Atrás da Porta

Adriana Gavazzoni · Capítulo 6 de 9 · parte 3/4

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Atrás da Porta

Capitulo Dezenove

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

– Você conheceu muito bem a mulher dele, Madeleine Kevingston.

– Madeleine Kevingston... sim, foi minha paciente, mas faz muito tempo que desistiu da terapia, nunca mais a vi.

– Você a convenceu a deixar meu irmão! Ele enlouqueceu... Começou a persegui-la... Aí um dia ele estava bêbado e a convenceu a entrar no carro com o menininho, que Victor não via fazia algumas semanas. Ele atirou os três embaixo de um caminhão!

– Como você sabe que não foi um acidente?

– Meu irmão foi piloto de competição, ele não sofreria um acidente.

– O que você sabe sobre o relacionamento de seu irmão com Madeleine?

– Ele era louco por aquela mulher e pelo filhinho deles! Faria qualquer coisa por eles.

– Seu irmão era um homem violento, Alvin, ele agredia regularmente Madeleine... Houve diversas passagens dela por hospitais... Da última vez ele provocou uma concussão cerebral nela... Ela quase morreu. Eu, obviamente, recomendei que o deixasse, porque a sobrevivência dela estava em risco.

– Isso não é verdade... Meu irmão era gentil... Não machucaria ninguém!

Alvin estava visivelmente irritado com a ideia de que seu amado irmão pudesse ter defeitos. O diagnóstico de Simone estava correto! Ele havia fabricado tudo o que dissera no consultório. Ela sabia por que ele não demonstrava emoções enquanto fala. Agora as palavras eram genuínas, com emoções por trás delas.

– Há provas, Alvin! Há registros nos hospitais... Você, como parente, conseguirá acesso... Eu tenho cópias, posso deixá-lo vê-las. Madeleine vivia apavorada... Eu sei que é difícil para você ouvir isso... Era seu irmão... Mas é a verdade... Ela dizia que seu coração disparava apenas de ouvir a porta da casa se abrindo, que nunca sabia como ele iria entrar, se louco enfurecido ou normal. Muitas vezes ele entrava enfurecido e sem qualquer motivo batia nela. Numa ocasião ela perdeu um bebê!

– Isso é verdade, doutora? – ele finalmente parecia acreditar.

– Sim, é verdade, Alvin. Há também uma denúncia na polícia... que depois ela retirou... Eu não sei o que seu irmão lhe contou, mas Madeleine o amava, só que não suportava mais a vida em comum.

Alvin parecia desconsolado, a face mostrando sinais de surpresa e dor.

– Ele era mais que um irmão... era metade de mim, doutora... Ele me disse que você aconselhou Madeleine a abandoná-lo e não sabia o porquê. Ele era meu sócio, doutora, tinha muito dinheiro e propiciava uma bela vida para Madeleine. Tinham um filho, não havia nada de errado para ela abandoná-lo. Moravam numa bela casa, com carros, e ele lhe dava joias caras.

– Cada vez que ele batia nela, Alvin, ele lhe dava uma joia. As joias eram a forma dele de pedir desculpas quando estava sóbrio. Madeleine me disse que não as usava porque a faziam lembrar de episódios horríveis.

– Esse não é o irmão que eu conheci, doutora!

– Compreendo, Alvin, mas você tem que entender que ele tinha um outro lado, era ciumento, possessivo e violento, especialmente por causa do problema com álcool. Ele bebia muito e usava cocaína.

– Álcool? Não venha me dizer agora que meu irmão era alcoólatra e um viciado de merda? Ele bebia uma cervejinha de vem em quando, mas não abusava, e também não era drogado!

– Você nunca notou? Infelizmente, Alvin, ele era um alcoólatra contumaz. Madeleine tentou ajudá-lo a deixar o vício, ele chegou a frequentar os alcoólicos anônimos numa igreja do bairro onde viviam, eu não saberia lhe dizer qual. Mas tinha recaídas, daí abandonou o tratamento. Ele se recusava a frequentar a terapia. Ela aguentou o quanto pôde, Alvin. Aquela mulher amava seu irmão, ela tentou ajudar, mas ele ficava cada vez mais violento e ela já estava temendo pela segurança do menino.

– Ele agrediu a criança alguma vez?

Simone pensou em contar a Alvin toda a verdade: Madeleine deixou o marido na primeira vez em que ele agredira a criança. A expressão devastada de Alvin fez com que ela mudasse de ideia. Pelas perguntas que ele fazia, viu que já estava convencido da história.

– Não sei, Alvin, mas agrediu Madeleine, quase a matou. Ela não podia mais ficar com ele. Eu estava certa de que ele a mataria... E agora você me conta sua suspeita de que ele tenha feito exatamente isso. Vejo que eu estava correta.

– Não sei mais o que pensar, doutora.

– Quais eram suas intenções ao se aproximar de mim?

– Eu queria desmascará-la, doutora, expor publicamente seus métodos de pesquisa, enfim, eu faria algo para danificar sua imagem, para que você perdesse uma das coisas que parece mais amar: sua profissão. Mas agora tudo perdeu o sentido. Só acreditei em mentiras e dediquei os últimos meses da minha vida a criar uma teia à sua volta para apanhá-la como uma mosca – ele passava as mãos pela cabeça em sinal de desespero. – Vou investigar tudo o que disse, doutora, mas penso que deve ter razão… Tenho que ver…

– Como Edward não o reconheceu quando você fingiu ser Victor no encontro com ele?

– Eu contratei outro cara para encontrá-lo.

– Foi você quem matou a Mona, Alvin?

– Por Deus, doutora, não sou um assassino! – a expressão dele mostrava indignação. – Nunca quis machucar ninguém, só ia assustar a senhora um pouco, dando uma de paciente maluco. Alguns telefonemas anônimos, mas acho que exagerei e a senhora me dispensou rápido. Era só até eu conseguir expor a senhora... Fiquei sabendo da sua secretária, uma boa moça, a defendia muito, leal, mas não tenho nada com isso.

– Acredito em você, Alvin, de verdade – Simone viu sinceridade no olhar dele.

– Me desculpe por tudo, doutora!

– Alvin, posso lhe fazer mais uma pergunta?

– Acho que lhe devo respostas mesmo… Pode, doutora…disse ele abaixando a cabeça.

– Algo do que você me disse em consultório era real?

– Nada, doutora, nenhuma palavra… Li seu livro sobre comportamento sexual e fingi ser um maluco com algumas características que a senhora descreveu lá…

– Fico feliz, porque era essa a impressão que eu tinha desde o começo. Meus instintos não me enganaram. Eu sabia que nada do que me contava era real – Simone se levantou para sair, pois estava cansada. Mas se sentia feliz, porque sua técnica profissional detectara a mentira logo no começo. Assim, podia dizer que Alvin não era um assassino. Quando estava perto da porta, Alvin a chamou:

– Doutora, quando eu sair daqui, voltaria a me tratar?

