Catarina de Bragança
Canal da Mancha, 22 de Maio de 1692
Escrevo-lhe a si, e só a si, porque apenas consigo sou capaz da difícil arte de abrir o meu coração, e acredite que tem estado tão abotoado, que o exercício de lhe dizer o que sinto é ainda mais complicado.
Perdoe-me as incoerências, as hesitações, por vezes até a raiva, porque me sinto como uma criança que aprende a dar os primeiros passos. Mas vou tentar. Não por si, D. Luís, desculpe-me o egoísmo, mas por mim, que já não aguento mais guardar este peso, esta confusão de sentimentos, estes medos a que tantas vezes nem sei dar nome.
Agora que inalmente saio da prisão em que para mim Inglaterra se tornou, estou convicta de que só o meu querido amigo me pode entender -como eu, sabe o que é o exílio, o desejar voltar à nossa pátria com tanta força que até o ar nos falta e, no entanto, não o poder fazer, sabe o que é a esperança constantemente desiludida, os planos frustrados.
Só D. Luís viveu aqui comigo, conhece Londres, os sítios e as pessoas de que lhe falo, mas sabendo o cá e o lá pode compreender melhor do que nenhum outro tudo o que tem estado em jogo nestes longos anos desde que nos separámos.
Pego nesta pena e a mão desliza sobre o papel, porque imagino que estou sentada naquela cadeira de veludo azul, lembra-se?, na minha salinha de Somerset House, e o senhor conde, à minha frente, no banquinho sem costas, ligeiramente reclinado na minha direcção, com os seus olhos brilhantes e atentos, sempre pronto a fazer mais uma pergunta, quando sentia que era meu desejo falar, e icando calado, ou pondo im à conversa, assim que percebia que mais uma palavra me levaria ao embaraço das lágrimas.
Acredite, é a primeira carta verdadeira que escrevo há muito, muito tempo e, no entanto, todos os dias escrevi uma carta a alguém; a maioria delas ao meu irmão Pedro, pedindo-lhe, implorando-lhe, rogando-lhe que me tirasse daqui, ou arranjasse forma de me fazerem sair deste reino onde corria perigo de vida, através de um acordo com Luís de França, pressionando Orange, ou simplesmente enviando a nossa frota para daqui me levar. Falei das minhas doenças, e têm sido muitas, falei da insegurança em que vivia, e não mentia, porque o povo queimava imagens do Santo Padre à minha porta e gritava com fúria contra mim, porque acreditavam nos rumores espalhados por esta rainha que agora governa Inglaterra, e que diziam que eu a queria matar com peçonha!
Envergonho-me das cartas que enviei ao rei de Portugal, e só a si lho posso confessar. Que vontade tinha de ser senhora de mim mesma, autónoma para poder regressar pelos meus meios, sem ter de me vergar como me verguei, chorar como chorei, tantas vezes não recebendo resposta, ou, em recebendo-a, apenas para perceber que o meu próprio irmão não tinha vontade de me permitir voltar. De regressar àquela que é a minha única casa, de onde fui arrancada para servir o meu país, tendo, ainda por cima, minha mãe e o marquês de Sande, paz às suas almas, inscrito no acordo de casamento que o poderia fazer sempre e logo que o entendesse, levando comigo todos os meus pertences.
Não percebo porque é que Pedro resistiu e tornou a resistir. Quantas noites, de olhos postos na lareira acesa, imaginava que o meu querido amigo estava ao meu lado, e juntos procurávamos dar resposta a esta pergunta. Teríamos ponderado a possibilidade de que estivesse pressionado por França a manter-me num lugar onde ainda poderia ser útil à causa do meu cunhado, a inal, era uma rainha católica num país protestante para onde James desejava regressar, e teríamos equacionado se o próprio Pedro não preferia manter a irmã rainha num reino poderoso como este, julgando que lhe facilitaria o seu casamento com So ia de Neuburgo, agora rainha de Portugal. Sei que o meu amigo me teria consolado da dor imensa que sofri, tão forte que julguei enlouquecer, quando soube que a Armada encarregada de levar So ia para Lisboa passou aqui juntinho à costa, sem aportar para me incluir entre os seus tripulantes, como rogara que acontecesse...
Confortavelmente sentados, pensaríamos se a minha prisão em terras inglesas não se tratava apenas da demonstração prática da fragilidade do rei de Portugal, do seu poder incipiente, da pequenez do nosso reino, que nestes assuntos dos grandes tem sempre que esperar pela boa vontade dos seus adversários e inimigos. Até Orange teria, talvez, vantagem em me manter aqui, como bandeira de boa vontade para uma Europa católica, procurando esconder os inocentes enforcados nos seus pelourinhos, escorraçados dos seus palácios e terras, obrigados a atravessar o Canal e a procurar refúgio em França ou Espanha.
Mas, por esses dias, sentia-me invadir de uma raiva imensa, e era como que se tudo o que esquecera, ou feito por esquecer, me voltasse de novo à mente, como um fogo que se reacende, e queima. Nesses dias e - porque não ser franca? - bole mesmo, lembrei-me da forma como Pedro tratou Afonso, como foi capaz de exilar e encarcerar o meu querido irmão, que também era dele, de lhe usurpar o trono e a mulher - será que por trás das suas palavras de conforto e cuidado não se escondia o mesmo desejo de me ver longe?
James também me traiu, ou assim o sinto, e Luís XIV não lhe icou atrás -tal o desejo de guardarem um peão católico no meio deste inferno herege,
ingiram não se lembrar de que eu era uma mulher só, viúva, doente e
cheia de saudades de casa. Lamento que o meu cunhado não tenha conhecido sucesso nas suas estratégias e planos de reconquista do trono, mas custa-me perdoar-lhes o abandono a que me votaram. Vezes sem conta pedi para ir a banhos a Bourbon, o que me permitiria pelo menos tomar guarida num lugar que não me fosse hostil, e todos os meus apelos foram recusados.
Quando percebi que a minha sobrinha Mary me odiava fui acometida de uma mágoa imensa. Lembra-se, D. Luís, de como tantas vezes a passeei pela mão nos jardins de St. James, quantas vezes a puxei para o colo para lhe contar uma história? Recordo-me com especial ternura daquele dia em que nos fomos despedir do seu pai ao cais, partia ele para a guerra contra os holandeses, e Mary, a cara escondida no meu ombro, me perguntava entre soluços se Deus lhe roubaria o pai. O que sucede às pessoas, senhor conde, o que as leva a mudarem assim os seus amores e humores, retribuindo com raiva e vingança o amor que receberam? Em seguida conformei-me. Como podia sentir-me despeitada, se Mary expulsava o seu próprio pai do trono e enviava o meio-irmão para o exílio, o varão por que James e Inglaterra tanto esperavam, que segurei nos braços ao nascer, e de quem sou madrinha? Mas percebi que seria ela a constante opositora à minha partida - sempre que me julgava pronta a embarcar, vinha notícia de que a frota inglesa não podia correr riscos, de que esta ou aquela guerra tornavam a viagem demasiado perigosa (como se eu tivesse medo de morrer!), ou que não permitiam que o meu irmão me mandasse buscar, porque ofendia o protocolo que uma rainha inglesa viajasse sob a bandeira de um outro país, mesmo sendo o dela de nascença. Como era possível falar em protocolos, em prestígios e desprestígios, se por cabalas inventadas até me mandaram viver para uma pequenina casa, onde nem os meus criados cabiam? O próprio Orange pediu-me que saísse de Londres, por constar que em Somerset House se faziam reuniões papistas, coitada de mim que ali vivia no mais perfeito isolamento e solidão.
