Atuação pública em arranjos produtivos locais
2.2 Especificidades técnicas da indústria do calçado
Gráfico 9 – Crescimento da produção de calçados entre 2000 e
2012
Fonte: Elaborado pelo autor com base em Gorini et al. (2000),
Rizzo (2004), Souza (2004), Abicalçados (2012) e SindiFranca
(2013).
Compreensão mais abrangente da performance competitiva do arranjo produtivo de Franca exige, com efeito, o aprofundamento da apreensão da dinâmica produtiva característica da fabricação do calçado, por um lado, e da indústria calçadista de Franca, por outro. Aspectos específicos da produção desse artefato explicam muitos dos fatores pertinentes à estrutura produtiva local, contribuindo para o entendimento do perfil empresarial, no que diz respeito tanto a sua formação social quanto a sua conduta empreendedora. Nas seções seguintes busca-se uma reflexão aprofundada sobre esses elementos.
2.2 Especificidades técnicas da indústria do
calçado
A primeira discussão a ser feita quanto à estrutura produtiva do polo industrial de Franca diz respeito às especificidades das condições de produção que caracterizam a fabricação do calçado, sobretudo se comparadas às transformações tecnológicas e de desenvolvimento de novos processos que distinguem o capitalismo industrial em tempos atuais. Na indústria do calçado, de forma nenhuma podemos falar de uma "expansão do trabalho intelectual e de redução e desvalorização do trabalho manual", cenário que o sociólogo Bernardo Sorj (2001, p.78) utiliza para descrever as características do novo processo de acumulação capitalista decorrente das transformações globais em curso a partir das duas últimas décadas do século XX.
Ainda prevalece nessa indústria a habilidade manual como fator fundamental não apenas na dinâmica da produção, mas também como elemento de ligação para a gênese de inúmeras trajetórias empresariais. Atualmente, enquanto se observa nos mais diversos setores o avanço quase sem limites da microeletrônica no que diz respeito ao planejamento, execução e controle dos processos de produção fabris, na indústria do calçado essa dinâmica é ainda incipiente, restringindo-se praticamente à concepção do produto. A explicação de Achyles Barcelos da Costa em importante estudo sobre a competitividade da indústria brasileira serve como ponto de partida para o entendimento dessa questão; segundo esse economista, a natureza do artefato "calçado" é um elemento a obstaculizar a modernização técnica da sua produção: "a complexidade das fases de costura e montagem, onde se concentra cerca de 80% da mão de obra, tem limitado as possibilidades de automação" (Costa, 1993, p.2). Conforme complementa, a fabricação do calçado
caracteriza-se por constituir um processo de trabalho de natureza intensiva
em mão de obra, com tecnologia de produção que guarda ainda acentuado
conteúdo artesanal. Assim, esta indústria apresenta elevado potencial de
emprego, desempenhando importante papel na incorporação de mão de
obra, inclusive não especializada (Ibid., p.1, grifo nosso).
Com essa mesma ênfase, Valmíria Carolina Piccinini (2001, n.p.) assinala "a tecnologia da maioria das máquinas utilizadas no setor calçadista é relativamente simples [...] presentemente 50 a 60% das máquinas utilizadas na fabricação do calçado são convencionais, isto é, não dispõem de dispositivos eletrônicos".
Sob diferentes aspectos, a confirmação desses argumentos para o caso do polo industrial de Franca já foram tratados em diversos trabalhos científicos (Barbosa; Mendes, 2004; Barbosa, 2006, 2012). Da mesma maneira, outros estudiosos também compartilham essa mesma avaliação. Analisando a evolução tecnológica da indústria calçadista do Rio Grande do Sul, Clovis Leopoldo Reichert (2004, p.53) observa: "a absorção de inovações nessa indústria se efetua em condições relativamente precárias", com exceção de algumas poucas empresas de grande porte que, pela natureza de seu produto, conseguem utilizar equipamentos com maior nível de eletrônica embarcada e experimentar graus mais elevados de automação. No entanto, sua conclusão sobre o conjunto da indústria corrobora a linha de raciocínio que vem sendo desenvolvida:
O setor calçadista precisa de parceiros competentes que ajudem na
orientação para a concepção e o estabelecimento do planejamento
estratégico e tático. [...] Além do treinamento e qualificação de seu pessoal,
o setor calçadista também precisa de mais ajuda para qualificar o processo
de tomada de decisões no que diz respeito à avaliação e introdução de
novas tecnologias e processos (Reichert, 2004, p.67).
Mesmo em países onde a indústria calçadista apresenta maior evolução técnica, o processo de fabricação mantém poucos traços que possibilitem identificar procedimentos tecnológicos avançados. Em pesquisa sobre o operariado da indústria portuguesa, Elísio Estanque (2000, p.246) assinala que
pode dizer-se que o calçado é um daqueles sectores em que a automação é
assaz limitada. Mesmo nas tarefas mais mecanizadas, a componente
manual tem um peso significativo. Em todas as posições da linha de
montagem essa componente está presente, muito embora haja umas que
são mais facilmente efetuadas do que outras.
As especificidades técnicas da indústria do calçado trazem à tona outro fator a ser considerado nesta pesquisa: as condições de produção facilitam a entrada de novos empreendedores e possibilitam a ascensão de pequenos fabricantes à condição de empresários. O baixo nível tecnológico, resultante da lentidão das inovações no setor, reflete-se na configuração de uma indústria de mão de obra intensiva na qual as exigências de capital tendem a ser muito baixas. Segundo Costa (1993, p.1),