Catarina de Bragança
D. João, provocara a euforia da família,…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
D. João, provocara a euforia da família, permitindo, até que enfim, pensava Teodósio, que fossem mais cedo para o paço. O rei apenas assistiria à cerimónia em Vila Viçosa, a primeira com direito a verdadeira pompa e circunstância, e que decidiu assinalar mandando cunhar moedas de ouro e de prata com a Virgem em cima da lua, de um lado, e, do outro, as palavras que iriam passar a ser esculpidas nos pórticos das igrejas por Portugal inteiro, «Tutelaris Regina», que, explicou Joana a Catarina, num tom condescendente de irmã mais velha, queria dizer «Protectora do Reino».
- Mas, mana, nem o pai, nem o Teodósio, nem o ilho do Teodósio podem voltar a pôr a coroa na cabeça? - perguntava, desiludida, Catarina.
- Não, nunca mais. O pai declarou que no nosso reino só a Virgem tem direito a usar coroa.
- Deu a dele? E deu a dela à Senhora? - perguntou, com di iculdade em esconder a sua desilusão, a mais nova.
- Deu a dele, que não era dele, era dos reis de Portugal, que foram reis antes do nosso pai, e seria dos que viriam depois.
- Teodósio, não te importas? Quando fores aclamado rei, com a capa de veludo encarnado do pai e a tua melhor armadura, não vais ter pena de não usar a coroa?
Teodósio, no fundo, no fundo, icara triste com o gesto altruísta do pai, que preferia que tivesse icado restringido ao reinado de D. João IV, mas nunca o poderia confessar. Olhando para fora da janela, e procurando o tom mais displicente possível, respondeu, irritado:
- És mesmo criança! É claro que quero aquilo que o pai quer. Em Portugal, acima de nós só Deus Nosso Senhor e sua mãe. Não achas mais do que justo que seja ela a usar a coroa, porque é dela que emana todo o poder que possuímos, o poder para usar a defender o reino e só enquanto nos quiserem manter no lugar...
- Porque a qualquer momento vos podem levar para o Céu? - disse, com a sua franqueza genuína, a princesinha.
Foi com essas e outras perguntas que Catarina se encostou ao ombro do irmão e adormeceu, mas foi com os gritos histéricos de Joana que acordou e reviu o paço que a tinha visto nascer.
Catarina não podia jurar que se lembrava do paço, pelo menos como Joana ou Teodósio se lembravam, mas na verdade conhecia-o de cor, porque era sempre o palco das aventuras dos seus manos, era o sítio onde tudo tinha começado, incluindo a sua vida. Decididamente, não queria icar atrás do entusiasmo que até via na mãe. Respirou o ar de Vila Viçosa, que assumiu como seu, deu a mão a Teodósio e a Joana e correram como loucos, percorrendo cada centímetro da casa e dos jardins, ouvindo descrições que já conhecia de cor mas às quais Catarina podia dar agora mais definição e cor.
As camas estavam quentes, as lareiras acesas nos quartos, e tudo parecia exactamente como se ainda ontem tivesse deixado o seu paço, a sua casa de verdade, pensava Luísa, enquanto tentava em vão que alguém fosse sossegar os gritos estridentes das crianças.
Naquela noite, enquanto adormecia ao som dos pássaros que cantavam nas árvores mais próximas, o cheiro das frésias a entrarem-lhe pela janela, Catarina sentiu que embora não se lembrasse de nada, se lembrava de tudo. Escondida debaixo dos lençóis, tinha com ela a estatuazinha da Senhora de Mourão, que passara a esconder com mais cuidado, agora que a família toda parecia ainda mais devotada a Nossa Senhora da Conceição e esquecida de que fora a «outra» que lhe salvara a vida. A «outra» -Catarina zangou-se pela milionésima vez consigo mesma. Quantas vezes frei Pedro lhe havia explicado que Nossa Senhora era só uma, a mãe de Jesus, a da Ave-Maria que todas as noites rezava antes de dormir. Mas então, então, pensava Catarina apesar das recomendações, então, porque é que a tinham mandado a Mourão em peregrinação, se a de Vila Viçosa fazia o mesmo efeito, e estava ali ao lado? A ama Carminho, que estava tão contente como as crianças por voltar à sua terra natal, passou pelo quarto para ver se a infanta estava deitada e tapada, que à noite o frio ainda cortava naquelas terras do Alentejo. Tão serena a sua princesa, que o f u tu ro a poupasse a todos os sofrimentos, pensou, passando-lhe suavemente a mão pelo cabelo. Ao lado da almofada deixou-lhe uma enorme e suculenta laranja.
Catarina não conseguia descrever tudo o que acontecera durante aquele dia, cheio de protocolos e missas intermináveis, procissões e tanto povo na rua, ansioso por tocar no pai, mas também na mãe, como se confiassem mais em Luísa de Gusmão para os livrar da pobreza do que na Santa.
Aqueles dias serviriam como um balão de oxigénio na sua vida, e sempre que estava triste, angustiada, ou sem saber o que fazer, Catarina fechava os olhos e imaginava, de novo, a fachada de Vila Viçosa, as laranjeiras, e Teodósio, sempre Teodósio, o seu rosto sorridente, a medir a fachada a passos. Na sua caixa de jóias, que havia de acompanhá-la sempre, lá estava a moeda de ouro, com o rosto do pai de um lado, e do outro a imagem da Senhora da Conceição, protectora do reino de Portugal. A sua moeda.