Valeram-me sempre, e como sempre, lady Nan e lady Meg, que, escusado será dizer, me procuraram encher os dias com os risos dos seus
ilhos, a sua atenção constante, a lucidez com que combatiam as minhas
crises de angústia. Lady Fanshawe passou a ser visita mais frequente, e com a sabedoria de quem já sofreu tanto, tendo perdido também o marido que amava tão apaixonadamente, consolava-me sempre com a palavra certa. Os portugueses que me serviram foram incansáveis, mas, D. Luís, como podia agir perante quem vivia para mim, senão ingir-me convencida de que todos me queriam bem, e que o meu irmão era o mais dedicado dos irmãos e não fazia mais apenas porque lhe era impossível?
Mas que importa agora tudo isso? Estou inalmente a caminho de Portugal, trinta anos depois da data exacta em que cheguei a Inglaterra, uma criança tão cheia de expectativas, com tanta vontade de ser a mulher e a mãe que Charles esperava de mim. Não fui o amor da vida do meu marido, mas senti, e D. Luís também o presenciou, que, apesar dos seus devaneios, me tinha na maior estima, e confesso-lhe, mais uma con issão, que nunca acreditei que me defendesse com a valentia com que defendeu. A coragem com que a fez teve ainda mais valor, porque não lhe era natural.
Trinta anos depois desse dia, sete após a morte do rei, cinco desde que o senhor conde me deixou, quando o rei de Portugal finalmente deixou passar rancores injustos e desconfianças infundadas e lhe permitiu regressar para junto da sua mulher e dos seus filhos. Cinco anos desde que obrigaram o meu cunhado a abdicar, Mary e William foram aclamados, e The Glorious Revolution, como lhe chamam, proibiu que alguma vez mais um católico volte a subir ao trono deste reino, recomeçando a perseguição e a morte aos da nossa fé. Como tantas vezes profetizámos os dois, o povo reagia à insensatez com que James ostentou a sua ligação a Roma, baptizando católico o príncipe herdeiro, expulsando protestantes dos seus lugares e substituindo-os pelos seus amigos. Se até chegou ao ponto, como julgo que sabe, de mandar cortar a cabeça a Jemmy, duque de Monmouth, apesar de todos os meus pedidos de que, em homenagem ao seu irmão, poupasse a vida ao seu filho mais velho! James agiu sem caridade cristã, sem tolerância, usando as armas que tanto condenámos nos nossos inimigos, e os ingleses não suportaram a ameaça, revoltando-se. Como é possível, meu querido amigo, que em nome de Deus se cometam tantos crimes?
Sinto as ondas bater no casco, e o meu coração salta de alegria. Quando Charles estava comigo, nunca por um minuto me lembrei de que vivia numa ilha, rodeada de água, mas nos últimos anos tive, a todo o momento, a consciência dolorosa de não ter por onde escapar.
Quero esquecer todas as coisas tristes. Apagar da minha memória que, a inal, cumpri pouco ou nada do que me era pedido e me parecia destinado. Não tive ilhos, não dei a Inglaterra um herdeiro, e não fui capaz de fazer vencer a nossa fé. Mas tentei. Estou cansada, e quero regressar a Portugal, ao meu Tejo, ao céu azul como nunca o vi em nenhum outro lugar, com a alma em paz. Quero voltar a Mourão, quero agradecer à Senhora das Candeias tudo o que de bom me aconteceu nestes mais de cinquenta anos de vida, quero pedir-lhe por si, por Nan, por Meg, pelos meus netos adoptivos, e por toda a gente que tão bem me recebeu e amou. Deixei uma pensão ao ilho de Nell Gwyn, o duque de St. Albans, porque não me esqueço de que as últimas palavras do meu marido foram no sentido de proteger aquela mulher, e aquela criança, mulher que de todas foi a que, sendo a mais humilde, com mais nobreza se comportou. Deixei também parte da minha gente em Somerset House, que continua a pertencer-me -depois de me terem servido todos estes anos temem, e com razão, que sejam exercidas sobre eles represálias. Com a pensão de que os dotei, julgo que o seu futuro fica assegurado.
Agora olho para a frente, para o futuro. Tenho pela frente quase um ano de viagem, percorrendo a Europa que nunca vi. Quando chegar a Lisboa, desejo olhar Pedro nos olhos e recordar-me apenas do meu irmão feliz, quando fez seis anos e lhe dei o seu primeiro rafeiro alentejano, dos tempos em que adormecia nos meus braços, con iante, sem sonhos de grandeza capazes de o fazerem esquecer que eu, Catarina de Bragança, sou ilha do mesmo pai e da mesma mãe do que ele, e que se alguma coisa os nossos pais nos deixaram foi uma lição da importância do amor à família e ao reino. Quero pegar ao colo nos meus sobrinhos que não conheço e sentir que são de certa forma os ilhos que nunca tive, sangue do meu sangue, e que talvez possa contribuir para que sejam melhores, mais sábios e generosos.
Deixo-me embalar nas ondas, e lembro-me dos nossos risos, das nossas cavalgadas, das setas que atirava certeiras ao alvo, dos olhos negros de Charles, de como se deitou ao meu lado quando todos me tinham dado por perdida, e me dizia o quanto me amava, os projectos que ainda tínhamos por realizar, e me pedia que não o deixasse nunca. E, D. Luís, essa parte cumpri integralmente. Não o deixei nunca, orgulho-me disso. Nunca desisti de o amar. Amo-o ainda hoje.
Dentro de umas horas aportamos em França. Sei que o rei Luís me vai mandar buscar e se sentirá obrigado a convidar-me para pernoitar em Versalhes, mas não o farei. Darei uma desculpa simpática, mas continuarei directa para casa da minha cunhada Maria de Modena, porque quero ver, por uma última vez, o principezinho de Gales. Felizmente, sei que James está fora, porque, muito sinceramente, não quero voltar a encará-lo. Depois nada me pode travar - volto para Portugal, meu querido amigo, e acredito que Deus Nosso Senhor ainda me concederá alguns anos de felicidade.
A si, espero-o num banco de pedra do jardim do Paço de Vila Viçosa, por um destes dias. Ao sol, falaremos como amigos que somos, desta vez com os pés assentes na nossa terra. Falaremos de tudo o que podia ter sido e não foi, com a distância e a serenidade que o tempo nos trará. Espero por si, D. Luís...
C.R.
