Atrás da Porta

Adriana Gavazzoni · Capítulo 6 de 9 · parte 4/4

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Atrás da Porta

Capitulo Dezenove

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

– De cinco em cinco minutos o chão se move debaixo dos meus pés, é terreno desconhecido.

– Então, meu amigo, talvez seja a hora de abraçar essa roleta-russa que ela lhe propõe. Penso que é disso que você precisa! Peter que me desculpe, mas você tem que sair de dentro desse terninho engomado e perfeitinho e ver o lado selvagem da vida.

– Ei, Peter quer que você me salve, e não que facilite minha estrada para a perdição. Tive que rir.

– Não conte comigo! Tenho carinho por você! Essa mulher lhe faz bem, Mark, precisa ver sua cara de enlevo quando falou da moça. Viva, Mark, se o direito ainda o apaixona, continue, mas se essa mulher o apaixona, viva isso e, cá entre nós dois, quem precisa de ajuda sou eu!

Que delícia falar com uma mulher inteligente! Lara era uma mulher inteligente, mas às vezes sentia que nossa sintonia não era a mesma. Falávamos línguas diferentes e sobre mundos diferentes. Rapidamente me lembrei que essa sintonia com Deena era exatamente o que ela dissera, uma relação com o espelho, que entediava em pouco tempo. Se eu estava em crise de meia-idade, como dizia Deena, faria tudo diferente e mergulharia de cabeça nesse amor "Alice no país das maravilhas" com Lara.

Conversamos mais um tempo. Deena se disse preocupada com Peter, achando que ele andava muito triste e recluso, talvez se aproximando da própria crise de meia-idade. Prometi ficar de olho. Nos abraçamos, senti seu perfume de sempre e pensei: “Que estranho, o mesmo cheiro que me deixava louco não me diz nada agora”. Ela partiu e fiquei com a boa sensação de que alguém me compreendia nesse capítulo da minha história.

*****

Naquela tarde, Lara me ligou. Tínhamos um fuso de quase cinco horas de diferença, eu estava no escritório, ela já tinha se recolhido no apartamento em Paris.

– Saudades de você, meu advogado favorito.

– Saudades de você, minha maluca favorita.

Só de ouvir a voz dela eu me enchia de alegria. Se isso não era amor, era no mínimo retardo mental.

– O que você está fazendo agora? Espero que não esteja com uma morena linda sentada à sua frente…

– Andou falando com Peter?

– É… ele ligou e me disse que você almoçou com a irmã dele… sua ex…

– Ficou com ciúmes, querida?

– Sim, fiquei.

– Não fique… Deena faz parte do meu passado e eu não moro mais lá… Frase de alguém que conheço… Não posso fazer nada sobre meu passado, mas se Deena fosse importante, eu estaria lá. Não é importante, mas é uma pessoa querida.

– Entendo, sei que vocês não têm mais nada, mas deu ciúmes.

O interessante em Lara é que não havia joguinhos, ela pegava o que queria, mostrava quem era e dizia o que tinha em mente.

– E daí resolveu conferir como andavam suas propriedades por aqui?

– Não, resolvi ouvir sua voz…

– Como estão as coisas por aí?

– Não muito fáceis…

– Seu ex-marido não aceitou o divórcio?

– Na verdade, não... Ele é um filho da puta rancoroso e parece que os anos não o melhoraram em nada. Ainda tem muita raiva por ter sido “abandonado”, que é como vê a situação.

– Vocês conversaram?

– Não pude evitar, ele se recusou a falar com o advogado que contratei.

– Você esteve com ele cara a cara?

– Sim... precisei emboscá-lo na universidade para uma conversa. Eu não queria ficar a sós com ele num local menos público. Se aprendi algo nesses últimos tempos, Mark, é que, se não quero ser agredida de nenhuma forma, não tenho que me pôr em situações onde isso se torne possível. Ficar a sós com ele em local privado seria pior do que foi...

Entendi naquele momento o que Lara sentiu em relação à minha conversa com Deena. Não era ciúme, mas era um sentimento desagradável de saber que o ser querido está em companhia de alguém com quem tentou construir uma vida, que fez parte dos sonhos, com quem eu tentara construir o perfeito álbum de fotografias. Alguém com quem dormiu.

– Foi muito ruim?

– Em outras épocas teria me afetado muito... me machucado... Agora foram apenas palavras de um homem envelhecido e amargo, dizendo que sou uma inconsequente com sérias perturbações mentais. Problemas mentais eu tinha quando me envolvi com ele, isso sim!

– Você se arrepende?

– Não me arrependo de nada na vida, Mark. Às vezes lamento, mas não sofro desse tipo de sentimento. A vida é curta demais para amargar o que não tem remédio.

– É, compreendo. Sabe… muita vontade de beijar você, menina, volta logo!

– E eu de sentar em você e cavalgar você até fazer você gemer!

Ah, como Lara era romântica… mas só o pensamento dela me cavalgando já me deixou de pau duro. Que poder essa mulher tinha sobre meu amiguinho!

– É, acho que eu suportaria isso – eu disse. – E o que mais você queria fazer?

– Hummm, queria deslizar minha língua do seu pescoço até seu pau, tomá-lo na boca devagar, passar a língua por todos os lados dele, e daí colocá-lo todo na boca até senti-lo na garganta.

Eu já estava excitado. Pedi um minuto, fui até a porta da minha sala e a tranquei. Voltei para minha cadeira e abri o zíper, tomei meu membro nas mãos e comecei a me acariciar ao som da voz dela, fazendo uma viagem mental de prazer.

– Lara, quero que você comece a se tocar. Toque seus seios e imagine que estou com o bico de um deles entre os dentes, mordendo devagar.

– Mark, quero que sinta que entrou em mim, eu sentada no seu colo. Sinto seu pau todinho dentro de mim, quente, e começo a deslizar nele, indo e vindo.

Eu quase podia sentir o que ela falava. Minha excitação se elevava, quando alguém começou a bater à porta.

– Estou num telefonema, aguarde!

– Mark, imagine agora que estou intensificando o movimento, engolindo você todo.

– Lara… estou arranhando suas costas e mordendo seu pescoço gostoso.

– Isso, Mark, tem que morder forte, eu quase sinto, estou toda molhada aqui…

– Como você está vestida?

– Estou nua, um dedo dentro e outro me acariciando… e você?

– Com a calça do terno aberta e o pau na mão, querendo enfiar em você.

– Imagine que agora saí do seu colo e me apoiei com os joelhos sobre o sofá, de costas para você.

– Se ficar de costas para mim eu vou meter em você até a sua garganta, vou foder você sem pena, sua vadiazinha, vou fazer você gemer alto e pedir clemência.

– Ai, gostoso, o que mais vai fazer, Mark?

