, se trata da evaporaçaõ da humidade, e reduzir tudo a consistencia de massa, o mais breve que for possivel, para que a pedra naõ tenha tempo de se separar da argilla, e precipitar-se, o que faria a mistura desigual. Tem-se experimentado o calor do sol, mas sem fruto; servem-se de humas especies de fornos para esta opperaçaõ.
229 Estes fornos consistem em huma caixa comprida, ou especie de bacia formada de tijolos, sustida por cima com barras de ferro: tem huma grelha para se fazer ahi fogo de carvaõ de terra, e na extremidade da caixa huma chaminé para receber a fumaça. Esta mistura carregada de agua se põe nestas para evaporar-lhe a humidade, até huma consistencia conveniente para ser amassada; depois disto se tira este barro, e se põe em hum lar liso, feito de pedras chatas, ou com taboas: aqui se trata de amassar tudo, e pôr a massa em ponto de ser trabalhada.
230 Formaõ-se logo obras a maõ na roda orisontal, quando ellas estaõ já meias seccas, se acabaõ na roda vertical com os instrumentos; outras finalmente se formaõ em moldes de gesso: para preparar estes moldes, o melhor modo de queimar o gesso he o seguinte.
231 O do uso ordinario, que se chama alabastro, parece ser hum gesso branco semilhante ao que se tira nas visinhanças de Salins em Franche Comté; reduz-se a pó que se passa por huma peneira muito fina; depois se põe ao fogo dentro em hum vaso de barro; move-se bem com hum páo de espaço em espaço; e logo que elle se agita pelos globulos de ar, que delle sahem, se chama a isto fazello ferver. Continua-se até se julgar bem calcinado, depois se humedece com agua para fazerem moldes do modo que se quer.
232 Mr. Jars vio preparar bules para chá, cujo corpo se fez com as duas differentes rodas; mas a aza, e o bico se fazem em moldes de gesso; estes moldes estaõ perto do fogo para estarem seccos. Quando se quer formar a aza de hum bule de chá que está feito ordinariamente, se tem hum molde que consiste de duas peças de gesso, se applica huma sobre a outra, e que saõ ocas com a figura que deve ter a aza; faz-se hum rolo do barro, e se estende no molde de maneira, que o encha perfeitamente; applica-se por cima a outra a metade do molde; depois se põe tudo ao pé do fogo hum bocado de tempo; tira-se a peça do molde, e se ajusta no corpo do bule humedecendo o barro com agua no lugar aonde se soldar.
233 Os bicos se fazem por modo alguma cousa differente, tem-se moldes semelhantes aos precedentes, bem seccos, e applicados hum sobre outro: em huma das extremidades, que communica na capacidade interior, tem hum buraco, por onde se lança a massa muito clara, porém de modo, que fica huma abertura no interior da peça formada, que vem a fazer o bico do bule. O molde de gesso bem secco sem duvida, he o que ajuda a fazer este vacuo, embebendo com a sua porozidade a agua da massa do barro, assim que esta toca nas paredes do molde. Este molde se põe por algum tempo ao pé do fogo, como o outro de que já fallei, antes de se tirar a peça, que depois se solda no bule, do mesmo modo que se solda a aza.
234 Mr. Jars, vio em differentes fabricas muitos moldes de gesso para fazer pratos, e tigellas recortadas, e com differentes feitios: vantagem consideravel, para diminuir o preço da maõ de obra. Toda a louça, feita deste modo, se põe sobre taboas debaixo dos telheiros, ou alpendres aonde secca; ha caixas redondas feitas de barro ordinario, peneirado grosseiramente, porém amassado com muito cuidado; commummente tem duas pollegadas de grosso, quatro, ou cinco de fundo, e hum pé de diametro; nesta caixa se arruma de ordinario a louça; no forno, se põe huma sobre outra; fazem-se muitas ordens no fundo: isto fórma differentes pilhas, conforme o tamanho da fornalha.
235 Assim que está quasi cheio se fecha a porta falsa com tijolos, e barro, e se lança carvaõ nas cinco fornalhas de vento distribuidas em roda da fornalha grande. Quando se accende, entra a chama naõ só pelas cinco chaminés, mas tambem pelas pequenas aberturas, que vaõ ter a cada huma dellas; assim o calor se introduz igualmente por todo o interior da fornalha: este calor deve continuar trinta horas, depois que pára o fogo; logo que esfria a fornalha, se tira a louça para a envernizar.