– Alvin, acredito que não tenho mais condições de fazer isso. Existe um elo de confiança entre paciente e médico que foi quebrado aqui. Eu não poderia mais fazê-lo, não seria ético.

– Isso foi uma das coisas que mais me surpreenderam na senhora, doutora: sua ética. Não era compatível com alguém do mal. Eu ficava em dúvida…

– Posso lhe recomendar um colega?

– Pode sim, doutora.

Desta vez Alvin não protestou.

– Seja feliz, Alvin!

– Você também, doutora! Sinto muito por Mona, boa menina.

Ao sair, Simone encontrou Edward, um policial e um dos investigadores do caso, que estavam escutando tudo atentamente.

– Doutora, o que a senhora acha?

– Ele não matou ninguém.

– Sou da mesma opinião – acrescentou Edward. – Mas talvez tenha contratado alguém para fazer o serviço.

– Ele continua sendo nosso suspeito número um – disse o investigador.

– Venha, Simone, vamos para casa.

– Para qual casa?

– Para onde quiser. A partir de agora você está sob escolta policial. Haverá um carro de polícia parado em frente à sua casa e na clínica. Não podemos contar com a sorte com esse maníaco à solta. Ele parece saber tudo sobre você, e nós não sabemos nada sobre ele.

– Falando nisso, Ed... E sobre o táxi que estava parado, descobriram algo?

– Os Peddinghouse estão viajando, num cruzeiro. Conseguimos descobrir qual e contatá-los a muito custo. Disseram que já estavam viajando naquele dia. O táxi não era para eles. Estão retornando e informaram que têm um sistema de vigilância e que vão ceder o que estiver gravado para a polícia, mas não sabem sequer se ainda funciona. É muito velho e foi o filho que insistiu em instalar, mas nunca revisaram ou verificaram se ainda funciona.

– Aquele táxi pode ter algo a ver com o crime? – Simone perguntou.

– Estamos apostando nisso. Agora o FBI entrou no circuito, Simmie, tudo vai ser mais rápido. Eles estão com um time completo investigando.

– FBI?

– Sim, eles têm jurisdição quando é caso de serial killers. O corpo jogado nos seus degraus qualifica o caso como serial, e já havia sido requisitada a intervenção. Agora, com a morte de Mona, eles estão atuando diretamente. Nossa polícia local vai ajudar com as evidências que reuniu, mas agora o caso está nas mãos da equipe do FBI.

Quando estavam saindo da delegacia, foram comunicados que havia uma multidão de repórteres em frente ao prédio. A história não ficara oculta e toda a imprensa local dava cobertura ao caso. A polícia retirou-os pelos fundos da delegacia.

* * * * *

No dia seguinte a TV e os jornais estavam cheios de matérias sobre o crime. Estampavam Simone como uma das vítimas perseguidas pelo assassino e Alvin como um dos suspeitos detidos, mas já liberado sob fiança.

A última coisa que a polícia e o FBI queriam era esse tipo de cobertura. Acreditavam que isso faria com que o assassino fosse atuar em outra região, o que poderia deixar o caso sem solução por anos.

Edward não estava tão certo de que esse seria o rumo dos acontecimentos. Alvin ainda seria seriamente investigado. Ele não havia cometido nenhum crime, era quase certo. Mas poderia estar ligado ao serial killer de alguma forma. Estava sob fiança e proibido de viajar. Mas assim como Simone, Edward não acreditava que estivesse envolvido no caso, e o fato de que a imprensa tinha um suspeito poderia trazer o assassino à luz.

Assassinos em série geralmente não gostam de dividir o crédito por suas atrocidades. Havia uma chance de que o serial killer tentasse deixar claro, de alguma forma, que Alvin não era o culpado.

Naquela noite, Carl telefonou para Simone. Pelo jeito a notícia das mortes estava circulando por todo o país, com matérias nos principais jornais televisivos e escritos. Ele naturalmente ouvira as notícias.

– Você está bem, Simone? Fiquei preocupado com você.

– Penso que, se tivesse um treinamento menos rígido para lidar com problemas e emoções, eu estaria destruída agora, mas como consigo colocar as coisas num plano mais cientifico, estou apenas triste e preocupada.

– Foi sua secretária essa vítima de que falaram?

– Sim, foi. A Mona foi minha secretária por quase dez anos. Era como uma filha para mim.

– Sinto muito, Simone. Você precisa de alguma coisa?

– De normalidade, mas acho que infelizmente isso ninguém pode me dar. Muito obrigada por perguntar, Carl.

– Se precisar, fuja para Nova York!

– Vou ter isso em mente, mais uma vez lhe agradeço a atenção. Vou tentar manter nossa agenda e terminar o texto até o final de semana.

– Não foi por isso que liguei, e entenderei se precisar de mais tempo. Não sei como você consegue ler em meio a esse caos.

– É a única coisa que tira minha mente da realidade dos problemas, Carl.

Conversaram um pouco mais, ele muito solícito e nitidamente preocupado, mas Simone estava anestesiada com os últimos acontecimentos. Não conseguia se entusiasmar por nenhuma conversa. Estava triste pela perda de Mona, por quem tinha grande afeto.

Simone e Edward contrataram Mona quando ela tinha apenas dezoito anos, recém-saída da escola. Ela era uma menina sem muitas ambições, mas sempre feliz e disposta a ajudar. Rapidamente se tornou o braço direito de Simone: cuidava de sua agenda, de sua vida, marcava médicos quando sabia que Simone precisava fazer revisões, estava sempre presente com uma xícara providencial de chá, uma maçã “assadinha”, como chamava as maçãs que esquentava por alguns segundos, porque sabia que Simone odiava frutas geladas. Era mais que secretária, era uma amiga leal. Uma das poucas pessoas que cuidavam de Simone, e não o contrário.

"Preciso chorar", pensou Simone. Só que não estava conseguindo. Sentia apenas exaustão e tristeza imensas. Talvez em alguns dias as lágrimas viessem, como uma avalanche, mas agora só sentia a dor profunda da perda de uma grande e insubstituível amiga.

Ela leria um pouco, como havia dito a Carl. Era a pausa na tempestade furiosa que assolava sua mente em busca de respostas.

O Diário de Mark

O último esqueleto no armário?

Lara rapidamente me ligou tentando explicar a questão da passagem. Progressos realmente estavam sendo feitos – apesar de estar com fuga marcada, iria explicar…

– Mark, eu ia lhe contar hoje sobre a viagem…

– Claro, com muita antecedência, porque afinal você viaja amanhã, não é?

– Eu não sabia como lhe explicar…

– E agora já sabe?

– Veja… Eu quero desamarrar uns nós antigos que deixei em Paris… Quero deixar tudo em dia para nós dois…

– Que “nós antigos” são esses? Ou quer se colocar em novos nós? – fiz referência às fugas para praticar sadomasoquismo.

– Não, nada disso, são coisas minhas. Não quero falar sobre isso agora, mas você tem que confiar em mim, Mark. Estou mudando, você sabe disso. Preciso de um voto de confiança. Estou tomando meus remédios corretamente, estou melhor. Esse problema é de longa data, preciso resolver para poder prosseguir a minha vida.