Vila Viçosa, 28 de Fevereiro de 1698
Minha adorada Nan,
Sabe de onde lhe escrevo? De um banco de pedra de um jardim tão diferente daquele em que tantas vezes estivemos. Aqui as laranjeiras não são um pequeno pomar, que uma rainha louca de saudades decidiu plantar num canto de Hampton Court, mas um jardim inteiro, e o cheiro das suas flores enche-me a alma. Estou em Vila Viçosa, no paço onde nasci, e, embora já esteja em Portugal há sete longos anos, é como se só agora realmente tivesse chegado a casa.
Lembra-se de como lhe contei que o meu irmão Teodósio, o meu querido Teodósio, um menino de seis anos excitado com a notícia de que o pai era rei, mediu a passos a fachada do nosso palácio, como gesto de homenagem, de despedida? Pois acredite que foi exactamente o que iz quando aqui cheguei. Não se ria, minha querida Nan, mas gostava que me tivesse visto, com esta idade, e o peso dos anos, a dar passinhos pequeninos, um atrás do outro, tentando completar uma linha recta, paralela ao meu paço - como gostava de ouvir as gargalhadas de Meg quando lhe contar este episódio. Por aqui, a guarda da minha escolta arregalou os olhos, sem perceber o que se passava, e quando cheguei ao im e gritei «Quatrocentos e cinquenta exactos! Os meus pés e os de Teodósio são do mesmo tamanho», as minhas damas entreolharam-se, assustadas.
Não lhes expliquei, Nan, há tantas coisas que não lhes explico, porque se as traduzisse por palavras estragava a magia do momento. Pre iro guardá-las para mim, rindo-me sozinha a imaginar que as partilho consigo, com Meg, ou com Charles, com quem a inal aprendi a encontrar divertimento nestas pequenas coisas.
Não me foi fácil adaptar a este reino que, sendo intrinsecamente meu, cresceu e se desenvolveu a um ritmo diferente. Repito-me, já lhe disse isto muitas vezes, das tantas que lhe escrevi, mas quando cheguei a Inglaterra tomaram-me por uma provinciana, puritana, e agora de volta, escandalizo a corte com os meus decotes, as minhas graças, o meu à-vontade. É hilariante, mas triste. Porque me deixa eternamente com a sensação de que não pertenço realmente a lado nenhum. Talvez só aqui, a este paço, onde o tempo parou e todas as coisas estão no mesmo lugar onde a minha mãe as deixou. Aqui posso ser a Catarina que a Nan conheceu tão bem, e que afinal era a verdadeira Catarina, aquela que acredito que o meu marido viu para lá da constipação, e do ridículo penteado, naquela cama em Portsmouth, aquela que tenho a certeza que amou até à morte.
Mas estou a ser exagerada. Não quero que tenha pena de mim. Tenho sido muito feliz, e a minha cunhada Sofia foi provavelmente a mais agradável surpresa. Talvez porque me lembre tanto as manas Fanshawe -miúda numa corte onde mesmo os novos já parecem velhos (seria eu assim, meu Deus, quando cheguei a Inglaterra?), é divertida e alegre, apesar de desde que casou não ter tido mais do que uns breves meses para respirar entre gravidezes, algumas das quais resultaram em bebés que morreram à nascença. Mas agarra-se às coisas boas, e os seus filhos encantaram-me. João tinha quatro anos quando cheguei a Portugal. É muito sério, digno, tem as cores da mãe, e espero que saia ao seu tio Teodósio, embora não possa dizer uma coisa destas perto do rei seu pai. O Francisco é mais novo apenas um ano, e, infelizmente, não tem nada dos seus. Tenho acompanhado o seu crescimento com crescente preocupação - olho para ele e vejo Afonso com a mesma idade, reconheço nele aquele desejo forte de chocar os demais, uma rebeldia que me parece uma forma de combater os ciúmes que sente do mais velho. Confesso que temo que tenha herdado o carácter do tio. O pior é que sinto que o meu irmão Pedro também tem esse receio, e tende a tratá-lo com um pulso firme, como se quisesse evitar algum descalabro, como a minha mãe fez como Afonso - queira Deus que o meu sobrinho não interprete o gesto como falta de amor, e que não lhe metam na cabeça que um dia poderá imitar o pai, destronando o irmão. Será que a história se pode repetir? Queira Deus que não.
Duas meninas morreram à nascença, mas, sem querer subestimar a dor da minha querida cunhada, que diferente me parece ser sofrer a perda de um ilho, quando se está rodeado de outros, a exigirem a nossa atenção e o nosso carinho. Depois do último desgosto sugeri-lhe que fosse tomar águas, que se separasse um pouco do marido - as coisas que a idade me leva a dizer, eu a quem as ausências do meu me magoaram tanto! -, para dar hipóteses ao corpo de descansar, mas Pedro não o permitiu. As consequências em breve icaram à vista, porque engravidou de Teresa, depois de Manuel, e agora está de novo grávida. Nan, em doze anos é a sétima vez que está de esperanças, e o meu irmão radiante, com a quantidade de varões à disposição para o que der e vier. Visito-os frequentemente, e nada me deixa mais emocionada do que os ter à minha volta, os bebés a gatinharem para junto de mim, a pequenina Teresa a pedir-me que lhe ajuste o laço no cabelo. Tomara que a criança que está por nascer seja outra rapariga, e nasça bem, porque ter uma irmã, como a Nan tão bem sabe, é das maiores graças que Deus nos pode dar. Ainda hoje sinto a falta de Joana, e penso em como a minha vida teria sido diferente se ela não tivesse desaparecido tão cedo.
So ia é a única que se ri com o meu comportamento nómada, adquirido entre ingleses: mudo-me de armas e bagagens de palácio em palácio, para confusão do meu irmão, e de toda a corte, aliás, porque por aqui nasce-se, vive-se e morre-se no mesmo lugar. Mas o que quer, Nan, canso-me, torno-me irrequieta, os fantasmas dos piores momentos da minha vida voltam a assombrar-me, e procuro na paixão por um outro espaço, um outro jardim, uma outra vista sobre o meu adorado Tejo, reencontrar o encantamento com a vida, que sempre tive. Nunca fui feita para conventos, por muito que admire quem abraça a clausura, para tristeza de lord Buckingham, que tantas vezes tentou confundir a minha piedade, essa sim, genuína, com uma vocação que nunca tive - a vontade de Deus, estou certa disso, é que amasse e protegesse o meu marido, como sempre fiz.
Agora decidi que vou construir um palácio de raiz. Já tenho os planos e deliciei-me a trabalhar com o arquitecto, planeando cada espaço à medida das minhas memórias. Cada parede que for sendo construída vai nascer já com um destino prévio: sei exactamente que quadros vou pendurar, que mesa vou ali encostar. Quero viver rodeada de retratos, das pessoas e dos sítios que amei. Do de Charles, dos meus pais, de Teodósio e de Joana, de si e de Meg, e dos vossos ilhos, dos jardins de Hampton Court, deste Paço de Vila Viçosa. Pedi à família do marquês de Sande que me cedesse um retrato dele, porque é justo que ique junto de mim, assim como o do meu pequenino príncipe de Gales.
