Atrás da Porta

Adriana Gavazzoni · Capítulo 6 de 9 · parte 2/4

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Atrás da Porta

Capitulo Dezenove

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

– Simmie, isso é terrível! Tenho pensado seriamente em contratar um segurança para nós. As coisas já não estão mais como eram quando começamos. Parece que as pessoas cada vez precisam mais de camisa de força...

– É a era do “eu” e do “para mim”, Ed...

– É por isso que estou pensando em mim, em nós. Vou contratar alguém para ficar de plantão durante as horas de consultório. Esse homem poderia tê-la machucado.

– Acho que não, ele é do tipo que esbraveja, mas no fundo é só um covarde. Vou ter que ligar para o Dr. Schuster para explicar que não posso mais atendê-lo. Farei isso amanhã ou sexta. O máximo que aguento é me enfiar quieta em casa hoje. Que inferno de semana!

– Quer companhia?

– Não, amigo, acho que hoje preciso de silêncio para me recompor.

Simone foi para casa para ficar só. Haviam instalado no dia anterior o sistema de câmeras e ela retornara, mas depois do corpo deixado em seus degraus a casa parecia estranha. Cada barulhinho que ouvia lhe provocava calafrios e a deixava sobressaltada. Ela teria que se distrair para não pensar... Iria ler... Estava quase chegando ao final da história. Se fosse um romance, teria lido rapidamente, mas era uma história que necessitava de idas e vindas na leitura, em busca dos menores detalhes.

 

O Diário de Mark

Luto

Tudo parecia ir bem, eu e Lara estávamos felizes, às vezes eu cedia a seus desejos de aventuras, mas no geral navegávamos em mares calmos e ensolarados. Só que sempre que as águas estão calmas, parece prenúncio de tempestade.

Peter me ligou uma tarde. Eu estava no escritório. Pediu para a secretária interromper o que eu estivesse fazendo, porque era urgente. Eu havia desligado meu celular e trabalhava num caso complicado e havia deixado claro que não queria ser perturbado, salvo em caso de emergência.

– Alô, Peter, o que houve? Qual é a urgência?

– Alo Mark, estava tentando falar com você, mas o celular não atendia…

– Está tudo bem?

Quando Peter usava um tom mais comedido, era sinal de encrenca.

– A mãe da Lara morreu e ela não está nada bem… Deborah me ligou e disse que Lara está incomunicável, provavelmente trancada no apartamento dela. Não quer falar com ninguém. Debbie está preocupada…

– Morreu quando? Estive com Lara ontem à noite…

– Não sei quando morreu, mas Lara e os irmãos souberam hoje de manhã. Parece que um advogado entrou em contato, quer ler um testamento, algo assim.

– Deixe comigo, Peter, vou falar com Lara.

Realmente Lara não estava atendendo ao telefone. Deixei o que estava fazendo e fui até o apartamento. O porteiro estava mais cauteloso. Apesar de me ver frequentemente com Lara, não queria me deixar subir, porque Lara não atendia ao interfone. Ele disse também que não acreditava que ela estivesse lá, mas achei que era uma desculpa que Lara o mandara dar. Expliquei a gravidade da situação e ele capitulou, sem dúvida com medo de uma ordem judicial.

Toquei a campainha diversas vezes e Lara não atendeu. Considerei derrubar a porta, como fazem nos filmes, mas era pesada e maciça, e fiquei com medo das consequências para os meus ombros. Pedi ao porteiro uma chave reserva e ele disse que não tinha. Liguei para Peter.

– Mark, vou ver com Debbie se ela tem alguma chave.

Ninguém tinha. Amaldiçoei a obsessão de Lara por privacidade. Chamei um chaveiro e por fim consegui entrar no apartamento, fazendo uma rápida prece para que ela não registrasse uma ocorrência. A tarde já estava caindo, o apartamento estava gelado, havia uma janela aberta e as cortinas balançavam ao vento glacial. Me aproximei e a fechei. Procurei em todos os cantos e buracos, mas nada de Lara. Tudo estava em silêncio e fiquei muito preocupado. Liguei novamente para Peter.

– Peter, Lara não está aqui!

– Ela então deve estar nos Hamptons, onde tem uma casa…

– Me lembro que você disse… Acha que ela está lá?

– Não sei… mas não consigo pensar em outro lugar…

– Paris... é a cara de Lara ir para o mais longe possível.

– Não, esqueça. Debbie disse que Lara estava chorando e abalada, não acho que tivesse condições de ir para o aeroporto. Vamos fazer o seguinte: você vai para os Hamptons e eu para o aeroporto. Quem tiver notícias primeiro…

– Ok, me passe o endereço. Não acredito que as companhias aéreas lhe deem alguma informação sem uma ordem judicial, mas não custa tentar.

Corri para Long Island. Tive dificuldade para localizar a casa, que ficava em Westhampton, num local isolado, e estava escurecendo. Por sorte o carro de Lara estava parado em frente.

A casa parecia bonita, pelo que eu podia observar no escuro. Era feita de madeira, como quase todas por ali, mas não era possível precisar a cor, talvez bege, talvez branca. Havia uma estradinha de areia que ligava a entrada aos degraus da frente. As portas estavam destrancadas. Entrei.

Encontrei Lara imediatamente, pés descalços, sentada no chão. Usava um jeans rasgado, camiseta folgada, rosto inchado de chorar, copo na mão, sentada ao chão, com olhar vago e perdido. Era o retrato palpável de dor e sofrimento. Mandei mensagem para Peter dizendo que a encontrara.

Me aproximei, vi que ela levantou a cabeça e me olhou, mas não disse nada.

– Lara, meu amor, o que está acontecendo?

– Eu matei minha mãe!

A voz estava vacilante… aquele certamente não era o primeiro drinque do dia…

– Você não matou sua mãe, por que diz isso?

– Mark, você não entende, eu sempre quis que ela morresse… e agora ela está morta…

– Ela morreu porque estava doente, Lara, nem você nem ninguém tem o poder de matar alguém por pensamento.

– Eu a deixei morrer sozinha… Não acreditei que estivesse doente…

– Lara, sua mãe fez todo o possível para morrer sozinha… A forma como a tratou, tudo… Se estava só na hora da morte, e não sabemos nem disso, pois ela tinha marido e enteado... foi escolha dela… As escolhas que fazemos na vida determinam nosso futuro.

– Eu sei… achei que a odiava… mas agora me sinto só… Não tenho mais meu pai, não tenho mais minha avó, não tenho mais mãe, estou só!

– Lara, você nunca teve mãe, você tinha uma cafetina. Mas você tem seus irmãos, suas sobrinhas, tem a mim, tem amigos, você não está só!

– Estou sim… Estou ficando cada vez mais só… As pessoas estão indo embora, me deixando. Eu não mereço ser amada.

– Lara, preste atenção: você está bêbada, não sabe o que diz. As pessoas não foram embora, elas morreram, não tiveram escolha entre ficar ou partir, e você merece todo o amor do mundo.

