Atuação pública em arranjos produtivos locais
2.3 A estrutura produtiva do território diante do impacto da reestruturação capitalista
a intensidade em força de trabalho e a relativa difusão da habilidade de
produzir calçados têm permitido que se inicie essa atividade com uma
necessidade de capital relativamente baixa, de modo que as barreiras à
entrada e à saída de novas empresas no setor não são expressivas.
Em análise do setor, Reichert (2004, p.53) considera "a quase inexistência de barreiras à entrada de novos competidores no mercado" como componente de uma espécie de círculo vicioso que dificulta o processo de inovação tecnológica nessa indústria; os demais elementos seriam as "condições específicas da produção do calçado de couro" e "a pequena potencialidade de valorização do capital nessa atividade produtiva" (Ibid.). Gorini et al. (2000), por sua vez, apontam as características do processo produtivo do calçado – que "apresenta fortes descontinuidades, o que estimula a sua fragmentação" e as "reduzidas barreiras à entrada verificadas no setor" – como os fatores explicativos para a multiplicação de microempresas nesse ramo industrial (Ibid., p.8).
2.3 A estrutura produtiva do território diante do
impacto da reestruturação capitalista
Em face do exposto na seção anterior, o exemplo da indústria do calçado se mostra distante daquele salientado pelo sociólogo Ricardo Antunes para caracterizar a essência da "lógica destrutiva vigente" no capitalismo contemporâneo, marcada indelevelmente por "mecanismos utilizados pela reestruturação produtiva do capital visando reduzir trabalho vivo e ampliar trabalho morto" (Antunes, 2003, p.112, grifo do autor). A persistência da fabricação
predominantemente manufatureira 2 nessa indústria possibilitou a sobrevivência do "saber-fazer" e da "habilidade" como fatores importantes no universo da produção, não fazendo da subsunção plena do trabalho à maquinaria uma realidade incondicional. Assim, contrariando a lógica dos novos tempos, nesse setor, o ofício, a habilidade manual, acabou por constituir uma porta de acesso ao "mundo empresarial", tornando o saber-fazer um aspecto relevante a explicar a emergência de empresários do setor, já que essa é uma indústria na qual a magnitude do capital não parece ser componente decisivo para o início do empreendimento.
Ao contrário do que possa indicar determinadas simplificações teóricas recorrentes, no território estudado, em razão das características singulares de sua estrutura produtiva, o impacto das mudanças desencadeadas em escala global produziu efeitos que exigem um esforço interpretativo mais complexo que aqueles que correlacionam a ordem econômico-social atual meramente a hipertrofia das dimensões do mercado e a depreciação do fator trabalho. Essas mudanças ocasionaram ao mesmo tempo tanto a precarização quanto uma fuga à rigidez da produção fordista para os trabalhadores empregados na indústria do calçado – ambos os processos gerados sob o efeito da hegemonia de determinada
versão do toyotismo 3 como padrão de organização da produção fabril.
As transformações observadas no tecido empresarial do arranjo produtivo de Franca desde o início da década de 1990 demonstram que, por certo, não foi incomum nesse período a conversão de operários do calçado à condição de empresários – sobretudo, microempresários. Em virtude das baixas barreiras à entrada nesse setor, o estabelecimento como fabricantes foi, por certo, o caminho encontrado por muitos trabalhadores dispensados de grandes e tradicionais empresas como Terra, Pestalozzi, Francano, Guaraldo, Paragon, M 2000, entre outras, que nos anos 1990 sucumbiram ao "choque de competitividade" engendrado pela emergência da concorrência asiática na aurora da nova ordem econômica global. No segmento no qual predomina ainda o trabalho essencialmente manufatureiro, e por vezes artesanal, o "saber-fazer" teve, seguramente, peso crucial na "decisão" dos trabalhadores em se estabelecerem como empresários.