Paço da Ribeira, 24 de Outubro de 1646
fonso adorava-a. Era ela, de longe, a mais paciente dos três irmãos,
aquela que o visitava no quarto de brinquedos e o via crescer. O infante festejara três anos em Agosto e era tingido nas cores de Teodósio, os caracóis ainda mais loiros, num contraste gritante com as «suas mulheres andaluzes», como dizia o pai a brincar. A mãe desconfiava que a infanta se sentia mais feliz nos aposentos das crianças, com as criadas de Vila Viçosa e o ambiente descontraído das amas, do que nos salões, onde D. Mariana lhe corrigia as maneiras a todos os minutos, a mestra lhe dava ordens e a obrigava a sentar-se quieta e sossegada a bordar a ponto de cruz mais um pano de sacristia. Luísa fechava os olhos às fugas da filha, porque afinal só fazia oito anos no mês seguinte, e já bastava o ambiente opressivo e triste daquele palácio, onde a corte era obrigada a uma vida modesta e enfadonha por força da convicção de João, que assegurava que tinha de dar o exemplo a um país faminto e carregado de impostos. Maldita guerra, que Portugal nem ganhava, nem perdia, pensava Luísa, desesperada.
Naquele dia, Catarina construía com Afonso uma enorme torre de cubos de madeira que um dos criados trouxera de uma carpintaria próxima da Ribeira, quando de repente o irmão caiu prostrado no chão, baba branca a escorrer-lhe pela boca, os cubos espalhados sobre o seu corpo. Catarina pôs as mãos na cabeça, a princípio assustada e sem perceber o que acontecera, no minuto seguinte correndo para o pequenino Afonso, procurando sentá-lo ao colo. A ama ouviu os seus gritos e veio a correr, tão estarrecida como Catarina. Em seguida surgiram as criadas, de imediato enviadas a chamar o médico e a rainha.
- Carminho, Carminho, o que é que o Afonso tem? - perguntava, com voz trémula, Catarina, apavorada com o corpo em espasmos do irmão mais novo.
Carminho, supersticiosa, acenava com a cabeça como um boneco, dizia que não sabia, e guardava para si a certeza de que o Mal lhe entrara no corpo, aquela espuma branca como já vira a um menino na sua aldeia, e que só o senhor padre exorcizara. Discretamente, para que a infanta não percebesse nada, mandou a criadinha que acabara de entrar ao serviço chamar frei Pedro à capela. Frei Pedro saberia melhor o que fazer do que o médico ou o cirurgião, estava certa disso.
Deitaram Afonso na sua cama de madeira clara de cerejeira, taparam-no com um cobertor quente, e Catarina deixou-lhe a mão carinhosamente pousada na testa, que se mantinha fria e sem sinais de febre.
D. Luísa estava fora, um escudeiro já partira a cavalo à sua procura, mas D. Mariana chegara ao quarto antes de qualquer outra pessoa. Catarina só largou o irmão quando frei Pedro lhe colocou serenamente as mãos nos ombros e lhe disse numa voz firme:
- Não pode aqui icar, D. Catarina. Não sabemos o que tem Afonso e não podemos colocar em risco os infantes deste reino. A sua mãe nunca nos perdoaria.
- Mas, frei Pedro, promete que o trata como me tratou a mim? Eu era tão pequenina como ele, não era? - implorou Catarina.
- Eu e o doutor Figueiredo vamos descobrir o que o infante tem, tratá-lo e curá-lo, se essa for a vontade de Deus - respondeu, benzendo--se, frei Pedro.
A vontade de Deus? - Carminho olhou a sua menina a deixar o quarto e benzeu-se, sussurrando baixinho ao ouvido do frade que tantas vezes a ajudara a tomar conta dos seus infantezinhos doentes:
- Ou do Diabo, frei Pedro...
- Mulher, qual Diabo!? Esta é uma casa temente a Deus. O que o infante tem é doença, não é maldição, não te esqueças de o lembrar na copa, nas cozinhas, nas cavalariças e em todo o lado onde a história for contada, já sabes como as pessoas são. Deus há-de protegê-lo, porque o desgosto de perder este varão prejudicaria o reino inteiro. É preciso que a Casa de Bragança tenha descendentes saudáveis, herdeiros do trono.
- Ai, vire essa boca para lá, frade, que o menino Teodósio há-de ser rei de Portugal, e acredite que quando aquele menino subir ao trono não haverá castelhanos que lhe resistam - animou-se Maria do Carmo, trazendo um sorriso triste aos lábios do frade:
- Os caminhos de Deus nem sempre são aqueles que traçamos por cá...
Mas Carminho estava, por agora, demasiado ocupada a ajudar o doutor Figueiredo a destapar Afonso, para que lhe observasse a pele nas virilhas e debaixo dos braços, que a peste continuava a ser um perigo a temer. Os tremores pareciam ter parado, e Afonso abria de novo os olhos azuis tão claros. A sua idade tornava impossível que percebesse o que se passava em seu redor. Choramingou, balbuciando o nome da ama e da irmã, e Carminho deu-lhe a mão, mas foi só a entrada pé ante pé de Catarina que o sossegou. Sem pedir licença a ninguém, aproximou-se da cama de Afonso e colocou-lhe na mesa-de-cabeceira a sua preciosa imagem da Senhora de Mourão.