E então ela entoou as palavras indignadas de todo bêbado:

– Não estou bêbada… estou bem!

Nisso levantou e tentou cruzar a perna em sinal de que estava em perfeito equilíbrio. Se eu não a segurasse, ela se estatelaria no chão. O copo que tinha na mão voou e se espatifou no piso. O cheiro de bebida era forte.

– Lara, fique aqui quietinha.

Deitei-a no sofá.

– Você é um maldito… quero mais uísque!

– Nem pensar! Vou fazer um café para você e depois lhe dar um banho. Você precisa urgente de um! Está cheirando igual a um bêbado de cais. Desde quando não come?

– Não sei... eu sou uma droga, Mark! Eu matei minha mãe… Primeiro separei meus pais…

– Nós sabemos que isso não é real, fique deitadinha aí, já volto.

Fui até a cozinha, um espaço bonito, com móveis de cor marfim, uma parede de vidro que provavelmente dava para o mar, mas estava escuro e eu só podia imaginar isso. Encontrei uma máquina de café espresso e algumas cápsulas, preparei um extra forte o mais rápido que pude, voltei para a sala e fiz Lara tomar.

– O mundo está girando, Mark… Eu fecho os olhos e tudo giraaaaaaa.

– Acredito…

Num dos banheiros, que parecia uma estufa, claro e envidraçado, abri a torneira e deixei a banheira enchendo. Voltei para Lara e comecei a tirar sua roupa.

– Agora não quero transar, Mark. O mundo está girando muito rápido!

– Nem eu, você está fedendo igual a um boteco de quinta! Um banho vai lhe fazer bem.

Tirei a roupa de Lara e a levei ao banheiro. Ela encostou a cabeça no meu ombro, de olhos fechados… Acho que o mundo dela realmente girava… Verifiquei a temperatura da água, esfriei-a um pouco, pus Lara dentro da banheira, peguei uma esponja e comecei a lavá-la. Encontrei um xampu, lavei seus cabelos, enxaguei com um chuveirinho que havia ao lado. Lara se comportava como se fosse uma criança doce, quieta e obediente. Ah… pensei… deveria mantê-la bêbada.

Encontrei toalhas dentro de um armário e um roupão. Tirei Lara da banheira, sequei-a e a vesti. Peguei-a no colo e a carreguei para um dos quartos.

– Esse não, esse é o de Emma, ninguém usa. O meu é no final do corredor, cor-de-rosa.

No final do corredor, o quarto estava escuro, acendi a luz e, para minha surpresa, o quarto era infantil, todo cor de rosa. Tinha bichinhos de pelúcia numa das estantes, um violão esquecido em um canto. Até as cortinas eram rosa. Não combinava em nada com aquela mulher – eu pensaria até uns tempos atrás. Mas ela vinha me mostrando um lado cada vez mais frágil.

Lara não tivera infância e parecia querer permanecer para sempre no instante que antecedeu o seu roubo. Que a mãe dela fritasse no inferno!

Afastei as cobertas, tirei o roupão de Lara, acomodei os travesseiros e a coloquei na cama,

– Fique aqui, Lara. Descanse que vou preparar alguma coisa para você comer.

– Acho que não tem nada em casa, mas na geladeira tem telefones de entrega de pizza e outras coisas.

Aparentemente o porre estava começando a passar.

– Minha cabeça dói… – ela murmurou.

E a ressaca estava se instalando…

Na geladeira, encontrei milhares de telefones. Acho que a mulher não conseguia fazer um chá! Fiz uns pedidos de comida e de suprimentos num supermercado local, prometeram entregar rápido. Pedi também aspirina. Eram quase dez da noite. Lá, “entregar rápido” significava às onze.

Quando enfim eu tinha comida e um copo de suco numa bandeja, fui ao encontro de Lara, que dormia profundamente. Melhor. Sentei-me na poltrona ao lado com a bandeja que preparara para ela e comi. E dormi lá mesmo, exausto.

Na manhã seguinte, antes de Lara acordar, me levantei, fiz café da manhã e liguei para Peter pedindo o fone da irmã de Lara, Debbie. Telefonei para ela e me apresentei. Apesar de ter cuidado das meninas junto com Lara, nunca havia conversado com Deborah.

Expliquei a situação, ela me disse que teriam que se reunir com um advogado devido a um testamento que a mãe deixara e me pediu para acompanhá-los e coordenar o encontro. Aceitei, mas sugeri que isso fosse feito em alguns dias, porque Lara não estava bem.

Cancelei alguns compromissos, deleguei outros, e fiquei ali três dias cuidando de Lara.

Imersa no próprio inferno, ela falava pouco e comia menos ainda. Antevi que a tempestade se aproximava no horizonte.

Ela concordou em ir à leitura do testamento que marcamos para a sexta-feira. Lá estavam o advogado, Deborah, Lara e eu. O irmão não quis viajar para participar do que intitulou “o ato final de Sabine”.

E ele tinha razão. Que maravilha ele não estar lá! Nenhum de nós deveria estar! Sabine deixara uma carta aos filhos. Culpava Lara pelos males de sua vida, dizendo que a filha não entendera jamais que só queria o seu “bem”. A porcaria toda era um pot-pourri de falsidades e um arremedo de desculpas, certamente para tentar morrer em paz. Deixou bens e joias para serem divididos entre os três. Se a mulher não tivesse morrido, eu iria atrás dela para matá-la pelo conteúdo da carta.

“Queridos filhos, estou para morrer e morrerei só, pelo mau entendimento que você, Lara, teve de tudo o que aconteceu na sua infância. Todos os meus atos foram pensados para garantir a você um futuro digno e seguro, mas resultaram numa separação irreparável de todos nós. Você era muito jovem, Lara, todos éramos jovens para entender a real dimensão das coisas. Eu não queria que nossas vidas tomassem esse rumo. Mais do que tudo, queria que tivéssemos sido uma família. Agora é tarde, nossos erros foram cometidos, nossas feridas, abertas, e, sei, não cicatrizarão jamais. Eu perdoo você, minha filha, da mesma forma que peço seu perdão e de seus irmãos, por não ter sido uma melhor mãe.

Recentemente descobri que Sean virou gay. Escute, meu filho, é apenas uma fase que vai passar, você vai amadurecer e pensar melhor. Você sempre teve uma mente curiosa e gostou de experimentar coisas novas, tenho certeza que isso será temporário.

Deborah, você é a criança perfeita que todo pai quer ter. É estável, normal, e nasceu para ser mãe. Fiquei surpresa em saber que meu bebezinho agora tem seus próprios bebês. Não tive a alegria de conhecer as meninas, mas tenho certeza de que são tão lindas e doces como você.

Agora parto e espero que guardem de mim ao menos a lembrança de momentos felizes que passamos juntos. Deixo a vocês tudo o que construí numa vida, como prova de que tudo o que fiz foi por vocês. E especialmente para você, Lara, minha filha mais velha e mais querida. Amor, Sabine.”

