Catarina de Bragança
rainha fizera um esforço sobre-humano para se recompor. Era a
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
vontade de Deus, dizia-lhe o confessor. Não queria pensar muito nisso, e muito menos discutir o assunto com os padres e frades que a rodeavam. Vontade de Deus que a Palmer tivesse cinco filhos do rei, e ela nenhum? Não havia nem um dos seus queridos padres capaz de a fazer compreender tal coisa. Nas noites de insónia em que contemplava o tecto pintado de anjinhos no seu quarto em Whitehall, imaginava que cada um deles era um dos seus filhos perdidos. Só António Vieira lhe escrevera uma carta que lhe falara ao coração. Garantia-lhe precisamente o contrário de todos os outros que a procuravam consolar. Dizia-lhe que Deus não fazia estas opções pelas pessoas, nem tão-pouco a Virgem, nem mesmo aquela que na infância aprendíamos a venerar. Deus dava-nos força para suportar as atribulações que as leis da natureza exerciam sobre nós. A doença, dizia-lhe Vieira, não é castigo, é penitência, é sofrimento que podemos usar para enriquecer a nossa vida ou para a destruir, mas não é vontade do Altíssimo.
Catarina guardou a carta debaixo da almofada durante muito, muito tempo.
Se Charles acreditava tanto na Ciência, se ela própria era a testemunha viva de que um mouro conhecedor de ervas podia diagnosticar o seu mal à vista, porque é que ninguém procurava tratá-la? Como o chá de Urcaria tormentosa, que estupidamente perdera e nunca mais se esforçara por encomendar, as pedras bezoares que aliviavam as cólicas do pai, ou as mistelas que o rei misturava para tratar a gota, tinha de haver qualquer coisa que pudesse conter o sangue, impedir que o seu corpo expulsasse de dentro dela os filhos que gerava. Pelo menos merecia uma explicação.
Passou a perguntar incessantemente aos médicos e ísicos da corte: «Que doença tenho?» Mas as respostas eram tão variadas e fantasiosas que não conseguia acreditar em nenhuma. Se não tivesse fugido de Ali, se tivesse con iado na sua sabedoria ancestral... mas de que lhe valia chorar sobre leite derramado?
Charles, felizmente, era rigoroso nos seus juízos e não se deixava levar por superstições, nem ameaças religiosas. Viera ter com ela umas semanas depois do sucedido e en iara-se na sua cama como um adolescente, segurando-a com força entre os braços. Catarina agradecia-lhe e pedia-lhe desculpa, entre soluços, mas Charles não aceitava nem a gratidão, nem a vergonha.
- Meu amor, não é culpa sua, nem é castigo. Quem podia querer castigar uma mulher tão meiga como Catarina de Bragança Stuart?
Afagando-lhe os cabelos, cantou-lhe canções de embalar, num castelhano suave, e, pela primeira vez desde que perdera o bebé, a rainha adormeceu e dormiu a noite toda de um sono só. Quando acordou, Charles ainda lá estava e, estendendo-lhe o roupão, perguntou:
- Posso tomar o pequeno-almoço nos aposentos de Sua Majestade?
Catarina sentiu os olhos picar de emoção, mas antes de responder já as criadas preparavam a mesa no quarto. Charles acordara mais cedo e tratara de tudo.
Queen's Chapel, 25 de Novembro de 1666
harles fora buscá-la à salinha de costura. Trazia-lhe um ramo
enorme de flores desencantadas sabe-se lá onde, porque a neve cobria o chão em todos os jardins e parques da cidade. Beijou-a, deu-lhe os parabéns e, brincalhão, ajudou-a a levantar-se da cadeira. A rainha estava de preto dos pés à cabeça, assim como todas as damas da corte. Catarina tentou protestar:
- Sir, este ano em que faço vinte e oito anos é aquele em que menos me apetece celebrar a data.
Charles não se deixou demover. Sabia bem que fora um ano terrível para todos, mas principalmente para a rainha, um ano tão estranho que só aquele inesperado cometa da noite de Ano Novo o poderia explicar. Dias tristes que culminaram na morte de D. Luísa de Gusmão. Felizmente, fora o marquês de Sande a contar-lhe pessoalmente que a rainha sua mãe fechara os olhos serenamente. «Uma serenidade, dona Catarina, que nunca lhe conheci... tenho a certeza que izera as pazes com o mundo, e estava pronta para se reunir ao seu pai e irmãos», dissera Sande. Catarina recebera a notícia com inesperada tranquilidade. Apesar de não a ver havia quatro longos anos, a mãe era uma presença tão forte dentro de si que nem a morte seria capaz de a levar, explicou a D. Francisco, que a ouvira, comovido.
- Entendo o que diz, dona Catarina. Nunca darei um passo sem pensar primeiro se a rainha sua mãe aprovaria que seguisse naquela direcção -murmurara o marquês.
Estranhamente, nunca se tinham sentido tão próximos, e Nan não conseguia esconder a felicidade que lhe causava perceber esse entendimento.
- Dona Catarina, onde está com a cabeça? Tenho uma carruagem à espera....
Catarina deixou o espírito regressar à sala, onde Charles lhe pedia que o acompanhasse:
- Mas onde vamos?
- Não sabe que os presentes são surpresa?
Catarina sentiu-se de repente uma criança entusiasmada. Como quando Carminho lhe deixara uma laranja na cama, naquele dia em que o paço se enchera de gente para celebrar os seus dois anos, aquele dia em que tinham perguntado ao pai se aceitava a coroa.
Quando pararam frente a Queen's Chapel, a sua fachada branca e simples, situada junto do convento que Charles deixara construir para os monges arrábidos, estranhou:
- Uma missa?
- Por amor de Deus, Catarina, missas já tem a senhora minha mulher para dar e vender, embora, suspeito, fosse o seu presente favorito...
