Arte de Louceiro
Trabalho do Oleiro sobre a roda.
85 Os oleiros molhaõ as maõs naõ só por se naõ pegar o barro a ellas, mas tambem para alizar a obra, que começaõ entre as maõs ambas, tendo huma dentro do vaso, e a outra fóra: outras vezes apertaõ o barro entre o dedo pollegar e o index de ambas as maõs. He impossivel relatar todas as differentes posições que o oleiro dá as maõs; muitas vezes variaõ a posiçaõ em huma mesma obra. Para aperfeiçoarem a obra, ou diminuir-lhe a grossura, se servem do calibre, que elles chamaõ atelli; elles tem muitos de differentes figuras, conforme requer a obra que elles fazem: alguns destes calibres tem molduras, e a maior parte saõ de ferro; mas tambem alguns saõ de páo.
86 Quando se vê trabalhar hum habil oleiro de roda parece que o seu trabalho he muito facil de executar; todavia requer muita destreza: porque naõ he facil dar igualdade de grossura a hum vaso de barro tendo huma maõ dentro delle, e outra fóra. Tambem se augmenta a difficuldade, e se faz conhecer mais a habilidade do obreiro, quando he preciso dar mais grossura ao vaso em humas partes, do que em outras: seria, por exemplo, mais facil fazer o fundo de hum alguidar mais grosso, do que os lados; com tudo he melhor que o fundo seja mais delgado, que os lados. Outras obras precisaõ maior grossura na barriga ou bojo; e hum habil obreiro chega a executar todas estas cousas com bastante exactidaõ, sem se servir de compaço, ou outra alguma medida. Naõ se limita só nisto; porque estende, ou aperta o barro, á sua vontade, de sorte que tendo feito hum vaso grande, o torna pequeno, querendo, e de largo o faz estreito, se he alto o reduz a baixo; e, aproveitando-se da ductilidade do barro, faz delle o que quer; com tudo nota-se, que os pratos razos e fundos, etc. que foraõ feitos na roda, se quebraõ quasi sempre pellas linhas circulares, o que naõ acontece aos vasos feitos em moldes; parece, que trabalhando-se o barro na roda algumas camadas se naõ unem perfeitamente.
87 Adiante representarei muitas obras, que se fazem na roda; mas para dar hum exemplo do que podem fazer os oleiros de obra
grossa, escolherei hum mealheiro Est. I, fig. 19. Vou explicar como se faz esta pequena peça taõ commum, que he de hum só pedaço, fechado de todas as partes, e feito inteiramente sobre a roda, sem ser soldada, nem feita de tiras, ou pedaços: o que parece difficil de executar.
88 O oleiro torneia na roda a parte baixa, ou fundo do mealheiro, como se quizesse fazer hum pote ou vaso pequeno; depois recalca o barro, e aperta a abertura; formando como hum pequeno zimborio, e isto faz huma especie de aperto para isto aperta o barro da parte de fóra com o dedo pollegar, e por dentro o sustenta com o index, e isto continúa em quanto póde ter o dedo index dentro do mealheiro. Quando já naõ póde ter o dedo comprime com o pollegar, e index huma porçaõ maior de barro, que fica reservada em roda do buraco, e neste lugar fórma hum botaõ, que tapa inteiramente o mealheiro, depois com a folha de huma faca abre a fenda por onde se introduz o dinheiro, e por dentro nas margens desta fenda se formaõ rebarbas, que naõ deixaõ sahir o dinheiro, quando se sacode o mealheiro; finalmente com hum fio de lataõ, ou arame, a que os oleiros chamaõ serra, despega o mealheiro da roda pequena sobre a qual se fórma a louça.
89 Havendo-se de fazer na roda hum grande alguidar para ensaboar; como as bordas saõ grossas, e elle he muito mais largo na boca do que no fundo, he preciso usar de hum barro mais duro, porque sendo molle, naõ se poderá suster. Como nestes alguidares se costuma fazer lugar de escorrer ou vazadouro a modo de goteira isto se faz antes de os despegar da roda; para este fim se dobra com os dedos o lugar aonde se quer fazer a goteira em quanto o barro ainda está molle. Em fim, estando feito o alguidar, ou outra qualquer obra, se despega da roda com huma folha de faca, se a obra he pequena, ou com hum arame se he grande.
90 Há alguidares grandes, em que se põe orelhas; porém estas naõ se fazem na roda; adiante fallaremos delles, assim como de outras muitas obras, nas quaes he preciso pôr péz, e azas, etc.
91 Os vasos communs de flores n, fig. 17, est. I, se fazem inteiramente sobre a roda; devem ser hum pouco mais largos para cima do que para baixo, para se poder tirar o torraõ direito, e levar as plantas com o torraõ em que se criáraõ: em cima e na boca se lhe fórma hum cordaõ que os fortifica, e os torna mais faceis de mudar de hum lugar para outro. As gamelas tambem se fazem na roda, e acabaõ em cima com huma borda grossa, ou cordaõ, como inteiramente os vasos de flores. Os pratos se fazem do mesmo modo; mas para as bordas acabarem com regularidade se servem do calibre.
92 Os vasos de despejos A, B, D, fig. 20, est. I, se fazem por duas vezes. Sabe-se que elles saõ mais largos por huma ponta, do que pela outra b, que fórmaõ huma cinta, ou anel de barro, que se lhe põe quatro dedos distante da sua borda, alguns oleiros chamaõ anel, e outros viret. Com huma só operaçaõ se acaba todo o vaso, e na ponta b, fica mais estreito, e ahi se fórma hum anel: e depois se despega de cima da roda pequena ou prato, onde está pegado por hum bocado de barro, que ahi se deixou; acaba-se a ponta a, mais larga, que deve receber em si a ponta b, que he mais estreita, e tem o anel de que acima falamos; estes vasos se fazem inteiramente na roda; porém por duas vezes. Naõ he o mesmo a respeito dos vasos em dous E, C, fig. 20, ou que se dividem em dous para corresponder á dous assentos. A este respeito se deve notar, que há tubos de despejo que saõ mais largos, que outros; e por isso se fazem tubos, que tem hum pé de diametro, e outros só tem oito, ou nove pollegadas. Ora, quando se faz hum tubo de barro, que se deve dividir em dous como E, C, a parte A, B, que corresponde a huma serie de tubos, que se estende desde a cava, até a divisaõ, ordinariamente se faz com tubos de maior diametro, e as divisões E, C, se fazem com tubos de menor diametro. Para fazer o vaso ou tubo que se divide em dous, saõ precisos tres tubos hum grande, e
dous pequenos; põe-se a seccar hum pouco est. II, fig. 7. o que explicarei com brevidade; e tendo posto o grande pote sobre a mesa
em que se ha de preparar est. II, fig. 8, com a ponta rebaixada para baixo, chanfra-se a ponta larga que está para cima, chanfraõ-se tambem as pontas mais estreitas dos dous tubos do molde pequeno, para as soldar com o grande, como se dirá. Desta sorte os tubos, que se dividem em dous se fazem parte na roda, e parte á maõ; mas por naõ separar daqui cousa alguma, das que pertencem aos vasos de despejo, por isso julguei dever fallar de tudo. Farei ver sómente, que se póde fazer a separaçaõ dos tubos, sendo taõ grandes huns, como outros, como se representou em A, B, C, D, fig.