– E esse voto de confiança significa não perguntar?

– Conto tudo quando voltar, pode ser?

– E de quanto tempo vai ser essa “desamarração de nós”?

– Preciso também fazer compras para esse novo projeto…

– Ou seja… vai ser longo…

– Não tanto, prometo. E prometo sério que não estarei com ninguém em Paris, ou melhor, só com os três mosqueteiros… Juro para você que não me envolverei com outros homens. Você sabe que quero ficar com você, fui eu que fui atrás dessa última vez, lembra?

– Se não vai estar com ninguém, vai a trabalho, por que o segredo, Lara? Por que o temor de dividir comigo? Há quanto tempo sabia da viagem?

– Quando apresentei o projeto ao hotel, eu já sabia que teria que viajar… mas não sabia quando. Faz uns três dias que tudo se delineou… Eu não queria atrapalhar a gente, estávamos tão bem…

– Atrapalhou! Não sou seu inimigo para você fazer as coisas escondido! Quando estou começando a confiar em você, vem uma surpresinha. Sabe, Lara, é muito alto e baixo, quente e frio para mim. Vamos tentar um pouco de plano, morno?

– Posso ir até aí?

– Melhor não, Lara, eu também tenho minhas necessidades de solidão e não estou a fim de ficar com ninguém agora. Faça uma boa viagem.

– Deixe-me ir até aí… por favor? – fez aquela vozinha infantil que me obrigava a fazer tudo que ela queria.

– Ah, Lara… venha!

Chegou trazendo comida, foi até minha cozinha, arrumou a mesa, esquentou o que trouxe, abriu um vinho. Estava realmente muito culpada! Nunca vi Lara buscar um garfo na cozinha – aliás, eu tinha a sensação de que ela nem sabia onde ficava, mas era o tipo de coisa que fazia quando queria agradar.

– Mark, vamos jantar?

– Sim, estou com fome, vamos – me sentei para comer, de humor azedo. Fiquei calado, ela também.

– Mark… Eu sou casada…

– O quê?

Só me falta essa, agora. A qualquer momento vai aparecer um marido porta adentro, vou levar um tiro. Engasguei com o vinho. As palavras dela me atingiram como um soco do Mike Tyson. Todos os pensamentos irracionais do mundo brotaram na minha mente.

– Calma, Mark! – disse ela, dando tapinhas na minhas costas para me desafogar. É só no papel. Estou separada há muitos anos. Resolvi lhe explicar por que vou a Paris. Não acho justo deixar você no escuro, as coisas estão indo tão bem entre nós.

– É, agora é bom explicar, mesmo! Vai lá celebrar algum aniversário de casamento que esqueceu?

– Mark, às vezes você é um babaca! Estou indo lá pela zilionésima vez tentar obter o divórcio.

– Como assim?

– Com detalhes?

– De preferência do começo.

Eu tinha certeza que o que sairia da cartola seria uma gárgula, e não um coelhinho fofinho.

– Depois da faculdade, fui fazer pós-graduação em decoração de interiores na França. Dois anos em Paris, as coisas pareciam razoavelmente nos eixos, minha vida naquele momento seguia padrões ditos normais. Eu tinha vinte e três anos.

– E?

– E Paris… bem, você conhece e sabe como é. Para alguém aos vinte e três anos, cheia de sonhos profissionais, qualquer rua de Paris é uma aula de arquitetura. Eu havia prometido a mim mesma que faria as coisas como uma pessoa normal, que namoraria um cara normal, que faria sexo numa cama, estava tentando me ajustar.

– Mas?

– Conheci Nicholas no segundo semestre. Ele tinha uns quarenta e cinco anos e era professor de iluminação. Um homem charmoso e bonito, sempre com suas echarpes coloridas e seus ternos bem cortados, ele fugia do padrão de professor de arquitetura, na maioria das vezes despojado.

– E você se apaixonou? Por outro homem mais velho?

– Sim, mais velho, divorciado, pai de três filhos!

– Puta que pariu, Lara! Não me diga que você casou com ele?

– Com ele e com todos os problemas dele… seis meses depois que nos conhecemos…

– Ninguém pode acusar você de prudência..

– Ele era doce até para falar, me explicava filosofia, história, era maduro, bem-sucedido.

– Vinte e três anos mais velho…

– Vinte e dois.... é… de alguma forma a experiência dos homens mais velhos, a sofisticação me fazia falta. Não era consciente, mas lembre-se, o primeiro homem da minha vida, bom ou ruim, era experiente. Os demais pareciam tão meninos, tão indefesos!

– E você precisava da experiência…

– Mark, por mais que eu ame Paris, eu estava sozinha, longe da minha família. Estava vulnerável a relações arriscadas para curar minha solidão. Precisava me sentir cuidada, Mark. De meninos você cuida, com homens há uma aparente sensação de ser cuidada.

– Aparente? Só isso?

– No caso do Nicholas… o casamento durou um ano… Ele era completamente instável.

Pensei: vindo da “rainha da estabilidade”, o que significará isso?

– Instável?

– Bem, quando fui para Paris, decidi que iria ser feliz. Abandonei meu psiquiatra, pois queria viver uma vida normal. Chega de dramas, pensei, e não consegui avaliar que estava repetindo padrões…

– A velha busca pelo opressor que você me relatou?

– É… rapidamente nos complementamos nas nossas doenças. Ele tinha sérios desvios sexuais e entendeu que eu tinha os meus. Minha desenvoltura na área deixou claro do que eu gostava... Eu nunca tive coragem de contar a ele minha história.

– Um verdadeiro casamento baseado em confiança…

– Me economiza da ironia, Mark, não combina com você… Um verdadeiro casamento embasado em “eu quero ser normal, não quero ser vítima nem digna de pena”.

– Ok, me desculpe. Vou ser sincero, Lara. É que me dá ciúme só de pensar que você se casou!

– Tá, Mark, é meu passado, não posso mudá-lo, se pudesse…

– Eu sei, eu sei, bobagem, continue.

– Eu tenho TDAH.

– Que diabos é isso?

– Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Não consigo ficar parada.

– Cristo, só o nome já me assustou. Explique, por favor.

Eu sempre soube que ela não era normal, mas uma condição daquelas? Que bom que não queríamos filhos, eu me preocuparia em como eles seriam.

– Falta uma substância no meu cérebro que torna uma região inativa. Altas doses de adrenalina ativam a região. É por isso que sou viciada em adrenalina e em emoções fortes. Eu preciso delas. Não consigo me concentrar nas coisas, preciso de estímulos externos para prestar atenção. Fico entediada facilmente com atividades repetitivas.

– Então seu desejo de aventura tem causa. Isso vem do trauma na adolescência?

– Não, é hereditário. Acho que vem do lado da família da minha avó.

– Ah, Emma, a aventureira!

– Exatamente.

– E é sempre assim? Isso é constante?