236 Todos os vernizes, de que se usaõ, tem por base o chumbo; tambem se servem da pedra, ou mina de chumbo, o zarcaõ, e o alvaiade, conforme a qualidade da louça; accrescenta-se-lhe alguma outra materia para variar a côr. Para diminuir o preço do verniz se lhe ajunta huma certa quantidade de pederneira calcinada, e a mesma argilla, de que se faz a louça; assim que secca o verniz, com que se cubrio a louça, se põe de novo nas caixas, e depois na fornalha, como se fez d’antes, e ao cabo de trinta horas está em termos de ser vendida.
237 Pode-se usar de toda a qualidade de carvaõ para a cozer.
238 A louça assim preparada, e cozida, como fica dito, naõ está subjeita ao perigo de se quebrar pelo calor da agua fervendo, ou pelo fogo, com tanto que se naõ ponha de repente em hum fogo muito ardente. Esta louça serve para cozer no forno toda a qualidade de manjares, mas principalmente a louça branca, que se fabríca no Condado de Stafford. A sua descripçaõ tambem se ha de dar.
239 O interior da louça cozida he muito branco, e de huma grà muito compacta. Ainda que se lhe naõ percebe apparencia de vitrificaçaõ, se pode dizer, que se avisinha muito a ella.
240 Fabrica-se outra especie de louça no mesmo lugar, e fornalha, que se faz com outra argilla escura, como a precedente: nesta naõ entra a pederneira; mas a sessenta partes deste barro se ajunta huma parte de magnesia reduzida a pó muito fino: depois desta mistura, se evapora a maior parte da humidade em hum forno semelhante ao precedente; cobre-se de hum verniz negro, em cuja composiçaõ entra tambem a magnesia; esta louça passa pelas mesmas operações, que a primeira, e resiste igualmente ao calor.
241 Muitas vezes se applicaõ desenhos em ouro sobre esta louça negra; para isto se tem hum licôr, que se chama goldsize ou mordente, que se traz de Londres: he huma especie de verniz composto de differentes modos; com este verniz pinta o obreiro tudo, o que quer, sobre a louça alguma cousa ainda quente; depois do que applica sobre a pintura folhas de ouro batido (ou paõ de ouro,) e com hum pé de lebre se faz cahir o ouro dos lugares, que naõ foraõ envernizados; põe-se depois esta louça em huma pequena fornalha, que está de parte, com grades de ferro, e sua chaminé; o fundo he huma chapa debaixo da qual se põe o carvaõ, a fumaça, e a chama sahem pela chaminé.
242 Pouco distante desta fabrica ha hum lugar em que se faz louça grosseira, e que vai ao forno huma só vez, porém com hum fogo continuado por quarenta horas. A fornalha he semelhante á precedente; porém muito maior; tem sete fornalhas de vento, e sete chaminés, em lugar de cinco, que a outra tem. Estas fornalhas de vento saõ quasi de cinco pés de distancia de hum centro a outro.
243 A argilla cinzenta que serve para a louça, de que se acabou de fallar, na vista he em tudo muito semelhante á de que se servem em Staffordshire para a louça branca; com tudo as experiencias, que della se fizeraõ, tem provado, naõ ser susceptivel da mesma impressaõ do sal, para a cobrir de hum bom verniz.
244 Louça do Condado de Stafford. As minas de carvaõ tem dado lugar a hum estabelecimento de fabricas de louça de todo o genero nas visinhanças da Cidade de Neuwcastle; por isso as de louça branca saõ mais numerosas. Dizem que ha de dez a quinze mil almas empregadas nas minas de carvaõ, e nas fabricas de louças; mas sem contradiçaõ o maior numero se occupa na louça. Naõ se vem ali senaõ pequenas povoações habitadas de oleiros, e fabricas deste genero em toda esta parte do Condado de Stafford, e hum grande numero de fornalhas, principalmente nos lugares aonde se tirou, e aonde ainda se tira carvaõ.
245 A argilla, de que usaõ para a louça branca, he de duas especies, quasi semelhantes; só se faz differença dellas pelo uso como adiante se dirá. Tira-se de Devonshire, e dizem, que esta provincia a dá para todas as fabricas de louça de Inglaterra. A pederneira, de que se faz tambem hum grande uso, se tira de Gravesande, ou verdadeiramente das margens do Tamisa.