- Frei Pedro, se a Virgem me curou a mim, porque não há-de fazer o mesmo milagre pelo Afonso? - justi icou-se, tentando explicar a causa da sua desobediência manifestada neste regresso clandestino.
Recordando-se de que ainda há tão poucos meses Portugal fora consagrado a Nossa Senhora da Conceição, acrescentou, ofegante:
- Frei Pedro, frei Pedro, a Virgem de Vila Viçosa deve estar distraída, lembre-a, lembre-a de que este é o filho mais pequenino do rei que lhe deu a coroa. Acha que ela se esqueceu? - insistiu com aquele timbre na voz só dela, simultaneamente suave e determinado, como um sino de um campanário.
Vendo que Afonso estava acordado, deu-lhe um beijo rápido na testa e desapareceu antes que alguém se lembrasse de que tinha sido expressamente proibida de passar da soleira da porta.
Mas Afonso não se ia curar como Catarina.
Nessa noite, na salinha privada, e sob o olhar atento de Catarina, que lá em cima, no seu quarto, se tinha deitado no chão a olhar pelo espaço entre as tábuas, frei Pedro e o doutor Figueiredo procuraram explicar aos pais, ainda em estado de choque, o que acontecera tão repentinamente ao filho:
- Não sabemos bem o que é, mas chamamos-lhe mal hemiplégico. É uma infecção que afecta o interior da cabeça e mexe com os movimentos...
D. Luísa marchava de um lado para o outro do quarto, as mãos por vezes escondiam-lhe a cara, quando temia que os olhos denunciassem as lágrimas com que se tinham enchido:
- Não vai ficar bem, portanto?
- Não, não vai icar bem... Vai ter di iculdades a andar, e com alguns movimentos.
João estava sentado num banco, e os dedos passavam nervosamente as páginas da Bíblia:
- E de cabeça, senhor doutor? O meu ilho vai sofrer algum atraso? -soluçou.
Luísa soltou um grito estridente, e Catarina tapou os ouvidos com as mãos: não, não queria ouvir isto, não queria icar a saber que o seu irmão seria como aqueles pobres aleijados que via nas ruas ou que iam pedir comida à porta da cozinha do convento, a língua a entaramelar as palavras, incapazes de se explicarem, os deserdados do mundo, que ninguém queria.
Mas Luísa ouviu o que o doutor Figueiredo tinha para dizer:
- É cedo de mais para saber. Temos de o vigiar, perceber se estes ataques se repetem, tentar perceber se consegue aprender a falar e se desenvolve as competências que todas as crianças desenvolvem...
O silêncio caiu pesado na sala, e Catarina voltou para a cama a tremer de frio e, aconchegando-se entre os seus cobertores, jurou à sua Virgem que se a Senhora intercedesse por Afonso junto de Deus Pai ela faria a sua parte e todos os dias iria ao quarto de brinquedos fazer torres de cubos com Afonso e ensinar-lhe tudo o que o irmãozinho fosse capaz de aprender. Porque é que o padre António Vieira partira de novo para o Brasil, porquê logo agora?
As lágrimas ensopavam-lhe a almofada, quando ouviu a porta do quarto abrir-se silenciosamente. Contra a luz que vinha de fora viu o vulto de Teodósio - acabara de chegar a casa e de receber a notícia, mas o valido do rei não o deixara entrar na salinha dos pais.
Catarina sentou-se de um pulo na cama, a cara inchada de chorar, e chamou-o, estendendo-lhe a mão:
- Teodósio, vem cá, por favor vem cá.
O irmão mais velho sentou-se ao seu lado na cama e ouviu a sua história, com todos os detalhes que a espionagem da irmã mais pequenina tinha conseguido recolher: abraçou-a com força e procurou consolá-la. Disse-lhe que os médicos se enganam, que Deus pode mais do que o saber dos homens, que António Vieira haveria de descobrir no Brasil um remédio para o mal, um remédio, onde as ervas faziam milagres, e acabou por lhe cantar uma canção de embalar, até que Catarina adormeceu.
Saindo do quarto sem fazer barulho para não a acordar, Teodósio decidiu passar pela capela. De joelhos frente ao Santíssimo, repetiu vezes sem conta a mesma frase:
- Meu Deus, faz com que tudo o que disse a Catarina se torne verdade.
Paço da Ribeira, Abril de 1647
o último ano Catarina fizera de Afonso a sua prioridade. Tomara o
caso a peito, e a Senhora de Mourão ainda não fora resgatada da mesa-de-cabeceira do irmão pequenino: neste momento continuava a fazer-lhe mais falta a ele do que a ela.
A família continuava assustada, porque Afonso regredira no andar e em muitas outras coisas. Era preciso ajudá-lo a comer, a subir escadas, e por muito que se esforçasse a construir torres de cubos, ou a participar em quaisquer outros jogos, os resultados eram desastrosos. Mas quando o deixavam sozinho, entretinha-se com os colares de contas da ama, vestia e despia as bonecas da irmã e parecia reagir com inteligência aos comentários que lhe faziam.
- Joana, este nosso irmão pode não conseguir aprender o que lhe queremos ensinar, mas aprende tudo o resto - dizia Catarina à irmã, quando as duas tentavam desempenhar o papel de suas professoras.