– Vou encher essa sua bunda gostosa de tapas e morder sua nuca até você pedir água. Aí vou te encher da minha porra…

– Ai, Mark… estou gozando gostoso…

Nem pensei. Comecei a gozar na hora por cima da mesa e de documentos de clientes, depois pensaria nisso. Esqueci até do telefone. Quando me acalmei, voltei para o telefone, ela havia desligado. A cara de Lara. Tentei chamar algumas vezes, mas o telefone estava fora de área. Ótimo. Safada. Ficou com ciúmes de Deena e resolveu me dar uma “acalmada”. Ótimo saber que Lara se importava. Bem… hora de limpar a bagunça…

Capítulo Vinte e Seis

 

Simone acordou com o toque de Edward na porta. Dormira tarde e nem sequer ouvira o despertador. Tinha vontade de ficar na cama e não sair para ver o mundo, mas o mundo estava lá, esperando por ela com uma agenda cheia.

As palavras da ex-mulher de Mark ecoavam na mente de Simone: meia-idade, mudanças, o dia a dia que mata, todas as histórias dançavam juntas uma quadrilha, o que contribuiu para que Simone encarasse o novo dia deprimida. Quando se lembrou de que não encontraria Mona com sua costumeira xícara de chá aguardando-a, colocou as cobertas sobre a cabeça.

Ao chegar finalmente à cozinha, viu Edward ao telefone. Ele fez sinal para ela sentar-se à mesa, que já estava posta. Logo desligou e se juntou a ela.

– Bom dia, Simmie.

– Bom dia, Ed – Simone deu um beijo no rosto dele.

– Notícias da polícia: ontem no fim do dia conseguiram a lista das pessoas que assistem ao Caïn e começarão a visitá-las hoje. Por sorte são apenas umas cento e cinquenta pessoas nesta cidade inteira...

– É... talvez eu tenha mau gosto – disse Simone.

– Não, minha amiga, você e essas pessoas devem ser as únicas que falam francês. Não vendem a série com legendas. Você não dormiu bem, não é? Está com olheiras…

– É, eu sei… Li até tarde. Me sinto desanimada.

Edward pôs a mão sobre o braço de Simone.

– Tudo vai passar, Simone, estamos num momento difícil.

– Você já pensou no que vai fazer com a segunda metade da sua vida? – perguntou Simone olhando diretamente para Edward.

– Como segunda metade?

– Estamos na fase dos quarenta, meu amigo… Será que viveremos até os oitenta?

– Alto lá, Simmie! Deixe-me lhe falar como terapeuta: já estamos com muitos problemas, talvez devêssemos deixar essa crise de meia-idade para mais tarde, ok? Os quarenta de hoje são os trinta da geração passada. Não se preocupe, porque agora você não vai conseguir lidar com isso. Tente solucionar apenas um problema por dia, minha querida.

Edward levantou a mão e balançou o indicador na frente do rosto de Simone:

– Um de cada vez.

– Faz sentido, mas as mulheres de trinta anos alguns atrás eram balzaquianas, senhoras que só serviam para aconselhar.

– Chega disso! Você está mal por causa da Mona e por todas essas mortes, eu também, mas não vamos nos enterrar junto! Você é uma mulher linda, inteligente, qualquer homem quer você, e juro – disse fazendo um sinal com as mãos, como se estivesse orando – não é para dar conselhos!

– Claro! Me mostre um homem que me queira… e por favor… que não seja pelo meu cérebro!

– É que você não enxerga, Simone.

– Ah, agora eu sou a cega... Estou só, meu amigo, me sentindo velha e triste!

– Simmie, você só está triste. O resto está aqui na sua cabeça – e cutucou a cabeça de Simone com o dedo. – E quanto a estar só, está assim porque quer, porque fica aí tendo ilusões com um cliente que mal conhece. Por que não olha em volta? Você passa doze horas por dia trabalhando e pesquisando, em vez de sair e tomar um drinque de vez em quando. Você faz as escolhas.

– Olha só quem fala, você não faz o mesmo? E ao que me conste sua vida amorosa está igual à minha…

– Mas eu sei o que quero da vida!

– E o que quer?

Cristo, pensou Simone. Que forma de começar o dia! Discutir com o Ed cedo! O que será do resto do dia?

– Melhor deixar para lá, Simmie. Estamos atrasados, vamos tomar um café e sair para o consultório; me desculpe a irritação, eu também não estou cem por cento.

– Eu sei, Ed, me desculpe você também, meu amigo. Você é a única coisa sólida que tenho agora.

No caminho para o consultório, Simone perguntou como estavam as investigações. Edward respirou fundo, tirou uma das mãos do volante, passou no cabelo e respondeu:

– Nada bem. Acho que por isso estou de mau humor. Além da lista dos que compraram a série, parece que chegamos a um muro, e ainda por cima vou ter que refazer o teste de esperma. Justo o meu o laboratório conseguiu estragar! Fiquei sabendo agora há pouco!

– Como alguém estraga algo assim?

– Só Deus sabe! Parece que esse psicopata dá muita sorte! Misturaram com alguma substância que talvez já estivesse no pote de coleta, não sei. Vou ter que refazer! E com minha agenda como está! Como não sou o suspeito número um, farei no sábado. Meu único dia livre vou tirar para praticar autoabuso, como diriam as freiras.

– E os outros testes?

– Negativos. Ninguém da polícia está envolvido. Pelo menos ninguém é o dono do esperma.

– E as filmagens dos Peddinghouses, conseguiram?

– Sim, o velhinhos cederam os vídeos. O sistema é antigo e está complicado, mas há uma equipe do FBI analisando os vídeos. Fica mais fácil com a tecnologia que eles têm, mas até eles estão com problemas.

Enquanto isso, o maluco está à solta. Nunca tive medo, Ed, mas agora vivo sobressaltada. Cada ruído me deixa apavorada!

– Em casa?

– É...

– Já pensou em se mudar, Simone? Queira ou não, uma morte nos degraus de casa não é uma imagem para se esquecer facilmente. Vai levar um tempo, mas uma possibilidade é ir para um lugar novo.

– Eu pensei.... Mas, meu amigo, eu criei a Tammy ali, é meu lar! Construí cada pedacinho daquela casa com meu esforço, com meu dinheiro suado. Eu não consigo.

A ideia de ter que fazer uma mudança tão drástica deixava Simone perturbada. No momento ela não conseguia conceber isso.

– Não é preciso vender a casa, Si, alugue, feche. Você não precisa de dinheiro, deixe trancada uns meses até solucionarmos tudo. Vá para um apartamento, venha para o meu, se quiser.

– Meu amigo querido, você é a melhor pessoa do mundo, mas eu não gostaria de me impor assim. De qualquer maneira, vou pensar na ideia de me mudar por um curto espaço de tempo. Tammy deve voltar do intercâmbio na França dentro de uns seis meses. Talvez, enquanto ela está fora, eu vá para um apart-hotel, algo assim. Vou amadurecer a ideia.