Um forte indicativo de que essa dinâmica de conversão de ex-operários em industriais se processou de maneira incontrolável nas últimas décadas é percebida na expansão de micro e pequenas empresas fabricantes de calçados na estrutura econômico-produtiva de Franca, quase triplicando em número entre 1990 e 2011. De acordo com os dados da Relação Anual de Informações Sociais do
Ministério do Trabalho e do Emprego (RAIS/MTE, [s.d.]), 4 as microempresas aumentaram de 449 para 1.163, e as pequenas foram de 71 para 195 – sendo que em alguns anos desse período
esses números foram ainda mais elevados5. Por outro lado, os estabelecimentos de médio e grande porte diminuíram significativamente: as médias reduziram de 49 para 27 e as grandes diminuíram de 9 para apenas 1. Os últimos cinco anos da década de 1980 apresentaram números ainda mais impressionantes; justamente nesse período que foi o momento histórico de maior impacto para o país das mudanças que deram ensejo à reestruturação do capitalismo em escala global, o número de microempresas calçadistas mais que dobrou em um curto espaço de tempo: de 204 em 1985 para 449 em 1990.
Nos Gráficos 10 e 11 é possível acompanhar a evolução do número de empresas calçadistas no polo industrial de Franca segundo o seu porte.
Gráfico 10 – Evolução do número de empresas calçadistas por
porte (1990-2011)
Fonte: Elaborado pelo autor com base nos dados da RAIS/MTE,
[s.d.]
Gráfico 11 – Evolução do número de empresas calçadistas –
Números agregados para micro e pequenas empresas / médias e
grandes empresas (1990-2011)
Fonte: Elaborado pelo autor com base nos dados do RAIS/MTE,
[s.d.]
Paralelamente à dinâmica de expansão das micro e pequenas empresas e, com efeito, de forma complementar a esse processo, a eliminação de postos de trabalho pelo fechamento de indústrias de médio e grande porte levou a um alargamento sem precedentes da rede de prestadores de serviços. Segundo o Cadastro de Contribuintes Ativos da Prefeitura Municipal de Franca (2013), atualmente o número de estabelecimentos que prestam serviços de pesponto, acabamento, costura manual, corte, chanfração etc., perfaz o total de 1.546 – em meados da década passada esse total
já ultrapassava o total de 1.5006. Todavia, em Franca, diferentemente do padrão observado pela literatura que trata da temática da reestruturação produtiva, essa expansão de empresas prestadoras de serviços não tem como causa imediata o atendimento das necessidades de flexibilização do grande capital. Pelo contrário, esse processo favoreceu o surgimento de micro e pequenos empreendimentos, que puderam emergir já dispensados das obrigações de uma série de atividades, desde seu início transferidas a terceiros – o que diminuiu ainda mais o capital inicial necessário à entrada no ramo.
Nesse aspecto, a experiência do polo industrial de Franca assume configuração bastante distinta daquela presente em trabalhos que se tornaram referências na análise dos efeitos desencadeados pela reestruturação produtiva do capitalismo a partir da década de 1970, como os do geógrafo David Harvey e do sociólogo André Gorz. De acordo com Harvey, no contexto do que chama de acumulação flexível, caracterizada pela flexibilização dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo,
os pequenos negócios, as estruturas organizacionais patriarcais e artesanais
também floresceram. [...] Novos sistemas de coordenação foram
implantados, quer por meio de uma complexa variedade de arranjos de
subcontratação (que ligam pequenas firmas a operações de larga escala,
com frequência multinacionais), através da formação de novos conjuntos
produtivos em que as economias de aglomeração assumem crescente
importância, quer por intermédio do domínio e da integração de pequenos
negócios sob a égide de poderosas organizações financeiras ou de
marketing (a Benetton, por exemplo, não produz nada diretamente, sendo
apenas uma potente máquina de marketing que transmite ordens para um
amplo conjunto de produtores independentes). (Harvey, 1995, p.150).
Ênfase semelhante é pontuada por Gorz (2005, p.26) quando ressalta que os pequenos prestadores de serviços independentes "estão, na realidade, sob a dependência de um único grande grupo, ou de um pequeníssimo número de grandes grupos que os submetem à alternância de períodos de hiperatividade e de desemprego".