246 O ponto principal desta louça, isto he, para a ter bem branca, e livre de manchas, consiste na preparaçaõ da argilla, e em sua mistura com a pederneira; põe-se a argilla em hum tanque com agua para a fazer humedecer; dilue-se bem, agitando-a com hum pedaço de páo, esta agua assim carregada se coa, para outro tanque por huma peneira de cabello, para separar, o que naõ está diluido, esta se torna a lançar no primeiro tanque. Espera-se que haja huma suficiente quantidade de argilla já pãssada, e depois se agita fortemente, e se passa por huma peneira fina. Para a misturar com a pederneira, se faz o mesmo, que em Neuwcastle em Northumberland; a pederneira se calcina do mesmo modo em hum forno de cal; e depois se pulverisa, e liviga em hum moinho tocado ordinariamente pela agua; a pederneira neste estado he levada a fabrica. Para a mistura ser perfeita, se deve diluir em agua na mesma consistencia, em que estava a argilla.
247 A proporçaõ he de ajuntar huma parte de pederneira a seis partes de huma destas argillas; e a cinco partes da outra argilla se ajunta huma de pederneira. Depois da argilla ter sido passada por peneiras duas vezes, como acima se disse, se torna a passar terceira vez por huma peneira ainda mais fina, e entaõ he que se medem as porções.
248 Deve haver huma pequena celha, que se enche seis vezes da argilla passada pela peneira; e depois se enche huma vez da agua da pederneira, e assim se continua até haver a quantidade da massa, que se quer; para a mistura ficar perfeita, precisaõ as duas massas, ou aguas de argilla, e pederneira, ter igual consistencia, e se mexem bem ambas juntas; e depois se tornaõ a passar quarta, e quinta vez por huma peneira fina e desta ultima vez se coa no tanque de tijolos, que tem por baixo o fogo.
249 As peneiras se fazem com fio de cambraia mais, ou menos fino; os caixões, ou tanques de tijolo, onde se põe a seccar a materia, saõ semelhantes áquelles que se usaõ nas fabricas, de que acima se fallou; a mistura de barro e area secca nelles lentamente, agita-se huma vez por outra com huma pá para seccar mais com igualdade; neste tanque fica até ter a consistencia precisa para ser trabalhada; entaõ se leva esta pasta para huma especie de sobrado bem limpo, e com muito aceio, aonde hum homem com os pés o trabalha, e amassa até julgallo proprio para fazer a louça.
250 Todas as péças, que naõ levaõ molduras, nem saõ recortadas, se formaõ sobre huma roda vertical, que hum menino faz mover; a que he de molduras, se forma em moldes de gesso. Estes moldes de gesso consistem em huma peça de gesso, que tem interiormente a figura que deve ter a peça ou seja prato, ou tijella, ou outra qualquer, no qual gesso se gravou o desenho, que se quer dar a peça.
251 Bate-se e trabalha-se hum bolo de barro, depois se estende com hum rolo. Depois que se estendeo o barro tanto, quanto quer o official, se põe sobre o molde aonde se aperta bem com as maõs, e se molhaõ na agua, se he preciso, para a massa se naõ pegar a elle, e tambem para fazer liza a parte exterior do prato, ou tijella.
252 Este trabalho se faz em hum quarto onde ha fogo, para que os moldes sempre estejaõ bem seccos, e que, depois de algumas horas, se possaõ tirar as peças, que nelles se formaraõ.
253 Como he preciso pulir as louças nos lugares, aonde naõ levaõ verniz, para tomarem melhor o verniz; logo que tem seccado alguma cousa á sombra as mesmas obras, que se fizeraõ na roda vertical, se levaõ ao torno, aonde se aperfeiçoaõ, e se fazem mais iguaes; e depois disto, se pulem na mesma roda ou torno, applicando lhe por cima huma folha de ferro liza, nos lugares, que devem ser pulidos. Da mesma sorte se fazem em moldes peças redondas; as peças ovaes, que naõ podem ser pulidas no torno, se lavaõ bem com huma esponja, e agua, e depois com hum pedaço do mesmo barro cozido, e pulido, se pulem todas as partes, que o devem ser. Esta louça ordinariamente se arruma em taboas a sombra para ahi seccar inteiramente antes que se ponha no forno.
