Arte de Louceiro
Das Louças de S. Fargeau.
194 Além das louças de greda, que se fazem em Bretanha, Normandia, e Picardia, se fazem muito boas em S. Fargeau. Como esta cidade, que he huma das mais antigas de França, está distante de Briara quatro legoas. O Loire serve para se transportar esta louça a muitos lugares. Leva-se pelo Loire por exemplo a Chateauneuf, de donde se destribue por terra a muitos lugares. Como daqui vem a Pithiviers, cidade muito visinha ás nossas terras, tive occasiaõ de a comprar, e conhecer a bondade desta louça; cheguei mesmo a prover-me de vasos de Chymica, que mandei fazer em S. Fargeau por modelos, que enviei. Ha ahi louças, que saõ cubertas de hum verniz escuro muito duro, e que resistem muito bem a acçaõ dos acidos mais concentrados; tive cucurbitas, e capiteis de lambiques, em que ajustei grandes refrigerantes de cobre; estes vasos saõ taõ impenetraveis aos vapores os mais subtís, como o melhor vidro, e resistem muito melhor a acçaõ do fogo.
195 Como quiz adquirir conhecimentos sobre a natureza desta louça, procurei com confiança a Mr. o Presidente de S. Fargeau, por conhecer o seu zelo para tudo, o que tem relaçaõ com o progresso das artes, e que pode utilisar ao bem público. Elle mesmo quiz responder em huma Memoria as perguntas que lhe fiz por instruçaõ sua, e isto me põe em estado de dar huma idéa bem exacta dos methodos, que seguem os oleiros deste lugar. Ainda que estas louças saõ conhecidas pelo nome de greda de S. Farjeau, com tudo ellas se naõ fazem nesta cidade mas sim em huma pequena povoaçaõ que dista huma, ou duas legoas da cidade.
196 Em geral a argilla, que se emprega para a louça que nos occupa, he cinzenta; mas della se distinguem duas qualidades; huma mais branca, que a outra, tem huma area fina; com este barro se fazem vasos de huma greda mais compacta, e fina, do que com a outra, e se coze mais forte. Ellas naõ vaõ ao fogo; e por isso desta greda se fazem potes de manteiga, quartas, e botelhas etc. Este barro, depois de cozido, toma huma côr amarella clara; com tudo, fazendo se passar por hum grande fogo, toma a côr cinzenta. Com elle se fazem vasos, que se envernizaõ, e outros naõ: para distinguir este barro do outro, eu o chamarei barro branco.
197 A outra especie de barro tambem he côr de cinza, porém mais escura, que a precedente; e por isso o chamarei escuro. Os oleiros achaõ esta argilla mais forte, e mais pura, que a branca: com este barro he que elles fazem os utensis do uso que devem ir ao fogo; naõ o cozem taõ forte, como o outro, e huns vasos vaõ envernizados, e outros naõ. Estes dous barros, sendo cozidos, tomaõ a mesma côr pouco mais, ou menos, e os vasos, feitos de hum, ou outro barro destes, nos lugares, aonde ficaõ mais expostos a acçaõ do fogo, se tornaõ brilhantes na superficie, como se fossem envernizados.
198 Os oleiros fazem muitas obras de cada hum destes barros separados, e puros, sem mistura alguma; tambem as fazem de ambos os barros branco, e escuro misturados, sem lhe ajuntarem outro barro, ou area.
199 Ambos estes barros se achaõ mais, ou menos fundo em camadas de dous pés, até seis de grosso. Estes bancos de argilla se cavaõ facilmente com o enxadaõ, ou enxada.
200 Estes barros saõ bem finos; e moem-se entre os dedos; com tudo entre elles se encontraõ calháos, e pedras, e se lançaõ fóra quando se achaõ nas maõs, ou debaixo dos pés.
201 Este barro se reduz a pequenos pedaços com qualquer instrumento, que corte; depois, humedecendo-se com agua, se amassa até tres vezes, e depois se trabalha com as maõs, como fazem os oleiros de París.
202 Muitas vezes o amassaõ, logo que o tiraõ; com tudo os oleiros convem, que elle se trabalha melhor, depois de passar hum inverno ao ar; e este sentimento he geral em todas as olarias.
203 Como disse acima, que se humedecia para o pôr em estado de ser amassado, devo advertir, que o naõ lançaõ na agua, como fazem os oleiros de París; porém deitaõ de doze, até quinze baldes de agua em huma carrada de barro.
204 Os vasos se trabalhaõ em huma roda, que se faz andar com
hum páo, como se vê representado na est. II, fig. 4, e 5.
205 Põe-se as azas, e se aperfeiçoa a obra, do mesmo modo que fazem os oleiros de París, como fica dito.
206 O forno dos oleiros de S. Fargeau, com pouca differença, he
o mesmo que fica representado na est. I, porém he hum pouco metido pela terra; de modo que para meter a lenha, se precisa descer a huma cova, que tem quasi nove pés de largo, quatro de fundo, e quatro de vaõ. O corpo do forno, aonde se arrumaõ os vasos, tem dezenove pés de comprido, dez de largo, onde ha maior largura, e seis de alto.
207 Para huma fornada se gastaõ vinte cordas de lenha miuda, ou nove de lenha grossa; daqui se vê que estes fornos se esquentaõ por hum modo muito differente dos de París.
208 O fogo dura quatro dias, e tres noites sem parar; por doze horas he o fogo brando para esquentar, e todo o mais tempo he com muito fogo para cozer perfeitamente: quando se para com o fogo, se fecha o forno, e fica assim tres dias, e tres noites, de sorte que, quando se tira a louça, já ella está fria. Se a louça se tirasse logo huma parte quebraria derrepente, e o resto seria muito fragil; e desta sorte o tempo, que a louça fica no forno depois de cozida, equivale ao recozimento dos vidraceiros, sem o qual tudo se quebraria, principalmente passando do quente para o frio.
209 Põe-se no mesmo forno os vasos de barro branco, que naõ se destinaõ para servir no fogo, os de barro cinzento, que haõ-de ir ao fogo, e os da mistura destes dous barros. Toda a differença, que se observa no cozer, he pôr os vasos de barro branco perto da entrada do forno, no lugar aonde ha maior calor, e os de barro misturado no meio do forno, e os de barro cinzento na extremidade do forno, onde ha menos calor.
210 Os oleiros de S. Fargeau fazem o seu verniz com duas materias mais, ou menos vitrificaveis, a que chamaõ Latier; este Latter vem das fornalhas, em que se trabalha a mina de ferro. Hum he escuro, e em parte vitrificado; o outro he verde, e he hum verdadeiro vidro muito duro.