Catarina de Bragança
Torreão dos Filipes, 22 de Abril de 1662
atarina já não podia ouvir mais discussões. A corte parecia um
autêntico ninho de vespas, em que damas, conselheiros, e até padres, moviam influências para serem eles os escolhidos para integrar a pequena corte que acompanharia a rainha a Inglaterra. Sabiam que o lugar trazia consigo prestígio e recompensa, e mesmo quando nenhuma razão mais oportunista os movia, queriam ir pela aventura, pelo desejo de quebrar o tédio e a rotina. Quem sabe, pensavam as mais novas, se um valido do rei de Inglaterra não lhes acharia graça.
Catarina achara-se com direito a ter uma palavra a dizer na esco- lha das damas que a deveriam acompanhar, dos sacerdotes e frades que queria para a sua capela, e até dos cozinheiros e das criadas de quarto. Luísa recusava-se sequer a ouvir a sua opinião, apesar da solidariedade de Pedro e Afonso que, por uma vez em coro, consideravam uma indignidade que a sua irmã não tivesse qualquer possibilidade de fazer valer os seus gostos.
- Mãe, não pode obrigar a Catarina a viajar um mês, numa cabina, com damas e aias de que não gosta - protestava Pedro.
- Que sentido faz que as missas sejam ditas por padres em quem não con ia, ou que se confesse a alguém escolhido pela rainha de Portugal e não pela rainha de Inglaterra, que, caso não tenha dado por isso, é a minha irmã - acrescentava Afonso, num tom ácido.
Luísa, no entanto, jurava que era por amar a ilha que não a podia deixar partir rodeada de doidivanas, de raparigas novas que não tinham experiência de vida para a poderem não só aconselhar, como chamar a atenção se fosse aliciada a desviar-se um milímetro do caminho da virtude. Escolheria damas viúvas, que não se encantassem elas próprias com algum nobre inglês ou fossem tentadas a comportamentos menos próprios. Já vira com os olhos que a terra havia de comer os vestidos que o genro achava próprios, e não podia permitir que a infanta de Portugal se apresentasse naqueles preparos - que julgariam da mãe que a educara?
Temia que os membros da Igreja apontados pela ilha fossem demasiado parecidos com frei Pedro, gente generosa e boa, mas pouco irme de costumes. Um pouco modernos para o seu gosto - num reino de hereges, a rainha estaria sob constante ataque, e eram necessárias pessoas que por nada deste mundo transigissem. A rainha-mãe desejava, acima de tudo, a felicidade da filha, mas não a custo da sua alma! Tudo menos isso.
Os três irmãos trocaram entre si ares de cumplicidade e enfado, e Catarina fez questão de lhes agradecer a ajuda. Tocara-a muito aquele momento em família, que tanto lhe recordara o tempo em que viviam sob o mesmo tecto e partilhavam tudo.
Terá sido essa nostalgia que a levou a subir devagarinho as escadas até à sala do torreão ilipino. Mais do que na sala da música do pai, era naquele sítio que lhe apetecia refugiar-se do rebuliço, das arcas, do cheiro a naftalina que parecia ter enchido o paço.
Empurrou a porta, que abriu com um ranger das dobradiças ferrugentas, e olhou a sala vazia. Sentou-se numa das cadeirinhas que todos tinham usado em crianças, cadeiras alentejanas encarnado-vivas, pintadas com as lores de cores garridas que tanto lhe lembravam esse paraíso perdido, e que vivera sobretudo por interpostas pessoas, mas que nem por isso era menos poderoso - Teodósio contando os passos da fachada, Joana a roubar-lhe as laranjas, frei Pedro, sereno, que lhe pegara ao colo (embora todos lhe dissessem que era pequena de mais para poder ter retido aquela memória). Até da visita à Senhora das Candeias, os pés descalços no chão da ermida, as memórias pareciam agora voltar tão nítidas, que até encolheu os dedos dentro dos chapins que já se habituara a usar.
Nessa noite, Luísa chamou-a aos seus aposentos, dando ordens para que ninguém entrasse. Catarina engoliu em seco quando a camareira--mor da mãe fechou a porta e correu as cortinas. Sozinha com a mãe era mais di ícil esconder os seus sentimentos, resistir à vontade de lhe implorar que esquecesse tudo, que usasse o pretexto do dote para cancelar o casamento, que a deixasse icar junto de si, em lugar de a entregar nas mãos do marquês de Sande e de todos estes estrangeiros.
Luísa olhou-a de cima a baixo, como se quisesse decorar os mais ínfimos pormenores da sua única ilha, para os guardar no coração e os chamar a si sempre que as saudades apertassem, como se chamasse a própria filha.