Empenhei-me, também, na construção da capela, uma capela católica, onde posso praticar a minha fé sem receios, nem vigilâncias. Escusado será dizer-lhe, Nan, que no altar quero Nossa Senhora da Conceição e, claro, uma réplica da Virgem das Candeias, com o seu Menino sorridente ao colo.
Vou construí-lo numa quinta na Bemposta, e alimento a esperança de que a família Fanshawe inteira tenha a ousadia de se meter num barco rumo a Lisboa, para me vir visitar. A inal, não era nada que a sua mãe não tivesse feito - por favor, pense no desa io, que eu, pela minha parte, mandarei fazer aposentos só para vocês. Enquanto me empenho em tudo isto penso que talvez nesse espaço novo, Portugal e Inglaterra, a minha infância, os meus trinta anos nesse reino, e a minha velhice, se reúnam numa harmonia perfeita. Talvez ali consiga viver com as minhas recordações, porque tanta gente que esperava reencontrar, numa ilusão infantil, já não vive, ou, vivendo, foi consumida pela doença e pela velhice.
Só frei Pedro esperou por mim, numa cela no Convento das Chagas, aqui ao lado do paço, e ainda ontem o visitei de novo. O corpo não reage, mas os olhos, os olhos, Nan, brilham quando me vêem - e segurou a laranja que lhe levei com tanta força, como se estivesse a ressuscitar dos mortos. Comove que nos amem tanto como ele me amou, como ainda me ama. Disse-me a madre superiora que frei Pedro nos seus delírios fala com Deus e lhe diz que só pode partir depois de me saber de novo aqui, de novo em casa. Talvez agora também ele encontre a paz.
Guardo para o im o mais di ícil. Sei que se aqui estivesse, minha adorada Nan, consolo de tantos momentos de dor e alegria em mais do que todos esses, nunca me deixaria escrever as páginas que precederam esta, sem lhe dizer como foi o encontro com o meu irmão Pedro. Tenho evitado falar-lhe nisso, porque ainda hoje me sinto dividida quanto ao que senti. Naquele dia de janeiro de 1693, depois de oito meses de viagem, e após ter sido recebida com um entusiasmo inesperado pelo povo português, cheguei a Lisboa, e no Lumiar a minha comitiva e a dele encontraram-se frente a frente. O meu coração parou com a expectativa. Olhei pela janela e vi-o aproximar-se num passo rápido, e saltar para o estribo da minha carruagem, o sobrolho franzido como se tivesse exactamente as mesmas dúvidas do que eu: serei capaz de alo reconhecer, serei capaz de esquecer, serei capaz de alo amar? Quando os nossos olhares se encontraram, seguraram por minutos o do outro. O su iciente para ver para lá das rugas e do tempo - ele descobriu a irmã que o criou como uma mãe, estou certa disso, e eu vi o meu menino, o meu Pedro, tão esperto, atento e rápido, que me pedia que lhe cantasse para afastar o papão dos seus sonhos. Foi como um relâmpago, forte, intenso, mas que desapareceu. Percebi que há dores que não conseguimos ultrapassar, mágoas e feridas irreparáveis, por muito que nos digam que o perdão apaga tudo e a lousa das nossas vidas fica limpa como no dia em que nascemos - não é ver dade, asseguro-lhe.
Cumprimentámo-nos, e desde aí a nossa relação tem sido cordial, mas reservada. Não anda bem de saúde e já me falou na possibilidade de me pedir para assumir a regência do reino por uns tempos, um gesto generoso. Vejo-o realmente doente e considero a possibilidade. Conhecemo-nos a nós mesmo face aos desa ios. Como será se algum dia tiver de decidir, dar ordens e de inir estratégias? Descobrirei ser uma pessoa melhor e mais capaz? Sei que aprendi muito com Charles, e hoje olho para a sua forma de governar com mais benevolência -1 . ulgo que tinha a arte de reinar sem dar a impressão de que o fazia, mas a desgraça que veio a seguir, o fanatismo do meu cunhado, deixaram-me perceber como era muito mais di ícil do que parecia manter a harmonia num reino com uma longa história de ódios e de ressentimentos. História que eu não conhecia, mas que ele sentira na pele desde criança. Não, não creio que venha a ser uma regente ao estilo do meu marido, porque não está em mim ingir que não vejo, não confrontar quem me ofende, mas julgo que conseguirei ser tolerante, generosa e irme, sem laivos de autoritarismo. Talvez tenha em mim mais da minha mãe do que alguma vez quis admitir.
Ainda ontem falei nisso, sabe com quem? Claro que sabe. Foi a primeira pessoa a quem escrevi, ainda no canal da Mancha, depois de me ter despedido de si no cais, na certeza de que aquilo que nos unia nunca nada seria capaz de separar. A única pessoa, daqui deste lado, que senti capaz de me compreender. Combinámos, então, encontrar-nos, um dia, num banco de jardim de Vila Viçosa. Durante estes anos não nos vimos, porque D. Luís quis manter-se longe do meu irmão, entendi-o perfeitamente. Mas agora, não sei como soube da minha vinda aqui (ou talvez não seja tanto assim porque, afinal, sabe que a peregrinação de Nossa Senhora das Candeias, em Mourão, é daqui a dias...), e surpreendeu-me surgindo à minha frente, quando passeava no claustro de D. Jaime, onde a minha ama Carminho nos trazia para brincarmos, para nos molharmos no lago, e onde Teodósio exercia a sua arte na pesca dos pobres dos peixinhos vermelhos. Caímos nos braços um do outro, e passámos o serão em frente de uma lareira crepitante, como o fazíamos tantas vezes aí em Somerset House. Sim, perguntou por si. E tão estranha a vida, não é? Como podemos ser tão felizes com tudo o que temos, e no entanto não conseguir deixar de imaginar o que algumas coisas poderiam ter sido. Não tenha dúvidas, minha querida Nan, que o nosso caminho somos nós que o fazemos.
Espero que um dia os nossos caminhos se voltem a cruzar. Beije por mim os seus dois ilhos, aperte Meg com toda a força de que os seus braços forem capazes, e prometa-me que, por mim, abençoa com uma cruz na testa a minha Catarina. Saudades a Ralph, e a Francis, e, por favor, venham ver-me...
Da sua
Catarina R
Catarina morreu no último dia do ano de 1705, no Palácio da Bemposta, com 67 anos. Na sua mesa-de-cabeceira estavam o seu retrato, pintado por Nocret, e o de Charles, na sua moldura de diamantes. No testamento lia-se a sua última vontade: ser enterrada junto do seu irmão Teodósio, em Santa Maria de Belém, e caso o príncipe fosse trasladado para São Vicente de Fora, desejava acompanhá-lo.
Numa manhã fria de janeiro, o caixão foi transportado em ombros pelos seus sobrinhos. João, futuro D. João V, Francisco e António. Teresinha morrera no ano anterior, mas Francisca tinha agora seis anos, e pela mão do irmão mais velho choramingava:
- Onde está a senhora rainha que me contava histórias e me punha o gancho no cabelo?