No caso estudado, o fenômeno do autoemprego – típico dos novos tempos do capitalismo – tem como uma das suas dimensões mais notáveis a superação das fronteiras da prestação de serviços, uma das principais características de seu advento, e se enraíza de modo efetivo no universo da produção industrial em si. Subvertendo a ideia recorrente de que no contexto da globalização a proliferação de novos pequenos negócios se dá como complemento às atividades do grande capital, em Franca a emergência de novos empresários ocorre com surpreendente vigor na linha de frente dessa indústria, ou seja, na atividade principal voltada para o mercado: a fabricação de calçados. Entrevistas realizadas com
empresários em outro trabalho de pesquisa7 demonstraram, ademais, que a transição da condição de prestador de serviços para a de fabricante de calçados também não foi uma possibilidade
incomum na indústria de Franca. O depoimento do Empresário F.,8 que em 2006 era proprietário de uma fábrica com 72 funcionários e produção de 800 pares/dia, confirma essa assertiva: "com apoio do sogro iniciei prestando serviço, depois em meados de 1986 me tornei um pequeno fabricante com outros sócios" (informação
verbal). 9 10 A declaração dada pelo Empresário E. contribui no mesmo sentido: "no início fizemos uma transição da banca de pesponto pra fábrica, aproveitando parte dos funcionários para este
processo 11 " (informação verbal).
A expressão mais contundente da reestruturação do capitalismo no polo calçadista de Franca obedece, então, a uma dupla dinâmica, marcada por elementos bastante singulares considerados as características desse processo em escala global. É possível observar, por um lado, uma intensa fragmentação do tecido empresarial representada pela predominância absoluta de micro e pequenas empresas especializadas na fabricação de calçados. Por outro lado, essa dinâmica tem como substrato importante a hiperintensificação da subcontratação, localmente também chamada de "terceirização", ou seja, a realocação de parte do processo produtivo por meio da subcontratação de empresas e/ou pessoas especializadas na realização dos mais diversos serviços próprios a essa indústria: pesponto, corte, chanfração, entre outros. O toyotismo assume, nesse caso, um sentido inverso ao que comumente lhe é peculiar. A transferência de parte da produção a "terceiros" não serve estritamente ao objetivo de desoneração do grande capital, pelo contrário, tem papel decisivo na expansão das micro e pequenas indústrias que passam a concorrer diretamente com as médias e grandes empresas – concorrência esta que não raro ganhou contornos de uma competição predatória.
Outrossim, cabe lembrar que a subcontratação não é um fenômeno novo na indústria do calçado como é em outros setores, em que apenas nas três últimas décadas emerge esse tipo de trabalho. É sim, um elemento praticamente inerente à fabricação de sapatos há pelo menos um século e meio. Conforme já foi destacado em trabalho anterior (Barbosa, 2006), em O Capital, o trabalho domiciliar de costuradores de calçados é exemplo recorrente utilizado por Karl Marx para tratar do moderno trabalho a
domicílio; segundo Marx (1996), 12 o trabalho familiar na fabricação de sapatos e botas absorveu boa parte da produção de máquinas de costura, que eram, já naquela época, alugadas aos trabalhadores domiciliares que não tinham condição de comprá-las. Marx assinala ainda que, em Londres, após o surgimento da máquina de costura, a distribuição de trabalho a domicílio para a fabricação de calçados foi a última a desaparecer entre os setores nos quais esse tipo de trabalho era comum, e a primeira a reaparecer depois de algum tempo. Em seu clássico A evolução do capitalismo, Maurice Dobb (1976, p.324) conf irma esse argumento ao assinalar que em 1871 "diversos processos na fabricação de botas ainda eram executados por trabalhadores externos [sendo que] quase todo o acabamento era feito em casa". Dessa forma, não há como falar deste elemento do toyotismo como uma completa novidade a transformar toda a estrutura de produção no setor.
O impacto maior do toyotismo no território produtivo local não se fez sentir por intermédio da introdução de novas tecnologias, sejam elas de produção, materializadas no aprimoramento de maquinário visando ampliar a automação fabril, ou de processos, com a implantação do just in time, kanban ou difusão da economia de escopo. Esse é o caráter geral do processo de acumulação flexível que passa a caracterizar o capitalismo industrial nas últimas décadas. É pensando justamente nesse aspecto que o sociólogo Michel Vakaloulis (2003, p.124-125) argumenta: "as estratégias de flexibilidade apoiam-se nas novas tecnologias de automatização para intensificar a mobilidade da mão de obra e dos fluxos produtivos" e que essa mesma flexibilidade somente consegue efetivo êxito nas tarefas de gerir com fluidez os processos de trabalho, integrar funcionalmente os coletivos de trabalho, descompartimentar as hierarquias da empresa, dispersar as unidades de produção e colocá-las em concorrência, porque "assistida 'materialmente' pelas novas tecnologias de informação" (Ibid.). Em Franca, a flexibilização capitalista tem sua expressão mais marcante na hipertrofia de um antigo elemento já presente e tradicional na sua estrutura produtiva e que traduz notadamente sua característica manufatureira: a subcontratação.