Contudo, ao ver as lágrimas a saltar dos olhos de Catarina mudou imediatamente de postura. Tivera um momento de fraqueza, mas recompunha-se. Não podia deixar que a ilha entendesse o sofrimento que lhe causava a sua partida, a solidão imensa em que mergulhava, e que os seus ilhos varões nunca poderiam preencher: icara sem o marido, o herdeiro, Joana, e agora perdia, e para sempre, a sua muito amada Catarina.
- Catarina, já tenho a lista de quem vai embarcar contigo - disse, já recomposta, estendendo à filha três folhas de papel.
Catarina engoliu as lágrimas que sabia não lhe serem permitidas, e começou a ler.
- Mãe, se a senhora minha mãe queria que em lugar de comoção eu sentisse rancor, acertou na gente que colocou nesta lista - respondeu, consciente, pela primeira vez, de como a raiva era um sentimento muito mais agradável do que a ansiedade.
- Já to disse várias vezes, Catarina, podes ser rainha de Inglaterra, assinar assim as tuas cartas e documentos, mas quem toma esta última decisão sou eu...
Catarina corou e, com uma di iculdade enorme em manter a voz controlada, disse:
- A condessa de Penalva, dona Maria de Portugal não está mal. Tem idade para ser minha avó, mas gosto dela.
- Catarina - disse a mãe levantando a voz, em tom de aviso.
Mas nada seria capaz agora de travar Catarina:
- Escapa também a condessa de Pontével, dona Elvira de Vilhena. Mas as outras damas, mãe? O que fazem elas na Casa da Rainha? São feias, são velhas, não encantarão um único dos amigos de Charles. Antevejo que sejam apenas motivo de chacota na corte inglesa, com as suas roupas fora de moda, os seus guarda-infantes, como se temessem que alguém tomasse partido delas... mãe, é ridículo, quero Maria do Rosário e Maria do Carmo comigo, quero aias bonitas, que ho menageiem a beleza das portuguesas...
- Catarina, todas as tuas razões podem e devem ser usadas contra ti. Falas de guarda-roupas em lugar de almas, de guarda-infantes em lugar de imagens de santos, de vaidade em lugar de penitência e da confissão dos pecados. Filha, este casamento se for de amor tanto melhor, acredita que desejo que o seja, do fundo do coração, mas tu representas Portugal, um reino católico, temente de Deus, que tem outros valores que não o dessa gente que pensa primeiro em salvar o corpo do que em salvar a alma. Sugiro mesmo, Catarina, que te confesses antes de partir...
Catarina engoliu em seco. Fora educada nestas verdades, que faziam parte de si, e se conseguia entender que algumas não faziam qualquer sentido, porque não eram nem vontade de Deus, nem garantia de que uma alma franquearia as portas do Céu, sentia sempre uma enorme culpa quando a mãe a acusava de ser egoísta, de pôr as suas vontades e os seus desejos à frente dos de Portugal e da Igreja.
Mas não queria ceder. Lembrava-se bem de como frei Pedro lhe dissera que não gostava de rezar aos pés de Cristo cruci icado - não havia justi icação para nada disto. Não era uma criança, nunca dera um sinal de leviandade, nem de que se fosse entregar a um caminho de devassidão, só porque penteava o cabelo de outra maneira ou tinha prazer num vestido bonito. Respirou fundo, decidiu adoptar uma postura «à Afonso», cuja rebeldia agora entendia melhor e continuou a ler:
- O marquês de Sande por acaso tem sido uma revelação, começo a gostar mais dele, embora possa ser insuportavelmente vaidoso e me continue a tratar como troféu pessoal.
- Lá estás tu, Catarina. Deves ao marquês tudo...
- Ou ele a mim! A ver vamos, o que lhe devo... ainda não cheguei a Inglaterra - ripostou uma Catarina, subitamente feliz com a sua insubordinação. Como sabia bem dizer estas atoardas que milagrosamente a libertavam daquele nó que há meses lhe apertava o peito e a impedia de respirar. Numa voz propositadamente monótona, continuou a ler:
- Ora, muito melhor me parece esta lista de homens, mãe. As damas inglesas vão ter mais sorte do que eles... Nuno Cunha de Ataíde, Francisco Correia da Silva, Ricardo Russel - ah, o father Richard, que alívio, sempre levo comigo o meu professor de inglês e um tradutor gentil, que faz tudo para não me humilhar. Além disso, Charles reco mendou-o na carta, não foi? Ficará contente que venha de novo comigo.
- Recomendou e a recomendação foi aceite, porque foi nomeado bispo de Portalegre - respondeu Luísa, que pessoalmente era também uma admiradora da inteligência e diplomacia daquele «inglesinho».