D. Pedro não esteve presente porque a doença o prendia à cama, mas D. Luís de Vasconcelos e Sousa, ladeado pelos seus três ilhos, seguiu discretamente o cortejo. Nenhumas lágrimas eram tão sinceras como as suas.
Por cima do caixão de madeira negra, um ramo de lores de laranjeira -as irmãs do Convento das Chagas cumpriam o último desejo de frei Pedro.
Afonso de Bragança, Afonso VI de Portugal - O irmão de Catarina era o
quarto filho vivo de Luísa de Gusmão e de D. João IV, e o segundo na
linha de sucessão. Vítima de uma grave doença aos três anos - a que
deram o nome de «mal hemiplégico», e que hoje os médicos acreditam
ter sido uma forma de meningite -, ficou com sequelas físicas, o corpo
deformado e, alegadamente, com deficiências mentais. Aos 12 anos
começou a rodear-se de amigos de quem a rainha não gostava e a
participar em cenas de arruaça. Foi aclamado rei aos 13 anos e poderia
ter assumido a governação aos 14, idade em que se era maior ao tempo,
mas D. Luísa e os seus ministros consideraram que não reunia condições
para tal. Foi através de um «golpe palaciano», era já Catarina rainha de
Inglaterra, que assumiu o poder, tendo como primeiro-ministro Luís de
Vasconcelos e Sousa, conde de Castelo Melhor. Casou com Maria
Francisca de Sabóia, mas viu o seu casamento declarado nulo a pedido
da mulher. Foi deposto pelo irmão Pedro, que, além de se ter casado com
a sua ex-mulher, o manteve em «residência fixa» nove anos, primeiro
nos Açores e depois no Paço da Vila, em Sintra, onde acabou por falecer.
Manteve até ao fim o título de rei.
Ali - O vendedor árabe que dá a Catarina, na Praça do Comércio, um chá.
Chá que Catarina descobre que se destina a tratar a infertilidade. A
personagem é ficcionada, embora os avançados conhecimentos médicos
árabes nesse tempo fossem absolutamente reais.
Ana de Bragança - A segunda ilha de Luísa de Gusmão e de D. João, duque
de Bragança, que morreu pouco depois de nascer.
Ann Fanshawe - Lady Fanshawe, casada com sir Richard Fanshawe, era
uma mulher admirável, com grande coragem e uma ternura muito
maternal, e que acompanhava o marido em todas as viagens. Nas suas
Memórias escreve que viveu os 23 anos e nove dias de casamento,
interrompido pela morte de sir Richard, em paixão permanente. Veio
com o marido para a corte portuguesa, e permaneceu em Lisboa com ele
enquanto aqui esteve como embaixador de Inglaterra. Como descreve
nas suas Memórias, foi em Lisboa, corria o ano de 1663, que nasceu o
bebé Richard, que não resistiu. Foi enterrado, escreve, na «Esperanza»
(Convento da Esperança, ao que se subentende). Ann teve sempre um
papel muito activo tanto na educação dos filhos, como no
aconselhamento político do seu marido. Sir Richard morreu em 1666, e
Ann vinte anos depois. As Memórias de Ann Fanshawe, que merecem
ser lidas, estão publicadas, mas também podem ser consultadas
livremente em www.gutenberg.org/etext/6064.
Ann (Nan) e Margaret (Meg) Fanshawe - O casal Fanshawe teve seis filhas,
duas com estes precisos nomes e que estiveram com os pais em Lisboa,
onde foram apresentadas à corte, nomeadamente a D. Afonso, D. Pedro e
à rainha-mãe. Contudo, a sua presença na Casa da Rainha, como damas
de Catarina, é ficcionada. No entanto, a sua mãe conheceu e visitou a
rainha várias vezes, trazendo-lhe inclusivamente, no regresso a Londres,
presentes enviados por D. Luísa à filha, referindo-se sempre a Catarina
nos termos mais afectuosos, o que não torna esta possibilidade
inverosímil. A personalidade das filhas Fanshawe era certamente assim,
a avaliar pelas Memórias da mãe, como quando aconselha os filhos a
serem «Inocentes como pombas, mas sábios como as serpentes» (que
melhor frase descreve Meg?), ou quando escreve «Quis ter perto de mim
a minha Nan, que me dá sempre tanta força.»
Anne Hyde - Filha do chanceler do reino, Edward Hyde, casou em segredo
com James, duque de York. Estava já grávida quando a família real
tomou conhecimento da relação e foi aceite na corte graças ao papel do
cunhado, o rei Charles II, embora conste que a sogra nunca a aceitou. Da
vasta prole que teve sobreviveram apenas duas filhas, uma delas Mary,
que casou com William d'Orange, protestante, e que veio a ser rainha de
Inglaterra, depois de o seu pai ter sido destronado.
António Cavide - Secretário do rei, acompanhou-o até à morte. Tomou conta
da filha ilegítima de D. João até aos seis anos. Continuou a servir a
rainha, enquanto regente, e depois D. Afonso VI.
António Vieira - O jesuíta que marcou este século dispensa apresentações.
Nasceu em Lisboa, partiu novo para o Brasil, onde se fez padre. Passou o
resto da sua vida entre Lisboa e o Brasil, sobretudo na Missão do
Maranhão, sempre na defesa dos índios, escravos, judeus e todas as
minorias desprotegidas. A sua presença em Lisboa, à data da morte de
D. João IV, é ficcionada. Foi, no entanto, pregador do reino, com D. João IV
e com D. Luísa, durante a sua regência. Muito amigo de Teodósio e
Catarina, com quem se correspondia frequentemente, pedindo,
inclusivamente, ajuda quando se viu preso e interrogado pela Inquisição,
acabou por morrer no Brasil. Os seus Sermões tornaram-no famoso, e a
sua escrita continua ainda espantosamente actual.
Barbara Villiers Palmer, lady Castlemaine - A amante mais poderosa e
duradoura de Charles. Casada com um senhor Palmer, não foi o
casamento que a impediu de se tornar amante do pretendente ao trono,
ainda no exílio. Quando regressou com Charles a Inglaterra, já tinha um
filho dele e outro a caminho, a que acrescentou, ao longo dos anos,
outros três. Considerada a mulher mais bonita da corte, manteve o seu
poder sobre o rei até muito tarde, e foi, ao que tudo leva a crer, a mulher
que mais infernizou a vida de Catarina.
Capitão Blake - Famoso almirante da armada inglesa no tempo de
Cromwell. Atacou o que restava da armada real inglesa, na barra do
Tejo.
Cardeal Mazarino - Cardeal da corte de Luís XIV de França, recebeu a
embaixada portuguesa destinada a negociar o casamento do rei com a
infanta D. Catarina. Negociou com Portugal um dote avultado, do qual
uma parte seria para ele próprio. As vicissitudes diplomáticas de então
não permitiram a concretização do casamento.
Carminho - A ama de Catarina, nascida e criada no Alentejo, é uma
personagem de ficção.