– Sim, se eu não estiver medicada. Mas estou tomando remédios, não se preocupe, estou sob controle. Mas lá atrás eu parei de tomar... Ritalina, antidepressivos, e meu vicio de adrenalina voltou com tudo.

– E você soltou as rédeas com seu marido.

– Logo estávamos juntos fazendo ménage, suingue, enfim… minha velha vida havia voltado. Para complicar um pouco mais, descobri que ele era bissexual…

– Lara, tem certeza de que você não é mexicana? Porque mais trágica que sua vida, só uma novela mexicana, meu amor. Luz Clarita, Luz Clarita, te amo!

– Mark, isso não é piada, é minha vida, minha merda de vida!

Ao dizer isso, os olhos dela se encheram de lágrimas e me senti um idiota insensível.

– Desculpa mais uma vez, acho que hoje estou num péssimo dia.

– Está! Quer que eu continue?

– Quero!

– Numa das transas, ele ficou com um rapaz. Fiquei chocada em principio, mas ele me acalmou dizendo que nosso casamento não era convencional e que se houvesse prazer nada seria errado.

– E você?

– Minha cabeça é tão maluca que eu aceitei e aceito até hoje. Entendo que prazer e normalidade não andam de braços dados, Mark.

– Então não foi essa a razão da separação?

– Não… Acontece que rapidamente ele começou a se revelar um novo Arthur na minha vida… Tentava controlar meus passos, as roupas que eu vestia, os amigos que ele tentava sempre expulsar da minha vida, minhas idas e vindas... Quando vi, eu não tinha marido, tinha novamente alguém se achando meu dono e decidindo meu destino.

– E como você reagiu?

– Ah, calma, tem mais… Lembra que eu disse que ele tinha três filhos?

– Sim.

– Vinte, dezessete e catorze anos, todos meninos, que iam e vinham como queriam. Ele não conseguia ter o menor posicionamento com eles, mentia para eles e para mim, porque não conseguia nunca dar a palavra e manter. Virou uma confusão: o mais novo foi internado por consumo de drogas, o do meio era o mais normal, hoje em dia é arquiteto, acho que o influenciei, e o mais velho parecia um hippie pós-moderno.

– Nossa, que cena dos infernos! Nicholas era agressivo?

– Não como Arthur, mas tinha traços sádicos, sexualmente falando.

– Como você ficou em tudo isso?

– Meus fantasmas todos foram liberados do calabouço, Mark… Eu vivia instável com ele, e ele me dizia frases do tipo: "sem mim você não será ninguém, não encontrará um homem que a aceite como é"...

– Como se você fosse uma deficiente mental?

– Ou algo do estilo… Minha condição me faz sentir assim algumas vezes, e ele descobriu rápido. Felizmente Emma pressentiu que algo ia mal… Ela e meu pai tinham ido ao casamento, os dois visivelmente contrariados, mas me deixando viver minhas escolhas... Emma começou a estranhar meu silêncio, pegou um avião e aterrissou na nossa porta…

– Eu amo essa mulher retroativamente!

– Quando abri a porta e vi que era ela, me atirei em seus braços chorando e pedi para me ajudar. Para variar, Emma tinha o dom de me fazer confessar. Ela me acomodou no sofá, me deu um copo d'água, recolheu como pôde meus livros, minhas coisas, algumas roupas, chamou um táxi e me levou para o estúdio.

– E ele?

– Tentou falar comigo diversas vezes na pós, que estava no final. Todas as vezes eu ameaçava um escândalo e ele tinha medo – professor e aluna, mesmo tendo se casado... nunca acaba bem para o primeiro… Em um mês terminei a pós, Emma ficou comigo até o fim e me trouxe para casa.

– E por que você não se divorciou antes?

– Porque ele simplesmente se recusa. Eu nunca quis brigar, mas agora decidi que vou. Théophile já tem um advogado que vai cuidar do caso. Eu vou fazer uma última tentativa de conversar com ele, senão… vamos levá-lo ao tribunal.

– E por que você ia escapando em vez de me falar?

– Porque, como você mesmo disse, eu já estou virando uma caricatura de novela barata e tenho medo que você perca o respeito por mim. São tantas as cenas patéticas na minha vida…

– Lara… isso é tudo? É o último esqueleto?

Eu me sentia montando um quebra-cabeças daqueles de cinco mil peças, em que sempre falta uma pecinha para encaixar.

– Penso que sim.

– Você quer que eu vá junto? Não poderia ser agora, teríamos que esperar um pouco…

– Não, entrei nessa sozinha, vou sair sozinha.

– Você tem forças para isso?

– Confie em mim, já lhe disse, estou bem melhor, estou bem centrada, agora.

Depois do jantar e de mais uma sessão de tango argentino clássico da vida de Lara, ficamos um tempo no sofá, ouvindo música, ela aninhada em mim, fazendo-nos carinhos recíprocos.

– Vou sentir saudades… – disse Lara em meus braços. O perfume dela jamais sairia das minhas narinas.

– É… vai… eu também.

– Quero você, Mark… – e começou a desabotoar minha camisa vagarosamente, passando a mão pelo meu peito. Então se posicionou sentada em meu colo, com as pernas enroscadas em minha cintura, começou a cobrir meu rosto de pequenos beijos sensuais, mordeu vagarosamente meu lábio inferior e passou a língua por ele, meu pau tentando explodir para fora da calça.

Ela correu a língua pelo meu pescoço, pelo meu torso, escorregou inteira para o chão, ficou de joelhos, desabotoou meu cinto, tomou meu membro com a boca e as duas mãos e me chupou com lentidão, descendo e subindo, imitando movimentos de penetração. Quando ela chegava na ponta do membro, apertava com os lábios e descia novamente – enlouquecedor! Ela repetiu os movimentos vezes sem fim, aumentando lentamente a velocidade. Quando eu estava arfando, quase para gozar, ela parou.

Lara se levantou, começou a tirar a roupa numa espécie de show erótico, o jeans, a camisa negra que usava, estava com um sutiã e um fio dental minúsculo, pretos, mas não tirou as peças. Afastou a calcinha de lado e montou em mim, enroscou as pernas no meu quadril. Maravilhoso sentir o calor de Lara e o roçar da peça, a lingerie sexy parecia uma moldura de uma bela pintura. Lara me cavalgou até gozarmos juntos. Daí me abraçou na mesma posição em que estava, com as pernas cruzadas em minha cintura, e ficamos ali um longo tempo, ouvindo a chuva que metralhava as janelas.

Dormimos abraçados. Ela partiu cedo no dia seguinte. Me ofereci para levá-la ao aeroporto, ela disse que odiava despedidas de saguão. Não argumentei. Meu coração ficou dolorido.

O Diário de Mark

Escolhas

No dia seguinte, marquei uma consulta com um novo terapeuta, menos radical que a anterior. Ele parecia compreender minha necessidade de Lara. Expliquei a ele todos os problemas envolvidos, ele conhecia a história e estava me ajudando a entender me melhor. Disse-lhe tudo o que Lara me contara antes de viajar.

