Arte de Louceiro

Nicolas-Christiern de Thy, conde de Milly · Capítulo 13 de 36

Páginas do PDF

Arte de Louceiro

Vasos grandes de barro cozido.

proprio para isso Y, Est. II, fig. 1, e formar-lhe aneis para se ajustarem differentes peças. Parecendo conveniente ao oleiro ajuntar azas ao corpo do vaso, e adiante se explicará o modo de o fazer: algumas vezes se segura fixo, e immovel, o calibre e o vaso he que vira sobre huma rodela, que se move á maõ. Tudo isto pouco mais ou menos he o mesmo.

 

Vasos grandes de barro cozido.

 

97 Todo o mundo conhece os vasos grandes de hum barro esbranquiçado, vidrados por dentro, que chamaõ talhas, A, fig. 20,

Est. II, elles se fazem em Provença. Muitas pessoas attentas á sua saude, para evitar os inconvenientes que poderiaõ resultar do cobre, mandaõ vir estas talhas para conservar a agua de que usaõ. Ha algumas muito grandes, que saõ grossas, e sólidas; com tudo cobrem-se tambem de esteiras de palha, e com esta precauçaõ duraõ muito tempo sem se quebrarem; havendo cuidado no Inverno de as ter em parte, onde naõ gele a agua, que tem dentro. Quasi todos os Navios as levaõ para conservar a agua destinada para a meza do Capitaõ; e em Provença se conserva o azeite nestas talhas.

98 O gosto, que tem todos de conservar a agua em talhas, tem obrigado aos oleiros, que trabalhaõ em greda, a fazer potes taõ grandes, quasi como os vasos de que se acaba de fallar. Ha alguns, que levaõ a quarta parte de hum almude. Eu os conservo no meu laboratorio de Chymica em Campagne feitos, em Saint Fargeau, vidrados por dentro; os que se vendem em París, e os que tem torneira, ou esguicho, vem de Picardía.

99 Porém vi em muitos lugares, e igualmente tenho á muito tempo vasos grandes de barro vermelho, entre os quaes há alguns, que levaõ mais de meio almude: os que saõ bem feitos a agua os naõ penetra, inda que naõ sejaõ vidrados. Servem para muitos usos; para guardar lexivias; para fazer salmouras em lugar de celhas de salgar carne; e vi em jardins algumas, que, estando rodeadas de obras de pedra calcaria, serviaõ de conservar a agua, para se regarem, ou aguarem as plantas. Eu naõ sabia de donde vinhaõ estes vasos, e talvez se façaõ em muitos lugares; mas Mr Desmarais me fez ver no calendario Limousin do anno de 1770 hum artigo, que julguei dever introduzir aqui.

100 Hum quarto de legoa distante de Montmoreau que fica seis legoas ao Sul, de Angoulème se acha a Cidade Saint Eutrope, e quasi todos os habitantes desta Cidade fazem louça. Contaõ-se ahi trinta familias todas empregadas neste trabalho: vinte e cinco fornos estaõ sempre occupados em cozer louça miuda, pratos pequenos, grandes, e panellas para o fogo de differentes tamanhos; porém ha tres, que estaõ destinados para cozer differentes obras, e principalmente vasos grandes para fazer Lixivia, e salgar toucinho, etc. Todos os oleiros, que tem de cozer destes vasos grandes, os levaõ a hum destes tres fornos.

101 Para esta qualidade de louças servem-se de huma argilla muito ductil, que se acha junto da aldêa. A occupaçaõ das mulheres, e dos meninos, he humedecer, e amassar, esta argilla com huma massa de ferro sobre hum pilaõ, tambem daõ os ultimos talhes á louça, o que se chama aperfeiçoar: porém naõ he isto só o que elles fazem, ainda vaõ cortar arbustos, e páos miudos para aquentar os fornos de cozer as louças.

102 Os homens fazem vasos grandes em huma roda muito simples D, Est II. fig. 3. ella se fórma de duas rodellas E, , semelhantes ás de hum zimborio de moinho. Estas rodellas estaõ juntas huma á outra por seis furos G: a rodella F, tem hum buraco em H, para receber a espiga ou eixo I, que está bem segura por baixo na terra; de sorte, que este zimborio em sua espiga, ou eixo, vem a formar como huma dobadoura. O obreiro põe o barro sobre a rodella E, e com o pé que põe sobre a outra roda F, a faz andar lentamente. Logo que está feita a primeira base do vaso, elle trabalha os lados, accrescentando successivamente rolos de barro, que liga huns sobre os outros, unindo as superficies interiores, e exteriores com as maõs: deste modo chega a acabar vasos grandes, os quaes torna redondos por meio do torno; e elle tem cuidado de dar pequenas pancadas com a palma da maõ no barro para o comprimir. Depois de seccos estes vasos se fazem cozer nos

fornos grandes, quasi semilhantes aos que se representaraõ na Est.

I, fig. 7, 8, e 9. Estas louças se vendem principalmente em Angouleme, Perigueux, Saintonge, Bordeaux. Os oleiros naõ podem dar vasaõ ás encommendas que tem dellas.

103 Quando os vasos, de que se tem tratado, saõ muito grandes, se fazem de muitas peças: huma fórma o fundo, outra o corpo, e outra a parte mais alta; e todas estas peças se unem com aneis de barro, que se cozem com o vaso, e ficaõ taõ sólidas, como se fossem de huma só peça.

104 Vê-se em alguns vasos, feitos em Normandia, partes sahidas para fóra e saõ adornos; algumas vezes estas partes postas circularmente, servem de encobrir, e fortificar os lugares, em que foraõ as soldaduras.

105 A fig. 2, M, he hum grande vaso de barro, no qual se põe algumas vezes huma torneira, para fazer delle huma fonte, ou lavatorio, e substituir os de cobre: há alguns que tem por dentro pratos desenhados por linhas pontuadas; estes pratos estaõ cheios de buracos, e se lhe põe arêa grossa para filtrar a agua, e fazer fontes areentas.

106 Saõ bem conhecidos os potes cylindricos de Normandia, em que vem as manteigas de Isignes. Depois de vazios, as familias

pequenas se servem delles para conservar agua. A fig. 6, P, est. II, he huma botelha de barro de Normandia. Quando se faz no torno a barriga QQ, e o gargallo R, se solda na barriga no lugar T.

107 Naõ faço huma maior relaçaõ das differentes obras, que se fazem inteiramente no torno; pois o que se acaba de dizer bastará para fazer perceber o modo porque se fazem aquelles, de que se naõ falla: agora vou fallar das obras, que se fazem, parte no torno, e parte na mesa para lhes pôr azas, e pés.