- E as birras? Cá para mim - acrescentava Joana com imensa sensatez -, está é a icar um menino mimado, porque ninguém o contraria, nem lhe diz que não, tal é o medo de que ele desate para aí num berreiro e venha de lá a mãe zangar-se. Deviam era pô-lo já sob as ordens de um preceptor, que a Carminho só faz aquilo que ele quer...
Frei Pedro tendia a concordar. Afonso icara, sem dúvidas nenhumas, com sequelas provocadas pela doença, mas o humor variável parecia-lhe ser efeito de um ambiente demasiado condescendente. Ninguém duvidava que Afonso era diferente, mas frei Pedro não estava assim tão certo de que a diferença fosse causada unicamente pelo mal hemiplégico - sentia no miúdo uma revolta crescente, uma agressividade e uma violência que se não fossem controladas, enquanto não media mais de um palmo e meio, seriam impossíveis de dominar mais tarde.
Quem lidava com o segundo herdeiro ao trono de Portugal rezava com particular fervor para que o Pai do Céu guardasse D. Teodósio saudável e feliz. A alternativa era assustadora...
No dia em que Afonso não só atirou abaixo o castelo construído penosamente por Catarina como ainda lhe lançou à cara um dos cubos pesados, até a infanta se enfureceu. Pondo de lado o seu habitual feitio angelical, de menina que nunca haveria de bater nenhuma outra mulher em centímetros mas tinha uma presença tão forte que fazia esquecer o seu tamanho de boneca, gritou:
- Afonso, até me pedires desculpa, não volto a este quarto. - Mas «desculpa», tal como «obrigado», pareciam palavras que Afonso tinha uma obstinada dificuldade em aprender.
Sem o pretexto e a missão do quarto de brinquedos, Catarina não teve outro remédio senão voltar à costura junto das suas aias, e aos poucos habituou-se às suas conversas: amor, dinheiro e casamento eram, invariavelmente, os pontos preferidos ao ponto de cruz ou mesmo ao arraiolos, que D. Luísa introduzira na corte.
- Ouvi a minha tia a falar com D. Mariana. Estão a tentar casar--te com D. João da Áustria, ilho bastardo do rei espanhol - sussurroulhe Maria do Rosário, uma das mais recentes aias que encontraram lugar na Casa da Rainha.
Catarina ainda não tinha mais do que oito anos e meio, mas estava mais do que habituada à ideia de que um dia lhe anunciariam um casamento estabelecido entre pais, embaixadores e governantes de outros países, mas da Áustria? Sempre ouvira falar em França e Inglaterra, e até mesmo em alguns reinos de Espanha, mas quem era o príncipe austríaco a quem tinha sido mostrada a sua imagem? O retrato, que ainda há umas semanas fora pintado, para que passasse de mão em mão, como um objecto precioso à procura de quem desse mais por ele.
Lembrava-se, com orgulho, de como usara o vestido de veludo preto, a gola imensa de renda transparente, de uma renda tão ina que a criada ao vesti-la garantira-lhe ser feita pela rainha das abelhas, as mangas em balão, com os pulsos apertados por botões de pedras pre ciosas, a cintura marcada por ios de prata e um arranjo de lores. O pior fora pentear-lhe os cabelos fartos e que se emaranhavam, apesar da camomila, do leite e do limão com que os tinham enxaguado vezes sem conta. Custara-lhe imenso aguentar a cabeça direita e quieta, para que aquele «chapéu» excêntrico que, alguma costureira inventara certamente para a torturar, não lhe caísse da cabeça, assim como a romã encarnada que à última hora o próprio pintor lhe pendurara nos caracóis, como que a contrastar com as maçãs do seu rosto, sempre tão reluzentes como um fruto colhido de uma árvore. Mas se fora duro resistir direita horas a io, como lhe mandava o pintor, que orgulho sentira quando vira o quadro, e toda a gente a elogiar--lhe os grandes olhos, as feições perfeitas, o ar de princesa de verdade. Com que então, o tal D. João já vira o retrato?
Sabia que não valia a pena correr até à mãe a perguntar-lhe nada, mas conhecia os seus poderes junto do pai. Quando as notas do cravo ecoassem nos corredores, encontraria maneira de chegar à sala da música e ao colo do pai, passando os dedos pelas teclas de mar im preto e branco. Havia de saber quem era este senhor, que idade tinha e o que queria...
A não ser que... claro, havia outra hipótese. Nessa tarde, decidiu esperar pelo pai no jardim dos buxos. Assim, quando chegasse do almoço, que acontecia muitas vezes em casa do marquês disto ou do conde daquilo, cruzar-se-ia com ele, como que por acaso, e tinha a certeza absoluta de que ele passearia consigo pela sombra das árvores, enquanto o calor da cidade de Lisboa levava os seus conselheiros ao prazer da sesta. Passeava-se entre os canteiros, debruçando-se para apanhar uma flor aqui e ali, quando ouviu o ruído dos cascos dos cavalos a galope contra as pedras da calçada. O coração começou a bater mais depressa, era fácil perceber pelo ritmo da cavalgada que tinha acontecido alguma coisa, e a sua suspeita foi confirmada quando o portão do pátio se abriu de par em par e viu um grupo de soldados montados a rodear o cavalo alazão do pai. E o pai, dobrado sobre si mesmo, parecia estar ferido.