– A deficiência dela é séria, Mark. Muitas pessoas sofrem disso e é traumático, porque, enquanto são desatentos e se entediam com coisas comuns, são absolutamente brilhantes quando algo lhes interessa.

– Entendo. Ela me parece brilhante e pateta ao mesmo tempo.

– Sim, eles são realmente especiais. Sabem disso e isso os deixa tristes. Acho bom que ela tenha lhe contado. Ajuda você a entendê-la melhor.

– Mas a coisa toda, o déficit, o casamento maluco, foram mais bombas que ela jogou na minha cabeça.

– Então, ela bombardeou Pearl Harbor e zarpou para Paris…

– Ou está zarpando agora, não sei o horário… Apenas vi o dia…

– E você?

– Ao mesmo tempo em que estou mais aliviado por entender o que ela vai fazer lá, ainda me sinto traído pela forma como ela partiu. Isso me faz amá-la e odiá-la. Fico me sentindo um retardado completo, querendo que o avião dela exploda em pleno ar e que ela vire carne moída.

O terapeuta riu.

– É, acho que agora incorporei um amigo gay, fiquei trágico.

– Seria gay se desejasse uma chuva de purpurina. É natural o seu ódio, vocês não conseguem ter uma vida normal por muito tempo e você se desestabiliza.

– Às vezes receio o que poderia fazer com ela numa dessas ocasiões, porque o impulso é de matá-la! Principalmente quando ela parte.

– É um impulso natural, mas você tem os pés no chão, não o faria. Esse desejo de eliminar o que nos causa dor é normal, todos o temos na vida, no trânsito engarrafado, quando ouvimos um desaforo e às vezes até por um simples não. E as partidas de Lara o afetam.

– Você acha que ela vai se relacionar com alguém em Paris?

– Não sei, não a conheço. Quero que você me responda isso, Mark…

– Penso que não… Ela me diria… O pior de Lara é isso: ela faz e fala!

– Então você crê que ela não o fará?

– Ou quero acreditar, não sei. Mas na volta saberei, ela me contará…

– E o que vai fazer nesse meio tempo?

– Vou praticar o desapego, aproveitando que ela está fora.

– Não compreendi, poderia explicar?

– Vou viver minha vida como se Lara não existisse… Sair com meus amigos, ver outras pessoas…

– Outras mulheres?

– Sabe, Dr. Allan, não tenho certeza de que essa é a última surpresinha desse Kinder Ovo. Quero uma vida normal, encontrar uma mulher normal, para variar. Tem tantas nesta cidade, será que nenhuma é para mim?

– Vocês têm algum tipo de promessa ou pacto de fidelidade?

– Eu e Lara? Nunca sentamos e fizemos um contrato. A vida com ela é o que lhe falei: parecemos um alcoólatra anônimo em recuperação. Vivemos um dia de cada vez, ou um susto de cada vez.

– Penso que você deve tentar fazer o que é melhor para você… Se for para ficar mal com a consciência, não faça. E se ficar bem… decida, as escolhas sempre trazem consequências, Mark.

– Eu não sei… Escolher Lara é uma sensação de que estou escolhendo nadar contra a correnteza para o resto da vida.

– E está! Ela fará as escolhas que quiser, não as que você queira. Não adianta, Mark, Lara tem problemas reais. O déficit que ela tem... geralmente os pacientes param com o medicamento que os deixa entediados. Você acha que ela vai mudar?

– Você acha que não?

– Ninguém muda por alguém, e Lara tem perturbações emocionais profundamente arraigadas. Ela tem traumas, haverá recaídas. Você terá que aprender a conviver com isso ou desistir.

– É, eu sei, laranja é laranja, maçã é maçã…

– Exatamente!

Eu odiava os terapeutas e sua necessidade de dar um tapinha na cabeça elogiando para melhorar a autoestima do paciente. Sentia que eram condescendentes comigo.

– Você pode decidir que não gosta mais de maçãs, se elas o fazem sofrer mais do que sentir alegria – prosseguiu o Dr. Allan. – Mas não conseguirá converter uma maçã numa laranja.

– E se eu não conseguir viver sem ela?

– Aí está a resposta: aceite-a do jeito que é! Você sofrerá menos.

Saí de lá com aquela sensação de que acabara de sair de uma reunião de diplomatas da ONU. O cara não me deu nenhuma direção. Sentou em cima do muro e ficou olhando para que lado eu escolheria pular – escolhas, escolhas, papo de terapeuta, pensei.

Saí com Peter para almoçar num pequeno restaurante perto do meu escritório, um lugar chamado Verdes Escolhas, que Peter propusera com o argumento de que precisava perder peso. Ele estava mal-humorado com a ideia de que eu e Lara estivéssemos juntos. Como os amigos conseguem, às vezes, ser mais ciumentos que uma namorada!

Cheguei cedo e consegui uma mesa para nós, fiquei admirando a decoração simples e olhando para as fotografias emolduradas de estrelas de cinema que recobriam as paredes brancas.

– E aí, a “princesa das trevas” sumiu novamente?

Levantei os olhos ao som da voz de Peter. Ele não havia sequer me cumprimentado antes de começar a criticar. Realmente, não era o meu dia...

– Olá para você também, e não, ela não desapareceu, foi a Paris…

Peter não se incomodou em me dizer um oi.

– Ah, como imaginei. Sumiu novamente e o deixou aí, sozinho – ele realmente estava aborrecido com algo, fazendo caretas e trejeitos enquanto falava.

– Peter… – deixei claro, pelo tom da minha voz, que eu o estava advertindo, não estava com humor para isso hoje.

– Certo, mas no futuro não diga que não avisei!

– Longe de mim contrariar você, Peter! Estava com saudades, pare de ser chato, nós dois somos seus amigos, você deveria torcer pela gente.

– Sim, torço: para que ela se mude para Paris e você volte para sua chata e velha vida, sem risco de virar caco no processo. Ela é meu modelo de mulher, mas você é caro ao meu coração.

– Obrigado, Peter, mas ela está mudando.

– Pintou o cabelo? Fez plástica? São as únicas mudanças possíveis nela.

– Ok, agora chega disso. Vamos falar sério. O que você tem feito? Sumiu mais do que a princesa das trevas.

– Aqui e ali... Fui até a China.

– Literalmente?

– Sim, preciso ver meus fornecedores de perto, de tempos em tempos… e me divertir, também.

– Na China?

– Ahhhh, senti certo preconceito com a China ou você acha que na China não há homens bonitos?

– Não, só fiquei curioso… Você não namora a sério nunca, Pete? Por aqui mesmo?

– Eu tento, mas ninguém num raio de cinco mil quilômetros me quer! – e fez um beicinho infantil.

– Sei… O que você faz para pôr os homens para correr, Pete?

– Sou quente demais para o mercado, quer tentar?

– Peter… Se não fosse meu amigo, eu batia em você.

– Ai, não faça isso, que aí eu enlouqueço! E se fizer, não bate na carinha!

Conversamos mais uma boa meia hora de bobagens. O bom de Peter é que, quando ele não estava cínico sua companhia, era muito engraçado e divertido, e parecia que a campanha contra Lara havia passado.