- Então o que é?
- Uma capela inteira só para si...
- Para Deus, Charles - repreendeu-o.
O father Huddleston esperava-os na sua batina simples, com umas sandálias capuchinhas a que somara umas meias porque o dia estava gelado.
Entraram de mão dada, e Catarina, quando olhou para o altar, deu um grito de alegria:
- Não acredito, Charles, obrigada!
- Sei que não tenho muito jeito para cumprir promessas, mas esta tinha de a tornar verdade...
Por cima do altar-mor, sobre as imensas janelas de vidrinhos que enchiam a capela de luz, estava pintado um medalhão imponente com as armas dos Bragança e dos Stuart. Juntas...
- Daqui a muitos, muitos anos, toda a gente que aqui vier rezar vai perguntar quem eram Charles e Catarina - disse-lhe ele ao ouvido.
Catarina ia protestar, dizer que a memória de dois nomes pouco importava, mas não disse. É claro que importava. É claro que importava que a união de Portugal e Inglaterra, de Catarina de Bragança e Charles Stuart, ficasse para a História. Tinha sido esse o sonho da sua mãe e ela fora capaz de o realizar. Tratava-se da melhor homenagem que podia fazer a Luísa de Gusmão, da Casa de Medina-Sidónia, duquesa de Bragança, rainha de Portugal.
Desejou do fundo do coração que, lá do Céu, a mãe estivesse a assistir a tudo isto, ao facto de ter conseguido aproximar o marido da Igreja Católica, Apostólica e Romana, ao ponto de querer as suas armas unidas às dela num lugar central desta igreja.
Charles não a deixou mergulhar em nostalgias:
- Mas não é tudo, venha ver.
Subindo os degraus para a varanda do coro, a dois e dois, esquecido de que as pernas da rainha a obrigavam a ir mais devagarinho, chegou lá a cima ofegante. Catarina apareceu pouco depois, enquanto Huddleston dizia cá de baixo:
- Vossas Altezas que me desculpem, mas vejo daqui!
Catarina acenou-lhe, divertida, e depois virou-se para olhar na direcção em que o marido apontava: sobre a porta de carvalho, de novo as armas pintadas, mas desta vez encimadas por folhas de palmeira, as folhas que simbolizavam Tânger e o seu dote.
- Há tanto tempo que não vejo uma palmeira - disse, nostálgica.
- Que não seja por isso, minha querida, hoje mesmo vou levá-la a um jardim de palmeiras.
- Palmeiras com neve? - perguntou, incrédula.
- É a melhor altura para as ver - disse Charles rindo, feliz por a fazer feliz. Quando sentia a consciência apaziguada era o mais altruísta dos seres vivos.
Whitehall Palace, 30 de Março de 1667
e não fosse Frances, pensava a rainha, se não fosse aquela paixão tão
infantil que o rei sentia pela sua dama, teriam tudo para serem felizes. Passavam horas no escritório em redor do mapa da cidade, e Charles aprendera a respeitar os seus conselhos sobre a reconstrução da cidade, o que, mesmo sem dinheiro, se revelava uma tarefa urgente. Era extremamente observadora e olhava para o mapa como quem observava uma pauta de música, lendo os pormenores, raciocinando alto de forma clara e lógica. Se tinha sido impossível parar o incêndio porque as ruas eram estreitas, então que fossem alargadas, criando zonas de descampado, onde o fogo pudesse ser controlado.
Mas Frances estava sempre lá. Catarina fechava os olhos com força, num imenso esforço de fazer desaparecer da sua memória a imagem do olhar de adoração e desejo com que Charles olhava aquela mulher. Que habilmente não se entregava totalmente, mantendo-o naquele estado que, descon iava, o marido mais gozava: o da antecipação. Por vezes pensava que talvez fosse preferível que Charles consumasse aquele desejo de uma vez por todas. «Quem sabe se assim não lhe passava este enamoramento sem pés nem cabeça», murmurava para si mesma, incapaz de confessar pensamentos tão imorais.
Frances pressentia o mesmo, jogava pela calada, aumentava o apetite sexual do rei dando-lhe apenas o su iciente para que continuasse a acreditar que, com jeito e paciência, a conquista inal seria possível. Nan e Meg desesperavam, mas de ambas as vezes que apanharam a Stuart a sós ela deixou bem claro que não pretendia discutir com elas a sua vida privada.
Meg ainda lhe perguntara, agressiva:
- Não me digas que não percebes que fazes sofrer a rainha que juraste servir?
Frances corara, e Nan tivera pena dela.
- Pena? - protestara Meg, quando conversaram sobre o assunto. - Pena? Frances espera é que a rainha morra para poder casar com o rei.
Nan sentiu um calafrio. Não era uma impossibilidade. Catarina tinha uma saúde frágil, e cada um dos desmanchos deixava-a ainda mais fraca. Continuaria sempre a tentar, mas o sangue em que se esvaía sempre podia levar-lhe o sonho de ser mãe. Todos os sonhos.
Whitehall Palace, 3 de Abril de 1667
atarina falara longamente com o marido. Nunca o vira tão
angustiado: não havia dinheiro, a guerra estavam longe de terminada, e agora vinha a França ameaçar apoiar a Holanda, tornando tudo ainda mais difícil, mais sangrento, mais caro. Despediram-se com a promessa de se reverem depois do jantar no grande salão, onde dois cantores italianos iriam iluminar a noite.
- Meu querido, talvez a música lhe faça bem - dissera ela, enquanto beijava a sua testa enrugada.