– Eu não quero porcaria nenhuma dessa mulher, doe tudo que se destina a mim para uma instituição de caridade! Eu não preciso de nada dela.

– Lara… eu gostaria de ficar com as joias, lembram minha infância… Achava mamãe tão bonita quando saía arrumada com elas…

– São suas, Debbie. Só se lembre de que ela me vendeu para adquirir metade delas…

Lara estava péssima, despenteada, havia emagrecido naquela semana e não usava maquiagem. Falava pouco. Eu queria desesperadamente entender o que se passava naquela mente e naquela alma atormentada, mas ela havia se fechado em seu mundo.

Capítulo Vinte e Dois

 

Os dias de Simone andavam ocupados. A quinta-feira se anunciou como um soco no plexo solar: ela saiu de casa apressada, o celular numa mão, a bolsa na outra. Telefonou para Mona apoiando o celular no ombro, enquanto fechava a porta e ligava o alarme da casa.

– Bom dia, Mona – Simone falou quando Mona atendeu. – Estou saindo de casa agora, você sabe se tenho algum horário vago na minha agenda hoje?

– Não, doutora, agenda lotada! Só tem uma hora sobrando para almoço.

– Que ótimo! E nem tomei café! Ok, obrigada Mona.

Simone entrou no carro e foi diretamente para o consultório. Quando chegou, sua secretária a brindou com palavras mágicas:

– Doutora, seu primeiro paciente telefonou para dizer que vai atrasar dez minutos, então tomei a liberdade de preparar seu café. Está na cozinha – Mona sorriu docemente.

– Muito, mas muito obrigada, Mona, acabo de ganhar o dia!

Depois de um rápido café da manhã, Simone começou a receber seus pacientes e não teve tempo de respirar até a hora do almoço. Iria fazer um intervalo de uma hora, comer e só retornar quando o sino do segundo tempo soasse.

Mona entrou na sala de Simone:

– Doutora, me desculpe perturbá-la no seu momento de descanso, mas aquele homem, Alvin, está ligando a cada quinze minutos, insistindo em um horário. Estou com dificuldades para fazê-lo entender que não irá atendê-lo!

– Mona, preciso falar com o Dr. Schuster sobre ele. Ligue para o doutor e, se conseguir falar, transfira para mim. Diga que é urgente. Peça por favor uma salada e um peito de frango grelhado para mim – “lá se foi o almoço”, pensou Simone.

– Certo, doutora.

Rapidamente Mona interfonou para avisar que o Dr. Schuster estava na linha. Simone pediu que Mona transferisse imediatamente.

– Alô, Simone, Gustav falando.

– Gustav, que bom que me atendeu rápido. Preciso discutir um ex-paciente seu, que você mandou para mim, Alvin Ormond.

– É recente isso? Não lembro de nenhum Alvin Ormond, Simone.

– Ele chegou com uma indicação sua faz umas três semanas.

– Não, Simone, não tenho nada recente assim. E toda vez que lhe indico um caso, telefono antes para trocar impressões com você…

– Verdade… não havia considerado isso…

– Então, o que ele está falando é mentira. É bom verificar de onde veio esse sujeito, Simone.

Simone se despediu de Gustav Schuster e chamou Mona.

– Mona, por favor, telefone para o maluco.

– Qual deles, doutora? – Simone não conseguiu conter uma gargalhada.

– Boa essa, Mona. O nosso problema atual.

O telefone dele não atendia. Simone então pediu a Mona que da próxima vez que Alvin telefonasse, se estivesse em intervalo entre pacientes, passasse a ligação diretamente para ela. Se não, dissesse para ele telefonar no primeiro intervalo ou deixar um número de contato.

Simone ficou preocupada, mas logo os outros pacientes fizeram-na esquecer de Alvin.

Quase no fim do dia, Mona a chamou no intercomunicador e disse que Alvin estava na linha.

– Transfira-o para mim, por favor, Mona – o coração de Simone se acelerou.

– Está bem, doutora... E se eu puder lhe dar um pequeno conselho? Mande o sujeito para o inferno se ele começar a tratá-la mal.

– Vou fazer isso, Mona, obrigada.

– Boa tarde, Alvin.

– Boa tarde, querida doutora, vejo que capitulou e decidiu me atender.

– Apenas para dizer que pare de perturbar minha secretária. E que falei com o Dr. Schuster… Ele não o conhece. Gostaria de saber qual é a palhaçada.

– O Dr. Schuster é um velho gagá, um imbecil. Fiquei meses sendo tratado por ele. Ele até dormia nas sessões!

– Alvin, nós dois sabemos que isso é mais uma mentira. O pai do Dr. Schuster pode ser um senhor idoso, mas ele não é meu colega e está aposentado. Gustav Schuster tem apenas cinquenta anos, e longe de ser velho ou senil. O que você quer comigo?

– Ser tratado por você, doutora, sei que você pode me curar…

– E se eu lhe disser que acho que nenhuma palavra que saiu da sua boca no meu consultório é verdadeira?

– Eu lhe diria que está enganada, doutora, e também quero lhe pedir desculpas por outro dia… Eu estava muito nervoso com tudo.

– Certo, Alvin, vou lhe passar o número de um colega meu, o Dr. Klein.

– Já lhe disse, doutora, eu não quero nenhum merda de colega seu!

– Eu não tenho condições de atendê-lo mais, Alvin, por favor anote o número.

– Escuta aqui, sua vagabunda, você pensa que pode sair por aí destruindo a vida das pessoas e fazer tudo do seu jeito?

– Alvin, acho que você está exaltado e que, se continuar assim, serei obrigada a desligar.

– Você não é obrigada a nada, docinho, você faz tudo da sua cabeça. Você não é uma boa pessoa, doutora, é uma cadelinha inútil, amarga e destrutiva, e vou transformar sua vida num inferno se não me atender!

Simone bateu o telefone e anotou mentalmente para falar com Edward no dia seguinte. Esse lunático era definitivamente mais maluco que os outros pacientes.

* * * * *

Simone foi para Nova York na sexta-feira à tarde. Telefonou para Carl quando chegou e ele disse que a buscaria às dezenove horas no hotel. Sairiam para um drinque, iriam jantar e, na sequência, continuariam com com seus planos.

Na hora exata, Carl apareceu. Tomaram um drinque no próprio hotel, porque ele disse que o trânsito estava infernal para saírem naquele momento, e por volta das nove pegaram um táxi e foram ao Amma, o restaurante indiano onde Lara havia levado Mark num dos seus primeiros encontros.

Simone entrou prestando atenção aos mínimos detalhes: decoração, odores, cores. Sentaram-se. Um garçom com dificuldades com o idioma os atendeu, sugeriu pratos, fizeram o pedido. Do início ao fim, a descrição feita por Mark era fiel. Das cores da parede aos garçons, tudo era exato, e isso animou Simone.