Cartas - Muitas das cartas reproduzidas são verdadeiras, nomeadamente
as de D. Luísa de Gusmão para Catarina e para Teodósio. Embora por
vezes tendo um estilo mais formal do que a escrita do livro, foram
mantidas, já que são de uma ternura e de uma riqueza imensas. O
tratamento, por exemplo, da filha como «luz dos meus olhos» é genuíno.
Há, no entanto, algumas que não são verdadeiras, como acredito ser
imediatamente compreensível pelo tom menos formal que assumem.
Catherine Peggae - Mais um amor de Charles, ainda no exílio, de que
resultaram dois filhos, que, no entanto, morreram relativamente novos.
Charles Stuart, Charles II de Inglaterra - Filho de Charles 1, era o
pretendente legítimo ao trono de Inglaterra. O pai fora decapitado e
Charles tentou, a partir do exílio, repetidamente e sem sucesso, vencer a
república, liderada por Cromwell, que se tinha instalado no seu país.
Com a morte do filho de Cromwell, que lhe tinha sucedido no poder, o
exército revoltou-se e, comandado pelo general escocês Monk, invadiu
Londres e pediu o regresso do rei. Coroado Charles II a 23 de Abril de
1661, com ele regressou a monarquia a Inglaterra. Casou com Catarina
de Bragança, em Maio de 1662.
Conde de Castelo Melhor - Luís de Vasconcelos e Sousa foi «primeiro-
ministro» de D. Afonso VI, tendo sido exilado por D. Pedro. Diz-se que a
sua maior inimiga, em Portugal, era a rainha, D. Maria Francisca de
Sabóia. Depois de ter passado por Turim, foi acolhido na corte de
Catarina, tornando-se um dos seus conselheiros mais valiosos. Foi ele
que conseguiu levar um padre católico ao leito de morte do rei Charles
II, que o tinha em grande conta. Regressou a Portugal, alguns anos
depois da morte da rainha D. Maria Francisca, graças à intervenção de
Catarina junto do seu irmão, tendo-se instalado em Pombal, onde era
alcaide-mor, voltando ao governo no reinado de D. João V. Era casado, e
pai de quatro filhos, um deles já nascido depois do seu regresso a
Portugal. Nasceu em 1636 e morreu em 1720.
Conde-duque de Olivares - Eminência parda do Governo castelhano, braço-
direito do rei espanhol D. Filipe III (IV de Espanha).
Duarte de Bragança - Irmão mais novo de D. João IV, cunhado de D. Luísa e
tio de Catarina, foi feito prisioneiro por ordens de D. Filipe de Espanha
como represália contra a Restauração da Independência de Portugal.
Passou longos anos fechado num castelo em Milão, onde acabou por
morrer. A sua relação platónica com a cunhada D. Luísa é ficção.
Duquesa de Mântua - Margarida de Sabóia, duquesa de Mântua por
casamento, refugiou-se na corte de Filipe de Espanha, depois da morte
do marido. O rei de Castela enviou-a para Lisboa como sua
representante.
Conde de Sandwich - O almirante da armada inglesa que tomou Tânger e
levou Catarina, e parte do seu dote, para Inglaterra, também se chamava
Edward Montagu, embora aparentemente não tivesse qualquer
parentesco com o estribeiro-mor da rainha. Um homem afável e
observador, manteve um diário durante toda esta época, que está
publicado. Voltou a Portugal, muito mais tarde, já como lord Sandwich,
para a ratificação do tratado de paz com Castela.
Edward Hyde - Chanceler do reino, lord Clarendon acompanhou Charles
desde a morte do pai, assumindo o cargo oficialmente quando regressou
com ele do exílio. A sua filha Anne casou com o irmão do rei, James, e a Francisco de Melo, marquês de Ferreira - Padrinho de Catarina, é
sua neta Mary foi depois rainha de Inglaterra. Charles considerava-o um
pouco como pai, mas Hyde acabou por criar muitos inimigos, que o
acusavam, nomeadamente, de ter casado o rei com uma mulher infértil
para que a sua filha e netas ascendessem ao trono. Acabou por ter de
fugir de novo para França, onde morreu.
Edward Montagu - Estribeiro-mor de Catarina, por nomeação de Charles II.
Enviado para Lisboa, depois de assinado o acordo nupcial, acompanhou
a rainha na viagem para Inglaterra e esteve ao seu serviço até que uma
intriga de palácio levou o rei a despedi-lo. Alistou-se na armada na
guerra contra a Holanda, e morreu durante uma das batalhas.
Elvira de Vilhena, condessa de Pontével - Uma das damas nomeadas por
Luísa de Gusmão para acompanhar a filha a Inglaterra, mas que
depressa regressou a Lisboa.
Father Huddleston - O padre católico que escondeu Charles, quando este
tentava escapar ao exército de Cromwell, e que ficou para sempre seu
amigo. Quando Charles foi aclamado rei de Inglaterra, chamou-o para
junto de si, sendo nomeado capelão da capela de Somerset House. Foi ele
que administrou os últimos Sacramentos ao rei e assistiu à sua
conversão. Escreveu ainda um livro sobre o acontecimento, que dedicou
a Catarina.
Filipe IV de Espanha e M de Portugal - Filipe era rei de Portugal até à
Restauração da Independência, a 1 de Dezembro de 1640. Não se
conformou com a «revolução» e durante trinta anos tentou reconquistar
Portugal, atacando sistematicamente as nossas fronteiras.
Frances Stuart - Prima afastada do rei, filha do médico da rainha-mãe, veio
com ela para a corte inglesa ainda adolescente. Extremamente bonita,
segundo os padrões da época, foi uma das paixões do rei. Não chegou, no
entanto, a ser sua amante. Fugiu com lord Richmond e casou
clandestinamente, provocando a ira real. O marido era alcoólico e acabou
por morrer no estrangeiro, e lady Richmond voltou a ser dama da Casa
da Rainha.
Francis Villiers - Irmão mais novo de lord Buckingham, no livro casa com
lady Margaret Fanshawe, dama da rainha. Na realidade morreu mais
novo e solteiro, mas a ficção prolongou-lhe a vida por mais alguns anos e
deu-lhe uma mulher e filhos.
frequentemente confundido com Francisco de Melo e Torres. Em muitas
obras pode mesmo ler-se que foi o padrinho de Catarina que negociou o
seu casamento. São, no entanto, homens completamente distintos. O
marquês de Ferreira, da antiga nobreza, era já um homem maduro por
altura do nascimento de Catarina, e muito ligado à família dos Bragança.
Francisco de Melo e Torres, conde da Ponte, marquês de Sande - O
embaixador de Portugal que negociou o casamento de Catarina de
Bragança com Charles II de Inglaterra. Em agradecimento pelo seu
serviço ao reino, Luísa de Gusmão deu-lhe o título de marquês de Sande,
meses antes de lhe pedir que acompanhasse a ida da filha para
Inglaterra, apesar de o seu relacionamento com a infanta aparentemente
não ser o melhor. Permaneceu na corte inglesa durante algum tempo,
passando depois a França, onde negociou o casamento do irmão de
Catarina, o rei Afonso VI de Portugal, com Maria Francisca Sabóia.