Vestira-se com esmero e entusiasmo. Pediu que lhe preparassem a túnica preta, lhe apanhassem o cabelo como uma odalisca e o entrelaçassem com um io de coral, um dos últimos que a mãe lhe enviara. Ao pescoço pendurou o melhor dos colares de pérolas que o marido lhe oferecera. Olhou-se ao espelho, e sorriu. Não era, decididamente, nem Meg, nem Nan, nem muito menos Frances Stuart, para já não falar em Barbara Palmer, mas sentia-se digna, elegante, bonita. Tinha idade para se sentir dona de uma beleza conquistada, sem procurar concorrer com as suas damas. A inal, era a rainha. Esquecia-se vezes de mais que era a rainha de Inglaterra, que toda esta gente estava aqui para a servir. Incluindo Frances Stuart, a quem pagava um ordenado, e que não possuía, ainda por cima, outra forma de ganhar a vida, sobretudo agora que Henriette Marie voltara para França, onde anunciara que queria morrer. Morrer na terra natal, como Catarina a compreendia, mas a festa estava para começar, não era o momento de fazer romagens de tristeza.
As damas iam entrando e saindo do seu quarto de vestir, entusiasmadas com a festa, rindo, trocando piropos e piadinhas invejosas, ansiosas pela ocasião de namorarem com o seu amor ou de encontrarem inalmente o homem das suas vidas.
Catarina sorria-lhes. Quando Nan lhe veio espalhar um pouco de rouge na cara, permitido apenas às senhoras casadas, disse-lhe:
- Aproveite bem, Fanshawe, que para o ano, ou me engano muito, ou vai passar o Inverno numa corte menos animada do que esta.
Nan corou:
- Apesar da diferença de idades, Sua Alteza, amo-o como nunca amei ninguém. Sei que ele pode parecer brusco, que quando está a trabalhar não pensa em mais nada, mas é tão certo, tão seguro, tão leal.
D. Catarina riu:
- Ao seu lado parece tudo menos os quase cinquenta anos que tem. Fica miúdo, meigo, completamente diferente. Mas como é que reagiu a sua mãe, Nan? Tem a vantagem de o conhecer bem, mas sempre o terá visto como um grande amigo do seu pai, não como genro...
Nan encolheu os ombros, como se a opinião dos outros não lhe interessasse absolutamente nada, mesmo a da sua adorada mãe:
- Só quer que eu seja feliz. É tão aventureira, viajou tanto pelo Mundo com o meu pai, passou por tudo. Acho que tudo isso faz com que aceite melhor o inesperado. Mas hoje a noite é de Sua Alteza. Está tão bonita, a sério que está.
Foi a vez de Catarina corar, e como uma criança atreveu-se a perguntar:
- Nan, acha que o rei vai olhar para mim?
Nan mordeu o lábio, e Catarina reparou logo no gesto:
- Pergunta estúpida, não ligue...
- Dona Catarina, vou ser muito sincera consigo: o rei vai olhar para si, vai adorar vê-la tão bonita e arranjada. Sentirá um imenso orgulho em ser casado consigo, mas...
- Mas não é possível garantir que tudo isso seja o su iciente para que esqueça a sua paixão por Frances... E Nan, sabe o que é o pior, não consigo detestar aquela criança, acho que ficou deslumbrada, presa numa teia...
Nan acenou com a cabeça:
- Sinto o mesmo. Quero odiá-la, mas não consigo.
- A alternativa lógica - disse Catarina, amargurada - era odiarmos o rei. A inal, é ele que a persegue, tenho de ser justa com Frances, mas não sou capaz de o detestar!
Nan calou-se. Esta era uma conversa de que não se atrevia a fazer parte. Acabou de maquilhar a rainha e, mudando de assunto, disse-lhe:
- Ninguém vai a esta festa mais bem pintada, isso posso garantir-lhe eu!
Catarina apertou-lhe a mão com força. Qualquer coisa a deixava optimista e feliz. Talvez Charles hoje a visse com olhos de ver, como uma mulher que se ama e deseja. Talvez, cansado como estava, preocupado como andava, preferisse a companhia terna e serena da sua mulher legítima a confusões e conquistas ilícitas.
Nan encostou a porta e encolheu os ombros: para o rei nunca nada superaria o prazer da conquista. Tinha a certeza de que era assim.
Quando chegou ao salão, toda a corte lhe fez uma vénia. Sentou-se na cadeira almofadada colocada num palanque mais alto e olhou em redor: a rainha e o rei eram os únicos que tinham direito a sentar-se, todos os outros eram obrigados a dançar ou a mover-se pela sala. Decidiu que esta regra do protocolo a inal a divertia, porque assim podia observar de cima os convidados, perceber quem falava com quem, escrutinar os grupinhos que se juntavam.
Os dois cantores vieram cumprimentá-la, ajoelhando-se e beijando-lhe a mão, e Charles surgiu mesmo a tempo de lhes ser apresentado. Escutaram-nos enlevados e depois os músicos abriram o baile. O rei apreciou a sua túnica, o seu cabelo, o io de coral entrelaçado, as pérolas no pescoço, nada lhe passava despercebido, e elogiou-a. Com toda a sinceridade disse-lhe que estava linda. Catarina iluminou-se de felicidade, e transbordou de alegria quando Charles a convidou para dançar e toda aquela gente icou a vê-los rodopiar, numa dança nova que treinara incansavelmente com o seu professor, na esperança de um momento exactamente como este. As palmas encheram o salão, e o rei devolveu a rainha ao pequeno trono, com uma vénia sentida. Ofegante e feliz, Catarina agradeceu baixando ligeiramente a cabeça.
O grupinho de que faziam parte Francis, Nan, Meg e várias outras damas leais não conseguiu, porém, partilhar a alegria da rainha. Meg murmurou:
- Nan, vai lá tu. Eu não consigo corresponder àquele olhar de dona Catarina, em que nos parece dizer qualquer coisa como «vêem, vêem como este vai ser o ano de toda a felicidade?», quando sei o que vai acontecer a seguir.