– Você não seria imposição, seria um prazer. Mas pense na ideia, reflita, não tem que ser hoje.

Naquele dia Simone veria novamente uma paciente que já havia perambulado por seu consultório. Ia e voltava, nunca se decidindo se queria de fato ser tratada. Era um caso complexo, uma moça jovem, de vinte e oito anos, completamente perturbada. Usava diversos tipos de drogas – esportivamente, segundo afirmava – e não tinha pudores em entrar em orgias ou sexo com desconhecidos.

– Oi, doutora.

– Olá, Helen, como vai?

– Com saudades de você! – disse sorridente. Era uma jovem que não era linda, mas tinha um rosto interessante e uma vivacidade que a tornavam atraente.

– Helen, hoje vamos retomar seu tratamento pela… terceira vez – disse Simone, consultando a ficha da paciente.

– É…

– Bem… Esta é a última oportunidade, certo? Ou seguiremos no tratamento ou não haverá a quarta tentativa. Preciso de seriedade, e você também.

– Eu já esperava isso, mas sinto que agora estou pronta. Estou me preparando para engravidar e quero melhorar.

– Que bom! O casamento então está indo bem?

– Sim, bastante bem. Ele é um homem ótimo!

Numa de suas crises severas, Helen conhecera seu marido e o casamento tinha lhe dado estabilidade, mas ela havia parado o tratamento e Simone ficara sem saber como havia progredido. Boas notícias!

– E minha ajuda, agora, você quer exatamente para quê?

– Para me livrar do desejo por ela… de uma vez por todas!

– Ainda? Pela professora?

– Sim, não consigo evitar, doutora. Ela perturba os meus dias. Eu penso nela dez vezes por dia, e isso me dói e me enche de desejos…

– Por ela? Ou por qualquer pessoa?

– Por ela. Imagino o corpo dela, imagino que a estou tocando, beijando, imagino o cheiro dela e enlouqueço.

– E o que faz para passar esse desejo?

– Sexo selvagem com meu marido… Ele acaba beneficiado…

– Mas você se livra do desejo?

– Não… mas ajuda um pouco… Esse desejo que sinto por ela é como uma fome que faz doer a barriga vazia, e eu queria tanto me encaixar! Quero ser mãe, quero muito uma criança em minha vida.

– Todas as vezes em que veio aqui você me disse que queria se encaixar… e todas as vezes em que tenta assumir papéis você não fica bem. São as drogas, os envolvimentos perigosos, a obsessão por essa professora...

– Não é obsessão. Eu a amo. Mas amo também meu marido…

– Você deveria adiar esse filho, Helen. A decisão cabe a você, mas todas as vezes que me diz que deseja uma vida seguindo a cartilha, a vejo mergulhar em escapatórias. Talvez não queira realmente ser mãe ou esposa…

– Por quê?

– Porque você primeiro precisa resolver essas questões, para depois ser mãe. Essa mulher sabe que você a ama? Da última vez você disse que iria conversar com ela, mas já se passaram quatro meses e não sei o que houve.

– Falei… mas ela disse que nem consegue imaginar, que é hétero até em fantasia… Ela tem medo, com certeza.

– Talvez realmente seja hétero, Helen.

– Ninguém é isso ou aquilo doutora… é só experimentar… Tenho dito isso para ela.

– Você fala com ela?

– Sim, todos os dias mando recados e e-mails, digo como me sinto, minhas fantasias com ela. Às vezes digo que nunca mais escreverei e que vou sumir, deixá-la em paz… mas isso dura um dia mais ou menos. Hoje mandei para ela uma foto nua.

– Sua, presumo.

– Sim.

– E ela?

– Ela é sacana, responde os recados... Por isso não entendo. Ela deve sentir algo, não?

– Talvez sim, talvez seja maternal. Pelo que você disse, ela sempre esteve ao seu lado para apoiá-la, não?

– Sim, tudo o que eu precisava fazer era precisar dela… Descobri isso e precisei muito, só para tê-la por perto…

– Helen, você está assediando essa mulher e essa mulher está mantendo você à distância e cuidando de você novamente, percebe?

– É o que você pensa? Acho que às vezes ela pode estar dando um tempo para ver o que sente… Ela diz que não, mas pode vir a dizer que sim…

– Helen, se ela diz que não, é não. Que idade ela tem? Quarenta e cinco, cinquenta anos?

– Por aí…

– Ela sabe o quer, Helen, e sexo com você não me parece que seja a ideia.

– Mas minhas fantasias precisam ser realizadas, doutora! Todo o meu corpo pede que eu a tenha ao menos uma vez…

– O que você faria nesse dia?

– Tudo… Eu iria acariciá-la toda, ela iria ver que o amor de uma mulher é diferente do dos homens. É suave, gentil. Eu iria tocá-la inteira, em todos os pontos de que sei que as mulheres gostam. Iria guiá-la para se descobrir, quero ensiná-la…

– Quer ser a professora, agora? Dominar? Você acha que, se a dominasse, dominaria seus medos?

– Acho que sim… Eu realmente queria dominá-la.

– Voltamos ao seu passado, Helen, ao abuso… Você sofreu abuso pelas mãos de uma mulher mais velha… Dominar sua professora agora faria você ter a sensação de dominar quem abusou de você… Essa mulher deve ter algo em comum com a outra de sua história…

Helen era filha de mãe solteira, que a deixava com uma vizinha que se oferecera para cuidar da menina enquanto a mãe trabalhava. A vizinha começou a molestar a menina em tenra idade. No início, acariciava Helen. Mais tarde, se fazia acariciar pela menina. Quando Helen atingiu uma idade em que começou a entender o que se passava, contou à mãe, que não acreditou, e o abuso continuou por anos. Abusos têm consequências. Helen perdeu cedo o referencial sexual. Sexo para ela podia ser vivido com homens e mulheres, sem grandes compromissos.

– Você quer dizer que eu vejo aquela mulher na Gloria? – Helen perguntou.

– Gloria é o nome da professora?

– Sim.

– Penso que sim, Helen… Penso que o desejo de submeter alguém que teve poder sobre você, porque os professores detêm certo poder e hierarquia sobre os alunos, é o desejo inconsciente de submeter aquela mulher e de aplacar os sentimentos de ódio que tem por aquela época. Isso não é amor, Helen.

– Vou pensar nisso, doutora… – ela respondeu depois de um certo tempo.

– Por favor, faça isso… e tente não correr atrás da pobre professora. Provavelmente ela está acreditando que pode ajudá-la a se encontrar novamente, por isso presta atenção em suas mensagens. Isso ainda pode acabar mal, ela pode processar você, Helen.

– Gloria? Ela nunca faria isso.

– Eu vou lhe dar um texto de Lacan para ler. É sobre obsessão.

– Mas eu não sou obsessiva!