Carl era uma companhia agradável, sempre ansioso pelo avanço do estudo de Simone. Com ela próxima do final do texto, ele estava contente. Trocaram ideias e impressões sobre o texto, mas também conversaram sobre amenidades, como se fosse um encontro entre duas pessoas não envolvidas profissionalmente.

Simone lhe contou sobre o corpo que encontrara nos degraus de casa na noite em que Carl estivera lá. Ele pareceu nitidamente assustado. Disse que havia visto algo na TV sobre o caso, mas que não o havia conectado a Simone. Fez perguntas sobre o serial killer e indagou como estava o andamento do caso.

– Lento. Está difícil para a polícia encontrar um suspeito. Ninguém tem nenhuma pista sobre os movimentos dele. Parece um psicopata inteligente, cuidadoso.

Simone lhe contou da correlação que fizera entre o sujeito e a série de TV francesa e, por fim, começaram a falar do local que visitariam na sequência. Carl sugeriu que fossem ao Silk Lips, porque, segundo soubera, o Atrás da Porta estava decadente.

Na porta do restaurante, do outro lado da rua, havia um táxi parado. Carl fez sinal para o taxista, que partiu. Demoraram um pouco para encontrar outro.

Um pouco depois das onze horas chegaram ao Silk Lips, um local discreto, sem placas indicativas. Eles se cadastraram, deram um número de telefone, pagaram um valor de entrada e receberam cartões numerados para registrar o consumo. Pediram para deixar os pertences. Uma jovem com uma saia curta e botas de salto alto revistou Simone. Um guarda-costas revistou Carl.

Simone reviu mentalmente o texto de Mark e achou que a descrição não poderia ser mais fiel. Eles deixaram os pertences num armário.

Entraram numa pista de dança com um pole dance no meio, pessoas se acotovelando e um bar lotado em um dos cantos. Um balcão longo o separava da pista de dança. Havia barras suspensas sobre o balcão, mas hoje ninguém ainda dançava por ali.

As pessoas estavam seminuas, vestidas em trajes destinados a provocar e seduzir. Simone parecia uma freira, com sua calça jeans e ombros nus, que pensara ser sexy, mas pior ainda estava Carl, de terno e gravata, o que ao menos consolou Simone.

– Quer um drinque, Simone?

– Não, obrigada, Carl, quero me manter bem lúcida.

– Vamos conhecer o resto?

– Sim, vamos.

Por uma porta atrás da pista de dança, entraram num corredor escuro, iluminado por algumas poucas e fracas lâmpadas vermelhas. Salinhas minúsculas laterais com pequenos sofás vermelhos ficavam ao longo do corredor. Havia vidro nas portas, para que as pessoas pudessem observar de fora quem estava dentro.

O corredor levava diretamente a uma sala com uma espécie de cama comunitária. Ali havia três casais, todos transando em cima da mesma cama, lado a lado. A cena era bastante excitante e Simone, que já estava há muito tempo sem sexo, se sentiu constrangida por estar ao lado de Carl. Ficou calada, dando graças pela música alta.

Eles avançaram pelo ambiente, saíram daquela sala e entraram em outra, adjacente, com duas camas forradas de cetim vermelho. Somente uma estava ocupada por duas mulheres que se beijavam.

Adiante havia outro corredor, onde ficavam os quartos parecidos a celas de cadeia descritos por Mark com exatidão. Dali se retornava ao primeiro corredor, das salinhas com vidros. Talvez pelo horário, somente uma estava ocupada. Era uma mulher jovem “cuidando” de dois homens. Um parecia ser o marido, do tipo “sério”, cabelos começando a ficar grisalhos, e o outro um rapaz visivelmente mais jovem. Ela se acomodou no rapaz mais novo e o cavalgou até que ele gozou. Então ela montou no grisalho e transaram até que ambos gozaram. O rapaz mais novo a reconduziu até o membro dele e fizeram sexo novamente.

O estado de excitação de Simone era crescente. Ela olhou para Carl e viu que ele também estava excitado com a cena. Os olhares se cruzaram e Carl passou a mão atrás da nuca de Simone, se aproximou e começou a beijá-la.

Simone não resistiu, estava fora de questão. Estava muito excitada até para tentar. Carl mergulhou a língua em sua boca e o beijo era exigente, quente. A boca dele se movia com mestria.

Ele abandonou a boca de Simone e começou a beijar-lhe o pescoço, enquanto suas mãos subiam até as alças da blusa, que ele abaixou para tocar-lhe os seios. Carl então apoiou Simone contra a porta e começou a percorrer seu corpo com as mãos, ali em pé, no meio do corredor.

Os três ocupantes da salinha haviam terminado sua sessão e queriam sair. Como Simone e Carl estavam apoiados na porta, começaram a bater freneticamente, o que trouxe os dois de volta à realidade.

– Simone, me desculpe, não sei o que deu em mim.

– Eu também, Carl, o ambiente é tórrido, nos deixamos levar, esqueça.

O cérebro de Simone estava no comando novamente – “infelizmente”, pensou ela. Estava ali para trabalhar e Carl ainda era um cliente. Impossível qualquer envolvimento, mas todo seu ser gritava: “preciso transar!”.

Continuaram a percorrer o local por mais um tempo e depois foram embora. Carl levou Simone para o hotel. No caminho ela começou a falar para quebrar o silêncio desconfortável que ocupava o veículo.

– Carl, espero ter um relatório completo do manuscrito de Mark para o próximo final de semana. Como você gostaria de proceder?

Com os olhos no caminho, Carl respondeu:

– Você poderia trazer o relatório para mim para discutirmos? Estarei muito ocupado para viajar, mas consigo tempo para conversar. Você faria esse imenso favor?

“Você vai terminar o que começamos no Silk Lips?”, ela pensou, frustrada.

– Preciso verificar minha agenda – ela disse. – Acredito que seja possível.

– Muito obrigado, e obrigado por tudo o que tem feito, Simone. Seu trabalho tem sido extremamente importante para este caso.

“Esse obrigado inclui me beijar, acariciar e me deixar derreter nos seus braços?”

Imersa em pensamentos sobre o beijo na casa de suingue, Simone ficou novamente em silêncio. Que diabos estava acontecendo com ela ultimamente?

Havia beijado dois homens num curto prazo, por força de circunstâncias especiais. Edward, porque estavam envolvidos em um problema grave; Carl, pela sensualidade do local onde foram. Ela queria muito beijar alguém pelo simples prazer de um beijo, sem ter que pensar nas consequências.

Quando pararam em frente ao hotel, Carl se virou para olhá-la – a primeira vez que ele o fazia depois que haviam saído do Silk Lips.

– Boa noite, Simone, lhe desejo uma boa viagem para casa.

Ela não percebeu nenhuma emoção na voz dele, nenhum arrependimento, nenhuma alegria.