Francis acrescentou, baixinho:
- Só peço que tudo aconteça depressa, e acabe rapidamente. Talvez a rainha já tenha criado alguma resistência a estas desilusões. A inal, não param de se suceder, desde o dia em que o rei lhe apresentou Barbara Palmer, numa sala como esta...
Nan abanou a cabeça, angustiada:
- Olhem, a rainha acaba de a ver. Não vai demorar muito a perceber que aqueles brincos de diamantes e aquele colar fabuloso foram mais um presente do rei.
Francis confirmou:
- A rainha já viu e já percebeu! E agora...
Meg não conseguiu conter um riso nervoso:
- Pare com isso, Francis, parece que está a fazer o relato de um jogo de ténis.
- E o pior está para vir, e não a posso deixar sozinha. - Nan sentiu uma náusea profunda ao dizê-lo, mas, decidida, furou por entre as pessoas, naquela sala demasiado quente e demasiado cheia. Chegou junto de Catarina no exacto momento em que o rei mandava os músicos pararem e, no centro da sala, anunciava na sua voz profunda:
- Tenho uma surpresa para todos.
Um zumbido de curiosidade correu as gentes, e o rei continuou:
- Era preciso cunhar uma moeda com o símbolo de Inglaterra. O per il de uma mulher tão bela, que os nossos inimigos holandeses, e todos os povos do Mundo, quando a tivessem na mão morressem de inveja por não haver outra igual.
Depois, tirando de uma bolsa presa à cintura uma série de moedas de prata, foi passando-as aos que o rodeavam, pedindo:
- Por favor, não fiquem com elas que todas as moedas são poucas...
Os convidados riram.
- Falo a sério. Dentro de minutos espero tê-las todas de volta, ou não fosse esta corte um conjunto de gente honrada!
Todos riram de novo.
No seu canto, Meg vociferava:
- Olhem só para a cara da miúda inchada de orgulho. Será que é burra e não percebe o impacto que esta moedinha vai ter na rainha? Frances Stuart, o símbolo de Inglaterra.
- Cala-te, Meg, daqui a pouco parece que tens ciúmes. Vamos chegar-nos todos até mais perto da rainha. Quantos mais de nós estivermos ao lado e do lado dela, melhor - retorquiu Francis.
Os olhos dos convidados iam postos na moeda que viajava em direcção à rainha, e para espanto do rei, em lugar de manifestações de euforia sentia-se um silêncio gelado, havendo mesmo quem mantivesse o olhar no chão:
- Emudeceram todos? - perguntou o rei, surpreendido.
Os lambe-botas do costume encarregaram-se de o rodear rapidamente e de lhe fazer todos os elogios, mas grande parte dos cortesãos foram recuando para junto da parede, sem conseguirem tirar os olhos de Catarina: como reagiria?
A rainha respirou fundo. Esperavam todos a sua reacção quando inalmente tivesse a cara de Frances na sua mão, mas estava decidida -
nunca mais daria a estas víboras a satisfação de a verem humilhada ou magoada, que Deus lhe desse força de cumprir a promessa que acabara de fazer. Quando a moeda com o per il de Frances Stuart lhe chegou, um per il perfeito e magní ico esculpido certamente pelo grande Philipe Rotier (deveria ter descon iado quando ainda a semana passada o vira no escritório do rei), espantou-os a todos:
- Frances Stuart? Que escolha fabulosa - disse alto, numa voz segura. -Onde está a francesa que simboliza Inglaterra, pois quero felicitá-la pessoalmente?
Um murmúrio de admiração percorreu os convidados. A rainha aprendera muito nestes seis anos, nomeadamente a usar um humor cínico que, para ironia máxima, lhe fora certamente ensinado pelo próprio marido!
Charles icou visivelmente atrapalhado. Havia quem acreditasse que nem sequer tinha medido as consequências do que izera e percebia só agora a falta de respeito de tudo isto. Frances, de cabeça erguida, atravessou o salão sob o olhar dos presentes, apresentou-se junto da rainha e beijou-lhe a mão. Meg assobiou baixinho, para divertimento de Francis:
- Grande rainha! Não icou qualquer dúvida de quem é a regina e de quem é a modelo, aquela que posa para medalhas e moedas...
- Que, para mal dos nossos pecados, não valem mais do que a prata de que são feitas - sussurrou de volta Francis Villiers.
Do outro lado da sala quem vociferava, sem temer troças ou ridículo, era a mulher mais afectada por esta paixão do rei: Barbara Palmer, mãe de cinco filhos do rei e até agora a influência mais poderosa sobre ele.
Se alguma coisa atenuou o sofrimento de Catarina, nessa noite, foi ver o desespero da Castlemaine.
Francis Villiers apertou a mão de Meg, e pediu:
- Tens de vir comigo até junto do meu irmão. Dependo das moedas que me deixa cair no colo, e além disso é importante não atrair desconfianças. Anda pior do que uma barata com a nossa ligação...
Lady Margaret lembrou-se de como já perdera Francis uma vez, e, fingindo-se bem-disposta, apertou-lhe com força a mão:
- Vamos então a isso.
Lord Buckingham estava, como sempre, rodeado de amigos, mas sobretudo de mulheres. Era o homem mais bonito do reino, dizia-se, embora não possuísse o charme do rei, o que lhe permitia manter a cabeça sobre os ombros, como comentava divertido. Além de bonito, era o feliz proprietário de uma inteligência cintilante e o irmão garantia que se envolvia em tantos jogos e estratégias apenas para não morrer de tédio. Quando viu o irmão mais novo a chegar de mão dada com uma das damas mais bonitas da corte, se não a mais bonita, sorriu-lhe descaradamente. Meg correspondeu ao sorriso e Buckingham sentiu-se atraído por ela:
- Irresistível futura cunhada, quer dançar comigo?