Catarina correu para ele, em desespero, sem saber o que fazer, e estendeu-lhe uma das suas pequeninas mãos, e sentiu que a dele se apertava, quente, em redor da sua:
- Está vivo! - exclamou, enquanto o capitão da guarda a puxava gentilmente para o lado e desmontavam o rei, ajudando-o a erguer-se.
A bala só devia tê-lo atingido de raspão, dizia um, enquanto outro desapertava a casaca na ânsia de perceber se havia mais algum ferimento grave, e um terceiro gritava por uma liteira e um médico.
Catarina voltou a estender-lhe a mão, e desta vez o pai conseguiu sossegá-la, numa voz trémula:
- Não foi nada ilha, não foi nada, vai para dentro, que estes homens já levam o pai para os seus aposentos.
Mas foi de mão dada com Catarina que Luísa, chamada a correr, o encontrou.
- Uma nova tentativa? - perguntou numa voz incisiva ao soldado que o transportava.
- Sim, Sua Majestade, quando subíamos a calçada para o castelo.
Luísa entregou Catarina a D. Mariana, que com o alvoroço viera ver o que se passava, e só então Catarina irrompeu em soluços, escondendo a cara na saia plissada da sua aia.
D. João não sofrera nenhum ferimento grave e esteve presente, na primeira fila, na Missa de Acção de Graças pela sua vida, que D. Luísa mandou que se rezasse em toda a cidade, e na capela do paço por maioria de razão. Ao lado do pai e da mãe, Teodósio, Joana e Catarina, vestidos com a roupa de ver a Deus, direitos e hirtos, agradeciam a Nossa Senhora da Conceição ter salvo, mais uma vez, o pai de um atentado.
Catarina e Joana perceberam o frenesim do irmão, que contrastava com a calma do pai, que parecia encarar a morte, suspeitava Luísa com desgosto, como uma forma de se ver livre de tanto peso, de tanta responsabilidade, que o deixavam a cada dia mais esgotado.
Nessa noite, Luísa ordenou que o jantar fosse de família, sem mais ninguém presente, e apesar dos protestos de Carminho, que temia que o menino Afonso atirasse com os talheres à cara de alguém ou se recusasse a comer a sopa, insistiu que naquele dia especial até Afonso teria de estar à mesa.
Catarina tinha os olhos ainda inchados de chorar, mas era como se de repente registasse tudo o que estava à sua volta e que parecia nunca ter visto antes. Como se tudo pudesse estar perdido já amanhã e lhe coubesse guardá-lo na memória para sempre. Deixou que a criada a vestisse de igual à irmã, um veludo cor de tijolo, as rendas e os laços, aguentou sem protestos até a escova no cabelo, aparentemente sem reacção, mas por dentro sentia uma intensidade frenética, como se um pincel se tivesse solto dentro de si e a enchesse de frescos por dentro, de retratos a tinta indelével, como palavras soletradas por alguém que começava a aprender a ler.
Quando entrou na sala de jantar privada dos reis estacou, paralisada. Queria lembrar-se de tudo o que via, da cara dos seus pais ao rosto sereno, de cabelos aloirados agora já pelos ombros, do seu querido Teodósio, dos caracóis e cara bonacheirona de Afonso, que podia ser tão bonito quando sorria, e a expressão sempre sensível e angustiada da sua querida Joana, que de tão próxima às vezes não sabia quase distinguir de si. Mas queria também decorar o feitio dos talheres, o desenho das loiças, a luz dos candelabros, e cada uma das lágrimas de diamante do enorme castiçal de cristal iluminado por mil velas que se recordava de já ter visto em Vila Viçosa.
O pai sentou uma ilha de cada lado e a mãe fez a mesma coisa aos rapazes, e tentaram que a conversa luísse normalmente, sobre isto e aquilo, como se naquele dia nada tivesse acontecido e não fossem a família alvo dos ódios de gente que não conheciam, mas que os conhecia a eles.
Luísa, angustiada, ergueu o copo à saúde do marido.
- Que Deus nos mantenha sempre unidos. A prova de que Ele quer que assim seja é que espero um novo filho.
João levantou-se e atravessou a sala para a abraçar, enquanto Afonso, odiando não ser o centro das atenções, aproveitava para partir uns copos até que a ama, escondida atrás do reposteiro, o resgatou. Os três irmãos estavam parados e estarrecidos.
- A mãe não é velha de mais para ter filhos? - murmurou Joana ao ouvido de Catarina, que encolheu os ombros como se a pergunta fosse completamente idiota.
- Se Deus lho mandou não deve ser - respondeu, citando depois Isabel e Zacarias do Evangelho, perante o olhar meio embaraçado de Teodósio, que francamente gostaria de ter sido poupado a estes assuntos que pareciam não lhe dizer respeito.
Nessa noite Joana dormiu na cama de Catarina, e as criadas fingiram que não viam nada, e mesmo D. Mariana se deitou no quarto ao lado, como se nada de estranho se passasse. Depois deste susto, deixara que as pequeninas se aconchegassem uma à outra, pensou a velha senhora.
Paço da Ribeira, 26 de Abril de 1648
atarina lia o livro de orações no torreão dos Filipes, na sala de aulas
de Teodósio, para onde hoje tivera o privilégio de ser convocada por um padre António Vieira há pouco regressado das suas embaixadas pela Europa, onde - sussurrava-se - fora tratar do casamento de Teodósio com uma tal mademoiselle de Montepensier, filha de Gastan de Orleans.