– Apenas leia o texto, certo, Helen? Você vai compreender algumas coisas. O texto fala sobre histeria e obsessão. São patologias complementares. Gostaria que tentasse entender se a professora não se encaixa na histeria, certo? Você faria isso por mim?

– Certo, doutora.

* * * * *

Phillip chegou ao consultório naquela tarde feliz – anormalmente feliz, para quem lamentava até a semana anterior a perda do grande amor. Trazia a costumeira caixa de doces e estava todo sorridente.

– Doutora querida, que bom revê-la – disse entusiasmado, enquanto chacoalhava incessantemente a mão de Simone.

– Como vai, Philip, me engano ou você está feliz?

– Eu? Sim, estou, mais feliz que porco na merda! – disse, com a costumeira linguagem peculiar.

– Isso é ótimo! Conte-me a razão – Simone cerrava a mandíbula para não rir das expressões de Philip.

– Estou com uma nova namorada!

– Que bom! Mas já?

– Solidão não faz bem a ninguém! Estou contente, porque essa mulher parece que me entende!

– Sério? Que bom! Quem é ela?

– A dominatrice das cordas de que lhe falei!

Oh, Deus, pensou Simone, quando achava que o mundo iria entrar nos eixos, lá vinha Philip com mais uma loucura. Namorar a dominatrice!

– Como isso ocorreu?

– Eu estava mal, me sentindo um merda. Você sabe... por causa da minha mulher e tudo… Daí fui à casa de submissão para ter um nova experiência com as cordas… Tive e foi maravilhosa! Leonora é uma expert. Me amarrou e comecei a ter aquelas sensações maravilhosas que lhe descrevi outro dia. Conforme ia apertando as cordas, eu ia pedindo para fazer mais forte… Daí, quando achei que iria desfalecer de prazer, eu disse para ela: "Me mate, eu quero morrer!". Porque pensei que, além do prazer, me livraria da dor de ter perdido minha mulher. Aí ela parou tudo!

– E isso foi bom?

– Não, eu não entendi o que estava errado. Ela então me mandou sentar e perguntou que palhaçada era aquela, onde já se viu alguém querer morrer com as cordas dela.

– E você?

– Eu comecei a chorar como um bebê e contei a ela minha história… Ela me desamarrou, me convidou para tomar um drinque e começamos a sair. Ela entende todas as minhas fantasias, porque trabalha com elas, é uma dominatrice profissional!

“Bela profissão”, pensou Simone!

– E você acha que pode gostar dela como gostou de sua esposa?

– Doutora, não sei, porque as pessoas são diferentes… Não tem como gostar igual de pessoas desiguais… É sempre diferente, mas minha ex-mulher não me entendia, fazia as fantasias como se fossem um grande favor para mim, e eu vivia em pânico de perdê-la. Com a Leonora, apesar de ser recente, sinto que posso ser eu. Minhas fantasias para ela são brincadeira de criança, segundo diz.

– Vejo que você está novamente com algo no pescoço, é para esconder marcas?

– Ah, não, doutora, isso é uma coleira!

Estava orgulhoso como um pavão de usar uma coleira que parecia ser de cachorro, de couro, larga – cão grande, pelo tamanho.

– Uma coleira de cão?

– Mais ou menos isso. A Leonora me aceitou. A coleira é um dos símbolos da nossa relação. Algumas vezes ela passeia comigo na coleira. É sinal de propriedade, eu gosto de pertencer.

– Philip, você é um contador… Não acha que passaria uma impressão errada para as pessoas?

– Ah, mas nós não andamos no meio da rua, é só em casa e na boate.

– Mas aqui não é sua casa nem boate, e você está com a coleira!

– Eu sei, mas eu queria que você visse, doutora, o que achou?

– Eu não entendo muito de coleiras… não tenho cães…

– Não, doutora, não da coleira, do meu novo relacionamento?

– Gostaria que tivesse um pouco de cuidado, Philip, porque foi rápido ao oscilar de um relacionamento ao outro. Semana passada você estava chorando, hoje está eufórico.

– Estou feliz, doutora!

– Eu sei, Philip, apenas gostaria de um pouco de cautela, porque normalmente, ao terminar um relacionamento, as pessoas fazem um movimento pendular, vão de um extremo ao outro. Você foi de uma mulher que relutava em compreender suas preferências sexuais a outra que aceita todas as suas fantasias.

– Isso não é bom?

– Pode até ser… mas seria bom evoluir aos poucos, compreender bem até que ponto você pode ir com Leonora. Sua ex-mulher dava um pouco de normalidade e contenção à sua vida. Mesmo pondo freios em suas fantasias, ela lhe dava certa estabilidade. Tenho receio de que Leonora o deixe… desenfreado?

– Certo, doutora… Vou pensar no que você está dizendo… Se tivesse ouvido a senhora antes, não estaria separado, não é?

– Não podemos afirmar isso, Philip, mas pense com carinho, e pense principalmente no que gostaria para sua vida. Às vezes colocamos pessoas rápido demais em nossas vidas, para preencher o buraco que a dor de uma separação deixa, mas o buraco está lá… e pode ser que os problemas somente aumentem…

– Entendo...

– Espero que pense sobre isso. Todos precisam de tempo para se curar após o término de um romance. Se não se deixar sentir a dor causada pela perda, e apenas varrê-la para debaixo do tapete, um dia ela sai de lá e o ataca quando você não estiver preparado.

– Detesto sentir dores emocionais!

– Eu sei, mas dor é parte da maturidade, Philip. Posso estar errada e seu novo relacionamento se tornar uma linda história de amor. Só lhe peço para ir devagar.

– E a coleira? Tenho que tirar?

De tudo, a maior preocupação de Philip parecia estar na coleira, símbolo claro de alguém que desejava pertencer, de alguém que não queria ser um “cachorro sem dono”.

– Fique com a coleira, se lhe faz bem. Não vejo grandes males nisso.

* * * * *

A semana seguiu em ritmo alucinado. Simone decidiu desmarcar todos os pacientes da quarta-feira à tarde. Sentou-se no sofá da sala, sentindo mais do que nunca falta de Mona. Num esforço para se distrair de pensamentos melancólicos, decidiu terminar o diário de Mark. Iria completar a análise do texto e finalizar o trabalho. Quem sabe ao terminá-lo pudesse ter um pouco de normalidade novamente...

O Diário de Mark

 

O amor está a caminho

Lara me ligou novamente, feliz porque as coisas estavam entrando nos eixos. Incrível como um telefonema dessa mulher fazia com que meu dia ficasse mais iluminado! Tudo ganhava cor.

Ela soava feliz, estava entusiasmada e falando pelos cotovelos. Disse que sentia saudades e que em breve seria uma mulher livre.

– Conseguiu o divórcio?

– Sim, agora é só questão de burocracia de tribunais, sua área.

– Litigioso?

– Não, amigável!

– Como assim? Da última vez que falamos não havia tido progressos.