Lady Margaret fez-lhe uma delicada vénia e, com aquele ar perdido que sabia tão bem encenar, desculpou-se:
- My lord, fui uma tonta e calcei estes sapatos com um salto demasiado alto. Preferia icar aqui a escutar a vossa conversa, que parece tão fascinante.
Buckingham olhou-a descon iado, mas Meg estava determinada a ser simpática, e, fosse como fosse, o duque era mais do que susceptível à lisonja. Por isso, depressa se esqueceu dela, continuando a fazer-se de engraçado, radiante com as gargalhadas que conseguia colher. A conversa versava, obviamente, a moeda com o retrato da Stuart. Com piscadelas de olhos e insinuações, deixava claro o gáudio que a cena daquela noite lhe provocara.
- O rei está mais decidido do que nunca a ter Frances Stuart - dizia, delirante de felicidade.
Meg mantinha com di iculdade o sorriso, mas por dentro o sangue fervia-lhe nas veias.
- O que acha de tudo isto, lady Margaret? - perguntou-lhe o duque inesperadamente e à queima-roupa. O seu tom tinha mesmo qualquer coisa de ameaçador.
Meg manteve os olhos fixos nos dele e respondeu:
- Quem sou eu para saber o que vai, ou deixa de ir na cabeça do rei? Sabe-o certamente muito melhor o senhor duque, um dos seus melhores amigos, mas a moeda está de facto magnífica.
Francis deu graças a Deus pelo autocontrolo que a sua amada Meg era, a inal, capaz de revelar e pelo facto de o seu irmão ser o maior vaidoso à face da Terra. Desta vez nem sequer detectava a ironia que quem conhecia a Fanshawe percebia no seu comentário.
Mas Francis subitamente viu mais longe: Meg era linda e não o espantava, nem um bocadinho, a tolerância que o seu irmão George lhe demonstrava esta noite, mas toda esta tentativa de sedução trazia água no bico.
Apertando a mão da noiva, pediu licença aos presentes. Queria sair dali o mais rapidamente possível.
- Queremos ainda cumprimentar Frances. Dão-nos licença?
Meg foi arrastada a reboque, estarrecida. Baixinho, murmurava:
- Estás louco, a essa é que não vou falar.
Francis protestou entre dentes:
- Claro que não, só queria um pretexto para sair dali. Não te deixo muito tempo perto daquele tubarão.
Meg adorava ser admirada. Provocar ciúmes, então, dava-lhe um prazer imenso.
- Adorava alimentar os teus ciúmes, mas, infelizmente, acredita que precisava de estar muito louca para ir na conversa de lord Buckingham! Aliás, estive quase a responder-lhe que se planeasse mais um golpe contra a rainha, quem lhe atirava com a moeda à cara era eu!
Mas Francis sabia bem daquilo que George era capaz. Por muito vivaça que fosse Margaret Fanshawe, vinha de uma família pací ica e boa, e era verdadeiramente incapaz de imaginar até onde a ambição de Buckingham o poderia levar...
A rainha sentou-se na sua cadeirinha alentejana, com Cenoura ao colo. As criadas queriam despir-lhe o vestido, prepará-la para a cama, mas Catarina parecia uma boneca de pano, sem reacção. Longe dos olhares daquela multidão, sentia a humilhação queimá-la por dentro, roubar-lhe todas as forças. Controlara-se, era um facto. Fora elogiada por isso por todos os que lhe eram queridos, mas de que lhe servira a coragem de representar um papel que não tinha nada que ver com a sua maneira de ser? Nem com o seu estatuto, por Deus. Mais uma vez, Charles não tivera a menor consideração pelos seus sentimentos, nem sequer o respeito mínimo exigido a uma esposa. Sentia-se em transe: quanto mais tempo suportaria viver assim? Quantas e quantas vezes izera a si mesma essa pergunta, sabendo de antemão a resposta: sobreviveria sempre, as vezes que fossem precisas, desde que Charles não a deixasse... Pecava contra a sua própria dignidade? Tinha a certeza que sim, pensou com um encolher de ombros.
Uma pancada suave na porta levou-a a tomar consciência de onde estava. Mandou que entrasse. À frente tinha Meg, com os olhos inchados de tanto chorar. Sobressaltou-se. Ainda há pouco mais de uma hora a vira esfuziante a dançar nos braços de Francis, e reparara mesmo que se aproximara do odiado lord Buckingham, que se parecia ter rendido ao seu encanto. Ter-lhe-ia dito alguma coisa que a perturbara? Apontou-lhe a cadeira mais próxima de si.
- Buckingham? - interrogou.
Meg ficou estupefacta:
- Como sabe?
- Não sei nada, mas vi-a juntar-se ao grupo de gente que o rodeava, a sua própria cortezinha. E a minha experiência diz-me que não é possível aproximarmo-nos daquele homem sem que nos faça sofrer...
Meg abanou a cabeça, preocupada.
- Naquele momento tratou-me de forma simpática, e afastei-me à primeira oportunidade. Foi o que Francis me contou há momentos que me fez chorar... Hesitei em vir aqui repetir-lhe o que ouvi porque não a queria magoar, mas acho demasiado grave para lho esconder.
Magoar?, pensou Catarina, será que era possível ser ainda mais magoada?
A rainha segurou-lhe na mão e garantiu-lhe que era capaz de ouvir tudo. Meg sorriu:
- Foi tão fantástica hoje, a forma com reagiu àquela cena da moeda. Fiquei cheia de orgulho e inveja. Gostava de conseguir ser dura e bem-educada, como Sua Majestade.
Catarina sorriu-lhe:
- Demorei muito tempo a aprender que o cinismo é uma arma. Acredite que não fazia parte da minha educação e nunca a tinha visto a uso, até aqui chegar. Mas o meu marido é um bom professor - acrescentou, amargurada.- Mas conte-me o que lhe disse Francis.