Uma morena estonteante, mas perfumada demais, se aproximou de nós e deu um beijo no rosto de Peter, me encarando com um olhar de “quero você, vamos transar”.

– Keyra, querida, que bom ver você por aqui. Deixe-me apresentá-la ao meu querido amigo Mark. Mark, esta é Keyra, minha amiga maravilhosa, dona das butiques Fast Fashion Planet Teen. Keyra, este é Mark, meu amigo e advogado.

– Prazer, Keyra – estendi a mão, ela se aproximou e me beijou a face. Me ocorreu que a mulherada estava cada vez mais agressiva, e o perfume dela, com cheiro de puteiro de Tijuana, me incomodava.

– Muito prazer, Mark. Peter já havia contado que você é um gênio do direito tributário. Encantada em conhecê-lo.

– Peter é um ótimo amigo e um cliente trabalhoso, também. Tiro-o de grandes confusões, por isso me acha um gênio.

– Eu importo para as lojas de Keyra, Mark.

– Imaginei. Quer se sentar conosco, Keyra? – ofereci por educação.

– Claro! Que ótimo, minhas amigas ainda não chegaram.

Hum, amigas… quem sabe alguma fosse agradável de olhar e não tivesse tomado banho de perfume.

Logo se tornou claro que as amigas nunca chegariam. Depois de quarenta minutos de conversa animada, a mulher continuava ali. Peter armara para mim! Feliz coincidência para mim seria encontrar meu cachorro-quente favorito instalado em frente à minha casa. Uma morena deslumbrante, solteira, como já fizera questão de enfatizar, dando mole… obra de Peter… estava declarada a campanha “separe-se de Lara”... Bichinha óbvia...

E quando pensei que Peter ao menos iria disfarçar, ele veio com mais uma:

– Ai, queridos, vi que vocês se entenderam superrrrrrrrrrrrrrr bem, infelizmente eu tenho que ir, tenho outro encontro…

– Sério? Com Michael?

– Quem é Michael, Peter, eu conheço? – a morena não era uma amiga tão antiga assim. Não conhecia Michael…

– Acho que conhece… – disse Peter. – Mas não é com ele…

Peter apenas me olhou com um olhar assassino, do tipo “fale em frente à minha cliente que sou viciado no poderoso chefão e corto seu saco”.

– Ok, Peter, vai lá… Mas não pense nem por um minuto que não estou entendendo…

– O quê? – disse a bicha sem vergonha e cara de pau, e ainda piscou as pestanas.

– Bye, Peter.

– Bye, Keyra e Mark, kisses, kisses, love you, não façam nada que eu não faria... – e saiu rapidinho parecendo um pavão.

– Então, Keyra, você conheceu Peter onde?

– Nós nos conhecemos numa feira. Ele me ofereceu a possibilidade de produzir na China, eu não me interessei, pois estava desenvolvendo as roupas por aqui e o custo era alto, mas ele é altamente sedutor, conseguiu me convencer de que eu teria uma redução de mais de quarenta por cento se trouxesse da China, e estava com a razão.

A frase saiu toda sem que ela respirasse.

– E a qualidade?

– Bem, vejo que você não entende nada de fast fashion. Não se trata de qualidade, mas de quantidade de modelos e rapidez de reposição. A meninada quer mudar de roupa, simplesmente, não quer deixar de herança.

E lá foi a moça – e era bem moça, deveria ter uns vinte e oito anos – discorrer sobre o mercado da moda adolescente entusiasmadamente. Eu não estava entusiasmado para nada. Em primeiro lugar, porque detesto ser feito de idiota; em segundo, detesto me sentir carne no mercado; e em terceiro, ou talvez primeiro, meus dias de pegar, transar e adeus, muito obrigado, estavam longe.

Mas sou um cavalheiro. Não iria me levantar se a moça não fizesse menção de fazê-lo, e lá se foi mais uma hora e pouco com a mulher num monólogo sem fim. Eu me segurando para ficar na cadeira, meu pé já parecia uma britadeira, de tanto chacoalhar. impacientemente, um defeito meu, fico movendo um dos pés quando estou impaciente.

Por fim, acho que ela desistiu de falar e partiu para a agressão:

– Mark, e se fôssemos tomar um drinque no meu apartamento ou no seu para ficarmos mais à vontade?

– Keyra… vou ser sincero com você… Você é uma mulher linda, em qualquer outro momento da minha vida eu a levaria para tomar um drinque onde quisesse, eu mesmo a convidaria. Sei que Peter armou esse encontro – nisso a moça ficou vermelha –, mas não me entenda mal, eu tenho um relacionamento que obviamente não agrada a Peter, mas eu amo a mulher que está na minha vida. Assim, não me sinto confortável para sair com outra pessoa, por mais linda e interessante que seja.

Forcei um pouco nos elogios, mas não queria magoar ninguém, apenas me livrar dela.

– Mark, estou com vontade de me esconder embaixo de uma pedra, que vergonha! Peter disse que você era solteiro…

– Sou, na verdade divorciado, mas tenho alguém.

– E é sério, obviamente.

– Para mim é. Sou da velha guarda, Keyra. Enquanto está bom eu fico, se ficar ruim eu parto, o que não consigo é me dividir, e não começaria nada para enganar alguém.

– Você é admirável, é de Nova York realmente ou veio de lá? – apontou para o espaço.

– Sou daqui, mas fui criado por um homem que a vida inteira amou uma só mulher, o que infelizmente não foi meu caso, mas que me ensinou muito.

– Mark, obrigada pela sinceridade, desculpe pelo teatro, mas homens interessantes nesta cidade são raros, e vejo que Peter tinha razão, você é um desses raros meteoros que caem na Terra.

Levantou-se, me beijou no rosto e, antes de sair, acrescentou:

– Se não der certo com essa moça, pode me ligar.

O erro que as mulheres estão cometendo é este, pensei: estão muito óbvias. O mistério não existe mais... mas aí me ocorreu outro pensamento: ninguém tinha sido mais óbvia que Lara. O que a diferenciava das outras mulheres? Por que eu a escolhera? Talvez o mistério de nunca saber se ela seria realmente minha.

Escolhas. No final, o terapeuta estava certo. Se as escolhas fossem corretas, os sentimentos seriam bons. Eu estava me sentindo bem. Sexo com Lara me satisfazia. Se eu transasse com outra mulher seria como comer biscoito de supermercado, depois de ter devorado, algumas horas antes, um brownie de chocolate com sorvete e calda, chantilly e cerejas por cima. Ao menos era assim que eu me senti naquele dia. Veria em alguns dias. Afinal, Lara acabara de partir para Paris.

Capítulo Vinte e Cinco

 

O enterro de Mona foi para Simone um dos eventos mais tristes de sua vida. O dia estava lindo, o sol brilhava e não havia nuvens. Talvez a natureza estivesse prestando uma homenagem àquela mulher que tinha sido sempre alegre e sorridente.