Acompanhou-a a Portugal, de encontro ao marido, e foi assassinado
pouco depois, quando regressava da capela real na carruagem de um
amigo. Segundo tudo indica, o crime visava o dono da carruagem, e
tratava-se de um ajuste de contas passional, tendo sido o marquês, no
entanto, a vítima fatal. Nascido em 1610, morreu em 1667. O romance
com Ann Fanshawe é ficção.
Frei Pedro da Fonseca - O escritor e historiador António Casimiro refere-o
como assistente da capela de Vila Viçosa. O seu papel na vida de
Catarina é ficção.
Henrietta-Anne Stuart Orléans, Minette - A irmã favorita de Charles, com
quem se correspondia frequentemente, casou com um irmão de Luís XIV
de França, que, ao que tudo indica, tinha outras preferências sexuais e
tratou a mulher com muita crueldade. Tiveram, apesar disso, vários
filhos, mas Minette morreu subitamente muito nova, uns meses depois
de ter visitado Charles em Inglaterra, que não via há uma década, e há
suspeitas de envenenamento.
Henriette Marie - Da Casa de Orléans, a mãe de Charles era francesa de
origem e católica de religião. Terá sido uma das grandes apoiantes do
casamento do filho com Catarina, e deu-lhe muito apoio em Inglaterra.
James Stuart, duque de York - Irmão de Charles II, tornou-se o herdeiro
dos tronos de Inglaterra, Escócia e Irlanda, pelo facto de Catarina não ter
tido filhos. Católico, religião que assumiu aos poucos, era odiado pela
Inglaterra protestante e foi, de facto, o último rei católico que este país
conheceu até hoje. Casou em segredo com Anne Hyde, filha do chanceler
de Charles, e, depois da morte desta, com Maria de Modena, de quem
teve um rapaz, James Francis, príncipe de Gales, de quem Catarina era
madrinha. Aclamado depois da morte de Charles em 1685, como era
desejo do seu irmão, foi obrigado pelo Parlamento a abdicar em 1688,
depois de um protesto popular que ficou conhecido como The Glorious
Revolution. Sucedeu-lhe não o seu filho varão, o príncipe de Gales,
baptizado católico, mas a sua filha mais velha, Mary, protestante e
casada com o também protestante William d'Orange. Tentou uma
invasão de Inglaterra para retomar o trono, mas sem sucesso, acabando
por se conformar ao exílio na corte do primo e aliado Luís XIV. Charles
mudou o nome de New Amsterdam para New York, em sua homenagem.
Jemmy, duque de Monmouth - James Croft, conhecido por Jemmy, duque
de Monmouth, o primeiro filho do rei, embora ilegítimo, foi crescendo em
importância graças à intervenção do pai. O partido dos antiduque de
York ajudou a convencê-lo de que tinha possibilidades de suceder ao pai,
já que Catarina não tinha filhos. Quando percebeu que Charles não era
da mesma opinião, envolveu-se num atentado contra a vida do pai e do
tio, de que resultou o exílio. Depois da morte do pai, regressa em
segredo e conspira contra o seu tio James, entretanto aclamado rei, que
o condena à morte.
Joana de Bragança - A segunda filha de Luísa de Gusmão e D. João IV era
apenas dois anos mais velha do que Catarina. Depois da aclamação do
pai, recebeu o título de princesa da Beira. Morreu em 1653, pensa-se
que de tuberculose pulmonar.
João, duque de Bragança, D. João IV de Portugal - Pai de Catarina, e filho de
Teodósio, o sétimo duque de Bragança nasceu e viveu no Paço de Vila
Viçosa até ser aclamado rei, em Dezembro de 1640. Nessa altura já era
pai de Teodósio, Joana e Catarina. Afonso e Pedro nascem no Paço da
Ribeira. Teve uma filha ilegítima, Maria de Bragança.
Lady Suffolk - Camareira-mor de Catarina, foi nomeada para esse cargo
por Charles II, logo em Portsmouth, e acompanhou a rainha durante
muitos anos. Cabia-lhe também vigiar e guardar as damas da Casa.
Leonor de Meneses - Nomeada por D. Luísa, já rainha de Portugal, para aia
das suas duas filhas.
Lord Buckingham, George Villiers - Um dos homens mais poderosos de
Inglaterra, opositor tenaz de Catarina. Tentou de tudo para que Charles
nomeasse herdeiro o seu filho bastardo James Croft, procurando evitar
que o trono passasse para o duque de York, que era católico.
Louise de Kéroualle - Francesa, dama de Minette, a irmã de Charles, chega
à corte inglesa como espia do rei de França. O rei apaixona-se
loucamente por ela, dá-lhe o título de lady Portsmouth e tem dela um
filho varão. Louise é tratada como uma quase-rainha, mantendo-se
amante do rei até à morte do mesmo.
Lucia Walters - A primeira amante conhecida de Charles Stuart, de quem
tem o seu primeiro filho, James Croft, criança que após a morte da mãe é
entregue a um valido de Charles, John Croft, para criar.
Luís XIV - Um dos outros pretendentes ambicionados para Catarina era
Luís XIV de França. As negociações realizaram-se, mediadas pelo cardeal
mazzarino, mas a infanta não foi a escolhida.
Luísa Francisca de Gusmão - Filha dos duques de Medina-Sidónia, casou
com D. João, duque de Bragança. Mãe de Teodósio, Joana, Catarina,
Afonso e Pedro, tendo morrido à nascença Ana e Manuel. Em 1640
tornou-se rainha de Portugal, por aclamação do marido. Depois da morte
de D. João IV assumiu a regência, cargo de que foi destituída pelo filho,
D. Afonso VI, em 1666. Retirou-se para um convento, onde morreu.
Madre Maria da Conceição - Madre superiora do Convento de Alcântara,
sobrinha de Luísa de Gusmão, onde se julga que Catarina frequentou «a
escola». Alguns autores garantem que vivia em regime de internato, mas
nada sustenta esta tese, até porque não faria muito sentido que D. Luísa,
sendo uma mãe possessiva e carinhosa, a enviasse para longe de si.
Manuel de Bragança - Irmão de Catarina, nasceu também em Vila Viçosa,
um ano e meio depois dela, mas morreu horas depois.
Maria de Bragança - Meia-irmã de Catarina, filha ilegítima de D. João IV e
de uma senhora que o rei classifica de «mulher limpa» e que entrou
para o convento depois do nascimento da criança, tomando o nome de
Maria de S. João Baptista. Maria foi educada por António Cavide,
secretário pessoal do rei, até aos seis anos, sendo depois enviada para o
Convento de Carnide, onde ficou até morrer. Estiveram pensados vários
casamentos para a filha do rei, mas entretanto o pai morreu. Sabe-se
que os seus irmãos legítimos tinham conhecimento da sua existência e a
visitavam, e parece que mantinha uma relação cordial com Catarina.
Maria de Modena - A segunda mulher de James Stuart, duque de York, era
católica, e o casamento foi realizado em Itália. Tiveram um filho varão
mas que nunca chegou a ser rei, apesar de várias tentativas.