Catarina continuou, agora mais interessada:
- Henrique Zevout, porquê, mãe?
- Porque foi vedor da mãe de Charles, a tua sogra Henriette Marie, que espero que trates com a consideração com que o teu marido me tem tratado a mim. Sendo católica, poderá ser a tua maior aliada.
- Diz-se mesmo que foi ela que convenceu Charles a casar comigo, não é?
Luísa respirou fundo por várias vezes, lembrando-se dos dois milhões de cruzados:
- Duvido que tenha tido uma influência decisiva, mas certamente Charles nunca teria optado por Portugal se a mãe se opusesse a Roma.
O resto da lista incluía médicos (que bom, gostava de António Fer- reira, que fora médico do pai e sentia-se mais segura com ele a bordo), alguns padres do Convento da Arrábida, de quem gostava, embora lhe fizesse falta o seu frei Pedro, pensou triste, músicos, criados, criadas, cozinheiros formando uma companhia de cerca de cem pessoas.
- Mãe, cem pessoas? Não será de mais? Já falou deste número ao almirante?
- Cem pessoas que te vão acompanhar. Já o disse ao conde de Sandwich, que é um cavalheiro e nem pestanejou. Serão divididos, segundo as tuas necessidades e o seu estatuto, pelos diferentes barcos.
De repente, Catarina sentiu o coração acelerar:
- Falta uma pessoa importante - disse, agitada.
- Quem? - respondeu a mãe
- Edward Montagu, claro, o meu estribeiro-mor, enviado por Charles com a missão de me acompanhar...
Luísa olhou para Catarina ligeiramente preocupada: o que levava a ilha a falar do ruivo desta forma acalorada? Levantou os olhos ao céu e de repente, sem saber como, nem porquê, recordou-se de Duarte. De como fora importante tê-lo próximo, vê-lo, ouvir a sua voz nos primeiros tempos de casada. A associação que izera só podia con irmar o que o seu coração de mãe pressentira, e não apenas uma coincidência de nomes...
- Catarina de Bragança!!!
- Stuart - acrescentou rapidamente a filha, com o primeiro sorriso do dia.
- Catarina, senta-te aqui para conversarmos um pouco.
Catarina assustou-se: não tinha vontade nenhuma de conversas pantanosas, que a fariam perder o controlo das suas emoções.
- Mãe, vai explicar-me tudo sobre o casamento - disse, tentando rir.
Luísa levantou o queixo da filha com o dedo:
- Tenho a certeza, Catarina, que sabes o su iciente... mas o que te queria dizer, o que te queria dizer - e à mãe, habitualmente tão luente, pareciam faltar as palavras -, o que te queria dizer é que os primeiros tempos de um casamento não são fáceis.
- Tenho a certeza que são mesmo muito complicados - anuiu Catarina.
- Charles possivelmente não será um marido com todas as qualidades de um marido católico - continuou Luísa, já mais firme.
Catarina assustou-se:
- O que é que quer dizer com isso, mãe? Que me vai ser in iel? Que me vai impor a tal Palmer?
Luísa franziu o sobrolho, horrorizada, quem contara tudo isto à sua menina?
- Já que estás a par das suas indiscrições, queria só dar-te um conselho: inge que não vês, os homens têm desejos a que, às vezes, uma mulher, por muito completa que seja, não consegue corresponder...
Catarina, pálida, protestou:
- Não tem de ser assim, por isso se faz votos, se faz promessas...
- Pois sim, minha ilha, mas Charles terá tido uma educação demasiado liberal, não teve a mãe por perto...
Mesmo que tivesse tido, pensou Catarina, recordando-se do comportamento dos irmãos...
- Mas o importante é que ele faça a distinção clara entre a rainha, a única que deve ter lugar nas cerimónias, nas ocasiões de Estado, nos aposentos reais, e as outras...
- As outras? Mãe, o pai teve uma «indiscrição», como a mãe diz, não...
- Catarina, não fales do que não sabes, nem sequer desejes coisas que não conheces. É bem pior que a mulher escolhida pelo nosso ma rido seja alguém por quem ele nutre admiração ou encanto, do que satisfaça as suas necessidades com dezenas de mulheres indignas, que fazem disso a sua profissão...
Catarina icou sem fala. Pediu licença para se levantar, e a mãe, num impulso, puxou-a contra si. Catarina deixou-se escorregar até ao chão e, pousando a cabeça no colo da mãe, desfez-se em lágrimas. Luísa debruçou-se por cima do seu corpo, as mãos afagando os ombros e as mãos da luz dos seus olhos, e chorou também.