A mídia se fez presente. Família, amigos e a maioria dos pacientes de Edward e Simone compareceram, todos chocados com a morte de Mona. Ela sempre fora gentil e atenciosa com todos. Phillip estava visivelmente abalado. Ele costumava ter longas conversas com ela na sala de espera.

– Ela era especial! – ele disse ao dar as condolências.

Havia agentes do FBI disfarçados no meio das pessoas – ao menos eles achavam que se disfarçavam, mas eram evidentes para Simone. Aguardavam que o assassino se apresentasse, porque uma das possibilidades que existe, quando se trata de psicopatas, é que eles vão prestar suas últimas homenagens à vítima.

Edward faria uma das últimas homenagens. Simone não tinha forças para falar. Até ali não tinha chorado o que precisava, mas uma imensa dor e um grande vazio estavam presentes em sua alma.

Edward dirigiu-se até o púlpito montado no gramado e começou a falar:

– Cada um de nós sabe a razão pela qual lamenta hoje a morte de uma jovem mulher que partiu cedo demais. Para alguns, era uma amiga sincera; para seus pais, um filha dedicada; no trabalho, onde eu e minha sócia a conhecemos, era o centro do nosso relógio. Funcionávamos bem porque Mona conseguia nos manter alinhados e girando em sintonia. Tinha sempre um sorriso no rosto para nos receber, uma palavra de conforto quando estávamos cansados demais após um longo dia, uma xícara de chá para a Dra. Simone, um café forte para mim – respirou e continuou:

– Mona era dessas pessoas que conseguem ler os desejos dos outros, e fazia de tudo para atendê-los, não apenas por responsabilidade profissional, mas por desejar sinceramente o bem e a felicidade à sua volta. Mas Mona era mais do que uma secretária eficiente, era uma amiga, era a mão no ombro necessária no dia de tristeza, era o conforto que alenta diariamente. E tinha sonhos: estava estudando, queria ser paisagista para fazer lindos jardins e enfeitar o mundo. Esta era a essência daquela mulher: tornar o mundo um lugar melhor para os outros. Não havia nela um traço de egoísmo, um pingo de ódio. Mona era só bondade. Sentiremos a falta dela todos os dias.

Quando Edward deixou o púlpito, os eventos dos últimos dias tomaram conta de Simone. Duas mortes, a perda de uma amiga, pacientes fora do controle, agressão, a insegurança de ficar em casa. O peso a oprimiu e ela começou a chorar, inundando o vazio que estava sentindo com lágrimas que brotavam de seus olhos sem a menor possibilidade de serem contidas, e que não escorriam, apenas – jorravam. Pela primeira vez Simone não se preocupou em esconder as emoções dos pacientes que ali se encontravam. Não se preocupou com sua imagem. Chorou.

Quando Edward a viu nesse estado, se aproximou, colocou-a contra o ombro e a abraçou. Ela então chorou mais ainda, os riachos se tornaram rios de lágrimas que brotavam das fontes dentro dela. Sentia uma dor que não encontrava consolo e que somente quem já perdeu alguém querido sabe o que é. Sentir que nunca mais se verá aquela pessoa, que nunca mais a porta se abriria para um sorriso de bom-dia, que a vida nunca mais seria a mesma.

Edward conduziu Simone para o carro dele, instalou-a com toda a gentileza no banco do passageiro, fechou a porta, se instalou atrás do volante, pôs a mão no joelho de Simone e lhe perguntou para onde ela gostaria de ir.

– Ed, posso ir para a sua casa?

Hoje Simone não tinha forças para ficar só. Precisava do ombro de seu amigo.

– Estamos indo para lá.

Quando Edward arrancou o veículo, Simone viu um táxi passando pela rua paralela àquela em que estavam, como que admirando o enterro. O carro lhe pareceu familiar.

– Ed, pare! Acho que aquele táxi é o mesmo que estava em frente à minha casa na noite do primeiro assassinato – e apontou o táxi, que já estava partindo.

– Você tem certeza?

– Não... Mas me parece o mesmo tipo de veículo e me lembro que tinha um amassado grande na porta do motorista, como aquele ali.

– Vou ligar para um dos agentes.

Edward telefonou para o investigador do FBI que estava cuidando do caso e que acompanhava o enterro. Ele instruiu Edward a continuar seu caminho, pois iria tratar do caso. Pouco tempo depois, o agente ligou para Edward, que colocou o fone no viva-voz para Simone também ouvir.

– Doutor, notifiquei meus colegas na área, mas a descrição de um táxi amarelo sem nenhuma característica especial não foi suficiente. Há muitos deles em péssimo estado, com amassados e riscos. Você não conseguiu a placa?

– Não, o carro estava longe de nós, eu não tinha ângulo para ver a placa.

– Desculpe, doutor, vamos continuar buscando e parando os táxis com amassados na porta do motorista. Vou mantê-lo informado.

– Obrigado, agente McCormick.

– De nada, e obrigado pela ajuda, Dr. Reynolds.

Depois de desligar, Edward olhou para Simone e disse:

– Não será fácil encontrar esse cara, ele é esperto.

– Como todos os psicopatas, infelizmente – disse Simone.

Eles foram para o apartamento de Edward e, quando entraram, Simone virou-se para Edward:

– Estou exausta – falou. – Se não se importar, quero descansar.

– Minha amiga, sinta-se em casa. Você sabe onde fica seu quarto. Não quer comer nada?

– Obrigada, Ed. Estou cansada demais para pensar em comida. Vou para o quarto, se não se importar.

– Claro que não, querida. Relaxe, certo?

Simone se instalou no quarto de hospedes de Edward, com um enorme cansaço emocional tomando conta de seu corpo. Deitou-se sobre a colcha, vestida como estava, e adormeceu. A noite já havia caído quando Edward a acordou. Mais um dia havia se passado no tumulto da sua vida atual.

Ela fez um lanche leve a conversou brevemente com Edward, então decidiu ler um pouco mais do manuscrito de Carl. Ela sabia que seria difícil dormir após a longa soneca.

O Diário de Mark

Recordar é viver

Peter me ligou quando Lara estava em Paris para me contar que sua irmã estava na cidade e gostaria de almoçar comigo. Ah, maldita bichinha! Ele ainda estava indignado porque eu não seguia seus conselhos. Parece que faria qualquer coisa para me separar de Lara. Por outro lado, seria bom trocar algumas palavras com Deena, pois nosso casamento terminara de forma amigável. Não podia dizer que éramos amigos íntimos, mas nos respeitávamos e nos apreciávamos. Liguei para ela e marcamos um almoço.

Deena e eu chegamos ao restaurante ao mesmo tempo. Sempre gostei disso em Deena: ela era pontual. Escolhemos uma mesa, pedimos um vinho e começamos a conversar.

– Saudades de você, Mark. Como a vida o tem tratado?

– Bem, Deena, e você?

– Bem também.

Foi o “bem” mais entediado que eu já havia escutado.

– Tudo bem, de verdade?

– Tudo bem... ou quer saber a verdade?