– Obrigada, Carl, tenha uma boa noite.

Ele se virou para ela e a olhou. Ela ficou rubra quando ele deu um beijo em seu rosto antes de partir.

Simone pegou a bolsa e desceu rápido do carro, sentindo-se inexplicavelmente sem graça. Quando entrou no lobby do hotel, olhou pelo canto dos olhos. Bem, ao menos ele não tentou somente apertar minha mão, pensou.

No dia seguinte, retornou para Connecticut.

Capítulo Vinte e Três

 

Simone mal entrara em casa quando Edward lhe telefonou para saber se fizera boa viagem e para contar do encontro que tivera com Victor, o correspondente de Claire.

– Acho que vamos cortar o cara, Simmie. Ontem comecei a achá-lo estranho...

– Por quê?

– Ele ficou muito irritado porque você não foi ao encontro, começou a ficar impertinente, sugerindo que nós somos dois idiotas que pensam que estão lidando com moleque.

– Ele disse isso?

– Com todas as letras... Eu o lembrei de que havíamos concordado que ele me encontraria primeiro, mas isso não o acalmou. Concluí que ele tem sérios desvios de personalidade. Outro dia estava sob absoluto controle, mas depois no nosso encontro de ontem minha luz vermelha começou a piscar… Vamos deixá-lo para lá e partir para outro.

– Ok, meu amigo, confio plenamente em seu julgamento.

– E como foi em Nova York?

– Progredi bastante no trabalho, visitei alguns dos locais descritos no texto e concluí que o redator é preciso em descrições. Elas são bem fiéis.

– Que ótimo! Isso sempre é positivo. Se quiser ajuda, sei que deveria ter oferecido antes… Mas sabe que pode contar comigo. Apesar de se tratar de desvios sexuais o cerne do problema e isso não ser minha praia, talvez eu possa ajudar com a personalidade do sujeito.

– Obrigada, Ed, você não existe, está até o topo de trabalho e querendo me ajudar… Algum dia conseguirei pagar todos os favores que me faz?

– Você paga diariamente, Simone, só de estar ao seu lado já é ótimo.

Conversaram mais um pouco, trocaram ideias sobre o terapeuta que Edward havia contratado para o caso de seu filho Noah, Simone se despediu e descansou o resto do sábado, pois tinha na mente um turbilhão e precisava relaxar.

No domingo ela dormiu até tarde. Depois, como fazia aos domingos, vestiu um moletom e um par de tênis e foi correr. O ar fresco e o exercício faziam maravilhas por ela. Ela adorava as ruas da vizinhança, que tinham árvores altas. O clima naquele dia estava encoberto, mas morno. De volta para casa, tomou café da manhã sentada na cozinha enquanto lia o jornal, entrou num longo banho de banheira, lavou os cabelos e se preparou para enfrentar a segunda-feira. Apenas no final do dia voltou a ler o diário de Mark.

O Diário de Mark

Da minha forma ou vá embora

Lara estava um caos emocional e as idas e vindas recomeçaram. Ela desaparecia por dias, retornava, desaparecia novamente. A principio eu não quis pressionar, porque era visível o estado de tristeza em que se encontrava. A morte da mãe trouxera à tona dores profundas, e parecia que Lara havia submergido e não conseguia voltar para a superfície.

Então ela simplesmente sumiu do radar por duas semanas, número que parecia mágico. Não atendia sequer ao telefone. Fiquei preocupado. Fui ao apartamento e o porteiro disse que fazia algum tempo que não a via. Déjà vu!

Liguei para Peter, pois eles eram muito amigos e talvez ele soubesse do paradeiro dela.

– Ela não o avisou? Não deixou nenhuma nota, nada? Achei que vocês estavam quase planejando casamento, pensei até em me oferecer para daminha!

– Hilário, Peter.

– Nenhum senso de humor nesse corpinho! Não sei da Lara, não está em casa?

– Não está no apartamento… Será que foi para Paris?

– Eu apostaria nos Hamptons... Ela tem ido muito para lá...

– Como você sabe?

– Somos amigos e estou preocupado com ela também, Mark. Ela não está bem...

– Não atende o telefone, nem o celular nem o da casa...

– Bem... Só tem um jeito de saber: ir até os Hamptosn. Eu tentaria lá… sei lá… que tipo de ilusão você está criando? Só porque ela acampou na sua vida algum tempo você não acha que ela vai mudar e que está comprando vestido branco, não é? Já vi isso acontecer antes.

– Não sei, Peter, ela estava feliz, parecia, ao menos… A morte da mãe fodeu com tudo!

– Não, não foi a morte da mãe. Ela é desequilibrada, homem! Qualquer coisa tira ela dos eixos.

Decidi ir aos Hamptons, certo de que era um cavaleiro andante indo resgatar a donzela em perigo. Com a morte de Sabine, provavelmente todos os fantasmas de Lara haviam voltado. Suas culpas a deviam ter empurrado para partir, talvez achando que não fosse digna de ser amada… No caminho, minha cabeça fervilhava de hipóteses. Dirigi o mais rápido que pude, cheguei até a casa dos Hamptons em menos de duas horas. Para minha surpresa, havia pelo menos uma dúzia de carros parados na entrada.

A casa estava escancarada, iluminada. Era alguma espécie de festa! Quando entrei, me deparei com uma multidão de pessoas nuas praticando sexo… Havia sessenta e nove, duas mulheres praticavam em Y no chão do corredor, dois homens faziam o mesmo no tapete da sala. Um casal transava no divã. Para onde olhasse eu via corpos nus. Lara estava em meio a um bacanal, e não sentada num sofá, descabelada, lamentando a mãe, como eu imaginara!

Demorei a encontrar Lara. Havia música alta e pessoas gemendo por todos os lados. Difícil reconhecer quem era quem em estado natural. Passei por cima de dois sessenta e nove, escorreguei entre um ménage e ziguezagueei entre diversas bundas e cotovelos. Nada no cenário me excitava. Eu já estava enlouquecido de raiva, aí a encontrei.

Lara estava em pé, em um canto, vestida como veio ao mundo. Usava uma coleira com pregos no pescoço. A corrente que prendia a coleira era sustentada por um homem que eu não conhecia, posicionado atrás dela. O corpo de Lara estava suado. John Mayer, o negro atlético e alto, lhe golpeava o corpo com um chicote que tinha diversas pontas de couro. O corpo dela estava coberto de vergões vermelhos. Lara tinha os olhos fechados, mas as expressões que fazia eram de dor… ou êxtase, eu não saberia distinguir. A cada chicotada, John lhe dizia impropérios:

– Vagabunda, safada, cadelinha sem vergonha! Você merece isso! – e por aí... num rico vocabulário... Messalina... é, o cara conhecia algo de história.