– Maurice teve uma ideia depois que contei a ele que Nicholas se recusava a assinar o divórcio: perguntou se eu não teria nada que pudesse abalá-lo para usarmos. Eu disse que não, que sabia de coisas, mas que não tinha provas. Contei para Maurice de uma das festinhas em que estivemos e que vi o Nicholas transar com outro cara...

– Maurice não enfartou? – fiquei imaginando a cara do velhinho com a história...

– Maurice? Era da turma de Emma, não conheço todos os detalhes sórdidos do que aqueles quatro faziam, mas sei que não era bem ir à igreja orar juntos! Eles aprontaram muito! Pelo pouco que Emma contou, eu sou uma mocinha de convento perto deles!

– Me falta imaginação para pensar naqueles velhotes numa casa de suingue... – mas infelizmente minha imaginação é fértil e imaginei Maurice num trenzinho e não gostei do que visualizei.

– Eles nem sempre foram velhotes... mas me deixe contar o que fez Maurice. Ele telefonou para o Nicholas dizendo que era um dos advogados do meu caso e que tinha um envelope com um vídeo em que um renomado professor fazia sexo com um jovem. Fora gravado alguns anos atrás, mas estava endereçado ao reitor da universidade. Mas se ele colocasse uma assinatura em certo documento, o filme seria esquecido e assim que o divórcio fosse confirmado o vídeo voltaria ao seu dono.

– O filme é verdadeiro?

– Claro que não! Eu não tenho nada gravado! Mas ele deve continuar pegando garotinhos. Hábitos antigos não morrem fácil...

– Nunca acredite em alguém que diz que é ex-homossexual... E ele engoliu?

– Engoliu, porque dei várias descrições para Maurice sobre como ele procedia… Já assinou e já devolveu, simmmmm.

O grito quase me deixou surdo. Tive que afastar o fone da orelha. Compreensível e euforia dela.

– E quando o divórcio for oficializado, o que vão mandar para ele?

– Pocahontas? O que importa! Agora estou livre!

Tive que rir da ideia do francês refinado descobrindo que fora chantageado com um desenho infantil. Ah, pensei… como todos temos medo de um escândalo, mais do que qualquer coisa na vida a ameaça de ver o “bom nome” jogado na lama era o equivalente a uma arma nuclear… E, pelo jeito, Maurice também sabia disso. Um diabo é um diabo, e não porque é mau, mas porque é velho.

– Quando volta, bela?

– Por que não vem me buscar? Podemos voltar juntos.

– Adoraria, mas não posso, estou cheio de trabalho, com um advogado doente e outro de férias. Não dá, minha linda.

– Que pena, poderíamos usar o banheiro do avião para uma fantasia que tenho...

– Conte...

Eu tinha certeza que ali viria mais uma tórrida história para me estimular. Ela definitivamente estava preocupada com a própria ausência… Mulheres… seres possessivos… Não estão nem aí para você, mas a mínima ameaça e já ficam armadas em patrulha.

– Eu iria primeiro até o banheiro... entraria, trancaria a porta... Você iria logo depois...

– E como caberíamos os dois no banheiro?

– Fácil, principio da sardinha em lata... Eu já deixaria a tampa do sanitário fechada... você chegaria, abriria o zíper... baixaria a calça e sentaria sobre a tampa... Eu fico de costas para você e vou me encaixando. Fazemos uma cadeirinha ao contrário... Você me sustenta com os braços, apenas vou descer e subir, descer e subir gostoso, devagar...

– Hummm.

Comecei a massagear meu pênis.

– Nesse sobe e desce lento, vou apertar e soltar você dentro de mim. Quando eu descer eu solto, e na subida aperto você... Dai vou tornar os movimentos mais rápidos, com a ajuda das suas mãos, que vão estar no meu traseiro... Vou gemer baixinho, controlando para não permitir que todo o avião escute.

– E?

– E quando eu achar que você esta pronto para gozar eu paro, viro de frente e encaixo novamente em você. E vou cavalgar você novamente, de forma lenta, e vou beijar sua boca, mordendo seu lábio, minha língua na sua boca e sem parar de beijá-lo vou agarrar seu cabelo e cavalgar você até o levar para o paraíso.

– Louquinha…

– Então vou gozar gostoso gemendo só nos seus ouvidos… com você mordendo meu pescoço gostoso… Mas você não vai gozar ainda… Eu vou desencaixar e vou colocar você na minha boca e vou chupar você até você encher minha boca. E vou engolir, sem deixar nenhuma gotinha se espalhar no banheiro…

– Lara, eu vou gozar agora, sua safada...

Pronto, virei adolescente novamente. Acho que gozei um balde. Bem, por sorte não precisava esperá-la. Pelos gemidos do outro lado da linha, ela também já tinha feito justiça com as próprias mãos.

– Aiiii – ei, mas agora o gemido era de dor

– O que houve, Lara?

– Bati o cotovelo.

– Onde?

– Na pia do avião! Pouco espaço – e riu.

– Ah, engraçadinha. Estou com saudades, menina.

– Eu também... Mas volto já...

– Já quando?

– De verdade?

– É… de verdade…

– Amanhã… Mas vou direto aos Hamptons. Estarei podre e quero voltar para o fuso!

Que ótimo, quinze dias longe e ela ia para outro lugar… É Lara, pensei. Que diabos, o que você esperava?

– Certo, moça, faça uma boa viagem!

Eu estava feliz demais com a ideia de que Lara iria voltar para começar a reclamar por um dia a mais. Estava também contaminado pela conversa com Deena. Desde nosso almoço juntos refleti muito sobre o que ela disse e concluí que ela tinha razão: estávamos por iniciar a segunda metade das nossas vidas, não era hora de gastar tempo procurando a parceira ideal. Era hora de abraçar o que a vida me oferecia, uma mulher fora dos padrões, que nunca me propiciaria um casamento convencional, mas que me fazia muito feliz...

Meu lado racional ainda tentou me persuadir do contrário. Claro que ela me faria feliz, mas talvez a felicidade não fosse proporcional aos momentos ruins que esse relacionamento trazia... Dane-se a razão! Coloquei-a de lado. Deena estava certa, era mais importante viver e, afinal, melhor alguns momentos ruins do que uma vida ruim.

Passei na Tiffany’s e escolhi um anel para dar a Lara, um solitário imenso. Sei que mulher adora tamanho de pedra, parece que amor é medido em quilates… O anel era quadrado, rodeado de diamantes menores, muito bonito. Achei que ela irai gostar. Iria pedi-la em casamento. Vida nova! Se eu tivesse realmente somente mais meia vida para usar, iria agarrar o tempo que tinha pela frente e viver como se cada dia valesse por dois. Não me sentia em crise, mas do diálogo com Deena entendi que precisava usar melhor o tempo que me restava.