Dei uma risadinha. Durante o nosso casamento, era um costume que tínhamos. Um perguntava para o outro "você está bem?" e o outro dizia “sim... ou quer saber a verdade?”. Piadinha que só quem foi casal entenderia. Velhos hábitos dificilmente morrem.

– A verdade.

– Estou sendo cogitada para a Suprema Corte.

– Parabéns! Vou torcer por você. É o seu sonho de sempre! Maravilhoso! Então está tudo ótimo!

– É... deveria estar... Sim, era meu sonho...

– Era?

– Penso que não vou aceitar.

– Por que, Dee? Você lutou por isso a vida inteira, sempre soube que era o que queria.

– Eu me pergunto se era realmente eu que queria... Não sei mais, acho que estou em crise de meia-idade.

Comecei a rir, mas vi que Deena estava séria. Ela era uma mulher de quarenta anos atraente, inteligente e bem cuidada. Parecia dez anos mais jovem, longe de ser uma senhora, que é o que se imagina quando alguém diz que está na meia-idade.

– O que aconteceu, Dee? E, sim, quero a verdade.

– Estamos na meia-idade, Mark. Goste você ou não, se tivermos sorte teremos aí mais quarenta e poucos anos de vida, mas chegamos na metade dela, disso estou certa.

– Ai, essa doeu! Eu não tinha pensado nisso. Não me sinto assim.

– Sorte sua! Mas já já vai se sentir. Eu estou me sentindo, parece que desperdicei tanto tempo e energia, os melhores anos da minha vida… E não sei se quero que a outra metade seja igual à primeira…

– Por quê?

– Fiz tudo o que era esperado de mim, fui boa aluna, boa filha, não que meus pais tenham sido bons pais... Sempre segui o script, com boas notas, boa carreira, mas hoje me pergunto até se gosto do que faço.

– Você é uma promotora maravilhosa, Dee! – eu não estava querendo agradar, ela era realmente uma excelente profissional. Escrevia muito bem, era apaixonada pelo que fazia.

– É… mas poderia ter sido outra coisa maravilhosa, que me deixasse mais feliz.

– Não imagino você sendo outra coisa além de jurista. O que pretende fazer, Dee?

– Não sei… Estou indo a um psicólogo, revendo meus rumos…

– Como vai seu casamento?

Deena havia se casado novamente após nosso divórcio, com um médico proeminente de Hartford.

– Vai exatamente como era o nosso…

– Humm, isso não me pareceu um elogio ao nosso casamento, Dee...

– Se fosse um casamento para elogiar, estaríamos juntos até hoje, Mark. Era um casamento exemplar, só isso, não o que um casamento deve ser.

– E o que acha que um casamento deve ser que o nosso não era, e que pelo jeito o seu atual também não é?

Pensei: aperte o cinto de segurança que a resposta não vai ser boa.

– Emoção, paixão. Nosso casamento era perfeito, Mark: uma perfeita chatice. Não éramos minimamente felizes. Talvez no começo, mas logo virou uma monotonia.

Lembrei da sensação de chegar em casa e não ter o menor ânimo para nada. Uma espécie de solidão a dois foi o que matou nosso casamento. Estávamos ali, sem coragem de terminar o “casamento perfeito” e sem vontade de ser companheiros.

– Você tem razão, Dee... No final estávamos realmente infelizes... Queria que você estivesse feliz agora…

– E você está feliz, Mark? – pergunta encomendada por Peter, pensei.

– Talvez, na medida do possível. Um pouco por dia, ao menos.

– Ou seja, continua sem rumo na vida, vivendo pela carreira e para ela?

– Cristo, Dee! É assim que você me vê? – suspirei.

– Meu querido e velho amigo, nós sempre fomos iguais! Na verdade acho que fiz uma reflexão da minha vida aqui – Deena disse isso e pegou na minha mão afetuosamente. Não senti a menor eletricidade com o toque dela. Tudo ali estava morto e acabado. Mas ela soltou rápido. Afetividade não é a especialidade de Deena. Ela continuou:

– Sinceramente, Mark? Nós dois não somos do campo emocional, somos do campo intelectual. Sentimentos não caem como uma luva em nossas vidas, e como somos iguais…

– Sempre fomos muito parecidos, não é, Dee? Por que não deu certo?

– Justamente por isso, meu amigo, porque precisávamos de algo diferente em nossas vidas e nos apaixonamos pelos nossos espelhos. Terminamos sem ter aquela pimenta extra de que precisávamos.

– Tínhamos tanto em comum! – pensei em voz alta.

Houve um tempo em que eu pensava que para ser feliz precisava de alguém que tivesse os mesmos interesses intelectuais. Olhei para ela e sabia que no fundo ela tinha razão: éramos do mundo jurídico quando nos conhecemos num tribunal. Pensávamos, comíamos e queríamos as mesmas coisas. Em casa, nosso assunto favorito era “como foi seu dia no tribunal”. Debatíamos e trocávamos ideias sobre os casos da procuradoria e sobre clientes. Um dia chegamos à conclusão de que nossa casa tinha virado um escritório jurídico e que precisávamos vida fora disso, então nos separamos. A mesma racionalidade que usamos para nos unir e conviver, usamos para nos separar, sem gritos, acusações ou mágoas.

– Mark, nós nos entediávamos, não éramos apaixonados.

– No entanto, você se casou novamente e também não está apaixonada – constatei.

– Bingo! Repeti o padrão e estou exatamente onde estava quando nos separamos: arrastando os pés e me perguntando o que me falta para mudar de vida.

– E a resposta?

– Coragem, meu caro, coragem. É preciso coragem para dar uma guinada e mudar o rumo. Quero fazer isso agora. Estou reunindo um grãozinho de coragem por dia num saquinho – ela fez um gesto unindo os dedos e colocando algo num pacote imaginário. – E assim que ele estiver cheio, vou chutar tudo para o alto, estudar artes por aí… sei lá, ir para a Índia e meditar.

– Você, artista, Dee?

Sempre imaginei essa mulher de tailleur, impecável, debatendo teses jurídicas. Não conseguia sequer imaginá-la toda suja de tinta ou em posição de lótus, meditando.

– Boa sorte, Dee, de verdade. Eu não teria essa coragem. Talvez a crise de meia-idade ainda não tenha se abatido sobre minha cabeça.

– Às vezes é inconsciente… Peter me disse que você está, segundo as palavras dele, “namorando uma mulher que deveria andar por aí em camisa de força, e precisando ser salvo dela urgente!”.

Dessa vez ri alto. Peter era realmente previsível.

– É, estou… É complicado… Peter acredita que seja sua missão nos separar, para meu próprio bem, é claro. Ele está nos sabotando.

– Peter e suas ideias do que é bom para os outros, como se a vida dele fosse algo a ser levado como exemplo. Como ela é?

– Maluca, cheia de altos e baixos, nunca consigo saber como será o dia seguinte e às vezes nem a hora seguinte.

– Essa insana faz com que você se sinta surpreendido? O desestabiliza?

Continuar: parte 4 de 4