Maria de Portugal, condessa de Penalva - Uma das damas nomeadas por
Luísa de Gusmão para acompanhar a filha a Inglaterra, e ocupou o lugar
de sua camareira-mor. Quando Charles II decide «devolver» a Portugal
muitos dos elementos da comitiva, aceita que D. Maria, quase cega, fique
junto de Catarina. Morre em Inglaterra.
Maria do Carmo - Uma das aias de Catarina e Joana. Personagem de ficção.
Maria do Rosário, Rosarinho - Uma das aias de Catarina, paixão do seu
irmão Teodósio. Personagem de ficção.
Mary Fairfax - Herdeira rica que casou com George Villiers, lord
Buckingham, de quem nunca teve filhos.
Maurice - Príncipe inglês, irmão de Rupert, é primo de Charles Stuart e
comanda um dos barcos que aportam em Lisboa, em fuga a Cromwell e à
República. Morre meses depois de ter deixado Portugal, quando o seu
barco é atingido pelos homens do capitão Blake.
Miguel de Vasconcelos - Secretário da duquesa de Mântua, era odiado,
segundo reza a História, pelos portugueses, que o responsabilizavam
pelo aumento dos impostos e outras medidas impopulares. Foi
assassinado no dia 1 de Dezembro, quando os conjurados tomaram de
assalto o Paço da Ribeira e restauraram a independência de Portugal.
Nell Gwyn - Uma actriz que tinha começado por vender laranjas, uma
verdadeira londrina, e com quem o povo se identificava, foi amante do
rei e teve dele dois filhos. As últimas palavras de Charles, para o irmão,
foram: «Toma conta de Nell, não a deixes passar fome.»
Nocret - Famoso pintor francês que veio a Lisboa pintar o retrato de
Catarina, para o apresentar ao seu patrono, Luís XIV de França. A
história do quadro falsificado é ficção.
Nossa Senhora da Conceição - A «Senhora de Vila Viçosa», padroeira dos
Bragança, foi declarada Padroeira de Portugal por D. João IV, em
cerimónia solene, datada de 1644. O rei depôs a coroa a seus pés e
declarou que em Portugal só Nossa Senhora a usaria. Desde essa data os
reis portugueses não voltaram a usar coroa.
Nossa Senhora das Candeias, ou Nossa Senhora do Tojal, de Mourão - A
imagem da Virgem encontra-se na Igreja de Mourão, mandada construir
nas próprias muralhas por D. Pedro II, irmão de Catarina, depois das
guerras da Restauração, e que pode ser visitada. A igreja veio substituir
a antiga Ermida de Nossa Senhora do Tojal. A imagem é de pedra de
Ançã, policromada, com os cabelos negros e fartos, os brincos e o Menino
sorridente, e está datada do período manuelino. A sua ligação directa a
Catarina é ficcionada.
Pedro de Bragança, D. Pedro II - O filho mais novo de D. Luísa de Gusmão e
D. João IV é também o bebé da família aos olhos de Catarina. Favorecido
pela mãe, que talvez o achasse mais apto para o trono do que Afonso, foi-
lhe dada Casa (a Casa do Infantado) quando fez seis anos. Aos 19 anos
substitui o irmão na governação do reino como príncipe regente e
apenas assumirá o título de rei após a morte de D. Afonso VI. Casa com a
cunhada, de quem tem uma filha, Isabel, e mais tarde faz um segundo
casamento, do qual nascerá D. João V. Catarina, embora o tivesse tratado
como mãe quando era pequeno, não concorda com o seu comportamento
em relação ao irmão, a quem acusa de «roubar o trono e a mulher».
Recusa-se a ser madrinha da sua primeira filha, e durante muito tempo
não lhe responde às cartas. Aceita Castelo Melhor, ministro de Afonso e
exilado por D. Pedro, na sua corte em Inglaterra. A reconciliação dá-se
mais tarde.
Ralph Montagu - Irmão de Edward, que a rainha Catarina aceitou como
estribeiro-mor, apenas depois da morte do seu «leal servidor» na guerra
com a Holanda. Apenas no livro casa com Ann Fanshawe.
Richard Fanshawe - Sir Richard Fanshawe foi o embaixador inglês,
nomeado para Lisboa depois de anunciado o casamento entre Catarina e
Charles. Tido em grande consideração pelo monarca, foi nomeado por
este emissário a Portugal, encarregue de terminar as negociações e
supervisionar a execução do tratado de casamento. Foi ele que trouxe a
Catarina uma moldura de diamantes com o retrato de Charles muito
jovem. Acompanhou a nova rainha a Inglaterra, mas regressou a
Portugal, onde continuou a viver em Lisboa, com a mulher e filhos
(catorze, dos quais só cinco sobreviveram para lá dos oito anos). Mais
tarde foi nomeado embaixador em Madrid, sendo um dos seus objectivos
negociar a paz com Portugal, e ali morreu vítima de um «ataque súbito»,
em 1666. Formado em Direito pela Universidade de Oxford, era
extremamente culto, tendo traduzido Os Lusíadas para inglês.
Richard Russel, bispo - O padre Richard Russel veio para Lisboa
frequentar o seminário no Colégio dos Inglesinhos, onde se refugiavam
os católicos fugidos de Inglaterra e da Irlanda. Acompanhou o
embaixador Francisco de Melo, conde da Ponte, a Inglaterra para
algumas das negociações do casamento real, foi recomendado por
Charles II a D. Luísa, e nomeado bispo de Portalegre e, mais tarde, de
Viseu. Foi com Catarina para Inglaterra, como seu professor de inglês e
tradutor. Era bispo de Viseu quando Catarina regressou trinta anos
depois a Portugal.
Rupert - Príncipe inglês, irmão de Maurice e primo de Charles Stuart, é
almirante da armada real inglesa que pede guarida ao rei português.
Catarina conhece assim o primo daquele com quem a pretendem casar.
Mais tarde reencontra-o em Inglaterra, quando ambos integram a corte
de Charles II.
Sofia de Neuburgo - A segunda mulher do então já rei D. Pedro II de
Portugal foi mãe de sete filhos, em doze anos de casamento, sendo o seu
primogénito João aclamado João V de Portugal, por morte do seu pai.
Sofia morreu de parto aos 33 anos, em 1699. O seu relacionamento com
Catarina, que conheceu quando do regresso da rainha de Inglaterra a
Lisboa, foi, ao que tudo indica, excelente, provavelmente porque ambas,
afinal, tinham conhecido outros mundos.
Teodósio de Bragança - O irmão mais velho de Catarina era o príncipe
herdeiro, príncipe do Brasil, e foi educado para assumir o trono.
Infelizmente, aos 19 anos, morreu, do que se julga ter sido uma
tuberculose pulmonar. Todos os escritos da época, inclusivamente as
cartas do padre António Vieira, referem-se ao príncipe, ao seu carácter e
à sua preparação académica e militar da forma mais elogiosa possível.
Você terminou Catarina de Bragança
Isabel Stilwell