Os dias em que Lara ficara fora foram miseráveis para mim. Quase quinze dias intermináveis, em que tudo dela me fazia falta. Os cabelos espalhados no travesseiro, a confusão de tintas que deixava pela casa, a falta de ordem dela. Até as crises! Foram meses junto comigo e a partida para Paris deixara o vazio de uma vida.

* * * * *

Ela me telefonou dois dias depois de termos falado ao telefone, com aquela voz que me deixava hipnotizado. Tinha voltado de Paris, queria me ver na casa da praia, poderia ser hoje? Estava feliz, disse que nada mais ficaria em nosso caminho. Minha fé nas palavras de Lara era igual à minha fé na existência de vida em Marte, mas queria muito vê-la.

Tentei encerrar mais cedo o trabalho, mas foi impossível. Duas horas na estrada me esperavam e já estava anoitecendo. Encontrar Lara era sempre alucinógeno, ela fazia borboletas voarem no meu estômago. Era sempre uma surpresa, sempre uma fonte infinita de fantasias.

Lara parecia ter desprezo pela normalidade e pela rotina – ou se podia dizer que com ela a rotina era a surpresa?

Desta vez, prometi para mim mesmo, não tentaria mudá-la. Era minha última chance de acertar esse relacionamento e só havia duas opções: ter Lara para sempre ou perdê-la para sempre, tentando fazê-la encaixar-se em padrões.

Ela seria minha para sempre, era uma promessa. Eu precisava dela na minha vida.

Entrei na propriedade pela estradinha de areia, estacionei ao lado da casa. O murmúrio do mar calmo, iluminado pela lua cheia, a lua dos amantes, engrandecia o silêncio.

Eu me dirigi à escada lateral, que dava acesso à varanda da frente. As portas estavam abertas, poucas luzes acesas, as cortinas esvoaçando pela brisa do mar, e então a vi. Ela me esperava nua, os cabelos loiros soltos, meio despenteados, nos pés um sapato de um salto impossível de se usar e, no pescoço, algo parecido com uma corrente grossa. Ela deslizou em minha direção, sem o menor pudor em mostrar o corpo. Adorava os olhares de admiração que sempre recebia, meus e de outros homens.

Não me disse muita coisa. Um “oi, que bom que chegou" e começou a me beijar e acariciar. Eu queria conversar primeiro, dizer que a amava, pedi-la em casamento, mas naquela hora só conseguia pensar na pele dela contra a minha e no cheiro do seu perfume. Depois falaríamos!

Lara começou a desabotoar minha camisa, sem parar de me beijar e acariciar, deslizando as mãos pelo meu peito em direção à calça, que me apressei em tirar.

– Estou com muita saudade e vontade de você. Hoje quero que você use isso – e me deu uma luva de couro para pôr numa das mãos.

Então a química que sempre existia quando estávamos próximos aflorou e não houve tempo para conversas amenas, que dirá para ajustes de relacionamento.

Nossos corpos nus brilhavam à luz do luar e com o suor do longo embate sexual. Mãos, línguas, pernas entrelaçadas, suspiros e murmúrios no ar, frases desconexas.

– Eu quero que você aperte meu pescoço lentamente com a mão enluvada. Fico louca quando você faz isso.

– Eu sei… – era o vício dela… eu não iria mais tentar entender… apenas faria o que ela me pedia…

– Use a luva, quero a sensação de que estou sendo atacada por um desconhecido, que estou impotente.

– Assim? – perguntei apertando suavemente o pescoço dela.

– Mais forte, como se quisesse me sufocar. Me deixa louca, não quero carinho, quero força.

– Eu quero você gozando para mim.

– Mais forte, Mark, aperte mais, me deixe impotente.

– Tenho medo de machucá-la – eu disse.

A adrenalina corria por minhas veias e perdi o controle. Tudo o que queria era gozar dentro daquela mulher que me deixava louco.

– Mais forte! Me aperte forte e mexa rápido que estou quase gozando.

– Você me deixa louco, sua maluca, vou apertar até pedir piedade, sua putinha.

Agarrei a corrente que circundava o pescoço de Lara e comecei a usá-la para apertar o pescoço. Vi que isso deixou Lara muito excitada.

– Isso, agora sim, aperta mais, aperta muito – de costas para mim, ela ondulava os quadris rapidamente. Não tinha muita paciência para esperar o gozo, ficava selvagem quando queria chegar ao orgasmo.

– Ahhhhh, eu não vou conseguir segurar mais. Vou gozar em você! – não consegui mais segurar. Enquanto sentia o prazer violento do orgasmo que se aproximava, apertei forte a corrente em volta do pescoço dela, até que começamos a gozar juntos e, de repente, tudo era silêncio, algo raro em Lara…

– Lara, você está bem? Lara? Pare de brincar...

Ela ficou silenciosa e inerte. Algo estava errado. Ela não estava respirando.

– Lara, meu amor, Lara, respire, por favor, o que eu fiz? Lara, eu amo você, meu amor, Lara, minha vida, respire, respire.... Não faça isso comigo!

Ela ficou imóvel como uma linda boneca.

Tentei respiração boca a boca e massagem cardíaca, meus conhecimentos limitados de primeiros socorros, mas nada a reanimou. Liguei então para meu pai, que me indicou um médico que lhe devia favores. Ele chegou rapidamente, mas já era tarde, eu havia matado a mulher que eu amava. Eu havia matado uma parte de mim, talvez minha melhor parte.

O médico me sedou para me proteger do meu próprio desespero. E eu fiquei assim até o funeral dela, dois dias após a morte. Não conseguia comer ou dormir. A droga forte me deixara tonto e eu me sentia numa espiral.

O enterro de Lara foi o dia mais triste da minha vida. Me deixaram participar. Foi o inicio do resto dos meus dias miseráveis. Eu queria sentir. Parei de tomar o sedativo. Minha mente estava clara e a dor que eu sentia era física. Parecia que havia um buraco em meu peito que nunca seria fechado. Eu tinha certeza de que minha vida jamais seria completa novamente. Naquele dia, aprendi que amor verdadeiro somente se vive uma vez na vida. Pás de terra enterravam o meu.

Ela foi sepultada com o anel no dedo. Eu mesmo o coloquei lá. Ninguém protestou, de tão palpável era a minha dor. 

Desde a morte de Lara há uma escuridão permanente nos meus dias… Viver sem ela se tornou um suplicio, e eu passei a vagar pela vida, ansiando pela morte… Que, se eu tivesse coragem, traria para mim… Mas como punição divina, não encontro a coragem necessária para morrer… E também não encontro coragem para viver.

Capitulo Vinte e Sete

 

Simone terminou o texto com um peso no coração. Apesar de não ter conhecido Lara, sentia tristeza pela morte da jovem. Quando parecia que iria ser feliz, sua vida havia terminado de forma abrupta.

Estava também condoída por Mark, pobre homem, pobre infeliz, prestes a ter o mundo nas mãos e, com as mesmas mãos com que estava pronto para abraçar a vida, havia matado a mulher que amava.