O príncipe andara nervoso na sua ausência, mas Catarina estava sempre a lembrá-lo da sorte que tinha:
- Já viste, a TUA mulher vai ter de vir viver para Lisboa, e tu icas exactamente no mesmo sítio, rodeado por todos nós, pelos teus conselheiros e soldados. Pensa agora em mim e na Joana, atiradas para uma corte de estranhos...
Teodósio, então, respirava fundo:
- Tens razão, mana. Vamos gozar mas é os dias que temos, livres de compromissos, de mulheres e maridos. Queria era que me deixassem ir ter com os soldados...
Vieira voltara com a notícia de que os franceses não queriam nenhuma aliança com Portugal, e o sobrolho carregado dos reis contrastava com a animação das conversas entre os infantes à mesa, como se lhes tivessem tirado a todos um peso imenso de cima.
O padre, por seu lado, também estava com saudades das manhãs pacatas passadas com o seu príncipe no torreão. Convocara agora Catarina, convencendo D. Luísa a deixá-la faltar ao convento para conhecer os novos mapas que trouxera das viagens e pendurara nas paredes da sala de estudo. A infanta olhava-os, deliciada: aquelas aulas eram tão mais interessantes do que as suas rezas e as bisbilhotices sem im lá do convento, além do mais entre senhoras que não mostravam o cabelo, pensou. Mas desta vez calou-se.
De repente, o repicar dos sinos - e os carrilhões da Sé não passavam despercebidos! - fê-la saltar da cadeira. Teodósio e o padre também levantaram as cabeças dobradas sobre o papel, e o irmão ia-se atirando do torreão na tentativa de ver o que provocava o sinal de alarme da cidade.
Mas a única coisa que se via eram as pessoas a virar os olhos para o paço e a benzerem-se. Tinham um ar feliz e não havia correrias nem debandadas dos comerciantes.
- O que é que eles sabem que eu não sei? - gritou Teodósio.
Joana entrou pela porta a tempo de lhe dar uma resposta:
- Teodósio, estás parvo, ainda cais da janela. A mãe deu à luz um bebé, e é só por isso que os sinos repicam, já devias estar farto de saber.
- E é só por isso... - retorquiu António Vieira a rir. - Princesa, não é este um momento de glória?
O grupo dos três trocou entre si um olhar signi icativo: «Pouco importava os que vinham depois. Afonso era um bebé, e até que chegasse à idade do entendimento, o que qualquer um dos três já teria conquistado, eles, os filhos de Vila Viçosa...»
António Vieira riu, divertido. Estes três irmãos, unidos pelo facto de serem ilhos de um duque e não de um rei, gerados num paço familiar, que tinham passado os primeiros anos a correr atrás de ovelhas e a comer laranjas das árvores, iriam sempre encarar os recém-chegados como membros mais distantes da família, menos genuínos, talvez... Mas o tempo encarregar-se-ia de os aproximar e dividir, tantas vezes quanto as marés do rio que corria lá em baixo, suspirou o padre, enquanto os empurrava suavemente pelas escadas. Era preciso ir ver o bebé e a mãe, e Catarina como sempre é que o lembrou.
Quando chegaram aos aposentos de D. Luísa e o padre os guiou por entre a multidão de gente da casa que se reunia no corredor à espera de novas, encontraram o pai, com um novelo nos braços, sorrindo satisfeito.
- É outro rapaz - dizia, encantado.
Joana e Catarina entreolharam-se, estavam habituadas a esta conversa. Teodósio franziu ligeiramente o sobrolho, como se de cada vez que o pai manifestasse alegria num novo varão estivesse a pôr a hipótese de que ele, Teodósio, talvez nunca chegasse a ser rei. Mas António Vieira, que já lia os pensamentos do aluno, disse-lhe ao ouvido, num tom ríspido:
- Vamos a tirar essas ideias da cabeça, que já não tem idade para invejas e ciúmes, que desagradam ao Altíssimo. Veja bem, príncipe, um rei precisa de irmãos iéis, de braços-direitos, aqueles que o podem apoiar incondicionalmente, a quem pode con iar os seus negócios e enviar como emissários dos seus desejos.
Teodósio baixou os olhos, envergonhado por ter sido apanhado em flagrante, lançando-se imediatamente num abraço ao pai.
- Pai, mostre, mostre lá o meu irmão.
Para horror das parteiras e da nova ama do menino, que em vão tentava segurá-lo para o ir enfaixar, João mostrou aos seus ilhos um bebé rechonchudo, enorme, cabelos muito escuros e olhos enormes.
- É muito mais feio do que Teodósio, e mesmo do que Afonso - disse Catarina, num dos seus impulsos.
Teodósio, rindo, virou-se para a irmã, e com uma vénia agradeceu:
- Obrigado, D. Catarina, mas se alguma vez achar algum homem, recém-nascido ou velho de barbas, mais bonito do que este seu irmão, será trespassada pela minha espada...
Os dois uniram-se numa gargalhada.
- E nome? - perguntou a irmã mais velha.
- Charles, Charles - disse, excitada, Catarina.
A família estacou em peso, e o pai foi o primeiro a comentar:
- Charles, filha? Porquê Charles?
As maçãs do rosto de Catarina ardiam em fogo, e dos olhos saltavam-lhe lágrimas. Como podia ter sido tão estúpida, o que a levara a falar assim, e como, como podia retirar o que tinha dito, voltar atrás uns segundos no tempo?