- Disse-me que depois de amanhã lord Buckingham, com a cumplicidade forçada da mulher, vai dar um baile de máscaras, tencionando embebedar Frances de tal forma a que ela ceda aos avanços do rei. Combinaram ter preparados uns aposentos...
Se Catarina achava que nada mais a podia chocar, enganava-se. Mary Fairfax? A pobre mulher do duque, infértil, armadilhada num casamento infeliz, consciente de que o seu casamento se devia apenas à sua imensa fortuna, aquela que era habitualmente a aliada natural da rainha de Inglaterra, com uma história tão semelhante à sua, ia agora conspirar contra ela? Permitir que o marido levasse o rei a pecar, a trair a mulher, a roubar a virgindade a uma rapariga que ainda nem 19 anos tinha, e estaria demasiado alcoolizada para dar o seu livre consentimento a esta relação?
Meg observava o rosto da rainha que, de segundo a segundo, mudava de expressão, cor e tonalidade. O que iria Catarina fazer? Cruzar os braços perante mais uma afronta, afinal apenas mais uma?
Mas a rainha pôs-se pé de um salto, esquecida do cansaço e da depressão.
- Já chega de icar quieta e ver os outros intrometerem-se no meu casamento, na minha felicidade.
Meg bateu palmas, feliz:
- Nunca pensei ouvi-la dizer isso, Sua Alteza. Acho que faz bem. Posso ajudá-la nalguma coisa?
- Não, minha pequenina, tenho pena que esteja envolvida nestas histórias sórdidas, mas eu trato de tudo. Agora vá-se deitar e não chore por mim, tenho Deus e o amor do meu lado. Agradeça ao seu Francis, garanta-lhe que vou ser absolutamente discreta e que o irmão nunca saberá de nada, nem sequer entenderá o que aconteceu.
Meg desejou-lhe as boas-noites, mas, quando já ia na porta, a rainha voltou a chamá-la:
- Lady Margaret, posso dar-lhe um conselho?
- Claro, fico-lhe muito grata, dona Catarina.
- Francis é bom rapaz, gosta de si, já o provou. Mas o irmão é uma péssima in luência. Se aceita uma sugestão minha, casem e partam para o Novo Mundo. O príncipe Rupert, que é um apaixonado dessas terras novas, explica-vos tudo, até os negócios que ali se pode fazer. Construam a vossa vida a dois, longe daqui, desta corte corrupta e má... Se posso ser tão sincera consigo como foi comigo, é a única hipótese que têm de ser felizes. Caso contrário, lord Buckingham não hesitará em destruir-vos.
- Partir para Nova Iorque ou para o Canadá, dona Catarina? Mas é uma viagem para muitos ricos...
- Gostaria muito de vos dar um bom presente de casamento.
Meg protestou.
- Estou a ser sincera e era bem merecido, porque me serve com total lealdade e dedicação há anos. Mais do que isso, tem sido uma verdadeira amiga. Esta minha oferta permitia-vos começar a vida noutro lado. Quanto à viagem, Francis não terá dificuldade em tratar dela, depois de dois anos a bordo do Royal Charles.
Meg voltou para trás e abraçou a rainha, um abraço rápido, o máximo que tanto uma como outra eram capazes de suportar.
- Como é que, apesar dos seus problemas, tem capacidade de pensar nos meus! Obrigada, Sua Alteza.
Apesar da hora, Catarina mandou chamar Nan. Enviou-lhe um casaco de peles pelo mensageiro e disse-lhe que viesse assim mesmo, de camisa de noite e chinelos.
Quando a mais velha das Fanshawe entrou, atirou-lhe de chofre:
- A coscuvilhice não é o meu forte, lady Nan, mas sabe dizer-me se é verdade que lord Richmond está loucamente apaixonado por Frances Stuart?
Nan, surpreendida por aquele interrogatório nocturno, hesitou uns momentos.
- É verdade, sim, pelo menos anda sempre de volta dela, com olhos de carneiro mal morto, deprimido, tal o desgosto de se ver sem hipóteses. Mas não desiste.
- Frances despreza-o de facto?
Nan hesitou.
Mas a rainha tinha pressa:
- Não é altura de pudores. O que quero dizer é que tenho a impressão de que se Frances não achasse que podia caçar um rei consideraria o casamento com o duque um milagre, que Nosso Senhor me desculpe a blasfémia. Não é assim?
- Exactamente - disse Nan.
- Óptimo, pode ir.
O espanto cobriu a cara de Nan, mas obedeceu.
Depois da missa das sete, Catarina voltou da Queen's Chapel rapidamente. As suas damas corriam atrás dela, pensando em que bicho lhe havia mordido. Nan e Meg deixaram-se ficar para trás a conversar.
Frances já a esperava nos seus aposentos. A mesa estava posta para o pequeno-almoço, o chá e o doce de laranja amarga, que se tornara obrigatório.
Levantou-se quando viu chegar a rainha.
- Bom dia, Frances - e a rainha fez questão em usar o seu nome próprio, para que icasse bem claro que a rapariga não tinha qualquer título ou estatuto.
- Bom dia, Sua Majestade - respondeu Frances, tão encantadoramente bela, a pele suave e sardenta, os caracóis dourados em redor do seu rosto aparentemente tão inocente.
- Queria falar-lhe de uma proposta que recebi. Uma proposta para si mas que me foi dirigida a mim, porque quem a fez entendeu que a devia fazer à sua guardiã.
Frances olhou-a, curiosa, e a rainha continuou:
- Lord Richmond - que bom, a rapariga corava! -, primo do meu marido, pediu-me autorização oficial para a namorar...