Para Simone, a inocência de Mark era evidente. Não havia culpados ali. Somente vítimas. A parte intelectual de seu estudo estava terminada. Agora, precisaria de trabalho de campo, de entrevistas com pessoas que participaram da vida de Lara, para finalizar e concluir seu laudo.

Simone telefonou para Carl para relatar o término da leitura e combinaram que ela iria a Nova York no dia seguinte.

*****

No dia seguinte, Simone chegou ao escritório de Carl por volta das dezoito horas. O trânsito pesado a havia atrasado.

O escritório era elegante, todo decorado em madeira escura. Bem masculino. Simone elogiou a decoração.

– Lara foi quem fez, e não mudamos mais – ele informou.

Então as suspeitas de Simone se confirmavam: havia um círculo estreito de amizade entre os personagens do texto e Carl.

Carl levou Simone até uma sala de reuniões também muito bem decorada, uma mesa de madeira para catorze pessoas, cadeiras negras, belos quadros na parede e plantas decorativas. Sentaram-se.

– Simone, por favor, estou ansioso pelo seu relato. Terminou a leitura e…

– Sim, terminei de ler o texto, conforme lhe informei ao telefone. Até o presente momento, confirmo tudo o que conversamos quando você esteve em meu consultório. Fiz um parecer formal, mas não conclusivo

Simone estendeu a Carl o relatório, ele o pegou e olhou fixamente para Simone.

– Você chegou ao final e sua conclusão é por um diagnóstico de sadomasoquismo?

– Sim, com fortes tendências de autodestruição e profundas oscilações de humor provocadas também pelo quadro de déficit de atenção de que Lara menciona ser portadora.

– Parece que era genético, herdou do pai e da avó…

– Sim, de fato é possível ser genético. Esse quadro traz alterações de humor, instabilidade e, em alguns casos, vício em adrenalina. Certamente foi agravado pelo abuso sofrido.

– Mark, na sua opinião, agora que concluiu o texto, é inocente ou culpado?

– A única culpa que ele teve, é claro que embaso minha opinião apenas no texto, é de ter se envolvido com Lara. A morte dela foi um acidente e, já lhe disse, poderia ter acontecido antes, numa das sessões de sadomasoquismo… Não é tão incomum assim, mas eu gostaria muito de conversar com Mark. Preciso olhar para ele e fazer algumas perguntas, Carl. Na minha profissão, é importante ver a linguagem corporal e outros sinais para fazer um diagnóstico.

– Entendo.

– Você pode providenciar isso? É importante para eu concluir meu trabalho.

– Pode perguntar o que quiser.

– Quando?

– Começando agora, Simone, por isso pedi que viesse, e que não apenas mandasse o relatório. Eu sou Mark!

Simone ficou paralisada por alguns instantes. Em nenhum momento, lendo o texto, ela deduzira que Mark fosse Carl. Será que seu interesse pelo sujeito havia comprometido seu julgamento? A ideia que formara de Carl não lhe permitira imaginar um sujeito sério e compenetrado, como ele, em casos tórridos, casas de suingue e apaixonado a ponto de perder o controle. Ela se enganara.

– Você é o Mark? – sua boca se abriu, de modo que nem todo o autocontrole do mundo conseguiria evitar.

– Sim. Usei meu terceiro nome na história para que você fosse objetiva.

– E quando irá a julgamento, Carl?

– Não, Simone, não irei. Isso aconteceu faz algum tempo. O julgamento já ocorreu há mais de um ano. Fui absolvido. O júri considerou o mesmo que você, que foi realmente um acidente. O único julgamento que enfrento diariamente é o meu mesmo, desde que a matei.

– Como o júri chegou ao veredito?

– Havia testemunhas. John Mayer, o negro com quem Lara transava, atualmente um grande amigo, foi uma das principais testemunhas. Outros homens que se relacionaram com Lara também foram ouvidos, graças a informações dadas por John. A hipoxifilia era uma frequência nas relações de Lara, todos disseram isso. Meu pai me defendeu. É o melhor criminalista que conheço e sua pesquisa foi profunda. Ele foi atrás de todos que podia e conseguiu reunir um time da pesada. Lara não era nada santa….

A última frase Carl disse com ar de profunda tristeza.

– Para mim, a pior parte foi montar o quebra-cabeças do comportamento de Lara. Por meses, antes do julgamento, além de me sentir culpado por tê-la matado, eu me sentia horrível por ver a vida dela desfilando em público.

– Você não a matou, Carl, foi um acidente.

– Pode dar o nome que quiser, Simone, mas eu a matei.

– Mas por que todo esse teatro, Carl? Me contratar, fazer parecer que tinha um caso nas mãos… Eu poderia ter descoberto tudo pela internet…

– No entanto não o fez… Em um dos nossos primeiros encontros lembro que falamos sobre opiniões imparciais. Fiquei tranquilo sabendo que você não recorreria a nada além do texto, num primeiro momento, e era o que eu queria. Mas, se recorresse, meu nome estava trocado, ou melhor, é meu nome também. Eu sou Carl Anthony Marcus. Ou meus pais tinham algum complexo de dinastia ou não conseguiram entrar num consenso sobre o nome. E Lara… bem… eu não conseguiria mudar o nome dela nem para me proteger. Até hoje o som do nome dela é música para mim.

– Peter é Peter?

– Sim, mas é um nome comum… Apenas o meu nome foi trocado, e confiei na sorte…

– Por que me contratou, Carl?

– Porque eu precisava de respostas que ninguém mais me daria… Eu precisava entender, por uma opinião profissional e independente, o que havia ocorrido. Passei por terapias após a morte de Lara, mas nada me justificou ou me inocentou para mim mesmo. Vi uma entrevista sua na TV e pensei: essa mulher vai me ajudar.

– Estou surpresa.

– Eu sei, peço desculpas, mas não vi outra forma. Decidi escrever o texto, tentando lembrar ao máximo tudo o que ocorreu no meu curto período com Lara… Veja, Simone, no total, entre idas e vindas, ficamos juntos menos de um ano.

– Quando você começou a escrever?

– Logo depois que ela morreu. Lara manteve um diário durante toda a vida. Ela dizia que ajudava a acessar os sentimentos e organizar as emoções. Decidi tentar quando estava no auge do desespero. Sempre fui bom escritor, e com cada palavra eu revivia nossos dias juntos. Não prestei atenção em vocabulário ou estilo, apenas deixei minhas emoções fluírem. Me ajudou. Me cortou como um bisturi, mas não foi suficiente. Eu precisava de ajuda, da sua ajuda.

Emoções profundas se estampavam no rosto dele, deixando Simone antever o Mark dos textos.

– Você tem ótima memória… Os fatos são vívidos… Há riqueza de detalhes…

– Eu revejo cada um deles milhares de vezes em minha mente, sempre com nitidez, e isso não me dá paz. Lá estão eles dançando à minha volta. Há noites que não durmo apenas revivendo cada segundo daqueles meses. Fico pensando o que poderia ter feito diferente, imaginando novos finais para a história, em todos eu e ela juntos. Para sempre.