John parou para respirar e deu alguma diretriz para o homem que segurava a coleira. Ele puxou a corrente, inclinando Lara para trás. Eu já não via sua cabeça, que estava muito arcada. Somente via o torso e o sexo. De forma brutal, vi John separar as pernas de Lara e penetrá-la com violência com seu pau de titã. Ela gemeu, não sei se de dor ou de prazer. Só a ouvi fazer um pedido ao homem que lhe prendia o pescoço:

– Puxe forte!

O homem que estava atrás de Lara continuou segurando a corrente. Lara estremecia e eu só consegui ficar lá, olhando. Lara e John eram magníficos juntos. O ato, selvagem. Quando terminou, estavam esgotados. Lara tinha diversos roxos e azuis pelo corpo. Merda! John Mayer havia me falado a verdade sobre ela. Isso era procedimento padrão para Lara. Eu me sentia um cretino, um retardado! Cristo! Eu estava tentando transformar a pervertida em uma princesa.

Acho que Lara não me viu imediatamente. Ouvi que ela me chamou quando eu já estava de saída. Jurei para mim mesmo que iria acatar todos os conselhos e desistir daquela mulher. Minhas esperanças haviam terminado. Eu não aguentaria mais por muito tempo aquela vida. O ódio do meu ciúme se misturava à pena que eu sentia de vê-la naquele estado… Era um vício sem cura…

– Mark! – ela veio correndo atrás de mim, nua… Tentou me abraçar e eu a detive com o braço esticado.

– Lara, volte para sua festa! Está um sucesso, falando nisso. Todos se divertindo. Você não precisa de mim, tem toneladas de carne por aqui.

– Mark, minha mãe morreu, eu não estou nada bem...

– Eu vi você de luto…

– É como eu consigo aplacar minhas culpas… os olhos dela se encheram de lágrimas.

– Eu sei… acredito…

Eu realmente acreditava, era assim que ela era, mas isso ficava a anos-luz do que era bom para mim.

– Só não posso mais…

Eu não sabia mais o que dizer. Me virei e saí. Decidi que se o vício dela não tinha cura, o meu por ela teria… Eu não a veria mais…

Todo o meu ser dizia: caia fora, homem, e não olhe para trás. É a forma dela, e não há outra forma, caia fora!

* * * * *

Numa noite morna de verão, um mês depois, encontrei Lara estacionada em frente ao meu prédio. Eu estava voltando das aulas que dava na faculdade de direito. Ao menos meu porteiro era competente e não se deixava seduzir, pensei.

Abri a garagem com o controle remoto, entrei com o carro para descobrir que ela havia me seguido, descera a rampa a pé. Teria que me livrar dela.

– Mark...

– Lara, boa noite. Algum problema?

Eu sentia meu coração disparado no peito apenas de vê-la. Estava mais magra, com olheiras, mas mais linda do que nunca. Eu iria resistir. A beleza de Lara era igual à de uma planta carnívora aguardando a mosca... Eu tinha autoestima melhor do que a da mosca.

– Preciso falar com você...

– Você acha que ainda temos algo a falar?

– Eu tenho. Gostaria que você apenas me ouvisse... Depois posso ir embora...

– É o que você sempre faz, não?

– Mark, por favor...

– Ok, Lara, vamos subir que a garagem não é adequada para isso – o porteiro já estava ao meu lado perguntando se estava tudo bem.

– Sim, Oliver, tudo tranquilo, pode deixar. Nada com que se preocupar, obrigado.

Subimos. Eu estava nervoso, a presença dela tinha o dom de me afetar. Se ela fosse uma oponente no tribunal, eu perderia todas, com certeza.

– Ok, Lara, diga. Você tem quinze minutos.

– Pode me dar um uísque?

– A máquina de gelo quebrou, o bar fechou e o relógio está correndo... – eu não estava com a mínima vontade de bancar o barman para a moça.

– Entendi.

– O que você quer, Lara?

– Minha mãe morreu…

– Notícia velha – falei, sem dar a mínima importância. Afinal, se ela não se importava, por que eu iria?

– Isso acabou comigo! Eu sempre torci internamente para que minha mãe morresse em agonia, e aconteceu do jeito que sempre imaginei, apesar de que, na minha mente, o requinte de crueldade era maior. Daí eu surtei.

– Eu vi! O “surto” era enorme e negro…

– Não, Mark, me entenda… Faça um esforço… John é um amigo que sabe ser dominador, eu recorro a ele… quando preciso me machucar, porque sei que ele não vai passar dos limites…

– E o resto da festa? Era o seu jeito de ser triste?

– Não, era um grupo de swingers que se reúne às vezes.

– Escute, Lara. O seu mundo e o meu… não deviam sequer ter-se cruzado… Eu tentei… mas não sou assim, não sou “desprendido” a ponto de dividir uma mulher com outros homens na hora que ela queira. Não sou liberal a ponto de entender que uma mulher que eu ame me “empreste” para outras. É demais para mim! Eu sou um dinossauro, entende? Gosto da ideia de homem-mulher. Claro, como fantasia foi ótimo, mas para o dia a dia, sou um cara comum, não tenho estômago para uma orgia atrás da outra.

– Eu sei… e é por isso que estou aqui… Eu preciso de você… Preciso que me ajude a mudar. Eu também não quero ser assim, mas às vezes a dor em minha alma é tão intensa e profunda que acho que vou me perder nela e não vou mais achar o caminho de volta. Daí preciso de emoções e dores físicas que me façam esquecer as emocionais… Mas descobri que você fora da minha vida também me dói muito. Nunca senti por ninguém o que estou sentindo por você, Mark. Eu amo você...do meu jeito...

Era tudo que eu sempre quis ouvir dela, mas agora eram o momento e o lugar errados.

– Sei, essa vontade de sumir, de desaparecer e não dar notícias? Essa vontade de encontrar outros homens por aí? Obrigado, mas dispenso seus sentimentos.

– Mark, e se eu mudar?

– Como você pretende fazer isso? Indo viver em Paris?

– Não sei, mudei de terapeuta, estou começando a me consultar com outro psiquiatra, ele vai me dar remédios…

– Remédios não resolverão nada se você não quiser mudar, Lara… Para mim, você gosta de sumir…

Lara subitamente tirou a blusa. Suas costas estavam cheias de vergões imensos, ela tinha hematomas pelo corpo, estava bem machucada, muito pior do que estava quando a encontrei na festa, o que significava que a festa avançara. Fiquei sem palavras.

– Foi isso que fiz comigo nos últimos dias, para me punir. Desta vez foi para expulsar a dor da morte da minha mãe… mas faço isso muitas vezes. Por isso eu sumo, porque quando a dor emocional é intolerável preciso de dor física… e essas são as consequências… Os sumiços são proporcionais ao tempo para curar as feridas… Eu não sumo por vontade… Sumo por não querer que ninguém me veja assim!

– Lara! Você não pode continuar assim! É insano! – foi tudo o que pude dizer. Aquela mulher estava muito machucada em todos os sentidos. Por um instante deixei minha raiva de lado, deixei o homem preterido que eu era dar lugar ao ser humano querendo ajudar aquela mulher que eu amava.