Teodósio percebeu logo tudo e, fingindo um ar enjoado, explicou ao pai:
- Desde que sabe que o rei de Inglaterra tem um ilho chamado Charles, e uma das aias se lembrou de contar à nossa Catarina, com a provecta idade de nove anos, que a mãe tinha pensado que o futuro rei poderia ser o marido que lhe convinha, não sonha com outra coisa. Atenção, pai, não é Carlos, mas Charles, como ela diz, ensaiando já o inglês para o dia em que o conhecer - acrescentou, trocista...
Catarina saiu da sala em soluços, e Teodósio de repente caiu em si e desatou a correr atrás dela. Que idiota fora, deixara-se in lamar pela verve, e esquecera que o coração da sua mana mais nova era de vidro.
João abanou a cabeça, contrafeito. Era pequena de mais, a sua Catarina, para se angustiar assim com o seu futuro, para ter paixões... Viver romances de amor aos 10 anos? A juventude estava perdida.
Mas como lhe explicou serenamente frei Pedro, sempre presente, sempre na sombra até ao momento indicado, as crianças têm ouvidos de tísicos, e Catarina era perspicaz e atenta, sempre escorregara entre as portas e as janelas, em pezinhos de lã. Ouvira tudo, e guardava tudo. O rei acenou a cabeça à explicação, e anotou: era preciso dizer a Luísa que controlasse as suas mulheres. De que valia a pena encher a cabeça de uma menina de amanhãs que podiam nunca chegar?
Joana, imperturbável, continuava de braços cruzados em frente do pai:
- Sua Alteza Real, D. João IV de Bragança, que nome terá o vosso ilho? -insistiu como se nada se tivesse passado.
João fez-lhe uma festinha na cara e, sorrindo, respondeu:
- Pedro, senhora D. Joana, princesa da Beira, que teve a sorte de herdar o nome de uma avó materna, tão bonita e decidida como a infanta.
A princesinha de 12 anos, já muito consciente de não ser mais uma criança, e feliz por o pai a tratar com solenidade, mesmo que ligeiramente irónica, fez-lhe o seu mais radiante sorriso.
O pai correspondeu e, entregando o recém-nascido à ama, saiu da sala de braço dado com Joana.
Paço da Ribeira, 10 de Setembro de 1649
pior de todas as notícias chegou pela hora do jantar. Estavam à
mesa, mas o mensageiro insistiu que D. João tinha de abrir a carta o mais rapidamente possível. Todos os presentes viraram os olhos para os pratos, os talheres subitamente estáticos, o riso e a conversa silenciados.
Catarina brincava com o garfo, nervosa.
- Catarina, por favor, pare com isso - ordenou-lhe a mãe num tom brusco e com um tratamento tão formal que a infanta sentiu as lágrimas picarem-lhe os olhos.
Quando João voltou, parecia ter envelhecido dez anos, os olhos subitamente encovados. Directo, deu a notícia:
- O Duarte, o vosso tio Duarte, morreu há uns dias.
Virando as costas, voltou a sair da sala de jantar.
- Mãe, dá-me licença que me levante - disparou a voz de Teodósio.
Catarina olhou a mãe à espera da resposta e assustou-se: nunca a vira tão branca, tão hirta, como se tivesse sido atingida por um raio. Teodósio percebeu o mesmo: o que se passava? Deveria consolar o pai ou a mãe?
Contudo, Luísa, ao perceber o impacto que causava nos ilhos, recordou-se, como sempre fazia quando se sentia frágil, de quem era.
Olhando o ilho, acenou que sim com a cabeça e, com uma força que Catarina já conseguia admirar, recomeçou a conversa à mesa.
O príncipe saiu a correr. Sabia perfeitamente onde encontrar o pai, de certezinha absoluta que estava na Sala da Música, olhando as lom badas encadernadas dos seus preciosos livros, remexendo nos seus queridos papéis.
- Teodósio, tens de ser muito mais forte, muito mais corajoso, muito mais poderoso do que o teu pobre pai - disse-lhe com a voz embargada.
- Pai, não diga essas coisas, logo o pai...
- Filho, o tio Duarte foi preso há oito anos por minha culpa, e apesar disso esteve sempre interessado no governo do reino, escreveu-me a dar conselhos e sugestões, passando-me informações, oferecendo sugestões para as estratégias dos nossos embaixadores. Preso por minha culpa, Teodósio, e eu que fiz? Nada!
- Não foi por sua culpa, foi uma vingança inquali icável de Filipe de Espanha, que prendeu um inocente porque Portugal reclamou a sua independência roubada...
- Mas já pensaste no que sentiu o teu tio, encarcerado à espera que o irmão, um irmão rei, por Deus, fosse capaz do simples gesto de o libertar?
João já estava de pé, os olhos secos, a voz mais forte - fazia-lhe bem zangar-se, pensou Teodósio e Catarina, que entretanto se esgueirara para dentro da sala, pois a mãe mandara a todos dispersar, decretando que não havia sobremesa nesse dia de luto.
- Estás a ouvir-me, Catarina? Todos os meus ilhos precisam de casar bem, precisam de lutar por uma aliança que nos ajude diplomaticamente a superar estes obstáculos. Traições, só traições, de um lado e de outro, daqueles que firmaram connosco alianças, juraram tratados de amizade...