Frances levou a mão à boca, entre o espantado e o assustado. Mas Catarina não hesitou:
- Evidentemente que lhe disse que sim. Tenho consciência de que Frances não tem dote, nem fortuna - embora dê a ilusão do contrário pelas jóias que ultimamente usa, apeteceu-lhe acrescentar... -, parecendo-me o interesse de lord Richmond superar essas di iculdades, constituindo para si uma excelente solução. Não lhe parece?
A Stuart recordou a paixão, quase canina, de lord Richmond, as histórias dos seus palácios espalhados pelo país, a sua roupa cara e de bom gosto, e sobretudo entendeu claramente o que a rainha lhe queria dizer: não tinha fortuna e se continuasse o namorico com o seu marido, provavelmente nem esta nem mais nenhuma oportunidade alguma vez lhe surgiriam. Além disso, o discurso de Catarina deixava bem claro que os rumores que corriam de que estaria disposta a abdicar do trono e do marido, concedendo-lhe o divórcio e entrando para um convento, não passavam de rumores espalhados pelos inimigos do duque de Buckingham. Gente que a queria levar a ela, Frances, a sonhar com um futuro impossível. Sabia perfeitamente que tinha dado a imagem de ser burra, porque essa convicção alheia lhe convinha, mas estava longe de ser estúpida. Também não era má, mas a quem é que podia explicar que o drama de tudo isto é que amava verdadeiramente o rei? Mas nada disso importava agora. Percebia que a própria rainha de Inglaterra a colocava entre a espada e a parede, a dúvida que a atormentava era se suportaria perder o amor de Charles para sempre, como aconteceria se aceitasse a proposta de lord Richmond.
Catarina deitava chá em ambas as chávenas de porcelana que trouxera de Portugal, e colocava um scone em cada um dos pratos, como se tivesse todo o tempo do mundo. Onde aprendera a fazer este teatro, perguntou a si mesma?
Finalmente Frances falou:
- Nunca a quis magoar, dona Catarina.
Catarina olhou-a, ternamente:
- Eu sei, acredite. Imagino como é complicado, para uma adolescente órfã, num país que não conhece, resistir às atenções do próprio rei. Do rei e de todos os que, querendo agradar ao rei, lhe agradam a si. Imagino o orgulho que sente na sua beleza, sempre que se olha ao espelho, e provavelmente como se convenceu de que gosta do rei, e de que talvez surja do céu uma oportunidade de o ter para si...
Catarina espantava-se com aquilo que era capaz de pôr por palavras, mas Frances quase desmaiava de angústia e medo - que Catarina era esta, e como era capaz de lhe ler o coração, de dizer estas coisas num tom sereno, sem acusações, nem sequer ironia...
A rainha leu o espanto na cara da miúda, e gostou do que viu. Fluente, continuou:
- Mas o que precisa de perceber, e falo do que já experimentei, é que toda essa atenção, todas essas pseudo-amizades podem desaparecer de um momento para o outro, deixando-a abandonada, sozinha e sem nada a que se agarrar. Tem de ter a inteligência de pensar mais longe. Afinal, de que lhe serve ceder aos impulsos momentâneos de Sua Majestade?
Frances pensou. De facto, o que acontecera a todas as outras favoritas, até a Barbara Palmer? Será que tudo isto era uma estratégia de Castlemaine para a tirar do seu caminho? Impossível, a rainha nunca entraria em conluio com a sua arqui-inimiga. Suspirou fundo:
- Desculpe, dona Catarina, mas o rei nunca consentirá esse casamento, mesmo que lord Richmond tenha a bondade de mo propor...
- O rei não precisa de saber, aliás, nem mais ninguém. Mas acredite que os inimigos da minha infertilidade, que abre a possibilidade de o duque de York vir a ser o herdeiro do trono de Inglaterra, vão dizer-lhe que, se for paciente e esperar, eu acabarei por desistir do meu lugar...
Frances deu um grito horrorizado:
- Frances, não sei se o seu susto é genuíno ou ingido, mas uma coisa lhe garanto: casei até que a morte me separe do meu marido e é exactamente até esse momento que serei casada com ele...
- Claro, claro que é assim que deve ser, dona Catarina!
- Ora, como nós, os Bragança, somos conhecidos pela nossa longevidade, julgo que não está interessada em esperar anos e anos pela minha morte. Até porque a sua beleza, como a de todas as mulheres, acabará por amadurecer e transformar-se, e talvez não continue a agradar ao rei como indubitavelmente hoje acontece. Portanto, sobram-lhe duas hipóteses: ser amante do rei, receber uns presentes, até que a troque por outra, ou contrair um casamento honroso, que a tornará duquesa e assegurará o seu lugar na vida e na sociedade...
Catarina espantava-se a si própria. Que pena não poder contar a Meg e a Nan como fora brilhante na sua argumentação. Estaria a tornar-se uma víbora como aquelas com quem convivia todos os dias? Sorriu. Não era tempo de pensar nisso.
Frances não pediu tempo para pensar. Não o podia fazer. Aceitou o plano da rainha: namoraria em segredo, decidiria se queria casar com ele e fugiriam juntos, com a bênção de Catarina. O preço era a promessa de silêncio...
- Amanhã pelas seis horas Richmond estará nos seus aposentos - disse a rainha, e Frances percebeu que a rainha troçava assim do facto de a jovem ter aceitado que o rei lhe oferecesse uma ala do palácio.
Frances estremeceu.
- Já amanhã? Mas amanhã o rei espera que vá com ele a uma festa em casa de lord Buckingham...
A rainha teve di iculdade em esconder a sua fúria. Então sempre era tudo verdade e os seus inimigos mostravam-se capazes de tudo. Pior, esta tonta que tinha à frente acreditava que podia negociar com a rainha, mais um dia, mais uma noite, mais um momento com o marido alheio? Friamente, retorquiu:
- Diga que está doente, ou que a rainha de Inglaterra lhe pediu que lhe lesse alto, e a impede de acompanhar o seu legítimo esposo a uma festa! -afirmou Catarina, zangada.