– Mark, eu preciso de você! Preciso da sua normalidade, do seu carinho, preciso de você na minha vida. Aqueles meses em que ficamos juntos… foram os melhores que tive desde que consigo me lembrar… E daí aquela maldita morreu e eu que achei que iria enlouquecer, me senti culpada como quando era criança.

– Não sei o que dizer, Lara. Não sei o que faria se de repente você sumisse novamente, se eu me deparasse com sua necessidade de outros homens. Não tenho estrutura para um relacionamento assim. Sou o cara que sai do trabalho e cuja maior aventura é tomar um drinque com um amigo.

– E se eu conseguir mudar?

– Não sei, Lara… não sei se acredito que isso seja possível…

– Eu talvez nunca me livre do desejo da dor misturada ao sexo, mas tenho esperança nos remédios… e poderíamos tentar fazer isso juntos…

– Eu machucar você assim, como está agora? – apontei para seu corpo marcado. – Não posso, Lara. No máximo consigo apertar seu pescoço. O resto é demais para mim.

– Você não quer nem tentar?

– Lara… tentar em que bases? Como faríamos?

Meu cérebro me mandava correr, meu coração estava surdo… Fiquei pensando que deveria estar em crise de meia-idade, algo do tipo, porque nunca em todos os meus anos de vida eu estivera numa situação parecida. Meu racional sempre vencera as quedas de braço, e agora…

– Vamos tentar ser um casal… de namorados… Cada um na sua casa… por enquanto, ao menos… Ainda não tenho condições de muito mais que isso…

– E se você surtar?

– Eu vou conversar com você e você me ajuda.

Os olhos dela estavam marejados. Impossível dizer não… Meu lado racional dizia: caia fora e não acredite nessas lágrimas traiçoeiras! Assassinei minha razão, jogando-a pela janela mental, e decidi arriscar. Solo se vive una vez!

– Ok, Lara, vamos tentar!

O Diário de Mark

Vida normal

Conseguimos ser um casal “normal” por mais algum tempo. Lara dividia comigo, com muita dificuldade, suas angústias e dores, e eram muitas. Às vezes eu pensava que seria arrastado para um buraco negro sem fim, quando ela começava a ter crises, mas juntos estávamos conseguindo sobreviver. As cicatrizes dela não eram cicatrizes, eram feridas vivas, ela tinha pesadelos, medos, era muito mais frágil do que eu jamais conseguira imaginar.

Algumas vezes ela era a deusa do sexo selvagem; outras, uma criança amedrontada que precisava de amparo. Eu costumava só enxergar a deusa, mas agora...

Ainda assim, eu a amava e ela me fazia feliz. Eu tentava com todas as minhas forças fazê-la também, e às vezes acho que até obtinha sucesso, mas havia recaídas… pedidos de desculpas, lágrimas, arrependimentos e voltas.

Ela ao menos havia jurado, e eu tinha que acreditar que ela não voltaria a fazer suingue ou sexo com outras pessoas. Ela normalmente ia para os Hamptons para alguns dias de silêncio.

Desisti em certo momento de entender, e fui levando a vida, dia a dia. Acreditava que dentro da nossa anormalidade éramos um casal capaz de dividir a vida.

Com progressos lentos, ganhei a chave do apartamento dela, ela ganhou a minha, eu às vezes ia para lá e cozinhava um jantar para ela, que só conseguia fazer pipoca de micro-ondas pra mim. Às vezes ela me surpreendia com uma mesa bonita, mas a comida vinha de alguma delicatessen. Isso não importava. Os esforços dela em pôr a mesa e criar um clima romântico eram o que valia para mim.

Um dia fui para o apartamento dela com uma garrafa de champanhe. Ela tinha me ligado para dizer que conseguira um contrato para fazer a parte arquitetônica de um enorme hotel de luxo. Estava feliz ao telefone, vibrante. Maravilha, pensei, os dias tristes estavam ficando longe.

Nada é tão forte como uma imagem para fazer com que as convicções voltem com todas as forças. Encontrei no apartamento dela uma passagem para Paris. Ela partiria no dia seguinte e não havia me dito nada. Não quis parar para pensar nas razões, apenas me sentia traído pela falta de comunicação e de partilhar. Eu estava dividindo minha vida com ela, sendo honesto e aberto com ela. E ela me tratava como se eu fosse um nada, me deixava no escuro.

Deixei a garrafa de champanhe e um bilhete – “Você nunca vai mudar” – ao lado da passagem, saí de lá e fui embora sem olhar para trás.

Capítulo Vinte e Quatro

 

Na segunda-feira, quando Simone chegou ao consultório, encontrou Mona numa ferrenha discussão com Alvin. O segurança que Edward contratara o segurava pelos braços.

– O que está acontecendo aqui?

– Bom dia, doutora, esses dois idiotas não querem me deixar falar com você!

– Alvin, vou pedir gentilmente que se retire sem criar confusão. Senão, vou pedir ao Gregory para pôr você para fora e chamar a polícia.

Simone atravessou a confusão do hall de entrada, entrou na sua sala e fechou a porta na cara de Alvin. “Que beleza de início de semana”, pensou.

Por alguma razão, Mona não retornou ao trabalho após o almoço e não apareceu no dia seguinte. O consultório ficou um caos, com Edward e Simone tentando se ajudar como podiam. Gregory, o segurança, fazia as vezes de secretário, mas não era o mesmo.

– Simone, você conseguiu falar com a Mona? É o segundo dia em que estamos nessa loucura, nossas agendas lotadas, pacientes entrando e saindo, e a mulher simplesmente desaparece!

Pacientes psiquiátricos odiavam se encontrar. Eles sempre ficavam sem graça, e Mona conseguia marcar consultas desencontradas para evitar esse tipo de situação.

– Liguei para a casa dela, mas ninguém atende, e o celular está fora de área. Não tenho outro número. Já estou preocupada, porque não é do perfil de Mona fazer isso.

– Assim que tiver cinco minutos vou dar uma vasculhada na mesa dela para ver o que podemos conseguir.

– Ok, Ed. Me avise.

Mais tarde naquele dia, Edward conseguiu o telefone da mãe de Mona. Ligaram para ela, que não tinha ideia de onde a filha pudesse estar; fazia alguns dias que não lhe telefonava.

– Ed, vamos chamar a polícia!

– Será? Estou preocupado, mas...

– Ed, vamos ligar já, não gosto de confiar no meu sexto sentido, mas ele está me dizendo que tem algo muito errado nesse sumiço!

Edward ligou para seus companheiros da polícia. Ficaram todos em estado de alerta. Tendo em vista que o último corpo encontrado parecia um aviso para Simone, o sumiço de sua secretária deixou todos em polvorosa. Prometeram iniciar imediata investigação sobre o caso.

– Você tem mais algum paciente hoje, Simmie?