254 Nas visinhança de Neuwcastle ha argilla propria, para fazer as caixas em que se põe a louça; estas caixas saõ redondas, fazem se-lhe em roda cinco, ou seis buracos de duas em duas pollegadas, e de meia pollegada de diametro; seu tamanho he proporcionado aos das peças, que se querem meter nellas.
255 Quando se quer arrumar a louça nestas caixas, os meninos preparaõ o que a deve suster; e saõ huns pequenos pedaços da mesma argilla formados em parallelipipedos; e, estando ainda muito humidas, se applicaõ sobre greda pizada grosseiramente, que se pega sobre toda sua superficie, com isto se guarnece o fundo das caixas, e destes parallelipipedos se servem para suster cada huma das peças, para que ellas naõ toquem humas nas outras; por se naõ pegarem com o verniz; esta greda de todo se naõ pega a louça, e nem lhe faz a menor marca, e se o faz em algumas peças, estas se rejeitaõ.
256 Os fornos, em que se faz cozer esta louça, saõ pouco mais, ou menos semelhantes a estes, de que se tem fallado: a differença, que ha, consiste só em que elles commummente tem oito fogos, e por conseguinte oito chaminés interiores; mas estas chaminés só tem a abertura superior. Dizem que estas pequenas aberturas, que os outros tem, para a louça envernizada, faria mal a louça branca, porque a chama, que sahe da envernizada indo dar nas caixas da louça branca a faria amarella. Outra differença: toda a porçaõ espherica da abobada, está guarnecida de buracos, que naõ saõ precisos para as outras louças; fazem-se logo oito em roda da fornalha, no principio da abobada, postos entre cada chaminé, depois outras dezeseis por cima, e finalmente seis em roda do buraco principal, que estaõ no meio da abobada, e que serve de chaminé. Estes buracos tem tres, ou quatro pollegadas de diametro; no tempo da operaçaõ se tapaõ: seu uso adiante se dirá.
257 Todas as caixas, que encerraõ a louça se põe humas sobres as outras, e formaõ differentes pilhas; metem-se no forno de modo, que haja huma pilha destas caixas debaixo de cada hum destes buracos, de que se acaba de fallar. Como ha trinta e hum buracos, comprehendendo a abertura do meio, ou chaminé principal, põe-se trinta, chamadas pilhas; a ultima caixa, que faz a extremidade da pilha, se cobre com testo feito de barro, de figura conica.
258 A louça branca vai só huma vez ao fogo, mas he hum fogo continuo, que atura quarenta, e oito horas.
259 O tempo de lhe dar o verniz por meio, ou adjutorio do sal marinho, he quasi quatro, ou cinco horas, antes de se acabar de cozer; depois que a louça tem sofrido hum fogo de quarenta, e tres, ou quarenta, e quatro horas, se trazem, para junto do forno, oito alqueires (medida de Inglaterra) de sal marinho (que he quanto basta para hum forno da capacidade deste, de que acabo de fallar.) Ha hum levantado em roda da abobada ou corpo espherico do forno, sobre o qual sobem dous obreiros, que com huma colher de ferro lançaõ pelos buracos sal marinho, sobre cada huma das cubertas de cada pilha. Logo que lançaraõ o sal, tornaõ a tapar os buracos, que tinhaõ aberto, para introduzir as colheres, e continuaõ assim andando em roda do dito forno, lançando em cada buraco a mesma quantidade de sal, pouco mais, ou menos. Elles fazem isto mesmo por tempo de quatro, ou cinco horas, e naõ deixaõ outro intervallo, senaõ o que he preciso, para sahir a grande fumaça, que faz o sal. A cuberta, ou testo de cada pilha deve ser de tal figura, que o sal lançado por cima, cubra inteiramente a pilha; quando cahe, entaõ o acido do sal se introduz ao interior das caixas, toca a superficie da louça, e accelera a vitrificaçaõ da pederneira, que entra na composiçaõ da mesma. Esta vitrificaçaõ exterior he o unico verniz, que se lhe dá.
260 O sal com que se faz esta operaçaõ, he muito branco, e em gràos grossos, quasi semelhante ao que se faz em Lons-he-Saunier, para o gasto dos Suissos.
261 O preço desta louça he de meio xelim até dous xelins a duzia de tijellas; este ultimo preço he o da louça melhor e de boa côr; o primeiro preço he da louça de refugo. A qualidade do carvaõ naõ he essencial para fazer a louça melhor, ou inferior.