Essa interpretação é corroborada pela socióloga Vera Navarro (2006, p.424), que em importante artigo sobre o tema conclui: "as mudanças ocorridas nesse setor produtivo não dependeram da incorporação de recursos tecnológicos avançados, mas fundam-se no uso intensivo do trabalho informal nas 'bancas' e em domicílio". No entanto, em que pese essa concordância inicial, a avaliação geral feita por Navarro a respeito dos efeitos da reestruturação produtiva em Franca diverge das considerações apresentadas nesta pesquisa. Para ela, o processo de reestruturação capitalista tem uma dinâmica monolítica, qual seja, o da precarização das relações de trabalho. Conforme argumenta,
o processo de terceirização em curso no país, na sua variante "espúria",
intensifica a extorsão de mais-valia absoluta, e o comportamento da indústria
calçadista francana diante dessa nova lógica do mercado serve de exemplo,
pois naquele ramo industrial a subcontratação ou terceirização, com tem
sido referenciada ultimamente, é velha conhecida e convive com formas não
especificamente capitalistas de exploração do trabalho, como o trabalho em
domicílio, que pode, ou não, assumir características de trabalho familiar
(Navarro, 2006, p.413).
Por outra parte, a reflexão de Navarro sobre os efeitos draconianos da reestruturação produtiva para a indústria calçadista de Franca revela um inegável sabor de nostalgia do fordismo:
As principais mudanças observadas no interior das fábricas foram a redução
de postos de trabalho, principalmente daqueles relacionados a tarefas
auxiliares nas diversas seções das fábricas, e a utilização do trabalho em
grupo ou células de produção, que, por meio do reagrupamento de tarefas
antes realizadas individualmente, deu origem ao trabalhador polivalente ou
multifuncional, à rotação de tarefas, mudanças essas que são apresentadas
como estratégias modernas para adequar a produção à nova lógica
capitalista, mas que para o trabalhador, representam apenas sobrecarga,
superposição de tarefas, que passam a coexistir com maior intensificação e
controle do trabalho (Navarro, 2006, p.413).
À luz da pesquisa apresentada neste livro, a lógica descrita por Vera Navarro poder ser também interpretada por um viés diferente – em certa medida, diametralmente oposto. A dinâmica examinada pela socióloga seguramente precarizou as relações de trabalho, "expulsando" contingente expressivo de operários das indústrias, mas, por outro lado, ao substituir a rigidez fordista pela disseminação do "saber-fazer" de modo mais amplo no interior das fábricas cumpriu a função de instrumento de alavancagem de boa parte dos empreendimentos surgidos nas duas últimas décadas. Muitos empresários idealizaram os modelos e foram os artífices dos produtos saídos de suas fábricas nos primeiros momentos de sua existência.
Isso foi possível em razão de ser a indústria do calçado um setor com reduzidas barreiras à entrada, conforme já salientado anteriormente, tornando possível fazer do "savoir faire sapateiro" uma chave de transposição da condição operária a de fabricante. A dinâmica de reestruturação produtiva, ao intensificar a difusão do trabalho domiciliar, contribuiu do mesmo modo para disseminar know-how de fabricação do calçado por amplas camadas da classe trabalhadora; ao facilitar o acesso à concepção de modelos, design e materiais em ambiente produtivo no qual as condições de estabelecimento por conta própria são favoráveis, o "turbilhão da reestruturação" também gerou uma multidão de novos competidores.