– Mais um apenas, depois estarei livre. E você?

– Terminei. Vou sair buscar o Noah para jantar comigo, volto e a acompanho até sua casa, ok? Estou preocupado com esse sumiço da Mona.

– Ok, meu amigo, vou aceitar, também estou.

* * * * *

No fim do dia, Edward chegou. Ele e Gregory acompanharam Simone até o carro.

Edward iria seguir Simone até sua casa.

– Dra. Bennet, aquela não é a Mona dentro do seu carro? – perguntou Gregory.

– Sim, acho que é, mas o que ela está fazendo lá? Tenho quase certeza de que tranquei a porta do carro...

Quando se aproximaram, Edward pôs a mão no braço de Simone e eles pararam.

– Espere, Simone, ela não está se movendo!

Mona estava sentada dentro do carro de Simone, no banco do passageiro, como se contemplasse o infinito, os olhos bem abertos.

Edward abriu a porta pelo lado onde Mona estava.

– Oh, Deus, ela está...? – Simone não conseguiu terminar a pergunta.

Edward olho-a e pôs dois dedos no pescoço de Mona. Depois de um momento, balançou a cabeça.

– Nada!

Simone começou a chorar e tentou se aproximar de Ed para ver Mona, mas ele bloqueou seu caminho.

– Não chegue perto, Simone, ela está morta. Gregory, ligue para o 911, vou levar Simone ao meu carro e ligar para meus contatos na polícia.

– Certo, Dr. Reynolds.

Quando Edward se virou, Simone conseguiu ver Mona. A face dela estava pálida e havia um traço de sangue fino em um canto da boca. Simone a tocou, a mão tremendo.

Simone teria caído se Edward não a amparasse. Ela então se deu conta do horror em volta dela.

Mona estava nua da cintura para cima, havia uma substância gosmenta que parecia ser o característico esperma que escorrera entre os seios e a barriga e se detivera na saia que ainda portava.

A novidade ficou por conta de um prendedor de cabelo que segurava um bilhete preso na saia: “É sua culpa, vaca”. O bilhete havia sido digitado e impresso. O assassino era cuidadoso.

– Edward, não! – foi tudo o que Simone conseguiu dizer. O peso dos últimos dias, das descobertas feitas, a deixou vazia, esgotada. Nada mais fazia sentido. E agora era responsável por mais uma morte... O que havia feito? Como havia provocado isso? Como poderia ser responsável por uma atrocidade dessas? Ela sentia uma dor quase física por perder uma amiga dessa forma brutal.

– Simone, vou ligar já para a polícia, estou com a forte suspeita de que isso foi obra daquele seu paciente maluco, o Alvin! Mona o retirou à força, não é? Ela me contou que ele saiu esbravejando que você iria pagar pela forma como o vinha tratando, e logo em seguida ela desapareceu.

– Eu me recusei a tratá-lo, ele é lunático, mas penso que não é um assassino, Edward. Eu teria notado os sinais...

O cérebro de Simone se recusava a admitir que poderia ter tido um assassino embaixo do seu nariz sem conseguir decifrar a situação. Se fosse verdade, deveria se aposentar, ir para casa, não mais trabalhar no consultório. Seus instintos estavam falhando, o que era inadmissível na sua profissão.

– Venha aqui, Simone, eu me encarrego de tudo, venha para meu carro. Noah está lá. Vou levá-la para a minha casa. Eu moro em apartamento, é muito mais seguro. Nem pensar que você voltará para casa hoje.

Simone se deixou levar. Estava abalada demais com tudo, não sentia condições sequer de argumentar. Edward levou-a até o carro e a acomodou no banco traseiro.

– Sente-se aqui, querida – ele falou, enquanto a ajudava com o sinto de segurança. Simone não conseguia controlar sua mão, que tremia.

– Noah, fique aqui com a Simone, faça companhia a ela, por favor. Vou chamar a polícia, falar sobre o Alvin – Edward ligou para a polícia e andou alguns passos, enquanto Simone ficava sentada em silêncio, olhando para o espaço e se perguntando por que estaria envolvida em tal horror.

* * * * *

A polícia prendeu Alvin algumas horas depois. As investigações preliminares mostraram que ele não era casado, não tinha filhos, tivera apenas um irmão gêmeo que morrera num acidente com toda a família. Ele era só, um desses gênios da computação.

Na casa dele, foi descoberto um computador de onde ele rastreava todos os e-mails de Simone e se correspondia com uma tal de Claire, dizendo chamar-se Victor, o nome do irmão que perdera.

Edward e Simone explicaram para a polícia quem era Claire e a polícia estava quase certa de que ele tinha algum problema sério com Simone e de que, quase com certeza, ele era o assassino em série que vinham buscando.

Descobriram que Alvin se correspondia com Simone via a personagem Claire, de diversos e-mails. Aparentemente, quase todas as propostas que “Claire” recebera vinham do mesmo lugar: do computador de Alvin, que continha diversos e-mails falsos com pseudônimos dos correspondentes.

No dia seguinte, Alvin foi interrogado e negou o tempo todo qualquer envolvimento com as mortes locais, mas não negou ou explicou os e-mails. Na sequência, ele foi submetido a um teste de esperma, cujo resultado estaria pronto em menos de vinte e quatro horas. Não havia digitais no bilhete encontrado com Mona para comparar com as dele.

Para surpresa geral, o resultado do teste de esperma mostrou que não havia a menor compatibilidade entre ele e o assassino. Ainda assim, as atitudes de Alvin eram suspeitas. A polícia começou a se perguntar se não havia mais do que um assassino, ou se Alvin teria um colaborador que executava as mortes enquanto ele as arquitetava.

Descobriram que a empresa de software de Alvin era lucrativa, então não faltaria dinheiro para ele contratar alguém para executar o trabalho sujo. Diversas teorias foram levantadas pela polícia. Não havia, no entanto, prova concreta de nada, e eles teriam que deixar Alvin partir, pois seu advogado pagara uma alta fiança.

O advogado informou à polícia que Alvin gostaria de conversar com Simone para esclarecer a história, o que, segundo ele, o inocentaria.

A polícia perguntou se Simone tinha condições de colaborar mais um pouco com eles, depois do choque da morte de Mona, porque precisavam saber o que estava acontecendo. Teriam que liberar Alvin, e talvez uma conversa com Simone fosse uma das provas de que necessitavam. Simone concordou.

Alvin e seu advogado sentaram-se com Simone numa sala na delegacia de polícia, onde tudo seria gravado e filmado.

– Então, a bela doutora mandou me prender... – iniciou Alvin.

– Alvin, Victor, quem é você, afinal? E o que quer comigo?

– Alvin, doutora, meu nome é real. Eu queria apenas conhecer a mulher que matou meu irmão!

– Seu irmão? Mas eu não conheci seu irmão! Acabei de saber que você tinha um irmão gêmeo!

Continuar: parte 3 de 4