– A história é fiel?

– Sim, com tudo que consegui lembrar. Não há nada de imaginação ali, Simone. Eu devia isso a ela, um tributo: ser fiel à memória dela.

Ao fazer essa afirmação, Carl olhava diretamente para Simone. Ela analisava detalhadamente suas expressões e não conseguiu identificar um único traço de mentira. Ele estava sendo honesto. Havia sofrimento profundo naquele homem.

– Você não teve culpa de nada, Carl, tranquilize sua consciência. Se não ocorresse na sua mão, ocorreria na de outro. Hipoxifilia é uma prática arriscada.

– Por muito tempo me perguntei se não havia em mim o desejo de matar Lara, se naquele dia eu não apertara mais porque queria pôr um fim naquilo tudo. Ela me enlouquecia com suas idas e vindas, sumiços, fantasias. Eu já não era eu mesmo, tinha virado um homem que corria riscos demais, com prudência de menos…

– Não, Carl, você estava apaixonado, decidido a se casar com ela. Você queria acreditar em Lara… Você a queria para si, então tentou cuidar dela, mas ao mesmo tempo a vontade de satisfazê-la era grande. Um dos maiores prazeres masculinos, Carl, é proporcionar um orgasmo fantástico nas mulheres. Queira ou não, apertar o pescoço de Lara era o caminho para isso. Era irresistível, e ela pedia mais e mais, e você não soube medir os meios para atingir o fim.

– Eu realmente tentei. Sentia medo de machucá-la, mas ela não tinha limites. Sempre que eu achava que estava indo longe, ele pedia mais e mais.

– Eles não conhecem limites. Tenho um paciente que usa cordas na sua prática masoquista e me diz que morrer durante o clímax seria maravilhoso. A mente humana é complexa e, no que concerne ao sexo, apesar de muitos estudos, não há chaves, há mais especulação. Vamos usando o que aprendemos em outros casos, e é difícil compreender a natureza dos desejos.

– Simone, falar com você me acalma. Não acredito que algum dia em minha vida eu terei capacidade de esquecer tudo isso, levar uma vida normal. A culpa me atormenta. A perda dela me deixa louco. Essa dor que trago em mim e que não me abandona nunca me enlouquece, mas ao menos se eu conseguisse me perdoar, talvez conseguisse ter paz.

Ele bateu a mão no joelho em sinal de frustração.

– Carl… Eu gostaria de tratar você…

Pronto! Em uma frase Simone conseguira destruir qualquer possibilidade de um relacionamento com Carl. Iria tratá-lo! De onde veio isso, agora?, pensou. De seu lado humano, que achava insuportável ver a dor do outro e não fazer nada. Carl sofria profundamente, isso era nítido, e Simone não suportava não fazer nada pelas dores dos outros.

– Eu preciso de você, Simone, preciso de sua ajuda.

Nisso Carl estendeu a mão na direção de Simone, como em busca de auxilio. Ela segurou sua mão e ele começou a chorar, como se nunca tivesse chorado antes na vida. Chorou convulsiva e desesperadamente. Parecia para Simone que ele seria incapaz de parar, como se uma represa tivesse sido aberta e não houvesse meios de conter a água.

Simone se aproximou, abraçou Carl e o aconchegou ao ombro. Ele chorou copiosamente por um bom tempo e ela ficou calada, entendendo a preciosidade daquele momento. Era talvez o início da cura da sofrida alma daquele homem.

Depois de algum tempo, ele se acalmou. Ele e Simone então conversaram por muito tempo. Ela se perguntava se algum dia a vida daquele homem seria normal, mas faria tudo que estivesse a seu alcance para ajudá-lo. Seu conhecimento seria todo colocado a favor dele.

Saíram do escritório e foram jantar. Carl lhe contava histórias sobre Lara, agora de forma mais livre, pois podia se incluir na conversa. Agora que ele estava menos contido por não temer revelar um segredo, era possível ver Mark nele. Até os movimentos eram mais relaxados.

Estavam saindo do restaurante quando Peter entrou.

– Ora, se não é meu querido amigo com a bela doutora…

– Você se lembra de mim? Que bom!

– Claro que lembro, mulheres bonitas são inesquecíveis!

Simone não se sentiu lisonjeada. Sabia, pelo texto, que Peter era exagerado.

– Sozinho hoje, Peter? – perguntou Carl.

– Não, aguardando companhia… E vocês, se divertindo? – ele soava sarcástico, como se não aprovasse a presença dela. “Ou talvez meus nervos estejam uma bagunça e estou imaginando coisas”, ela pensou.

– Descontraindo de uma semana pesada – disse Carl.

– Escutei as notícias, doutora… Sobre as mortes na sua cidade!

– É… horrível, e infelizmente ainda não se chegou a nenhum lugar.

– A polícia não tem nenhuma pista?

– Tem sim, mas meio desencontradas… nada concreto.

– É assunto grande, porque também ouvi que o FBI se envolveu.

– Parece que é normal que se envolvam em mortes em série, mas eles também não conseguiram muita coisa até agora.

– São melhores nos seriados do que na vida real – constatou Peter.

– É… talvez você esteja certo.

– Bem, Peter, estamos indo. Me liga para tomarmos uma cerveja amanhã!

– Ok, promessa de dedinho! – e levou o dedo mindinho até Carl, que simulou dar-lhe um soco no peito e o abraçou.

– Tchau, tchau, bela! – Peter soprou beijos para Simone e partiu.

– Vocês são amigos muito próximos, não? – perguntou Simone quando se afastaram.

– Muito. Ele me ajudou muito depois da morte de Lara, no julgamento… Foi testemunha, ombro amigo, ajudou meu pai com as provas, enfim, para onde eu olhava, lá estava Peter fazendo algo por mim. Nunca vou conseguir retribuir.

– Amigos são para isso.

– Verdade.

– Ele é a exata definição de um verdadeiro amigo.

Como era tarde, Simone passou a noite no apartamento de Carl, a convite dele. Mais uma prova de que o texto era fiel: o apartamento era a descrição exata do que havia no texto, e o cão lá estava para recebê-los. Agora ela entendia por que ele a havia colocado num hotel antes. O apartamento teria revelado quem ele era.

Quando Simone entrou no carro para voltar para casa, lhe deu uma enorme vontade de ficar na cidade. Decidiu então que não voltaria até domingo. Encontrou um hotel na Broadway e foi para lá. Telefonou para Edward para não deixá-lo preocupado, caso a procurasse, e decidiu desfrutar um pouco das delícias de Manhattan. Foi assistir a um musical, foi ao balé e fez compras. Não havia nada que lhe agradasse muito em casa nesse momento e se sentia protegida em meio à multidão.