A complexidade das tramas econômico-sociais engendradas pelos efeitos da reestruturação capitalista no polo industrial de Franca exige uma abordagem que não se restrinja, meramente, às perspectivas da generalização teórica recorrente sobre o tema, sob pena de não se conseguir contemplar o que a experiência desse território tem de singular. E mais: reduzir a análise das transformações ocorridas ao prisma da precarização limita a possibilidade de explicação da sobrevivência no tempo desse arranjo produtivo – não obstante as crises e sobressaltos das últimas décadas. Por um lado, a precarização esclarece a incontrolável expansão das micro e pequenas empresas, que surgem às centenas a cada ano. A análise de Werner Sengenberger
e Frank Pike 13 fornece importante contribuição ao exame dessa questão ao vincularem o fenômeno da precarização a um círculo vicioso que resulta, recorrentemente, em uma espiral de instabilidade do emprego. De acordo com Sengenberger e Pike (2002, p.117), o problema da opção pela precarização
é que a melhora que proporciona ao desempenho competitivo, se houver
alguma, costuma durar pouco. Na maioria dos casos, o que faz é acentuar o
mal-estar. Salários ruins e contratos de trabalho por tempo determinado
constituem um empecilho para que a firma capte e mantenha a mão de obra
qualificada de que precisa para ter eficiência e flexibilidade; além disso, este
enfoque raramente induz a empresa a 'investir' em sua mão de obra para
torná-la mais produtiva. Assim, como a firma não consegue um desempenho
melhor, nem tem outra opção, novos cortes podem vir a ser inevitáveis, o
que resulta em uma espécie de círculo vicioso que descreve uma espiral
descendente.
Por outro lado, não se pode desconsiderar o fato de que concomitantemente à precarização das relações de trabalho, desde o início da década de 1990 o polo de Franca vivenciou o fechamento de quase metade das empresas de médio porte e 90% das grandes empresas, o que poderia ter comprometido irreversivelmente não apenas a competitividade do arranjo produtivo, mas igualmente ter causado o colapso generalizado do emprego no território. Embora os momentos de crise não tenham sido incomuns nas duas últimas décadas, a indústria de Franca resguarda ainda significativa projeção no âmbito do setor calçadista brasileiro. No que diz respeito ao emprego, há períodos de agudo
declínio – como nos meses finais de 200814 –, mas outros de considerável destaque no cenário nacional. De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho e Emprego (CAGED/ MTE), no primeiro semestre de 2008 Franca foi uma das dez cidades brasileiras que mais gerou emprego, com criação de quase 8 mil vagas (a cadeia produtiva do calçado foi responsável por 76% desse número). Em janeiro de 2011 e de 2012, Franca ocupou, respectivamente, a oitava colocação e a sexta colocação em nível nacional, de acordo com a mesma fonte – a indústria calçadista foi responsável por cerca de 80% das vagas criadas. O problema do território neste aspecto é a crônica instabilidade do emprego em face da fragilidade da estrutura produtiva.
Em face do exposto, não é de forma alguma despropositado entender a expansão das micro e pequenas empresas, assim como o autoemprego resultante dos efeitos da dinâmica de reestruturação capitalista, como fatores responsáveis por sustentar a manutenção do trabalho e da competitividade econômica no território mesmo diante da turbulência enfrentada no contexto da globalização. Nesse sentido, emerge no polo calçadista de Franca, em dimensões bastante expressivas, um tipo de estrutura produtiva diferenciada que apresenta fortes elementos tanto de desenredamento da rigidez do trabalho assalariado fordista quanto das tramas espúrias da precarização. A análise do cientista político Giuseppe Cocco e outros autores, que se valem do exemplo dos distritos industriais italianos, contribui para a compreensão da experiência de Franca ao associar a perspectiva do trabalho na nova configuração capitalista não mais à empresa fordista, mas ao território. Em suas palavras,
se o emprego (formal, full time) entra em crise, o trabalho (em suas múltiplas
formas) se espraia pelo território, integrador de uma diversidade que
encontra as condições para sua reprodução nas cadeias produtivas
formadas pelas redes de pequenas e médias empresas (Cocco et al., 2002,
p.23-24).
Em estudo publicado em 2004, a economista Gláucia Campregher vislumbra, em experiências dessa natureza, a possibilidade de se confrontar de modo eficaz com o poderio das grandes organizações capitalistas – e até mesmo de superá-las rumo à construção de uma nova ordem econômica. Segundo observa,
paralelamente à superação da rigidificação fordista pela acumulação flexível,
abre-se a possibilidade de uma superação do assalariamento como forma
exclusiva do trabalho e da grande empresa como destino de toda e qualquer
empresa vitoriosa na concorrência capitalista. Não muda apenas a forma de
contratação do trabalho, mas da sua organização, de modo que os
trabalhadores têm a chance de se organizar independentemente do
empresário (ou, pelo menos, independentemente daquele empresário que
meramente pagava o preço da força de trabalho e a carregava para a
fábrica). O que significa dizer que o trabalho não está fadado a amargar o
destino inexorável de uma flexibilização contratual apenas benéfica para o
capital (Campregher, 2004, p.135-136, grifo nosso).