Catarina abriu os seus olhos imensos e bebeu todas as palavras do pai, e jurou a si mesma que daria tudo, tudo de si para cumprir o apelo do rei. Casaria com quem melhor pudesse servir a causa portuguesa e faria os impossíveis para que os carcereiros do seu tio Duarte de Bragança fossem obrigados a pagar pela sua crueldade. Que estranho era o mundo, não conseguiu deixar de pensar: ainda há dias Teodósio lhe dissera que, apesar desta guerra com Castela, pensavam casá-lo com uma ilha de D. Filipe. O irmão sentira a mesma repugnância que ela. Uma paz conseguida assim não era paz que lhe interessasse. Tinha de pedir ao irmão que lhe desse lições de esgrima: saber manejar uma espada, estava certa, era um conhecimento que lhe podia fazer falta.
Quando voltava da torre do sino para a sala dos bordados, Catarina ouviu chorar. Os soluços vinham da pequena antecâmara do quarto da rainha. A mãe chorava. O choro da mãe deixava-a sempre muito mais angustiada do que as lágrimas do pai; sempre fora assim, do pai esperava música e mimo, da mãe, a força.
Bateu suavemente à porta e, sem esperar por licença para entrar, abriu-a, correu para a mãe e lançou-lhe os braços em redor do pescoço. Um gesto rápido, a medo, mas a que a mãe surpreendentemente correspondeu com um abraço apertado. Depois Catarina fugiu, e só quando já corria para a porta, desejosa de sair dali e esconder-se na solidão do seu quarto, reparou na presença de Joana. Joana na penumbra, sentada serenamente numa pequena cadeirinha de verga empalhada, do outro lado da mãe. Joana era assim, pensou Catarina com uma ponta de inveja, estava sempre onde precisavam dela, mas sem ruído, sem espalhafato, sem esperar manifestações de louvor e gratidão. Era mais santa do que ela. Santa? Lá no convento diziam que devia ambicioná-lo, e o confessor da mãe não falava de outra coisa, mas Catarina, para ser sincera, não estava convencida de que fosse coisa que lhe interessasse. Que icasse Joana com o título, pensou, zangada, enquanto fechava a porta sem ruído.
Lisboa, 30 de Novembro de 1649
atarina nunca deixara de sonhar com Charles de Inglaterra, e a
mãe, ufana com o facto de o Parlamento escocês o ter reconhecido como Charles II da Escócia, apoiando a sua pretensão ao trono de Inglaterra, não deixava esfriar o entusiasmo. Nem a Catarina, nem ao marido, nem aos conselheiros e embaixadores, que de vez em quando chegavam com outras propostas de casamento. Seria Charles, dizia Luísa a João, e Catarina no seu quarto ouvia a veemência com que falava.
É claro que não ouvia só a mãe. As aias que a rodeavam não a deixavam esquecer a possibilidade de um casamento com o príncipe vagabundo, como lhe chamavam num tom de voz lânguido. Catarina já tinha inclusivamente visto uma pequena iluminura do pretendente, que D. Filipa dizia que conseguira pedir emprestada por uns dias ao marido, mas a infanta desconfiava que a sua verdadeira proveniência era o escritório da mãe, que pretendia testar os sentimentos da filha.
O jovem Charles não era deslavado como os da sua raça, comentavam as meninas, entre risinhos, enquanto bordavam mais um vestido para a Imaculada Conceição, que era agora o objectivo das aulas de costura no paço. Catarina riu: de facto, Charles tinha o cabelo descomposto e longo, castanho-escuro, ou assim parecia, mas os seus olhos contemplavam-na directamente da imagem como se lhe quisessem falar. Os relatos, ou seriam já lendas, contavam que já por uma vez entrara em Inglaterra, através da Escócia e com o apoio dos seus aliados, mas que, perdida uma importante batalha, acabara por se disfarçar de lavrador, subira a uma árvore para não ser apanhado, e acabara por fugir de novo para o Continente no porão de um barco.
O que Catarina não esperava é que a emoção lhe batesse à porta. O coração ia-lhe saltando do peito quando naquela tarde, chegada do convento, Joana, que ficara em casa doente, veio a correr ter com ela:
- Nem acreditas, chegaram à barra navios ingleses, com os príncipes Rupert e Maurice, os primos do teu Charles, fugidos de Cromwell, e querem esconder-se em Lisboa. O capitão Blake vem atrás deles, e com ordens - ouvi o pai dizer - de «Perseguir, apreender, lutar e destruir aquilo que sobra da armada realista.»
Catarina deixou naquele segundo de sentir o amor distante de um rei que não desistia de lutar pelo trono usurpado para se tornar rapidamente uma criança aflita:
- Joana, vão atacar Portugal? Não são nossos aliados...
- Não, tonta, vão pedir-nos abrigo. Quer dizer, os primos do rei Charles, os outros não sei se nos atacam ou não. O pai está preocupado, reunido com os conselheiros, não sabe muito bem o que fazer. Não podemos recusar-nos a acolher gente de sangue real como o nosso, mas se os aceitarmos teremos de enfrentar a marinha inglesa, que lhes vem no encalço. O pai não quer mais inimigos do que aqueles que tem, mas a mãe insiste que quando Charles chegar ao poder não vai perdoar a Portugal uma cobardia tão grande.