Frances percebeu que fora longe de mais. Saiu dos aposentos da rainha em estado de choque. O que a transformara do dia para a noite?
Lord Richmond estava feliz. Catarina mandara chamá-lo, e dissera-lhe que, vendo o interesse que tinha em Frances Stuart, e por considerá-lo correspondido, vinha dizer-lhe que contavam com a sua bênção. Mais ainda, convidava-o a visitar Frances nos seus próprios aposentos...
Richmond percebia o interesse da rainha nesta solução, estavam a inal unidos no mesmo propósito, ou seja, impedir que aqueles que amavam os preterissem a favor de outros. Compreendia e solidarizava-se com a pobre Catarina de Bragança, uma mulher honrada, que se via obrigada a suportar sucessivas paixões do marido na sua sala de estar. Lord Richmond jurou silêncio, e nesse im de tarde, como um miúdo apaixonado, bateu à porta de Frances, de ramo de flores na mão...
Catarina, com a ajuda de Nan, tinha ido mais longe, mais longe do que alguma vez se imaginara capaz. Sabia que Charles insistiria com Frances para que o acompanhasse à espectacular festa de Buckingham, sabia que o marido via naquele evento fora de casa a oportunidade de vencer os remorsos da sua dama, mas não podia ser ela a pedir-lhe que não fosse ou a semear a dúvida de que talvez a sua adorada Frances tivesse outros planos, preferisse outro homem. Não podia enterrar-se ainda mais neste complot que, surpreendentemente, a enchia de energia e boa disposição. De facto, agir era bem melhor do que suportar quieta as humilhações que lhe infligiam, concluiu.
Nan estava encarregada de manipular Barbara Palmer, de a tornar a má da historia. Era tão fácil. Bastava dizer alto no dormitório que soubera de um encontro entre Frances e um namorado, marcado para quando o rei estava fora do palácio. O resto, estava certa, aconteceria por si. Uma das amiguinhas da Castlemaine apressara-se a levar-lhe o recado, sem consciência do que fazia. No actual estado de perpétua ira em que Palmer se encontrava, nem por um minuto julgaria estar a ser armadilhada, porque, como lhe dissera Catarina, «quando somos maus, julgamos que os outros são iguais a nós, e como ela trai o rei a todo o momento, está certa de que Frances também o fará!», Nan riu-se a bom rir. Se ao menos o seu querido Francisco ali estivesse e lhe pudesse contar como a sua infanta se revelava uma verdadeira artista nas intrigas da corte. Mas nem sequer se podia atrever a pôr por escrito segredos tão delicados. Mas quando lhe contasse o epílogo da história, que esperava que fosse público, arranjaria forma de o marquês de Sande entender tudo o resto.
Três dias depois, Nan sentava-se na secretária da salinha das damas e, mordendo a língua, começava uma carta deliciosa.
«Meu amor», dizia, «perdeste o episódio mais divertido dos últimos anos: Frances no more!». Depois contava-lhe em pormenor como o rei voltara de uma festa, avisado por Palmer de que a sua adorada Vénus inventara uma desculpa para não ir com ele a casa de Buckingham, e encontrara a rapariga languidamente deitada num canapé, de mão dada com o duque de Richmond, que lhe pedia a mão em casamento.
«Mas a francesa, a inal, tinha alguma ibra», acrescentava, porque quando o rei fez uma cena imensa, mandando sair dali o pobre e assustado Richmond, «que não me parece grande igura», acrescentava, Frances
icara furiosa. Protestara contra o próprio rei, lembrando-lhe que não era
propriedade sua. Quando Sua Majestade a acusou de ser uma virtuosa
ingida, porque aceitava a visita aos seus aposentos de outro homem
enquanto negava ao rei esse privilégio, Stuart - contava Nan - levantara-lhe a voz, dizendo-lhe: «A grande diferença, Sua Alteza, é que lord Richmond é um homem solteiro, que me veio fazer uma proposta séria.» Charles, ao que constava, icara perfeitamente atordoado e saíra pela porta, em fúria. Felizmente, dois dias depois, e não se sabe com a ajuda de quem, Frances Stuart fugia de Whitehall e casava em segredo com Richmond que, Nan confessava tristemente ao marquês, «ela não ama, nem muito, nem pouco, nem nada».
Quanto ao rei, quando soubera do elopment icara tão triste, apático e deprimido, que até a boa da rainha tivera pena dele. Felizmente, a sua fúria virara-se apenas contra Barbara Palmer, que, estava certo, urdira este arranjinho, convencida de que sem Frances Charles voltaria a frequentá-la com mais assiduidade, devolvendo-lhe a sua importância na corte, ou não fosse mãe dos seus ilhos e a única que conseguira manter o seu desejo aceso tantos anos a io. Só podia ser essa a história, ou não tivesse sido ela a avisá-lo da hora do encontro de Richmond e a provocar aquela zanga com Frances. Zangado e sentindo-se o alvo da troça silenciosa dos seus súbditos, decidira expulsar Palmer da corte. Silenciosamente, Catarina rejubilava, tinha a certeza disso, embora nem a rainha acreditasse que o exílio durasse muito, contava Nan.
« Como vês, Francisco, não pode haver nada su icientemente interessante em Portugal para te prender aí. Deixa Lisboa e vem para junto de mim, Ann Fanshawe, a mulher que mais te adora neste Mundo!», terminava.
Sande adorara a carta. Já conhecia su icientemente bem Nan para perceber, nas entrelinhas, que ela tomara parte neste complot, e, embora lhe custasse acreditar, sabia que só o teria feito se tivesse recebido ordens explícitas de D. Catarina. Decididamente, a rainha estava a aprender umas coisas, e isso deixava-o extremamente satisfeito.