Cabe ressaltar, porém, que a maioria dos novos industriais de Franca se estabeleceu sem quaisquer noções de preceitos contábeis, de marketing, de processos de informação ou de logística, entre tantas outras habilidades básicas para a administração de uma empresa no estágio atual da sociedade capitalista. São, em grande medida, homens e mulheres egressos do "chão de fábrica". Pesquisa recente encomendada pelo
SindiFranca a um instituto independente15 constatou que 61% dos empresários locais do setor trabalharam como operários de outras
indústrias calçadistas (SindiFranca, 2011). 16 Complementa o perfil dos estabelecimentos industriais do polo a informação de que 50% delas são "empresas familiares, tendo como funcionários esposas, cunhados e outros parentes próximos, [...] [sendo que] 41% são empresas individuais (sem funcionários) [...] [e quanto à estrutura econômica, ressalta-se que] 67% das empresas faturavam no máximo R$ 10 mil ao mês e 82% eram optantes do Sistema Simples" (Ibid., p.45). Resumindo, a estrutura produtiva do polo calçadista de Franca está assentada em bases econômico-sociais bastante frágeis.
Se nos distritos industriais da Terceira Itália a importância da grande organização fabril permaneceu praticamente inabalada, a despeito da presença maciça de micro e pequenas empresas (Cocco; Urani; Galvão, 2002), no polo calçadista de Franca repousa sobre esta categoria de empreendimentos industriais a responsabilidade pela maior parte da geração dos empregos. Atualmente as empresas de micro e pequeno porte respondem por mais de 2/3 dos empregos (71,5%) da indústria de calçados; somente as microempresas, ou seja, aquelas que possuem até 19 funcionários, são responsáveis por 28,6% dos empregos. Em 1990 a situação era inversa: as médias e grandes empresas respondiam por mais de 3/4 dos empregos (76,8%), sendo as de grande porte responsáveis por 32,1% dos postos de trabalho (Brasil, [s.d.]). Em outras palavras, nas duas últimas décadas o arranjo produtivo local enfrentou um intenso processo de fragilização das bases do emprego. Se comparada à média da indústria calçadista brasileira ou ao polo industrial de Birigui, com o qual já houve cotejamento anterior, pode-se perceber claramente que em Franca as micro e pequenas empresas têm atualmente um peso significativamente maior na geração de empregos – o que não acontecia no início da década de 1990. Nos gráficos a seguir é possível vislumbrar essa diferença, assim como a evolução desse processo nas duas últimas décadas em Franca.
Gráfico 12 – Participação de micro e pequenas empresas na
geração de empregos (1990/2011)
Fonte: Elaborado pelo autor com base nos dados do RAIS/MTE
(Brasil, [s.d.]).
Gráfico 13 – Evolução da participação de micro e pequenas
empresas e de médias e grandes empresas na geração de
empregos em Franca (1990-2011)
Fonte: Elaborado pelo autor com base nos dados do RAIS/MTE
(Brasil, [s.d.]).
Como se pode depreender da linha de interpretação assumida, a pesquisa relatada buscou analisar as características da estrutura produtiva do território para além de uma perspectiva de uma evocação saudosista do fordismo, de uma chamada ao "retorno à linha de produção". Pelo contrário, perseguiu-se uma explicação que contemplasse as singularidades da estrutura produtiva local, buscando uma abordagem que convergisse com as exigências do problema abordado. Conforme já discutido, essas singularidades não devem ser examinadas apenas pelo prisma da precarização, desconsiderando o potencial de engendramento de uma nova experiência de configuração produtiva e enfatizando a "vitimização" dos atores sociais envolvidos. Mas seria igualmente equivocado desprezar as fragilidades desses atores e, por conseguinte, da estrutura produtiva na qual eles representam o papel de protagonistas. Por isso o empenho na investigação da atuação pública para a promoção da eficiência coletiva no território analisado. Diante das fragilidades observadas, o Estado e seus agentes institucionais representam a possibilidade de oferta de serviços que possam suprir as deficiências e debilidades; sua ação é essencial para o fortalecimento de atores sociais que sem apoio oficial certamente terão dificuldade em sobreviver à agressividade da competição na nova lógica global do capitalismo. É isso que será tratado no terceiro capítulo.